Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.
Chapter Thirty-Nine – Honesty
(Honestidade)
Eles chegaram À Toca, a sala de estar familiar entrando em foco. Ginny e seu pai saíram da lareira; seus irmãos e Hermione estavam reunidos na sala. Sua mãe chegou logo depois, ainda balançando a cabeça e resmungando baixinho sobre Moody. Seus irmãos estavam confusos, mas seu pai relatou o que acontecera. Eles também ficaram irritados. A cabeça de Ginny ainda girava pelo que quase aconteceu lá. Ela sequer pensara nas consequências de contar a alguém sobre aquilo quando gritou com a mãe só para machucá-la.
Precisava tentar manter a calma, argumentar melhor. Perder a cabeça não a ajudaria. Ron estava certo sobre isso, assim como Harry. Lembrando-se de sua promessa a ele, ela caminhou até a mãe, perguntando se podia falar com ela e seu pai quando os outros se recolhessem. Sua mãe assentiu, mas parecia confusa. Ginny podia ver que ela ficou pensando sobre isso pelo resto da noite, observando-a. Provavelmente tentou adivinhar o que acontecera e o que ela queria falar com eles.
Não demorou muito para que seus irmãos saíssem da sala de estar e da cozinha, cada um indo para seu quarto, recolhendo-se para dormir. Hermione lançou-lhe um olhar interrogativo, mas Ginny fez sinal para ela seguir em frente. Elas dividiam um quarto, como de costume. Ginny não queria pensar em como isso bagunçaria seu próprio ritmo de leitura e noites acordadas.
A garota torceu nervosamente as mãos ao observar a mãe fazer chá. Seu pai estava sentado à mesa da cozinha, terminando de ler o jornal. Quando ele o largou, observou-a por cima dos óculos. Ginny mordeu o lábio e tentou sorrir para ele. A água ferveu e sua mãe encheu três xícaras, colocando-as diante deles.
"Você queria falar conosco, Ginny?" perguntou seu pai.
A garota assentiu, pegando uma xícara e aquecendo os dedos. "Primeiramente, eu queria me desculpar. Sinto muito pela maneira como tratei não apenas vocês dois, mas todos vocês. Eu... eu não devia ter reagido daquela maneira; eu perdi a paciência. Foi a maneira mais infantil de reagir. Sinto muito." Ela olhou para os pais, vendo-os trocar um olhar.
"Estou feliz que tenha percebido isso, Ginny," começou sua mãe, "mas como chegou a essa conclusão?"
A jovem engoliu em seco. Harry disse que ela deveria ser sincera... então, tinha que começar com isso imediatamente. "Eu... bem, eu falei com Harry sobre isso," admitiu ela por fim. Seus pais trocaram outro olhar. "Eu sei que não gostam dele," sussurrou ela, largando a xícara.
"Nós te proibimos de falar com ele," disse sua mãe. Ginny podia ver que ela lutava para manter a calma, mas o jeito que pegou a xícara a denunciou.
"Eu sei, me desculpe." Ginny baixou a cabeça e respirou fundo. "Mas vocês precisam tentar me entender: passei muito tempo com ele nos últimos meses..."
"Acredite, não vamos esquecer isso tão cedo," interrompeu sua mãe.
"Eu sei, eu só... mãe, eu estou acostumada a estar com ele, a conversar com ele, a passar tempo com ele, e sinto falta dele quando não estamos juntos." Seus pais ficaram calados. "Eu sei que é difícil para vocês porque mal o conhecem e ouviram um monte de coisas horríveis sobre ele." Seu pai abriu a boca, mas Ginny continuou depressa: "Eu sei que acham que sou apenas uma garotinha, que não consigo entender o que aconteceu... mas eu estava lá. Duelei com Comensais da Morte, sei o que significa ficar diante de um deles, prender a respiração, estar com a mente acelerada, tentando prever o que eles podem fazer, o impulso dentro de você de proteger aqueles ao seu redor, eu..." Ela respirou fundo. "Harry nem sempre foi sincero comigo." Ela franziu a testa. Aquilo não soou certo. "O que foi parte da razão pela qual eu estava tão triste durante as férias de inverno... eu... eu pensei que ele tinha feito algumas coisas, que eu tinha feito coisas..."
"Os Randhawas..." começou seu pai com cuidado.
Ginny assentiu. "Sim, eu pensei que ele tinha me traído, que só tinha me usado para obter informações. Eu sei que não vão acreditar em mim, não vão acreditar nele, mas ele não fez isso. Tivemos uma longa conversa sobre tudo que aconteceu entre a gente e estamos bem agora. Ele não é nada além de honesto comigo agora. Eu sei o que ele fez, o que enfrentou. Provavelmente sei mais sobre isso do que qualquer um e... eu fico muito irritada quando alguém tenta tirar todas essas coisas de mim... me afastar dele." Sua respiração estremeceu. "Sei que não querem ouvir isso, mas preciso dele na minha vida. Ele me entende como ninguém mais no momento..."
Sua mãe a interrompeu. "Você está certa. Não é algo que gostaríamos de ouvir, Ginny."
A garota mordeu o lábio e assentiu. "Eu..."
"Por que não pode falar conosco sobre essas coisas? Podemos te ajudar, provavelmente mais do que ele, afinal. Nós somos sua família, Ginny, te conhecemos desde que nasceu," disse seu pai.
Ginny assentiu. "Eu sei disso, mas vi algumas coisas e..."
"Também vimos coisas. Ginny, no meu trabalho como membro da Ord..." começou o pai dela.
"Eu sei, mas... não consigo falar sobre isso na maior parte do tempo e é mais fácil com Harry, já que ele estava lá também, e não tenho que entrar em detalhes e sei que ele não vai me julgar. Ele vai entender e eu tenho muito medo que vocês não entendam." Ela tomou um gole de chá.
Seu pai franziu a testa, assim como sua mãe. Eles trocaram outro olhar. "Ginny, não queremos que acredite que não pode nos procurar. Estamos aqui para te ajudar.
"Mas vocês não estavam," disse Ginny, engolindo em seco. "Não estavam lá nos últimos meses, e eu sei que culpam Harry por isso, mas não é totalmente culpa dele. Eu estava lá porque quis, ele me disse o que aconteceria se eu voltasse para vocês e não teria sido seguro..."
"Nós teríamos te protegido!" disse Molly com raiva.
