Olá :) Essa é uma oneshot drarry de minha autoria e acabou ficando beeem grande (+11k de palavras), portanto: pega a pipoca e senta que lá vai história!
É uma drarry "canon", no estilo 'realmente poderia ter acontecido'.
Espero que aproveitem tanto quanto eu aproveitei. Não esqueça de deixar um voto e um comentário se gostar! Beijos e boa leitura.
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Estava chovendo, todas as janelas estavam fechadas, e a quantidade exacerbada de pessoas dentro da sala, com música e conversas altas colaboravam para tornar tudo um pouco mais abafado.
As risadas e brindes de canecas de cerveja podiam ser ouvidas por todo o QG dos aurores, e praticamente todos estavam lá: os chefes, os supervisores, os aurores de campo, os do departamento e até mesmo o próprio Ministro da Magia. Harry Potter estava rodeado de pessoas, que lhe parabenizavam por mais uma missão bem sucedida com tapinhas nas costas, apertos de mão e até mesmo beijos no rosto, dos mais ousados.
"Parabéns Harry, você não decepciona!" Oliver Cooper, um auror de departamento disse com entusiasmo seguido de dois tapinhas amigáveis no ombro.
"Você é mesmo fantástico, Harry!" Megan Brown, outra auror o parabenizou e ofereceu um sorriso encantador.
"Cara, se Ginny não tivesse posto uma coleira em você desde antes de vencermos a guerra, eu tenho certeza que você seria o maior garanhão da Grã Bretanha. Olha só como as mulheres ficam perto do grande Harry Potter !" Ron Weasley disse, levantando a caneca discretamente na direção de Megan, que ainda estava sorrindo pra Harry de longe. "Você é um sortudo filho da mãe. Aliás, parabéns de novo por hoje."
"Ron, ela só estava me cumprimentando. E o mérito de hoje não foi só meu, você e toda a equipe também estavam lá." Harry apontou para a tipoia improvisada com gase no braço de Ron, consequência de uma luta corporal ainda recente.
"É mas você sabe: foi você que planejou, liderou e executou a missão. Nós éramos praticamente só um reforço. Aceite a vitória, parceiro."
"Não foi bem assim e-"
"Com licença senhoras e senhores" Gwain Robards, o chefe de todo o departamento de aurores chamou a atenção para si, subindo em cima de um pequeno palanque e amplificando a voz com magia para falar por cima de todo o barulho. "Queria agradecer a presença de todos na nossa comemoração. É com muito alívio e felicidade que anunciamos a vitória na missão de hoje, uma das mais perigosas que esse QG já executou." Ele deu um sorriso para Harry. "E é claro que vocês já sabem disso, mas os créditos desse sucesso são todos de Harry Potter, nosso melhor auror e sua equipe." A sala explodiu em gritos de comemoração, assobios e uhuls empolgados, além de muitas palmas. Os homens que estavam ao redor de Harry tentaram carregá-lo, mas ele se desvencilhou envergonhado, embora sorria. "Esse departamento tem sorte de ter esse grande bruxo no time. E digo com certeza: no dia que eu me aposentar desse cargo, Potter, saiba que o posto de chefe é seu!"
Mais uma onda de palmas encheu a sala, enquanto Robards descia do palanque e andava na direção de Harry. A festa recomeçou e todos voltaram a falar alto, beber e afirmar o quanto Harry Potter era incrível.
"Potter, eu falei sério. Não pretendo sair do cargo tão cedo mas já deixarei seu nome indicado para sucessor." Robards disse quando alcançou o moreno.
"Eu agradeço profundamente senhor." Harry sorriu sem graça. "Mas não acho que eu esteja preparado para assumir tanta responsabilidade, eu não tenho tanta experiência quanto os outros, e ser o chefe de missões já tem me demandado muito tempo."
"Bobagem! Você levou a responsabilidade de salvar todo o mundo bruxo quando tinha apenas 17 anos! Você nasceu pra liderar, rapaz."
"Eu sempre tive muita ajuda." Harry foi modesto.
"Bem, eu não aceito não como resposta. Não tem ninguém melhor para o posto e você sabe. Mas aproveite a festa, ainda vão demorar alguns anos pra eu pendurar o chapéu." O homem finalizou com um sorriso e logo já estava se afastando para cumprimentar algum funcionário de outro departamento do Ministério que tinha se infiltrado na comemoração.
"Harry!" Isabel Clark, a secretária loira com um imenso decote gritou e se jogou de braços abertos no auror, que não teve escolha senão segurar a mulher. "Parabéns por hoje querido! Você é sempre tão brilhante! Eu sabia que ia conseguir!" Ela beijou-lhe o rosto sem nenhum resquício de vergonha.
"Err, obrigado Isabel." Ele respondeu corando, tentando se desvencilhar da mulher que parecia ter tentáculos que o agarravam. "Acho que preciso ir ao banheiro! Sabe... a cerveja é diurética e... acaba...-"
"Ah, você é tão adorável!" Ela disse com um sorriso finalmente soltando o homem. "Espero que tenha um ótimo uso do banheiro!"
Harry aproveitou a deixa para escapar da mulher o mais rápido possível, não sem antes captar uma arqueada de sobrancelha de Rony, como quem diz eu te falei, não falei?
Ele recebeu mais sorrisos e toques amigáveis enquanto fazia seu caminho para fora da sala, tentando passar despercebido e falhando. Quando finalmente conseguiu atravessar a recepção do Ministério atrás de um banheiro -por Deus, por que os banheiros tinham que ser tão longe- teve uma surpresa desagradável. Parado em frente ao espelho, arrumando o cabelo já perfeitamente arrumado, estava Draco Malfoy.
"Potter." O loiro constatou após apenas um segundo de surpresa, fazendo sua melhor cara de desprezo para o homem.
"Malfoy." Harry não estava disposto a discutir, então apenas se dirigiu para um dos mictórios e tentou ignorar o olhar do outro que praticamente queimava-lhe as costas. Harry espiou por cima do ombro. "Vai ficar aí parado me encarando?"
"Ah! Me desculpe! Eu esqueci que não tenho permissão para olhar para o grande Harry Potter, salvador do mundo bruxo." Draco respondeu, sua voz pingando ironia.
"Eu só não gosto que me encarem enquanto mijo, Malfoy."
"Não se preocupe salvador, não tenho nenhum interesse em ver o seu minúsculo órgão genital." O loiro provocou e Harry já sentia sua face esquentando de irritação, enquanto fechava a braguilha da calça.
"O que é que você quer então Malfoy?" Ele respondeu se virando de frente para o outro, que o encarava encostado na pia.
"Ah Potter, nesse momento eu quero uma bela quantia de galeões, quero um jantar delicioso me esperando ao chegar em casa, e quero mandar o idiota estúpido do meu chefe ir se foder. Por que a pergunta?" Harry o olhou como se uma cabeça de dragão estivesse nascendo em seu pescoço. "O que foi? Nem tudo é sobre você." Draco cuspiu as palavras.
"Você não vai estragar o meu dia Malfoy. Acabei de vencer uma missão importante e estou de bom humor. Ou melhor, estava até você aparecer." Harry respondeu ríspido, andando até a pia para lavar as mãos.
