Ele podia, e na realidade frequentemente tentava, mas no seu interior mais profundo, o loiro sabia: gostava dela mais do que estava disposto a admitir.

Procurava resistir àqueles sentimentos tanto quanto conseguia, por causa dos anos de amizade que tinham, mas como alguém que luta para se livrar de areia movediça, essas tentativas só faziam com que ele se afundasse ainda mais naqueles sentimentos.

-Bom dia! – ela disse com o mesmo tom doce de todas as manhãs. Já haviam se passado 9 anos de amizade, e num verdadeiro paradoxo para o loiro, ela permanecera a mesma enquanto mudara completamente. De um lado, seu rosto, seu corpo e até seu cabelo, antes curto e agora na altura do ombro, se alterara, numa verdadeira metamorfose que a transformara de uma garota para uma mulher.

Seu rosto havia retido seus toques mais delicados, enquanto que seus olhos castanho-avermelhados ainda brilhavam com a pureza da juventude, com uma energia potente que se transmitia para o interior do loiro sempre que ele a olhava, de uma forma inexplicável.

Ela subira no ônibus e como sempre, ele havia reservado um lugar para ela ao seu lado. Aquela prática diária passava já desapercebida por vários, mas aqueles mais curiosos e atentos já olhavam para aquela atitude com uma certa malícia. Entretanto, aquilo merecia pouca atenção dele.

Mais perdido em pensamentos do que o normal, dessa vez ele só retira os olhos do lado de fora da janela quando a sente sentar na poltrona ao lado. Rapidamente, ele afasta os pensamentos e lhe sorri.

-Bom dia, Kari!

Aquele pequeno sorriso podia não significar muito para os outros, mas a verdade é que ele só o exibia para ela, uma pequena válvula pelos quais aqueles pensamentos escapavam sem que nem mesmo ele percebesse na maior parte das vezes.

-Bom dia, TK! Você parecia concentrado, era por causa da prova?

-Com certeza, até hoje eu não consigo entender nada de física! E você?

-Mais ou menos. Física não é coisa para humanos, você sabe...

E então outro pequeno gesto que um reservava apenas para o outro acontece. Pelos medos e inseguranças, o loiro jamais percebera a forma discreta com a qual ela sempre ajeitava aquela teimosa mecha de cabelo de forma nervosa quando eles conversavam sozinhos.

Aqueles mais curiosos sempre davam sussurros e risadas maldosas quando presenciavam esse pequeno ritual dos dois, mas a verdade é que o curto trajeto de ônibus até seu colégio era um dos poucos momentos em que eles tinham apenas para si, sem que a presença barulhenta dos outros lhe atrapalhasse. Então, aqueles olhares e múrmuros não mereciam nenhuma atenção dos dois naquele momento.

Entretanto, nem tudo funcionava da forma como eles queriam. Afinal, o destino é um senhor cruel e cheio de caprichos, e decidira que não os dois deveriam ser incapazes de notar aqueles pequenos e sutis sinais exclusivos de um para o outro, e então a reciprocidade que sentiam permanecia oculta.

A morena ajeita novamente a mecha de cabelo, relativamente tensa, pois aquele silêncio ensurdecedor estava se tornando cada vez mais comum nas últimas semanas, tirando um pouco do calor que suas conversas normalmente proporcionavam afastassem o frio daquelas manhãs de inverno. Percebendo que ela o encarava nos olhos, quase tão perdida em pensamentos quanto ele anteriormente, ele decide comentar:

-Tem algo no meu rosto? Sinto que um terceiro olho apareceu na minha cabeça...

-Ah, não é nada! – ela é rápida em se corrigir, pois ela não também não estava pronta ainda para desrespeitar os ditames do mestre destino – É que estou torcendo para que não caia aquelas perguntas como "João tinha 5 livros e Maria tinha 10. Sabendo disso, calcule a velocidade média do carro em que Cláudia se encontra".

O loiro se permite rir do comentário, concordando animadamente com a cabeça.

Ela aproveita aquela pequena distração para se emergir novamente em pensamentos. As vezes era estranho pensar que aquele garoto relativamente chorão que conheceram 9 anos atrás estava na sua frente, no interior daquele garoto de quase 17 anos que estava bem mais robusto e alto que ela fora capaz de acompanhar. Seus olhos cerúleos continuavam o mesmo e o cabelo estava quase sempre bagunçado, a única coisa que parecia quebrar aquela imagem que ela tinha dele, mas com certeza os anos de esporte haviam favorecido seu grande amigo.

