Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.
Chapter Thirty-Five – Being Judged
(O Julgamento)
O rodopiar parou. Tinham chegado ao destino. Lentamente, ela abriu os olhos.
O Professor Dumbledore tocou-lhe o ombro suavemente.
"A senhorita está bem?" perguntou ele em voz baixa.
Ela assentiu e olhou à volta. Estavam de fato na cozinha d'A Toca. O diretor saiu da lareira e ela o seguiu, com as pernas trêmulas. Era como se jamais tivesse ido embora. Os tachos e panelas eram os mesmos de sempre. Os pratos se lavavam ao canto e o relógio familiar trabalhava ao fundo. A paisagem através da janela mostrou-lhe a vista conhecida. Seus batimentos cardíacos diminuíram e ela pareceu se acalmar. Estava em casa. Estava real e finalmente em casa.
E então a porta abriu e lá estava sua mãe. Sua respiração engatou, o coração disparando mais uma vez. Talvez tivesse chegado À Toca, mas provavelmente só estaria realmente em casa quando todos soubessem disso também.
"Molly," disse o diretor. "É bom vê-la."
"Albus," disse sua mãe calmamente, o rosto cheio de desconfiança.
Parte de seu cabelo ruivo tornara-se branco, e seu rosto tinha mais rugas do que nunca. Ginny não percebera isso no casamento, mas talvez ela tivesse escondido na ocasião e não fazia isso normalmente. Seus olhos que outrora brilhavam estavam opacos. O coração da garota apertou dolorosamente ao vê-la dessa maneira. Sua mãe olhou para ela, antes de se virar para o Professor Dumbledore novamente, franzindo o cenho.
"O que quer?"
Não havia nada da habitual simpatia e da necessidade de agradar a todos os convidados que chegavam à sua casa. Agora, só havia cansaço e uma persistente desconfiança sombria.
"Nós já te dissemos antes que não estamos mais interessados na sua," ela quase cuspiu a palavra, "Ordem."
"Não foi isso que me trouxe aqui hoje," respondeu ele calmamente, sem deixar o mau humor influenciar sua alegria.
Sua mãe não pareceu gostar desse bom humor, mas também não comentou.
"Estamos na sala de estar," disse ela de forma direta. "Nos diga o que quer. Quero que vá embora depois disso."
Ginny nunca a vira sendo grosseira antes. Será que isso mudaria quando a garota se revelasse? O medo começava a lhe atingir. Será que tudo poderia voltar ao modo que era quando ela partira?
O diretor caminhou até a sala de estar após a mãe dela. Ginny os seguiu. Seus olhou pousaram primeiro em seu pai, que estava sentado na poltrona habitual, mas havia envelhecido. Parte de seus cabelos tinha caído, e por trás dos óculos era possível ver seus olhos cansados. As mãos estavam entrelaçadas; o jornal que normalmente completava a imagem estava faltando. Arthur parecia não estar mais interessado em nada.
Bill estava sentado no sofá, Fleur e Percy ao seu lado. Estava sem o brinco e apertava a mão da esposa. Parecia quase doloroso, mas ele acenou com a cabeça para o Professor Dumbledore. A beleza de Fleur parecia estranhamente fora de lugar naquela casa. Sempre meio que pareceu, mas dessa vez era evidente a todos, e até parecia que ela estava se privando. Sua cabeça descansava no ombro do esposo.
O cabelo de Percy não estava penteado, e suas unhas não estavam cortadas meticulosamente como de costume. Tinham comprimentos diferentes e os óculos estavam ligeiramente tortos. Faltava-lhe a perfeição habitual e ele nem sequer olhava para o diretor. Em outros tempos, teria se levantado, oferecendo a cadeira.
Charlie estava na janela, olhando para fora. Tinha se virado bruscamente para encará-los, os olhos se demorando nela antes de tornar a se virar. Tinha mais cicatrizes nos braços e havia uma queimadura feia. Talvez tivesse deixado de ser cuidadoso com seus dragões.
Fred e George não estavam sentados juntos. Um deles estava ao lado de Charlie, encostado na parede, a varinha na mão, parecendo estranhamente deslocado. O sorriso estava ausente de seu rosto, e não havia nenhum item de brincadeira. Ginny esperou que estivesse segurando uma varinha falsa, que se transformaria em um pato a qualquer segundo. Ele a agarrou com mais força, mas nada mudou. O outro gêmeo estava sentado no chão, de frente para Ron, o tabuleiro de xadrez entre eles. Normalmente nunca jogavam contra Ron. Não gostavam de perder.
Apenas os olhos de Ron permaneceram sobre ela. Ele meneou levemente a cabeça. Seus olhos brilhavam e... seriam lágrimas? Ele começou a guardar as peças de xadrez, opondo-se aos altos protestos delas e às expressões assustadas dos gêmeos.
"Boa noite," disse o Professor Dumbledore suavemente.
Bill assentiu novamente, Fleur sorriu e Ron murmurou um cumprimento em resposta. O restante ficou em silêncio.
"Talvez devessem sentar. Tenho algumas notícias para vocês," começou o diretor. Ninguém se mexeu.
Sua mãe cruzou os braços.
"Todos nós estamos aqui, não podem ser notícias ruins." Ela parou. "Embora, se veio nos contar que o maldito escapou..."
O Professor Dumbledore a interrompeu:
"São boas notícias."
"Já ministraram o beijo nele?"
A respiração de Ginny engatou ao perceber que a mãe falava de Harry... mas, para ela, ele era apenas a pessoa que a matara. A garota engoliu em seco algumas vezes e mordeu o lábio, o medo tomando conta dela. A culpa foi lhe pesando os ombros.
O Professor Dumbledore sacudiu a cabeça.
"Não é sobre Harry."
Charlie sibilou.
"Não diga o nome desse filho da mãe aqui!"
Ginny abriu a boca, pronta para defendê-lo. Quando percebeu o que queria fazer, tornou a fechá-la. Aquela definitivamente não seria a melhor forma de informá-los de que estava viva.
"É sobre Ginny, na verdade."
Todos suspiraram.
"Não existem mais boas notícias sobre Ginny," disse Percy em voz baixa.
Todos, exceto Ron, concordaram. Lágrimas brotaram nos olhos da garota. Vê-los daquela forma...
O diretor continuou como se nada tivesse acontecido.
"Nem sempre as coisas são como parecem, e as coisas definitivamente não foram como pareceram naquele dia."
"O que aquele filho da mãe disse para se defender?" vociferou Charlie.
"Como eu disse anteriormente, não tem nada a ver com Harry, mas tudo a ver com Ginny. Eu trouxe uma visita hoje." Ele acenou na direção da jovem. "Alguém que precisava me contar uma grande história, algo que será uma fonte de grande alegria para cada um de vocês." Charlie bufou. "Desculpem-me por minha franqueza, mas não há outra forma de dizer isso: Ginny está viva."
Por um segundo, o tempo congelou, antes de…
"Isso não é possível," disse o pai dela resolutamente. "Estávamos lá. Vimos o que aconteceu."
"Ah, mas, Arthur, como eu disse antes, nem tudo é o que parece..."
"Nós a vimos. Eles a identificaram. Nós a enterramos. Quem disse isso é um mentiroso!" vociferou seu pai.
O Professor Dumbledore suspirou. Ele olhou para ela e assentiu.
"Será que realmente chamaria sua própria filha de mentirosa, Arthur?"
"Eu… o quê?" Seu pai abriu e fechou a boca, antes de sacudir a cabeça.
As mãos de Ginny tremiam ao abaixar o capuz. Eles a encararam. Ela encarou de volta, olhando lentamente para cada um deles.
"Não," disse seu pai, sacudindo a cabeça. "Essa não é Ginny. Não sei que tipo de brincadeira é essa m-mas..." Ele tornou a sacudir a cabeça.
"Pai," suplicou Ginny suavemente.
Seu pai tornou a sacudir a cabeça.
"Não." Ele ajeitou os óculos. "Você nem sequer conseguiu arranjar direito a cor do cabelo," afirmou calmamente, como se não fosse sua filha supostamente morta ali à sua frente.
"Está tingido, nada mais," explicou Ginny.
Seu pai ainda sacudia a cabeça. Os olhos dela se encheram de lágrimas.
"Por favor," sussurrou e olhou para a mãe. "Mãe." Sua voz vacilou.
"Eu não sou sua mãe." Molly a encarou por um instante, antes de se virar para Dumbledore. "Vá embora! Não quero ouvir seus contos de fada!"
Ginny tremia.
"Mãe," gritou. "Pai." Ela respirou fundo. "Sou eu de verdade. Por favor, têm que acreditar em mim."
"Ela está falando a verdade. Eu fiz alguns testes. É ela, é a filha de vocês. Ela é Ginny Weasley," afirmou o Professor Dumbledore calmamente. Ele acenou de forma encorajadora para a jovem.
"Não sei o que está tentando ganhar como isso, mas… não é possível" disse Percy. "E, como disse minha mãe: vá embora. Deixe-nos em paz. Não queremos nenhuma de suas novas mentiras. Se está realmente assim desesperado para que voltemos à sua Ordem…"
"Você não é o homem que pensamos que fosse," completou um dos gêmeos de forma muito solene.
