Sirius abriu os olhos ao perceber que raios solares atravessavam a cortina, se direcionando diretamente para seu rosto. Aquilo certamente era culpa de Monstro, tinha certeza que o elfo havia afastado as cortinas da janela propositalmente enquanto ele dormia, para incômoda-lo de alguma maneira.

Ele grunhiu antes de perceber que não conseguiria voltar a dormir, levantando-se da cama em seguida. Todos os seus dias pareciam iguais naquela casa fria e ainda mais solitária agora que Harry havia voltado para Hogwarts, e os Weasley não apareciam com a mesma frequência de outrora para reuniões da Ordem.

Pensar no afilhado era algo que minimamente confortava seus dias de confinamento no lugar que o remetia a lembranças ruins de dias distantes em que era apenas um jovem garoto rebelde que não imaginava a gravidade que as situações das quais se opunha, tomariam. Se continuava a obedecer em permanecer seguro dentro daquela casa,ao invés de explorar a possibilidade de sair e lutar, era devido a perspectiva de poder viver dias melhores com o filho de James e Lily, quando fosse inocentado.

Idealizava perspectivas, talvez irreais, de dias futuros em que usaria sua herança para comprar uma casa em Londres, talvez um pequeno apartamento, onde viveria com Harry e quem sabe, com Remus.

Desde a anunciação da volta de Voldemort, ele e Remus haviam passado uma boa parte de seus dias em companhia um do outro entre os muros gelados do Grimmauld Place, ambos buscando conforto mútuo, buscando lidar com a realidade da volta de dias sombrios como na época em que seus melhores amigos foram assassinados.

Sirius percebia como, mesmo após tantos anos, Remus continuava a ser a mesma pessoa gentil e carinhosa que havia conhecido em sua adolescência. A diferença era que, após anos de desconfiança vinda dos dois lados, a relação entre ambos não era mais a mesma. Era como se algo houvesse sido quebrado e agora começasse a ser consertado, peça por peça.

No sábado anterior, Remus aceitara o convite de Sirius em jantarem juntos sob seu teto e um acordo silencioso de paz se estabeleceu entre os dois que, cozinharam a própria comida e jantaram em silêncio enquanto Monstro resmungava sobre como era um prazer não ter que cozinhar para um licantropo sujo.

O tempo havia passado, não se podia negar. Remus, que sempre fora uma pessoa séria, possuía uma postura ainda mais rígida e cansada, fios brancos eram visíveis sobre seus cabelos e suas cicatrizes agora eram ainda mais profundas. Sirius sentia-se feliz em poder olhá-lo de perto, analisá-lo enquanto podia.

— Sei que você ainda não tem um lugar fixo para morar Moony, e quero que saiba que pode ficar aqui quanto tempo precisar. — disse Sirius ao final da refeição.

Era uma tentativa de dar mais um passo de reaproximação, mas Remus nāo pareceu interpretar tão bem suas palavras.

— Eu não preciso de caridade. — respondeu ele . — Além disso, você não deve querer um traidor em potencial morando em sua casa, Sirius.

As palavras de Remus carregavam mágoa e Sirius não podia julgar. Ele havia dito aquilo quando eram mais novos e estava cada vez mais evidente que havia um traidor entre os membros da Ordem da Fênix. A aquela altura, Sirius e Remus nāo mais moravam juntos como decidiram fazer após formarem-se em Hogwarts, não haviam mais os dias alegres em que davam voltas de moto sem destino nenhum, apenas com o objetivo de permanecer na presença um do outro sem preocupações externas. O medo era real e palpável.

— Eu realmente quero que você fique Moony.— continuou Sirius colocando uma de suas mãos sobre a de Remus, insistindo em chamá-lo pela maneira que se referia a ele quando eram jovens. — Não precisamos nos distanciar como fizemos antes.

— Não, não precisamos.— respondeu Remus quebrando o contato entre mãos e levantando-se da mesa.— Precisamos estar aqui para Harry, afinal.

" Então ele também pensa na possibilidade de viver com Harry quando tudo isso acabar" pensou Sirius, não conseguindo externar seus pensamentos antes de Remus deixar o cômodo, subindo as escadas em direção ao quarto em que costumava dormir quando todos os membros da Ordem da Fênix estavam presentes na casa.

Sirius decidiu segui-lo, não se dando por satisfeito com o fim do diálogo na cozinha, ele colocou-se entre o batente da porta do quarto enquanto Remus fingia não perceber sua presença, arrumando seus cobertores e roupas como se estivesse sozinho no local.

