Desde pequena, fui ensinada pela minha avó a me defender e aos meus. Nosso clã tem muitos inimigos, é o que ela dizia, e eu sempre soube que ela estava sendo completamente honesta.
No entanto, não havia nada que ela pudesse ter dito que me preparasse para esse momento.
O som de espadas batendo umas contra outras preenchia o ambiente, junto com sons de grunhido e evocação de feitiços. O som da chuva e do vento ficava praticamente num segundo plano. A alguns metros, mesmo com a escuridão que dominava a floresta, eu podia ver o meu irmão atirar uma bola de fogo negra contra o soldado que tentava mata-lo, enquanto eu materializava um escudo transparente ao meu redor, para me proteger de três ataques simultâneos de Magia.
— Rendam-se e me entreguem o livro, ou iremos matá-los — disse a voz arrogante e, infelizmente, conhecida da minha tia traidora Annora, que se juntou a um Clã inimigo no Sul para nos atacar.
Cadela.
— Vamos optar por uma terceira opção — retruquei — Eu vou chutar a sua bunda até o inferno!
Fiz meu escudo se expandir, derrubando os inimigos que se amontoavam na minha volta e movi, com o auxílio dos elementais, uma forte corrente de ar na direção dela, a derrubando no chão. Eu teria rido, se alguém não tivesse quase enfiado a espada em mim. E por "quase", eu quero dizer, é claro, que eu me esquivei por pouco e consegui um corte nada agradável na altura de cintura.
Eu grunhi e girei para defender o segundo ataque com a minha própria espada e o ataquei em seguida, conseguindo acertá-lo no ombro. Pus a mão livre sobre o corte quando ele recuou, tentando parar o sangramento, e olhei na direção da minha tia, agora de pé e furiosa.
Senti o chão tremer sob meus pés e só ouvi o grito de aviso do meu irmão antes de raízes agarrarem as minhas pernas e me puxarem para dentro da terra. Senti os arranhões feitos nas minhas pernas mas os ignorei, focando no feitiço que me tiraria dali antes que o inimigo que se aproximava me alcançasse.
Ergui a minha mão livre e evoquei novamente os elementais do ar, fazendo o meu corpo ser puxado novamente para cima por uma corrente de vento que direcionei rapidamente na direção do homem brandindo uma espada na minha direção.
Magia elemental não é o tipo fácil de magia, então eu podia sentir a minha energia ser drenada por ela. Suspirei e grunhi de dor, pondo a mão novamente sobre o corte, e ergui a espada novamente quando me vi cercada.
Novamente.
— Chega! — gritou a minha avó, surgindo por dentre as árvores com os olhos brilhantes de raiva — O que você planeja matando essas crianças? Você nunca vai ter o livro, Annora!
Eu e meu irmão nos juntamos a nossa avó, cada um de um lado. Eu estava, sinceramente, destruída, e esperava que a adrenalina fosse o suficiente para me manter consciente apesar de toda a perda de sangue e Magia.
— Se você não me entregar, eu vou matar vocês três e cada pessoa que entrar no meu caminho! — disse Annora, com um sorriso cruel. Seus olhos pareciam escuros, como se houvesse algo sombrio nela.
O que, dado o que está acontecendo, eu não duvido nada.
— Eu vejo... — murmurou a minha avó e, mesmo sem olhar para ela, eu sabia que estava planejando alguma coisa — Alek, faça. Agora!
Olhei para eles confusa e vi quando meu irmão ergueu uma parede de fogo negro entre nós e os inimigos. A minha avó virou-se rapidamente para mim e tirou o seu colar, colocando-o na minha mão.
— Isso é tudo o que você precisa para encontrá-lo. Vá agora e não volte, Selene.
Eu fui treinada desde pequena para isso. Numa batalha, nós devemos seguir as ordens, não há tempo para questionamentos.
No entanto, naquele momento, eu hesitei.
— Vó...
Ela segurou meu rosto entre as mãos e me olhou firmemente.
— Você precisa ser forte agora, Selene. Vá.
Eu senti meus olhos arderem, mas não permiti que minhas lágrimas corressem, afinal minha mente racional compreendia. Eu precisava protegê-lo, mas eram muitos deles e ela precisava garantir que pudéssemos fugir. Pelo bem da nossa família, do nosso legado.
No entanto, saber disso não faz nada para amenizar a dor.
— Vamos — disse Alek, me segurando firmemente pelo braço e me puxando para corremos pela floresta escura em direção ao norte.
Eu só notei que tinha desmaiado quando a dor me acordou. Havíamos corrido por longos quilômetros antes que a perda de sangue me apagasse completamente e só lembro de cair no chão.
Agora, no entanto, eu estava deitada nos bancos traseiros de um carro em movimento e meu irmão estava dirigindo. Grunhi quando o corte na minha cintura doeu novamente, uma dor pulsante e nauseante.
— Sel...? — Alek chamou, olhando pelo retrovisor — Estamos quase lá, tudo bem?
— Onde... Onde estamos indo? — perguntei , fechando os olhos para tentar apagar a dor
— Forks — ele respondeu, mas a voz dele soava distante — Sel? Selene?
Eu tentei responder alguma coisa, mas então tudo que havia era a escuridão.