"Por mais que me doa ver que estão pensando tão pouco de mim, isso não tem nada a ver comigo. Tem a ver com sua filha, que está viva, que está sofrendo porque não acreditam que ela diz a verdade. Posso lhes mostrar meus testes..."
"Podem tirar meu sangue! Tudo para provar que estou dizendo a verdade!" disse Ginny, sua voz ficando histérica.
Bill se levantou.
"Há formas de fraudar isso. E o que acha que aconteceu no dia que Ginny morreu? Eles fizeram testes, certificaram-se de que era ela, e falsificar isso... impossível!"
"Então, façam um desses testes comigo, um que seja impossível fraudar!"
Bill sacudiu a cabeça, o desgosto em seu rosto. Ginny olhou de um para o outro, mas não estavam confiando nela, nenhum deles acreditava, exceto Ron. Ele olhou para ela, parecendo completamente impotente e perdido. Mas ela não queria dedurá-lo, não queria contar a eles o quanto seu irmão estava envolvido. Jamais precisaram saber daquilo, não é?
E então ela teve uma súbita ideia.
"Mas... talvez aqueles testes possam ser falsificados, mas há algo mais, algo para provar que sou realmente eu, sua filha, irmã de vocês."
Todos a encararam, e o Professor Dumbledore tornou a acenar para ela, mostrando-lhe que pelo menos estava em pé atrás dela.
"Posso lhes contar tudo sobre mim. Coisas que ninguém além de mim saberia."
O diretor assentiu, sorrindo.
"Ou poderia mostrar a eles suas memórias. Elas não podem ser falsificadas, não sem que se note..."
"Talvez não possam ser falsificadas por ninguém, mas você com certeza seria capaz de fazê-lo," afirmou sua mãe.
"Ah, Molly, estou bastante tocado que pense tão bem de mim, mas eu jamais seria capaz de..."
Ginny o interrompeu, sem se importar com quão rude seria. Aquilo era mais importante.
"Eu nasci em 11 de agosto... aqui na sala de estar. Você disse que meu nascimento foi tão rápido, que não deu tempo de ir a outro lugar. Foi num dia estranhamente frio. E... Papai me segurou primeiro, e em seguida Bill, e… ele disse que eu era feia e até hoje vocês ainda zombam dele por ter dito isso. Vocês me chamam de Ginny, mas tentaram Gin-Gin por um tempo. Eu gostei no início, mas passei a odiar depois, e deixei isso bem claro para todos. Eu odiava brincar com bonecas, mesmo vocês tendo comprado algumas especialmente para mim... Mas Ron mostrou algum interesse nelas. Eu gostava de subir em árvores, e a primeira vez que mamãe me viu, ela quase teve um ataque cardíaco. Depois disso, não pude mais ir sozinha para o jardim. Então, tive que ajudar bastante na cozinha. Eu só gostava de te ajudar a cozinhar, mas você queria que eu te ajudasse a limpar. Eu... Eu notei que se meus irmãos fizessem alguma coisa, teriam que ajudar no meu lugar, então comecei a jogar a culpa neles. Eu... Bill, você se lembra daquele vaso? Eu o quebrei e disse a todo mundo que foi você. Mamãe acreditou e… eu não precisei ajudar por duas semanas. Você ficou furioso, mas ninguém acreditava em você. Charlie, você foi o primeiro a quem eu mostrei minhas habilidades de voo. Você ficou tão orgulhoso de mim, mas prometeu que não contaria a ninguém. Que poderia ficar em segredo pelo tempo que eu quisesse. Mas você queria estar lá quando eles finalmente me vissem voando... e, eu me lembro da cara de vocês a primeira vez que eu segurei uma goles e ganhei de todos e... eu fiquei tão zangada por jamais terem me permitido jogar quadribol antes daquele dia. Foi você, mamãe, que me fez ver o sentido por trás da atitude deles. Eles queriam me proteger. Mas sabiam que se deixassem isso muito óbvio, eu ficaria furiosa e eles temiam isso." Ginny sorriu. "Totalmente sem lógica, certo? Eles queriam que eu fosse parte da família Weasley, e tentavam fazer parecer que me tratavam como um dos garotos, mas me protegiam. E, ao mesmo tempo, morriam de medo de mim. Eu... eu notei, sabiam? Que vocês não me batiam com tanta força, que iam mais devagar quando corriam contra mim. Então, eu tentava ser ainda melhor... Eu..." Lágrimas enchiam os olhos dela. "Mas vocês todos foram uns idiotas no meu primeiro dia em Hogwarts. Mãe, você se lembra da minha primeira carta? Eu te contei que tinha sido selecionada para a Grifinória, mas que eles eram os maiores idiotas, e que Ron era o pior de todos. Percy, você se lembra das noites que eu não conseguia dormir, certo? Quando eu tinha pesadelos e mamãe e papai não estavam lá... eu sempre te procurava. Você conseguia me acalmar, e eu confiava muito mais em você do que nos outros para não tirar sarro de mim. E, pai, você se lembra do nosso segredo, certo? Que às vezes você trazia doces para casa só para mim? E que me pegava no colo e lia histórias na cama para mim... mas a gente nunca contou a ninguém, porque eu te implorei. Fred... George..."
Mas não conseguiu continuar. Todos eles choravam, e sua mãe se lançou para frente e a abraçou. Foi o abraço mais apertado que já compartilharam. Seu pai veio e abraçou as duas. Seus irmãos também se juntaram a eles. Não era como o normal, onde eles esperavam e se abraçavam um após o outro. Agora, eram uma espécie de grande multidão Weasley, todos se abraçando e chorando, tentando agarrar uma parte dela, para ter certeza de que estava realmente diante deles, de que era tão sólida quanto os demais. Ginny não conseguia respirar, mas não importava, porque esperara tanto, chorara tantas noites por achar que jamais sentiria isso de novo.
"Como… Ginny… como é possível? Eu… nós estávamos lá… quando… no Ministério..." choramingou sua mãe, lágrimas por todo seu rosto.
"Eu…"
Ginny soluçou, lembrando-se de Harry. Ele provavelmente estava sozinho agora, nas profundezas do Ministério ou em alguma prisão, como um prisioneiro, sem saber se sobreviveria aos próximos dias... Ela chorou mais, sua mãe intensificando o aperto. Não era justo ele não estar tendo uma reunião familiar. Ele merecia tanto isso.
"Albus…" disse o pai dela, sua voz pesada, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Eu não sei como poderemos te agradecer por isso algum dia."
O Professor Dumbledore repetiu suavemente:
"Não é a mim que têm que agradecer, Arthur."
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Eles ficaram acordados por muito tempo naquela noite, mas quando Ginny finalmente foi dormir, foi em seu próprio quarto. Era uma sensação estranha. Nada mudara. Era como se tivesse ido embora no dia anterior. Tudo ainda estava no lugar. Mas ela não dormiu bem. Estava cansada e perto de desmaiar, mas sonhou com Harry. E não foi um sonho feliz. Acordou chorando, o choque da escuridão e frieza de um dementador pairando em sua mente. Não podia voltar a dormir depois disso, então se levantou, embora ainda fosse muito cedo.
Desceu as escadas até a cozinha. Sua mãe já estava acordada, fazendo café e chá. Ela parou ao avistá-la. Correu até a garota e a abraçou novamente.
"Ah, graças a Merlin, não foi um sonho." Molly guiou a filha para uma das cadeiras. "Quer café? Vou fazer o melhor café da manhã em alguns instantes. Você parece faminta. Precisa comer alguma coisa. Você comia bastante? Parece tão magra!" Sua mãe empurrou uma caixa que estava sobre a mesa para abrir espaço para ela.
"Sim, café seria ótimo, mãe."
A mãe enxugou algumas lágrimas do rosto e pegou a caixa.
"São... são algumas das coisas que lembravam de você." Ela tirou a xícara favorita da filha. "Eu... eu não conseguia mais olhar para elas após um tempo, mas... eu guardei tudo... e comecei a desembalar novamente." Ela pousou a xícara e tornou a abraçá-la. "Ah, Ginny."
A garota tentou sorrir, tentou acalmá-la e esfregou suas costas.
"Está tudo bem, mãe. Eu estou aqui, estou em casa."
A mãe sorriu e assentiu.
"Sim, sim, você está em casa. Eu ainda... não consegui entender, mas, ah... Graças a Merlin, Ginny..." Ela limpou algumas lágrimas e pegou a xícara, enchendo-a de café. "Eu já coloquei seu ponteiro de volta no relógio."
Molly não precisava explicar a que se referia. A garota olhou para o relógio. Seu ponteiro em forma de mão apontava para casa, assim como os outros. Sua mãe tirou outra xícara e encheu-a de chá, sentando-se de frente à filha, olhando para o relógio também.
"Seu ponteiro apontava para perdida depois... depois... eu não conseguia olhar para ele, então o retirei, mas..."
Ela sorriu e tomou um gole de chá. Ginny bebericou o café.
Houve passos na escada e seu pai apareceu.
