Capítulo 10 - Trégua

O silêncio que havia naquele carro era irritante o suficiente para eu desviar meu olhar a cada segundo e focar na garota que caiu praticamente de paraquedas a minha frente. Sakura tremia de frio, encolhida no banco ao lado enquanto fitava algo invisível no painel do meu carro, parecia perdida em devaneios.

Parei o carro quando o sinal fechou, retirei o meu cinto de segurança e tirei a minha jaqueta do time que eu vestia e estendi para ela. Estava um pouco úmida devido à chuva que peguei, mas dava para se esquentar.

- Vista isso.

Sakura pareceu despertar para a realidade e me olhou, a expressão ainda abalada por minutos atrás e seus lábios estavam roxo e trêmulos de frio.

- Não precisa...

- Vista logo antes que você tenha um treco – havia interrompido seu possível protesto, recusando-se a minha gentileza.

Ela ficou alguns segundos com o olhar entre mim e o casaco que eu ainda estendia, o cenho pouco franzido e a boca ainda tremendo antes dela finalmente tomar a decisão sábia de aceitar o casaco, ainda meio que relutante. Murmurou um obrigada tão baixo que se não fosse pelo silêncio que fazia naquele carro, eu não conseguiria ouvir. Eu apenas voltei minha atenção para frente quando o sinal abriu, ao mesmo tempo que eu estava colocando o cinto novamente.

Dei uma última rabada de olho naquela pequena marrenta, e pude observar ela colocando o meu casaco. Não sabia explicar o que acontecia comigo naquele momento, mas senti um frio estranho circular o meu estômago só pelo fato daquela garota está vestindo uma peça de roupa minha. E pelo incrível que pareça, eu gostei dessa sensação.

- O que aconteceu com você? – Perguntei, jogando aqueles pensamentos estranhos que se formavam em minha mente para escanteio, e de ter percebido que Sakura não estava disposta a abrir a boca para dizer alguma coisa. E eu não podia deixar de sentir aquele pequeno desconforto de preocupação com ela. Pois não era todo o dia que se encontra uma garota marrenta chamada Sakura Haruno assustada e frágil, fugindo de algo que eu começava a suspeitar devido a alguns fatos que havia presenciado a alguns minutos atrás.

Ela estava com problemas.

E como estava prevendo, Sakura não me respondeu. Permanecia com os braços abraçando seu próprio corpo, se aconchegando ainda mais em minha jaqueta enquanto observava a janela embaçada ao seu lado.

Soltei um suspiro discreto, tendo consciência de que seria difícil arrancar algo daquela garota. Ela era osso duro. Revisei em minha mente um outro jeito de abordá-la, para que ela pelo menos dissesse algo – aceitaria até um xingamento seu - do me ignorar como ela estava fazendo naquele momento. Eu sabia que nós não tínhamos nenhuma intimidade para que eu exigisse uma explicação por ela está naquele estado, mas só o fato de eu ter a ajudado, eu merecia pelo menos uma consideração.

- Quer que eu te leve ao hospital?

- Não – sua resposta foi rápida e eufórica, trazendo agora sua atenção para mim.

- Você está sangrando – e a fitei pelo canto dos olhos rapidamente -, precisa fazer um curativo. Não quero que me processe por não ter feito nada por quase a atropelar

Sakura levou a mão automaticamente a sua testa, tocando o machucado e depois fitou os dedos sujos de sangue.

- Merda... relaxa, não adquiri isso naquela hora. – Ela respondeu, me deixando aliviado por uma parte, que o quase atropelamento não ter a machucado. Mas isso não aliviou a preocupação que eu sentia, do que diabos havia acontecia com ela.

- Mas isso precisa de um curativo antes que infeccione e se torne algo sério – argumentei, desviando meu olhar vez ou outra para ela.

E em poucos segundos eu pude escutar ela soltar uma pequena risada nasal.

- De que planeta você veio, playboy? – Eu a fitei, ela estava com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso debochado nos lábios trêmulos. Eu havia conseguido trazer de volta o seu humor ácido e sarcástico. – Não vou morrer por causa de um cortezinho de nada, acredite, já passei por coisa bem pior.

- Só queria ajudar, sua mal-agradecida. – Apesar de ter crispado meus lábios por seu deboche e pouco caso para seu machucado, gostei de ver que consegui fazer com que ela voltasse a ser aquela mesma Sakura que eu conhecia e que queria "distancia".

- Se quer me ajudar, então poderia me emprestar o celular?

E novamente estava eu desviando meu olhar para ela, e automaticamente tendo a lembrança daquele dia que tivemos o nosso primeiro contato.

