Olar galera, tudo bem? Espero muito muito que sim. Passaram-se duas semaninhas e cá estou eu novamente! O capítulo de hoje é de longe um dos mais complicados, por isso eu peço tenham muita paciência com os acontecimentos. Aviso que contém gatilho, e recomendo que não leiam se não se sentirem confortáveis com isso, valorizem a saúde mental de vocês! Beijos e até o final do capítulo.

XXX

10 de novembro de 2018: San Sebastian, Espanha

Ginny havia o beijado. O beijado de verdade, com corpo e alma, e naquele momento, naquela noite de Halloween, Harry achou que era o dia mais feliz de sua vida, ele havia realizado um de seus maiores desejos, e tudo foi perfeito e espontâneo. No entanto nada se comparava com a manhã seguinte, quando as mãos quentes de Ginny tocaram em seu rosto semi adormecido e ela o beijou suavemente desejando-lhe bom dia com a voz preguiçosa, provando que tudo aquilo tinha sido real e que ela fez porque sentiu vontade.

Os dias que seguiram a noite de Halloween foram ainda melhores do que ele poderia imaginar, eles estavam ainda mais sincronizados que antes, e tudo parecia apenas se encaixar perfeitamente, parecia que ele estava tendo finalmente de construir seu próprio conto de fadas com ela.

As manhãs cinzentas tornavam-se coloridas com o riso de Ginny, e ele não precisava mais temer a solidão, ela já não era mais uma realidade, a ruiva não o deixaria de lado mesmo que ele estivesse apaixonado por ela.

Tudo estava perfeito, e eles deveriam ter desconfiado da perfeição que estavam vivendo, deveriam ter previsto que tanta felicidade os faria cometer algum erro que os prejudicasse. Eles deveriam saber que Dean Thomas os encontraria no momento em que usaram o celular de Ginny semanas atrás, deveriam ter percebido que ele os encontraria, mas não perceberam, e por isso estavam agindo normalmente.

O dia começou perfeito, mesmo que em sua cabeça todos os dias com Ginny acordando a seu lado fossem perfeitos afinal a companhia dela era tudo que ele desejou por anos, com um brilho e calor incomuns para uma manhã de outono, principalmente quando os dias pareciam apenas esfriar cada vez mais, o sol se levantava preguiçosamente e as luzes iluminavam os cabelos ruivos dela de forma que eles pareciam queimar sob a fronha azul clara do travesseiro em que ela estava deitada, ainda era muito cedo para ele estar acordado, não deveria passar das seis da manhã, mas ele simplesmente não conseguia mais dormir, não quando tudo naquele quarto de hotel estava incitando-o para começar um desenho, e bem quando se tem uma inspiração, você deve segui-lá.

E pela primeira vez desde que começaram a viagem, ele seguiu o impulso de desenhá-la, seria o primeiro desenho que faria dela com a visão que realmente tinha dela, de alguém apaixonado e não de um amigo, e por isso ele levantou-se da confortável cama de casal que dividiam, e seguiu para a poltrona que ficava ao lado da janela, mas que o proporciona uma visão perfeita dela e ainda havia o bônus da luz perfeita, que apenas o ajudava ver a ruiva como uma verdadeira musa inspiradora sem o menor dos esforços.

Harry, agora já muito mais desperto que há cinco minutos quando apenas olhava Ginny adormecida, com um sentimento de gratidão de tê-la com ele crescendo em seu peito, e com seus óculos de grau pendendo na ponta de seu nariz, começou o desenho pelo corpo meio coberto pelo edredom grosso, e então para o seu ombro descoberto salpicado de sardas, a manga do moletom verde de Harry que ela usava deslizando pelos braços dela deixando, os cabelos ruivos cobrindo metade do rosto bonito, também salpicado por incontáveis sardas, que parecia em total paz. Tentou capturar a sombra que as luzes do sol formavam no corpo dela, e o jeito como o cabelo dela apenas brilhava daquele modo único, ele fazia cada detalhe com cuidado, dedicando-se ao máximo em cada traço de seu rosto e corpo, em como os cílios dela descansavam no osso alta de sua bochecha imperativa, em como o arco de sua boca levantava-se suavemente como se ela estivesse sempre com um sorriso em seu rosto, em como o nariz dela parecia ter sido projetado pela mão dos mais habilidosos pintores do mundo, e em como pequenos fios de cabelos enrolavam-se na nuca dela.

Quando o sol já estava parcialmente alto no céu, e as vozes animadas dos hóspedes, a maioria deles falando em espanhol, começou a ser ouvida foi que Ginny começou a se movimentar na cama. Os olhos agitando-se levemente até finalmente abrirem parcialmente em uma névoa meio adormecida, instintivamente procurando pelo calor de Harry e encontrando nada além da cama gelada, o que fez com que ela despertasse totalmente e abrisse seus lindos olhos castanhos de uma vez, encontrando o sorriso de Harry que encarava-a da poltrona.

