Capítulo 4 - Megera

Joguei-me na cama, sentindo o cansaço daquela tarde totalmente estressante e diferente. Ainda estava bolado por causa do carro e da minha estranha conversa com Sakura. Eu não havia processado todo o seu sarcasmo comigo, e muito menos as suas atitudes más.

Nunca pensei que ela pudesse ser uma verdadeira megera e irônica. Mas apesar de sua grosseria e de sua falta de piedade com uma pessoa que estava precisando de ajuda, eu meio que gostei de seu jeito meio marrento.

Sorri, enquanto virava meu corpo, ficando de barriga para cima.

Eu deveria está louco.

Depois de achar a mercenária que Sakura "gentilmente" havia me indicado, consegui fazer uma ligação para o reboque e depois para Naruto vir me buscar. O dobe reclamou por eu ter atrapalhado seu momento com a namorada, mas pouco estava me fudendo para ele, ainda tinha que pegar a droga do notebook de Itachi na Assistência Técnica. O senhor de meia idade que ficava atrás do balcão, foi legal e me deixou usar seu telefone sem fazer perguntas.

Ainda existia gente boa neste mundo.

Fiquei um tempo esperando o reboque e Naruto, mas o dobe chegou primeiro, e vinte minutos depois o reboque. Dei o endereço que Sakura havia me indicado, não sabia o porquê eu tinha feito aquilo, até por que, a oficina ficava daquele lado da cidade, e eu poderia muito bem ter seguido a sugestão do cara do reboque e levado para a oficina de minha zona.

No carro de Naruto, seguimos o reboque que levava o meu carro até a oficina decaída numa rua com casas pequenas e simples. Apesar da oficina não ser aquelas coisas, os caras que trabalhavam lá até que eram legais, eles deram uma verificada no carro rapidamente e depois de eu ter relatado o problema dele, eles me disseram a mesma coisa que Sakura havia me dito.

Como eu poderia ser tão otário e não perceber que o carro precisava de água?

O cara chamado Hidan disse que eu poderia pegá-lo amanhã à tarde, e que o preço seria discutido quando eu fosse buscá-lo, pois ele tinha que procurar a peça que ele iria trocar.

Fui embora, e depois de ter pegado o notebook de Itachi na assistência, que estava quase fechando, Naruto me deixou em casa.

Virei-me na cama, e naquele movimento me lembrei de Ino.

- Droga! - Praguejei baixinho, enquanto me levantava da cama e ia até a mochila que estava jogada num canto, peguei meu celular.

Como é que eu podia esquecer que eu tinha uma trepada marcada?

Peguei o carregador que estava em cima da cômoda e o conectei no celular. Esperei dar uma pequena carga no aparelho até eu ligá-lo.

Havia quinze chamadas perdidas de Ino, duas de Itachi e uma da Karin. Não me surpreendi por ver a chamada da Karin, acho que ela só ligou para provocar, pois ela completamente deveria saber que eu deveria estar com a Ino, já que as duas eram melhores amigas e uma contava as coisas para a outra.

Deixando isso de lado resolvi ligar para Ino. Chamou várias e várias vezes, mas parecia que Ino não queria me atender. Então resolvi desistir, não iria ficar bancando o otário correndo atrás de alguém que não estava querendo falar. Amanhã eu resolveria isso.

Deixei o celular no canto e me joguei novamente na cama. A casa estava silenciosa e vazia, a noite já tinha caído. Senti meu corpo relaxando e nem percebi quando peguei no sono.

. . .

Acordei com o barulho do despertador. Abri os olhos encontrando o quarto escuro, e depois de desligar aquele som chato, me levantei. Como todas as manhãs, fiz minhas necessidades e me arrumei, peguei minha mochila que ainda estava no chão, e intocada, e saí do quarto.

A casa estava vazia, não vi sinal de meus pais desde ontem quando cheguei. Joguei a mochila no sofá e entrei na sala onde fazemos as refeições, encontrando Itachi comendo seu cereal como ele fazia todas as manhãs.

- Valeu por ter pegado o note para mim. - Ele disse com sua atenção voltada para mim, quando me sentei de frente para ele.

