20 de julho de 2018: Na estrada, a caminho de Windsor

Harry não estava surtando.

Harry não estava surtado pelo cheiro embriagante de Ginny preenchendo todo seu carro, obviamente não estava, afinal eles eram apenas amigos, certo? Não estava surtando nem sentindo todos os seus pelos arrepiarem, óbvio que não.

Não havia motivo algum para suas mãos estarem suando contra o volante, ao menos não deveria existir motivo algum. Não deveria, no entanto havia. Um motivo gigantesco. Ele era perdidamente apaixonado por Ginny desde muito, muito, muito, tempo.

Desde que ele podia lembrar, eles eram amigos, e isso quer dizer muita coisa uma vez que ele tem uma memória muito mais que excelente, mas em algum momento durante seus quatorze anos, em algum momento, não, no baile de formatura, ele se descobriu perdidamente apaixonado por ela.

Agora, aos vinte e dois anos aquela paixão não mudou, nem um milímetro para menos, ela apenas crescia livre como o vento e perturbadora como uma maldita tempestade de verão, ele estava preso àquele sentimento.

E devido seu momento de insanidade, ou os "trinta segundos de coragem", chame como desejar, o metera nessa viagem por toda europa com ela, uma viagem totalmente livre de regras, e ambos solteiros, passando horas e mais horas juntos.

— Harry, você tem certeza que sabe para onde estamos indo? — questionou a ruiva pela terceira vez, o vento gelado da madrugada batia em seu rosto dando a ele um rosado leve e natural, ela tinha um óculos escuro em sua cabeça, mesmo que o sol houvesse acabado de nascer, fazendo desnecessário o uso de tal acessório. — E o tal bazar é muito longe? Não sei se você sabe, mas esse vestido não é exatamente algo confortável.

— Sim, Ginny, e estamos quase chegando, não seja tão mal humorada. — o moreno respondeu rindo da careta irritada que ela fez ao ouví-lo, aproveitando que estavam em uma longa e deserta rodovia, ele permitiu-se observar a beleza de Ginny junto a paisagem que passava rápida por eles, nada lhe pareceu tão bonito antes. — E eu posso imaginar que esse vestido não é muito confortável, mas eu lhe prometo que serão só mais alguns quilômetros.

Por alguns minutos o silêncio dominou o carro, Harry estava atento a estrada e ao combustível, há alguns minutos eles saíram da grande Londres e agora já estavam se aproximando de Windsor, uma pequena cidade, qual abrigava um dos castelos da família real, que ele sempre desejou visitar. Havia muito verde, e poucos prédios e todo aquele ar puro o encantava imensamente.

Ginny, por outro lado perguntava-se incansavelmente em como ela tivera culhões para largar sua vida, perfeitamente bem planejada, para arriscar-se em uma viagem com seu melhor amigo, uma viagem sem destino e sem luxos, diferente de tudo com que ela estava acostumada.

Estaria ficando louca? Havia sido o efeito da bebida? Pois, hoje, quando Harry a acordara com um grande sorriso em seus lábios, duas mochilas de acampar em mãos e uma bolsa com alimentos, ela não sentiu-se nada confiante, apenas conseguira sentir total e puro medo.

Entretanto, apesar de todo seu medo em fazer a viagem acontecer, cá estava ela, em seu vestido azul de verão, que era perfeito apenas para festas pois a incomodava, usando nenhuma sandália, em direção ao desconhecido com seu melhor amigo, e mesmo parecendo a mais pura insanidade, ela sentia-se feliz, pura e verdadeiramente feliz.

Por um momento, ela tentou conter a risada espontânea que tentava escapar por sua boca, no entanto, ao olhar Harry franzindo a sobrancelha para a estrada como se aquilo fosse a prova de química que o aprovaria no ensino médio, ela não conseguiu se conter e logo sua gargalhada alta e escandalosa se fazia presente no Ford Fiesta, do moreno de cabelos encaracolados, e em questão de poucos segundos ele a acompanhava com sua risada.

— Do que estamos rindo? — Questionou ele, o rosto vermelho após tantas risadas, olhos brilhando em alegria pura, seus cabelos pareciam ainda mais indomáveis naquela manhã que começava a nascer; seus olhos pareciam mais verdes e sua pele brilhava em pura juventude. Sem ao menos esperar que ela o respondesse, ele ligou o rádio, colocando a música no máximo, cantarolando a música que tocava, dançando animadamente.

"It started off with her hair

Guess every night has gotta start somewhere

Another badly combed frown

'Cause mirrors always seem to bring her down"

— Eu não sei! — Gritou a ruiva, precisando fazer-se ouvida sob a música, ele a encarou com suas grandes orbes brilhantes verde esmeralda e riu, jogando a cabeça para trás, como se ela houvesse contando a melhor piada do mundo. — Do que você está rindo?

