20 de maio de 2018: 2 meses para o casamento, Walworth: Londres

Ginny sentia-se eufórica, mal conseguia acreditar que após tantos desencontros ela e Dean, finalmente, iriam casar. Afinal um de seus maiores sonhos, sempre foi casar-se com alguém que ela amasse em uma linda e pomposa cerimônia, como era de praxe à todas as meninas de sua classe social. Tudo era sempre perfeito ao lado do homem negro de sorriso fácil, o sexo, os beijos, os jantares, bem, quase tudo na verdade, ela poderia assumir isso quando fazia uma análise completa da coisa toda em si.

Eles haviam voltado a namorar em seu penúltimo semestre de sua faculdade de fotografia e, isto é no ano anterior, apenas algumas semanas após eles se encontrarem em uma festa após um jogo de futebol entre a University College London, a faculdade que ela frequentava e a Kings' College of London, onde ele cursou finanças. E tudo ia tão bem que, apenas parecia um desperdício de tempo não casar logo, porém agora ela já não poderia afirmar com tanta certeza, pelo menos não para si mesma, que de fato era isso que desejava no momento. De fato os momentos com ele eram bons, mas muitas vezes ela sentia-se apenas um objeto nas mãos brutas do maior.

Sabia que não era a intenção dele, ou ao menos achava que não era, mas ele tendia deixá-la de lado quando estavam a sós, sempre preocupados com coisas "mais importantes", porque afinal ele era um homem de negócios e não poderia simplesmente ficar perdendo tempo com tais bobagens como assistir um filme com a ruiva ou sair para jantar com ela e seus amigos aos fins de semana.

No entanto isso não poderia ser considerado um problema real, poderia? Afinal, existiam outras maneiras de demonstrar afeto e ele certamente não seria um marido ruim, apenas um não muito meloso, e ela com certeza poderia lidar com marido que não fosse meloso.

Eram nove e meia da manhã, e ela estava na metade do caminho para encontrar-se com Harry, seu melhor amigo, uma vez que ele disponibilizou-se para a ajudar com a decoração da cerimônia e festa do casamento, desde que Dean não poderia fazê-lo, já que ele estaria trabalhando dobrado nesses últimos meses para garantir a lua de mel.

Enquanto dirigia para uma parte menos favorecida da cidade, questionava-se porque o melhor amigo quisera sair da casa dos pais para ter seu próprio lugar. James e Lily eram ótimos pais e nunca o restringiu de coisa alguma, muito pelo o contrário eles sempre deram muita liberdade ao moreno e a suas irmãs mais novas, Sophie e Grace, eram adoráveis e ele amava estar com as pequenas, para a ruiva não havia motivos razoáveis para tal decisão, mas o respeitou ao tomá-la, mesmo achando-o um tanto insensato por mudar-se em idade tão precoce.

Chegou ao rústico prédio de tijolos vermelhos quando o relógio marcava nove e quarenta e oito, doze minutos antes do horário que marcou com o amigo, mas ele não poderia culpá-la por estar ansiosa, afinal hoje seriam feitas as primeiras decisões oficiais de seu casamento. Ela estacionou o carro na vaga de visitantes com rapidez de quem o faz no dia-a-dia e com um sorriso tão leve quanto o vestido verde água de verão, apesar de ainda estarem em meados da primavera, que usava naquela manhã ensolarada cumprimentou o porteiro do prédio, Archie.

Ele era um homem de cabelos grisalhos e roupas simples, como tudo presente naquele bairro afastado, o senhor, que parecia ter algo entre sessenta e cinquenta anos, sempre carregava consigo um livro sobre a história da Inglaterra e mantinha apoiada no balcão de madeira a sua velha caneca marrom cheia com chá de mirtilo e um pote de cristal cheio dos mais variados tipos de biscoitos.

― Bom dia, menina Ginny. ― Cumprimentou o grisalho com a voz mansa e grave de sempre, oferecendo-a um cookie de chocolate, que a mulher aceitou de bom grado, apesar da dieta rígida que deveria fazer para manter seu peso até o dia do casamento, a ruiva acreditava que um cookie não faria um estrago tão grande assim.