"Ginny," disse ele e caminhou até ela, puxando-a para um abraço apertado.
Antes de soltá-la, beijou suavemente sua testa. Arthur cantarolou baixinho ao pegar uma xícara de chá. Ele se sentou ao lado de sua mãe e os dois fixaram os olhos nela, absorvendo a visão. A jovem teve que conter as lágrimas ao vê-los tão felizes novamente. Brincou com a xícara, passando as mãos sobre as pequenas marcas que mostravam ter sido quebrada uma vez e que um pedacinho estava faltando desde então.
"Eu não quis perguntar isso ontem," começou seu pai lentamente, procurando as palavras certas, "mas você sabe como... o que houve naquele... naquele dia? O que aconteceu de verdade? Como pode estar aqui? E onde esteve? O que aconteceu com você, Ginny? O que ele fez com você?" Sua voz estava cheia de preocupação e medo, e seus olhos pareciam perturbados.
A jovem mordeu o lábio, tentando encontrar as palavras certas. Por onde devia começar? O que devia contá-los? Tomou um gole de café antes de pousar a xícara. Brincou com as mãos, respirando fundo.
"Se não puder nos contar agora, Ginny, está tudo bem," disse o pai, estendendo as mãos por cima da mesa e segurando as dela.
Sua mãe tentou reprimir um soluço, mas falhou.
"O que ele fez, Ginny? Por favor, você tem que nos contar. Entraremos em contato com alguém no Ministério, eles podem te ouvir e... ele será punido, Ginny, não precisa mais ter medo. Pode haver um julgamento, mas... ele vai receber o beijo. Não precisa ter medo. Tudo vai ficar bem."
A garota começou a chorar e a cada palavra chorava mais. Ela sacudiu a cabeça.
"Não, eles não podem fazer isso! Eles... eu... vocês não entendem. Não é... não podem... não diga isso, mãe!" Ela apertou a mão sobre a boca e balançou a cabeça. "Não fale de Harry dessa forma!"
Os dois ofegaram.
"Ginny, não sei se você entende…" começou o pai e a mãe a encarava horrorizada.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, o fogo chamejou e ficou verde. Eles se viraram na direção da lareira. Arthur sacou a varinha, mas foi o Professor Dumbledore que saiu dela, seguido por Madame Pomfrey. Seu pai guardou a varinha.
"Bom dia, Albus, Poppy," cumprimentou sua mãe. "Posso oferecer-lhes uma xícara de chá?"
"Bom dia." O diretor sorriu. "Parece muito convidativo, mas devo recusar sua oferta, Molly. Estamos aqui por conta de Ginny, na verdade. Eu esperava que já estivesse acordada."
"Alguma notícia, senhor?" perguntou a garota, o coração acelerando.
O Professor Dumbledore assentiu.
"O julgamento será hoje."
A respiração da jovem engatou.
"Existe alguma chance de eu vê-lo?"
"É por isso que estou aqui. Vou levá-la agora."
"Do que está falando, Albus?" indagou sua mãe.
"Ginny me pediu para levá-la até Harry. Ela quer vê-lo. Certamente já explicou a vocês," disse o diretor.
A garota corou e desviou o olhar.
"Eu tentei, mas... eu..." Ela fez uma pausa. "Eu vou me vestir." Ela se levantou.
"Você não vai fazer isso. Você não vai," disse seu pai, parecendo absoluto.
"Quê?" perguntou Ginny. "Eu… é claro que eu vou, pai."
"Não, você acabou de voltar para casa," concordou sua mãe.
"E nós..." Seus pais trocaram um rápido olhar. "Nós não queremos que você o veja novamente."
Ginny os encarou e sacudiu a cabeça.
"Vocês não entendem." Ela se virou para Dumbledore. "Estou indo."
A jovem subiu correndo, jogando-se nas primeiras roupas que conseguiu pegar. Quando tornou a descer, eles ainda discutiam.
"Você não vai, Ginny," disse sua mãe assim que a avistou.
"Eu vou, e vocês não podem me impedir." Ela deu um passo em direção à lareira, ficando ao lado do diretor.
"Não, disse seu pai. "Nós te proibimos de ir."
"Molly, Arthur," começou o Professor Dumbledore "se ela não teve tempo de explicar o que aconteceu, vocês deviam apenas confiar em mim. Ela pode vê-lo, não é..."
Sua mãe o interrompeu.
"Não, nós somos os pais dela, nós tomamos as decisões e dizemos não."
Ginny cruzou os braços.
"Mas eu vou."
O Professor Dumbledore suspirou.
"Talvez você mudasse de ideia, Arthur, se viesse também?"
Seu pai hesitou, Ginny balançou a cabeça.
"Eu quero vê-lo sozinha."
O diretor olhou para ela.
"Seus pais só querem o melhor para você, e é claro que têm a palavra final nisso, Ginny. Acabaram de reencontrá-la. Não te querem fora de vista. Arthur, por favor, venha conosco. Não temos muito tempo." O Professor deu uma olhada em seu relógio. "E realmente devemos ir."
Seu pai olhou dela para o Professor Dumbledore e em seguida para sua mãe, e finalmente assentiu.
"Eu vou com vocês."
Ginny franziu o cenho, mas ficou em silêncio. Se essa era sua única chance, aproveitaria. Mas precisava ver Harry.
"Muito bem, agora que resolvemos isso, há outra coisa que precisamos fazer. Vocês se importariam se eu transfigurasse as roupas de vocês, Ginny, Arthur?"
A garota sacudiu a cabeça de imediato, enquanto seu pai franziu o cenho.
"Por que, Albus? O que planejou?"
Dumbledore sacou a varinha a apontou para ela. Enquanto a jovem sentia as roupas mudando, ele explicou:
"Ele não tem permissão para receber visitas no momento, mas vou defendê-lo no julgamento. Como seu defensor, tenho permissão para vê-lo. E, Arthur, você será meu assistente... Estou levando Poppy para examiná-lo e Ginny... você é uma enfermeira em treinamento. Poppy pode precisar de assistência e ela só confia em você para isso. Alastor vai nos encontrar no Átrio, de lá iremos para as celas dos prisioneiros, onde Harry aguarda julgamento."
Ginny endireitou as vestes e assentiu, entendendo.
"Você vai defendê-lo?" perguntou sua mãe, chocada.
Albus assentiu, mas não disse mais nada sobre isso. Ele se virou para Arthur e transfigurou suas vestes também. O ruivo agora usava um simples casaco azul escuro, um grande chapéu cobrindo seus cabelos e a maior parte de seu rosto.
"Perfeito," disse o diretor, batendo palmas. "Devemos ir, então."
Caminharam até a lareira e, um após o outro, jogaram o Pó de Flu, informando o destino. Ginny foi por último. Sua mãe segurava o avental, olhando solenemente para ela. A jovem tentou dar-lhe um sorriso tranquilizador, mas não pareceu ajudar.
A garota desapareceu no redemoinho de chamas e viu lareiras passarem por ela. O rodopiar parou e ela estava no meio de Átrio. Saiu da lareira depressa, caminhando até os outros. Madame Pomfrey lhe entregou uma pequena sacola.
"Poções," murmurou em explicação. Ginny pegou a sacola e assentiu.
Moody veio caminhando na direção deles, sua perna de madeira batendo alto no chão.
"Que bom aqui estar finalmente tão vazio," disse ele como saudação, olhando à volta do Átrio realmente vazio. Apenas algumas pessoas estavam ao redor, a maioria aurores. "Aurores limparam o local há poucos instantes. Estava um inferno aqui. Todos tentavam dar uma olhada nele. Uma conferência da imprensa está em algum lugar aqui no momento... então, é melhor irmos antes que a multidão volte!"
Dumbledore assentiu, e todos seguiram Moody pelo Átrio.
"Mudança de local," murmurou o auror para o diretor. "Tive que tirá-lo da cela."
Dumbledore olhou preocupado para ele.
"O que houve?"
"Quem é a melhor pergunta," murmurou Moody. "Os malditos não manteriam as mãos longe dele."
Madame Pomfrey engasgou.
"Quão machucado ele está?"
"Aqui não." Moody sacudiu a cabeça, seu olho mágico revirando. "Ele está no meu alojamento."
O auror os guiou até os elevadores. Fazia careta para todos que encontravam, enquanto respondia perguntas sobre quem eles eram e o que estavam fazendo... não que muitos ousassem perguntar. Entraram em um elevador, ele apertou alguns botões e bateu a varinha na parede. Quando parou, Moody saiu e eles o seguiram.
Ele os levou mais para baixo ainda no Ministério, para longe dos olhares indiscretos e para perto de onde Harry estava. O coração de Ginny batia alto no peito, mas ela tentou parecer o mais neutra possível. Não queria denunciá-los.
Finalmente pararam de frente a uma porta, onde dois aurores faziam a guarda. Moody disse algo em voz baixa, que fez os outros abrirem a porta. O grupo entrou, deixando os aurores para trás.
Ginny foi a última a entrar. Assim que a porta fechou, Moody tinha a varinha em punho, fazendo movimentos complexos com ela, mas a garota não prestou muita atenção. Em vez disso, focou-se apenas na pessoa que suplicara para ver. Seu coração saltou quando viu o familiar amontoado de cabelos negros rebeldes.