Comecei a me servir, desviando meu olhar para ele rapidamente.

- Mas isso custou o meu carro. - Murmurei, com o meu humor matinal péssimo.

Itachi ergueu suas sobrancelhas.

- Como assim? O que aconteceu com o seu carro?

- Ele ficou ruim no meio do caminho. - Despejei o café na xícara. - E para piorar, eu estava sem dinheiro e a bateria do meu celular acabou.

Ergui meu olhar quando ele soltou uma risada abafada.

- Caramba, que azar - riu mais um pouco. - Foi por isso que a ligação se encerrou do nada?

Assenti com a cabeça.

- Nossa! Foi mal ter causado todo esse transtorno. - Ele pareceu sincero.

Apenas suspirei, dano um gole do meu café pouco amargo.

- Mas seu carro é novo ainda para dar problemas - ele comentou, pensativo. -, papai vai ficar uma fera quando souber.

- Ele não precisa saber. Vou pegar o carro hoje na oficina - o fitei. - E por falar no pai, cadê ele? Não o vi, e nem a mamãe.

- Os dois viajaram ontem à tarde de última hora. Foram para Oita fechar uns contratos para a nova filial deles.

- Hm.

- Eles devem chegar hoje à noite.

Assenti novamente e voltei à atenção para o meu pão, dando vez ou outra um gole do meu café. O silêncio havia se estendido naquela mesa até terminarmos de tomar nosso café, calados.

- Quer carona para escola? - Ergui meu olhar para Itachi que se levantava da cadeira.

- Estou sem carro, o que você acha? - Não pude controlar minha ironia, meu humor realmente não estava legal.

- Acordou com a macaca hoje, foi? - Estava demorando para Itachi começar com a palhaçada.

- Só me deixe em paz.

Caminhamos em silêncio até o seu carro na garagem. Diferente do meu, Itachi tinha um Nissan Livina Preto que ele ganhou ano passado. Lembro-me quando ele ganhou, eu meio que senti uma ponta de inveja por não ter sido eu em seu lugar ganhando o carro. Mas depois de uns meses, e ter passado com as melhores notas no colégio, meu pai resolveu me presentear com o meu primeiro carro, já que eu tinha conseguido tirar a carteira.

Depois de algum tempo em silêncio no carro e de Itachi ter desistido de puxar conversa comigo, ele estacionou em frente ao colégio. Murmurei apenas um valeu antes de sair, sem esperar uma resposta.

Caminhei pelo pátio, indo em direção ao meu lugar, onde eu ficava com os meus amigos. Mas no meio do caminho dou de cara com Suigetsu, vindo da direção contrária aonde eu ia. Franzi minha testa, enquanto eu me aproximava. Hoje ele não me escapava.

- E aí, Sasuke - ele cumprimentou com seu jeito descontraído, enquanto sorria e mastigava alguma coisa ao mesmo tempo.

Parei de frente para ele.

- Que merda você fez no meu carro? - Fui logo questionando, minha cara não deveria estar das melhores.

Suigetsu uniu as sobrancelhas, num gesto confuso.

- Ahn?

- Meu carro começou a ficar ruim depois que eu te emprestei naquele dia. O que você fez com ele?

- Eu não fiz nada - ele disse num tom de defesa. - Só levei a minha mãe na casa da minha avó como eu disse para você. Eu não podia levá-la de moto, você sabe que a minha velha é meio neurótica.

- Mas conhecendo você como conheço, você deve ter feito alguma merda depois. - Acusei, sentindo minha irritação aumentar.

Suigetsu passou a mão no rosto e me olhou.

- Cara, eu não fiz nada. Eu fiquei o tempo todo ao lado das duas, que não me deixava em paz. Depois eu voltei, deixei minha mãe em casa e fui devolver o carro. Só isso.

Eu o fitava minunciosamente, tentando ver algum vestígio de mentira, mas não encontrei nada. Ele parecia dizer a verdade.

Suspirei, dando-me por vencido. Não iria mais ficar discutindo aquilo, até por que, o carro já estava na oficina mesmo.