― Bom dia, Archie. ― Retornou o cumprimento com um grande sorriso, parando brevemente para estender a conversa e escutá-lo falar sobre seus netinhos que vieram passar o fim de semana com ele e sua esposa. ― Eu tenho que ir agora, Archie, eu e Harry precisamos correr com a preparação do casamento.

― Até mais, minha querida. ― Despediu-se o senhor com um aceno firme, observando-a subir as escadas que levariam-na até o terceiro andar, uma vez que o elevador estava em manutenção. Na verdade, o elevador sempre estava em manutenção, o que fazia a mulher se perguntar se, simplesmente destruir o elevador e construir uma outra escada ou por um novo elevador, não seria mais efetivo.

Ao chegar no apartamento do amigo, a ruiva tocou a campainha duas vezes, na esperança que Harry estaria acordado e esperando-a, como ela havia o pedido umas duzentas vezes ontem antes de desligar a ligação de quase quatro horas. Quando ele não a atendeu, ela não demorou a destrancar a porta com a chave que ele lhe dera, revirando os olhos no instante em que viu a bagunça do lugar, Harry sempre teve um dom muito peculiar para bagunça.

Apenas ali na sala, diversos livros dos mais curiosos assuntos estavam espalhados pela mesa de jantar e revistas abertas estavam na mesa de café dele junto de uma garrafa de vinho barato e uma caixa de yakisoba. E quando ela foi até a cozinha em busca de um copo de água, não surpreendeu-se quando notou que haviam ainda mais revistas e livros sobre o balcão.

Apesar do apartamento sempre estar muito limpo, toda aquela bagunça fazia com que Ginny sentir-se fora de lugar e esse não era um sentimento que ela gostava de sentir. Sem mais enrolar, colocou sua bolsa de aparência cara sob o sofá da diminuta sala e encaminhou-se para o quarto do amigo sem preocupar-se em encontrar coisas que em outras ocasiões evitaria ver, mas como eles estavam atrasados ela não poderia dar-se o luxo de o deixar acordar quando o conviesse.

Entrou no quarto ainda escuro do amigo, escutando seu leve ressonar enquanto abria as cortinas, na esperança de que o sol forte e impiedoso do verão londrino fosse o suficiente para que o moreno despertasse. Com a claridade pode perceber que o amigo estava dormindo com as costas desnudas, um hábito adquirido ainda na infância, incrivelmente o quarto estava arrumado, tendo apenas a sua mochila e uma jaqueta jeans fora de lugar.

― Harry, acorda! Nós já estamos atrasados! ― Chamou impaciente o cutucando insistentemente agachada ao lado do moreno quase empoleirada sobre ele, o cacheado gemeu ao sentir as cutucadas e afastou a mão dela com um leve empurrão parecendo irritado pelo modo que ela tentava o acordar. ― Harry James Potter, levante essa bunda da cama, agora mesmo!

Ele resmungou irritado e ainda de olhos fechados ele bocejou, espreguiçou-se com calma e por fim recostou-se na cama com o rosto emburrado. O moreno não tinha o hábito de acordar cedo aos fins de semana, e ainda havia passado a noite em claro folheando revistas de casamento para que pudesse ajudá-la melhor com os preparativos.

― Ginny, está muito cedo para me acordar, não acha? ― Questionou quando finalmente abriu os impressionantes olhos verdes, a voz extremamente rouca devido o desuso arrepiou a pele da mulher que o observava acordar de perto, ele parecia um anjo com a luz da manhã reluzindo na pele bronzeada. ― E um bom dia seria legal, pequena.

― Não está muito cedo, você que está muito atrasado. ― Retrucou emburrada desviando os olhos do corpo do amigo para olhar seu relógio, que agora marcava nove e cinquenta e oito, Harry sabia que ela odiava atrasos e mesmo assim, sempre estava atrasando-se, ele era inacreditável. ― Bom dia, agora apresse-se, nós estamos atrasados de verdade, H.