E novamente aquele pequeno arrependimento ressurge em sua cabeça, uma pequena agulha que sempre lhe incomodava. "Amigo... Apenas um grande amigo...".

Uma pequena e gélida chuva começou a cair sobre a cidade de Odaíba, e ela parece resfriar o clima, pois eles voltam a conversar amenidades, sem que qualquer assunto se mantivesse por mais que poucos minutos.

Enquanto conversavam, a garota às vezes olhava através do loiro para as pessoas que passavam na rua. Casais de adultos, adolescente e idosos, andando juntos de mãos dadas, aproveitando o clima ameno mais frio para se aconchegarem um contra o outro embaixo de guarda-chuvas, se sentindo mais próximos.

Ela se perguntava por quanto tempos eles deveriam ter se sentido da mesma forma que ela antes de finalmente terem aquele pequeno fio de certeza para tomarem o passo mais importante em direção a seus desejos. Ela se perguntava como eles obtiveram a força e a convicção necessárias para falar aquelas palavras tão difíceis de se dizer. "E será que eu realmente sinto isso? Será que realmente meus sentimentos pelo TK...".

Rapidamente, ela botou fim àqueles pensamentos. Ela podia ainda não ter a certeza que queria para tomar uma atitude a respeito, mas ela tinha a certeza de que se permitira apaixonar-se por seu melhor amigo. Ela não sabia exatamente o momento em que o sentimento se solidificara de uma vez por todas, talvez tenha sido logo no começo, quando Tai a protegera no Digimundo todos aqueles anos. A única lembrança que ela tinha era que ele já havia se instaurado por completo naquele dia em que caíra nas profundezas do Mar Negro.

Sem que ela percebesse, o loiro também pensava naquele momento de suas vidas. Ao vê-la desaparecer à distância, a perspectiva de perde-la de uma vez por todas, um temor tão grande que só poderia ser fruto daquele sentimento, só fortificara sua determinação de resgatá-la, de protege-la, de abraça-la e de amá-la.

Ele deu um pequeno sorriso inconsciente quando percebeu que seus pensamentos pareciam aqueles descritos em músicas românticas que ele e seu irmão faziam tantas piadas a respeito. E por isso que até levou um pequeno susto quando foi interrompido por Kari:

-TK, vamos? – ela já estava de pé quando o ônibus parou, com a mochila fortemente apertada contra seu corpo. Ela parecia um pouco vermelha também, mas ele estava tão assustado que o ônibus havia chegado tão depressa com ele imerso em pensamentos que não conseguiu notar – Você está muito quieto hoje! Está pensativo demais, que será que se passa na cabeça desse TK?

-Nada demais... Apenas um pouco tenso com as provas, nada demais. Acho que preciso de férias...

Ele dá um sorriso tão convincente quanto era capaz naquele momento, e como se chegasse puramente para resgatá-lo, ele subitamente sente um impacto em suas costas.

-Tá cansado, TB? – com uma mão solidamente colocada nas costas do loiro, Davis nem percebeu que seu susto permitiu que acabara de resgatá-lo – Eu ainda estou cheio de energia!

Kari deu um suspiro quando viu a pose de Davis, exibindo o braço fortalecido com os anos de esporte. Ela podia achar fofo isso quando mais nova, e às vezes desejava ver a atitude mais dedicada e séria que ele já demonstrara ao longo dos últimos anos. Entretanto, sempre que ele via os dois, ela sentia que ele devia ser contratualmente obrigado a ainda dar em cima dela.

A situação já durara tanto que o curioso misto de amizade e rivalidade de TK e Davis já se tornara praticamente uma lenda própria no colégio, e era uma das poucas coisas que atrapalhava um pouco a imagem do ruivo, que se tornara também conhecido por ser um fiel companheiro capaz de lutar até as últimas forças por um amigo.

Percebendo a frustração da amiga e querendo se vingar do susto, TK sorri maldosamente e retruca:

-Que bom, Davis! Use dessa energia então para a prova de física hoje!

A forma como seu corpo desinflou com a mera menção daquela prova fez parecer que o ruivo era uma bexiga, seu rosto perdendo toda a convicção.

-QUE TESTE DE FÍSICA?!

-O que foi marcado semana passada. Você dormiu de novo na sala? – a garota havia percebido o plano do amigo e decide entrar na brincadeira, andando seriamente enquanto fazia o melhor para controlar a risada.

-Ah! Preciso estudar! – de forma atrapalhada, Davis pega o grosso volume de física e começa a lê-lo desesperado.

-Boa sorte, ele vai rolar na primeira aula.