— Bom dia, Gin. — O moreno comprimentou-a com um sorriso bonito e cheio de dentes, fazendo a ruiva sorrir e se levantar-se, indo preguiçosamente na direção do moreno, o moletom verde batendo no começo das coxas bonitas de aparência leitosa e salpicada de sardas, ele frequentemente se perguntava onde mais ela teria sardas, se todo corpo dela era realmente perseguido pelas pintas avermelhadas ou se elas apenas existiam nos locais que eventualmente ficavam sob a luz do sol. Ginny empoleirou-se no braço da poltrona que não estava com seu material de desenho e o olhou com um sorriso pendendo em seu lábios bonitos.

— Bom dia, cotovia. — Ela o cumprimentou ele, a voz doce soando divertida e um beijo leve foi depositado nos lábios dele, as mãos dela tocando carinhosamente o rosto como se ele fosse algo que demandava manuseamento delicado, e ele segurou a cintura dela por baixo do moletom com delicadeza seus dígitos desenhando círculos na pele nua e aquecida. Isso era algo que começaram a fazer a partir da madrugada de Halloween, beijos delicados sempre que tinham a chance, carinhos que nunca ousaram trocar até poucos dias, mas que internamente Harry sempre tivera vontade de fazer.

— Cotovia? — Ele questionou metade divertido e metade intrigado, ainda segurando a cintura dela, a cabeça repousada no ombro da ruiva, aproveitando o cafuné que recebia enquanto eles observavam as sombras das árvores no quarto.

— Sim, — a ruiva respondeu com a voz bem baixinha em meio a um bocejo, um sorriso crescendo nos lábios dela conforme pensava no que iria falar. — li recentemente que as cotovias são pássaros muito bonitos que gostam de aproveitar o dia, e por isso costumam acordar bem cedo. Igual a você.

— Igual a mim? — Harry perguntou em meio a uma risada, apesar de saber que sim amava acordar cedo, e beijou o templo dela com carinho ao levantar a cabeça do ombro da ruiva quando ouviu a barriga dela roncar, fazendo com que ela ficasse levemente corada. — Alguém está com fome pelo visto.

— Faminta, na verdade. — Respondeu Ginny com um meio sorriso, levantando-se do braço do sofá com leveza e se colocando na frente dele, os cabelos desgrenhados e amassados do tempo em que ela passou dormindo dando a ela um visual confortável e aconchegante. — E sim igual a você, senhor eu-acordo-com-as-galinhas.

— Idiota. — Ele resmungou entre um meio sorriso enquanto levantava-se, apenas agora com ela acordada que ele notou que também estava faminto e que a bateria do celular dele havia morrido, o que impossibilitava a pequena viagem que eles haviam planejado até o centro da cidade sem que eles se perdessem. — E eu não acordo com as galinhas, só não gosto de perder nada do dia.

— Você é tão chato, H. — Implicou a ruiva cutucando gentilmente as costelas dele com o cotovelo quando passou por ele em direção ao banheiro, apenas a toalha em mãos e um sorriso brincalhão nos lábios preparados para atirar mais brincadeiras com outros sentidos quando seus brilhantes olhos castanhos se desviaram para o desenho que ele havia feito, e que definitivamente não estava pronto. — O que é isso?

— Huh, nada. — Respondeu o Potter com a voz ligeiramente mais alta e fina que o normal, colocando-se em frente a poltrona de moda que Ginny não pudesse ver o desenho inacabado que ele havia feito dela. Apesar da relação deles terem mudado significativamente para melhor, um desenho dela dormindo não era exatamente o tipo de coisa que ele imaginava se correto compartilhar com ela, ou com qualquer outra pessoa por vários motivos, mas os dois principais eram:

Motivo número um: Ele não havia concluído o desenho, e esse era apenas um esboço, nada caprichado o suficiente para mostrar a Ginny, que era uma maldita fotógrafa de mão cheia.

Motivo número dois: Por mais que fosse de conhecimento geral que ele estava apaixonado por Ginny, havia uma linha muito tênue entre o romantismo em assistir uma pessoa dormindo e ser um psicopata maluco doido por sabe-se Deus o que, que desenha mulheres dormindo sem a permissão prévia delas.

— "Huh, nada", sério, H? — A Weasley perguntou enrugando o nariz em uma careta de desagrado olhando seriamente para ele sem desistir de tentar alcançar o que ele escondia atrás de seu corpo musculoso. — Por que não quer me mostrar, Harry? Achei que estávamos tentando ser honestos aqui.

