As Lágrimas do Luar
- Então, deixa ver se eu entendi... a visão que nós temos de magos, vampiros, lobisomens, elfos... não corresponde bem à realidade. Quero dizer, não corresponde à verdadeira realidade desses seres que, no caso, seriam os mundos de vocês?
- Sim, cavaleiro. Boa parte da visão que vocês, humanos, criaram, vem da sua fértil imaginação. – Shun respondeu enquanto era ajudado por Seiya a subir uma difícil montanha, bastante rochosa e sem qualquer vegetação – Claro que essa visão criada por vocês não surgiu do nada. Tiveram, como base, algum contato com os verdadeiros lobisomens, elfos, vampiros, magos... Mas, a partir daí, a imaginação de vocês fez o resto.
- Acho que compreendi bem. Isso quer dizer que o que eu sei de vocês, a partir das histórias que já ouvi a seu respeito, não devem condizer inteiramente com o que vocês são de verdade... – o jovem cavaleiro suspirou, após finalmente atingirem o topo da montanha, sentando-se momentaneamente, enquanto Shiryu olhava, lá de cima, para o horizonte. O mago parecia querer se certificar de que estavam no caminho certo.
Hyoga se aproximou com uma expressão preocupada:
- Temo que não estejamos indo rápido o bastante.
- Eu sei. Mas o que podemos fazer? – o mago continuava observando a linha do horizonte, reflexivo.
- Podíamos deixar o humano para trás. Ele é muito lento. – Ikki se juntou aos dois e falou de forma audível para Seiya ouvir.
- Ei! Eu ouvi isso, tá? - zangou-se o cavaleiro, ainda sentado. Shun riu de leve e fez para Seiya uma expressão de que ele não deveria levar aquele comentário a sério. Em seguida, o jovem de cabelos esmeralda pegou sua bolsa e abriu, retirando de dentro dela algo parecido com um grande pedaço de pão.
- Vamos aproveitar que paramos para nos alimentarmos. – o elfo estendeu um pedaço a Seiya, enquanto os outros três se aproximavam e pegavam um pedaço cada.
- Vocês... Comem pão também? – Seiya indagou surpreso – Nossa, então realmente a imagem que os humanos têm de vocês é bem diferente do que são na realidade! – o cavaleiro falou, enquanto olhava para Ikki e Hyoga.
Hyoga estreitou os olhos na direção de Seiya:
- Eu sou um vampiro, cavaleiro. Eu gosto de sangue. Preferencialmente quente... humano...
- Hyoga, pare de querer assustá-lo. – Shiryu voltou seus olhos serenos para Seiya – Não se preocupe, cavaleiro. Como eles já disseram, não farão nada contra você. Nós cinco somos necessários para que essa missão dê certo.
- E, para evitar maiores problemas, eu vou manter todos nós muito bem alimentados. – Shun acrescentou, enquanto mordiscava um pedaço do seu pão.
- O que me espanta é que vocês vão comer pão e se dar por satisfeitos... – Seiya fez questão de dizer, parecendo ainda muito inseguro perto do vampiro e do lobisomem.
- Esse não é um pão comum. – Shun começou a explicar – Feito pelos elfos, esse pão tem o poder de se adequar às necessidades de quem o comer. É excelente para os doentes e convalescentes, pois é o tipo de alimento que irá suprir qualquer necessidade.
- É como se ele pudesse detectar do que o seu corpo necessita, a partir do momento que é ingerido. Dessa maneira, quaisquer vitaminas, proteínas ou o que for que esteja faltando em seu organismo é rapidamente suprido. – Shiryu complementou, para então voltar a mastigar lentamente seu pão.
- Saquei. Esse pão é meio coringa. Ele se transforma no que eu estiver precisando! – o rapaz de cabelos castanhos abocanhou um grande pedaço de seu pão - Poxa, se ele faz isso mesmo, deve ser bem melhor que os suplementos que eu tomo no meu mundo! Depois que tudo isso acabar, você não pode me dar uma boa quantidade desse pão élfico para eu levar, Shun? – sorriu Seiya.
- Claro que sim, cavaleiro! – o elfo divertiu-se com o comentário.