— Sabe que não precisa ficar no quarto de hóspedes. — disse Sirius em mais uma tentativa de real aproximação. — Tenho certeza que minha cama é mais confortável que essa.

— Não quero pegar pulgas. — respondeu Remus, agora olhando diretamente para Sirius. — E acho melhor você voltar para seu quarto antes que Monstro mecha em algo que é seu apenas pelo prazer de te provocar.

Com isso, Sirius achou que o melhor seria deixar de insistir. Voltou para seu quarto onde adormeceu, sozinho, sem conseguir deixar de pensar em como sua vida seria agora se tivessem conseguido incriminar Pettigrew, se Voldemort não tivesse voltado, se ele e Remus nunca houvessem se separado. Quando acordou, percebeu estar só mais uma vez, havia sido deixado de lado, sem perspectivas de notícias ou contato com ninguém.

Desde então, Sirius vivia um dia após o outro entre conversar unilateralmente com Bicuço, quando levava algo para que a ave mágica pudesse comer, e evitar o quadro de Walburga Black que, vez ou outra, era descoberto por Monstro, fazendo com que gritos de xingamentos direcionados a ele pudessem ser ouvidos por toda casa. Sirius fazia questão de lembrar mais um ou dois castigos que o elfo podia aplicar em si mesmo quando isso acontecia e, Monstro,mesmo visivelmente contrariado,obedecia a ele, acrescentando os castigos físicos sobre si.

Não podia enviar corujas a Harry, pois essas corriam o risco de serem interceptadas, não podia escrever para Remus, pois não fazia ideia de onde ele estava e parecia a ele que Remus, na verdade, não queria ser encontrado. Era como se estivesse preso dentro de sua própria cabeça, repetindo as mesmas conversas e memórias. Não havia dementadores dessa vez, mas estar naquela casa era equivalente a isso.

Entre cada cômodo, existiam lembranças de seu eu mais jovem ouvindo os absurdos que seus pais diziam sobre nascidos trouxas, existiam memórias das represálias físicas que recebia, como castigo, por se contrapor a aqueles pensamentos, por ter interesse na maneira em que os trouxas viviam.

Sentia raiva e jurava a si mesmo que, quando voltasse a ver Remus, diria tudo que estava guardando em sua cabeça, sem se preocupar se o magoaria ou não. Diria como Remus nāo deveria ter se afastado dele durante a Primeira Guerra, falaria sobre a maneira que se sentiu quando foi acusado, pelo próprio namorado, de estar aliado a ideologias que ele sempre teve repulsa.

Faria questão de gritar com Remus, duelaria com ele se fosse necessário, não estava preocupado com o fato dele ser um lobisomem e isso, por si só, já causar sofrimento em sua vida. Tudo que Sirius queria era fazer Remus sofrer da mesma maneira que ele estava sofrendo.

Percebeu, porém, que seus pensamentos jamais virariam ação quando, na semana seguinte, Remus voltou ao Grimmauld Place, possuindo uma expressão cansada e conteúdos que envolviam a Ordem da Fênix em suas mãos.

— Dumbledore quer garantir que licantropos estejam do nosso lado. — disse Remus após ter atravessado o corredor em que o quadro de Walburga ameaçava começar a gritar a qualquer movimento brusco. — Por isso passei dias desenhando mapas que indiquem locais prováveis em que eles possam estar.

Ele estendeu para Sirius, os pergaminhos que carregara até ali, mostrando as rotas que pretendia fazer para que fosse possível entrar em contato com o maior número de licantropos possível.

— Você tem que levar sua segurança em consideração também. — disse Sirius, analisando os mapas e falando com Remus como se não fizesse quase duas semanas desde seu último encontro, como se não existissem assuntos mal resolvidos entre ambos. — Sei que muitos dos licantropos auto exilados têm comportamentos agressivos.

Remus deu um meio sorriso em resposta.

— Lidei com coisas piores durante os doze anos em que estivemos separados. — respondeu ele.

Sirius não conseguia falar. Ainda carregava a culpa de ter sugerido que Pettigrew fosse o fiel do segredo dos Potter, de ter se deixado levar para Azkaban, fazendo com que Remus tivesse que lidar, sozinho, com a realidade da falta de perspectivas dentro de uma sociedade que o condenava.