-O QUÊ?! MALDIÇÃO!

Após o complemento de TK, Davis corre desesperadamente em direção à porta de entrada sem nem se despedir dos amigos.

-Hey... TK – com um travesso sorriso, Kari olha para TK e pergunta – A prova não é só na última aula?

-Oops!

-Que maldade!

Ela dá uma pequena risada e dá um tapa de leve nas costas do amigo, então não vê o que acontece. Davis correra com tanta pressa que atravessava grupos de colegas, derrubando seus livros. No meio do caminho, se virou para pedir desculpa e não percebeu a pequena poça de água na sua frente, deslizando descontroladamente e colidindo com tudo no chão, espalhando seus materiais no barrento terreno do pátio de entrada.

-Ai... Acho que não é meu dia... – sua cabeça estava com um grande galo já se formando enquanto um círculo de alunos o cercava, observando a pequena mancha de sangue que surgia.

Atravessando o anel de adolescentes, TK surge e imediatamente se aproxima do amigo:

-Davis! Você está bem?!

-Acho que sim... – ainda resmungando um pouco, ele se ergue com a ajuda do loiro, vendo Kari parada na sua frente após já ter recolhido seus materiais.

-Vamos, vou te levar na enfermaria para colocarem um gelo nessa sua cabeça de ferro! Queria te assustar, mas não tanto!

A sinceridade do loiro faz com que Davis dê um pequeno sorriso e um "ok" com a mão.

-Tudo bem, TR... Sei que era só uma brincadeira...

E juntos, aqueles dois, que frequentemente discutiam e brigavam com uma frequência impressionante, seguem como irmãos para a enfermaria do colégio.

...

Como que o emissário da liberdade, o sino da escola tocou, marcando finalmente o fim daquele dia de aula. Aproveitando o tempo relativamente frio, alunos saíram com relativa pressa de suas salas, parecendo bem gratos que aquele longo dia de aula havia se findado. Havia, claro, os retardatários, exaustos demais para correr, mas esses eram a minoria.

Kari estava terminando de recolher seus livros para guarda-los na mochila quando a percebeu no fundo da mala. Aquela foto. Aquela foto tão especial para ela, que não permitia que ninguém soubesse que ela mantinha. Uma das poucas provas concretas do que desejava ser capaz de colocar em palavras.

A memória de seis anos atrás voltou. Era um dos raros dias em que ela e TK estavam sozinhos no Digimundo, somente com Patamon e Tailmon para acompanha-los, e naquele momento, mesmo seus estimados parceiros estavam longe.

Aproveitando do momento de tranquilidade após a queda de BelialVandemon, ela e TK haviam aproveitado um curto recesso de aula para voltar ao Digimundo e encontrar seus parceiros na beira daquele calmo rio. Quando os digimons haviam partido para pegar comida, ela aproveitara para tirar aquela foto dos dois sorrindo.

Nem mesmo havia percebido o sorriso se formar e ajeitou a foto no lugar, tomando bastante cuidado para não amassá-la. Eram aqueles raros momentos em que ela reunia a coragem para tomar o passo que tanto esperava.

-Nossa, faz tanto tempo esse dia! – para sua surpresa, TK se aproximara dela. O espanto é de leve, e disfarçando, ela procura guardar os livros para encerrar novamente aquela foto onde ela percebia, naquele canto escuro em sua mochila.

-Sim... Às vezes sinto falta dele!

Uns momentos se passam de um desconfortável silêncio e é quando TK, procurando quebrar aquela situação que se repetia tantas vezes nas últimas semanas, a quebra:

-E então. Como foi no teste de física?

Kari o olha profundamente. Ela sabia que aquela era uma pergunta com o objetivo de fugir da discussão, com o objetivo de puramente tornar a situação normal. E de súbito uma frustração enorme toma de si.

"Quanto tempo será que vamos continuar nisso?".

A menina de cabelos castanhos se prepara para dar uma resposta mecânica, mais uma daquelas banais respostas que pouco importam realmente para a conversa de fato. Ela pensa no número de vezes em que essa situação se repetira e o quanto ela parecia simplesmente uma forma de fuga de uma conversa tão mais importante.

Ela pensa novamente na foto, no ônibus e no riacho.

-TK.

-Que foi, Kari?

O digiescolhido da Esperança sentiu algo estranho dentro de si. Aquele tom cortante que simplesmente descartara o assunto anterior o fez pensar por um momento que tocou num assunto desagradável, até que ele percebeu a súbita determinação da garota. Era um olhar que ele já percebera esvanecer algumas vezes em seu rosto, mas pela primeira vez em todos esses anos, tomou forma, se solidificou e não parecia determinado a sair.