Ele estava meio sentado e meio deitado na cama do quarto. Parecia terrível. A raiva cresceu dentro dela, mas a garota a engoliu. Seus olhos encontraram os dela, e um sorriso lento e cansado espalhou-se por seu rosto. Ele se levantou. Seu pai agarrou seu braço, tentando segurá-la, mas ela se soltou e em alguns segundos atravessara o espaço entre eles, ficando bem na sua frente.
Só então percebeu que ele usava algemas que emanavam uma luz estranha. Ergueu os olhos para ele, hesitante. Poderia tocá-lo sem machucá-lo? Será que sequer deveria tocá-lo? Será que ele queria tocá-la na frente das pessoas? Deveria ficar onde estava?
Parecia que seu nervosismo tinha ficado evidente, pois Harry levantou os braços, tornado possível ela se chegar mais perto. Ela se abaixou um pouco e fechou o espaço entre eles, ficando bem à sua frente. Ele olhou para ela e ela sentiu-o baixar um pouco os braços. O abraço era um pouco sem jeito, mas ela não se importava. Seus braços encontraram caminho em torno dele, puxando-o para perto. Ele repousou o queixo no topo de sua cabeça, enquanto ela inalava sua essência e descansava a cabeça em seu peito, escutando seus batimentos por um instante. Ginny não soube por quanto tempo ficaram daquela forma, mas foi a tosse de alguém que a trouxe de volta à realidade. Ela enterrou o rosto ainda mais nas vestes dele, mas sentiu o rapaz erguer a cabeça.
"Ginny, venh…. venha aqui, por favor," pediu seu pai. A jovem ficou onde estava. Mas Harry afrouxou o aperto.
"É melhor escutá-lo," sussurrou Harry um pouco acima de sua orelha.
Ela sacudiu a cabeça, apertando ainda mais os braços ao redor dele. Não queria soltá-lo. Ele se afastou. A garota queria dizer alguma coisa, mas ele agarrou seus ombros para se firmar. O rapaz fechou os olhos e agarrou a cabeça. Ele sibilou de dor. Ela segurou seu braço, e Madame Pomfrey chegou ao lado dele um segundo depois. Juntas, elas o ajudaram a se sentar contra seus altos protestos.
"Harry, qual o problema? O que houve?" perguntou Ginny, preocupada.
"Só estou tonto," murmurou ele.
Ginny segurou sua mão, enquanto a enfermeira puxava a varinha, murmurando feitiços em voz baixa.
"Deve dar alguma coisa a ele contra a dor, algo forte," interferiu Moody. "Eu e Tonks já conseguimos o pior." O coração da garota apertou dolorosamente. Ele estivera pior? "Mas a Cruciatus ainda perdura."
Ginny suspirou, assim como o Professor Dumbledore. Madame Pomfrey vasculhou suas coisas, finalmente entregando-lhe um frasco. Harry ergueu os olhos para o diretor, um pouco desconfiado, antes de engolir a poção.
"Quem foi?" perguntou Albus.
"Blake. Eu não sei quem mais estava lá, ele foi o único que encontrei na cela, mas havia outros fazendo a guarda... eles devem tê-lo ouvido."
Ginny intensificou o aperto na mão de Harry e tentou ignorar o rosto do pai. Harry era mais importante agora.
"Eu vou cuidar disso," disse o diretor.
Harry sacudiu a cabeça.
"Não, não vai, e você não vai me defender."
"Mas, Harry, meu caro rapaz, as provas que consegui reunir..."
"Eu não sou seu caro rapaz," retrucou o jovem.
Ele parou por um instante, olhando de Dumbledore para Ginny, em seguida para Moody, para o pai dela e para Madame Pomfrey, e de volta para Ginny, e então fez a conexão.
"Não."
Ele sacudiu a cabeça.
"Eu contei a eles." Ginny respirou profundamente, confirmando suas suspeitas. "Tudo."
Harry a encarou. Seus olhos escureceram e algo se moveu neles. Ele soltou as mãos dela, que tentou alcançar as dele novamente, mas o rapaz se afastou.
"Não," disse ele em uma voz fria. E então: "Você prometeu."
"Eu… Harry…"
"Não, saia! Saia de perto de mim! Você disse que não ia contar, e o que fez? Você contou! Como pôde?!" A voz dele era áspera e seu tom decisivo.
Ginny sentiu como se tivesse sido atingida no estômago. Lágrimas se formaram em seus olhos.
"Harry. Por favor, você tem que me escutar, você..."
"Não!"
Ele se afastou dela, Ginny tentou alcançá-lo, ele se levantou e virou-se para Dumbledore.
"Não! Não pode usar isso no tribunal, isso não pode ser divulgado."
"Meu caro rapaz," disse Dumbledore. "Essa é a verdade, e todos têm o direito de saber o que realmente aconteceu. Do contrário, você..."
"E o que importa? Voldemort," Madame Pomfrey e o pai dela se encolheram, "vai persegui-los!"
"Eles teriam lhe dado o beijo!" gritou Ginny.
"Eu preferia receber o beijo a eles serem assassinados!" Ele sacudiu a cabeça, aproximando-se de Dumbledore. "Você sabe do que ele é capaz. Ele vai matá-los da forma mais brutal que existe!"
"Não, Harry…" começou ela de novo.
"Ginny, cale a boca!" sibilou ele. "Você não entende. Isso vai além do seu entendimento."
Ela olhou boquiaberta para ele.
"Eu estou te salvando e tudo que tem para me dizer é que eu sou jovem demais para entender?"
"Ginny…" choramingou seu pai.
Harry virou-se para ela, partindo em sua direção. Seu pai estava lá em um segundo, colocando-se diante dela. O rapaz zombou. Ela tentou afastar o pai, mas ele não sairia do canto.
"Vamos embora," disse Arthur. "E você nunca mais tornará a ver minha filha."
"Bem, que bom!" retrucou Harry. "Eu não quero ver o rosto traiçoeiro dela nunca mais!"
Ginny sentiu vontade de chorar, gritar e bater nele.
"Você não quer dizer isso, Harry. Não quer dizer isso dessa forma."
Seu pai a puxou para longe, em direção à porta.
"Harry…" implorou ela, tentando se soltar do pai, mas, ao mesmo tempo, tentando não machucá-lo.
"Quero sim, Weasley. Eu quero dizer exatamente isso que eu disse."
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Ginny brincou com as mãos, erguendo os olhos para Frank Longbottom, que caminhava pela sala. Alice Longbottom estava sentada ao seu lado, assim como Damien e Madame Pomfrey. Dumbledore acabara de deixá-los. O julgamento começaria em poucos minutos no cômodo ao lado, e eles poderiam assistir através de uma projeção que o diretor conjurara no ar. Dessa forma, poderiam seguir o que acontecia e saberiam quando entrar no tribunal.
Após seu pai arrastá-la do quarto para longe de Harry – sob os olhares desconfiados dos aurores montando guarda ao lado de fora – Dumbledore os seguira, dizendo em voz baixa que iria visitá-los quando terminasse.
Eles tinham voltado para casa, onde sua mãe aguardava. Alguns de seus irmãos já tinham acordado, e Molly terminara de preparar o café. Após o café da manhã, seus pais a puxaram até o quarto, perguntando-lhe sobre Harry e o que significava tudo aquilo. Ela não disse muito, só que queria estar no julgamento, e que testemunharia no tribunal. Tentou explicar a eles que foi Harry quem a salvara. Eles não acreditaram, em vez disso, chegaram a dizer que ela não sabia a verdade e que ele mentiu para ela. Estavam preocupados com a filha, e até queriam levá-la a um Curandeiro, para ver se ela estava bem. A garota tentara discutir, mas eles não deram ouvidos. Não contara sobre o relacionamento com Harry. Não conseguia imaginar o que teria significado, e tinha outras coisas com que ocupar a mente. Tentara afastar a raiva e a mágoa que sentia. Harry provavelmente estava tentando proteger ela e os Longbottom. O jovem não queria colocar a vida deles em risco. Mas não podia ser às custas da dele. Ela não se arrependia do que tinha feito, mas esperava que ele acabasse entendendo. Porém, estava disposta a aceitar que ele estava zangado com ela, e que precisaria de tempo para perdoar, se ao menos sobrevivesse.
O Professor Dumbledore os visitara pouco depois, dizendo-lhes que Ginny tinha que estar no tribunal. Seus pais protestaram, mas ele insistiu, dizendo-lhes que não a forçaria a dizer nada que não quisesse, e que ajudaria a que a verdade viesse à tona. Levara um tempo para finalmente convencê-los, mas ele conseguira. Seus pais e irmãos também tinham vindo. Estavam sentados no tribunal com o restante do público.
Ginny respirou fundo e tentou se concentrar no presente. Tudo daria certo. Simplesmente tinha que dar.
O Sr. Potter entrou na sala, fechando a porta depressa ao passar e acenando para todos eles.