Ouch. Era jogo sujo mencionar a recém construída relação de confiança deles, era muito recente ainda para classificar como...alguma coisa, mas ao mesmo tempo não era qualquer coisa. Os sentimentos que ele guardou por anos estavam em jogos, os sentimentos dela, a liberdade que ela estava aprendendo a ter estavam em jogo. Era apenas muito para arriscar não ser honesto. No entanto, às vezes ser honesto era muito difícil para Harry que sempre preferiu esconder seus sentimentos a magoá-la.

— É um desenho, — admitiu ele com um suspiro resignado, ela estava certa afinal, Harry não podia simplesmente fingir que não era nada, deveria ao menos dizer o que era e explicar a situação. — mas ainda não tá pronto. É só um esboço bobo, por isso não quero mostrar.

— Por que não disse antes, H? — Ela perguntou com um olhar ilegível, aquele tipo de olhar que os pais deles costumavam lançar quando ele tentava mentir sobre alguma coisa. — Você sabe que eu amo seus desenhos, e qualquer risquinho que você faça já é uma verdadeira obra de arte. E mesmo que estivesse uma merda, você não precisa esconder de mim, apenas diga que não quer me mostrar, e está tudo bem, Hazza.

— Uou, apenas uou. — o moreno respirou fundo encarando surpreso, não era o tipo de discurso que ele escutaria de Ginny há alguns meses atrás, Deus, ele não escutaria isso dela, não desse jeito tão sincero com os olhos brilhando em um fogo que parecia ter se perdido durante sua adolescência. A ruiva estava começando a ser quem ela realmente desejava e isso o encheu de esperança. — Eu nem sei o que falar, uh. Obrigado, Gin.

— Não precisa me agradecer, H, eu só quero que você saiba que eu te apoio, e que a gente precisa ser realmente honestos aqui. — A ruiva respondeu com um olhar bondoso e um sorriso fraco, seguindo para o banheiro sem esperar por uma resposta, deixando-o boquiaberto.

Céus, ele a amava.

Sabendo que os banhos da manhã dela eram quase sagrados, ele pegou seu material de desenho, que no caso consistia em um caderno de capa dura com aparência muito gasta, ele usava aquele caderno há bons anos, um lápis para desenho comum e uma borracha, seus lápis de cor e tintas estavam guardados em uma mala separada ainda no porta malas de seu carro e ele não estava disposto a descer apenas para isso, e os guardou em sua mochila de viagem, uma mochila jeans gigantesca que ele usava para acampar com seu pai quando mais novo.

Não tendo muito mais o que fazer Harry pegou seu celular, respondendo as mensagens de seus pais, que consistiam em um pedido para ele ligar para casa, um "como você está, meu bem?" de sua mãe, e uma foto de suas irmãs brincando no jardim extenso da casa deles com os mais novos membros da família, um beagle de aparência muito jovem e um Jack Russel filhote com uma das patinhas da frente menor que as outras, algumas mensagens de seus amigos da faculdade perguntando sobre os países, uma foto de um exercício de inglês que Elena estava com dificuldade, e por fim uma ligação perdida de Pansy, que ele não poderia retornar, já que ela deveria estar no trabalho no momento, eles tinham apenas uma hora de diferença no fuso horário, mas essa uma hora acabava fazendo diferença.

— Estou pronta, Har. — A voz doce de Ginny voou até seu ouvidos fazendo ele desgrudar seu celular da foto de sua família que ele ainda encarava com uma saudade imensurável, estava decidido a ligar via skype para eles quando a noite caísse, precisava ouvir a voz de seus pais e ver suas irmãs, para matar apenas um pouco da saudade que sentia de casa. Ele a olhou, ela estava apenas usando jeans e um suéter creme, seus cabelos estavam molhados, e mesmo assim para ele, ela parecia uma verdadeira deusa. Afrodite não poderia chegar aos pés dela nem se tentasse. — Está tudo bem?

— Sim, apenas um pouco de saudades de casa. — Harry respondeu com a voz baixa e calma, ela olhou-o complacente, e se aproximou dele com calma e a luz do sol parecia acompanhá-la como se nem mesmo o astro rei fosse imune aos encantos da ruiva. Então ela chegou realmente perto, suficiente para ele enlaçar a cintura dela e sentir o cheiro de baunilha que desprendia dela, e então Ginny beijou-o suavemente os cabelos dele e permitiu que ele a abraçasse por longos minutos, até que ele fosse para um rápido banho.

A manhã passou de forma agradável e realmente leve depois do momento sentimental que eles tiveram logo após acordarem, e eles foram ao Parque Cristina Enea, e almoçaram no La Trinidad, um restaurante pequeno e aconchegante próximo ao parque e após isso visitaram as lojas de antiguidades que estavam por ali. Tudo isso entre muitas risadas, conversas profundas, comidas desconhecidas, beijos bagunçados e inesperados e é claro muita confusão com a língua local por parte de Harry, ele falava muito bem português e alemão, e até mesmo era mediano em francês, mas precisava admitir que havia falhado em espanhol.