"Ahhh, então é isso. Você está todo nervosinho porque esperava que eu beijasse o chão que você pisa, como todos os seus baba-ovo fazem. Se decepcionou, Potty?" Draco sorriu com escárnio.
"Eu não sofro de síndrome-de-necessidade-de-atenção como você."
"Não? Pois me parece que você está quase surtando com o fato de que eu não ligo pra droga de missão nenhuma. Inclusive, é muito presunçoso da sua parte afirmar que você venceu sozinho, como se não tivesse outros 500 aurores junto, prontos para se atirar em frente a um Avada Kedavra por você. E depois, eu que sou arrogante."
O desgraçado estava certo, e Harry se batia mentalmente por isso. Até um segundo atrás, tudo o que ele estava fazendo era ser modesto e compartilhar os créditos do sucesso com seus colegas, e agora tinha acabado de agir exatamente como ele detestava. Draco Malfoy trazia a tona o seu pior lado.
"Você é arrogante, Malfoy." Harry atacou, tentando se sentir menos ofendido com a colocação anterior e não conseguindo. "E você está me devendo alguns objetos mágicos. Acho melhor agilizar o trabalho e entregar até segunda-feira ou vou ter que reclamar com o seu chefe, e de quebra contar pra ele do que é que você tem o chamado." Harry sabia que tinha agido exatamente como uma criança, e tinha ameaçado usar de sua influência para prejudicar alguém. Ele odiava isso, e provavelmente nunca teria coragem de realmente fazê-lo mas estava irritado com Malfoy e queria provocá-lo de volta.
"Maldito testa rachada." Draco murmurou e saiu do banheiro pisando fundo.
Malfoy trabalhava no Departamento de Análise de Objetos Mágicos, que era responsável por analisar e escrever relatórios sobre os objetos apreendidos nas missões dos aurores. Dessa forma, após a vistoria, os objetos considerados perigosos eram encaminhados de volta para o QG e os outros eram arquivados em algum outro setor. Não era o melhor emprego do mundo, mas depois da guerra toda a fortuna e propriedades Malfoy foram apreendidas e esse foi o único cargo que ele conseguiu. Além do mais, seu conhecimento prévio de magia das trevas era bastante útil, já que ele facilmente diferenciava os objetos amaldiçoados dos comuns.
Harry terminou de se limpar e seguiu de volta para a festa, levemente mau humorado. Era impressionante a influência que Malfoy tinha sobre o seu estado de espírito: desde sempre o sonserino conseguia o deixar tenso, nervoso e querendo azarar alguém, com apenas algumas provocações. Portanto, ao chegar no QG, o moreno não estava mais no clima pra comemorar. Deu a desculpa de cansaço para todos, evitou se aproximar de Clark, e finalmente usou a lareira para chegar em seu pequeno apartamento localizado na divisa da Londres trouxa e bruxa. Ele gostava assim, pois poderia facilmente aproveitar os dois lugares sem correr o risco de ser visto aparatando.
Logo que chegou, sentiu o cheiro de macarronada sendo preparada e viu que Ginny Weasley estava vindo para recebê-lo.
"Oi querido." A ruiva o abraçou. "Estou preparando o jantar."
"Obrigado. Estou um pouco cansado hoje, tudo bem? Sei que combinamos de sair para o cinema dos trouxas mais tarde, mas é que hoje eu tive uma missão e-"
"Tudo bem, tudo bem meu amor. Eu entendo completamente." Ela interrompeu. "Aqui, deixe-me pegar seu casaco...isso." Ginny ajudou o moreno a retirar o casaco pesado de cima das vestes bruxas, e pendurou perto da lareira. "Ah, Harry... enquanto você estava fora chegaram algumas correspondências. Mas tem uma coisa diferente hoje."
Ele arqueou a sobrancelha. O máximo de aventura em sua correspondência que já tinha visto, foi da vez que entregaram o pacote de seu vizinho para ele por engano, e ele teve uma surpresa... não muito agradável ao abrir.
"As cartas bruxas são aquelas, chegaram por coruja essa manhã." Ela apontou para um montinho em cima da mesa de centro da sala. "Você sabe: Profeta Diário, anúncios da Madame Malkin, outra carta com desenhos de Teddy... o normal." A ruiva continuou. "E a correspondência trouxa também é a mesma de sempre: conta de luz, conta de água, conta de internet, o aluguel -como os trouxas conseguem pagar tudo isso?- e conta de TV a cabo."
"O que há de diferente então?"
"É que hoje, junto com as contas de trouxas, chegou uma carta do mundo bruxo."
"Como assim?" Ele franziu a testa em confusão.
"Ela chegou pelo correio trouxa, mas não tinha remetente nem nenhum endereço além do seu. E eu tentei abrir para ver o que era, mas ela tem um selo mágico e acho que apenas o destinatário, ou seja, você, pode abri-la. Pelo menos pela primeira vez."
Harry achou aquilo tudo muito estranho. Cartas bruxas nunca chegavam pelo correio trouxa, e este, tampouco entregaria alguma coisa sem remetente. Além disso a questão do selo mágico... era estranha. Poderia facilmente ser alguma armadilha, a carta poderia ter algum feitiço que, quando ele abrisse, sabe-se lá o que iria acontecer.
"Aonde está a carta?"
"É aquela ali." Ginny apontou um envelope um pouco separado dos outros.
Harry o pegou nas mãos e logo percebeu que parecia bem antigo. O papel estava amarelado e frágil sob o toque e as bordas já estavam puídas. O que estava escrito no envelope (seu nome e endereço), no entanto, não parecia ter envelhecido pois a tinta ainda era brilhante. O selo mágico era um símbolo em runas antigas que ele sabia que significava "αποκλειστικότητα", ou seja, exclusividade em grego. Fazia sentido, a carta era exclusivamente para ele, portanto ele seria o único a conseguir abrir da primeira vez.
"Não vai abri-la?"
"Pode ser uma armadilha. Eu nunca vi cartas bruxas chegando pelo correio trouxa antes, ainda mais com selo mágico. Vou deixar guardada, e amanhã eu tento fazer uma série de testes de detecção de feitiços nela."
"Amanhã, Harry? Mas é sábado! Combinamos de não trabalhar no final de semana."
"Eu sei Gin, mas eu não tenho ideia do que possa ser isso. Se for algum objeto amaldiçoado, não quero que passe muito tempo na minha casa."
"Nossa casa, você quer dizer." Ela sorriu. "Afinal, eu já passo mais tempo aqui do que na Toca."
"Claro... nossa casa." Ele beijou a testa dela. "Vou tomar banho."
"Bom banho querido..."
Harry bateu a porta do banheiro.
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No sábado, Harry acordou cedo e seguiu diretamente para o pequeno quarto com uma mesa em seu apartamento que ele gostava de chamar de escritório. Ginny vivia dizendo que seria o futuro quarto do bebê, e que eles iriam pintar as paredes, colocar carpete no chão, comprar um berço e blábláblá. A verdade era que Harry gostava de como estava. Escritório.