"Não acho que conseguiriam," disse Ginny baixinho. "Voldemort..." Seus pais se encolheram. "Desculpe, eu... não teria sido perigoso só para mim, mas para Harry também. Sabem o que Vol... Você-Sabe-Quem pensa sobre isso. Aquela tumba..." Ginny estremeceu e respirou fundo novamente. "O que eu estou tentando dizer é que eu e Harry passamos por algumas coisas difíceis juntos e nós só tínhamos um ao outro. Mas demos um jeito e encontramos conforto e, sim, eu sei, estou aqui de novo, em casa, e tudo vai se resolver de uma forma ou de outra, mas é muito difícil não vê-lo, não me corresponder com ele de maneira alguma."
"Ginny, acho legal que esteja falando com a gente de forma tão honesta e calma sobre isso..." começou seu pai.
Sua mãe prosseguiu: "Mas não podemos deixar que fique sozinha com ele, se ele te machucar, nunca nos perdoaremos. Você tem que tentar entender nossa posição também."
"Mãe, ele não vai me machucar. Eu estive sozinha com ele por meses, se ele realmente quisesse isso, teria me machucado há muito tempo."
"Só porque você não se lembra..." começou sua mãe.
Ginny respirou fundo. "Ele nunca faria isso comigo. Entenderam? Nunca!" A garota sacudiu a cabeça. Podia sentir a raiva fervendo dentro de si e desejou gritar. Eles pensarem algo assim de Harry, quando foi isso que tinham feito com ele e... ela se lembrava claramente do rosto dele quando sugeriu que apagasse sua memória. A jovem respirou fundo várias vezes e estendeu a mão até o decote de sua blusa. Ginny remexeu no colar por um segundo antes de retirá-lo. "Sabem o que aconteceu com ele? O que fizeram com ele?" Seus pais trocaram um olhar desconfortável. "Eu sei o que fizeram com ele, e que apagaram sua memória."
Seu pai finalmente assentiu. "Albus contou à Ordem."
Ginny mordeu o lábio. Compartilhar algo assim sobre Harry sem perguntar... podia ver por que ele ficaria bravo. Mas isso a ajudou. Seus pais sabiam que ao menos Dumbledore não mentiria para eles.
"Harry me deu isso." Ela apontou para o colar. "É para me proteger de feitiços de memória e outras coisas que mexam com minha cabeça."
Os olhos de sua mãe se arregalaram e ela estendeu a mão. "Tire essa coisa agora! Quem sabe o que realmente faz!"
Ginny ofegou. Não era isso que tinha em mente. Ela sacudiu a cabeça. "Foi um presente de Harry."
Sua mãe pegou a corrente nas mãos, mas só conseguiu segurar por um segundo. Ela sibilou e soltou. Estava enfeitiçada. "Está enfeitiçada! Me queimou!"
"Só eu posso removê-la," disse Ginny, remexendo a corrente. A garota respirou fundo e puxou-a sobre a cabeça. "Mas, por favor, vá em frente, confira, verá que não faz nada comigo, que isso não me influencia como pensam."
Seu pai pegou o colar com cuidado. A corrente não fez nada dessa vez. Ele assentiu para ela. "Farei isso."
"Espero que possam confiar mais em mim agora."
"Não é em você que não confiamos," rebateu sua mãe.
Ginny suspirou e esfregou os olhos. "Eu sei, é em Harry que não confiam." Ela fez uma pausa, olhando para eles, desejando que entendessem. "Mas parece que não confiam em mim também. Eu sei que não quando se trata dele..."
"Ginny, o que mais devemos pensar? Você mudou muito..."
"Eu sei que mudei, mas... eu sou assim agora. Não posso desfazer isso. Aquelas coisas aconteceram comigo, elas me influenciaram e, sim, me transformaram, mas é quem eu sou agora e... não é como se eu não fosse mais sua filha... mas, na verdade, não há mais nada que possam fazer além de tentar aceitar e tentar me conhecer de novo, e... bem, Harry também faz parte disso. Não espero que o aceitem de braços abertos da próxima vez que o encontrarem, mas, por favor... deem uma chance a ele, a nós dois."
Seus pais trocaram outro olhar e sua mãe balançou a cabeça furiosamente. Seu pai parecia inseguro.
Ela se virou para ele. "Pai, por favor," implorou Ginny, encarando-o. Ele virou a cabeça para o outro lado, como se temesse que, se olhasse demais para ela, a filha o convencesse a mudar de ideia. "Eu não espero muito de você, mas... posso ao menos escrever para ele?"
Seu pai se virou para ela novamente.
"Eu... por favor? Só algumas cartas pra que ele saiba como estou e eu saiba o que ele está fazendo e... por favor! Eu acho isso me ajudaria."
Seu pai pareceu refletir, enquanto sua mãe balançou a cabeça. "Ginny, agradeço que esteja nos perguntando sobre isso, em vez de apenas agir escondido..."
A garota corou. "Eu queria fazer isso," confessou ela. Sua mãe respirou fundo. "Mas Harry disse que eu devia pedir."
Sua mãe franziu a testa.
"Ele quer que eu seja sincera com vocês..."
"Bem, acho isso bacana..."
"Ele se preocupa mesmo comigo, e está vendo que estou sofrendo." Com uma ideia repentina, ela disse: "Viram a maneira como ele me apoiou, não foi? Contra Moody?" Seus pais trocaram um longo olhar. "E ele está realmente disposto a fazer as pazes por mim e... por que não podem fazer o mesmo?"
Houve um silêncio intenso em que seus pais se entreolharam. Foi seu pai quem assentiu. "Pode escrever para ele," disse ele. Sua mãe parecia prestes a gritar. Seu pai olhou para ela e ela finalmente desviou o olhar. "Mas não vai vê-lo sem a nossa permissão."
Ginny engoliu em seco, mas assentiu. "O.k., eu... obrigada, papai."
Seu pai assentiu. "Posso ver o quanto isso significa para você e tem razão. Devemos tentar. Mas, por favor, não espere que nenhum milagre aconteça da noite para o dia. Isso levará tempo. Precisamos ter certeza de que está nos dizendo a verdade, que podemos confiar novamente nas suas decisões antes que possamos começar a confiar nele."
Ginny assentiu. Ela sentiu que aquele era um grande passo que estavam dando. "Claro, obrigada."
Seu pai assentiu novamente. Sua mãe ficou em silêncio. "Talvez devesse ir pra cama agora, Ginny. Acredito que eu e sua mãe temos algumas coisas para conversar."
Ginny assentiu. "Obrigada mais uma vez por me ouvir." Seu pai assentiu e ela despediu-se deles, colocando a xícara na pia antes de subir.