Quando voltaram para o hotel, em algum lugar perto das sete da noite,quando o sol já havia se postos e os casacos deles não eram o suficiente para impedir o frio que fazia na rua, de braços dados e com copos de latte em suas mãos sorrindo felizes um para o outro enquanto subiam as escadas para a entrada do hostel, eles não esperavam ver um Dean Thomas engravatado e com o olhar sério no rosto, e os pais de Ginny no hall de entrada acolhedor e bonito, porém nada granfino, esperando por eles.

— Olá, Ginevra. — Dean falou com sua voz rouca e fria, seus cabelos cacheados estavam cortados tão curtos que não teria como saber que ele possuía cachos a menos que você o tivesse conhecido antes, seus olhos castanhos percorreram pelos dois amigos que estavam abraçados e parecendo íntimos. — Parece que você resolveu me trocar por esse pintorzinho, no final das contas.

— Por favor, Dean, não vamos dar um show aqui. — Pediu, para a surpresa de todos, Arthur Weasley, um homem ruivo com os cabelos bem arrumados em um topete, olhos azuis brilhantes, usando um jeans de aparência cara, uma blusa de frio da blueberry e uma jaqueta estilo bombeiro da armani. Tudo nele indicava poder, um poder que Harry sendo filho de uma jornalista e um professor universitário nunca teria. — Leve-nos até o seu quarto, Ginevra.

Ela concordou com um suspiro, e seguiu até a recepção ainda calada, mas a mão dela continuava segurando a dele, e seus olhos castanhos ainda brilhavam o mesmo fogo que naquela manhã. Nem tudo estava perdido, afinal. O recepcionista, Rafael, um belo homem de cabelos cor de areia e gentis olhos verdes, os encarou aflitamente como se culpasse por o que estava acontecendo.

— Me desculpe, eles ameaçaram a chamar, a Sra. Muñoz, e você sabe, ela não hesitaria em dar a chave do quarto de vocês se fosse preciso. — Desculpou-se o menino em voz baixa, com o olhar arrependido, Harry sorriu para ele e dispensou suas desculpas assim como Ginny. Rafael havia feito o que podia para ajudá-los, e isso era o bastante.

— Não se preocupe, Raf, não te culpamos. — Respondeu a ruiva com um olhar enraivecido para os pais que estava olhando fixamente para eles dois, como se temesse que eles fugissem. — Agora, eu preciso da chave do quarto, e com sorte a gente consegue conversar sobre o péssimo espanhol de Harry no jantar.

— Ei! Meu espanhol não é tão ruim assim. — Reclamou Harry com um bico magoado, onde Ginny beijou-lhe delicadamente, sem se importar com seus pais a observando, o que encheu o peito dele de carinho e amor.

— É sim, cariño mio. — Respondeu ela com um sorriso jocoso pegando a chave e despedindo-se com um aceno de cabeça do recepcionista, eles chamaram os pais de Ginny e o seu ex-noivo com as mãos, apontando para as escadas. Eles subiram em silêncio, os dois na frente, parando apenas quando alcançaram no quarto 505, no último corredor do terceiro andar.

O quarto pequeno que dividiam estava como deixaram, ao menos era o que dava para ver pela porta, com exceção que a camareira havia feito a cama e colocado a mala deles dentro do armário, e talvez porque não havia nenhuma evidência de que eles estavam dividindo o quarto, foi que a senhora Weasley tentou barrá-lo.

— É uma conversa privada, Harry, vá para o seu quarto. — ela disse com a voz gelada e um olhar de desprezo, o braço na frente da porta do quarto. Ela parecia ter nojo em encostar na madeira da porta, se o nariz enrugado fosse uma dica, como se as mãos dela fossem muito preciosas para encostar em algo que não fosse extremamente fino e caro. — Nós precisamos ter uma conversa muito séria com a Ginevra.

Harry fitou Molly inexpressivamente, tentando absorver cada detalhe do que compunha ela, acreditando que talvez assim finalmente encontrasse uma resposta para os atos da mulher mais velha. O vestido de inverno branco Louis Vuitton, o sobretudo marrom da Yves Saint Laurent, os saltos pretos Tom Ford, os cabelos ruivos bonitos que estavam presos em um rabo de cavalo firme e perfeito davam a ela um ar bonito e sofisticado, mas o olhar que ela o lançava e as opiniões erradas que ela tinha, a tornavam tão feia que nenhuma roupa de marca, ou procedimento estético a fariam ficar bonita. Era a única conclusão que ele chegou, e tampouco lhe era satisfatória, já sabia disso há anos. Os Weasley nunca gostaram de Harry, não de verdade, ao menos, achavam-se muito importantes para simpatizarem com pessoas como os pais de Harry, para simpatizarem com alguém que ganhava menos de cem mil euros por mês. Eles suportavam a presença dele, principalmente por Harry ter sido a única criança a se aproximar de Ginny e uma filha depressiva não faria bem para a imagem deles. E ainda diziam que a amavam. Hipócritas malditos.

