Capítulo 3 - Ousada

As aulas se passaram como sempre, uma merda. Os professores sendo sempre chatos com aquelas matérias entediantes. Apenas copiava tudo, num modo meio que automático. Naruto de vez em quando se inclinava para frente e conversava coisas fúteis e idiotas, mas que sempre me tirava risadas, principalmente quando ele comentava que Karin me olhava de um jeito como se fosse me atacar como um leão faminto.

Realmente ela estava me olhando, e piscava para mim quando meus olhos encontravam os dela. Vadia.

Percebi que Suigetsu não havia vindo à escola, aquele vacilão. Mas ele não perdia por esperar amanhã, eu iria querer saber o que diabos ele fez com o meu carro.

O sinal do término das aulas havia soado, levantei-me como todos os outros, jogando minhas coisas dentro da mochila e logo senti um corpo atrás de mim e braços rodearem o meu pescoço, jogando o meu corpo para frente. Não olhei para trás para saber que era Ino, pois seu perfume cítrico entrou em minhas narinas.

- O que foi Ino? - Perguntei, fechando a mochila enquanto sentia seus lábios no meu pescoço.

- Você vai mesmo lá em casa? - Ela quis saber.

Virei meu corpo para frente, e recebi um selinho em seguida.

- Vou. - Desviei meus olhos para Karin que passava atrás de Ino. Ela soltou um beijo para mim enquanto sorria. Voltei minha atenção para Ino. - Depois do treino.

- Estarei esperando. - Ela agarrou novamente meu pescoço e me beijou.

Agarrei sua cintura fina e aprofundei o beijo ainda mais, nos separamos quando escutamos um soar de garganta. Olhamos nós dois para o lado, vendo Karin na porta da sala com uma cara de tédio.

- Ino, para de ficar agarrando esse Uchiha aí, e vamos logo. - Karin chamou com uma voz tediosa, totalmente fingida.

- Já estou indo, Karin. - Ino se voltou para mim. - Tenho que ir, amor. - Ela limpou os vestígios de gloss que ficou em minha boca. - Você me liga quando estiver saindo do treino?

- Ligo.

Ela sorriu e se afastou. Coloquei minha mochila nas costas e saí da sala em seguida. Percebi que Sakura estava atrás de mim, ela e seus amigos, Gaara e Kiba. Senti uma onda de euforia quando escutei sua voz, mesmo que fosse zangada:

- Gaara, fala para esse energúmeno que se ele não quiser ficar com a cara amassada, é só não falar comigo.

- Você ouviu, Kiba - a voz de Gaara soou risonha, para o outro ao seu lado.

Aquilo foi à única coisa que eu escutei, já que eu não olhei para trás, e fui para outro caminho. Foram poucas vezes que eu pude escutar aquela voz de menina, porém cheia de autoridade e marra. Uma coisa dentro de mim se acendia.

Só tive uma hora de treino, e foi bem gratificante, bati meu recorde duas vezes, e aquilo era bom.

O treinador Asuma deu por encerrado o treino e mandou todos se dispensarem. Fui para o vestiário enquanto passava a toalha pelo corpo, me secando. Caminhei até a minha mochila e a tirei do armário, junto com as minhas roupas, escutando meu celular tocando.

O tirei de dentro da mochila, e vi o nome do Itachi na tela.

- O que foi Itachi?

- Sasuke, você ainda está no colégio?

- Sim, mas já vou embora - respondi, apoiando o telefone entre o ombro e o ouvido para vestir minhas calças.

- Faz um favor, vai até a assistência técnica e pega meu notebook para mim? - Ele disse. - Eles me ligaram agora a pouco e me disseram que já está concertado.

Fechei o zíper da minha calça.

- Por que você não pega?

- Sasuke, eu estou preso aqui no escritório do papai com uma pilha de documentos para serem revisados. A assistência fecha cedo e eu não vou conseguir chegar a tempo. Meus trabalhos da faculdade estão todos na memória do computador.

Bufei inconformado. Sabia o quanto Itachi estava nervoso por que seu notebook deu pane antes de ontem quando ele fazia um super trabalho para a faculdade que ele iria ter que entregar essa semana.

- Tá, eu pego. – Respondi, e pude escutar um suspiro de alívio do outro lado da linha. - Aonde fica essa assistência?

- Fica do outro lado da cidade, anota o endereço aí.

Tirei meu caderno da mochila e uma caneta e anotei o endereço que ele passava, e quando ele terminou de passar, meu celular morreu. Olhei o visor percebendo que a bateria havia acabado.