Quando entrou no quarto, Ron estava sentado em sua cama, esperando por ela. Hermione não estava à vista. Ela fechou a porta.
"Ela está lá em cima, nos dando tempo para falar sobre isso a sós," disse Ron, vendo seu olhar confuso. "Você conversou com mamãe e papai?" Ele afirmou mais do que perguntou.
Ginny assentiu. "Conversei... tenho permissão para escrever para Harry agora." Ela sentou-se na cama ao lado dele.
"Isso é..." Ron fez uma pausa. "Isso é bom, certo?"
"Sim, é. Mamãe não queria deixar, mas papai deixou."
Ron pareceu surpreso. "Eu não achei que papai que facilitaria nisso."
Ginny deu de ombros. "Pelo menos é algum progresso, eu não me importo com quem faça isso primeiro." Ela suspirou e recostou-se na parede, cruzando as pernas.
Ron assentiu. "Claro." Ele fez uma pausa. "Você acha que eu deveria dizer a eles que eu sabia?"
Ela suspirou. "Eu acho que não. Eu sei que não é bom que eles não saibam..." Ela parou. "Bem, mas pense em como seria contar a eles agora."
Por um momento, os dois pararam.
"Seria horrível," concordou Ron. "Mas eu faria isso por você, sabe? Se significasse que eles facilitariam para você. Eu poderia dar meu ponto de vista..."
"Isso significa muito para mim, Ron." Ela tocou-lhe a perna com carinho, sorrindo para ele. Ele sorriu de volta. "Mas não acho que ajudaria minha situação. Provavelmente só tornaria a sua pior. E já é o suficiente eu estar sofrendo com isso, não precisa fazer isso também."
Ron assentiu. "Mas é estranho esconder isso deles."
"Eu só posso imaginar, pelo menos eles agora sabem o que aconteceu comigo e do que participei."
"Eles sabem de tudo?" Ron franziu a testa, olhando para ela. "Quer dizer, eu sei de tudo, não é?"
Ginny assentiu. "Não há nenhum segredo."
Ron soltou um suspiro de alívio. "Graças a Merlin, não acho que estaria pronto para mais."
Ginny revirou os olhos, mas sorriu para ele. "Obrigada por me apoiar."
"Mesmo que eu tenha contado a eles sobre a janela?" perguntou ele provocativamente.
Ginny assentiu. "Sim, mesmo tendo contado sobre isso." Ela bateu nele de brincadeira. "Sabe do que estou falando. Eu sei que tentou convencer Fred e George a darem uma chance a Harry."
Ron desviou o olhar. "Bem, eu sabia que eles poderiam ser difíceis se quisessem."
"Obrigada."
"Ele é irmão de Damien, Damy sofreria também," disse ele baixinho. Ginny assentiu e Ron continuou. "E ele não é tão ruim assim."
"Ah, uau, que elogio!" disse Ginny com sarcasmo.
"Eu pensei que ele seria pior depois de tudo, para ser sincero, mas..." Ron encolheu os ombros. "Eu provavelmente gostaria mais dele se ele fizesse menos..." ele lutou por uma palavra apropriada, "coisas com você."
Ginny sorriu maliciosa. "Coisas comigo?"
Ron estremeceu. "Eu não deveria ter começado e vou pra cama antes que você me explique." Ele estremeceu novamente e se levantou. Ginny levantou-se também, cedendo à vontade de abraçá-lo.
"Obrigada, Ron, por tudo."
"Claro, tempestade."
Ela estendeu a língua para ele e ele mostrou a dele antes de sair do quarto, fechando a porta. A garota afundou na cama novamente, deitando desta vez e cruzando os braços atrás da cabeça. Devia escrever para Harry, contar sobre o progresso de que poderiam se escrever agora, que seus pais aceitaram isso... ela sorriu. Não achou que conseguiriam. Talvez realmente restasse alguma esperança, afinal. Ela os faria ver o que viu em Harry. Era só uma questão de tempo antes que não pudessem evitar fazer isso.
Os próximos dias passaram como um borrão para Ginny. Ela passou muito tempo do lado de fora, jogando quadribol com Ron e Hermione. Às vezes os gêmeos se juntavam a eles, mas não com tanta frequência. Eles nadavam no lago perto das árvores, onde passaram muito tempo durante a infância. Hermione voltou para casa, mas eles prometeram se escrever com mais frequência.
Mas a maior parte do tempo passava escrevendo cartas para Harry, que sempre tinham muitas páginas e só cresciam em vez de diminuírem. Ela compartilhava tudo com ele: o que fazia, o que seus irmãos faziam, o que seus pais diziam, o que achava que todos pensavam e compartilhava seus pesadelos. Compartilhou seus sonhos também. E às vezes escrevia sobre o quanto sentia falta dele, como ansiava por vê-lo novamente.
As primeiras respostas dele foram curtas, mas também cresciam a cada dia. Ela sorriu na primeira vez que ele compartilhou um de seus pesadelos, embora não tivesse sido nada legal. Ela sonhara com algo semelhante uma noite depois e quase não contou a ele, mas o fez, dizendo que ele deveria escrever sobre os pesadelos mesmo assim. Ginny ajudava a mãe o máximo possível, tentando participar das coisas que fazia antes de o caos ter começado. Cozinhava com a mãe quase todos os dias e ajudava a limpar a cozinha. Podia ver que sua mãe estava melhorando, que as linhas ao redor de sua boca diminuíam, mas ainda estavam lá. A garota suspeitou que poderia ter algo a ver com o fato de que haviam testado o colar, mas não encontraram nada. Mal podia esperar para recuperá-lo; parecia estranho não usá-lo.
Mas a maior surpresa foi quando sua mãe lhe disse que na próxima carta poderia chamar Harry para visitá-los. Ela até sugeriu o dia seguinte. Disse até que ele poderia vir quando seu pai e Percy estivessem no trabalho e Charlie não estivesse lá. Ginny sabia que Fleur e Bill chegariam mais tarde naquele dia e que os gêmeos estariam lá, mas sorriu e abraçou a mãe como não fazia há algum tempo, dizendo-lhe repetidas vezes como estava agradecida. Sua mãe também ficara mais feliz naquele dia e elas tornaram a compartilhar muitos sorrisos. Molly até retirara o antigo álbum de fotos, mostrando-lhe as fotos que Ginny vira tantas vezes no passado. Elas conversaram sobre o passado e muitas lembranças de infância da garota. Tinha sido um dia feliz e ela só teve um pesadelo naquela noite, mas conseguiu voltar a dormir quase depois de acordar.