— Este é o quarto, dele, mamãe. — Ginny respondeu rapidamente, sem ao menos o dar a chance responder. Harry sorriu em direção dela, orgulhoso por ela ter tido coragem de defendê-lo e sentou-se na cama, colocando seu Iphone para carregar, ainda pretendia falar com seus pais quando aquela "conversa" acabasse. A ruiva mais jovem sentou-se na cama parecendo muito calma enquanto retirava seu tênis, um all star amarelo usado, e o colocava aos pés da cama, seus pais e seu ex-noivo estavam paralisados na porta. — Entrem logo para que possamos acabar com isso o mais rápido possível.

Os três visitantes pareciam surpresos com a atitude confiante da menina e desconfortáveis em estarem em um lugar tão não luxuoso quanto aquela pousada, suas roupas que custavam milhares de libras se repousaram no pequeno divã, e na poltrona de tecido simples e comum, nada de sedas e veludos caros por ali. Todos tinham um olhar muito sombrio em seus rostos, mas não pareciam mais tão certos do que iriam falar, e o que quer fosse dito, deveria ser algo muito importante para fazê-los viajar até a Espanha.

O que faz Harry lembrar-se do que pensou assim que os viu no saguão de entrada. Como diabos eles haviam o encontrando quando nem ele ou Ginny estavam usando suas redes sociais desde o começo da viagem, Ginny nem mesmo estava falando com ninguém pelo celular dela, e com o passar dos dias ela sequer recebia mensagens, então, como eles chegaram até eles?

— Como vocês acharam a gente?

— Isso não é do seu interesse, Potter. — Dean respondeu rudemente, praticamente cuspindo o sobrenome de Harry com um desprezo tão grande que o moreno de óculos quase o socou apenas por falar assim. Falar mal dele era uma coisa, não chegava a ser compreensível, mas falar mal de sua família, do legado, do sangue que ele carregava era simplesmente odioso.

— A partir do momento em que você invade a privacidade dele, passa ser do interesse de Harry, sim, Thomas. — Retrucou Ginny com a voz fria, e o rosto impassível, ela ainda estava sentada e era a mais baixa entre todos ali, mas a energia poderosa que demandava dela era imensurável. — Responda a maldita pergunta!

— Ginevra Molly, não ouse usar esse tom de voz com seu noivo! — Bronqueou a ruiva mais velha com um olhar repressor, o tom de voz irritado fez com que Ginny tremesse levemente, provavelmente estava lembrando-se das vezes que Molly usou este tom com ela, mas ainda assim Ginny não mudou sua expressão, apenas encarou-a com fogo nos olhos.

— Meu noivo? — Ela retrucou com a voz sarcástica para os três visitantes, totalmente indesejados, que acenavam em concordância para pergunta descrente que ela fazia como se estivessem respondendo o óbvio e ela estivesse fora de si. Como se o fato da ruiva ter abandonado Dean no altar não fosse o suficiente para demonstrar o quanto ela não desejava estar com ele. — Ele não é meu noivo!

— Ginevra, eu entendo que você tenha ficado irritada com o que eu lhe disse sobre adiar a festa, que era um capricho seu, mas se é tão importante para você… — Dean falava com aquele olhar de homem de negócios, tratando os sentimentos de Ginny com menos atenção que prestava as ações de sua empresa, e sorrindo com tranquilidade que parecia que ele estava falando do tempo, e não humilhando Ginny.

Mas que desgraçado de merda, e Harry nem poderia interromper as falas deles, sentia que as rédeas dessa conversa pertencesse apenas a ruiva e não a ele. Não apenas sentia como também sabia que Ginny precisava pôr um ponto final nessa história sozinha, ela não era uma dama a ser salva e ele não iria cometer o erro de tratá-la assim, no entanto ele daria todo suporte a ela.

— Não me chame de Ginevra! — Gritou a ruiva, levantando-se bruscamente da cama, alarmando o Potter se as coisas partissem para a violência ele precisaria interromper, e avançando perigosamente em direção deles. Os olhos dela brilhavam em tamanha raiva, que quase o fez temer pela vida daquelas três, odiosas, pessoas, que estavam testando a raiva de sua amiga.

