Capítulo 2 - Cafajeste
Acordei com o som ensurdecedor do despertador do celular. Virei-me na cama tateando cegamente o criado-mudo ao lado, até esbarrar com os dedos no celular, o desligando em seguida.
Espreguicei-me, num modo para aquela preguiça matinal saísse de meu corpo enquanto abria os olhos, encontrando o quarto todo escuro. Mas apesar de toda a escuridão que fazia na minha Bate-Caverna - como meu irmão chamava meu quarto por causa da escuridão - eu sabia que lá fora estava claro e que havia chegado a hora de me levantar para ir à escola.
Arrastei-me ainda com os olhos semiabertos até o banheiro, olhei meu reflexo no espelho, enquanto eu soltava um bocejo. Escovei meus dentes e tirei a minha roupa e entrei no box. Deixei a água quente levar embora os vestígios de preguiça, enquanto sentia minhas costas arderem. Não precisei virar minha cabeça para trás e tentar ver o estrago de arranhões que Karin havia deixando nas minhas costas. Ela havia literalmente acabado comigo. A safada havia me mandado uma mensagem ontem quando eu saía da escola depois do treino. Seu pai estava viajando e sua mãe havia saído com as amigas.
Farreamos o resto da tarde toda até a metade da noite. Transamos na sala, na cozinha, no banheiro e em seu quarto. Passamos tanto tempo em nossa festinha que nem percebi o tempo passar, e sua mãe bater em sua porta. É claro eu tive que sair pela janela de seu quarto que ficava no segundo andar, quase que me estripei nos árbutos de roseiras cheia de espinhos.
Enquanto eu dirigia de volta para casa, pude ver as dezenas de mensagens e ligações perdidas de Ino. Eu teria que arrumar uma boa desculpa para ela, ou então eu estaria literalmente fodido.
Desliguei o resisto da água e peguei uma toalha ao lado do box, saindo em seguida. Entrei no quarto ainda escuro e abri as cortinas, clareando um pouco o local. Depois de me vestir e colocar os tênis, peguei minha mochila que estava no mesmo lugar - no chão - que larguei quando cheguei ontem, fazendo alguma coisa cair no chão.
Agachei-me e peguei a corrente de prata com um pingente de um coração da mesma cor. Passei o dedo na rosa entalhada no meio do coração, e em seguida eu abri, vendo novamente a foto da mulher loira de um lado, e do outro a foto da Sakura.
Fiquei olhando embasbacado para o rosto ainda infantil que ela possuía ali, deveria ter uns onze ou doze anos, seu sorriso era enorme e lindo. Mas eu percebia que o seu sorriso alegre não contrastava com o brilho triste que havia em seus olhos verdes, um brilho solitário.
Passei um dedo na imagem, inerte em meus pensamentos, enquanto novamente eu era arrebatado por um sentimento diferente, aquele mesmo sentimento que eu sentia quando eu a via.
Mas que porra estava acontecendo comigo?
Franzi o cenho, e fechei o coração. Tirei-o da correntinha quebrada, e o guardei dentro da gaveta da minha cômoda. Coloquei a correntinha no bolso e saí do quarto.
Encontrei minha mãe arrumada impecavelmente com seu terninho azul marinho, seus cabelos presos num coque bem feito, deixando algumas mechas na frente solta, e seus saltos alto, que a deixava quase a minha altura.
Minha mãe Mikoto era uma mulher muito bonita, e sua beleza ocultava a idade de quarenta e poucos anos que ela tinha. Todos diziam que eu era a cara de minha mãe, puxando só a personalidade séria de meu pai. Itachi era o contrário. Ele era parecido com meu pai e puxado à personalidade de minha mãe.
Terminei de descer as escadas, atraindo a atenção de minha mãe que estava com uma bolsa no ombro e sua pasta de documentos segurando na mão esquerda. Assim que me viu, ela abriu um sorriso amoroso, como ela sempre fazia, e veio até mim, me dando um beijo na testa.
- Bom dia, meu amor - ela sorria, enquanto estava com sua mão direita acariciando o meu rosto.
- Bom dia, mãe. - Era impossível não sorrir quando está na presença de Mikoto Uchiha. - Já vai sair?
Ela deu um passo para trás.
- Sim. Eu tenho uma audiência agora de manhã. - Ela disse, tentando arrumar o meu cabelo que estava bagunçado. - Seu pai e seu irmão estão tomando café. Não saia sem se alimentar direito, não quero que meu filhotinho fique com anemia.
Meu rosto se contorceu em uma careta, com o gesto carinhoso demais de minha mãe.
- Mãe, para de me chamar de filhotinho, eu já sou grandinho demais para ser tratado como uma criança.
Ela crispou os lábios, meio repreendedor, mas sabia que ela não estava zangada.
- Mas você é meu caçulinha, meu menininho medroso que corria para meu quarto nos dias chuvosos. - Ela apertou minhas duas bochechas, fazendo um biquinho aparecer em minha boca.