- Tá - desviei meus olhos para os lados.

- O que foi que aconteceu com ele? - Suigetsu perguntou.

- Ele não estava querendo ligar, e me deixou na mão na rua ontem.

- Talvez devesse ser à falta de água no reservatório.

Mas que merda! Por que eu era o único que não tinha percebido isso?

- Hm - resmunguei.

- Tenho que ir.

- Vai aonde? - Eu e essa minha curiosidade.

- Vou a enfermaria pegar algum remédio que pare a dor de barriga. - Ele fez uma careta. - Ontem eu fiquei o dia todo da cama para o banheiro. Estou com uma caganeira miserável.

- Poupe os detalhes, Suigetsu, isso é nojento.

- Tá legal, tchau.

Ele passou por mim que nem uma bala, sumindo por entre os alunos. Apenas dei de ombro e segui meu caminho, e logo cheguei ao meu lugar. Meus amigos estavam todos lá, exceto Shikamaru.

- Fala, teme!

- E aí - murmurei, desviando meu olhar para Ino escorada na pilastra de concreto com Karin ao seu lado. Ela estava de costas para mim, me ignorando.

- Naruto disse que você está sem carro. - Comentou Neji ao meu lado, me fazendo olhá-lo.

- Ele está na oficina. Vou pegá-lo hoje.

- Ah.

Deixei-os de lado e caminhei até Ino, que estava um pouco afastada. Percebi que ela havia me notado, pois Karin que estava ao seu lado, comentou baixinho sem tirar os olhos de mim.

- Ino - falei quando fiquei ao seu lado.

- Ino, eu vou indo...

- Você fica. - Ino interrompeu Karin, que fingia ser uma boa amiga samaritana. - Não tenho nada para falar com esse idiota.

- Ino eu tive um problema com o meu carro e eu fiquei...

Ela me interrompeu, virando seu rosto raivoso para mim.

- Eu não acredito nessa sua desculpa esfarrapada. Você poderia ter me ligado e não ter me deixando que nem uma tonta te esperando. - A voz histérica de Ino estava começando a chamar atenção.

- Meu celular estava descarregado. - Falei rapidamente, tentando manter meu nível de paciência no lugar.

Ino soltou uma risada debochada, ficando séria em seguida.

- Você pensa que eu sou idiota, Sasuke? - Seus olhos azuis estavam arregalados e pouco avermelhados.

Ela continuou, agora com a voz um pouco mais calma:

- Eu me arrumei toda para você, preparei o local para que ficasse o mais romântico possível. Eu fiz comida! Queimei meus dedos no fogão tentando fazer uma coisa legal para nós comermos. - Ela deu uma pausa, parecia ganhar fôlego. - Eu me senti uma tonta por ter feito tudo isso para alguém que não está nem aí para mim. Eu te liguei várias vezes e nem uma ligação retornando você fez.

Franzi o cenho.

- O quê? Eu liguei sim quando cheguei em casa, você que não me atendeu.

Era só o que me faltava. Sabia que tinha pisado na bola com Ino, até por que, eu tinha marcado com ela que eu estaria lá. Mas falar que eu não retornei sua ligação, aquilo já era demais.

- Deixa de ser mentiroso. - Ela acusou, sua voz aumentando alguns décimos. - Meu celular não tocou nenhuma vez. Não tem nenhuma chamada sua registrada.

- Como não? Eu te liguei.

- Eu não quero saber mais de suas mentiras. Vamos Karin.

Ela deu as costas para mim e se afastou com passos rápidos, com Karin ao seu lado. Não fiz nada para impedi-la, e muito menos reforcei a minha versão dos fatos. Eu não tinha feito nada de errado, e se Ino não queria acreditar em mim o problema era dela.

- Sua rádio patroa está bufando, né? - Disse Neji pondo uma mão em meu ombro.

- Não estou nem aí.

. . .

As aulas haviam se passado tediosas como sempre. Ino ainda me ignorava, como se eu fosse o vilão da história e ela a vítima. E se ela pensa que eu iria bancar o babaca e correr atrás dela para me redimir de uma coisa que eu não tinha culpa, ela estava redondamente enganada.

