Era um belo sábado de outono, e as folhas alaranjadas caiam sem parar pela janela do quarto. O quarto era simples, as paredes eram de uma cor clara de amarelo, era suave, e possuía apenas duas grandes janelas e uma porta de correr de vidro que dava acesso á uma sacada pequena. tudo isso formava um conjunto bonito e simetricamente perfeito. No entanto a ruiva de cabelos curtos não notava a beleza ao seu redor, só conseguia pensar em um certo moreno de cabelos cacheados que estava no quarto ao lado.
Sim, quarto ao lado. Desde a declaração que ele fizera, sobre estar apaixonado por ela, eles preferiram ficar em quartos separados, para não causar nenhum constrangimento, mas a cada dia que se passava, parecia mais idiota a decisão que eles tomaram. E ela sentia falta dele.
Faziam apenas três mese que ela havia terminado com Dean, é claro que algumas coisas ainda doíam, e ela certamente não estava totalmente bem para começar um relacionamento, porém, ele estar apaixonado por ela não fazia um relacionamento acontecer. No entanto…
No entanto, ele confessar o que sentia por ela, trazia lembranças um tanto dolorosas de seus treze anos, quando ela não conseguia desgrudar os olhos de Harry, que estava tornando-se, na época, um adolescente bonito, do tipo que lhe tirava o fôlego. Ela costumava achar que aquilo era porque ele era bonito, atencioso e um bom amigo, mas agora, aos vinte e dois anos, ela entendia que seus sentimentos por Harry naquela época iam muito além de uma amizade.
Ao que tudo indicava ela havia tido uma grande queda por ele.
Ela teria continuado a imaginar sobre todas as coincidências horríveis da vida, se alguém não estivesse batendo em sua porta. Ela ajeitou seu suéter verde, que estava totalmente amassado, e colocou seus cabelos curtos, estavam repicados e mal chegavam em seu ombro, em um rabo de cavalo desajeitado. Surpreendeu-se, porém ao encontrar Harry parado em sua porta, com os cabelos bagunçados semi cobertos por uma touca verde desgastada, jeans surrados, um suéter de lã azul e um sobretudo marrom. Seus olhos estavam apreensivos, mas seus lábios sorriam levemente. Como o moreno era a única pessoa que ela conhecia no hostel, não a surpreendeu o fato de ser ele, mas sim o fato que ele veio bater em sua porta após o horário do jantar na sala de refeições, que por algum motivo ele não apareceu.
— Hey, Gin. — ele cumprimentou parecendo sentir-se acanhado com o silêncio dela. — Quer sair para andar um pouco?
— Sair para onde? — Perguntou a ruiva escorada no batente da porta, abraçada ao próprio corpo, para que a corrente fria que passava pelo corredor não a fizesse tremer tanto. Ele estava com os olhos fixos em cada movimento dela, e ela agora percebia em como os olhares dele em sua direção eram carinhosos. Fazia com que ela entendesse porque Dean e sua mãe achasse a amizade deles imprópria, era porque ele era apaixonado por ela, e nunca escondeu isso, mas também nunca colocou os próprios sentimentos acima da felicidade dela.
Ele a protegeu dele mesmo, como se ele fosse um problema, algo ruim. E essa percepção dos sentimentos dele deixavam-na triste. Ela o amava, talvez não como ele gostaria, mas em momento algum desejou machucá-lo. Esperava poder mostrar o quanto os sentimentos dele eram igualmente importantes durante a viagem que estavam fazendo, que esse ano sabático que tiraram de última hora pudesse o ajudar tanto quanto estava ajudando ela.
— Eu não sei, o senhor Ureña, disse que estava tendo um festival de rua aqui perto, pensei que talvez você quisesse ir dar uma olhada. — ele falou timidamente com a voz baixa, as mãos mexendo nervosamente no suéter e o rosto ficando avermelhado. — Mas você não precisa vir se não quiser, eu só pensei que poderia ser divertido.
— Eu adoraria ir, Har. — Ginny respondeu com um sorriso pequeno, sentindo-se aquecida por ele tentá-la deixar confortável a todo custo, no entanto, eles ainda precisavam conversar sobre ele.
— Mesmo? — Harry perguntou com os olhos brilhando em deleite. Como se a companhia dela fosse a melhor coisa do mundo, e talvez ele acreditasse nisso, afinal eles eram melhores amigos há muitos anos, e seria no mínimo estranho ele não gostar da companhia dela, ou ela a dele, claro que não era necessário que ela fosse a melhor companhia.