Ele revirou os olhos para a pressa da amiga e beijou o topo de sua cabeça antes de levantar-se da cama rapidamente e encaminhar-se em direção do banheiro do quarto, com a ruiva em seu encalço, parando na porta para dá-lo um pouco de privacidade para que ele pudesse fazer sua higiene.― A Madame Maxime tem uma agenda muito apertada, nós não podemos simplesmente aparecer a hora que bem entendermos, Hazz.

Harry usava um short curto de moletom, que exibiam suas coxas musculosas, como pijama, seus cabelos normalmente bagunçados pareciam mais desarrumados que o normal, como se ele tivesse passando muito a mão ali, e um traço de uma olheira surgia em seu rosto bonito. Ela notou tudo isto ao olhá-lo pelo espelho enquanto ainda o enchia de informações sobre o que ela desejava de decoração, apesar da aparência cansada, o cacheado parecia a escutar atentamente como se fosse a coisa mais interessante que ele poderia ouvir em um sábado de manhã.

― Eu estou te enchendo, né? ― Perguntou insegura mordendo o lábio inferior, ele a encarou pelo reflexo do espelho com o rosto impassível. ― É que falta tão pouco tempo, e o Dean nunca quer falar sobre isso comigo e eu acho que acabei me empolgando…

― Ginny, você não me enche, está tudo bem, me desculpe por perder a hora eu tive que ficar até tarde resolvendo uns problemas e não consegui acordar. ― Ele a tranquilizou assim que acabou de escovar os dentes, lançando-a um sorriso suave que a fez sentir-se muito mais calma, ele despiu-se enquanto ela estava de costas e entrou no banho, escutando-a tagarelar sobre o casamento com prazer.

― Eu estava pensando em uma coisa meio princesa, muito cetim e renda combinado com rosas vermelhas, brancas e rosas, o que acha? ― A ruiva questionou de forma animada, planejando em sua mente o casamento perfeito espelhando-se em cerimônias que costumava ver em filmes de romance.

― Parece bom, mas eu sempre achei que suas flores favoritas fossem girassóis. ― Ele comentou soando um pouco confuso como se o fato de ela não usar as flores que mais gostasse em uma cerimônia importante como o próprio casamento não fizesse sentido para o rapaz. ― Você não deveria usar as coisas que mais gosta?

― Não realmente, e eu estava falando com a mãe de Dean e ela disse que gostaria que nosso casamento tivesse rosas, porque são as flores favoritas da mãe dela. ― Argumentou ela com um suspiro de felicidade ao lembrar-se de todas as rosas que Dean a dava, principalmente nos dias em que se sucediam os que ele faltava algum compromisso com ela. ― E ele sempre me dá rosas.

― Bem, eu ainda acho que você deveria escolher o que mais te agrada, ― ele falou de forma sincera e estendeu a mão para pegar o shampoo, anotando mentalmente que precisava comprar mais, uma vez que aquele estava chegando ao final. ― mas como eu sei que você não vai mudar de ideia, o que tem decidido sobre as cores?

― Ah, eu ainda não sei sobre isso, estava esperando que você pudesse me ajudar com seu olho artístico nessa parte. ― Comentou a ruiva olhando seu reflexo no espelho, seu cabelo estava excessivamente liso naquela manhã, contudo ela esperava conseguir mudar isso até a hora que se encontraria com o noivo, pois ele a dissera uma vez durante um jantar que ele odiava cabelos muito lisos como os dela.

― É claro que vou te ajudar, Ginny, não seja boba. ― Ele respondeu divertido retirando o sabonete do corpo e o shampoo do cabelo, para em seguida esticar a mão em busca da toalha e não achá-la. ― Pegue a toalha pra mim, por favor?

― O que você sugere, então? ― Ela perguntou entregando a toalha branca e felpuda ao cacheado que secou-se rapidamente e seguiu para o quarto com somente a toalha livrando-o da completa nudez. Ele não a respondeu imediatamente e ela quase repetiu a pergunta, um hábito que adquirira após notar que os homens raramente prestavam atenção no que ela falava quando se tratava de coisas como essas, mas Harry não era igual aos outros homens da alta sociedade.