Harry chegou no dia seguinte com James. Ele vestia roupas trouxas, o que Ginny achou estranhamente reconfortante. Ela não achou que ele usaria, agora que estavam de volta à comunidade mágica, onde quase todos usavam vestes, mas talvez ele estivesse pensando da mesma maneira ou fosse para mostrar à família dela o máximo de contraste possível com seu passado. Ginny não sabia, mas talvez fosse um pouco dos dois. Sua mãe lhe disse que ainda queria vê-los o tempo todo, mas a garota também estava tranquila com isso. Não teriam muitos beijos, então, mas poderia vê-lo... e se sua mãe os queria por perto, ela os teria tão perto que não poderia ignorar o cara legal que Harry era.
Ginny e sua mãe estavam fazendo um bolo para o chá da tarde. Harry estava sentado diante dela, observando-a intensamente enquanto mexia a massa. Os olhos dele seguiam seus dedos e ela o provocou, lambendo-os um pouco. Sua mãe estava de costas para eles, de modo que não podia vê-los no momento e Harry aproveitou a oportunidade para roubar-lhe um beijo breve. Ela sorriu, os cabelos presos em um rabo de cavalo caindo em seu rosto. Harry estendeu a mão, colocando-os atrás da orelha, e ela sorriu ainda mais.
Foi o momento em que os gêmeos escolheram chegar. Eles cumprimentaram a mãe com mais entusiasmo e sentaram-se à mesa também, tentando fazer com que Harry conversasse sobre suas novas ideias para a loja. Harry não estava nem um pouco interessado em conversar com eles, mas tentou e isso contou muito para Ginny. Mas ele continuou a observá-la e ela lambeu o dedo mais uma vez.
Um dos gêmeos se inclinou para frente, quase bloqueando sua visão de Harry. "Ginny, por favor, pare de fazer sexo visual com ele," disse ele solenemente. "Eu vou vomitar."
"Mamãe pode te pegar," disse o outro, da mesma maneira solene. Ginny jogou um pedaço de massa em cada um deles enquanto Harry sorria. Ele até deu uma piscadela para ela. A garota sentiu o calor percorrer suas bochechas, mas sorriu de volta descaradamente. Felizmente, sua mãe não conseguiu ouvi-los.
Os gêmeos conversaram enquanto Ginny terminava de mexer a massa. Ela, então, entregou à mãe. "Obrigada, querida." A jovem fez uma pausa, olhando para o lado de fora por um segundo. "Que tal dar uma volta lá fora? Está um dia tão lindo!" Ela parecia nervosa, Ginny podia ver. A garota sorriu tranquilizadoramente para ela e assentiu.
"É uma ótima ideia." Ela fez uma pausa e acrescentou: "Vamos ficar no quintal."
Molly assentiu. Ambos sabiam que assim a mãe dela podia vê-los da janela da cozinha. Ginny acenou para Harry. Ele se levantou e ela rapidamente lavou as mãos antes de levá-lo para fora. Estava mesmo um dia lindo. O sol brilhava, alguns pássaros cantavam e estava quente, mas não muito. Ela foi até um banco, que ficava de costas para a casa. Ginny se sentou e viu quando Harry se sentou ao lado dela. Ele virou a cabeça para encará-la e ela sorriu para ele.
"Como você está?" perguntou ela.
"Estou bem," respondeu ele, estendendo a mão para afastar alguns de seus fios de cabelo soltos. Ela segurou sua mão quando ele a afastou e entrelaçou seus dedos. Ginny descansou as mãos na perna dele, sabendo que sua mãe não poderia ver de onde estava, provavelmente os observando como um falcão. Ela não precisava ver tudo.
"Pesadelos?" perguntou ela e, por um longo momento, ele a encarou.
Ele finalmente assentiu devagar. "Mas o dia está bom demais para perder tempo com isso. Não foi nada de especial."
Ginny assentiu, mas seu coração afundou. Ela só podia imaginar que os "pesadelos habituais" dele eram algo muito mais sombrio do que qualquer coisa que ela sonhara. Notara isso nas cartas: seus pesadelos não pareciam nada comparados aos dele, mas ele ainda lia as divagações sobre os dela e tentava animá-la.
Ginny suspirou. "É, mas podemos falar sobre isso de qualquer maneira..."
Harry sacudiu a cabeça. "Eu não quero falar disso. Mas se quiser falar sobre algum...?"
Ginny sacudiu a cabeça. De alguma forma, seria estranho falar sobre eles. Era mais fácil escrever no meio da noite, quando ainda estava tremendo, do que contar a Harry sobre eles ali, em plena luz do dia, onde pareciam ainda mais surreais.
"Então, o que você acha da minha mãe? Acho que ela está melhorando," disse Ginny, começando outro assunto.
Harry a observou antes de concordar. "Eu estou aqui, não é?"
Ginny sorriu. "Sim, isso foi ideia dela." Ela fez uma pausa. "Parece que é mais fácil alguns dias, mas..." Ela fez outra pausa, lutando com as palavras. Harry deixou que levasse o tempo que precisasse. Ela sorriu para ele. "Sabe, às vezes parece..." Ela fez um gesto com a mão livre. "Parece estranho e... e falso." Ela suspirou. "Estou um pouco confusa com como ela está legal de repente, para ser honesta."
"Talvez você esteja sendo pessimista demais."
Ginny olhou para ele antes de rir. "Não posso acreditar que você está sugerindo isso."
Harry revirou os olhos.
"Mas... sim, talvez esteja certo," sussurrou ela. "O que acha dela? Parecia fingida?"
Harry soltou a mão da garota e se recostou no banco. "Ela é sua mãe, você a conhece melhor..."
Ginny mordeu o lábio. Ele parecia pouco à vontade. "O que tem ela?"
Harry suspirou. "Nada, como eu disse, não a conheço e você disse..."
Ginny o interrompeu. "Bem, você não parece estar sendo totalmente honesto comigo."
Harry se virou para encará-la novamente. "É bom que estejam se dando melhor e eu não quero estragar isso."
Ela revirou os olhos. "Que isso, você não vai estragar nada."
Harry suspirou. "Eu... ela não está à vontade com isso." Ele entrelaçou os dedos deles novamente. "Ela está nos observando."
"Eu sei disso," disse Ginny.
"Mas é a forma que ela está nos observando. Parece pronta para me atacar." Harry franziu a testa. "Sabe que ela está com a varinha pronta, não é?"
Ginny olhou para ele. "Quê?"
Harry suspirou. "Eu não deveria ter dito nada."