Levantei-me da cadeira, colocando minha mochila nas costas, e não pude evitar de olhar Sakura que havia passado por mim com seus dois amigos ao seu lado. Ela ainda me ignorava, como se eu não existisse. Uma parte de mim agradecia por isso, pois não queria que meus amigos ficassem no meu pé por ela ficar me olhando ou dizer alguma coisa. Outra parte estava irritado por ela me ignorar. Parecia que ontem não existiu e que fantasiei toda a nossa conversa, todo o seu sarcasmo comigo, mas eu sabia que tinha acontecido.

Ela agia normalmente, e isso me deixava redondamente frustrado. Qual era o meu problema afinal? Eu tinha que parar com aquilo, Sakura não era ninguém, só uma garota anormal que tinha mania de se vestir como um garoto.

Saí da sala e caminhei para o lado contrário, em direção aos banheiros. Minutos mais tarde abri a porta do banheiro e assustei-me quando fui arrebatado com um corpo magro, atacando minha boca em seguida. Levei alguns segundos para processar o que estava acontecendo, até perceber a cabeleira ruiva de Karin me empurrando para dentro do banheiro novamente.

Agarrei seus dois braços e a afastei seu corpo do meu com certa brutalidade, encerrando o beijo.

- Karin, você está louca? - Briguei, minha voz saindo baixa, porém irritada.

- Estou com saudades. - Ela disse com a voz de gata manhosa, agarrando meu pescoço, aproximando-se de minha boca, mas desviei.

- Você não deveria estar com a sua amiga?

- Own - fez biquinho -, Ino está muito chata. Não quero ficar ouvindo ela te xingar dos piores nomes a cada cinco segundos.

Não me surpreendi com aquela revelação, pois já imaginava que Ino estivesse xingando até a minha décima geração. Mas alguma coisa estava errada em nossa briga.

- Você não tem nada haver com o sumiço do meu número na chama do celular de Ino, ou tem?

Sabia que a ruiva poderia ter feito isso, pois aquilo era bem a cara de Karin. Uma vez que ela traía sua própria melhor amiga comigo.

Ela se afastou um pouquinho, parecia ressentida.

- Sério que você pensa isso de mim?

- É meio óbvio, não? - Ergui uma sobrancelha.

Ela se aproximou, e puxou meu lábio inferior com os dentes.

- Eu não preciso disso se for para tirar você da Ino - ela sorriu confiante e se aproximou de meu ouvido. - Só uma hora comigo na cama você já toma sua decisão por si próprio.

Karin era uma vadia da pior espécie, e como todas as vadias, ela sabia o que fazia. Ela colou sua boca na minha e não protestei, e muito menos a afastei dessa vez, apenas me deixei levar como das outras vezes.

Tomei o controle da situação e a puxei para dentro de uma das cabines vazias onde a putaria comeu solta.

. . .

O táxi parou em frente à oficina, e depois que paguei a corrida saí do mesmo. Era umas quatro horas da tarde, o treino se estendeu por meia hora a mais, consequência do meu atraso. Meu assunto com Karin dentro do banheiro havia demorado mais do que o esperado, aquela ruiva era fogo.

Olhei mais uma vez a sacada decaída da oficina antes de entrar, sentindo cheiro de óleo e graxa impregnado no local.

- Quer ajuda, meu amigo?

Virei meu rosto para o lado, encontrando um cara ruivo de olhos castanhos. Usava uma camiseta branca toda suja de graxa, a calça cinza também na mesma condição da camiseta. Ele limpava suas mãos na calça, as sujando mais.

- Eu vim pegar meu carro.

- Chevrolet?

Apenas assenti.

- Por aqui.

O segui, ele caminhava a minha frente e logo paramos de frente ao meu carro.

- Fui eu que concertei - ele começou abrindo o capô para mim. - Troquei o bico injetor que estava sujo, e pouco danificado, e o reservatório estava faltando água. Isso é importante para o funcionamento do carro, de vez em quando tem que dar uma olhada.

- Entendi...