— Não grite, mocinha! — Avisou Arthur com a voz rígida, também ficando de pé, por ele ser um homem realmente alto, aproximadamente um metro e noventa, Ginny precisava levantar a cabeça para falar com o pai, mas esse fato não parecia incomodá-la. Ou amedrontá-la. Diferente de Harry que temia por ela, Arthur Weasley era um homem violento, e não pouparia a violência, mesmo que fosse direcionada à própria filha. E Harry e Ginny sabiam muito bem disso. — Ele é seu futuro marido e você deve respeitá-lo.

— Ele não é o meu futuro marido, e eu o respeitarei quando ele me respeitar. — Ela respondeu com um olhar firme, sua voz estava dura e séria, um sinal claro de que aquilo não estava em discussão. Ao menos era um sinal claro para Harry, que sabia que ela não se controlaria mais caso eles insistissem no assunto. Uma parte cruel dele desejava que eles insistissem e provassem da raiva da amiga, mas a parte sensata dele o lembrava que estavam lidando com os pais de Ginny, que eram porventura, pessoas extremamente poderosas. E agressivas.

— Você envergonhou o nome de nossa família ao fugir do casamento, sem ao menos deixar uma nota e agora está deitando-se com qualquer um, como uma vadiazinha. — Molly rugiu de onde estava sentada, os olhos pousaram em Harry e na única cama presente no quarto e depois em sua filha que estava usando roupas comuns de inverno e tinha os cabelos curtos e repicados. — E como se sua falta de decoro não fosse suficiente, ainda está parecendo uma maltrapilha com essas roupas e esse corte de cabelo!

E então inesperadamente Ginny riu. Um som claro e incrédulo, ela olhava indignada para o que dia chamou de família, e Harry sentia-se de mãos atadas sobre o sofrimento que eles causavam em sua amiga, sabia que o que os pais dela a diziam nunca seria esquecido por ela e que a machucavam de forma indescritível, principalmente por ela estar sendo maltratada por aqueles que deveriam protegê-la e cuidá-la.

— Escute bem você três, — Harry começou decidido, também ficando de pé, sua paciência tendo se esvaído totalmente durante as poucas falas dos Weasley mais velhos e do Thomas, seus olhos faiscavam e uma raiva incomum reverberou em seu corpo com uma força imensa e ele precisou se segurar para não socar um dos homens presentes. — se vocês vieram conversar civilizadamente com Ginny, eu não me importo, é um assunto dela, e ela quem irá resolver e não eu, mas eu não vou ficar aqui ouvindo vocês insultarem minha melhor amiga apenas porque ela decidiu viver.

— Não se meta, Potter. — Rosnou Dean ficando muito próximo de Harry os olhos irritados pareciam matar Harry por pensamento, mas o moreno nada fez a não ser encarar o outro homem com a mesma intensidade. A violência não era a melhor saída, mas ele estava a poucos passos de quebrar a cara do idiota. — Minha conversa é com a putinha, ali.

Inesperadamente, a ruiva jogou-se em cima do moreno de terno, e o socou. O primeiro soco acertou-o em cheio no nariz, e o próximo no olho, apesar de ser bons centímetros mais baixa que Dean ela o acertou em cheio. Todos estavam muito chocados para fazer alguma coisa, e por isso não notaram até que acontecesse, o tapa que Dean acertou no rosto de Ginny, empurrando-a para longe, fazendo assim com que ela saísse de cima dela. Harry correu até onde ela estava, ajudando-a se levantar, no entanto Molly e Arthur limitaram-se a olhar com desprezo em direção de Ginny.

— Eu estava tentando ser legal, Weasley, mas pelo visto você não serve nem mesmo para casar, bem que minha mãe avisou. — O Thomas disse com a voz cheia de rancor e raiva, os olhos dele no entanto eram frios, como se a mulher que ele havia agredido não fosse mais que um bichinho chato em seu caminho. Canalha. — Pode ficar com o meu resto, Potter, mas aviso já que eu comi ela bem quando ela era minha puta. — E então ele saiu do quarto, batendo a porta com força.

Foi preciso muito autocontrole da parte de Harry para não ir atrás de Dean e matá-lo com suas próprias mãos, mas os Weasleys eram o que o preocupava. Dean Thomas namorou Ginny por longos anos, e é claro o término foi extremamente doloroso para a ruiva, mas em nada se comparava com o que os pais dela poderiam fazer. Lembrava-se bem de quando eles eram pequenos e Ginny era rebelde demais, ousada demais para o gosto de Molly, lembrava-se dos vergões nos braços de Ginny, de cada desculpa esfarrapada que ele precisou dar para seus pais para convencê-los de não contar para Molly que a filha estava ali. Porque Ginny havia fugido dela mais vezes que era saudável, e mais do que ele poderia contar.