"Não, eu quero ouvir sua impressão. O que quer dizer com ela está com a varinha pronta?"
"É..." Harry fez uma pausa. "Ela já puxou a varinha algumas vezes."
"Quê?" Ginny olhou para ele, sem acreditar. "Quando? Ela não fez nada, não foi?"
Harry sacudiu a cabeça. "Não, não fez. Ela só está estressada e excessivamente atenta..."
Ginny puxou a mão da dele e cruzou os braços, franzindo a testa e lançando um olhar sombrio para a janela da qual sabia que sua mãe os observava. "Quando ela fez isso?"
"Quando eu te beijei." Ele franziu a testa. "Eu não deveria ter feito isso, sabia que ela estava prestando atenção, mesmo que fizesse parecer que não estava." Ele parou de falar.
"Sim, bem, foi um beijo rápido; ela não pode reclamar. O que ela acha que faríamos? Não é como se tivéssemos feito sexo na mesa da cozinha..." Ela se calou, observando-o. "Você está pensando em sexo na mesa da cozinha agora, não está?" Ela sorriu.
Harry deu de ombros e sorriu. "Talvez?"
Ginny mordeu o lábio. "Você está de olho nela agora?"
Harry lançou-lhe um longo olhar antes de assentir.
"Acha que ela está nos ouvindo?"
Harry sacudiu a cabeça. "Acho que não. Ela estava calma demais quando você falou em sexo na mesa da cozinha... ou ela é boa demais."
Ginny sacudiu a cabeça. "Ela estaria aqui me dando uma lição sobre isso se tivesse ouvido." A garota suspirou. "Pelo menos ela não está nos escutando. Há como verificar se ela está lendo nossas cartas?"
Harry olhou para ela por um momento antes de desviar o olhar. "Há sim, mas não é exatamente legal..."
"Já fez isso antes?" Ginny fez uma pausa. "Nas suas cartas naquela época?" Ela achou que ele sabia a que ela se referia.
Ele balançou a cabeça. "Eu imaginei que Dumbledore pegaria se eu tentasse. Não queria arriscar."
"Então, pode tentar nas minhas cartas ou nas suas? Como funciona?"
Harry pareceu desconfortável por um momento. Ele respirou fundo antes de se virar para ela novamente. "Eu já verifiquei, não estão lendo."
Ginny olhou para ele. "Você..." Ela fez uma pausa. "Você já verificou?"
Harry assentiu. "Eu deveria ter te perguntado, mas não queria correr o risco de seus pais lerem."
Ginny assentiu por fim. "Então, eles não leram?"
Harry sacudiu a cabeça. "Eles não estão lendo."
Ginny suspirou. "Pelo menos isso. Ainda estão me dando privacidade." Ela fez uma pausa e suspirou novamente. "Você disse que minha mãe tinha sacado a varinha mais de uma vez, quando mais?"
"Quando seus irmãos entraram, mas acho que ela só se assustou. Como eu disse, ela está muito focada."
"Ela ouviu o que os gêmeos disseram?" perguntou ela, pensando sobre a conversa na cozinha. O constrangimento se apoderou dela.
Harry sacudiu a cabeça. "Ela ficou mais calma quando eles chegaram; acho que ficou feliz por estarem lá."
"Ela não queria ficar sozinha com a gente."
"Ela não queria ficar sozinha comigo," corrigiu Harry. "Não posso culpá-la por isso."
"Bem, eu posso," disse Ginny com raiva. Ela se levantou e começou a andar em frente ao banco. "Sabe, eu achei que ela estava melhorando. Depois da reunião da Ordem, ela ficou furiosa e não queria que eu fizesse nada, ainda achava que eu nunca mais deveria te ver, e que não deveriam nem permitir que eu te escrevesse, mas pensei que papai tivesse dito algo para convencê-la. Pensei que ela tinha entendido, que quisesse fazer as pazes também. Que realmente se importava com isso, que queria te dar uma chance. Eu..." Ela jogou os braços para cima e suspirou. "Pensei que ela não... isso é tudo encenação, e... argh!" A garota chutou o banco.
"Ela só está tendo cuidado," disse Harry, " está tentando se certificar de que tudo está bem..."
"Sim, bem, ela poderia começar a confiar em mim. Quer dizer, que razão ela tem para duvidar de mim? Não sou idiota, eu notaria se você fosse um imbecil que só quisesse me machucar..."
"Bem, estou feliz que pense assim," disse ele secamente. "Mas ela é sua mãe. Provavelmente ainda te vê como uma garotinha. Você não é apenas a mais nova, mas a única filha. Acho que ela pensa que tem que te proteger mais."
Ginny suspirou: "Mas ela não precisa! Tento fazê-la ver isso, mas ela não quer nem enxergar, não quer te dar uma chance."
"Provavelmente levará mais tempo com ela," tentou Harry novamente. "Talvez você devesse falar com ela novamente. Tente conversar a sós, talvez isso ajude."
Ginny bufou. "Sim, eu vou dizer umas verdades..."
"E você definitivamente deveria se acalmar antes de falar com ela," acrescentou Harry.
Ginny cruzou os braços, mas assentiu. "Sim, eu sei, mas estou tão zangada com ela. Parece que ela está tentando tirar você de mim e eu não quero isso."
Harry pegou sua mão. "Ginny, ela pode tentar o quanto quiser, eu não vou a lugar algum."
Ginny tentou sorrir e se sentou ao lado dele novamente. "Tem certeza? Quer dizer, eu entenderia se estivesse ficando demais... ela consegue ser terrível e você já tem problemas demais."
"Tenho certeza, Ginny, eu não desisto." Ele a encarou. "Não vou desistir de você." Ele se aproximou dela, sussurrando. "Eu te amo, afinal."
Ginny sorriu para ele, inclinando-se ainda mais, até que suas testas se encostassem. "Acho que jamais vou me cansar disso." Ela sorriu. "Sinta-se à vontade para dizer de novo."
Harry revirou os olhos, mas murmurou novamente, e o sorriso de Ginny se alargou ainda mais. Eles se encararam por um longo momento e ela teve o crescente desejo de beijá-lo loucamente, e a maneira como ele chegou ainda mais perto a mostrou que queria isso também, mas ele finalmente recuou.
"Minha mãe?" perguntou ela desapontada.
Ele assentiu.
"Espero que toda espera e gentileza sejam compensadas no final," resmungou ela. "Porque se isso não acontecer, vai ser ainda pior."
Harry não disse nada, mas ela viu que ele concordava.