Não acredito que ela iria desenterrar aquela história daquele buraco mais uma vez, às sete e vinte da manhã. Itachi sempre me zoou por causa disso. Porra, eu era só uma criança de seis anos que tinha medo de trovão, não que eu tenha agora, tenha dó.
- Mãe, fala sério. - Minha voz havia saído estranha, devido ao aperto de minhas bochechas.
- Tudo bem. - Ela me soltou, e me olhou séria. - Que horas você chegou ontem, hein mocinho? Você sabe que eu não admito que chegue tarde da noite em casa nos dias que tem aula.
Droga! Eu não posso dizer para ela que eu estava transando com a melhor amiga da minha ficante. E eu pensando que dona Mikoto não havia dado falta da minha presença ontem.
Minha mãe era foda, sempre controladora com esses negócios de estudos, e até hoje ela me pede o boletim da escola, e eu não era o único, Itachi também era obrigado a mostrar suas notas da faculdade para o sargentão Mikoto. Que ela não ouça que eu a chamei de sargentão, pois era bem capaz dela me deixar dias sem sentar. Minha mãe era assustadora quando estava zangada, tenho dó do meu pai quando a pega de TPM.
- Eu... - hesitei, olhando para os lados, e enfiei minha mão no bolso da calça sentindo a correntinha - eu estava na casa do Naruto.
Ela apertou seus olhos para mim, e mantive minha cara séria e indiferente. Esse era o primeiro passo para despistar qualquer olhar repreendedor.
- Espero que isso não se repita.
Assenti com a cabeça.
- Bom, eu já vou indo, senão eu vou acabar me atrasando. - Ela se virou, mas eu a impedi.
- Mãe - ela me olhou. Dei três passos para perto dela. Tirei minha mão de dentro do bolso, trazendo a correntinha e a estendi para ela, que franziu o cenho, mas logo tratei de explicar: - A senhora pode concertar?
Ela pegou nas mãos.
- De quem é? - Ela quis saber, enquanto fitava a correntinha.
- É de uma amiga minha - menti, e ela me fitou. - Eu achei no chão jogado - isso não está colando - e eu resolvi fazer uma boa ação.
Minha mãe desviou o olhar de mim para a correntinha.
- O abotoador está quebrado. Mas tem concerto. - Ela me fitou, enquanto colocava a correntinha dentro de sua bolsa. - Vou levar ao joalheiro e depois te entrego.
Sorri.
- Valeu.
- Tenha juízo, e boa aula. - Ela me deu um beijo na bochecha e depois saiu de casa.
Caminhei até a sala de jantar, encontrando meu pai sentado na ponta da mesa com o seu jornal aberto, o lendo, enquanto bebericava o seu café. Itachi estava ao seu lado direito, comendo seu cereal ao leite com uma cara tediosa. Sentei-me em meu lugar na segunda cadeira do lado esquerdo de meu pai, atraindo a atenção dos dois para mim.
- Bom dia, filho - ele me olhou rapidamente, voltando sua atenção para o jornal.
- Bom dia, pai - murmurei, servindo-me de ovos mexidos que a empregada havia acabado de colocar em meu prato.
- E aí filhotinho da mamãe, dormiu bem?
Olhei para aquele traste que eu chamo de irmão com o meu pior olhar. Ele me fitava com um sorriso zombeteiro na boca, enquanto mastigava aquela ração que ele chama de cereal. Apenas o ignorei e voltei minha atenção para meu alimento, escutando aquela risada nojenta dele.
Existe coisa pior em ter um irmão mais velho que tem a maturidade de uma criança de três anos?
O resto do café da manhã foi calmo, apenas ignorando as piadinhas imbecis de Itachi por eu ter chegado tarde em casa. O infeliz parece que só vai dormir quando eu chego em casa. Fala sério, eu não preciso de mais gente para ficar me monitorando, já bastava a mamãe para fazer esse papel.
Levantei-me da mesa assim que terminei de comer, e fui até a sala, pegando minha mochila que estava no sofá e saí de casa, entrando na garagem. Joguei minha mochila no banco do passageiro, enquanto sentava no banco do motorista. Liguei o carro, mas parecia que ele não queria ligar.
Franzi o cenho.
- Mas que porra...
Tentei mais uma vez, e novamente o carro tentava dar sinal de vida e depois morria. Tentei mais outra, e mais outra, e mais outra...
- Vai tomar no cu! - Gritei, já puto com aquela porra.
Soquei o volante, fazendo a buzina soar alta. Não era a primeira vez que aquele carro dava problema para ligar, e tudo começou depois do dia em que o emprestei para Suigetsu. Não sabia que merda ele tinha feito, mas depois daquele dia meu carro nunca foi o mesmo. Meu pai iria me estrangular vivo se soubesse que eu já fodi com o carro que ele havia me dado esse ano.