- E é até mesmo gostoso, não é? – Seiya deu mais uma larga mordida e comia com gosto. Talvez fosse a fome pela caminhada que já haviam feito, mas saboreava o alimento com vontade.
- Só se for pra você, humano. – Ikki pronunciou-se de forma rude – Isso aqui é ração e tem gosto de ração.
- Então está tudo certo. Animais como você devem mesmo comer ração... – Hyoga revidou com sua voz tranquila e fria, enquanto cortava um pedaço do pão com as mãos, para depois levar o pequeno bocado à boca, da sua forma elegante e altiva de sempre.
Antes que os outros três pudessem raciocinar, Ikki já havia pulado sobre Hyoga numa velocidade fenomenal. Contudo, o vampiro era também bastante ágil e, antes que o lobisomem pudesse prensá-lo contra o chão, o loiro havia se livrado de seu agarre de forma habilidosa. Seiya não conseguia acompanhar a batalha entre os dois, pois, devido à rapidez com que se movimentavam, conseguia apenas perceber quando um tinha alguma vantagem sobre o outro, porque, nesses instantes, eles paravam por um momento, até que o outro se livrava uma vez mais do agarre e a luta recomeçava.
Não foi difícil perceber por que a briga entre aqueles dois parecia tão equilibrada. Ikki era forte, visivelmente mais forte que o vampiro. Sem dúvidas, ele conseguiria acabar com seu oponente com facilidade. Devido à sua força, era possível perceber que não lhe seria difícil quebrar todos os ossos de alguém de uma única vez, ou esmagar uma pessoa com um golpe certeiro. Suando frio diante dessa cena, Seiya viu quando os caninos de Ikki começaram a aumentar de tamanho e soube, na mesma hora, que aquela fera poderia estraçalhar seu adversário em questão de segundos, se assim desejasse.
Entretanto, Hyoga não era um oponente qualquer. Estava, nitidamente, à altura do lobisomem. Como vampiro, sua maior vantagem era a incrível rapidez e agilidade fora do comum. Os lobisomens eram também muito rápidos, como bestas selvagens, mas a velocidade de um vampiro era notavelmente superior. Aliás, não era só a fantástica celeridade que podia ser admirada no vampiro loiro; sua leveza de gestos também chamava a atenção. Enquanto o lobisomem buscava atacá-lo, tentando imobilizá-lo contra alguma superfície, Hyoga era tão ágil que, em meio a uma onda de ataques seguidos de Ikki, o vampiro mal tocou o chão, tão rápidos e leves eram seus movimentos, sendo impossível a olhos humanos enxergá-lo nesse momento.
Era a força bruta contra a leveza e agilidade. Porém, como se percebessem que aquele impasse não se resolveria dessa forma, ambos resolveram transformar-se completamente, como se, dessa forma, a luta pudesse chegar ao fim com um vencedor.
Enquanto Ikki, em questão de segundos, perdeu inteiramente sua forma humana, tornando-se um lobo grande e forte, Hyoga deixou que suas presas enfim aparecessem, assim como seus olhos mudaram de coloração, passando daquele azul cristalino para um vermelho aterrador.
- Parem com isso! – Shiryu bradou, enquanto Shun se levantava apressado. Já Seiya não conseguia sair do lugar. Estava paralisado de medo.
O vampiro e o lobisomem pareceram não ouvir e logo se atracaram novamente, agora de forma mais violenta, dando ao cavaleiro a impressão de que estavam ainda mais poderosos.
- CHEGA! – Shiryu fez um amplo movimento com as mãos, jogando Ikki e Hyoga para bem longe um do outro – Mas será possível? Nem diante da provável destruição de todos nós, conseguem deixar essa ridícula rivalidade para trás?
Ikki, já em sua forma humana, começou a se levantar, com algumas poucas feridas causadas pelo vampiro que, embora não tenha essa como sua principal característica, era razoavelmente forte.
Hyoga, do lado oposto, também se erguia, devagar, bem mais ferido. Suas presas não estavam mais à mostra e os olhos tinham voltado ao azul celeste.
- Ainda bem. – Shun falou, subitamente – Está amanhecendo. – o elfo constatou olhando para a abóbada celeste, que começava a clarear.