"Você ainda é contra entrar escondido?" perguntou ela, observando-o de perto. Ginny estendeu a mão, arrastando-a pela perna dele com cuidado.
Os olhos dele escureceram, mas ele assentiu, pegando a mão dela e puxando-a. "Pare de me provocar," disse ele, sua voz soando áspera.
Ginny sorriu. "Eu não consigo evitar."
Harry a observou, sua mão se aproximou da perna dela e ele chegou mais perto. "Dois podem jogar este jogo, Weasley, e você perderá espetacularmente."
Ginny olhou para ele, seu sorriso se alargando. "Acredite. Eu quero muito experimentar a sensação de perder esse jogo."
Harry se inclinou ainda mais. "Eu acho que vai terminar com um grande sermão da sua mãe e um tempo ainda mais longo sem me ver." Ele puxou a mão e se afastou o máximo possível.
Ginny suspirou. "Que forma de arruinar o momento, Potter."
Harry encolheu os ombros. "É culpa sua," brincou ele.
Ginny fez beicinho por um segundo antes de ficar séria. "Obrigada por fazer isso por mim. Eu sei que não é fácil para você."
Harry encolheu os ombros e não disse nada.
"Isso vai contra tudo, não é?" perguntou ela cuidadosamente.
Ele virou a cabeça para ela, encarando-a. Em vez de responder, o rapaz disse: "Eu tenho que fazer algo com seu cabelo."
Ginny piscou. "Quê?"
"Seu cabelo ainda está errado."
"Eu pensei que fosse permanente," disse ela cuidadosamente. "Não foi esse o sentido da poção? Que não pudesse ser cancelado como um feitiço?" Ela fez uma pausa. "Eu sei que foi necessário na fuga e, bem, se esse era o preço a ser pago..."
Harry a interrompeu. "Eu sei que é para ser permanente. Mas sempre há um jeito."
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Molly olhou pela janela, esquecendo-se do bolo. Ela só queria ter certeza, convenceu-se, mas parecia errado. Tudo aquilo parecia tão errado. Odiava vigiar a filha. Era como passar dos limites, mas sempre que desviava o olhar, quando dava atenção ao bolo, seu pânico aumentava. Era insuportável. Então, verificava novamente, apenas uma olhadinha, para ver se ela ainda estava lá, ainda sorrindo e não gritando, chorando, desaparecida ou morta. Molly suspirou profundamente, dando os últimos retoques no bolo antes de colocá-lo no forno. Com alguns movimentos de sua varinha, a cozinha começou a se limpar. Ela lavou as mãos, pegando a xícara de café e aproximou-se da janela. Ginny sorriu de novo, a cabeça e a atenção totalmente voltadas para ele. Isso fez algo dentro de Molly doer. Ela segurou a xícara com mais força. Nada de especial estava acontecendo, eles nem sequer se tocavam muito. Ela pensou que ficariam grudados só para irritá-la. Seria típico de Ginny. Mas ele parecia calmo e ela brincou e ele sorriu para ela. Molly não achou que ele agiria assim. Quando apenas olhou para eles, quando tentou bloquear todo o resto, pensou ter visto a garotinha em Ginny que não via há muito tempo. Ela parecia feliz, contente e livre. Mas a sensação no estômago de Molly não desaparecia. Cada um de seus instintos maternos gritava para que fosse lá, para afastá-la dele, para fazê-la esquecer aquele garoto. Mas ela tentara, não é? E isso piorou as coisas.
As palavras de Arthur foram claras naquela noite após a reunião da Ordem. Você quer perdê-la de novo? Não pode ficar feliz por ela ainda estar aqui, por ela poder tomar essas decisões? Por ainda poder sorrir, dar risada e gritar conosco?
De manhã bem cedo, depois daquela noite, Molly visitara o túmulo da filha. Ainda estava lá e ela se lembrou de ficar ali, enterrando sua única filha. Às vezes achava que Ginny não conseguia entender. Ela nunca entenderia. Não sabia a sensação de perder um filho. E Molly esperava que nunca soubesse. Esse medo ainda persistia, aquele sofrimento não desaparecera da noite para o dia. No começo, achou que sumira com o retorno de Ginny, mas o sentimento sempre encontrava uma maneira de voltar. Era normal se preocupar assim, não era? Ela voltou para casa, contatou o cemitério, dizendo para removerem a pedra com o nome de Ginny. O Ministério devolveu-lhes o dinheiro do funeral e outra pedra com outro nome desconhecido deveria estar lá agora. Molly não tinha verificado. Não tinha razão para isso, não é?
Molly se afastou da janela. Ginny tinha idade suficiente e parecia estar realmente lhe ouvindo. Ela foi até uma cadeira, levando a Witch Weekly consigo. A bruxa se sentou e abriu a revista, girando e examinando algumas páginas, mas não conseguia se concentrar. Erguia o olhar de vez em quando. Ginny ainda estava lá. Sua cabeça descansava no ombro dele e juntos eles contemplavam o céu. Ginny parecia apontar alguma coisa. Estavam observando as nuvens? Sua filha adorava fazer isso quando era nova, mas, pelo que Molly sabia, ela havia parado de fazê-lo há algum tempo, quando seus irmãos começaram a lhe incomodar, dizendo que apenas bebês faziam isso. Molly tinha lhe dito que tudo bem em fazer o que gostasse, mas Ginny insistiu em dizer que já era grande, e que faria o que seus irmãos faziam.
Ron desceu as escadas. Ele deu uma olhada ao redor da cozinha, verificando o forno. "Estou feliz por Ginny estar de volta ao normal," disse ele. "Há muito mais bolo agora." Ele sorriu. Molly sorriu para ele. Ele sempre gostou de comer e ela estava feliz por isso não ter mudado.
"Como está o dever de casa?" perguntou ela. Eles foram informados por uma coruja de Minerva que vários de seus professores haviam reclamado com ela que o desempenho dele não estava à altura do nível anterior. Molly sabia que Ron sentia falta da escola. Ele não era do tipo de ficar sentado em casa, aprendendo sozinho em seu quarto, e não tinha visto muito Hermione. Ela o ajudava bastante, mas ele nem sempre aceitava sua ajuda.
"Muito bem, quase terminado," respondeu ele orgulhosamente. Molly suspeitou que Hermione havia lhe dito algo. Parecia só haver duas coisas que o motivavam o suficiente para fazer o que não gostava: comida e Hermione. Às vezes Molly se perguntava quanto tempo levaria para que ele descobrisse isso também. Ou ele descobriu e simplesmente não fez nada? Ela checou Ginny novamente. Como desejava que fossem Ron e Hermione lá fora. Sabia que aqueles dois não aprontariam nada.