"Specialis Revelio." Ele disse, apontando a varinha para o envelope. Nada aconteceu. "Estranho." Se houvesse algum feitiço escondido na carta, era pra ter sido revelado. Poderia ser que não havia nada, ou poderia estar muito bem escondido.
O moreno passou as próximas duas horas testando hipóteses, pesquisando em livros e tentando descobrir se havia magia das trevas naquele envelope. No entanto, depois de várias tentativas, ele foi vencido pela curiosidade. Iria abrir a maldita carta, e se algo acontecesse que se dane. Ele queria ler o que quer que estivesse escrito.
Segurou o envelope firmemente com as duas mãos e puxou a aba para cima. O selo brilhou, e a carta se abriu.
30 de Julho de 1991
Caro Harry Potter,
Vejo que hoje é o seu aniversário de 11 anos. Ouço histórias à seu respeito desde que nasci, e mal posso acreditar que em breve nos conheceremos e nos tornaremos amigos. Envio-lhe, junto a essa carta, o livro "Hogwarts — Uma História" como presente. Você já deve ter lido, mas essa edição é especial e possui depoimentos dos próprios fundadores da escola. Espero que aproveite.
Desejo-lhe felicidades, e um ótimo aniversário.
Assinado:
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Era isso. Harry tinha o cenho franzido. O que era aquilo? Uma carta de feliz aniversário de 11 anos? Ele nunca recebeu, e também não havia nenhum livro acompanhando a correspondência. E não fazia ideia de quem havia escrito. A pessoa escrevia como um adulto, mas tinha dito que ouvia histórias a respeito dele desde que nascera, e mencionou a possibilidade deles se conhecerem como se fossem fazer isso em Hogwarts, portanto deveria ter a sua idade. Qual era o sentido de receber aquilo agora? E pelo correio trouxa? Por que não estava assinada? Isso é, se fosse mesmo real. Harry revirou os olhos. Estava na cara que era algum tipo de brincadeira, ou homenagem de alguém. Não poderia realmente ser uma carta de 20 anos de idade. A tinta do texto parecia bem envelhecida, e tudo estava verídico demais, mas com certeza era apenas algum processo de falso envelhecimento artificial. Harry suspirou e jogou o papel e seu envelope para dentro da primeira gaveta da mesa. Não acreditava que tinha perdido 2 horas com aquilo.
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O final de semana passou num piscar de olhos e logo já era segunda-feira de novo. Harry atravessou o hall de entrada do Ministério ainda recebendo muitos elogios pelo sucesso na última missão. Ele andou até sua sala -que era compartilhada com vários outros aurores, devido à escolha do próprio Harry- e ao chegar, em sua mesa já tinha seu chá preferido esperando. O dia estava bonito, todos estavam de bom humor e Harry estava feliz.
VUSH
O moreno levantou os olhos assustado, pra ver o homem alto e loiro à frente de sua mesa, que tinha acabado de jogar um monte de papéis em cima dela, sem se importar se estava atrapalhando algo importante.
"Aí estão seus malditos relatórios, e aqui" -ele depositou uma caixa de papelão completamente cheia e pesada ainda sobre a mesa do moreno- "Estão os objetos." Harry olhou para ele como se não conseguisse acreditar no que estava vendo. "Ande, assine logo o recibo que tenho mais coisas para fazer além de passar o dia inteiro nessa sala fedida." Ele torceu o nariz.
"Malfoy!" Harry finalmente verbalizou sua indignação.
"Parabéns Potter, esse é o meu nome. Você demora para funcionar de manhã?"
"Malfoy, o que pensa que está fazendo?"
"Potter eu não sei se sua testa se rachou mais um pouco durante o final de semana, e isso está te impedindo de formar pensamentos coerentes mas vamos lá, eu explico: Assine a droga do recibo." Draco exigiu, mais irritado do que estava quando chegou na sala.
"Malfoy, eu não vou assinar merda nenhuma! Você não pode simplesmente largar as coisas em cima da minha mesa!"
"Meu trabalho é analisar os objetos, separá-los, escrever relatórios e trazer tudo até aqui. Seu trabalho é assinar, não me interessa em que lugar deixar a caixa ou onde colocar a papelada."
"Pois me interessa! Poderia ter alguma coisa importante aqui em baixo dessa bagunça toda, e se você tiver rasgado algum documento eu juro que vou-"
"Santo Potter! Por Deus! Você está tão acostumado a ter tudo em mãos que não consegue você mesmo tirar as coisas de cima da sua mesa e levar pra algum outro lugar?"
Nesse momento o auror Cooper esticou a cabeça da mesa ao lado para observar os dois. Eles viviam tendo pequenas discussões e essa briguinha já estava começando a chamar a atenção de quem estava em volta.
"Acontece que esse não é o meu trabalho, Malfoy."
"E nem o meu." O loiro cuspiu a resposta.
"Ótimo, pois não vou assinar o recibo." E lá estava o lado infantil de Harry que sempre vinha a tona nessas discussões com o ex colega.
"Não assine então! Malditos grifinórios, teimosos como portas!" Malfoy praguejou alguns palavrões em voz baixa. "Ah, e parece que você finalmente conseguiu a atenção que queria." Ele jogou a edição do dia do Profeta Diário -que Harry nem conseguiu ver de onde ele tirou- por cima de toda a bagunça que já tinha feito na mesa do moreno, que estreitou os olhos para ele.
Na capa do jornal estava uma foto gigante de Harry.
HARRY POTTER, O Salvador do Mundo Bruxo!
Mais uma vez Potter mostrou competência ao derrotar o último grupo remanescente de ex-comensais da morte que ainda aterrorizavam alguns vilarejos bruxos! O menino que sobreviveu planejou e executou com sucesso a missão que -mais uma vez- salvou toda a população bruxa dos praticantes das artes das trevas! ver detalhes sobre a missão: PÁG 6.
E TEM MAIS!
Gwain Robards, anunciou que Potter será o seu sucessor no cargo de chefe do departamento de aurores! Com certeza O Profeta Diário apoia essa decisão, pois a segurança de todos nós não poderia estar em mãos melhores do que as de Harry Potter! Nós devemos tudo ao garoto de ouro! ver detalhes sobre a declaração de Robards: PÁG 12.
Harry torceu o nariz para todo aquele exagero. Mais uma vez, estavam atribuindo todos os créditos à ele.
"Parabéns, Potter." Malfoy cuspiu o sobrenome como costumava fazer na escola, e isso inflamou os nervos de Harry.
"Malfoy, tire essa bagunça de cima da minha mesa antes que eu resolva te prender por desacato à autoridade." Ele ordenou, ácido.
"Como quiser." Draco passou os dois braços com força pela mesa de Harry, varrendo todas as coisas que estavam em cima dela direto para o chão, provocando um barulho terrivelmente alto e misturando todos os papéis. A mesa estava limpa, e Harry Potter estava atônito. "Agora faça-me um favor e enfie sua autoridade naquele lugar." Ele virou as costas e saiu.
Todos 10 aurores que dividiam a sala com Harry estavam observando a cena em silêncio, esperando para ver o que aconteceria em seguida, mas Malfoy simplesmente saiu da sala e desapareceu no corredor.
"Quer que eu vá atrás dele, chefe?" Perguntou o auror Cooper, já se levantando com a varinha em punho.