- Eu poderia dizer a você que meu celular está sem sinal, descarregado, e que sou apegado a bens materiais, assim como você disse para mim naquele dia.

- Mas acontece que você é uma pessoa rica e educada, não vai se rebaixar a ralé.

Era impressionante como ela tinha resposta para tudo, e mesmo na situação em que se encontrava, ela não deixava de ser cara de pau.

Balancei minha cabeça para os lados, resolvendo fazer a sua vontade só daquela vez. Tirei o celular do bolso da frente da minha calça e entreguei para ela enquanto virava uma outra rua. Eu já havia reconhecido aquele caminho, estava perto de entrar na primeira avenida.

- 72, 45, 83 para desbloqueá-lo – disse a senha quando a vi ligar o display do meu celular.

- Tem medo de dizer sua senha para qualquer um não? Eu posso descobrir seus segredos. – Ela disse enquanto digitava os números e abria o celular.

- Não tem nada aí do que você não tenha revelado. – Eu não havia mentido, não tinha nada de mais do que ela e todos já sabiam. Meu único segredo era estar ficando com Ino e Karin ao mesmo tempo, um probleminha que eu já havia dado um fim. Eu acho.

Sakura não respondeu, em vez disso ela discou alguns números antes de levar o celular ao ouvido. Esperou alguns segundos antes da pessoa que ela havia ligado atender:

- Kurenai, sou eu... Eu estou bem, não se preocupe comigo... E você?... Uhum – ela deu uma longa pausa, escutando a outra pessoa do outro lado da linha. – Graças a Deus... – suspirou - fique tranquila, eu sei me cuidar. Agora você tem que pensar em você e na segurança do Shinji. E pelo amor de Deus, não volte mais para casa... Tá bom, quando a barra esfriar eu vou até aí para ver o Shinji. Diz para ele que eu o amo muito. – Outro longo pausa. – Ok, se cuida também, tchau.

Eu não pude deixar de prestar atenção na conversa da Sakura, e ter a comprovação de que ela estava mesmo com problemas.

- Aqui – ela me devolveu o celular –, valeu.

- O que está acontecendo? – Perguntei novamente, pegando celular de sua mão.

- Creio que isso não é problema seu. – Ela respondeu, voltando a fitar a janela ao seu lado.

Ela iria voltar a me ignorar novamente, mas estava disposto a fazer com que isso não aconteça.

- Se tornou problema meu na hora que coloquei você dentro do meu carro.

Seu rosto se virou para mim na mesma hora, seus olhos verdes me fitando, o cenho franzido.

- Então pode parar o carro e me deixar aqui mesmo – e novamente eu a via na defensiva.

- Não vou deixar você sair por aí no meio desse temporal. – Franzi o cenho, sentindo-me irritado por sua atitude defensiva, e foi nessa hora que entrei na primeira avenida. - Olha só para você? Está toda molhada, tremendo de frio e machucada. Então dá para você pelo menos uma vez deixar de ser irritante e abaixar um pouco a porra da sua guarda e aceitar a minha ajuda que você mesmo pediu?!

Sim, eu estava puto agora. Qual era daquela garota? Podemos não ser amigos e nem nada, mas eu tinha boas intenções. Se eu não quisesse ajudá-la eu nem teria aceitado seu pedido de ajuda e a deixado jogada naquela pista no meio de toda aquela chuva.

Seus lábios estavam crispados, e seus olhos vedes que fitavam os meus desviou para a janela a seu lado, ao mesmo tempo que eu voltava prestar a atenção na estrada. E novamente o silêncio se formou naquele carro.

Suspirei, tentando acalmar meus nervos, aquela garota tinha o dom de me tirar do sério.

- Olha, sei que nós dois temos nossas diferenças – comecei, minha voz soando mais calma -, mas você querendo ou não, eu sou o único aqui disponível a te ajudar.

Ela não respondeu, apenas se encolheu ainda mais em minha jaqueta. Eu tinha que ter paciência.

- Quando estava entrando no carro, eu vi um homem surgir e ele parecia procurar por alguém. – Eu disse cauteloso, abordando-a de outra forma. - Você estava fugindo dele?

Eu havia assimilado uma coisa com a outra, era o único meio cabível que achei para que Sakura surgisse no meio da noite em pleno temporal, atravessando a rua correndo sem olhar para os lados. Ela só podia está fugindo de alguém, e para mim, aquele homem estava atrás dela.