Ron seguiu seu olhar. "Eles estão lá fora?" perguntou ele.
Molly assentiu. "Quer se sentar enquanto faço algo para você comer?"
Ron hesitou. "Quando o bolo fica pronto?"
"Logo," Molly verificou o relógio e assentiu. "Muito em breve."
"Eu vou esperar, então." Ron espiou pela janela, como se tivesse medo de ver algo horrível. Ele soltou um suspiro de alívio. "Graças a Merlin que eles não estão se beijando."
Molly deu outra olhada também. Eles ainda observavam o céu. Ou será que ele estava checando os escudos novamente? Molly estremeceu. Às vezes, à noite, ela acordava, pensando que algo havia acontecido. Arthur ficara acordado muitas vezes nas últimas noites por causa dela, verificando a casa, checando os escudos, checando as crianças... mas tudo estava quieto, nada acontecera até então. Ela esperava que continuasse assim.
"Você tem algo contra eu chamá-los para voar?" perguntou Ron. Sua mãe parecia surpresa. Ela achou que Ron seria muito mais duro com ele e Ginny.
"Se chamar os gêmeos também..." A dupla estava no andar de cima, mexendo em suas coisas. Molly não queria saber. Contanto que não explodissem a casa, ela estava perfeitamente bem com eles fazendo o que quisessem.
Ron assentiu. "Farei isso." Ele deu outra olhada no forno. "Depois do chá?"
Molly assentiu e Ron subiu, provavelmente para falar com os gêmeos. Molly passou o tempo até o chá da tarde ainda os observando e lendo algumas coisas na Witch Weekly. Quando o bolo ficou pronto, ela colocou a mesa, chamando os meninos antes de chamar os dois. Eles vieram, comeram, e tudo parecia normal. Era o que a assustava. Podia suportar o silêncio, podia suportá-lo xingando tudo e sendo o que ela esperava que ele fosse... mas não era o que estava acontecendo. Era um chá da tarde com a família. Os gêmeos brincando, fazendo graça com Ron e tentando provocar a irmã, que retornava suas piadas com a mesma energia de sempre. Ron conversou com ele sobre Damy e reclamou de Ginny. Eles riram, sorriram, conversaram, e Molly sentou-se lá e os observou. Ela respirou fundo várias vezes e, com bastante frequência, encontrou seus olhos. Mas ele não disse nada sobre isso, não comentou, não usou isso como uma fraqueza contra ela. Era inconcebível para Molly que ele quisesse isso. Que ele quisesse que Ginny partilhasse aquilo com ele.
Eles terminaram o bolo e ela limpou a mesa, mandando-os para fora para voar e jogar quadribol. Quando terminou, foi atrás deles, observando-os de longe. Eles estavam se divertindo e os garotos o acolheram como haviam feito com Damien há muito tempo. Isso não poderia lhe dar um pouco de paz? Queria que fosse assim, mas algo a estava segurando, algo ainda estava suspenso. Ele atacaria se ela não fosse cuidadosa. Será que os estava enganando? Mas Ginny riu tão alto que Molly podia ouvi-la claramente enquanto agarrava a vassoura dele no ar, forçando-o a parar. Ele dizia algo que a fez rir ainda mais alto. Ela afastou as mãos dele e voou. Ele estava em seu encalço. O coração de Molly parou, mas quando ele a alcançou, simplesmente lhe disse algo. O coração de Molly continuou batendo forte, mas ela tinha que se certificar...
Ela se virou, voltando para a cozinha. Precisava confiar um pouco neles. Os meninos estavam lá. Eles não podiam enfrentá-lo, mas... ela também não podia. A bruxa começou o jantar, presumindo que ele ficaria. Arthur chegou em casa e a ajudou, perguntando por eles. Ela contou a verdade sobre seu pânico, como quase o atacara. As palavras de Arthur eram calmas e tranquilizadoras, tentando afastar seus medos. Ele era o único que entendia. Parecia que apesar de a morte de Ginny quase separar a família e seu retorno não ajudar em todos os aspectos, o... o relacionamento deles o fizera. Era estranho e Molly não gostava de pensar muito naquilo, mas não podia evitar.
Eles jantaram juntos, Ginny sorrindo e sentindo-se tão feliz que Molly não podia deixar de ficar feliz também. Foi diferente da última vez que ele esteve lá. Talvez fosse porque os meninos já estavam do lado dele, talvez porque a família dele não estivesse ali. Talvez ela devesse se aproximar mais de Lily, tentar conseguir o que podia com ela, ver como eles estavam lidando. Também não era fácil para eles, não é?
Arthur, os meninos e ele foram para a sala de estar, enquanto Ginny ficou para trás e a ajudou. Juntas, elas lavaram os pratos e limparam a cozinha. Ginny nem se queixou, mas ajudou. Molly finalmente acenou para ela e viu um sorriso se espalhar em seu rosto. A mãe guardou o restante dos pratos com um aceno de varinha e seguiu a filha até a sala de estar.
Ela viu Ginny ir até o canto pegar um dos cobertores antes de ir até Potter – Molly engoliu em seco – até Harry. Ela se sentou ao seu lado no sofá e se aconchegou nele. Ele olhou para ela antes de levantar o braço, colocando-o ao seu redor. Ela se aproximou ainda mais dele, observando suas cartas e apontando suavemente para várias delas.
Então, Molly se concentrou em toda a cena. Harry estava jogando snap explosivo com Ron e os gêmeos, e os três gemeram quando Ginny sorriu, apontando para outra carta. Harry assentiu e acrescentou-a na pilha sobre a mesa de café.
Molly forçou-se a desviar o olhar e pegou seus utensílios de tricô, sentando-se em seu lugar de sempre. Apontou a varinha na direção da lã, olhando para Arthur, que lia o jornal. Seus olhos se encontraram por um segundo antes de ambos desviarem o olhar.
"Está com frio?" Ela ouviu Harry murmurar. Ron gritou e xingou quando uma carta queimou seu dedo. Ela olhou feio para ele por cima do tricô, mas seus olhos foram mais adiante, observando a filha assentir. Harry inclinou a cabeça para o lado tão depressa que Molly quase não viu.
"É aquela época do mês novamente," disse Ginny.