― Isso depende de como você quer a decoração, se é alguma coisa mais tradicional como rosas vermelhas e rosas brancas, ou inovadora como usar broches para formar o buquê. ― Respondeu com a voz sendo levemente abafada pela blusa que ele vestia enquanto falava, ele sorriu pra ela já totalmente vestido e sentou-se na cama para calçar o tênis enquanto a ruiva abria a cortina. ― Estou pronto, vamos?

― Você não vai comer, Harry? ― Ela questionou olhando o amigo pegar a carteira e o celular, parecendo muito bonito em seus jeans rasgados, a blusa verde simples com a logo de alguma banda qualquer, um vans velho nos pés, e os cabelos cacheados ainda molhados do banho.

― Eu pego um pacote de cookies na cozinha, não se preocupe, anjo. ― Ele respondeu já se encaminhando para a saída do quarto, ela não se demorou e foi atrás do cacheado. Tentando a todo custo não pensar em como ela desejava que Dean desse atenção a ela como Harry fazia.

― Vamos? ― Ele chamou sorridente com a bolsa dela em uma mão e o biscoito na outra, já ao lado da porta. Ela sorriu para o amigo e seguiu em sua direção trancando a porta com sua chave, eles desceram as escadas em um silêncio confortável, apenas o som da respiração, e do pacote de biscoito como barulho.

Secretamente, Ginny amava essa sensação de poder ficar em silêncio sem sentir-se julgada ou incomodada, e era uma das coisas que mais apreciava em sua amizade com Harry. Ela assim que começou a namorar Dean, algumas semanas após o baile de formatura do nono ano, precisou mudar seus hábitos, costumes e jeitos para que pudesse se encaixar na vida do rapaz negro. Tornando-se assim perfeita aos olhos de todos, até mesmo de sua mãe.

No começo era extremamente difícil agir como se fosse frágil e encaixar-se com as líderes de torcida do colégio, que faziam parte da elite que o namorado andava, foi extremamente complicado dar menos atenção ao Harry só porque ele não andava com as pessoas certas, mas ela conseguiu mudar pelo namorado, porque ela o amava.

Agora, tantos anos após mudar seu estilo de vida, ela já estava acostumada a calar-se quando tinha vontade de falar e falar quando queria apenas se calar, era a vida dela desde os quinze e ela esperava que isso valesse a pena no fim.

Quando eles chegaram ao térreo, ele ainda carregava sua bolsa e comia o biscoito distraidamente e ela estava checando seu relógio, uma vez que não queria se atrasar tanto, assim que passaram pelo balcão onde duas crianças estavam no lugar que Archie normalmente ocupa, Harry parou.

― Bom dia, Belle, Abraham, como estão? ― Ele cumprimentou as criancinhas loiras que pareciam ter seis anos e estavam muito concentrados colorindo algo. A menina usava um simples vestido azul e o menino uma camiseta vermelha com um carro azul estampado nela, ambos pareciam muito simples, apesar de bem cuidados.

― Nós estamos bem, Harry, obrigado pelo livro. ― Agradeceu o menino olhando para Harry com um grande sorriso no rosto. O moreno se aproximou um pouco mais do balcão e ofereceu os biscoitos em suas mãos para as crianças.

― Não precisa, Hawwy, vovô Archy já nos deu um mais cedo. ― Falou a menina trocando os erres do nome de seu amigo. Por um momento Ginny achou que ele iria se importar e fazer uma cena, como muitas vezes viu outras pessoas fazendo ao ter uma criança errando o nome, mas o cacheado apenas sorriu e bagunçou as tranças loiras da garota com carinho.

― Olha nosso desenho! ― Mostrou a menina com orgulho,o desenho parecia ser de um céu cor de rosa e tinha uma garota sorridente de tranças, usando uma capa de super heroína.

― Ficou lindo Belle, eu adorei! ― Ele elogiou com admiração como se estivesse vendo uma verdadeira obra de arte, de nomes grandiosos como Da Vinci, Picasso ou Van Gogh e não um desenho de uma criança.