- Que merda. - Murmurei, tacando o celular na mochila e arrancando a folha do caderno, a dobrando e colocando no bolso de trás.

Coloquei minha camisa e os sapatos, guardei o caderno e fechei a mochila, o colocando nas costas e saí do vestiário.

Caminhei em passos rápidos até o estacionamento quase vazio. Eu tinha que passar na assistência antes de ir para casa da Ino. Entrei no meu carro, jogando minha mochila no banco do passageiro. Engatei a chave na ignição, girei e...

- Merda, de novo não.

O carro começou a mesma palhaçada de hoje de manhã. Aquilo só podia ser coisa mandada do inferno para me aborrecer. Tentei ficar calmo e não perder a cabeça. Girei a chave mais uma vez, e de novo, e de novo... na quinta tentativa finalmente consegui, e saí de lá o mais rápido possível. Suigetsu iria ouvir muito amanhã.

O caminho todo foi tranquilo, saí da avenida principal entrando numa outra rua do outro lado da cidade. Aqui as casa e lojas eram mais decaídas, não era como no centro ou a zona norte. Havia alguns camelôs espalhados, casas pequenas e simples e as ruas com um movimento mais pobre, e pessoas andando com sacolas de supermercado nas mãos.

Tirei o endereço do bolso e dei mais uma checada, não faltava muito para chegar. E como se o mundo estivesse conspirando contra mim novamente, meu carro morreu.

- Porra! - Gritei socando o volante com toda a força.

Tentei ligar o carro várias vezes e nada. Ele havia morrido de vez.

Saí do carro, batendo a porta com força, com um ódio enorme. Chutei o pneu para que a raiva pudesse ser amenizada. Olhei para os lados percebendo o lugar desconhecido por mim. Não conhecia muito bem aquele lado da cidade, e nem sabia por onde eu poderia arrumar ajuda.

Meu celular estava totalmente descarregado, eu só tinha três pratas no bolso. Não costumo levar muito dinheiro para escola, só o suficiente para o lanche. Eu estava definitivamente fodido.

Suspirei, encostando-me com as costas no carro, olhando para o chão. Ergui minha cabeça para cima, e para a minha total surpresa, eu vi Sakura a vinte metros de onde eu estava. Eu havia reconhecido imediatamente aqueles cabelos cor-de-rosa amarrados no costumeiro rabo de cavalo frouxo e suas roupas meio masculinas e largas. Sua cabeça estava abaixada enquanto via alguma coisa no papel que estava em suas mãos, totalmente distraída.

Alguma coisa em mim ficou diferente, eu me sentia agitado, meio nervoso. Ela era a única pessoa que eu conhecia ali. Ela era a única que possivelmente poderia me ajudar. Só aquele pensamento me fez sentir um frio no estômago.

Eu acompanhei todo o seu processo com o olhar. Ela estava tão distraída que estava passando por mim e nem me notou, como sempre. Aquela frustração me atingiu como uma bola de neve.

- Ei, você!?

Que caralho eu estava fazendo?

As palavras haviam saído sem eu ao menos perceber. Só o fato de perder aquela chance e perdê-la de meus olhos num bairro desconhecido por mim, me deixou de certa forma desesperado. Como aquela garota malvestida que eu mal a conheço conseguia me deixar tão louco assim?

Eu a vi, e como se estivesse em câmera lenta, o momento em que Sakura parou na calçada e virou se rosto para mim. Nossos olhos se encontraram e na mesma hora eu senti meu sangue correr mais rápido.

Ela estava perto, quase um metro e meio longe de mim. Perto o bastante para eu perceber o quanto seus olhos eram mais verdes do que eu pensava, grandes e brilhantes. Seus cílios totalmente naturais eram longos, sua pele branca e pálida, contrastava com as bochechas coradas pelo calor que fazia. Sua boca com lábios finos estavam numa linha reta.

Ela estava me vendo, pela primeira vez ela estava me notando.

Fiquei calado que nem um panaca, a encarando. Seu cenho logo se juntou, formando um pequeno V entre as sobrancelhas finas e rosa. Em seguida ela virou seu rosto para frente e voltou a caminhar. Mas eu não podia deixá-la escapar, essa podia ser a única chance que eu tenho para descobrir o que essa garota tem de diferente que me deixava tão obcecado para saber sobre ela.

Voltei a chamá-la de novo e dessa vez, minha voz havia saído mais firme:

- Estou falando com você!

Sakura voltou a parar, e me olhou mais uma vez, seus lábios estavam crispados, o V não havia saído entre as sobrancelhas.