Suspirei cansado, encostando minha cabeça no banco. Eu tinha que me manter calmo e não pirar. Eu vou esculachar aquele vacilão quando chegasse no colégio. Incline meu corpo um pouco para frente e levei minha mão até a chave.
- Pega... - murmurei, enquanto eu girava a chave, e para minha felicidade, finalmente o carro ligou. - Isso caralho.
Não pude segurar um sorriso de satisfação, enquanto manobrava o carro para fora da garagem e minutos depois eu estava indo ao rumo do colégio. Quando cheguei no estacionamento do colégio, a primeira coisa que eu vejo depois quando saio do carro era Ino. Ela estava parada me olhando com uma cara nada boa, enquanto seus braços estavam cruzados. Sabia que iria vir avalanche pela frente.
Como se nada houvesse acontecido, caminhei tranquilamente até ela, que só franzia mais o vínculo entre as sobrancelhas, formando-se um V entre elas. Eu sabia que ela iria abrir o maior escândalo por eu não ter retornado suas ligações, e eu não estava com saco para aquilo. Eu tinha meu discurso cafajeste na ponta da língua, e torcia para que ela acreditasse, caso contrário pouco estava me fudendo para o rumo de nosso relacionamento. Estava ficando de saco cheio dela, e como eu disse; Ino às vezes era chata pra caralho.
- Oi, Ino. - Disse eu, depois que parei a sua frente. Fiz-me de desentendido. - O que você está fazendo aqui parada?
Ela soltou uma lufada de ar pelo nariz enquanto descruzava os braços.
- Eu quero que você me dê um bom motivo para não ter atendido as minhas ligações. - Ela começou, sua voz fina me doía os ouvidos.
- Eu estava dormido. - Falei calmamente.
Ela me olhou descrente.
- Você acha que eu vou acreditar nessa desculpa esfarrapada? - Sua voz aumentou dois décimos, fazendo alguns alunos que passavam por ali olhar para nós.
- Você está bancando a ridícula.
- Ridícula? - Sua voz aumentou mais. - Você acha que eu sou idiota? Eu liguei para a sua casa ontem à tarde e me disseram que você não estava.
Eita porra.
- Eu pedi para que falassem que eu não estava em casa. - Menti na cara dura. - Não queria ser incomodado por ninguém.
- O quê? - Ela me olhava descrente.
Suspirei, tentando não ficar mais irritado do que já estava.
- Ino - eu a fitei com um convencimento impressionante -, eu passei a tarde toda treinando para o campeonato que está chegando, e a única coisa que eu queria era dormir depois que cheguei em casa. E a primeira coisa que eu escuto quando chego aqui é cobrança? No ferra, Ino!
Aos poucos o seu rosto se desfazia, tomando uma expressão arrependida.
E o primeiro prêmio de melhor cafajeste e mentiroso de todos os tempos vai para mim.
- Oh... me desculpe. - Ela murmurou, dando dois passos para frente, ficando bem próximo de mim. - Eu fiquei maluca te ligando e você não me atendia.
- Eu deixei o celular no silencioso.
Ela agarrou meu pescoço com suas mãos, colando sua boca na minha. Agarrei sua cintura, aprofundando o beijo.
- Eu iria te chamar para ir ao cinema comigo ontem. - Ela disse com sua voz manhosa depois que nos separamos.
- Eu estava muito cansado, foi mal. - Mentira, eu estava transando com sua melhor amiga.
- Tudo bem. - Ela mordeu o lábio, enquanto passava seu dedo em meu peito coberto pela camisa. - Acho que estarei sozinha em casa hoje...
Sorri, sabia perfeitamente o que aquela loira insinuava.
- Estarei livre a tarde toda.
O sorriso dela se alargou, beijando-me novamente. Fomos para o meio do pátio, encontrando o resto da galera. Karin sorriu daquele jeito provocativo, desviando os olhos para o chão. Ficamos conversando banalidades como sempre. Ino sempre agarrada ao meu pescoço, demostrando território. Eu tentava me manter indiferente enquanto meus olhos vagavam pelo pátio até encontrar ela.
Sakura estava longe de onde eu estava, seus dois amigos estavam ao seu lado. Ela discutia com Kiba enquanto Gaara tentava apaziguar a raiva que ela depositava no garoto. Ela estava irritada, não dava para escutar o que ela dizia devido à distância de onde nós estávamos, mas alguma coisa me dizia que havia acontecido alguma coisa.
De repente, Sakura se afasta de Kiba, com Gaara ao seu lado. Ela parecia de alguma forma desesperada, enquanto procurava alguma coisa no chão do pátio. Logo a ficha havia caído. Ela procurava a correntinha. A correntinha que eu havia encontrado ontem e que estava em meu poder.
E eu não podia imaginar como será sua reação quando eu fosse entregá-la. Nem eu sabia como eu iria reagir.