-Amanhã não temos aula de tarde. Você gostaria de sair e ir ao cinema ou ao shopping? – e subitamente, após sair, aquele olhar parece desaparecer. No mesmo instante, um súbito tom de culpa ou mesmo de desespero parece ocupar o olhar da garota, fazendo que ela começasse a falar apressadamente – Não que seja um encontro, é só para abafar um pouco esse clima de provas e...

A súbita descarga de palavras é rapidamente interrompida. Sentindo seu rosto arder em rubor em uma corrente elétrica por seu corpo, ela percebeu que o loiro lhe dera um beijo em sua testa.

Talvez só esse choque a impediu de perceber o quanto ele mesmo tremia e estava vermelho pelo que fez, sentindo as pontas dos dedos da mão geladas e suadas ao mesmo tempo, conforme ele se afasta depois daquele tímido beijo. Ele não parecia mais um adolescente de 17 anos, mas sim aquele menino de 8 anos, temendo ter cometido algum tipo de erro, de ter entendido a situação de forma errada.

-Tudo bem. Eu adoraria sair com você.

Aquele pequeno momento, aquele momento ao mesmo tempo rápido demais e prolongado demais, fez com que os dois nem percebessem que a sala já se encontrava vazia, os dois deixados para trás, esquecidos por seus companheiros.

Ela gostaria de ficar lá com ele por mais tempo. Naquele momento de realização que o que desejava podia estar ao seu alcance. Ela não desejava falar nada, já que palavras talvez fizessem que aquele momento se desfizesse. Então, ela não desejou usar palavras.

Para a surpresa não só do loiro mas de si mesma, ela envolveu seus braços nele e decidiu retribuir. No momento em que ele viu os lábios dela se aproximando, ele sentia uma súbita falta de ar, até que demorou para perceber que o alvo dela era uma de suas bochechas. E por um estranho motivo, ele sentiu que aquilo era perfeito para o momento.

-Bom. Eu. Eu te mando mensagem mais tarde, tudo bem?

A mente dele estava tão enublada que ele demorou para entender a pergunta. Ele olhou e lá estava de novo, aquela convicção restaurada e reformada, mais firme que antes e misturada com algo mais que parecia dar um brilho extra nos tons castanhos e vermelhos de seus olhos.

Assim como no caminho de ida, os dois voltaram para casa juntos. Entretanto, esse trajeto foi feito de forma bem mais silenciosa daquela vez, não porque faltavam assuntos para conversar, mas sim pois não havia mais a necessidade de uma conversa.

Sem palavras, TK desceu dessa vez na frente do prédio de Kari, e ela também nada falou, ambos sentindo ao mesmo tempo que estavam numa esfera de sonhos presa na realidade. E não desejavam abandonar aquela esfera. Sem palavras, ele passou um braço ao redor da cintura dela e a levou até a porta da casa dos Kamiya.

-Tchau, Kari.

-Tchau, TK.

E ele arriscou o movimento decisivo. Ainda com um braço em sua cintura, ele aproximou seus lábios do dela, apenas para subitamente ele sentir que beijara a lateral de seu rosto. Confuso, ele olhou para o sorriso travesso dela, que apenas respondeu ao passar a mão em seu rosto:

-Amanhã te vejo, TK.

Com um súbito de adrenalina percorrendo seu corpo, ele apenas dá um sorriso e se despede dela, ambos os corações batendo mais rápido do que eles acreditavam possível.

Ao chegar em casa, ele começou a procurar algo em suas coisas sob os protestos de Patamon do porquê ele parecer tão feliz e tão agitado ao mesmo tempo. Depois de um tempo, ele encontrou a pequena caixa preta que escondera há tanto tempo no escuro de seu armário, feliz por saber que finalmente o momento chegara.

...

Talvez fossem os anos de amizade ou a euforia que não o abandonara desde a tarde anterior, mas enquanto estava no sofá dos Kamiya, ele não sentia a pressão gigantesca que esperava sentir sob os olhos de Tai quando aquele momento.

Em seus mais sombrios e talvez até caricatos pesadelos, ele esperava estar sob a mira de facas, armas e, num pico de imaginação distorcida, a ponta do míssil de SkullGreymon, mas a verdade é que quando chegara na casa dos Kamiya, o digiescolhido da Coragem o recebeu como sempre o recebeu, trocando pequenas amenidades. Chegou até a se questionar se Kari escondera algo, só que ao analisar melhor os olhos do velho amigo, pareceu quase