Ron fez um barulho de nojo, enquanto Fred e George riram. Ginny amarrou a cara para os três, antes de puxar o cobertor com mais força. Molly viu Harry assentir antes de se concentrar no jogo de novo. Ela franziu a testa ligeiramente. Essa não era exatamente a reação que esperava. Não que esperasse que Ginny fosse sincera sobre aquilo também. Claro que Molly sabia daquela informação. Fizera chá para ela de manhã e trouxera-lhe uma poção para dor discretamente naquela tarde. Com um estalo, percebeu que nos últimos meses, quando Ginny sofria, ela não estava lá. Mas ele estava.
Ela viu quando a mão livre dele começou a desenhar pequenos círculos no ombro e no pescoço dela. Os olhos de Ginny se fecharam, mas se abriram um segundo depois. Molly sorriu para ela quando seus olhos se encontraram brevemente. Ginny fazia isso com frequência. Sentia-se muito cansada, mas não queria ir para a cama para não perder nada importante. Ela gostava de ficar acordada junto com os demais, o que não tornava muito fácil levá-la para a cama. Parecia que nada havia mudado quanto a isso.
Os garotos terminaram a rodada, conversando baixinho um com o outro. Claro que os gêmeos venceram. Eles só perderam contra Ginny nos últimos anos. Quando começaram a rodada seguinte, a cabeça da garota pousou no colo de Harry. Ele começou a brincar com seu cabelo erroneamente loiro, distraído, enquanto dava uma olhada nas novas cartas. Os olhos de Ginny se abriram novamente, mas muito depressa, um sorriso suave no rosto. Sua respiração se estabilizou depois disso. Ela adormecera.
Dos meninos, foi Ron quem percebeu primeiro. Ele gemeu, apontando para ela. "Ótimo. Ela adormeceu."
Os olhos de Fred (ou foram os de George?) brilharam enquanto a observava. "Poderíamos experimentar o nosso novo produto nela agora..." Ele parou de falar e piscou para seu irmão gêmeo. O outro sorriu maliciosamente.
Molly olhou para os dois. "Não vão fazer nada disso."
"E como vamos acordá-la, então?" perguntaram inocentemente.
"Poderíamos tentar um balde de água," sugeriu Ron, sorrindo também.
"Antes de vocês três virem com ideias mais desnecessárias: vamos deixá-la dormir no sofá," decidiu Molly.
"E aguentar o mau humor dela amanhã?" Os gêmeos estremeceram, enquanto Ron se afastou da irmã, como se ela pudesse acordar a qualquer momento, pronta para gritar com ele.
"Por que não simplesmente a acordam, então?" perguntou Harry, confuso.
Os três garotos olharam boquiabertos para ele. "Obviamente você nunca tentou acordá-la antes," disse um dos gêmeos, que Molly pensou ser Fred, por fim.
"Por quê? O que ela normalmente faz?" Molly notou a expressão incomum.
"Não faz nada." Diante do rosto confuso de Harry, Ron acrescentou: "Ela não acorda, quer dizer. Pode tentar tudo que não a machuque demais. Ela simplesmente continua dormindo."
Os gêmeos assentiram e Arthur acrescentou. "Quando ela adormece, dorme até que queira acordar."
Ela observou Harry abrir a boca, mas ele fechou novamente sem dizer nada. A próxima rodada do jogo chegou ao fim logo depois disso. Molly olhou para o relógio, notando que estava ficando tarde. Harry pareceu chegar à mesma conclusão, porque quando os meninos pediram a ele para participar de outra rodada, ele recusou. "Eu realmente devo ir agora."
"Tem sua própria mãe preocupada em casa agora, não é?" perguntou Ron, sorrindo.
Harry revirou os olhos, enquanto levantava a cabeça de Ginny para que pudesse se levantar. "Ela está piorando a cada dia." Molly franziu a testa. Lily não ficaria satisfeita se o ouvisse dizer isso. Harry olhou para Ginny, parando. "Eu poderia levá-la para cima."
Ron concordou de imediato "Ah, por favor, faça isso. Eu tenho que desgnomizar o jardim com ela amanhã, e se ela estiver mal-humorada por dormir no sofá..." Ele estremeceu.
"Deveríamos deixá-la dormir aqui só por causa disso," provocou George. Ron levantou a mão, pronto para fazer um gesto grosseiro para ele, mas Molly o impediu imediatamente, empurrando sua mão para baixo. Ron franziu o cenho. Enquanto conversavam, Harry já pegara Ginny nos braços. Ela parecia muito jovem e tão pequena, sua cabeça descansando contra o peito dele de imediato.
"Terceiro andar, certo?" perguntou ele a ninguém em particular.
Molly assentiu. "Eu vou te mostrar," disse ela, sem confiar em deixá-lo sozinho com ela. Ela o levou para o andar de cima e abriu a porta, puxando as cobertas. Ele a colocou gentilmente sobre a cama, afastando os cabelos que caíram em seu rosto. O sorriso de Ginny se alargou e, por um segundo, Molly pensou que ela só estava fingindo dormir. Mas a jovem se virou, aconchegando-se em seu travesseiro. "Eu te amo, Harry," murmurou ela. Molly congelou, observando-o atentamente. Harry não a ouviu ou ignorou, cobrindo-a. Molly esperou até que ele saísse do quarto, antes de apagar a luz. Eles desceram sem dizer uma palavra. Arthur os aguardava ao pé da escada, observando o rapaz. Os garotos não estavam à vista.
"Posso falar com você por um segundo, por favor?" Harry encontrou seu olhar e assentiu. "Por que não vai para a cama, Molly? Eu subirei assim que terminar." Ela notou o tom que ele usou. Ouvira-o frequentemente nos últimos dias. Sabia o que Arthur queria que fizesse. Molly assentiu rapidamente antes de se virar de novo, subindo as escadas. Talvez fosse melhor que seu esposo conversasse com ele sozinho. Ela não sabia se podia confiar em seu temperamento.
Arthur entrou no quarto meia hora depois, vestindo o pijama. Ela viu o colar de Ginny. Ele olhou para ela apreensivo antes de retirá-lo, colocando-o na mesa de cabeceira. "Para ter certeza," disse ele baixinho. Molly sabia que realmente era o que Ginny acreditava ser. "Eu devolvo para ela amanhã."
Ele deitou na cama ao lado dela, tirando os óculos e apagando a luz. Eles ficaram lá calados, ouvindo o silêncio da casa. Molly quase prendeu a respiração, mas ele não disse nada. Ela se virou para ele, observando seu contorno no quarto escuro.
"Ele foi muito mais razoável do que eu esperava," disse ele baixinho, por fim. Sua mão procurou pela dela debaixo do cobertor. "E ele pediu desculpas."