— Eu não sei! — Riu ele, olhando para ela de forma divertida, apreciando a beleza de seu rosto, as sardas que ela costumava esconder quando estavam em Londres, mas que deixou a mostra esta manhã, os olhos castanhos cheios de brilho e vida, totalmente sem maquiagem, a boca carnuda, que mesmo sem batom algum estava avermelhada e os cabelos vermelhos como fogo, voando livres, passando pelo pescoço branco e delgado de Ginny. Tudo começaria sempre pelos cabelos de fogo que ela tinha, foram eles o culpado dele se apaixonar, e seriam eles, para sempre, seu maior encantamento.

Durante os trinta minutos que faltavam para que chegassem à cidade, eles foram cantarolando músicas desconhecidas, envolvidos demais em sua felicidade para se lembrarem dos problemas que estavam deixando mal resolvidos.

A pequena e pacata Windsor, de menos de mil habitantes, seria primeira de muitas cidades em que eles iriam se aventurar. Passando pela estrada de entrada, Harry dirigiu por poucos metros até achar o brechó que havia encontrado em um site enquanto navegava pelo instagram. Baubles & Bubbles, uma pequena loja de paredes cor de marfim, um telhado acinzentado e várias roupas expostas na vitrine, totalmente bagunçado. Harry nunca viu nada tão encantador, ele certamente estava adorando o lugar, sem ao menos pisar ali.

Ginny nunca vira nada tão assustador, era um ultraje a alta costura, não conseguia acreditar que estava trocando sua amada Prada, por um brechó desconhecido. Era loucura, e ela estava insana, certamente, era a única explicação para isso, mas mesmo com toda sua relutância, ela entrou.

Era uma bagunça e insano de tanta informação, a ruiva duvidava que acharia alguma roupa ali, e estava prestes a informar isso ao seu companheiro de viagem, porém ele estava parecendo incrivelmente lindo com uma jaqueta jeans ali achada, e ela não conseguiu encontrar força em seu coração para recusar a primeira regra da viagem.

Aceitando que precisaria se desligar das convenções que sua mãe fizera com que ela se agarrasse firmemente por anos a fio, Ginny suspirou, procurando por peças que lhe parecessem agradáveis, havia achado alguns vestidos muito bons e alguns shorts e camisetas.

E ela já havia aceitado que teria que se contentar com apenas aquelas cem peças de roupa quando Harry a parou, com apenas algumas poucas peças de roupas e uma das sobrancelhas arqueadas.

— Onde você acha que vamos pra precisar desse tanto de roupa, ruivinha? — Questionou ele, apesar do meio sorriso em seus lábios ela podia perceber que ele estava fazendo uma pergunta séria e esperava uma resposta sincera e não uma brincadeira espertinha.

— Uh, para a nossa viagem? — Respondeu ela em um tom meio perguntando, sem saber ao certo se essa era resposta que ele esperava; ela não queria decepcionar Harry, muito menos ser deixada de lado, tinha medo de respondê-lo mal e ele decidir a deixar sozinha.

— Não precisa ter medo de me responder, Ginny, eu não vou fazer nada com você. — respondeu o moreno calmamente, ainda olhando para a quantidade gigantesca de roupas que ela segurava parecendo analisar o que falaria a seguir. — Mas, não tem como você levar tantas roupas, doce.

— Não são muitas roupas, são? — Questionou olhando para as roupas que ainda não havia experimentado, elas não representavam nem metade de seu guarda roupas, e ainda precisava comprar peças íntimas.

— Bem, considerando o teor da viagem, são muitas sim, e a gente vai passar por outros lugares, há muitos brechós para visitarmos ainda, — ele começou respondendo olhando-a com um sorriso pequeno, apesar dos olhos sérios, ele lhe mostrava oportunidades.— e não seria muito inteligente se você acabasse com o espaço da sua mochila agora, não acha?

— Você tem razão, H! — Ela agradeceu entrando no provador, e olhando para o monte de roupas que havia se formado no canto, como em um passe de mágica. Curiosamente ela estava gostando da experiência de experimentar roupas consideradas ruins, era engraçado como as pessoas jogavam algo perfeitamente usável fora.

Entre várias roupas que experimentava, apenas um longo vestido amarelo, que ela achava que a fazia parecer com o sol, e era totalmente brega, mas Harry adorou e disse que ela parecia uma verdadeira princesa, e com esse argumento ele a convenceu a levá-lo.