Inventou uma desculpa qualquer para ir até a cozinha, deixando Remus sozinho na sala. Tinha passado todos aqueles dias sem contato com ninguém e agora, mal conseguia lidar com a presença de uma das pessoas que mais queria ter por perto.

Seu breve momento solitário na cozinha, foi interrompido pelo chamado de Remus que alegava que Harry estava na lareira e pedia para falar com ambos. Ver o afilhado produzia a inegável sensação de bem estar que Sirius tanto precisava e, ter de falar sobre como James e Lily eram quando mais novos, fazia com que essa sensação se intensificasse ainda mais.

Era bom poder relembrar, junto de Remus, de dias mais simples, poder rir de lembranças relacionadas a duas pessoas que amavam tanto e que ainda eram importantes para eles. O clima permaneceu caloroso mesmo após a cabeça de Harry ter ido embora da lareira, e isso nada tinha a ver com as chamas que ela produzia.

— Preciso falar urgentemente com Snape, Harry precisa continuar as aulas de legilimência.— disse Remus, sendo o primeiro a quebrar o clima nostálgico entre ambos.

— Snivellus continua o mesmo idiota de sempre, Harry não precisa se submeter a presença dele.— respondeu Sirius sem a menor intenção de esconder o asco que sentia, em seu tom de voz.

— Harry precisa se proteger do lorde das trevas e Snape é a melhor opção de ajuda, não seja irresponsável, Padfoot!

Sirius estava pronto para rebater até ser chamado pelo apelido de adolescência. Padfoot. Remus nāo se referia a ele dessa maneira há muito tempo e Sirius não pode evitar de sorrir ao perceber que, assim como ele, Remus também havia acessado uma parte de si que era inocente e ingênua após conversar com Harry.

— Ele é tão parecido com James, mas é sensível como Lily, não é?— disse Sirius aliviando a postura tensa de momentos anteriores quando estava pronto para continuar a bater boca com Remus. — Simplesmente não pôde acreditar em ver a postura arrogante que tínhamos quando mais novos.

— Sim. — respondeu Remus, também relaxando sua postura e se aproximando de Sirius. — Ele pode ser rebelde como James, mas tem o coração de Lily, não pude deixar de perceber isso no período em que fui professor em Hogwarts.

Estavam ambos sentados no sofá de frente para a lareira, sendo aquecidos pelas chamas que tornavam a sala daquela casa fria, um pouco mais aconchegante. Talvez, devido a esses fatores, Remus nāo pareceu inclinado a afastar-se de Sirius mais uma vez, indo embora do Grimmauld Place sem previsão de volta. Pelo contrário, Remus decidiu passar um de seus braços ao redor dele e manteve o contato de maneira natural, como se fosse comum estarem próximos daquela maneira.

E de fato era. Com a cabeça descansando sobre o peito de Remus, Sirius sentia-se de volta aos dias em que os dois planejavam o próximo lugar onde passariam a noite de lua cheia, numa época em que a liberdade era algo tão comum a ponto de não ser notada por dois jovens que consideravam a si mesmos como invencíveis.

— Moony — começou Sirius inclinando sua cabeça ligeiramente para cima para poder olhá-lo.— Eu, você e Harry podemos viver juntos quando tudo isso acabar, não podemos? Quanto mais cedo eu for inocentado, mais cedo podemos terminar de criar o filho de Prongs, contar nossas histórias a ele, dizer quem seus pais foram quando vivos.

Aquela era a primeira vez que Sirius expunha tais pensamentos e sentiu uma felicidade genuína ao deparar com o olhar carinhoso de Remus em resposta.

— Sim, vamos fazer isso, Padfoot. Seremos a família de Harry. — respondeu Remus e, para a surpresa maior de Sirius, suas palavras vieram seguidas da aproximação de seus rostos e lábios.

Poderiam permanecer daquela maneira por horas, ele não se opunha, sentir as mãos de Remus acariciando seus cabelos como se acariciasse as orelhas de uma cão, era algo do qual poderia se acostumar. Havia passado tanto tempo sentindo falta da presença e do contato de Remus que escolheu aprofundar ainda mais o beijo que trocavam e poderia continuar assim se não fosse a interrupção causada pelo quadro de Walburga Black.

— Aquele elfo maldito! — exclamou Sirius, interrompendo o contato entre eles.— Farei com que ele se castigue por algumas horas depois disso.