— Sim, — ela concorda com um sorriso e desencostou-se do batente da porta, entrando para dentro de seu próprio quarto. — mas nós precisamos conversar antes, Harry.
— Se for sobre eu estar apaixonado por você, não precisa se preocupar Gin, eu sei que você não me vê assim, eu não vou tentar nada e vo.. — Ele começou a tagarelar desesperadamente, a encarando com medo em seus olhos. A ruiva suspirou derrotada e o puxou para dentro do quarto, prevendo que a conversa se estenderia.
— Respira, H. — Ela pediu interrompendo o monólogo desesperado do moreno, que acomodou-se na cama levemente bagunçada do quarto da Weasley, e ela sentou-se ao seu lado, encarando a janela por alguns instantes, antes de virar-se para ele. — Eu quero falar sobre isso, mas eu sei que você me respeita.
— Então sobre o que é? — Ele perguntou parecendo mais relaxado, e deitou na cama, na mesma posição em que estava quando confessou estar apaixonado por ela. Quando ele deu todos os detalhes de como sentia-se por ela durante todos esses anos, como a amou em segredo, com muito medo de magoá-la para dizer a verdade.
Ginny amou-o um pouco mais a partir daquele momento e o odiou também. Amou-o por cuidar dela sem pretensão de ganhar alguma coisa, e o odiou por não cuidar de si mesmo. Se ele se tornasse infeliz por culpa dela, por ela não ser uma boa amiga, ela nunca se perdoaria por não enxergar os sentimentos dele. E agora que os enxergava não permitiria que ele a colocasse em primeiro lugar por mais nenhum segundo.
A partir de agora, ele seria a prioridade dele, e ela seria a prioridade dela. Eles iriam se cuidar, mas não fariam um do outro uma prioridade. Não era certo ou justo com nenhum dos dois, ambos mereciam atenção, cuidados e carinho, ambos mereciam achar um parceiro para compartilhar vida, alegrias, tristezas e angústias. Harry Potter e Ginny Weasley mereciam amar e serem amados intensamente.
— Eu não quero que você continue me priorizando, Hazz. — A ruiva fala com um olhar sério, fitando-o intensamente, como seu seu olhar pudesse ser o suficiente para fazê-lo entender o que ela estava pensando e queria dizê-lo naquele momento. — Você é o meu melhor amigo, e eu não quero que você deixe seus sentimentos de lado para não machucar os meu, isso não te faz bem.
— Eu nunca percebi que fazia isso, mas você tem razão — O moreno concordou a olhando admirado, seus olhos verde esmeralda, pareceram brilhar um pouco mais depois do discurso sério dela, era um brilho bonito de admiração, que a fez corar até a raiz dos cabelos. Ginny sabia que nunca iria se acostumar com ele olhando-a assim, não só porque o pensamento de ter Harry apaixonado por ela ser muito recente, mas sim porque ninguém nunca a olhou assim. — Eu prometo tentar me priorizar mais, mas..
— Mas? — Questionou com os olhos castanhos encarando-o com um misto de seriedade e curiosidade. Ela tinha que fazê-lo aceitar aquilo, Harry precisava cuidar de si mesmo, e não havia lugar para exigências estranhas dessa vez.
— Mas você tem que prometer se priorizar também. — O moreno respondeu com a voz séria, olhando fixamente para a ruiva. Ginny sentiu-se corar, e apesar de saber o quanto ele importava-se com ela, ainda a surpreendia quando ele falava esse tipo de coisa. — Você promete?
— Eu prometo, Hazz. — Ela respondeu com um meio sorriso, sentindo-se cuidada.
— Não, Gin. — Harry falou seriamente, com os olhos fixos no rosto arredondado e cheio de sardas da Weasley, olhando dentro dos olhos cor de chocolate, seus olhos se conectaram e algo aconteceu ali. Era muito além de uma simples troca de olhares, era uma conexão emocional. — Fale com todas as letras, por favor.
— Eu prometo que tentarei me priorizar, que nunca colocarei meus sentimentos como menos importantes, falarei o que penso e não deixarei ninguém controlar minha vida. Nunca mais. — Ela declarou com a voz parcialmente embargada e os olhos começando a lacrimejar. Envergonhada por estar tão emocional, Ginny desviou seu olhar para o teto, sendo essa a única forma que ela encontrou para não chorar.