As lembranças pareciam assombrar a Ginny também, provavelmente a mesma que a dele. Lembrava-se como se tivesse acontecido ontem e não há oito anos, quando antes de começar a sair com Dean, a ruiva havia aparecido em sua casa, quase uma da manhã, com os olhos vermelhos, e hematomas no corpo. Naquele dia, um dos primeiros dias das férias de verão, Remus e Sirius estavam na casa dos Potter, e Harry havia sido permitido ficar acordado até mais tarde para aproveitar a companhia dos padrinhos, havia sido uma noite muito feliz, até Ginny aparecer. O estado dela assustou a todos, e quando Lily, sua mãe, fizera menção de chamar os pais da garota para ajudá-la, foi que tudo desandou, a Weasley começou a tremer e chorar, implorando para que não fizessem isso, e quando eles perguntavam o motivo, ela se negava a dizer. Eles respeitaram ela, e nunca mais perguntaram sobre o que aconteceu, mas no fundo, Harry sabia quem havia feito todos os hematomas, mesmo que Ginny se negasse a responder.

Arthur e Molly olharam para a porta que a pouco fora batida e então olharam para a filha com raiva. Como se Ginny não tivesse acabado de ser agredida física e verbalmente, como se a filha deles não tivesse sido humilhada. Como se ela, que era vítima, fosse a culpada. E aquilo o encheu de uma fúria cega, que ele precisou segurar, pelo bem de sua amiga. Molly com o rosto vermelho e contorcido em fúria aproximou-se bem da filha e segurou-a pela mandíbula apertando o rosto bonito em seus dedos.

— Você me envergonha, Ginevra. — a mulher mais velha declarou com raiva, apertando suas longas unhas pintadas de carmesim ao ponto de abrir um corte de onde um pequeno filete de sangue escorreu pela bochecha da menina. — Pegue suas coisas e vamos embora dessa pocilga, agora! — Ordenou ela soltando o rosto da filha como se nada tivesse acontecido, seus olhos castanhos permaneciam impassíveis e frios, como se ela não tivesse acabado de presenciar o que presenciou. Como se não tivesse humilhado a própria filha. — Em casa iremos conversar sobre isso e tentarei convencer o Dean a voltar atrás.

Harry queria poder confortá-la, queria ajudá-la, mas nada ele poderia fazer enquanto os pais da garota estivessem ali, não queria que ela abaixasse a guarda por causa dele. Ginny, no entanto, não se moveu um centímetro sequer, apenas respirou fundo como quem está tentando se controlar diante de uma situação complicada, talvez repensando tudo o que já viveu durante a viagem para saber se valia a pena. E em uma voz calma, e até mesmo gentil, disse:

— Eu não vou sair daqui, mamãe, já sou adulta o suficiente para fazer minhas escolhas, e eu vou ficar, você gostando ou não. — A resposta dela tinha um tom de desafio, e seus olhos ainda brilhavam como fogo, mas a voz era suave, não pelo medo, mas pela certeza. A decisão estava sendo verdadeiramente tomada ali, Ginny realmente estava se dispondo a viver a própria vida. Era assustador e maravilhoso, Harry quis rir a rodopiar pela sala, feliz pela conquista de sua amiga. Ele sentia-se infinito, e quando a olhou, cheio de orgulho, e ela o encarou, percebeu que ela sentia o mesmo. Ela estava orgulhosa de si mesma.

— Não responda sua mãe, Ginevra. — a voz dura de Arthur cortou o ambiente, estourando a alegria deles como uma criança estoura uma bola de festa em sua festa, como uma piñata sendo quebrada, mas dentro dela não tinha doces, apenas uma amarga decepção. Os olhos azuis dele eram raivosos, apesar de seu rosto se mostrar sereno. — E você vai para casa conosco, ou não precisa mais pisar os pés em minha casa, não irei tolerar mais um filho rebelde e cheio de si.

— Eu não vou voltar com vocês, e não meta o Ron nisso! — Ginny gritou enraivecida, e foi preciso todos os reflexos conquistado em seus anos jogando volêi para Harry conseguir segurá-la antes que ela batesse em Arthur, mas ao receber um olhar magoado dela, ele a soltou, recuando para longe a mágoa o queimando como ferro quente, permitindo que ela se recompusesse.

— Menina tola. — Arthur a repreendeu com a voz ríspida, e então um tapa de sua forte e grande mão atingiu em cheio o rosto dela, deixando a marca de seus cinco dedos perfeitamente na bochecha pálida da ruiva, que com força e o susto acabou caindo no chão, de onde olhava com uma expressão ferida para o pai. — Não apareça mais naquela casa, eu tenho vergonha de você.Você me enjoa, Ginevra. Vamos, Molly, não há mais assunto para nós aqui.