"Não, Oliver, deixe isso pra lá." Harry respondeu, ainda chocado e começou a agitar a própria varinha, para organizar a bagunça que Draco havia feito.
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"E o Harry não fez nada! Se fosse eu, mandava aquela doninha pra Askaban na mesma hora!" Exclamou Rony, balançando os braços com avidez para dar mais ênfase à história.
Estavam Harry, Hermione, Rony e Ginny sentados na sala do apartamento do moreno, conversando sobre o pequeno acontecimento polêmico do dia.
"Acho que isso não é caso para Askaban, Ronald..." Hermione colocou a mão no braço do marido. "Mas com certeza isso é alguma infração séria na lei. Harry é um auror de alta patente."
"Por que é que você não fez nada, querido?" Ginny perguntou.
"Não tinha necessidade. Se eu reclamasse, provavelmente Malfoy seria demitido e eu não queria ser responsável por isso." Ele deu de ombros.
"Mas o responsável é ele! Ninguém mandou faltar o respeito com Harry Potter!" Ron reafirmou sua opinião.
"Malfoy falta o respeito com todo mundo Ron, sem se importar se são Harry Potter ou não. Não foi um ataque pessoal, tenho certeza." Hermione disse.
"Ainda acho que ele merecia ir em cana." O ruivo murmurou, dando um gole na cerveja de um dos copos que estavam na mesa de centro.
"E eu acho que você já está bebendo demais." Hermione sorriu, tirando o copo da mão dele. "Vamos pra casa?"
"Mas já?" Ginny perguntou.
"Já está tarde, e todo mundo trabalha amanhã." A cacheada pontuou, em seguida arrastando um Ron Weasley indignado ainda balbuciando sobre doninhas e falta de educação para a lareira, e desaparecendo entre as chamas verdes.
"Você é mesmo um cavalheiro, mesmo com quem não merece, Harry Potter. Não é muito comum isso mas, dessa vez eu concordo com o Ronald. Qualquer um que seja mau com você merece Askaban." A ruiva disse sedutoramente e se sentou no colo de seu noivo, que se remexeu desconfortável no sofá. "Agora que estamos sozinhos, que tal eu ser uma garota muito má e você me prender na cama?" Ela sussurrou no ouvido do moreno.
Harry prendeu a respiração por um instante, pensando numa resposta e então como se os deuses estivessem ouvindo suas preces silenciosas, um papel escorregou por baixo da porta de entrada do apartamento.
"Poxa vida, o que é aquilo?" Harry falou, tentando esconder o nervosismo e tirando o mais delicadamente possível a ruiva de seu colo. Ele andou até o papel e o pegou, percebendo que era mais um envelope, exatamente igual ao de sexta feira. Ao abrir a porta no entanto, não havia ninguém no corredor, mesmo depois de fazer o feitiço Homenum Revelio.
"Mais uma carta misteriosa?" Ginny perguntou do sofá.
"Sim, e, bem, acho que eu deveria ir analisar se há algum feitiço nela lá no escritório. Pode ir deitar, não precisa esperar por mim." Harry falou, já andando a passos apressados.
"Você não me disse o que tinha na outra carta." Ginny perguntou antes que ele pudesse sumir no corredor.
"Nada. Estava em branco." Ele disse rapidamente e desapareceu da vista da ruiva.
Ao entrar no escritório e trancar a porta, Harry suspirou encostado na parede. Ele não sabia bem porque estava fugindo de Ginny nos últimos tempos, e definitivamente não queria pensar a respeito disso. Repetia para si mesmo que estava estressado com o trabalho, e sentia falta de um pouco de privacidade já que a ruiva tinha praticamente se convidado para se mudar para seu apartamento. Sim, trabalho e privacidade. Ele olhou para o envelope nas mãos. Carta.
Abriu sem nem mesmo testar contra feitiços antes, se repreendendo mentalmente logo em seguida -talvez esse fosse o plano, conquistar a confiança dele com a primeira carta e amaldiçoa-lo com a segunda- mas mais uma vez nada aconteceu e ele suspirou de alívio antes de começar a ler.
17 de Agosto de 1993
Potter,
Saiba que te odeio.
Você é ridículo e dizem que esse ano você quase morreu, enfrentando um basilisco pra salvar uma garota. Pois eu duvido! Basiliscos são criaturas extremamente raras e é impossível que exista uma em Hogwarts. Além de tudo, você é só um moleque mestiço idiota e nunca conseguiria matar um sozinho.
Mas se você por acaso tiver enfrentado o monstro mesmo, saiba que eu queria que você tivesse morrido ao invés da criatura.
Ps: Você fala parseltongue, e isso é ridiculamente sonserino da sua parte.
Assinado:
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Ok, se a intenção era prender a atenção de Harry, essa pessoa tinha definitivamente conseguido. Claramente era alguém se passando por um personagem da época de Hogwarts, e deve ter se informado dos acontecimentos históricos sem nenhuma dificuldade em alguma de suas biografias não autorizadas. Mas o que Harry não tinha entendido era por que na primeira carta a pessoa, ou personagem, tinha se mostrado amigável e a segunda estava carregada de hostilidade, ainda que infantil. Será que era algum tipo de jogo, como uma caça ao tesouro? Tinha alguma coisa a ver com a diretora Minerva, tentando relembra-lo dos tempos da escola? Ele não fazia ideia, mas agora tivera sua atenção fisgada por quem quer que fosse, e iria ao fundo dessa história, em nome de sua própria curiosidade. Jogou a carta dentro da gaveta junto com a outra, e se pôs a pensar até adormecer na cadeira.
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"Harry, querido! Pediram pra te avisar que sua presença está sendo requisitada na sala do Ministro da Magia." Isabel Clarke, a secretária loira avisou ao chefe, exageradamente debruçada na mesa do mesmo, realçando o decote.
"Ah... poxa. Não esperava por isso." Harry disse, surpreso. "Obrigada, Isabel."
"Não tem de quê." Ela piscou um dos olhos e saiu, andando com um rebolado exagerado que atraiu os olhos de todos os aurores da sala. Menos os de Harry.
"Cara, sua mulher tem uma confiança no próprio taco que me impressiona." Comentou o auror Cooper. "E você, realmente tem caráter."
"Do que é que você está falando, Cooper?"
"Do que estou falando? De Clarke!"
"E o que tem ela?"
"Ora Harry... está na cara o que ela quer."
Harry estava começando a ficar irritado com aquela conversa sem sentido, então resolveu apenas se levantar e ir para a sala do Ministro.
Ao chegar e bater na porta, a passagem se abriu imediatamente e dentro da sala imponente estava Kingsley Shacklebolt, o ministro, e do outro lado da mesa, em uma das duas poltronas estava Draco Malfoy. Ah, ótimo.
"Não me olhe com essa cara, Potter, eu não estou aqui por vontade própria." Draco disse, mau humorado.
"Sente-se Harry, por favor." Shacklebolt indicou a poltrona ao lado do outro convidado. "Chamei os dois aqui porque foi feita uma denúncia de situação inapropriada envolvendo você" -ele apontou o dedo para o loiro- "Senhor Malfoy, derrubando os pertences do senhor Potter no chão de sua sala e praguejando palavras nem um pouco cordiais."