Também levou dois shorts jeans, uma calça de moletom e uma jeans, um tênis surrado, sandálias confortáveis, seis camisetas, uma jaqueta e um suéter, totalizando 15 peças de roupas, o que ela nunca imaginou ser possível estava acontecendo, ela estava realmente fazendo aquilo. Era insano, e bom, muito bom. Ela amava a liberdade que lhe estava sendo concedida.

— Então, vão ser aquelas mesmo? — O moreno a perguntou, ele já carregava consigo uma bolsa com o nome da loja, um óculo aviador no topo de sua cabeça e um cachecol vermelho enrolado em seu pescoço, ele sorria grandemente em direção da ruiva, sem sequer notar os olhares que atraia para si.

— Sim, mas... — Ela começou tirando um vestido longo, totalmente liso a não ser por um delicado broche de abelha na altura do peito, ele era de um amarelo pastel com mangas estilo canoa, de dentro da cabine. — você acha que eu deveria levar esse vestido? Eu o achei tão lindo.

— Eu acho que é uma ótima ideia, ruiva. — Ele respondeu com um sorriso sincero direcionado a ela, que retornou o sorriso, sentindo seu coração se aquecer com os pequenos gestos de cuidado que ele sempre teve com ela. Harry sempre foi um bom amigo. Dito isto ela se encaminhou para o caixa para pagar suas roupas, uma vez que Harry já havia pago as dele, e apenas conversava com as pessoas como se fossem conhecidos de longos anos.

— São 30 libras, querida. — Informou a mulher de cabelos louros escuros e pele pálida, que ficava no caixa, seu rosto era anguloso, o sorriso amarelo e torto e ela era corpulenta, mas mesmo assim parecia se sentir feliz e confortável em seu próprio corpo. Por um instante Ginny sentiu inveja dela. A ruiva tinha consciência de que atraía muitos olhares para si, mas lá no fundo ela ainda era apenas uma garota insegura, e ver alguém tão fora do padrão confiando em si mesma, era como um balde de água fria sendo jogado em sua cabeça.

— Aqui, eu só tenho essa nota de 50 libras, tem algum problema? — Perguntou entregando a nota para a mulher que ainda sorria, a ruiva não estava acostumada a pagar as coisas em dinheiro, ou pagar as próprias compras no geral, então surpreendeu-se quando a mulher analisou a nota, como se tivesse medo de alguma fraude.

— Aqui seu troco, meu amor. — Respondeu a mulher, entregando uma nota muito amassada de 20 libras, com muita indignação em seu corpo, ela aceitou o dinheiro sem falar nada, e olhou para seu amigo que sorria para ela. — Seu namorado é uma graça, você tem muita sorte em tê-lo.

A ruiva corou indignada, já preparada para dizer que ela e Harry definitivamente não eram namorados, quando o moreno em questão colocou o braço envolta de sua cintura e beijou seus cabelos, fazendo-os parecer ainda mais um casal de namorados

— Vamos Gin? — Ele chamou com o tom de voz carinhoso, olhando-a atentamente, ela sorriu encabulada para a atendente e concordou com o cacheado, finalmente pegando a sacola com as roupas que escolhera. — Adeus, Srta Margareth foi um prazer te conhecer.

Eles caminharam em silêncio até o carro, com os braços ainda juntos e a ruiva o ofereceu um sorriso quando Harry abriu a porta traseira do carro e a ajudou guardas seus novos pertences. Ginny e Harry eram muito bem sincronizados desde o começo da amizade, e nem sempre precisavam de muitas palavras para que se compreendessem, então quando após uma pequena viagem de carro por dentro da cidade os levou para um café de aparência simples, Ginny não estava surpreendida.

— Graças a Deus você parou aqui, eu estou faminta! — Proclamou a ruiva, ajeitando seu vestido azul, o qual ela ainda usava, pois havia se esquecido de tirá-lo antes. Harry riu de sua animação para comer e ela deu um soco em seu braço de forma brincalhona, antes dos dois saírem do carro. — Não ouse rir de mim, Harry Potter, um copo compartilhado de café expresso e uma barrinha de cereal, não formam um café da manhã decente

— Eu sei, ruivinha, por isso te trouxe aqui. — Ele disse com uma piscadela charmosa, e a guiou para dentro do estabelecimento. Por fora, era apenas um lugar simples de terracota, com alguns canteiros de flores ao redor e duas mesas com guarda-sol não muito longe da porta de entrada.

O interior trazia consigo diversos móveis de madeira, do balcão as mesas, tudo era madeira escura polida, as paredes de cor de creme, tinham vários quadros e fotografias em si. O lugar não era nada grande, e de certo passava uma enorme simplicidade, ao menos comparado aos grandes cafés caros por qual eles já haviam passado, porém algo naquele ambiente, davam a eles uma sensação de acolhimento, que poucos lugares, a não ser o próprio lar, davam.