Ele sorriu tristemente, sabendo como essa declaração era importante para ela, Harry percebeu que o momento era emocional, e que qualquer movimento brusco poderia deixá-la triste, por isso tudo que fez foi acariciar os cabelos dela com carinho de forma quieta e complacente, desesperado para ajudar. Ficaram em silêncio por longos minutos enquanto ele mexia nos cabelos curtos e ruivos de Ginny, ambos pensavam apenas em uma coisa: a declaração de Harry estava sendo a parte mais importante da viagem. Talvez se ele não tivesse contado que era apaixonado por ela, eles não estariam tentando melhorar, não iriam perceber que era necessário mudar.
O moreno a encarou, ela não viu, uma vez que seus olhos estavam fechados, mas ela conseguia sentir que estava sendo observada por ele, no entanto não pronunciou isso, apenas esperou, curiosa para o próximo passo que ele daria. Sabia que deveria estar uma bagunça de membros jogados preguiçosamente na cama e que seus cabelos estavam espalhados em volta de seu rosto, e seu rosto estava quente, o que indicava que ele provavelmente estava corado. A respiração dele aproximou-se do rosto dela, e Ginny abriu os olhos, encarando-o.
Harry estava com o rosto a poucos centímetros do dela, os narizes quase se encostando, os olhos verdes brilhando em afetividade e admiração. Suas bocas estavam tão perto que ela conseguia sentir o hálito quente dele em seu rosto, a mão esquerda dele ainda estava em seus cabelos, mas a direita agora repousava e ele passava calmamente seus dígitos por o rosto dela, como se quisesse decorar cada linha, cada traço, cada sarda de seu rosto. E ela sabia que eles estavam a um passo de se beijarem, e ela até mesmo sentia vontade fazê-lo, todo o momento que tiveram parecia pedir por isso, mas… Era o certo a se fazer? Se ela o beijasse agora, o que viria depois? Como ele ficaria? Após anos apaixonado por ela em algum momento ele deve ter se imaginado beijando-a, era algo comum de se fazer, mas ela não estava apaixonada por ele. Como beijaria ele, correndo de incentivá-lo a pensar que ela tinha sentimentos por ela, quando ela não tinha? Não era justo com ele, nem com ela.
Quando seus lábios quase se roçaram, ela se afastou bruscamente, assustando Harry, que pareceu perceber o que estava quase fazendo, e levantou-se rapidamente da cama, parecendo muito além de sentou-se na cama, endireitando-se e o encarou aflita. Ele estava petrificado.
— Ginny, eu sinto muito, eu não deveria ter feito isso, me desculpa, eu sou um idiota. — Despejou o moreno de cabelos cacheados, suas palavras saindo apressadas e soando nada além de arrependidas e angustiadas. Ginny xingou-se mentalmente ao notar que acabou deixando-o nervoso e preocupado, e tentou sorrir para o amigo. — Sério, me desculpa, eu passei dos limites, e não vou repetir isso.
— H, calma, senta aqui. — Pediu ela com a voz calma, indicando a cama. Consternado, ele negou freneticamente, afastando-se mais alguns passos, como se achasse que estar perto dela fosse perigoso. — Vem cá, por favor, H.
O moreno suspirou e concordou com um olhar pesaroso, sentando-se na cama em momentos depois com alguns bons centímetros de distância entre eles. Suas mãos apoiaram-se em seus joelhos e seu rosto foi escondido por suas mãos, a posição deixava claro o que ele estava sentindo: vergonha. Sentia-se envergonhado por ter escutado seu impulso e quase beijá-la, mesmo sabendo que não deveria, ele havia tentado, e agora sentia-se mal, por não tê-la respeitado, por ter sido rejeitado e principalmente da hipótese de ter estragado tudo.
— Eu fui um idiota, não vou tentar te beijar de novo, não precisa se preocupar. — Murmurou o moreno, ainda sem retirar o rosto de suas mãos, o que fez com que sua voz saísse abafada e quase inaudível.
— Har, olha pra mim. — Ela pediu gentilmente colocando sua mão no ombro dele.
— Por quê? — Harry perguntou encarando-a com seus brilhantes olhos verdes, seus olhos estavam nebulosos de dor, e vê-lo assim destruía a Weasley. Ver seu melhor amigo sofrer e saber que era a causa do sofrimento era terrível, mas pior seria se ela tivesse beijado-o e ele precisava entender isso, precisava entender que ela só queria evitar que ele se machucasse mais, que ela só queria o proteger dela mesma.