Harry arqueou a sobrancelha. Então era isso?
"Talvez isso realmente tenha acontecido." Draco disse, olhando para as mãos e encenando despreocupação.
"Acredito que você sabe o quanto isso foi inapropriado senhor Malfoy, e que deve resultar em sua demissão imediata."
"Sim." Ele respondeu secamente, ainda sem encarar os olhos do homem.
"Desculpe... o que?"
"O que, oque senhor Potter?" O ministro perguntou.
"O que... por que vai demitir Malfoy?"
O loiro bufou e revirou os olhos. Será possível que Harry fosse tão sonso ou ele apenas fingia?
"Porque você, Potter, é o intocável salvador, e eu sou o único nesse mundo que parece entender que você não passa de um bruxo qualquer com uma cicatriz!" Ele disse exasperado. "Tudo bem, você tem um ou dois feitos impressionantes no currículo, mas isso não te torna um semi-deus. Mas é óbvio, qualquer um que vá contra a manada de fãs do garoto de ouro é linchado."
"Esses um ou dois feitos impressionantes senhor Malfoy, incluem sobreviver à maldição da morte duas vezes e matar o bruxo das trevas mais poderoso que já existiu. Harry Potter é uma lenda viva, e o mínimo que todos devemos à ele é respeito absoluto." Shacklebolt disse severamente. "Agora, já que ambos estão cientes do que aconteceu, o senhor pode passar no departamento de RH para retirar seu último pagamento."
Draco já estava se levantando da poltrona, furioso, quando o braço de Harry parou à sua frente no ar, o impedindo de levantar e fazendo com que ele caísse de novo no lugar.
"Desculpe Ministro, mas ele está certo. Sou um bruxo normal, vítima de uma profecia e tive muita sorte e muita ajuda durante toda a minha vida. Não sou melhor do que ninguém, nem mesmo do que Draco Malfoy." O moreno pontuou e Draco olhou para ele incrédulo. "Malfoy pode ter ultrapassado alguns limites, mas nada que uma advertência verbal não resolva. Não é necessária a demissão."
"Acho que o senhor não entendeu senhor Potter. A decisão já foi tomada." Kingsley finalizou a discussão encarando ambos com seriedade.
Malfoy começou a levantar novamente e o braço de Potter o impediu novamente. Harry suspirou. Teria que fazer uso de uma coisa que eles detestava, mas acreditava ser por uma boa razão.
"Acho que o senhor não entendeu, Shacklebolt." Os outros dois homens arregalaram levemente os olhos em surpresa com a ousadia do moreno. "Eu sou o Harry Potter não é?" Ele não esperou por confirmações. "Então estou dizendo que Draco Malfoy fica. Ou farei questão de dar uma exclusiva para O Profeta Diário, sobre como o ministério tem sido preconceituoso e injusto com os que receberam perdão após a guerra, e o exemplo perfeito é a demissão de Malfoy. Acho que isso não será bom para a imagem de Ministro do senhor..." Harry deixou o resto da sentença no ar. Draco estava, literalmente, de queixo caído.
Um silêncio tenso pairou na sala por alguns segundos, e Draco podia ouvir as batidas do próprio coração contra a caixa torácica. Enfim, Shacklebolt coçou o queixo e falou, com a voz num tom perigosamente cordial.
"Pois bem, se essa é a sua decisão, não irei me opor."
Harry sorriu, verdadeiramente feliz e apertou a mão do Ministro, como se não tivesse acabado de ameaça-lo, ainda que implicitamente. Depois de despedirem-se do homem, Harry e Draco se retiraram da sala, e o loiro ainda estava anestesiado com o que presenciou.
"Você está bem, Malfoy? Parece meio pálido." Harry se estapeou mentalmente pela burrice, o homem era pálido, sempre foi. Draco piscou os olhos, e aparentemente voltou à si.
"Aquilo que vi, Potter, foi uma bela demonstração de poder." Ele deu uma risada sarcástica. "Se não soubesse quem você é, poderia dizer com plena certeza que estou diante de um sonserino." Harry riu.
"Não me ofenda desse jeito."
"Por que fez o que fez?" O loiro perguntou, subitamente sério.
"Apenas me pareceu o certo a se fazer." Ele deu de ombros.
"Preste muito bem atenção nas palavras que direi agora, porque provavelmente nunca mais você as escutará de mim." Malfoy disse, o encarando nos olhos. "Muito obrigado." E saiu andando sem esperar por réplica, na direção oposta, onde Harry sabia ser o seu departamento.
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"Boa tarde senhor Potter." Cumprimentou Oscar, o porteiro do prédio. "A sua correspondência está comigo." Harry agradeceu e pegou os papéis com o homem, porém ao notar o envelope já conhecido no meio, deu meia volta.
"Oscar... você sabe quem deixou isso aqui?" Harry perguntou.
"O carteiro senhor Potter."
"Não... esse envelope aqui, está vendo? Acho que não foi o carteiro que deixou."
"Bom senhor... tenho certeza de que foi."
Harry decidiu não continuar a discussão, afinal o homem era trouxa e qualquer bruxo poderia lançar um feitiço confundus facilmente e deixar a carta sem ser notado. Assim que entrou no apartamento, começou a ler.
10 de Agosto de 1995
Caro idiota,
Você é imbecil? Estúpido? Burro?
Que ideia foi essa de colocar o maldito nome no cálice de fogo? Você queria morrer?
Aliás, quem morreu foi o pobre garoto da Lufa-Lufa.
Sinceramente Potter, não se culpe. Se for verdade o que afirma, que você-sabe-quem está de volta, não teria nada que você pudesse fazer para impedir.
Mas jogar aquele torneio foi burrice em primeiro lugar. Imagina se você morre!
Não seja burro de fazer algo do tipo novamente, Potter. Já não basta a aventura com lobisomens no ano passado.
Tenha ao menos um pingo de amor a vida, idiota.
Assinado:
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Harry estava extremamente confuso após essa carta. Afinal, a pessoa que estava escrevendo gostava dele ou não? Em um momento parecia querer ofendê-lo de todas as maneiras possíveis, em outro parecia importar-se com sua vida. Harry estava cheio de tantas perguntas, estão buscou as outras duas cartas, segurou os papéis com firmeza e jogou pó de flu na lareira com a outra mão, dizendo em voz alta o endereço de alguém que ele sabia que poderia ajudar.
•
"Aqui está Harry." Hermione estendeu a xícara de chá para o amigo."Então... me conte novamente o que aconteceu."
"Foi isso Mione. De um dia pro outro comecei a receber essas cartas. Nunca chegam por coruja, acho que para não serem rastreadas. Elas tem um selo mágico então eu sou o único que consegue abrir o envelope a primeira vez, e até agora, datam de 91, 93 e 95. Todas são escritas como que do ponto de vista de outro aluno de Hogwarts e não são assinadas."
"E você tem alguma teoria sobre isso?" A mulher bebericou o próprio chá.