Antes mesmo de completar a palavra, minha atenção foi toda voltada para uma escada num canto esquerdo, onde o barulho de passos apressados descendo ecoava por ela, e uma voz muito familiar soou para logo o perfil de Sakura aparecer:

- Sasori, o Hidan está te chamando lá em cima... agora... - sua voz morreu aos poucos quando sua atenção focou em mim enquanto sua expressão ficava surpresa.

Também estava surpreso por vê-la ali, e não pude evitar sentir aquele frio na barriga. Meus olhos que estavam focados nos seus, desviraram lentamente para as roupas que ela usava. Um macacão largo e cinza todo manchado de graxa, onde a parte de cima estava caída pelos quadris deixando-a só com um top preto e curto, com sua barriga lisa a mostra. Seus cabelos estavam como sempre prendidos num rabo de cavalo frouxo. Sua pele branca destacava suas bochechas rosada e os lábios num vermelho natural.

Apesar dela está daquele jeito meio informal, ela estava com um aspecto meio sexy naquilo tudo, e eu meio que fiquei embasbacado com aquela visão diferente dela.

- Playboy, o que faz aqui? - Sua voz me tirou de meus devaneios, fazendo-me voltar a minha expressão de indiferente, ocultando o susto e a surpresa por vê-la ali.

- Vim pegar o meu carro. - Agradeci por minha voz não ter vacilado, e saído firme. - E o que você faz aqui?

Ela se aproximou mais, parando ao lado do cara ruivo, que descobri que se chamava Sasori.

- Eu trabalho aqui. - Ela disse como se fosse óbvio, enquanto arqueava uma sobrancelha.

- Espera... - disse Sasori, olhando de mim para Sakura com uma cara confusa. - Vocês se conhecem? - Ele abanou as mãos. - Ah, não importa. Sakura atenda-o, ele veio pegar o Chevrolet, o preço está anotado no livro. Vou ver o que Hidan quer.

Ele começou a se afastar, mas Sakura o chamou:

- Aonde você colocou a chave L?

Ele parou e virou sua cabeça para trás.

- Está em cima do balcão, o lerdeza.

Sakura apenas revirou os olhos, tirou o pano sujo do seu bolso de trás e o tacou nele, mas Sasori foi rápido o pegando a tempo, antes que acertasse em sua cara. Um sorriso debochado se abriu no rosto do ruivo antes dele voltar a seguir seu caminho.

Eu ficava olhando o modo como eles se tratavam, eles pareciam muito íntimos para manter aquele tipo de brincadeiras, típico de velhos amigos. E alguma coisa lá no fundo de mim também queria aquele tipo de intimidade com Sakura, coisa que aquele ruivo tinha.

Sakura virou-se para mim.

- Venha.

Aquilo foi à única coisa que ela disse antes de sair a minha frente, indo em direção aos fundos da oficina, onde um balcão ficava com um computador branco daqueles antigos em cima.

Apenas a segui, calado, fitando suas costas quase toda a mostra, fazendo-me perceber que ela tinha um corpo bonito que se escondia atrás daquelas roupas largas. E claro que se ela fosse uma garota das quais eu estava acostumando, ela não pensaria duas vezes antes de se exibir por aí com roupas curtas e provocantes. Mas Sakura não era como as outras garotas, e eu sabia muito bem disso.

Ela foi para detrás do balcão, enquanto parei de frente para ele. Ela pegou um caderno grande com uma capa preta de aspirais e começou a folheá-lo, até parar numa página e passar o dedo delicadamente pelas linhas escritas até parar em uma. Em seguida ela se virou para o computador e digitou alguma coisa no teclado para depois olhar para mim.

- Ficou em duzentos e vinte yens.

- Tudo isso? - Minha voz aumentou de tom, não pude deixar de ficar surpreso com a facada no meu bolso.

- O bico ejetor não é nada barato, sem contar a mão de obra e o nosso tempo perdido. - Ela disse como se fosse óbvio.

- Isso é um assalto. - Murmurei, abrindo a minha carteira e tirando o meu catão de crédito e a entreguei. - Quero meu desconto.