— Porque eu quero que você olhe para mim enquanto eu falo com você. — Ela explicou com a voz calma. — Quero que você saiba que eu não te beijei, porque eu não estou apaixonada por você, H, e eu não estou dizendo que não senti vontade de fazer isso, mas que eu não tive coragem de te dar esperanças quando minha mente ainda está uma bagunça.
— Você não precisa me proteger de você mesma, Ginny, eu sou bem grandinho pra entender que um beijo não ia mudar nada entre nós dois. — Harry respondeu com a voz dura, soltando uma risada amarga no final da frase e retirando a mão dela que ainda repousava em seu ombro. — Não é como se fosse mudar muita coisa para mim, de qualquer forma, mas, me desculpe por ser incômodo.
— Você não é um incômodo, Harry. — A ruiva repreendeu ele com os olhos irritados, e o coração partido por ouví-lo falar assim de si mesmo. Ela alcançou as mãos dele, e a apertou, fazendo com que ele a olhasse. — Eu amo você com todo meu coração, Harry, e por isso não acho justo te beijar quando não sinto nada além de amizade por você. Não quero te machucar.
— Você não iria. — Respondeu ele com o olhar surpreso diante da declaração dela, sua mente sussurrava que ela apenas não achava bom o bastante para ela, mas seu coração dizia para acreditar no que ela estava lhe falando.
— Iria sim, eu te conheço Hazz. — Falou Ginny com um sorriso triste, e num canto distante da mente dele concordava com ela. A ruiva acariciou a mão dele mais um pouco e eles permaneceram em silêncio por longos minutos apenas aproveitando a companhia um do outro.
— Acho que vamos ter que deixar a festa para outro dia. — Ele riu olhando para ela que o acompanhou sinceramente, e apoiou a cabeça no ombro dele e ele apoiou a própria cabeça na dela, não importavam-se com a festa a presença do outro era o suficiente. — Acho que é melhor eu voltar para o meu quarto, está ficando tarde.
— Não vá, fica aqui e vamos ver filmes. — Ela pediu com os olhos brilhando em sua direção segurando no suéter dele. — Eu vi que vai estar passando O Vazio do Domingo, e você pode passar a noite comigo, como nos velhos tempos.
— Tudo bem, você me convenceu. — Harry concordou parecendo genuinamente mais feliz que há momentos antes, ele tirou seu sapato e o casaco por cima do suéter, Ginny ajeitou a cama e deitou-se deixando um bom espaço para Harry ao seu lado. — Se você me fizer chorar com esse filme, vai ter que me aguentar dormindo do seu lado.
— Você que é manteiga derretida e eu que pago o pato? — Perguntou rindo do amigo que se aconchegou na cama, abraçando-a para que assim os dois conseguissem estar confortáveis.
— Primeiro, eu não sou manteiga derretida, você que não tem coração, e segundo, — Ele começou a falar enquanto ela colocava o filme na televisão do quarto, a voz dele soando indignada enquanto ela ria silenciosamente. — você precisa me consolar depois de me fazer chorar.
Ela riu e foi acompanhada por eles. A noite acabou muito diferente do que ambos esperavam, muito pelo contrário, eles tinham previsto que a noite terminaria com uma briga ou com eles sozinhos novamente, esperavam até mesmo que um deles desistisse e fosse embora. Felizmente nada disso aconteceu.
— Obrigada por não desistir de mim. — Ginny sussurrou quase duas horas após eles se acomodarem na cama, quando ambos já haviam apagado as luzes e desligado a televisão, quando tudo o que via era a silhueta dele, e tudo o que podiam ouvir era a respiração um do outro e as vozes animadas das pessoas na rua.
— Eu nunca vou desistir de você. — Harry prometeu segurando a mão dela. Com a escuridão no quarto ela não podia ver, mas sabia que ele sorria, e apenas o conhecimento de que ele sorria o coração dela aqueceu-se e errou uma batida. — É uma promessa!
— E eu não desistirei de você.
XXX
Então ( entrando de fininho )... gostaram? odiaram? Alguém quer matar os personagens? UAHUHAUHAUHAUHA
Espero que tenham gostado do capítulo pq eu AMEI escrever ele, inicialmente ia ser maior, masss preferi cortar ali. Amo vocês!
SE CUIDEM OK?!