"Eu achava que poderia ser a diretora Minerva, mas ela não seria capaz de escrever tantas ofensas. Pensei que poderia ser algum fã, mas não faz o menor sentido, além do que, meu endereço não é de conhecimento público. Até agora as cartas não parecem ter nenhuma finalidade além de me deixar distraído. Pode ser algum plano de algum grupo inimigo, talvez mais comensais da morte e-"
"Não Harry, pense um pouco. Se algum ex-comensal vingativo soubesse aonde você mora, você já teria sofrido algum ataque, estaria morto ou sequestrado."
"Faz sentido." Ele suspirou.
"O que exatamente você quer que eu faça com elas?" Hermione perguntou, segurando as três cartas nas mãos.
"Primeiro: não conte para ninguém. Ginny não sabe, e eu quero que continue assim, vamos deixar apenas entre nós dois. Segundo: você é uma historiadora mágica, certo?" Ele fez aquela carinha de cachorro pidão.
"O que é que você quer, ein?"
"Bom... eu sei que trouxas tem métodos de datação de tempo em documentos antigos e outras coisas e imagino se... no mundo mágico também não existe alguma ferramenta mais precisa para o mesmo fim."
Ela arqueou a sobrancelha. Provavelmente se ele estava perguntando era por que já sabia a resposta.
"Sim Harry. Existem algumas formas de fazer isso. Como isso é papel, e corre o risco de ter mesmo 20 anos, é um material bastante frágil, então vou precisar levar para o laboratório. Posso te devolver em uns 2 dias?" Ela perguntou.
"Claro, Mione. Você é perfeita, saiba disso. Sempre me salvando." Harry sorriu abertamente.
"Eu sei. Agora vai logo pra sua casa ficar com a sua mulher." Ela fingiu o enxotar e ele visivelmente murchou o sorriso.
"Claro..." Os dois foram andando até a lareira e Hermione colocou uma mão no braço de Harry antes que ele jogasse o pó de flu.
"Aconteceu algo? Tudo bem entre você e a Ginny?" Nada passava despercebido por Hermione Weasley.
"Tudo bem. É só o trabalho." Harry verbalizou a mesma desculpa que ele dava para si mesmo e as palavras soaram vazias. Hermione no entanto, o soltou, e de repente ele estava de novo na sala de seu apartamento.
•
Harry estava ansioso. Até então, as cartas estavam chegando com 2 anos de diferença e ele queria muito ler a que era à respeito do sexto ano. Entretanto, já faziam 40 minutos que ele estava parado na sala olhando para a fresta da porta, e nenhum papel aparecia. Decidiu dar uma caminhada.
A brisa leve batia em seu rosto e bagunçava mais os cabelos pretos enquanto o homem andava e pensava. Aquela brincadeira estava tomando proporções maiores do que ele imaginou, e acabava roubando a atenção do moreno mais do que deveria.
O vento soprou mais frio.
Outro assunto paralelo, no qual ele se pegava pensando as vezes, era Draco Malfoy e o agradecimento mais ingrato que Harry já recebeu. Algo no loiro era diferente dos outros, e Harry sabia o que era. Draco é a única pessoa que trata Harry da maneira que ele sempre quis ser tratado: como um garoto normal. Um homem normal. Como foi que ele disse mesmo? Um bruxo qualquer com uma cicatriz. Apenas um ou dois feitos impressionantes no currículo. Merlin, Harry queria gargalhar quando ouviu ele dizer isso.
O mundo parecia estar o tempo todo cuidando para que o garoto de ouro não quebrasse, sempre lhe servindo como se fosse alguém superior. Harry não seria hipócrita de dizer que detestava, aliás pelo contrário. Mas com o passar do tempo, o exagero tornava-se entediante. Até mesmo sua própria noiva! Sempre lhe servindo, sempre aceitando tudo o que ele diz muito facilmente, nunca questionado... Céus, fazia meses que ele nem ao menos tocava sua quase esposa e ela nunca havia nem perguntado por que. Era quase como se Harry fosse realmente um semi-deus e tinha escolhido a abstinência sexual por algum motivo nobre dos heróis, e a ela, restava apenas aceitar, calada.
As vezes Harry sentia como se estivesse noivo de uma boneca... Perfeitamente chato. Ele tinha certeza que se no lugar de Ginny fosse Malfoy, ele já teria derrubado as paredes do apartamento com gritos, exigindo explicações. E as reações exageradas de Malfoy eram muito melhores do que a apatia de Ginny.
Harry corou com o pensamento. Ele não poderia estar comparando o ex bully de escola, com sua atual noiva. Não, não poderia.
Não estava comparando, foi apenas uma colocação.
-Ele justificava para a própria consciência enquanto caminhava de volta para o prédio.- Sim, é isso. Apenas uma colocação.
Harry terminou de subir as escadas do prédio e abriu a porta de seu apartamento determinado à tomar um banho e se deitar, quando encontrou Ginny inclinada sobre um envelope, apontando a varinha pra ele.
"Ginny! O que é que você está fazendo?!" Ele perguntou e correu exasperado até a mulher.
"Oi Harry... outra dessas cartas chegou e eu estava tentando abrir pra você. Já tentei todo tipo de feitiço mas ela realmente não abre."
"Você sabe que não abre, Ginevra! O que você está fazendo, garota! E se danificar a carta?"
"Você não disse que estavam em branco?"
"Eu disse que a primeira estava em branco. As outras, não, mas não tem nada que você vá entender. São códigos, coisas em runas antigas e idiomas, estou estudando pois pode ser pista de alguma coisa". Ele mentiu. As costas de sua mão deram uma fisgada aonde ainda estava a cicatriz Eu não devo contar mentiras.
"Bom... se você diz." Ela estendeu o envelope para Harry. Tá vendo? Era disso que ele estava falando. A garota simplesmente aceitava tudo que ele dizia, sem nenhum senso crítico, apenas porque era pra Harry Potter falando.
Harry agarrou o papel e foi para o escritório, irritado com a mulher mas ao mesmo tempo sabia que estava a culpando por sua própria mentira, e isso era errado. Mas não vem ao caso. Primeiro, a carta.
25 de Dezembro de 1996
Harry,
Feliz natal.
Eu queria pedir desculpas à você. Por tudo que lhe causei, por tudo que ainda lhe causarei. Por muitos anos, meu ódio por você me cegou e eu achei que realmente o queria morto, -achei que queria todos vocês mortos- mas o clichê é real e a linha que separa o ódio do amor é muito, muito tênue.
Ano passado, quando soube que você estava saindo com Cho Chang, depois de acabar com aquelas reuniões secretas na sala precisa, finalmente entendi. A sensação de perda me atingiu como um soco na barriga, e a voz em minha consciência dizia: ele nunca foi seu para que pudesse perdê-lo.
É verdade, Harry, você nunca foi meu.
Durante as férias eu estava determinado a me declarar durante o nosso sexto ano, mas eles tem alguns planos pra mim, e você sabe, não se pode dizer não a essa gente.
Sei que ao fazer o que me pedem, jamais poderei te ter. Me perdoe por isso, Harry, eu estive enganado por anos e agora é tarde demais.
Acho que nem mesmo você pode me salvar.
Ps: Sinto muito pelo seu padrinho. Sei que ele foi como um pai para você, muito mais do que meu pai -que também não está comigo nesse momento- é para mim.