E com um suave clique da porta, os dois Weasleys saíram, deixando os sozinhos no lugar que eles haviam transformado no mundo deles. Um mundo que fora brutalmente virado de cabeça para baixo. O choro baixo de Ginny era o único som do quarto, as luzes da lua, recém prostrada no céu, batiam em seus corpos abraçados, enquanto os soluços quebrados da ruiva ecoavam cada vez mais altos e fortes pelo quarto, uma melodia triste demais para que Harry não deixasse lágrimas caírem. A imagem deles ali, sentados e aconchegados um no outro, sendo batizados pela luz da lua poderia soar poética aos olhos de quem não sabia o que havia acontecido ali dentro, mas para Harry, toda a beleza que a forma deles poderia trazer, era sádica e perversa.

Era uma falsa percepção da realidade.

— Eu sinto muito, Ginny. — O moreno sussurrou depois de um tempo, quando os soluços altos tornaram apenas um fungar suave, as lágrimas passaram a descer cada vez menos, apesar de ainda frequente, e seus corpos começaram a sentir o frio do vento que vinha da janela esquecida aberta quando saíram pela manhã, apesar de ainda estarem abraçados. O começo do dia parecia tão distante, como um sonho impossível e doce demais, como uma lembrança que está tão distante que você nunca consegue decidir se aquilo realmente havia acontecido ou se havia sido apenas um sonho muito bom e extremamente real.

— Não, foi sua culpa, H. — ela respondeu muitos minutos depois, a voz baixa e rouca devido ao desuso, ainda abraçada a ele, ela virou seu rosto e o encarou com os olhos tristes, o fogo havia ido embora, e restará apenas a tristeza de quem não é aceito pelos pais. Um sofrimento muito grande para nomear, principalmente quando a pessoa que tentava nomeá-lo nunca havia passado por nada semelhante. — Você pode ficar comigo?

— Eu sempre vou estar com você, Gin. — Ele respondeu suavemente, beijando a testa dela com carinho, e em seguida roçou seus lábios nos dela, um hábito que desenvolveram durante os dias que se passaram, seus hálitos se mesclaram e ele selou seus lábios com os dela quase que solenemente, tentando fazer com que ela sentisse todo o carinho que ele sentia por ela.

— Obrigada por estar aqui. — Ginny agradeceu quando o selar de lábios, que não durou mais que efêmeros segundos, se desfez, repousando sua cabeça no ombro largo dele, seus olhos presos nos dele, e o sentimento de gratidão espalhando-se pelo corpo dos dois.

Aqui, é o único lugar que eu desejo estar, enquanto você me desejar. — Harry respondeu suavemente ainda naquele tom de voz sussurrado como se temesse quebrar a leveza do momento, depositando mais um beijo na testa dela e a abraçando com ainda mais força.

— Eu sempre vou querer você comigo, Harry. — A ruiva respondeu com um sorriso, brincando com a camisa dele, tentando fazer com que o momento parecesse menos importante, fingindo não notar como o coração dele, e o dela também, erraram uma batida com a frase. Como se o coração dela não tivesse se quebrado com a fala dos pais. Como se o agora não fosse tudo o que ela tinha.

— Então eu sempre estarei aqui. — Prometeu o moreno com um olhar determinado no rosto. Sabia que seria difícil, mas faria o possível e o impossível para cuidar e estar com Ginny. Harry faria o impossível para que em nenhum dia na vida dela ela se arrependesse de abrir mão das jóias para buscar a felicidade dela, mesmo que ele não fosse a felicidade dela. Ele não permitiria que ela se impedisse de ser feliz.

Harry beijo a testa Ginny suavemente, e se permitiu ficar e fazê-la feliz enquanto pudesse, ficaram infinitos momentos abraçados, seus perfumes se misturavam um com o outro, e depois com a brisa, a mão de Harry passou por cada pedaço de pele da ruiva, acariciando como se ela fosse a mais preciosa das criaturas, enquanto ela limitava-se a admirá-lo. E após a lua já estar prostrada alta no céu e os membros deles ficarem adormecidos de frio, Ginny, enfim sorriu enquanto olhava, e o mundo de Harry voltou a ter cor.

Mas apesar disso ele só enxergava o castanho dos olhos dela.

XXX

Entãaaaao foi isso gente, espero que tenham gostado, pelo menos de uma parte, do capítulo! Comentem porque como eu sempre digo me motiva muuuuito! Espero que o capítulo tenha ajudado vocês a entenderem a Ginny ainda melhor, e peço perdão por não ser uma capítulo muito fofo ahauhauhauhau. Enfim, muito obrigada por lerem, e todos que comentam, alguns comentários estão perdidos nas notificações, mas eu vou responder todo mundo ok?

Até a próxima galera! Se cuidem! E não aceitem relacionamentos abusivos, a qualquer sinal de abuso, psicologico ou fisico, procure alguém que possa ajudar, procure a policia e psicologos, é uma questão muito séria e merece atenção. Beijões S2