A menina corou e timidamente o agradeceu, mas seus olhos brilhavam com uma felicidade pura, que Ginny jamais sonhou em presenciar. Aquele momento com as crianças a fazia sentir vontade de ter um filho, para educar e amar, e ela esperava que Dean compartilhasse desse sentimento.

― Quer brincar com a gente, Har? ― Chamaram eles com um grande sorriso esperançoso, Harry sorriu triste para as crianças e negou. Fazendo as crianças murcharem um pouco ao notar que o amigo delas, talvez não pudesse fazer naquele momento.

― Desculpa, eu tenho que resolver umas coisas com a minha amiga ali, ― ele falou apontando para a ruiva que o observava curiosa e um tanto impaciente. ― mas quando eu voltar, eu prometo brincar com vocês dois, combinado? ― Ele sugeriu às crianças que concordaram rapidamente, se animando com a promessa de diversão, eles nunca gostariam de perder a chance de brincar com o moreno simpático.

― 'Tá bom, até loguinho Hawwy. ― Despediu-se a menina deixando um beijo molhado no rosto dele, ele beijou o topo da cabeça das crianças e com um último aceno se despediu.

Ginny permaneceu pensativa até metade do caminho, respondia-o de forma vaga, isso é quando o respondia, um jazz calmo ressoava em seu carro, um Mercedes cinza que ela ganhou de seus pais em seu aniversário de dezoito anos. Ela estava devaneando sobre como seria ter uma filha ou um filho, mesmo sabendo que não poderia tratá-los como o amigo tratou as duas crianças, pois seria mal visto e ela não poderia sujar o nome da família Thomas.

― Ginny, está tudo bem? ― Ele perguntou preocupado após tantos minutos com a amiga calada, ela assentiu e o pintor revirou os olhos dramaticamente e soltou um longo suspiro, fazendo com que ela o olhasse.

― Eu não sei, H. ― ela falou com um suspiro cansado olhando o amigo que batucava os dedos contra a coxa, ela sentia que ele lhe encarava e apenas por isso continuou a falar. ― Podemos falar sobre isso quando eu souber o que é?

― Claro, flor. ― Ele respondeu parecendo um tanto quanto decepcionado e até mesmo triste, disfarçando no minuto seguinte ao começar a falar animadamente sobre a Eurotrip que ele planejava fazer após o casamento dela com Dean. ― Apenas prometa me contar, eu estou aqui para você, Ginny.

O assunto da viagem rendeu até o grande prédio onde a Madame Maxime atendia, e só então ela percebeu em quão rápido ele conseguia fazê-la se distrair das coisas ruins que por vezes rondavam sua cabeça. Harry seria o marido perfeito para alguém um dia, mas esse alguém não seria ela. Nunca seria ela.

19 de julho de 2018: 24 horas para o casamento, Walworth: Londres

Okay, ela deveria estar feliz em uma festa de solteira, afinal faltavam apenas algumas horas para seu grande dia, no entanto, Ginny encontrava-se em um pijama grande e velho de Harry assistindo Friends pela quinquagésima vez, enquanto comia uma pizza muito gordurenta de pepperoni e cebola com Harry ao seu lado tagarelando sobre A Grande Viagem que faria logo após o casamento dela.

— Ginny, eu amo sua companhia, mas você não deveria estar na sua festa de solteira? — Questionou o moreno, interrompendo o silêncio agradável que havia se instalado na sala.

A ruiva olhou para ele com o rosto corado, sentindo-se envergonhada por estar fugindo de suas obrigações como uma raposa foge do galinheiro após comer a galinha mais gorda presente. Não conseguia esconder nada de seu amigo, mas não sabia como contar o turbilhão de sentimentos dentro de si sem sentir-se uma estranha.

— Eu estava lá, você sabe disso, H. — Ela começou com a voz aparentemente confiante e atrevida, mas sua suposta confiança foi perdida ao ver o olhar questionador que ele a enviou.