Assinado:
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Harry estava chocado. Era uma declaração de amor? Ele fez as contas, estava com 16 anos, tinha acabado de enfrentar o pior ano de sua vida, onde Sirius morreu, e Dolores Umbridge o tinha atormentado muito de perto em Hogwarts. A pessoa que escreveu estava muito ciente de todas essas coisas, e tinha dado uma informação pessoal: estava sem o pai. Será que havia morrido? Fugido? Além disso tinha outra revelação. A pessoa que escrevia era um garoto, pois usava pronomes masculinos para referir a si próprio, e aparentemente, estava apaixonado por Harry? O que eram esse planos dos quais ele falava? Ou melhor, quem eram eles, que esse garoto não poderia negar um pedido?
A carta datava do feriado de natal do sexto ano em Hogwarts e não das férias finais como as outras. O que tudo isso significava? Harry achou que iria enlouquecer.
•
"Harry, eu coloquei 2 tortas pra assar na cozinha, pode me ajudar a trazer?" Hermione perguntou gentilmente.
"Claro."
Eles estavam na Toca, para mais uma reunião de família com todos os Weasley e agregados presentes. Todo mundo percebeu a mudança no comportamento de Harry: estava sério, com o semblante fechado e não estava rindo nem mesmo das piadas de George. Hermione é claro, era a única que tinha certeza do motivo de tal comportamento: as cartas. Ao chegarem na cozinha da casa, ele logo perguntou:
"Hermione! E então? Tem minha resposta?"
"Tenho." Ela respondeu, pensando em como iria explicar aquilo para o amigo, e qual era o significado do que estava acontecendo. "Fiz todos os testes mágicos possíveis Harry, e a data bate exatamente com a que está escrita no papel. São mesmo cartas de 91, 93 e 95."
Harry suspirou. Era com ele imaginava. No entanto, ao invés de trazer respostas, isso carregava ele de mais e mais dúvidas. Quem escreveu? Por que ele nunca tinha recebido? E por que estava recebendo agora?
"Eu deixei elas discretamente na sua mochila. Harry, você tem alguma ideia do que é tudo isso?"
"Não faço ideia Mione. E também não sei quem escreveu. Veja, recebi mais uma faz alguns dias." Ele estendeu o papel para a mulher, que começou a ler.
"Meu Deus..." Ela disse com uma das mãos na boca. "É o Malfoy!"
"Como é que é?" Harry franziu todo o rosto em confusão.
"Harry, pense bem! Isso explica a inconstância. No início ele queria ser seu amigo, depois se tornou hostil e agora descobrimos que ele estava apaixonado!"
O coração do moreno bombeava sangue audivelmente, os pensamentos iam e vinham rápido e sem coerência. Malfoy?
"Mas por que Malfoy?"
"Ora, vamos Harry, você é inteligente. Está bem claro que é um estudante de Hogwarts, e na segunda carta ele menciona algo como você falar parseltongue ser um lado sonserino seu." -Harry imediatamente se lembrou de Draco no ministério, dizendo que poderia pensar estar diante de um sonserino, depois do acontecido na sala do Ministro.- "Na terceira carta, ele age como se acreditasse que você colocou o nome no cálice de fogo, o que prova que realmente não pode ser nenhum grifinório. E ainda estava sendo hostil. Mas agora... por Merlin está bem óbvio." A morena andava de um lado pro outro na cozinha.
"O que está óbvio, Hermione?" Ele perguntou exasperado e ela o olhou como que incrédula.
"Ele mesmo confirma que achava que te odiava, que te queria morto, -queria todos nós mortos- mas percebeu que te ama. Harry, ele diz que acabou com as reuniões da Armada de Dumbledore! Draco fez parte da brigada que nos entregou pra Umbridge. E o plano, o plano que eles, os comensais da morte, tinham pra ele, era o próprio assassinato do diretor. E ele sabia que se fizesse isso, você nunca o perdoaria. Além disso... ele diz que está sem o pai. Você mandou Lucius Malfoy para Askaban naquele ano, após a invasão no Ministério."
Tudo fazia tanto sentido agora.
"Hermione... você é um gênio." Harry conseguiu dizer após alguns segundos que a compreensão o atingiu. Era Malfoy, só podia ser.
"Eu sei." Ela sorriu. "E o que vai fazer à respeito?"
"Vou falar com ele."
•
Harry caminhava a passos largos pelo Ministério, mal tinha aguentado esperar o final de semana passar e precisava desesperadamente falar com Draco. Se Hermione estivesse mesmo certa -e ela sempre estava- o que aquilo tudo significava? Por que enviar as cartas agora?
O moreno chegou numa sala ao fundo de um corredor cheio de portas, e entrou sem ser convidado. Lá dentro estava um homem baixinho e rechonchudo, claramente ralhando sobre algo com Draco Malfoy.
"Com licença." Ele disse, educado. "Preciso falar com Malfoy."
"Ninguém vai falar com Malfoy agora-" O homem disse, se virando para a porta mas parou assim que percebeu quem estava lá. "S-senhor Potter?" Ele esbugalhou os olhos. "Senhor! O que o senhor deseja? Água? Chá? Quer os relatórios? Qualquer coisa que desejar pode falar." Harry se segurou para não revirar os olhos.
"Quero falar com Malfoy." Ele repetiu. "A sós."
O homem engoliu em seco e saiu, encostando a porta da sala.
"Potter! A que devo essa visita desagradável?" Draco forçou um sorriso sem dentes, e logo foi se sentar em sua cadeira, atrás da mesa. Harry permaneceu em pé.
"Malfoy, por acaso você tem me enviado cartas?" Ele perguntou, sério.
"Como é?" O loiro arqueou a sobrancelha.
"Cartas."
"Eu ouvi, não tenho problemas de audição, felizmente." Ele fez sua melhor cara de tédio. "O que estou tentando entender, é por que você acha que eu te enviaria alguma coisa, quanto mais cartas?"
"Só me diga se é você ou não que está me enviando cartas de amor." Harry se estapeou mentalmente. Ele não deveria ter dito que eram de amor.
Draco esbugalhou os olhos em claro sinal de surpresa e em seguida deu um sorriso de lado carregado de sarcasmo.
"Potter." Ele começou, parecia se segurando para não rir. "Eu realmente admiro a sua auto estima tão elevada, apesar de claramente infundada." E agora Malfoy estava debochando. "Mas eu sou um homem casado, e não tenho nenhum interesse em você". Ele levantou a mão esquerda, o brilho dourado da aliança reluziu e Harry estava chocado. Como assim Malfoy era casado? Ele nunca ouviu falar disso.
"Ah, bem, eu... err."
"Mais uma vez o seu complexo de centro das atenções ataca, não é mesmo? Mas nunca se esqueça Potter: Eu não faço parte do seu fã clube."
Draco finalizou, continuando seu trabalho com os relatórios e o moreno ainda estava parado em frente sua mesa, estático.
"Se for ficar o dia todo aí, poderia por favor não respirar tão alto? Esse barulho me dá nos nervos." O loiro acrescentou.
"Eu... sintomuitofoimal." Harry disse, quase gaguejando e saiu da sala rapidamente.
