Toalha de banho
Tudo começou com uma toalha de banho.
Esquecida.
Lá estava eu aproveitando meu banho com toda a calma do mundo. Passei xampu duas vezes já que meu cabelo estava em um dia particularmente oleoso. Lavei o rosto com aquele gel de limpeza facial que minha mãe havia me indicado. E aproveitei a água quente caindo pelo corpo, esquecendo o frio que fazia lá fora e do qual eu me livrara pelo dia.
Aproveitei para pensar, como sempre é durante o banho para mim. Na vida, na morte, em tudo o que há no meio. Nos boletos, no que vou fazer para o jantar, no aniversário do filho da minha melhor amiga e no presente que eu ainda não havia comprado. Em ideias para um projeto – o site de referência para a nova série do serviço de streaming onde eu trabalho.
Saí do banho renovado. Me sentia limpo e pronto para o final daquele dia que tinha sido tão bom até ali.
Até que eu percebi que havia esquecido de pegar minha toalha de banho.
Abri o vidro do box e passei os olhos pelo banheiro. Minha cabeça ia do suporte de toalhas, vazio, a minha direita, até o gancho da toalha de rosto, também vazio, uma vez que eu a havia colocado para lavar hoje de manhã antes de sair de casa.
Como eu podia ser tão desatento?
Contemplei a possibilidade de me enrolar no pano de chão a minha frente, e automaticamente me senti enojado – eu não iria tão fundo no poço. Mas realmente não havia à vista um único pedaço de tecido em potencial para ser usado como cobertura para o meu corpo nu.
Lembrei que, para completar meu azar, a porta do meu quarto e a janela ficavam num ângulo bem em frente à entrada do banheiro, e eu obviamente havia deixado não só a porta aberta, como também a cortina. Fora que para chegar até a cozinha eu ainda teria que passar pela janela da sala – cuja cortina e vidro eu havia aberto assim que cheguei, lógico. Porque é claro que a situação não poderia ficar mais simples, senão não seria a vida de Remus Lupin.
Minhas possibilidades eram me enrolar no pano de chão – última da lista –, esperar no banheiro até que eu estivesse quase seco e colocar o jeans e a camiseta que eu tinha retirado antes do banho – pouco provável, visto que eu não era muito paciente – ou sair do banheiro com uma mão na frente e outra atrás, na direção da área de serviço onde minha querida toalha estaria plenamente estendida como se nada estivesse acontecendo.
Eu sabia desde o início qual seria a minha escolha.
Provavelmente com a expressão de quem vai à guerra pelo próprio país, sacudi a água do cabelo e do corpo o melhor que pude e calcei meus chinelos. Abri uma fresta da porta e consegui ver a janela do meu quarto – ao menos ali a barra estava limpa. Zero vizinhos à vista.
Com minha melhor pose de Adão digno, cobrindo minhas partes íntimas o máximo que conseguia, corri pelo corredor na direção da cozinha. Foram poucos segundos de pura agonia.
Eu não quis olhar, mas uma espiada foi inevitável. Enquanto dava passadas rápidas com o único objetivo em mente de chegar até a maldita toalha, meus olhos se desviaram por um milissegundo na direção da janela da sala – aquele objeto quadrado cuja cortina não combinava com a decoração do meu apartamento alugado e que poderia ser meu único possível inconveniente.
E lá estava ele.
Debruçado sobre a própria janela, exatamente em frente à minha, olhando para o céu. Enviado pelos deuses da vergonha e da humilhação, meu vizinho gato agora tinha sido atraído pela movimentação no lado de cá.
É claro que eu não fiquei lá para sofrer o vexame completo. Cheguei à área de serviço com ainda menos integridade do que quando saí do banheiro, e com uma vontade enorme de enfiar a cara em um bueiro e só sair daqui a cem anos.
Não foi assim que eu imaginei ser visto pelado pela primeira vez pelo meu vizinho.
Para começar eu nem tinha certeza se ele era gay, mas sempre rolava uma esperança e meu radar geralmente não era ruim.
Ele era novo no prédio ao lado, devia ter se mudado há menos de um mês. Nossas rotinas eram muito diferentes. Eu trabalhava em uma empresa de tecnologia e tinha horários bem flexíveis, mas razoavelmente dentro do padrão 09 às 17h. Ele, por outro lado, parecia ser um ser noturno. Geralmente saía de casa assim que eu chegava do trabalho e nos poucos dias em que eu fizera home office no último mês, eu o vira andando pela casa em plena luz do dia.
Mas eu nunca o havia visto inclinado na janela daquele jeito. E é claro que ele iria decidir observar o pôr-do-sol justamente no dia em que eu esqueci minha toalha e teria que fazer minha caminhada da vergonha.
Ele era bem bonito. Alto, moreno, cabelos compridos batendo nos ombros e sempre soltos, um estilo que parecia uma mistura de rock, motocicletas e autoconfiança. E isso porque eu só o "conhecia" através daquela mesma janela, por onde eu discretamente o havia observado algumas vezes, a princípio sem ser notado.
Mas agora ele saberia que tinha um vizinho retardado o suficiente para andar pelado dentro de casa com as cortinas abertas e provavelmente – se fosse hétero – nunca mais olharia por aquela janela ou – se fosse gay – me acharia um desesperado por atenção. Nenhuma opção era particularmente agradável.
Peguei o objeto responsável por toda aquela comoção no varal e revirei os olhos para mim mesmo. Eu nem precisava de azar, eu criava meus próprios constrangimentos.
Me sequei um pouco e enrolei a toalha na cintura. Ainda esperei uns dois minutos para ter certeza de que não encontraria o dito cujo na janela para mais uma sessão de auto sabotagem.
Entrei na sala exibindo toda a segurança que eu não tinha, apenas na intenção de chegar até o quarto, me vestir e acabar logo com aquilo. Olhei pela janela, porque não teria como fingir não ver se houvesse alguém ali dessa vez – a entrada da cozinha ficava estrategicamente em frente à janela.
E não é que a criatura ainda estava ali, na mesmíssima posição, e ainda por cima com um sorriso malicioso no rosto?
Arregalei os olhos e parei no meio da sala, sem reação.
Ele alargou o sorriso, levantou uma mão e abanou na minha direção.
"Prazer, Sirius Black."
N/a:
Inteiramente inspirada no esquecimento da minha toalha de banho num dia em que todas as janelas de casa estavam abertas. Felizmente no meu caso ninguém viu! Hahaha
HP e esses amados personagens não me pertencem.
Me contem se curtirem? (Minha segunda Wolfstar escrita, primeira a ser postada)