- Está amanhecendo? - Seiya viu que o sol começava a despontar no horizonte e finalmente saiu de onde estava, indo na direção de Hyoga, mas parando a alguma distância, enquanto olhava apreensivo para o vampiro – Você precisa se esconder, não? Senão, vai morrer, virar cinzas, sei lá...
O loiro, que agora estava em pé, observava suas feridas, como quem analisa a gravidade dos machucados. Ouvindo o comentário de Seiya, olhou para ele em uma expressão indecifrável e lhe deu as costas, caminhando lentamente até uma das beiradas da montanha, sem dizer qualquer palavra.
- Ele... ele precisa se esconder dos raios do sol! Ele é um vampiro! – Seiya voltou-se para Shiryu, enquanto Shun caminhava na direção do loiro.
- Não se preocupe, cavaleiro. Ele vai ficar bem. – Shiryu respondeu, enquanto olhava para o elfo, que tocava gentilmente no braço de Hyoga, chamando sua atenção.
- Mas... mas... – e então, o Seiya pareceu se lembrar de algo – Ah... entendi. A visão que os humanos têm dos vampiros não corresponde à realidade. Então... isso quer dizer que os vampiros não morrem com a luz do sol.
- Morrem, sim. – Shiryu atestou – Entretanto, isso ocorre apenas com os legítimos vampiros.
- Como assim?
- No mundo do Hyoga, há duas formas de um vampiro surgir. Ou ele nasce da cópula entre dois vampiros, ou é transformado por um.
- Transformado? Quer dizer...
- Quero dizer que o outro modo de um vampiro surgir é quando um humano é mordido por um vampiro que, em vez de matá-lo, opta por transformá-lo. – Shiryu continuava explicando, mas sem tirar os olhos do elfo, que retirava de sua bolsa algumas ervas.
- Ah... sei...
- O humano transformado em vampiro não é considerado puro. Por menor que seja, ele irá manter uma parte humana. Nesse caso, é o que lhe permitirá sobreviver à luz do sol.
- Entendi. Os tais "vampiros puros" morrem à luz do dia, mas, os que foram transformados, não. – Seiya falou, olhando para o céu e vendo como estava consideravelmente claro agora.
- Então, ele não é puro? – Ikki, que se aproximava do mago e do cavaleiro nesse instante, dava mostras de ter acompanhado à conversa até o momento.
- Não tinha percebido ainda, Ikki? – Shiryu, que tinha os braços cruzados sobre o peito, arqueou uma sobrancelha ao encarar o lobisomem – Eu notei no momento em que olhei para ele pela primeira vez.
- Não tenho o costume de ficar analisando vampiros. – o moreno cruzou os braços também, desviando o olhar, mostrando não ter gostado do comentário do mago.
Seiya então observou o corpo do lobisomem e arregalou os olhos:
- Ei! Onde estão os seus machucados? – começou a procurar com os olhos pelas feridas que havia visto, há pouco, nos braços fortes de Ikki.
Ikki bufou e se afastou dos dois, encaminhando-se para onde estavam o elfo e o vampiro.
- Lobisomens têm a capacidade de auto-regeneração, cavaleiro.
- Ah... caramba. Que legal! – Seiya demonstrou-se empolgado e Shiryu riu. Esse humano tinha reações divertidas – Mas... vampiros também não tem isso aí?
- Capacidade de auto-regeneração? É; eles têm sim.
- Então por que o Shun está fazendo curativos no Hyoga? – apontou para a cena que se desenrolava diante deles, em que o vampiro se via agora sentado, enquanto o elfo, que já tinha disposto alguns pequenos frascos no chão, terminava de amassar sobre uma folha verde algumas ervas, para então passar essa pasta sobre as feridas do loiro, que fazia uma breve expressão de dor com isso.
- Porque agora, ele é tão humano quanto você cavaleiro.
- Como é?
- Durante o dia, os vampiros híbridos perdem seus poderes. É como se a parte vampira deles ficasse adormecida, vindo a despontar apenas quando anoitece.
- Isso significa que os vampiros transformados não morrem com a luz do sol e, durante o dia, voltam a ser humanos? – Shiryu acenou positivamente com a cabeça e o cavaleiro abriu um grande sorriso – Que barato! Desse jeito, até eu queria ser vampiro!