Depois de minutos em silêncio que para mim parecia uma eternidade, Sakura resolveu dizer alguma coisa:

- É o meu pai – respondeu, a voz soando baixa, não me olhava. Em seguida soltou um suspiro cansado. – Não é um assunto seu, playboy. Você não vai querer se envolver nisso.

- Eu já estou envolvido – eu disse, conseguindo trazer sua atenção de volta para mim. - O que aconteceu?

Sakura ficou alguns segundos me olhando, processando a minha disposição por saber o que realmente estava acontecendo com ela. Desviei meu olhar e a fitei, ao mesmo tempo que ela desviou o seu olhar de mim para frente.

- O meu pai não é uma pessoa exatamente honesta, vamos dizer assim – ela começou -, e minha madrasta é uma mulher idiota o suficiente por amar alguém que não dar um pingo de valor, só a maltrata.

- Seu pai bate nela – aquilo não havia sido uma pergunta e Sakura apenas assentiu com a cabeça, concordando.

- A minha casa é um verdadeiro inferno, com brigas e mais brigas daqueles dois. Kizashi é como se fosse uma praga, tanto na minha vida quanto a de Kurenai. A maioria das brigas ele acaba batendo nela, e ela ameaça de ir embora e levar o meu irmão mais novo junto, mas Kurenai é burra o suficiente para voltar atrás na decisão quando ele agia gentil com ela, se desculpando. Mas hoje foi diferente, a Kurenai seguiu os conselhos da sua tia depois que Kizashi a bateu por ela ter descobrido umas coisas que ele andava fazendo...

- Que coisas?

- Quando ele chegou hoje à noite e viu que ela cumpriu a ameaça, ele veio descontando em mim.

- Ele te bateu? – Perguntei, sentindo meu cenho franzido depois de ter tomando consciência da seriedade de seus problemas, e percebendo que ela havia ignorado a minha primeira pergunta.

- Dessa vez foi por que eu ajudei Kurenai a ir embora... e ela levou meu irmão junto.

Dessa vez? Então ele batia nela? E naquela hora a lembrança daquele dia da apresentação do trabalho que ela chegou atrasada na sala de aula e com a mão fachada me veio à mente. Agora tudo fazia sentido, ela havia apanhado daquele covarde que ela tinha como pai. Eu não era um tipo de pessoa que apreciava uma violência, mas naquele momento eu não sabia explicar por que, mas eu sentia uma raiva tomar conta de mim, um ódio queimando cada célula do meu corpo. Eu senti pela primeira vez vontade de esmurrar a cara daquele homem, para ele deixar de ser um covarde por bater em mulheres.

- Você e a sua madrasta tem que denunciá-lo, violência doméstica é crime – minha voz saía entredentes, apertando com força o volante. Eu fitava a pista movimentada de carros, tentando controlar a raiva que sentia naquele momento.

- Eu sei, mas é meio que complicado...

- Como que é complicado? – Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, a fitando rapidamente, minhas sobrancelhas franzidas. – Ele bate em você! Ele tem que ir para cadeia!

Era visível a minha revolta, e Sakura pareceu surpresa com a minha reação.

- Se ele for preso, vou acabar parando no orfanato por ainda ser de menor – ela sussurrou fitando suas pernas.

- Você não tem nenhum parente com que você possa ficar?

- Não – e desviou os olhos para o lado.

- E a sua madrasta?

Ela soltou uma risada sarcástica.

- Ela está de favor na casa da tia. – E me fitou. – Você acha que a tia dela iria abrigar a filha do cara que espancava a sobrinha dela? Você está por fora da situação, playboy.

Naquele momento, a realidade me dava um tapa na cara. Enquanto uns tinham muitos, outros não tinham nada. Por um momento eu percebi que eu tenho a sorte grande em ter tudo, pais, irmão, amor, dinheiro, conforto... Sakura não tinha nada, ninguém que a intercedesse a seu favor. Ninguém para cuidar dela. Ela estava a sozinha no mundo e jogada a sorte. Agora dava para entender do por que ela ser daquele jeito. A vida havia encarregado de mostrá-la antes do tempo o quanto o mundo e as pessoas são cruéis. Me senti um ser insignificante naquele momento por todas as vezes que havia caçoado dela pelas costas, sem saber das dificuldades e sofrimento que ela passava.

- E a sua mãe? – Havia me lembrado do pingente que ela sempre carregava no pescoço.

Silêncio.

- Ela foi embora quando eu tinha três anos. – E depois sorriu amarga. - Viu, a minha vida não é tão boa quanto a sua. Já que você está disposto a me ajudar, pode pelo menos me levar até a oficina, se não for pedir muito?