Ela me olhou com as sobrancelhas erguidas de um jeito como se eu tivesse dito alguma bizarrice.

- Desconto? Que desconto?

Não pude evitar soltar um sorriso sarcástico, tipo daqueles que ela soltava para mim.

- Esqueceu que eu ganharia dez por cento de desconto se eu trouxesse meu carro para cá e indicasse seu nome? - Minha voz saiu fria, mas eu não poderia dar mole para ela. Aquela garota sabia driblar direitinho os outros.

Ela pegou a máquina, enfiando o cartão na abertura.

- Pensei que você não se lembraria. - Murmurou sem me olhar, enquanto digitava alguns botões.

- Tenho uma memória muito boa - meu pequeno sorriso de canto saiu irônico.

Ela ergueu seu olhar para mim, enquanto me entregava à máquina.

- Não quer deixar como caixinha? - Ela perguntou, com a voz mansa, mas percebia que era fingimento.

- Não, exijo meus direitos.

Entreguei a máquina depois que digitei minha senha.

- Pão duro.

Não a respondi aquele insulto, apenas fiquei a olhando cada detalhe, cada gesto que ela fazia. Tudo nela me chamava atenção, ela era como um enigma que precisava ser desvendado, e minha curiosidade sempre contribuía para isso.

- Você trabalha aqui há muito tempo? - Novamente não pude evitar o impulso de minhas palavras saírem sem eu perceber.

Ela ergueu seu olhar mais uma vez para mim, me cobrindo com aquela imensidão verde que era seus olhos, me deixando extasiado e hipnotizado, mas fiz o máximo para não transparecer.

- Acho que isso não é da sua conta, playboy.

Aquilo tinha sido como um balde de água fria em mim, onde eu pude sentir o gelo que havia entre a gente. Nós não éramos amigos, e sua vida não era da minha conta, como a minha não era da conta dela. Nunca passou pela minha cabeça ser amigo de alguém como ela, mas alguma coisa me fazia insistir, e quebrar as regras, e era o que eu estava fazendo.

- Você é sempre sarcástica assim com os outros, ou é só comigo mesmo?

Ela desviou seus olhos de mim e digitou alguma coisa no computador, e em seguida a nota fiscal comprovando que eu paguei, saía do pequeno aparelho ao lado.

- Acho que só com idiotas e cretinos como você.

Franzi o cenho, não havia gostado de sua resposta. Quem ela pensava que era para me julgar assim sem ao menos me conhecer?

Ela se virou e estendeu a nota para mim.

- Você mal me conhece para me julgar desse jeito. - Eu disse, ignorando sua mão estendida.

Um sorriso sarcástico se abriu em sua boca.

- Engraçado, isso também pode se aplicar para você e seus amiguinhos.

Como é?

- Não sei do que você está falando. - Me fiz de desentendido, mas na verdade, eu estava elétrico pela sua frase e torcia internamente para que não seja o que eu estava pensando.

- Não sabe? Então eu vou te lembrar. - Ela apoiou seus dois braços na bancada e se aproximou de mim. - Estou falando do fato de que você e seus amiguinhos amam falar mal de mim pelas costas.

Senti meu coração dar um pulo, e evitei arregalar os olhos, não consegui dizer nada depois disso.

Ela continuou:

- Eu que me admiro, você me acusa que estou te julgando sem ao menos te conhecer, mas na verdade é você que sempre faz isso comigo, ou com os meus amigos. - Apesar de seu tom sair calmo, eu percebia um toque raivoso de sua voz ao me atacar com aquelas palavras.

Nunca me senti tão idiota e minúsculo como eu me sentia agora. Sakura estava me fazendo sentir vergonha de mim mesmo, me lembrando do quanto eu era infantil por fazer aquele tipo de brincadeira com meus amigos.

- Mas, sabe playboy, você tem a chance de falar isso na minha cara. - Sua sobrancelha ergueu, seu rosto estava suavizado, mas eu via o brilho diferente em seu olhar. - Vamos, pode dizer que você me chama de mal arrumada, mendiga, baranga, favelada e entre outras coisas. Pode falar, é a sua chance agora.