"Falei com Harry de novo," explicou brevemente. "Espero que ele coopere. Eu implorei, mas..." Ele parou de falar. "Obrigado novamente por estarem aqui, por arriscarem..." Ele se calou.
O Sr. Longbottom assentiu.
"É claro, James, é claro. Depois de tudo que Harry fez por nós, é o mínimo que podemos fazer."
A Sra. Longbottom assentiu, assim como Ginny.
O Sr. Potter lançou-lhes um sorriso de alívio.
"Eu preciso ir." Ele olhou rapidamente para a projeção. "Está prestes a começar."
O Sr. Longbottom apertou seu ombro com força.
"Vai dar tudo certo, James, você vai ver."
"Eu espero que sim." O Sr. Potter sorriu cansado. "Se ele concordar com tudo, há chance, mas se não..." Ele pareceu perturbado, mas balançou a cabeça. "Te vejo mais tarde." Ele assentiu novamente e deixou a sala.
"Ele vai concordar. Do contrário, receberá o beijo do dementador. Não vai correr o risco." A Sra. Longbottom tentou tranquilizá-los.
Ginny fechou as mãos em punhos. Ele não podia correr o risco. Ela não sabia o que faria se ele não cooperasse, se ele acabasse recebendo o beijo. A jovem soltou um suspirou trêmulo. Ele não faria isso. Dumbledore parecera convencido de que nada podia acontecer, que tudo daria certo, e ela acreditava nele.
Pela projeção podiam ver as portas do tribunal se abrindo e mais aurores entrando. Um silêncio se espalhou pela multidão enquanto Harry entrava. Ele foi levado à cadeira no meio do salão. Moody acenou a varinha e as correntes que o prendiam desapareceram. Ginny podia ver várias pessoas sentadas mais perto do rapaz recuarem. Ele foi colocado na cadeira. As correntes tomaram vida imediatamente e envolveram-se firmemente em torno dos seus braços e pernas. A jovem mordeu o lábio e fechou as mãos em punhos. Silenciosamente, observou o rapaz ser forçado a olhar para as pessoas sentadas à sua frente. A família dela estava lá. Olhavam com raiva para ele. Esperava que eles logo entendessem o que realmente aconteceu. Neville estava lá. Ele logo saberia que seus pais estavam vivos, e ela esperava que o ódio em seu rosto sumisse. Mas Harry se focou nas pessoas sentadas na primeira fileira. O recém-eleito ministro da magia, Rufus Scrimgeour, estava sentado ao lado de uma mulher grande e bastante intimidante e um bruxo de cabelos escuros cujo nome Ginny não sabia.
O tribunal ficou em silêncio quando o ministro limpou a garganta. A jovem imaginou que ele normalmente precisava pedir silêncio.
"Agora que o acusado está aqui, estamos prestes a começar."
Ele olhou impiedosamente para Harry antes de falar, e Ginny sentiu um ódio repentino por aquele homem, que um dia fora "meramente" o chefe do seu pai, crescer dentro dela. Estava claro o que ele pensava sobre Harry. Será que aquele homem era realmente capaz de supervisionar o julgamento?
"Harry James Potter, você foi trazido perante a Suprema Corte hoje por crimes que cometeu contra o Mundo Mágico. Estes crimes incluem o uso de Imperdoáveis. Você cometeu um total de vinte e um assassinatos e participou de inúmeros ataques, resultando em mais mortes e destruição. Você nega essas acusações?"
A voz do rapaz soou clara e forte quando respondeu:
"Não."
Ginny sentiu o coração despencar. Isso não fazia parte do plano, fazia?
"O julgamento terá início e no papel de inquiridores estou eu, Rufus Scrimgeour, ministro da Magia, Amelia Susan Bones, chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia e Julian Reid, Subsecretário Sênior do ministro. A defesa ficará a cargo de Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore."
O diretor apareceu ao lado de Harry e cumprimentou os inquiridores com um aceno, ignorando os sussurros e olhares do público.
Harry limpou a garganta quando Scrimgeour concluiu a introdução.
"O acusado deve falar quando feita uma pergunta," disse o ministro rispidamente.
"Eu tenho algo a dizer, de qualquer forma," retrucou o rapaz de volta, com a mesma rispidez. "Eu não o quero como defensor." Harry acenou na direção do Professor Dumbledore.
Sussurros eclodiram por todo o tribunal e Ginny sentiu o estômago afundar. Scrimgeour franziu o cenho, Madame Bones ergueu uma sobrancelha.
Dumbledore continuou sorrindo. Era como se soubesse que isso aconteceria. Ele deu um passo adiante, tirando um pedaço de pergaminho, que entregou a Madame Bones.
"O Sr. Potter é menor de idade, portanto um incapaz. Seus pais são seus tutores legais, e eles me deram autoridade para conduzir sua defesa."
Harry olhou em choque para ele, assim como várias pessoas da plateia. Era quase irônico o rapaz estar enfrentando julgamento por assassinato, mas não poder decidir quem iria defendê-lo.
Madame Bones assentiu.
"Isso," ela ergueu o pergaminho, "se chama autorização."
Ela passou o pergaminho para o ministro e para Reid. Ambos deram uma rápida olhada antes de assentirem também.
Scrimgeour continuou como se nada tivesse acontecido.
"Eu acho que a primeira coisa que deve ser explicada é, na verdade, esse julgamento. O acusado concordou verbalmente com as acusações que pesam sobre ele. Por que é que insiste em um julgamento, Dumbledore?"
O Professor deu alguns passos até onde Harry estava sentando.
"Eu acho que um julgamento justo é direito de todo bruxo e bruxa. Portanto, o Sr. Potter deve ter essa chance também."
O ministro ignorou as palavras do bruxo e continuou como se não tivesse perguntado nada.
"A primeira das acusações." Ele leu em um pergaminho à sua frente. "Harry James Potter, você foi acusado de vinte e um assassinatos. Como se declara acerca dessas acusações?"
Harry aguardou alguns segundos. 'Vamos,' implorou Ginny silenciosamente. 'Inocente,' desejou que ele dissesse. Mas ele não disse.
Em uma voz desprovida de emoção, ele disse:
"Culpado."
O estômago de Ginny despencou e ela sacudiu a cabeça. Isso não parecia nada bom.
"Certo, bom, agora que está resolvido, vamos para os ataques..." Scrimgeour foi interrompido quando Dumbledore avançou.
"Acho que não terminamos com a primeira acusação," disse ele em uma voz calma.
Scrimgeour olhou para as duas pessoas sentadas ao lado dele.
"Sim, terminamos, o acusado se declarou culpado dessas acusações. O que deseja acrescentar?" perguntou em uma voz controlada.
"Ministro, o senhor fez uma pergunta simples à qual o Sr. Potter deu uma resposta muito simples. No entanto, esse caso é mais complicado..."
O diretor foi interrompido quando o ministro perdeu a paciência.
"Complicado? Não há nada complicado nisso! Ele admitiu ter cometido aqueles assassinatos! O que está tentando sugerir, que ele não fez isso?"
"É claro que não. O Sr. Potter está, de fato, bastante correto em dizer-se culpado por esses crimes. Meu ponto é que esses assassinatos devem ser investigados com um pouco mais de atenção," respondeu Dumbledore com sua voz calma.
"A Suprema Corte não tem tempo para investigar cada assassinato que esse garoto cometeu! Nós temos que seguir em frente," replicou Scrimgeour. "Há mais julgamentos marcados para hoje."
"Minha constatação levaria apenas um ou dois minutos, se o senhor respondesse uma pergunta, ministro?" respondeu Dumbledore.
"Faça sua pergunta!" respondeu ele, completamente irritado.
Dumbledore inclinou a cabeça e olhou calmamente para o ministro.
"Dos vinte e um assassinatos, quantas vítimas eram Comensais da Morte?" perguntou com simplicidade.
Um silêncio abafado caiu sobre a sala.
"Que diferença isso faz?" perguntou o ministro, completamente irritado.
"Faz toda a diferença. Agora, ministro, quantas dessas vítimas eram seguidores fiéis de Voldemort?"
Os suspiros agudos foram ouvidos quando a maioria das pessoas engasgou com o nome.
"Eu não tenho os documentos necessários comigo," respondeu Scrimgeour ao olhar feio para Dumbledore.
"É claro, com o julgamento acontecendo tão rápido não é possível reunir todas as informações. Peço desculpas. No entanto, vai me perdoar se eu apresentar meu primeiro conjunto de provas." O bruxo ergueu a mão e um arquivo apareceu imediatamente nela. Abrindo-o, Dumbledore relatou os resultados. "De acordo com esse extrato retirado da ficha criminal oficial do Sr. Potter, das vinte e uma vítimas, dezesseis eram Comensais da Morte."
"E que diferença isso faz? Ainda eram seres humanos! Esse garoto não tinha direito algum de matá-los!" retrucou Scrimgeour.
"Perdoe-me, ministro, mas, de acordo com isso aqui, seu antecessor tinha dado ordens para que esses mesmos homens fossem mortos na captura."
Dumbledore ergueu outro documento, que imediatamente desapareceu e apareceu diante do ministro.
Amelia Bones estendeu a mão e pegou o pergaminho, examinando-o de perto.