- Sinto muito, mas não vai dar. Já estou na rodovia principal.

- O quê?

- Vou te levar para minha casa. – Respondi o óbvio, decidido a fazer o que for possível para ajudá-la.

- Não! – Sua voz parecia desesperada.

A fitei, e pude ver seu rosto incrédulo me fitando.

- Porque não?

- Por que isso não faz sentido.

- Não faz sentido é eu pegar outro transito para levar você a oficina, que para mim deve está fechada devido a hora.

- Tenho amigos que moram na casa que fica em cima.

- Mas agora já é tarde, minha casa está perto.

Sorri de lado quando vi que ela havia percebido que não tinha escolhas. Suas bochechas estavam ficando com um leve rubor.

- Você não precisa fazer caridades – ela virou seu rosto para o lado rapidamente, envergonhada.

- Não estou fazendo caridades – respondi, descobrindo que ela ficava linda com as bochechas coradas. Senti uma necessidade absurda de vê-la assim mais vezes.

O caminho até a minha casa havia sido em completo silêncio, e sabia que Sakura não estava mais disposta a tentar algum diálogo. Mas não me importei também, pois estava perdido em devaneios, de tudo o que ela havia me dito e ocultado de mim. Ela não havia me contado tudo, sabia que tinha mais coisas, pois ela não havia respondido a minha pergunta, e pelo jeito seu pai estava metido com coisas erradas.

Não demorou para que eu finalmente chegasse em casa, e a chuva não havia acessado nem um pouco. Saímos do carro depois que estacionei na garagem e entramos na casa enquanto Sakura ainda resmungava por estar ali:

- Isso é uma péssima ideia.

- Péssima ideia é você ficar na rua sem rumo e na mira de um cara agressivo – respondi enquanto entravamos na sala com pouca iluminação, e pelo horário todos deveriam estar dormindo.

- Sobre o que te falei no carro – ela parou, me fazendo parar e a fitar -, você poderia não comentar isso com ninguém? Não estou afim de ser saco de piedade uns, e alvo de piadas de seus amigos. Não que isso me importa, mas não estou no clima para descer o braço neles.

- Você acha que sou um fofoqueiro? – Me senti ofendido agora

- Mas você gosta de tirar sarro de mim pelas costas. – Ela não media mesmo as palavras e isso foi como um chute na minha cara.

Franzi o cenho.

- Que porra, garota, você realmente não me conhece mesmo...

Fui interrompido com a luz da sala acendendo e uma voz super conhecida soar, nos pegando no flagra:

- Sasuke?

- Mãe?

Virei meu corpo para trás rapidamente, encontrando a sargento Mikoto de camisola e com uma cara nada boa. Ela novamente havia me esperado chegar para me encher de sermões.

- O que eu disse para não chegar tão tarde? São quase uma da... manhã. – Ela própria se interrompeu quando viu Sakura atrás de mim. – O que aconteceu?

- Mãe, a Sakura vai passar a noite aqui, tá?

Minha mãe se aproximou com passos rápidos.

- Senhora Uchiha... e-eu não quero incomodar – Sakura estava nervosa, ela se atropelava nas palavras. – Eu disse para ele que não era uma boa ideia... eu posso ir embora agora...

- Meu Deus, você está com um corte na sobrancelha e está toda molhada – minha mãe havia passado por mim, e agora estava com as duas mãos nos ombros de Sakura, fiscalizando-a por inteiro. – O que aconteceu com você?

- Eu... – Sakura olhou para mim, como se suplicasse uma ajuda e fazendo minha mãe me fitar também com as sobrancelhas franzidas.

- Ela foi assaltada – menti, vendo os olhos de mamãe arregalar. – Eu a encontrei e a trouxe comigo.

- Minha nossa – e fitou Sakura, preocupada. - Você está bem, minha filha?

Sakura desviou sua atenção para minha mãe, estava surpresa com minha desculpa rápida.

- Eu estou bem sim senhora.

- Vem, eu vou levar você ao quarto de hospedes para você tomar um banho e trocar essas roupas antes que se resfrie. Irei fazer um curativo em seu corte. Meu Deus, como esse mundo é violento. - Minha mãe dizia enquanto guiava Sakura em direção as escadas. – Sasuke, tome um banho e troque essas roupas antes que fique doente.

- Sim, mãe – respondi enquanto as seguia pelas escadas, e ouvia minha mãe entupir Sakura de perguntas sobre seu estado. Percebi que aquela marrenta estava novamente sem jeito, com aquela personalidade tímida que ficava quando minha mãe estava por perto.

. . .