Puta Que Pariu!

Que porra estava acontecendo? Como ela sabia dessas coisas? Como? Eu sabia que não éramos tão discretos quando fazíamos aquelas piadinhas a seu respeito, pois muitas vezes Ino e Karin faziam questão em dizer alto. Mas ela não se afetava, como se aquilo não fosse para ela ou como se ela não estivesse escutado.

Mas agora aqui, ela estava na minha frente, olhando nos meus olhos, com a maior cara de pau, com uma expressão quase indecifrável no rosto, falando aquilo na minha cara, me deixando numa situação complicada e indelicada demais para sair.

- Não vai falar? - Seu tom saiu debochado. Eu não respondi, pois eu não tinha mais voz. - Pois eu tenho coragem de dizer na sua cara que você é só um playboyzinho mimado, filhinho de papai que não sabe nada da vida e que adora julgar as pessoas pelo que elas aparentam.

Suas sobrancelhas naquela hora se uniram, onde mostrava a sua irritação.

- Você é só mais um babaca que tem sobrenome importante e que pensa que todos têm que se jogar aos seus pés. Mas na verdade, meu amor, você só está bancando o ridículo no final da história. Se quer me julgar, então me julga pelo o que sou, e não pela minha aparência ou pelas roupas que eu visto. Eu não te devo nada, e pouco estou me fudendo para o que você e seus amigos pensam de mim.

Eu estava completamente passado. Minha mente tentava diluir tudo o que ela me disse agora. Tudo.

Quem era aquela garota afinal?

Eu não tirava a sua razão, pois o que eu fazia era errado, e o pior disso tudo era ser esculachado pela pessoa que eu humilhava. Eu estava me sentindo diminuído, uma verdadeira poeira. Eu queria cavar um buraco e me enterrar.

Eu não disse nada, por que eu não tinha o que falar. Ela me deixou mais raso que uma banheira. E lá no fundo eu sabia que eu mereci isso, cada palavra que ela disse, mesmo que eu negasse até a morte e dissesse que ela era uma louca que dizia coisas com coisas.

Seu olhar verde e cheio de sarcasmo e um misto de raiva, encarava-me feroz. Ela tinha uma língua afiada e venenosa, pronta para atacar quem entrasse em seu caminho, e eu fui uma vítima sua.

Sakura Haruno era uma verdadeira megera.

A única coisa que eu podia fazer e que fiz, foi pegar a notinha de sua mão e dar meia volta com o meu rabo entre as pernas até o meu carro, sentindo seu olhar queimando em minhas costas. Entrei no carro, com uma manobra consegui tirá-lo da oficina, e fui embora.

. . .

Deitado na minha cama de barriga para cima e olhando para o teto, depois de um dia estressante, eu vagava internamente pelas lembranças de hoje mais cedo. Minha vida parece que estava virando de cabeça para baixo, e a culpada era ela.

Agora de cabeça fria e podendo estudar a situação lá na oficina, eu podia ter dado uma resposta à altura para ela, mesmo eu sendo o errado da história. Eu não podia ter ficado por baixo como eu fiquei. Como eu fui deixar aquela garota me esculachar daquele jeito, como se eu fosse qualquer um?

Bufei inconformado, e escutei duas batidas na porta. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, eu vi a porta sendo aberta, para em seguida a cabeça de minha mãe aparecer entre a brecha aberta.

- Meu bem, está acordado? - Ela disse com a voz baixinha, tentando me enxergar naquela minha bate-caverna.

- Estou, mãe.

Ajeitei-me, ficando sentado com as costas na cabeceira. Minha mãe entrou no quarto, fechando a porta atrás de si e ligando a luz, iluminando todo o quarto. Fechei meus olhos, voltando a abri-los lentamente, vendo minha mãe se aproximando da minha cama.

- Itachi falou que a senhora havia viajado para Oita com o papai.

Ela sentou-se na beirada da cama e me fitou com aquele rosto sereno. Ela se curvou e me deu um abraço rápido e um beijo na testa antes de responder:

- Sim, recebemos uma ligação de última hora e resolvemos ir ontem mesmo para fechar contrato hoje de manhã.