— Sim, eu sei que estava, assim como sei que ela ainda está acontecendo, eu quero saber o por quê de você ter saído de repente. ― O moreno expressou melhor, deixando mais claro o que ele tinha em mente, ele pausou o episódio que viam, e virou-se totalmente para ela. Essa era a forma dele dizer que a atenção dele pertencia unicamente a ela.

— Dean me ligou, Harry, — Ela respondeu em meio a um suspiro, mas tal resposta tão subjetiva não permitia que o moreno entendesse o real motivo do rosto triste e cansado de Ginny. — para adiar a lua de mel e a festa.

Ao ouvir o que a ruiva falava, ela sempre repetindo as desculpas do noivo, ele a abraçou com força sentindo-a soluçar contra seu peitoral, as lágrimas grossas molhando sua blusa, não se importando se o rímel dela sujaria seu pijama branco de star wars. Sua cabeça, no entanto entoava diversas ameaças para Dean, muitas delas sendo extremamente exageradas, como jogá-lo em um tanque de crocodilos caso ele ouse machucá-la novamente.

— Ei, vai ficar tudo bem amor, eu estou aqui. — Ele repetia suavemente, quase como um mantra, enquanto acariciava os cabelos longos dela em uma tentativa de acalmá-la. Não parecia ter muito efeito em sua cabeça, mas a ruiva acalmava-se aos poucos.

— Eu espero que você esteja certo, Har...— ela começa aconchegando-se de uma forma que pudesse encará-lo enquanto falava. Naquela posição ela conseguia ver cada pintinha do rosto de Harry, até mesmo a forma que os verdes se misturavam no olho dele. — Eu só não consigo entender porque eu não sou boa o bastante para ele.

— Não fale isso, se ele não consegue ver o seu valor, o problema está nele, não em você. — Respondeu Harry com o rosto sério secando as últimas lágrimas que escorriam do rosto bonito de sua amiga. Limpando com cuidado o preto do rímel que deixava o rosto dela marcado de preto. — Se você se sente tão mal com ele, então não deveria se casar amanhã, não seria justo com você, Ginny, você merece mais que uma cerimônia feitas às pressas.

— Você tem razão, eu mereço mais que isso, sabia que poderia me ajudar a pensar corretamente, obrigada por ser meu melhor amigo. — Agradeceu com um leve sorriso abraçando ainda mais e ajeitando-se para voltar pro filme.

A frase que não parecia fazer efeito na ruiva, quebrava aos poucos o coração, já anteriormente partido, de Harry, ele sentia que nunca superaria o amor que sentia pela amiga e esperava nunca ter de revelar tal fato.

— Flor, eu não quero te pressionar, mas se você não quer casar com ele porque não se sente pronta, não seria melhor avisá-lo para cancelar o casamento sem constrangimentos? — Inquiriu o cacheado usando toda sua cota, já escassa, de bom senso para não deixar tantas pessoas no escuro. Vejam bem, Harry era uma pessoa racional em grande parte do tempo, mas ele sempre foi muito impulsivo, e o que ele mais desejava no momento é mandar todos que magoaram Ginny para o inferno.

— Depois de tudo isso você realmente, realmente acha que ele merece alguma consideração? — Ela questionou com a sobrancelha arqueada e uma careta irritada. Aos olhos do moreno ela estava ainda mais linda que há segundos atrás, mesmo que em sua mente soassem vários alarmes com placas de led e com letras garrafais onde estava escrito "Perigo".

— Não, mas não parece justo com sua família, só isso… — Ele respondeu com a voz extremamente baixa quase como se temesse levar um soco apenas por discordar, o que, de fato, não era mentira. Apesar de mudado muito desde que ela e Dean haviam começado a namorar, Ginny nunca conseguiu mudar tanto com ele, e era apenas com ele que a ruiva deixava suas emoções vencerem.