- Cuidado com o que deseja, cavaleiro. – Shiryu recriminou o comentário do outro e Seiya desfez o sorriso no mesmo segundo – O que lhe parece tão interessante e atraente agora pode ser, na verdade, um grande fardo a se carregar... – e lançou um olhar algo triste para Hyoga.
- Como estão as coisas aí? – Ikki, que havia se aproximado do elfo e do vampiro, pronunciou-se com sua voz forte, para que sua presença não fosse apenas notada, mas sentida.
- Já estou terminando os curativos. – Shun respondeu, enquanto improvisava algumas bandagens que enrolava no braço do loiro – Da próxima vez, tome mais cuidado. – o elfo lançou um olhar altamente mais repreensivo para o lobisomem – Se o sol tivesse nascido enquanto brigavam, você poderia tê-lo matado! – o rapaz de cabelos esmeralda parecia não se intimidar nem um pouco com a figura de Ikki, dando-lhe uma bronca como se estivesse falando com uma criança – Sei que vocês, lobisomens, se zangam muito fácil, mas, a partir de agora, tente se controlar mais. Está bem?
Ikki pareceu aturdido com o modo como o elfo lhe falou. Parecendo desconcertado, apenas fez um gesto rápido de que havia entendido o que o mais novo lhe dizia.
- Ótimo. – Shun sorriu e voltou a olhar para Hyoga, que mantinha os olhos presos ao curativo – Logo você vai ficar bom. Sua capacidade de auto-regeneração só deverá voltar à noite, mas, até lá, as minhas ervas certamente farão um bom trabalho. – dito isso, o elfo colocou todos os seus frascos de volta à bolsa e se afastou, voltando para onde estavam Shiryu e Seiya. Shun era bastante perceptivo e compreendeu que a falta de um agradecimento da parte do loiro tinha a ver não só com sua característica arrogância, mas possivelmente com o fato de ele estar se sentindo um pouco humilhado agora. Decidiu que o melhor era dar a ele alguns minutos de privacidade.
Contudo, ao passar por Ikki, viu que o lobisomem não pretendia se afastar. Shun ainda indagou, com os olhos, se o moreno causaria mais algum problema. O moreno respondeu, com um olhar seguro, de que nada faria, uma vez que havia realmente entendido o recado do elfo. Assim, após esse diálogo mudo, Shun voltou para perto dos outros enquanto Ikki deu mais alguns passos rumo ao loiro, sem nada dizer.
- O que você quer? – Hyoga perguntou, em um tom ácido, mas um pouco defensivo. O loiro continuava com o rosto baixo, analisando os curativos que Shun fizera em si.
- Eu não sabia que você era híbrido. – o lobisomem soltou de uma vez.
- E que diferença isso faz?
- Bastante. Não teria lutado com você desse jeito se soubesse...
Hyoga se ergueu de supetão, mas ficando de costas para Ikki:
- Eu não preciso da sua pena, lobisomem. Não sou fraco apenas porque tenho uma parcela humana.
- Não foi isso que eu quis dizer,loiro.
Hyoga riu sarcasticamente, cruzando os braços enquanto fitava o cenário visto do topo da montanha.
Diante disso, Ikki pareceu se enervar. Deu meia-volta e começou a caminhar a passadas largas para onde estavam os outros. Mas, a meio caminho, voltou o rosto para trás e falou, em alto e bom tom:
- A propósito, eu sou híbrido também! – e bufou, voltando a caminhar até onde estavam os outros três.
- Ele também é híbrido? – Seiya questionou os outros dois – Então, isso quer dizer que ele também foi transformado?
- Sim. É o mesmo caso dos vampiros. – Shun foi quem começou a explicar – Os lobisomens podem se reproduzir entre eles, gerando assim seres puros... ou podem transformar um humano. De todo modo, para os híbridos, a transformação em lobo só é possível à noite, e quando há lua cheia. Já os puros podem se transformar à hora que desejarem.
- Você está me dizendo então que o Ikki só pode ser lobisomem à noite?