Ela olhou para os lados, depois olhou para frente, para enfim voltar seus olhos para mim. Arqueou uma sobrancelha para cima, na mesma hora que eu pude escutar o timbre de sua voz sarcástica:

- Olha o que temos aqui? Sasuke Uchiha falando comigo, uma reles mortal?

Não havia gostado do tom debochado que ela havia se referido a mim, mas fiquei surpreso e um pouco animado por ela saber meu nome. Quem diria.

- O próprio. - Forcei para que minha voz saísse, mas não podia mostrar que eu estava redondamente abalado com a nossa primeira troca de palavras, mesmo que não seja como eu imaginei, nem em um milhão de anos.

Ela aproximou alguns passos fortes até mim, mostrando toda a sua marra no andar.

- E o que a vossa realeza quer comigo?

Se eu disser que ela se curvou que nem os súditos se curvam para o rei, vocês iriam acreditar? Pois acreditem, ela se curvou para mim num jeito totalmente debochado.

Franzi o cenho.

- Você está zombando de mim?

Ela ergueu seu rosto para cima e me olhou com uma surpresa totalmente fingida.

- Ah, não, sou incapaz de zombar de alguém como você, majestade. - Ela fez questão de destacar o "majestade", balançando a cabeça para os lados e sorriu de lado, um sorriso maldoso.

- Mas não é o que parece. - Minha voz saiu entre dentes. Mesmo que eu esteja surpreso por estar tendo aquela conversa com ela, não pude deixar de me irritar pelo fato de alguém como ela ficasse tirando sarro de alguém como eu.

Aos poucos o seu pequeno sorriso de lado desapareceu, tomando uma expressão séria.

- O que você quer? - Seu tom de voz saiu frio e rude. - Bater papo que não é. Então desembucha playboy, por que eu não tenho tempo para ficar perdendo com gente como você.

Gente como eu?

Aquela simples palavra me pegou desprevenido, me senti diminuído. Reprimi aqueles sentimentos e coloquei a minha cara séria, e falei a coisa mais estúpida que passou pela minha cabeça:

- Você pode me ajudar?

Sua expressão séria dera o lugar a uma expressão surpresa.

- Ajudar você?

- Você pode me emprestar um celular? - Perguntei, iria ser de grande ajuda. Eu ligaria para Naruto vir me pegar e depois ligaria para o guincho.

- O quê?

- É que meu carro quebrou - apontei para ele atrás de mim -, e minha bateria está à zero. Preciso ligar para o reboque.

Ela ficou algum tempo me olhando, como se eu fosse algum tipo de bicho bizarro.

- Eu não tenho crédito - sua voz soou depois de segundos me encarando.

- Não tem problema, eu posso ligar a cobrar.

Ela levantou as palmas das mãos para cima.

- Meu celular também está sem bateria. - Seu tom de voz saiu zombeteiro, e aí eu percebi que ela estava mentindo.

Franzi o cenho, perdendo a paciência. Ela pensa que eu sou o quê? Um otário?

- Por que você não fala de uma vez que não quer me emprestar? - Falei, minha voz saindo mais grossa e um pouco raivosa.

- Eu não quero te emprestar.

Tá, essa doeu até no meu fígado. Como uma pessoa podia ser tão cara de pau e megera assim? Ah me esqueci, estou falando com Sakura Haruno.

- Valeu - murmurei, sentindo a raiva me consumindo aos poucos.

- De nada - ela tinha o descaramento de sorrir para mim. - Se era só isso, então estou indo.

Eu pensei em tentar impedi-la, até por que, minha última chance era seu celular. Eu até podia encontrar alguma loja de conveniência por ali e pedir para fazer uma ligação, mas o problema era que eu não sabia aonde iria encontrar uma. Droga! Maldito seja você Itachi, por me mandar para esse lugar. E maldita seja você Sakura Haruno, por ser uma desgraçada ruim.

Eu acompanhei com o olhar ela se afastando com os passos normais e pesados. Parecia que nada havia acontecido. Mas eu vi de repente ela parar. Seus ombros subiram e depois desceram, como se ela soltasse um suspiro, virou seu corpo para trás, e veio em seguida até mim.

- O que foi? Veio tirar mais uma com a minha cara novamente? - Perguntei, observando ela se aproximando mais de mim.

Ela revirou os olhos e parou de frente para o meu carro.

- Fica quieto na tua, playboy. - Ela olhou para o capô do carro. - O que ele tem?

Ela se referia ao carro.

- O quê? Vai dar uma de mecânica agora? - Ironizei, cruzando os braços. - Dispenso seus serviços de quinta.

Ela me fitou com chamas nos olhos, parecia que iria voar no meu pescoço a qualquer momento. Hesitei em dar um passo para trás.