"Mostra uma lista com os nomes dos dezesseis Comensais da Morte, e ao lado de seus nomes estão as datas que o ministro Fudge expediu a ordem para matá-los," disse ela severamente, passando o papel.
"Como podem ver, esses Comensais da Morte foram condenados à morte por esse mesmo Ministério. Eram homens ligados a crimes abomináveis. Eram muito temidos pela comunidade bruxa, daí as ordens do ministro Fudge para matá-los de cara. O ministro até concordara em dar recompensa a qualquer auror que derrubasse esses homens altamente perigosos. O que eu gostaria de salientar é que, por um lado esse mesmo Ministério estava contente em matar esses homens, e até ofereceu recompensa ao auror que conseguisse completar a tarefa. Por outro lado, estão dispostos a punir aquele que de fato os destruiu. Estava apenas me perguntando como podem justificar isso."
Foi Madame Bones quem respondeu.
"É trabalho de um auror capturar ou, em alguns casos, matar qualquer um que represente uma ameaça ao nosso mundo. O Sr. Potter não é um auror. Ele sequer é maior de idade ainda. Portanto, não pode ser tratado como um auror. Ele não matou esses homens porque eram uma ameaça ao mundo mágico. Ele os matou por interesses pessoais."
"Tem toda razão, Madame Bones. No entanto, o Sr. Potter pode não ter matado esses homens pelas mesmas razões, mas acho que é altamente injustificado que um homem seja recompensado por um ato pelo qual outro é punido. Esses homens não eram parte de nossa sociedade. Estavam colocando nossa população em risco. Se o Sr. Potter se livrou deles, por qualquer razão que seja, ainda fez um favor ao mundo mágico. Ele não devia ser punido por matar esses Comensais da Morte."
Madame Bones fez uma anotação em seu pergaminho, e após algumas palavras trocadas aos sussurros com Julian Reide e Scrimgeour, ela se dirigiu a Dumbledore.
"A segunda acusação contra o Sr. Potter é a participação em ataques que perturbaram a paz e colocaram vidas em risco. Sr. Potter, como se declara?"
"Inocente, exceto em duas acusações," respondeu ele com clareza.
"Por favor, explique-se, Sr. Potter," ordenou Madame Bones com simplicidade.
"Eu nunca participei de nenhum ataque. Os únicos dos quais fiz parte foi o do Expresso de Hogwarts e o do Beco Diagonal."
À menção do Expresso de Hogwarts, uma onda de gritos passou pela multidão. Ginny franziu o cenho. Ele estivera lá quando atearam fogo à casa dos Lovegood. Mas talvez eles não soubessem disso.
"Essas foram as únicas ocasiões nas quais esteve envolvido em um ataque?" perguntou Madame Bones.
"Sim," respondeu Harry.
Ela fez outra anotação e sussurrou algo para Reid. O Subsecretário escreveu algo em seu pergaminho também.
"Eu gostaria de apresentar minha primeira testemunha para explicar a situação no Expresso de Hogwarts," disse Dumbledore.
Madame Bones assentiu com a cabeça e Albus disse em uma voz clara.
"Minha primeira testemunha, entre, por favor."
Damien se levantou depressa e deixou a sala, aparecendo segundos depois na sala do tribunal. O menino lançou um olhar nervoso ao irmão antes de caminhar até a pequena plataforma que o diretor conjurara.
"Por favor, informe seu nome completo à Suprema Corte," disse Dumbledore gentilmente.
"Damien Jack Potter."
"O que pode nos dizer sobre o incidente no Expresso de Hogwarts no início do ano?" perguntou o bruxo.
Damien respirou fundo e lançou-se em sua história. Ele contou que Harry lhe enviara uma mensagem privada, recusou-se a dizer como, dizendo que ele e todos os outros alunos deviam permanecer no trem. Disse ao tribunal cheio de pessoas que Harry lhes assegurara que o ataque não era direcionado aos alunos. Desde que todos ficassem no trem, ninguém se machucaria.
"Isso é ridículo!" retrucou o ministro quando o menino terminou. "Esse... esse garoto é irmão do acusado! É óbvio que vai tentar salvá-lo! Não podemos confiar em sua palavra! Ele é menor de idade!"
"Tenho certeza de que o Sr. Damien Potter não se importa em compartilhar sua memória do incidente conosco," respondeu o Professor Dumbledore.
Scrimgeour ainda insistia que Damien era menor de idade e não podia provar que Harry queria proteger os alunos.
"Ele pode ser menor de idade, mas eu não sou!" Ecoou uma voz.
Sirius Black levantou-se e desceu em direção à plataforma na qual o menino estava. Ele ficou ao lado do afilhado e lançou um sorriso tranquilizador ao mais novo.
"Eu estava lá no Expresso de Hogwarts e fui ferido em combate. Ao me ver machucado, Damien correu loucamente para fora do trem para tentar me ajudar. Harry salvou a vida de Damien. Ele o tirou do caminho de uma maldição da morte. Eu me lembro claramente dele dizendo aos Comensais da Morte que os instruíra a apenas estuporar alguns alunos que pudessem entrar em seus caminhos. Ele acompanhou Damien de volta ao trem e até trancou a porta para que nenhum aluno pudesse sair."
Madame Bones mais uma vez fez anotações no pergaminho, enquanto Scrimgeour parecia à beira de explodir de raiva.
Julian Reid falou pela primeira vez na audiência.
"Embora seu testemunho seja bem-vindo, Sr. Black, temo que não podemos aceitá-lo. O senhor está intimamente ligado ao acusado, e de acordo com o Decreto número quatrocentos e dezessete, qualquer pessoa relacionada ou próxima ao acusado, como o senhor é, não pode dar testemunho devido à probabilidade de erros de interpretação dos acontecimentos."
O Sr. Black abriu a boca para protestar, mas foi silenciado por Dumbledore.
"Se é o caso, então terei que apresentar minha segunda prova. Eu esperava não usá-la, mas parece que não temos outra escolha." O bruxo tirou um frasco com uma névoa branca das vestes. "Por razões de segurança, a pessoa cuja memória estamos prestes a testemunhar não pode ser nomeada, já que a colocaria em perigo. Eu já testei a lembrança para detectar alguma falsificação. Aqui está o relatório que diz não ter sido adulterada."
Com isso, o bruxo enviou outro relatório à mesa dos inquisidores. Novamente, Madame Bones pegou o papel, olhou e em seguida deu um aceno a Dumbledore, para que ele pudesse continuar.
Dumbledore mergulhou a varinha na névoa branca e retirou-a. Mandou o frasco voando em direção à parede de pedra. Imediatamente, ele explodiu em uma nuvem de cores e, lentamente, a imagem clareou, mostrando o Expresso de Hogwarts parado e cercado por Comensais da Morte. Todos os homens estavam escondidos por trás das máscaras brancas, exceto um. Harry se virou e olhou para os Comensais da Morte, seus olhos cor de esmeralda brilhando perigosamente.
"Lembrem-se das minhas ordens: ninguém entra no trem. Se um aluno sair do trem, vocês meramente os estuporam, entendido? Se algum de vocês matar um aluno, eu mato vocês."
"Acredito que isso deve resolver este assunto. O Sr. Potter pode ter estado com os outros Comensais da Morte naquele dia, e ele duelou com aurores, mas também se certificou de que nenhum aluno se machucasse. Na verdade, manteve os outros Comensais longe das crianças. Sem o Sr. Potter lá, os Comensais da Morte certamente teriam atacado o trem e matando crianças indefesas presas lá dentro. Novamente, o Sr. Potter agiu por conta própria, por suas próprias razões, mas ajudou o mundo mágico mesmo assim," disse Dumbledore, explicando a evidência.
O Sr. Black e Damien deixaram a plataforma depois disso, sentando-se ao lado do Sr. Lupin.
"E quanto ao ataque ao Beco Diagonal, então?" perguntou o ministro.
"Eu tenho vários relatórios de aurores aqui descrevendo o que houve naquele dia. Se desejar, tenho certeza que podemos pedir a alguns desses homens para repetir o que eles já escreveram." Ele entregou outro arquivo a Madame Bones.
"Tenho certeza de que um sumário desses relatórios é o suficiente por enquanto," disse Madame Bones.
"De fato, o Sr. Potter estava no Beco Diagonal, mas ele só estava lá para criar o caos. Eu consegui coletar outra memória de outro homem que não pode ser nomeado, sendo testemunha de coisas que aconteceram antes."
Ele retirou outro frasco das vestes, possibilitando que assistissem mais uma vez. Harry apareceu, assim como vários Comensais da Morte e Lorde Voldemort. Um assobio passou pela multidão. Voldemort olhou para Harry, acenando para ele. "Eu quero que você crie o caos, nada mais, entendido?" O Harry da memória assentiu. "É claro, senhor." A memória parou e desapareceu.
"O Sr. Potter só duelou com Arthur Weasley naquele dia, e também não usou nenhuma Imperdoável. Além disso, eles só duelaram porque o Sr. Weasley o atacou e ele só estava se defendendo..."