- Não; estou dizendo que ele só pode efetuar sua transformação completamente nas noites de lua cheia. Mas os poderes que ele tem não desaparecem de dia. Ele continua forte e ágil, tem a capacidade de auto-regeneração... A diferença de agora para quando ele assume sua forma de lobo é que, quando ele muda de forma, todos os seus poderes ficam mais acentuados.
O cavaleiro pareceu pensativo. Depois de alguns segundo assimilando tudo aquilo, olhou para Shiryu:
- E os magos? Também têm desse negócio de puros, híbridos...?
- Mais ou menos. – o homem de longos cabelos respondeu – Como os feiticeiros costumam conviver apenas uns com os outros, o resultado disso é que as crianças que nascem detentoras de magia assim são por serem filhas de magos. No entanto, às vezes, acontece de, em meio aos humanos, nascer uma criança mágica. Não sabemos explicar muito bem como isso acontece, mas ocorre. E, nesses casos, a criança costuma ser trazida para viver junto aos magos.
- E os pais da criança permitem isso numa boa?
- Bom, não é como se eles tivessem muita escolha... – Shiryu disse em um tom meio vago.
- Vocês levam a criança à força? Como se a estivessem sequestrando?
- Não é bem assim, cavaleiro! Da forma como fala, parece que estamos fazendo algo de mau. Compreenda; o melhor para uma criança nessas condições é viver em meio aos seus iguais...
- Não acho! Eu acho que uma criança vive melhor se estiver com a sua família! – Seiya demonstrava-se indignado. E então olhou para o elfo, que lhe sorria – O que foi, Shun?
- Você não perguntou dos elfos.
- Ah, é... E os elfos? Também tem elfo misturado com humano? – perguntou, como se estivesse apenas cumprindo uma obrigação.
- Não; não há elfos híbridos. São todos puros. – Shun se limitou a responder, com um enigmático sorriso no rosto.
- Legal. – Seiya disse, sem atentar como deveria para a misteriosa expressão que o elfo fez. Desse modo, Shun deu de ombros, discretamente e ainda sorrindo, como se o cavaleiro houvesse perdido uma excelente oportunidade de fazer uma importante pergunta.
Nesse momento, Hyoga finalmente se juntava ao grupo. Ikki estava um pouco distante, como sempre fazia, parecendo ser uma questão de necessidade vital demarcar seu espaço pessoal.
- Sabe, agora que vocês dois descobriram que já foram humanos, poderiam começar a me tratar melhor. – Seiya fez questão de dizer, assim que o loiro se viu mais próximo deles – E podiam tentar se dar bem, já que possuem algo em comum.
- Nós não temos nada em comum, humano. – Hyoga fez questão de dizer.
- A única coisa boa de ter descoberto que esse loiro tem uma parte humana é que, graças a isso, não teremos de perder viagem durante o dia. Já estava preocupado, achando que precisaríamos parar durante o dia, por conta desse vampiro. – Ikki falou, voltando a olhar na direção dos companheiros.
Nesse momento, os olhares do vampiro e do lobisomem se cruzaram. E foi com alguma surpresa que se perceberam diferentes.
Hyoga, à luz do dia, parecia mais humano. Era menos pálido e quase se tornava possível enxergar um brilho de vida naqueles olhos tão frios que, agora, pareciam menos gélidos.
Ikki também parecia um homem mais comum. A aparência de fera, que lhe era tão inerente à noite, quase desaparecia, dando espaço a um homem que, apesar do vigor visível, não parecia uma criatura assustadora.
- Vamos. Temos de seguir caminho. – foi Shiryu quem falou, começando a dar os primeiros passos para descer uma parte da montanha. Então percebeu que Seiya parecia um pouco arredio consigo agora – Algum problema, cavaleiro?
- Sim. – o rapaz respondeu – Não gostei de saber que vocês levam crianças humanas de suas famílias.
- Eu já disse que isso é o melhor a se fazer por elas... – Shiryu pareceu querer se explicar, enquanto Shun passava por ele, parecendo mais interessando em descer logo aquela parte da montanha, que era um aclive bem menos acentuado e que dava para uma vila, à qual parecia despertar aos poucos para o dia que se iniciava.