Depois que tomei um banho quente e vesti minha calça de moletom e uma camiseta, já podia desfrutar do aconchego de minha cama. Era bem tarde, duas horas da manhã para ser preciso, mas sem nenhum vestígio de sono. As lembranças dos acontecimentos de algumas horas atrás e saber que Sakura Haruno dormia num quarto perto do meu, me deixava ansioso. Queria saber o que tanto ela e minha mãe conversavam, pois, minha mãe demorou bastante para sair do quarto de hospede e ir para o seu.

Eu estava me controlando para não bater no seu quarto e ver se ela estava bem, se precisava de alguma coisa... Mas aquilo era só pretexto para poder vê-la e acabar com minha ansiedade e aquele frio irritante que circulava o meu estômago. Eu não sabia o que acontecia comigo, que sensações estranhas eram aquelas, pareciam sintomas de alguma doença. Pois não era possível um coração bater tão forte daquele jeito, e a imagem daquela garota não sair da minha cabeça.

Me virei novamente na cama, tentando arrumar alguma posição para dormir quando escutei movimentos no corredor. Abri os olhos, jogando o cobertor de lado e me levantei da cama. Quando abri a porta me deparei com aquela que não estava me deixando dormir. Era inevitável a minha surpresa por vê-la pela primeira vez com os cabelos soltos. Estava vestida com um pijama de seda lilás que minha mãe deveria ter emprestado a ela, os cabelos rosados caindo como cascatas por seus ombros, contrastando com os olhos verdes esmeraldas brilhantes que me fitavam e que caíam bem com o rosado leve de suas bochechas.

Ela estava... linda.

- O que foi? – Ela perguntou, dando um passo para trás e franzindo o cenho, mas percebi que ela estava meio que nervosa.

Foi aí que me toquei que a olhava descaradamente como um virgem bobão. Tentei disfarçar desviando meu olhar para o curativo em sua testa.

- Escutei um movimento aqui no corredor e vim ver o que era.

- Ah... – ela pareceu mais relaxada – desculpe eu fui ao banheiro.

- Hm. Bela roupa.

- A sua mãe me emprestou um pijama dela – ela comentou, meio que sem jeito. – Ela foi bem gentil.

- Ficou bem em você.

Sakura desviou os olhos para o lado, fitando algo invisível no chão. Suas bochechas mais vermelhas.

- Valeu... – e ficou em silêncio, mas não foi por muito tempo. – E novamente você salvando a minha pele, e nem somos amigos.

- Não sou tão ruim quanto pareço. - Ela sorriu mínimo, mas não me olhava, e reprimi um sorriso que queria escapar de mim. – Podemos nos dar uma trégua.

E dessa vez consegui sua atenção, aqueles mesmos olhos esmeraldinos me observando.

- Trégua?

- Você não é a pessoa mais amável do mundo.

- E você não é a mais honesta – me rebateu na lata, mas estava me acostumando com aquela ousadia. E para ser sincero, eu estava gostando.

Ergui minhas sobrancelhas para cima.

- Vai começar a jogar os meus defeitos na minha cara agora?

- Você que começou – e cruzou os braços, enquanto a marra tomava conta de si. Sua marca registrada. – Mas já que você está sendo legal comigo em me dar um teto por hoje, eu aceito a sua trégua. - E apontou o dedo para mim. - Mas logo vou avisando que é uma pequena exceção. Não gosto de distribuir caridades para playboys.

- Você é bem abusada, garota – cerrei os olhos enquanto cruzava os braços, a olhando de cima para baixo.

E dessa vez um sorriso iluminou todo o seu rosto, e por um segundo eu prendi minha respiração sem ao menos perceber. Seus olhos verdes semicerravam e faziam ruguinhas nas laterais diante daquele sorriso. Um sorriso lindo que combinava perfeitamente com aquele rosto delicado de menina. Era inevitável desviar meus olhos dos dela, me perdendo naquela imensidão de esmeraldas brilhantes que me fitava na mesma intensidade.

Eu me sentia hipnotizado.

Mas aquela hipnose foi quebrada quando Sakura desviou o olhar e se virou abrindo a porta de seu quarto.

- Boa noite, Sasuke... e obrigada. – Disse antes de entrar no quarto e fechar a porta.

Fiquei parado olhando a porta fechada, processando o que tinha acabado de acontecer. Não consegui conter o sorriso se abrir no canto de minha boca. Sakura havia reconhecido os meus esforços e agradecido por minha ajuda. Eu sentia uma sensação surreal tomar conta de mim.

Pois aquela foi a primeira vez que ela disse o meu nome.