Eles comeram um café da manhã inglês típico, feijões assados, torrada, tomate, cogumelos, salsicha e um bom chá, para ela, chá Yorkshire com um pouco de leite, e para Harry uma xícara fumegante de Earl Grey, com apenas um pouco de mel para adoçar.

Após o café da manhã, eles andaram em volta da cidade, visitando o Castelo de Windsor, com direito a uma ótima aula de história da arte durante o passeio, uma vez que Harry ia contando a curiosidade de cada quadro por qual passavam. E em seguida eles passaram por Eton, uma das maiores e mais famosas escolas da Inglaterra, na rua da escola havia tantas galerias de arte e antiquários, que Harry parecia uma criança em um parque de diversões.

No entanto, quanto mais se aproximava das quatro da tarde, mais aflita Ginny ficava, ela deveria estar indo para Igreja naquele momento, na companhia de sua mãe e amigas, ela deveria estar se preparando para subir no altar, mas ao invés disso ela estava explorando lugares históricos com seu melhor amigo.

― Hey, Ginny, o que foi? ― Questionou Harry, olhando para Ginny com preocupação, eles estavam em um antiquário, ele estava encantado com a quantidade pinturas e livros haviam ali, mas não apenas isso, lá também possuía uma enorme quantidade de móveis e roupas que os fazia lembrar da Era Vitoriana.

Ginny não sabia o que responder, deveria contar a verdade? Dizer que estava assustada? Ela não queria, não conseguiria fazer isso, ela não podia estragar a viagem deles no primeiro dia. Mas ela se sentia tão mal, e foi uma mudança tão brusca, é claro que ela estava se divertindo, e se divertindo muito, só que aquilo parecia tão errado.

E ela sequer podia saber se estavam procurando por ela, porque assim que eles entraram no carro, ela e Harry desligaram o celular dela e deixaram apenas o dele ligado, uma vez que ele havia avisado que iria adiantar a viagem, e Lily ficou extremamente preocupada com o filho mais velho e com isso ela pediu pra que ele a avisasse assim que chegasse.

― Não é nada, Har. ― Decidiu dizer no final, era mentira, era claro que era mentira e estava escrito em sua testa, talvez tenha sido por isso que Harry riu e negou com a cabeça, deixando o pequeno cavalo de madeira na estante em que pegara.

― Ginny, você pode me contar a verdade, eu não vou ficar bravo. ― O cacheado prometeu, pegando na mão da ruiva e a beijando delicadamente. Ele sorriu, primeiro com os olhos, e depois com todo o corpo. ― Você pode confiar em mim, pequena.

― É que, eu deveria estar lá sabe? No meu casamento, mas eu tô aqui me divertindo com você e não consigo me arrepender disso. ― Confessou ela com um sussurro aflito, desviando do olhar carinhoso que o moreno a enviava, escolhendo olhar para seus próprios sapatos, um par simples de vans que ela comprou no brechó. Ela não viu, mas sentiu quando ele afastou seu cabelo de seu rosto e o levantou com cuidado.

― Está tudo bem, Gi, mas não tem problema em pensar em si mesma também. ― Garantiu ele com a voz suave e acolhedora, ela balançou a cabeça em concordância, apesar de não estar nada confiante sobre isso, e o abraçou com força.

Ela sempre estaria grata por tê-lo ali com ela. Com Harry, tudo parecia melhor, ela sentia-se segura, e sabia que nele poderia confiar de olhos fechados. Ele sempre seria seu porto seguro.

― Você confia em mim? ― Ele perguntou com a sombra de um sorriso querendo aparecer, Ginny concordou confusa, ela havia fugido de seu próprio casamento, deixando apenas uma mensagem telefônica gravada para seu, agora, ex-noivo, e pulado em uma aventura com ele. Nada disso provava que ela confiava em Harry?

― Claro que sim, Harry. ― Respondeu com o tom levemente irritado, e olhos semicerrados. O moreno sorriu abertamente, um sorriso brincalhão e sapeca, como os que ele dava quando eram crianças e ele a levava para caçar bichos nojentos, como sapos e lagartos. ― O que você está planejando, Potter?

― Nós vamos ao Windsor Independent Market. ― Ele avisou, ainda sorrindo, e a levou para fora do antiquário, em direção do que talvez se tornasse na experiência mais divertida da vida dela, até aquele momento.

XXX

Então galeris é isto, a parte mais legal da fanfic está começando, preparem os cintos porque a viagem é loooooooonga! Espero que estejam gostando, eu tenho mais dois capítulos prontos e devo postá-los toda semana, uma vez por semana, apenas por garantia. Comentem o que estão achando porque me incentiva muitoooooooo.

Até a próxima! Beijos