— Eles nem sempre são justos comigo e você sabe disso, Harry. Eu só não sei ainda como vou sumir, porque se eu não aparecer em casa amanhã de manhã eles vão vir me procurar aqui. — Ela comentou parecendo pensativa e um tanto frustrada ao se ver sem opções. A parte ruim de não ter procurado uma casa só dela, e ainda morar com os pais, é que ela não podia apenas sumir quando estava irritada, não sem receber milhares de ligações de sua mãe.

— Você pode viajar comigo se quiser….— Ofereceu Harry em um ato impensado, num sussurro quase inaudível, no fundo ele não queria que ela o escutasse, falou apenas para poder ter motivos concretos para chorar, novamente, sobre seu crush não correspondido para Lavender.

No entanto, Ginny não só o escutou perfeitamente, como quase o matou ao aprumar-se em seu colo sussurrando agradecimentos, e ele permanecia grudado ao chão de madeira polida, e mal conseguiu erguer seus braços para envolvê-la em um abraço, tamanho era seu choque.

— Obrigada, mas não vou te atrapalhar né? — Ela perguntou, de repente sentindo-se insegura e pequenina. Dean e seus irmãos sempre odiaram quando ela participava das viagens de "homens" que eles faziam, não queria ser um fardo para Harry. — Não precisa fazer isso só porque somos amigos..

— Claro que não, Ginny, você nunca me atrapalha. — Ele afirmou, abraçando-a com força, de quando em quando esquecia-se que a ruiva era tão insegura quanto ele e que sua falta de reação poderia ter a assustado.

— Mas nós temos um problema, Har, eu não tenho mala ou roupa alguma, sem ser a roupa que usei na festa. — Ela falou preocupada, como ela iria viajar sem uma mala? Certamente não poderia ir para casa buscar suas roupas, e nem ninguém poderia fazer isso por ela.

— Vamos lá, essa vai ser a primeira regra da viagem, sem apegos Ginny, a vida é muito curta para você se apegar a alguns pedaços de pano. — Ele respondeu com a voz séria, e ela o fitou incrédula, aquilo era maluquice. Tudo o que aprendeu antes era totalmente o oposto do que seu amigo lhe falava, certamente ele havia se drogado, pois aquilo não poderia ser normal.

— Mas Harry, isso é loucura! — exclamou Ginny com o rosto rubro de irritação, ele estava de gozação com ela. Obviamente eles não iriam fazer uma viagem que duraria um ano apenas com a roupa do corpo, certo? — Viajar só com a roupa do corpo? Você enlouqueceu?!

— Pequena, se permita viver um pouco, e nós não vamos ficar pelados se é o que pensa. — Ele respondeu rindo enquanto a olhava andar de um lado para o outro da sala em puro desespero. — Só vamos comprar as roupas em brechós, sem apego, flor.

— Mas Harry… — começou ela, ainda em chocada pela loucura que ele a propusera, ele ainda sorria grandemente como se não tivesse nada de errado em sair sem rumo com algum dinheiro, sem hotel e com roupas usadas. — isso ao menos é seguro? Ou dentro da lei?

— Totalmente seguro, e, dentro da lei. — Confirmou ele rindo um pouco enquanto se levantava estendendo sua mão para que ela fizesse o mesmo. — Então você está dentro?

— Sim, eu estou! — Foi tudo o que a ruiva conseguiu proferir antes do moreno a levantar no colo e a girar, gritando vários "Sim!" com uma expressão de pura felicidade.

Era um recomeço e tudo ficaria bem, pensou Ginny, enquanto deixava-se levar pela alegria contagiante de seu melhor amigo, ambos de pijama, dançando desajeitadamente pela sala de estar como duas crianças. Ela já podia sentir o doce gosto da liberdade.

XXX

Bem, é isto galera, mais um capítulo, mais informações sobre os personagens, mais explicações. Escrever essa fanfic está sendo uma montanha russa de emoções para mim, e eu realmente estou aproveitando bastante escrever ela. Bem agora eles têm 22 anos, são mais maduros, mas ainda bem jovens e ainda cometendo muitos erros. Todas as cidades e países que eles vão passar existem, mas um ou outro estabelecimento eu crio o nome.

Lots of love, mil beijos e até semana que vem!