"O auror Weasley o atacou porque ele tinha tentado matar sua única filha primeiro!" disse Scrimgeour com rispidez. "Eu estava lá, eu mesmo vi a coisa toda."
"Você sabe, então, que ele não teve êxito. A maldição da morte sequer bateu nela, em primeiro lugar, talvez não tivesse nem funcionado se tivesse batido, mas só o Sr. Potter pode responder isso."
O bruxo virou-se para Harry, como que pedindo que respondesse sua pergunta não formulada.
"É claro que ele vai responder que não funcionaria, Dumbledore. Mas que diferença isso faz? O Sr. Potter a matou poucas semanas depois…"
"Mas essa é uma acusação totalmente diferente, e certamente voltaremos a ela mais tarde," interrompeu o Professor Dumbledore.
Por um instante, eles se encararam, antes de Madame Bones, Scrimgeour e Reid escreverem alguma coisa.
Dumbledore continuou a dar evidências de que Harry na verdade tinha ajudado o mundo mágico algumas vezes. Ele trouxe Poppy Pomfrey como testemunha e deixou-a explicar como o rapaz salvara seus dois filhos do incêndio causado por Comensais da Morte. Após dar seu testemunho, ela saiu e foi se sentar nos bancos, perto de James e Lily. Em seguida, ele chamou Sturgis Podmore, que testemunhou que Harry foi quem trouxe seu filho Jamie de volta.
"Independentemente da bondade acidental que o acusado possa ter demonstrado, ele ainda usou inúmeras Imperdoáveis. Só isso leva à prisão perpétua em Azkaban. Isso não pode ser negligenciado!" disse Scrimgeour, arrumando os pedaços de pergaminho à sua frente.
"O uso de Imperdoáveis é um assunto difícil, mas, novamente, ministro, eu teria que argumentar que a regra devia ser para todos. Se seus aurores podem usar Imperdoáveis sem autorização e serem desculpados, então não consigo enxergar justificativa para outros serem punidos." Scrimgeour franziu o cenho. Isso não ia só contra ele como ministro da magia, mas contra ele como o Ex-Chefe da Seção de Aurores.
"Como ousa acusar meus aurores de uma coisa dessas? Eu nunca ouvir falar de uma ocasião na qual meus aurores executaram alguma maldição não autorizada!"
"Peço desculpas, ministro, mas se ministrar três gotas de Veritaserum a cada auror sentado aqui, ficará surpreso com quantos admitirão usar Imperdoáveis," respondeu Dumbledore.
O diretor varreu os olhos pelos aurores ao redor e parou propositalmente em um, que pareceu se contorcer sob o olhar severo do bruxo.
"E, em qualquer caso," continuou, "verá no arquivo pessoal do Sr. Potter que ele jamais usou qualquer Imperdoável em algum auror nos duelos que possam ter acontecido. As maldições da morte que usou, como já expliquei, foram para os Comensais da Morte que matou."
"Então, o que é que está tentando sugerir, Dumbledore?" indagou Madame Bones em sua voz alta. "Que o Sr. Potter na verdade não é um seguidor de Você-Sabe-Quem? Que, na verdade, é alguém que tentou ajudar os outros enquanto era conhecido como Príncipe das Trevas?" concluiu com um olhar interrogativo em seu rosto largo.
"Eu só estou tentando revelar a verdade sobre as ações do Sr. Potter. Podem interpretar como quiserem," respondeu o Professor, um brilho reaparecendo em seus olhos.
Ginny sentiu o estômago mais leve. Tudo já parecia um pouco melhor para Harry.
"Tudo bem, Dumbledore. Você fez um belo show. Tentou distorcer tudo que esse garoto fez para fazê-lo parecer bonzinho. Mas mesmo você não pode explicar os crimes restantes. Dezesseis vítimas eram Comensais da Morte, eu admitido que não podemos puni-lo por suas mortes, já que queríamos vê-los mortos, vou te dar isso. Mas explique as outras cinco vítimas. A tortura e os assassinatos terríveis de Frank e Alice Longbottom, os assassinatos de Kali e Raj Randhawa, e o sequestro e assassinato, nesse mesmo prédio, de Ginevra Weasley," disse Scrimgeour, deixando as palavras serem absorvidas. "Frank e Alice não eram Comensais da Morte, nem Kali e Raj Randhawa! Eram pessoas boas, que foram torturados e brutalmente assassinadas em suas próprias casas por esse garoto! Muito menos Ginevra Weasley, uma jovem que não tinha nada a ver com essa guerra e que foi morta nos corredores do Ministério da Magia, diante de um grupo inteiro de aurores e de sua própria família! Se nada mais, penso que esses assassinatos deveriam ser o bastante para sentenciá-lo ao beijo," concluiu o ministro.
Houve um tumulto quando muitos aurores aplaudiram suas palavras.
Dumbledore assentiu gravemente.
"Vamos começar com os assassinatos de Kali e Raj Randhawa. Sei que um Comensal da Morte conhecido estará enfrentando julgamento após o Sr. Potter, e que aurores conseguiram reunir provas muito convincentes de que, de fato, foi o tal Comensal quem matou o casal e não o Sr. Potter. De longe é um mistério para mim como dois homens podem enfrentar julgamento ao mesmo tempo, pelo mesmo crime, quando as provas apontam que apenas uma pessoa assassinou o casal."
Houve murmúrios na multidão. O diretor retirou outro arquivo, entregando-o.
"São cópias das citadas provas. "
Madame Bones assentiu, passando o arquivo.
O ministro teve a decência de parecer embaraçado.
"Vários jornais importantes informaram que ele foi visto na cena do crime," tentou defender-se.
"Um artigo de jornal não pode funcionar como prova de um assassinato," afirmou Dumbledore calmamente. Reid escreveu alguma coisa.
"Vamos continuar, então, com os assassinatos de Frank e Alice Longbottom," disse Scrimgeour depressa, tentando passar para assuntos mais seguros.
"Eu entendo a gravidade desta acusação, mas também gostaria de salientar que até hoje a morte dos Longbottom tem sido um mistério. Gostaria de questionar as duas únicas pessoas que podem fornecer as respostas," disse o Professor Dumbledore. "Mas talvez o Sr. Potter gostaria de dizer alguma coisa sobre aquele dia primeiro?"
Harry olhou feio para o bruxo e Ginny desejou que ficasse quieto. O rapaz sussurrou alguma coisa para o diretor, que não foi ouvida no tribunal. Dumbledore apenas sorriu e repetiu a pergunta. O jovem sacudiu a cabeça e desviou o olhar.
O Sr. Longbottom levantou-se e pegou a mão da esposa.
"Nos vemos daqui a pouco, Ginny," disse ele, sorrindo para ela.
A garota assentiu e eles saíram da sala, deixando-a sozinha. Ela respirou fundo. Seria a última testemunha.
Dumbledore virou as costas para Harry.
"Eu gostaria de apresentar minhas próximas duas testemunhas, então."
Harry deixou escapar um soluço estrangulado quando Frank e Alice Longbottom passaram pelas portas e entraram. O tribunal inteiro ficou em silêncio. Todos encaravam fixamente as duas pessoas que foram dadas como mortas ali diante deles, com expressões confusas.
"Não… não pode ser!" exclamou Scrimgeour de repente, seu rosto muito pálido.
Ginny focou-se em Neville. O rapaz ficou olhando em choque para os pais supostamente mortos em um silêncio atordoado. Seus olhos castanhos encararam o rosto da mãe por um instante, antes de dispararam para o pai. Eles olharam para ele e sorriram tristemente. A jovem não conseguia acreditar que o Professor Dumbledore não tinha contado a ele antes, como fizera com ela e sua família.
Harry também não parecia bem. Estava de cabeça baixa, encarando o chão. Só agora ele parecia realmente impotente. O coração de Ginny apertou com a visão. Ele ficou daquela forma o tempo inteiro, enquanto o Sr. e a Sra. Longbottom recebiam Veritaserum para confirmar suas identidades. O casal contou o que acontecera naquele dia e como Harry os salvara. Como o jovem não conseguira machucar a Sra. Longbottom por ela estar grávida. Eles continuaram e contaram sobre suas vidas como trouxas, como o estranho garoto "Alex" os ajudou a conseguir dinheiro nos clubes de luta e vinha frequentemente vê-los, tornando-se, em geral, amigo deles.
O Professor Dumbledore assumiu e explicou que até recentemente os Longbottom estavam sob poderosos feitiços de memória, que foi por isso que não podiam voltar ao mundo mágico, mas que os encontrara quando tinha descoberto sobre o que acontecera, e que conseguiu restaurar suas memórias. O Sr. e a Sra. Longbottom se sentaram e levou um tempo para todos se acalmarem antes que pudesses continuar.
"O que nos deixa com Ginevra Weasley," disse Dumbledore.
Harry tentou lutar contra as correntes e sacudiu a cabeça.
"Que não pode aparecer aqui, porque é impossível que sua morte tenha sido forjada também. Aconteceu nesse edifício, havia pessoas presentes, pessoas que a viram morrer. Vários aurores e os pais dela podem confirmar que foi o Sr. Potter que a matou," concluiu Scrimgeour.
O Professor Dumbledore sorriu.