- Isso que é pior! Você não vê mal algum nisso! – Ikki e Hyoga começaram a caminhar também e Seiya se pôs no meio deles, andando entre os dois – Prefiro andar perto deles, que foram obrigados a serem transformados nessas criaturas da noite, sem escolha. – e enlaçou seus braços nos braços do vampiro e do lobisomem, que abriram os olhos surpresos com a ousadia do cavaleiro, que somente agia assim porque a aparência humana dos dois lhe permitira perder o medo que até então sentia deles.
- E, por acaso, acha que não gostamos do fato de termos sido transformados? – Ikki falou, com uma voz ameaçadora. Seiya, ao olhar para o moreno, percebeu que, apesar de não ter mais a expressão de uma fera selvagem, o moreno continuava sabendo como intimidar com um olhar.
- Ah... é, né? Desculpa aí. – o jovem cavaleiro se desculpou e, desvencilhando-se de Ikki e também de Hyoga, apressou o passo, passando reto por Shiryu e indo alcançar Shun, que seguia na frente.
- Você gosta de ter sido transformado? – Hyoga inquiriu Ikki, caminhando tranquilamente a seu lado.
- Você gosta? – o lobisomem apenas devolveu a pergunta. Os dois então trocaram um breve olhar, mas não disseram mais nada. Apenas continuaram a caminhar atrás de Shiryu, calados.
O mago seguia isoladamente, parecendo absorto em alguns pensamentos, com uma expressão diferente em seu rosto sempre tão sereno.
E Seiya, que havia alcançado Shun, perguntou com seu ar jovial:
- E aí, elfinho? Para onde nós estamos indo? Se bem me lembro, vocês disseram que precisávamos subir a montanha para conseguirmos enxergar aonde tínhamos que ir.
- Sim; foi exatamente o que dissemos. – o elfo respondeu, sorridente, com os olhos presos ao chão rochoso, que descia com cuidado.
- E que lugar é esse? Por acaso estamos indo para aquela vila? – segurou a mão de Shun, ajudando-o a descer e apontando com os olhos para as casas que enxergava ao longe.
- Exatamente. É possível sentir uma forte magia vinda de lá.
- Sério? Eu não sinto nada...
- Tem de se concentrar mais, cavaleiro. Só quando entrar em contato com a magia que também existe em você, conseguirá sentir. – Shun dirigiu um brilhante olhar esmeralda para Seiya, que fez uma expressão confusa.
- Eu não sei como fazer isso. – fez uma careta, como se estivesse se esforçando, mas em vão.
- Tudo bem. Tudo a seu tempo. – o elfo prosseguiu, com a voz calma de sempre.
- Mas por que vamos para um lugar em que a magia é forte? O que pretendem encontrar lá?
- Respostas. – Shun olhou para Seiya e soltou uma leve risada – Ora, cavaleiro. Você mesmo não tinha dito que era preciso descobrir algumas coisas antes de prosseguirmos? Pois bem; estamos indo atrás das respostas.
- Sério? Pensei que a gente fosse fazer essa jornada completamente às cegas, esperando que as respostas caíssem do céu...
Shun riu divertido.
- Ter fé não significa ficar parado esperando que as coisas aconteçam. É preciso que façamos algo, para que elas possam acontecer. Eu acredito piamente que as respostas surgirão no momento adequado, cavaleiro. Mas não significa que eu vá deixar de fazer minha parte enquanto isso, que consiste, basicamente, em criar momentos propícios para que tudo vá se tornando mais claro... – suspirou – Até porque, duvido muito que alguma resposta vá "cair" do Céu. Não creio que ele esteja disposto a nos ajudar...
Seiya franziu o cenho. Ainda achava esse negócio de o Céu ser pai de uma princesa muito esquisita. Contudo, o que não era estranho nesse mundo?
- E uma vila mágica nos vai ser útil porque... – o jovem cavaleiro voltou a perguntar.
- Porque nossa missão é mágica. Lágrimas do luar que se transformam em uma chuva prateada, que vai iluminar uma floresta...? Bom, temos de ver se alguém entende o que isso quer dizer. Porque, sinceramente, isso ainda não faz muito sentido para mim. – riu o elfo e Seiya sorriu também. Afinal, estavam indo atrás de respostas.
E isso fazia sentido para o cavaleiro.
Continua...