— Não seja tão cruel Padfoot! — disse Remus olhando para Sirius com repreensão.— Você não tem provas de que isso é culpa dele, ou que fez de propósito.

— Pois eu sei que foi. — disse Sirius levantando-se do sofá e indo em direção ao corredor para voltar a cobrir a obra irritantemente bem enfeitiçada por sua família. — Monstro, quando eu encontrar você de novo, não espere que eu tenha algum tipo de compaixão!

O tom de voz que usara para se referir ao elfo era irritado, mas a verdade era que o sentimento maior dentro de si era a felicidade de não estar mais só naquela casa, de poder contar com Remus novamente.

As semanas que se seguiram foram mais alegres, Remus podia sair para resolver chamadas da Ordem mas sempre voltava, sempre estava disposto a ouvir os discos que Sirius mantinha guardado naquela casa fria, a compartilhar seus conhecimentos sobre criaturas mágicas e defesa contra as artes das trevas enquanto Sirius ouvia atentamente.

Ele percebeu, porém, não ser o único interessado pela companhia de Remus ao acordar numa manhã de sábado e não encontrá-lo ao seu lado na cama. Descendo as escadas para procurá-lo, Sirius pode ouvir risadas e conversas animadas vindas da sala de estar.

— E aí Sirius, beleza?— a jovem mulher de cabelos rosa pink e brincos que enfeitavam uma das orelhas, cumprimentava Sirius com um sorriso radiante.— Dessa vez eu não tropecei naquele guarda chuva, cheguei até aqui quase sem chamar atenção.

— Quase. — ecoou Remus olhando para Tonks de maneira divertida.— Exceto que você quebrou o vaso de flores quando se aproximou do criado mudo da sala.

Tonks riu para ele, o que foi retribuído com o mesmo entusiasmo e Sirius pensou que os dois poderiam permanecer assim, não fosse a presença dele.

— Mas então Ninfadora, o que veio fazer aqui?— questionou Sirius, tentando não parecer tão hostil quanto gostaria de estar sendo.

— Primeiro, não me chame de Ninfadora, me chame de Tonks. — respondeu a mulher.— Segundo, estou aqui como Auror.

— Algum problema com a Ordem? — questionou querendo estar a par dos assuntos relacionados a causa.

— Nenhum problema na verdade. Moody só quer que Remus o encontre segunda a feira noite em sua casa, você sabe, informações ultra secretas. — ela revirou os olhos com a última informação, virando-se para olhar para Remus em seguida. — Podemos ir juntos, tenho que ir a casa de Moody de qualquer jeito.

Ele concordou e ambos continuaram a trocar diálogos empolgados assim como estavam fazendo antes de Sirius entrar no cômodo.

Quando mais novos, Sirius e Remus continuavam a sair com outros homens e mulheres mesmo estando juntos, isso nunca foi um problema. Sentimentos relacionados à ciúmes eram inexistentes e, mesmo agora, Sirius não sentia nada relacionado a isso sobre Remus. Pelo contrário, percebia estar feliz em ver como sua prima fazia com que ele parecesse dez anos mais jovem.

Existia, porém, uma pequena parcela de si que temia que aquela proximidade afastasse Remus de si e impedisse que os planos que ambos vinham traçando juntos, fossem reais.

— Você está bem ? — questionou Remus após Tonks ter ido embora, apesar dos pedidos dele para que ela permanecesse por mais tempo junto a eles no Grimmauld Place.

Sirius deu de ombros.

— Só queria estar mais ativo na Ordem, mas disso você já sabia. — respondeu ele, ocultando suas verdadeiras angústias relacionadas à presença de Tonks.

Remus o beijou brevemente antes de sugerir que, assim como vinham fazendo nos últimos dias, lessem juntos um dos livros de Newt Scamander enquanto ele comentava curiosidades das quais só alguém que já foi professor, poderia saber.

Sentado no sofá da sala, Sirius mantinha sua cabeça apoiada no peito de Remus enquanto o ouvia ler em voz alta sobre Hinkypunks e Bichos Papão. Ele era a memória mais próxima a aquele que fora seu melhor amigo, era uma das poucas pessoas capazes de fazer com que o calor que sentia em seu peito agora, fosse possível.

— O que foi,Pads? — questionou Remus ao perceber o olhar de Sirius voltado para si. — Não quer mais que eu leia?

— Não. — respondeu ele. — Eu apenas estou feliz em ter você aqui, Moony.