"Minha última testemunha vai provar o contrário."
Ginny levantou-se depressa e deixou a sala. Antes de entrar no tribunal, respirou fundo algumas vezes para se acalmar e endireitou a capa. Finalmente abriu a porta e entrou. Caminhou rapidamente até a plataforma, tentando ignorar os sussurros à sua volta.
"Por favor, diga seu nome completo à Suprema Corte," começou Dumbledore gentilmente.
"Meu nome é Ginevra Molly Weasley," disse ela, sua voz ecoando pela sala.
Ela ergueu os olhos e viu Scrimgeour se inclinando para frente na cadeira. Madame Bones a encarava e Reid parecia absolutamente chocado, assim como muitos aurores. O público gritava perguntas e falava alto.
"Silêncio," gritou Madame Bones, sobrepondo-se à multidão.
"Impossível," disse Scrimgeour finalmente, balançando a cabeça.
"Senhorita Weasley, está disposta a tomar Veritaserum para provar quem realmente é?" perguntou Dumbledore.
Ginny assentiu e acrescentou em voz alta:
"É claro."
Foi Reid quem falou.
"É proibido usar Veritaserum em menores de idade."
"Com exceção de casos extremos," afirmou o Professor Dumbledore. "E acredito fortemente que esse é um deles. Os pais dela estão aqui. Como seus representantes legais, podem concordar com o uso." Ginny olhou para os pais.
"Mas eles só poderiam concordar com isso se essa realmente fosse Ginevra Molly Weasley," disse Reid.
O Professor Dumbledore assentiu.
"Mas há outras formas de provar que é ela, é claro. Com uma gota de sangue e alguns testes simples que podem ser feitos aqui. Estaria disposta a fazer algum deles, Senhorita Weasley?"
"Sim," disse ela.
Dumbledore olhou para Reid.
"Acredito não haver nada contra isso?"
Reid sacudiu a cabeça e um auror caminhou até ela, colhendo uma gota de seu sangue. Ele fez o teste. Ao ver o resultado positivo, o público tornou a irromper em gritos. Madame Bones deu uma olhada no teste e no resultado de novo, antes de pedir silêncio mais uma vez.
"Mas esses mesmos testes foram feitos com uma Senhorita Weasley morta antes!" disse Scrimgeour, ainda sem acreditar que era realmente Ginny diante deles.
"A Curandeira que fez aqueles testes está aqui hoje." Dumbledore acenou para uma mulher na multidão. "Tenho certeza que ela pode confirmar que houve realmente um erro. Ela não tirou uma amostra de sangue do corpo, como normalmente se faz, mas de um dos machucados. Aquele sangue realmente era da Srta. Weasley, mas tirado dela há horas."
A mulher ao fundo assentiu. O ministro tornou a sacudir a cabeça.
"Agora estão dispostos a considerar dar à Srta. Weasley Veritaserum para se certificarem de que ela está falando a verdade?"
Reid olhou de Madame Bones para Scrimgeour, antes de assentir.
"Se os pais dela concordam, não vemos como não se tratar de um caso excepcional."
O Professor Dumbledore virou-se para os pais dela e Ginny também, suplicando-lhes silenciosamente. Eles trocaram um longo olhar antes de finalmente assentirem. Um auror se aproximou dela, dando-lhe cuidadosamente a poção.
Sob seu efeito, a jovem lhes contou quem era e tudo sobre o dia em que "morrera." Contou-lhes que ficara escondida com Harry para proteger não apenas a si, mas a ele.
Finalmente eles lhe deram o antiserum. Houve um silêncio estranho depois que ela terminara de falar. No entanto, Dumbledore ainda não tinha concluído. Ginny permaneceu em pé na plataforma, enquanto o bruxo dizia à Suprema Corte chocada que Harry era a razão de Voldemort poder ser derrotado. A verdade sobre as Horcruxes destruídas chegara ao Ministério, mas ainda não tinha sido liberada para o público. O Ministério queria ter certeza absoluta antes de fazer tal declaração.
O diretor levantou o extenso arquivo que continha confirmações de que os seis objetos roubados tinham sido destruídos, já que não era possível detectar sua essência mágica. Dumbledore mostrou outra memória de Harry destruindo o Pingente de Slytherin. Ginny sequer olhou para a lembrança, mas ouviu a voz do garoto gritar "Diga a ele que acabou! Não sou mais um fantoche!" Em vez disso, os olhos dela estavam fixos apenas em Harry. Ouviu os suspiros agudos e os sobressaltos quando todos viram os olhos do rapaz ficarem negros na memória e o pingente explodir em pedaços.
Dumbledore ficou no meio da sala, varrendo o ambiente com seus olhos azuis.
"Eu expus cada prova que eu tinha para lhes mostrar a verdade sobre esse garoto que está diante de vocês. Sim, ele cometeu assassinato; sim, ele esteve com Voldemort nos últimos quinze anos. Mas, ao mesmo tempo, esse garoto salvou muitas vidas. Ele enfrentou pessoas que o criaram para ajudar inocentes. Arriscou a própria vida inúmeras vezes para ajudar inocentes. Algumas pessoas sentadas nessa sala não estariam aqui se não fosse por ele." Ele olhou incisivamente para o Sr. e a Sra. Longbottom, antes de olhar para Ginny, Damien e Madame Pomfrey. "Eu também tentei trazer à tona a batalha recente que esse garoto enfrentou. Ele destruiu muitas das Horcruxes que tornavam Voldemort invencível." O bruxo ficou em silêncio por um tempo, deixando que tudo fosse digerido, antes de continuar. "Se Voldemort for derrubado hoje, é simplesmente por conta do Sr. Potter. Essa guerra já não está longe de acabar, e a paz que o mundo mágico vai alcançar após a queda de Voldemort é tudo devido a esse jovem." Ele fez outra pausa. "Deixo a decisão com vocês," concluiu e foi até onde Ginny estava.
Nos primeiros minutos houve silêncio. As três pessoas sentadas na primeira fileira estavam em séria discussão. Ginny apertou as mãos dolorosamente. Queria correr até Harry, queria abraçá-lo, queria ficar com ele. Queria estar ao seu lado quando o julgassem. Mas não o fez. Ficou onde estava e o observou. Ele ergueu os olhos, cansado. Parecia pronto para aceitar qualquer punição.
Finalmente, os três oficiais encararam o rapaz. Scrimgeour tinha o rosto muito vermelho. Ele falou em voz alta.
"Todos aqueles a favor da pena de prisão perpétua em Azkaban para o acusado."
Scrimgeour ergueu a mão e olhou em volta do tribunal. Havia muitas mãos no ar. No entanto, Madame Bones e Julian Reid não estavam com as mãos erguidas. Eles ficaram em silêncio enquanto o ministro contava as mãos em favor de mandá-lo para Azkaban.
"Todos aqueles a favor de inocentar o Sr. Potter de todas as acusações," disse Madame Bones. Sua mão, junto com a de Reid, se ergueram no ar.
O coração de Ginny parecia ter parado ao assimilar as mãos levantadas. A família dele e os amigos obviamente tinham levantado as mãos, mas parecia que a maioria dos aurores também fizera o mesmo.
Scrimgeour não disse nada enquanto o número era somado. Madame Bones assumiu e levantou-se.
"Sr. Potter. O veredito é claro. O senhor foi inocentado de todas as acusações. Está livre," acrescentou com um pequeno sorriso.
Imediatamente, as correntes o prendendo deslizaram para longe com um estrondo. Mas Harry ficou onde estava. Ginny sentia vontade de chorar. Saiu da plataforma e queria caminhar até ele, que ainda estava na cadeira, sacudindo a cabeça. Era óbvio que ele não acreditava no que ouvira. O pai dele estava ao seu lado logo em seguida e o puxou para um abraço feroz. Sua mãe e Damien também estavam lá, e os Srs. Lupin e Black estavam logo atrás. A garota tentou fazer contato visual com ele, os olhos deles se encontraram, mas ele desviou o olhar, abraçando o irmão em vez disso.
Seu pai apareceu ao lado dela e segurou seu braço. Ela franziu o cenho e tentou se libertar. Precisava falar com Harry. Precisava fazê-lo ter bom senso. Só precisavam conversar sobre aquilo. Ele entenderia. Ele tinha que entender.
Mas o aperto do pai em seu braço era firme ao puxá-la para longe de Harry e do tribunal.
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N/T: Mil anos depois, rsrs X) Espero que ainda tenha leitor por aí! Beijos
Srta. Wheezy: Olá! Dessa vez me superei... rsrs Sorry!
Essa jornada fez Ginny amadurecer muito e finalmente ela pode se reunir com os que ama... Porém nem de perto tudo está resolvido, há muitos dramas a serem solucionados.
Beijos e obrigada por sempre comentar! ^^
Clenery: Oi! Demorei pra suprir tua ansiedade, né? Mas cá estou postando o 35 rsrs
Fico feliz que tenha lido as outras traduções, que também andam meio abandonadas, mas vou tentar traduzir um pouco essa semana que estou mais de folga dos estudos ^^
Obrigada por comentar! Beijos e boa leitura!