- Isso que dar tentar ser boazinha e ajudar imbecis como você. - Ela ralhou raivosa. - Se não quer minha ajuda então se dane, você e seu carro.

Ela virou os calcanhares para sair, e na mesma hora percebi a merda que eu havia feito. Ela havia voltado para me ajudar e eu começo a tirar sarro dela? Como eu podia ser tão sequelado assim?

Corri e agarrei seu braço, senti uma descarga elétrica percorrendo todo o meu corpo quando toquei em sua pele macia e quente. Ela se virou-se para mim, e me olhou assustada, desviou seus olhos para o seu braço. Fiz o mesmo e logo a soltei, voltando a fitá-la.

- Foi mal aí - falei. - Não quis te ofender.

Ela não disse nada, apenas cruzou os braços.

- Eu preciso de um guincho para levá-lo até a uma oficina. - Expliquei, ainda sentindo aquele formigamento na minha mão.

- O que ele tem? - Ela quis saber.

- Não sei. Ele morreu.

Ela me fitou e depois caminhou até o capô do carro e sem o menor previsto ela o abriu. A fumaça invadiu e ela se afastou um pouco para trás, abanando com a mão.

- O que você vai fazer? - Perguntei assim quando a via mexer em alguma coisa no motor, como se soubesse o que estava fazendo.

- Está faltando água no reservatório. - Ela disse, ainda olhando o motor do carro, me aproximei. - E os bicos ejetores estão sujos - ela fechou o capô em seguida. - Você vai ter que chamar um guincho e mandá-lo para a oficina.

Eu a observava, ainda atordoado com aquilo que ela havia falado.

- Como você sabe disso?

Ela me olhou, e arqueou a sobrancelha.

- Como que você não sabe disso? - Ela respondeu a minha pergunta com outra pergunta.

- Eu não sou mecânico.

- Não precisa ser mecânico para saber que o carro está precisando de água. - Seu tom saiu novamente debochado, enquanto me olhava com superioridade.

Bom, ela havia me pegado nessa.

Ela suspirou pesadamente e levou sua mão direita atrás de suas costas onde sua mochila de um jeans velhos estava. Escutei um som do zíper e segundos depois, volta trazendo uma caneta.

Apenas a observava. Ela se aproximou mais de mim, pegou a minha mão sem prévio aviso, deixando-me surpreso com sua ousadia. Ela virou minha palma para cima com uma mão e com a outra ela levava a caneta até a boca, tirando a tampa da mesma.

- O quê?

Não consegui pronunciar uma palavra devido o meu choque com a sua ousadia. Ela começou a escrever, eu sentia a pequena esfera da caneta que liberava a tinta preta formigar em minha palma. Tentei ver o que ela escrevia, mas não conseguia por causa de sua mão canhota que ela escrevia.

Sakura soltou a minha mão e logo a virei para mim. Havia um número de telefone em cima, e abaixo um endereço.

Olhei para ela, surpreso.

- O que significa isso?

Ela tampou a caneta.

- O número do guincho e o endereço da oficina. - Ela respondeu tranquilamente. - Você ganha dez por cento de desconto na oficina se falar que fui eu que o indiquei.

- Hm? - Olhei novamente para minha mão, meio embasbacado.

- Ah - a fitei e ela continuou -, daqui a duas quadras tem uma loja de conveniência, você pode fazer a sua ligação.

Apertei meus olhos.

- Você me pouparia muito tempo se me emprestasse o seu telefone.

Ela ergueu os ombros para cima.

- Sou apegada a bens materiais. - Sorriu falsa. - E eu não costumo emprestar minhas coisas para playboys como você.

Bufei novamente com seu jeito debochado e sarcástico. Puta que pariu, como aquela garota podia ser tão foda assim?

- Tchau, playboy. - Ela nem deu tempo para eu responder e saiu com seus passos seguros e marrentos, e em poucos segundos sumiu do meu campo de visão.

Fiquei que nem um otário, parado, fitando a rua deserta. Voltei a olhar minha mão rabiscada e não pude conter o pequeno sorriso que se abria em minha boca aos poucos.

Sakura havia me surpreendido e me desarmado, me pegando com a guarda baixa de uma só vez. Ela sabia quem eu era, mas também me repudiava, eu percebi isso. Ela era misteriosa para o meu ver, e mesmo ela sendo a garota mais megera, ousada, e marrenta de todas, eu fiquei fascinado. Sei lá, eu achei incrível o seu jeito ousado. Nem em um milhão de anos Ino ou Karin seria que nem ela, pois Sakura conseguia ser melhor.