- Hm. E como foi? Conseguiram?

- Claro - ela sorriu. - E você, se alimentou direitinho? Foi para escola?

- Sim, mãe - revirei os olhos.

Dona Mikoto parece que não havia percebido que eu havia crescido, e não era mais uma criança.

Ela tentou arrumar alguns fios bagunçados de meus cabelos, antes de me entregar um pequeno saquinho azul aveludado.

- Vim entregar a correntinha.

Peguei o saquinho de suas mãos.

- Ah, obrigado, mãe.

- Era para ter te dado ontem, mas como eu viajei...

- Tudo bem, mãe.

- Como foi à aula?

- Bem.

Desviei meus olhos para as minhas mãos, num gesto distraído, quando novamente minhas lembranças me levavam até Sakura, a minha briga com Ino, e minha pegação com Karin no banheiro.

- Algum problema, querido?

Ergui meu olhar um pouco alarmante para minha mãe, que me olhava atenciosamente.

- Não.

Seu cenho deu uma leve franzida.

- Você não me engana Sasuke, conheço você muito bem para saber que algo está errado.

Minha mãe era realmente foda, seu olhar avaliador nunca perdia nada, e por muitas vezes eu era sempre descoberto nas traquinagens que eu fazia quando criança.

- Não há nada de errado, mãe. Só estou cansado do treino de hoje.

- E por falar em treino, quando vai ser a competição?

- Daqui a duas semanas.

- Colocarei isso na minha agenda, não quero perder meu filhotinho ganhando. - Ela sorriu, enquanto passava um dedo no meu nariz.

Não pude deixar de sorrir. Minha mãe sempre será coruja, não adiantava dizer ao contrário.

- Quando é que você vai me apresentar uma namorada, hein?

Ah não. A pior coisa do que ter uma mãe atenciosa demais, era uma mãe que presta atenção em sua vida amorosa.

Eu saía com Ino, e apesar de todos na escola pensarem que somos namorados, eu nunca a trouxe aqui em casa, aliás, nunca trouxe garota nenhuma aqui. E mesmo estando de rolo com ela, minha família não sabia, e eu nem estava afim de falar alguma coisa, pois o que eu tinha com Ino não era sério.

- Sério que vamos falar dessa conversa.

Ela ergueu uma sobrancelha.

- E por que não?

- Mãe, fala sério. - Murmurei, tentando o máximo sair daquela conversa.

- Falo muito sério - seus lábios se comprimiram. - E essa amiga do cordão?

- O que tem ela?

Eu tinha que ser cauteloso, pois sabia que minha mãe estava jogando algum verde.

- É alguém especial?

Bufei, me remexendo na cama.

- Não, mãe. É só uma garota, só isso. - Forcei um bocejo, para que ela percebesse que eu estava com sono.

- Tudo bem - ela se levantou. - Vou deixá-lo dormir.

Ela se inclinou novamente para mim e beijou minha cabeça.

- Boa noite, meu amor.

- Boa noite, mãe.

Sorri de lado, enquanto fitava ela se afastar, abrindo a porta do quarto e desligando a luz, saindo em seguida.

Suspirei.

Liguei a luz do abajur ao lado, dando uma leve iluminação no quarto. Abri o saquinho de camurça, tirando a correntinha dourada de lá dentro. Ela estava concertada. Levantei-me da cama, e fui até a cômoda, abri a gaveta de cima e peguei o pingente que estava no mesmo lugar que eu havia colocado. Abri o abotoador e coloquei a medalhinha, para em seguida abri o coração, revelando as duas pessoas ali.

Fitei a mais nova, que tinha o olhar triste que não compadecia com o sorriso no rosto.

- Sakura, Sakura - murmurei -, você é mais esquisita e complicada do que eu pensei.

Sorri amargurado, sentindo os efeitos do esculacho feito por ela. Mas mesmo eu tendo ficado com raiva e ter sito alvo de sua quase fúria, eu gostei dela ter me mandado aquela real. Por que eu estava merecendo.