Se não era Draco que estava enviando as cartas, quem era então? Se não era ele quem tinha escrito... quem seria? E por que Harry se sentia estranho agora que obteve uma negativa do loiro? Além da informação dele ser casado, claro. Isso era bom, não era?
Por um segundo, Harry quase acreditou que Malfoy realmente pudesse estar apaixonado por ele... e por um segundo, ele quis que fosse verdade.
•
Draco chegou em seu apartamento, na Londres bruxa, após mais um dia de trabalho. Espanou o pó das roupas, pendurou o casaco e estreitou os olhos para o barulho vindo do banheiro... A hidromassagem estava ligada.
Ele andou a passos rápidos e abriu a porta, dando de cara com a mulher pálida e loira, deitada na banheira cheia de espumas enquanto tomava champanhe em uma taça, perfeitamente tranquila.
"Astoria!" Draco ralhou. "Hoje era meu dia de usar a hidromassagem."
A mulher olhou para ele e bebericou a taça, sem se importar com a represália.
"Draco, eu sei que hoje era seu dia. Mas é que eu fiquei tão cansada! Sabe, eu já estou procurando decorações natalinas pra este ano, e dei uma passadinha lá em Hogsmeade." Ela sorriu suave. "Mas você pode usar a banheira depois que eu terminar."
"Astoria você sabe que eu nunca uso água suja de outras pessoas." Draco estreitou os olhos. "Por isso temos o dia da banheira. Além do que, usar juntos está fora de cogitação."
"Realmente." Ela disse, sem se importar muito e se mexeu na água, o que fez a espuma se deslocar um pouco.
"Astoria! Eu estou aqui, não quero ver você nua." Draco disse, tapando os olhos com uma mão. "Utilizarei o seu dia da banheira semana que vem também." Ele disse já saindo do banheiro, quando de repente voltou e espiou para dentro novamente. "Por acaso você... contou pra alguém sobre... você sabe. Potter."
"Hm?" Ela fingiu não saber do que ele estava falando. "Se eu contei pra alguém que nosso casamento não passa de uma grande amizade porque você é perdidamente apaixonado por Potter desde os 13 anos de idade? Não, não contei." Ela disse, calmamente.
Draco grunhiu algo inteligível e foi para seu escritório. Abriu com uma magia específica o cofre localizado atrás do quadro da pintura de Lancelot, e espiou para dentro. Ótimo, todas as cartas ainda estavam lá.
•
Harry acordou cedo aquele dia e foi direto para a cozinha tomar algo. Assim que chegou, viu que na geladeira estavam presos com imã alguns envelopes e uma nota de Ginny.
Harry, fui até o beco diagonal comprar algumas coisas e depois irei almoçar na casa de Luna. Chego para o jantar. Com amor, Ginny.
Ps: Chegaram várias dessas cartas que você está recebendo ultimamente. Não se preocupe, eu não tentei abrir, sei que são importantes pro seu trabalho.
Harry ignorou a pequena pontada de culpa que sentiu e pegou logo todos os envelopes, abrindo todos de uma vez sobre a mesa da sala, e organizando as cartas de acordo com a ordem das datas.
10 de Março de 1997
Harry,
sei que está obcecado por mim. Sei que acha que sou um comensal da morte, e você está certo. Sei que você tem me seguido pelo castelo, que tem me observado. Eu sinto seus olhos sob minha pele, mas infelizmente neles eu só vejo a raiva e a dor.
As vezes nós encaramos um ao outro. Ficamos parados nos olhando, sem dizer nada, mas é o tipo de nada que significa tudo.
Eu sinto muito Harry, por tudo que está prestes a acontecer.
Assinado:
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Harry procurou a próxima carta de acordo com a data.
17 de Maio de 1997
Harry,
eu sei que deveria estar com raiva de você.
Por ter quase me matado naquele banheiro, por ter me marcado com cicatrizes.
Quanta ironia, toda minha vida te chamei de cicatriz, e agora, carrego várias em meu peito.
No entanto, não consigo sentir nada por você que se pareça com raiva. Na verdade, enquanto eu estava deitado no chão daquele banheiro, sangrando e sentindo minha pele ser dilacerada, eu fiquei feliz. Chorava de dor, mas por dentro, eu sabia que finalmente estava liberto do meu cativeiro, que iria poder deixar pra trás toda amargura e medo.
Harry, quase te agradeço por usar sectumsempra em mim.
Assinado:
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Próxima carta.
22 de Junho de 1997
Harry,
eu sinto muito.
Sim eu concertei o armário sumidouro, sim, eu fui o responsável pela entrada dos comensais em Hogwarts.
Não, eu não matei Dumbledore. Não pude fazê-lo, apesar de eu e toda minha família estarmos sob ameaça de você-sabe-quem. No entanto, a responsabilidade recai tanto sob meus ombros quanto os de Snape. Dói olhar pra você e saber que você nunca irá me perdoar por isso.
Em outra vida, eu poderia ter te amado, você me chamaria de seu e eu não iria hesitar, e se você me pedisse pra ficar, eu ficaria.
Eu ficaria.
Assinado:
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Próxima.
28 de Março de 1998
Harry,
senti falta de te escrever.
Mal posso acreditar no que aconteceu. Parece que pensei em você tão avidamente, que logo você se materializou em minha casa. Desfigurado, preso, vítima de sequestradores na floresta.
Eu não pude te identificar. É claro que eu sabia que era você, com uma boa dose de azaração ferreteante na cara, mas não pude. Você é minha esperança, a única luz em minha vida de trevas.
Me sinto um inútil por não poder ter ajudado mais do que o próprio elfo doméstico, e agora estou sem varinha porque você levou a minha.
Entretanto, Harry, estou feliz porque você está vivo.
Nada é mais odioso do que falhar em proteger aqueles que você ama.
Assinado:
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A próxima era a penúltima, Harry percebeu.
3 de Maio de 1998
Então... é isso.
Você conseguiu. Matou Voldemort. Venceu a guerra.
Harry, eu não tenho palavras para dizer o que sinto agora. Passei o dia chorando, pensando em ontem quando você pulou do colo do gigante e tudo o que eu queria era correr até você, e te contar o alívio que senti, ao vê-lo vivo.
Mais uma vez, você me salvou. Me tirou do fogomaldito na sala precisa, quando não precisava ter feito isso. Quando você me puxou, eu quis dizer... pegue minha mão, minha vida inteira também.
Eu sei que nunca poderemos ficar juntos mas mais uma vez deixo aqui a prova de meu amor.
Se existe um universo paralelo, onde nada disso aconteceu, e eu estou com você e você está comigo, seja lá qual universo for esse: meu coração vive lá.
Eu te amo...
Assinado:
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Harry prendeu a respiração. Ele estava agora, com a última carta em mãos. E ela era extremamente atual, ele percebeu, -desse ano- apenas 1 mês atrás.
9 de Setembro de 2011
Santo Potter,
maldito seja o dia que coloquei meus olhos numa foto sua pela primeira vez.
Desde então minha vida tem sido uma bagunça de sentimentos em relação a essa testa rachada que você tem. Eu costumava pedir minha mãe para me contar histórias a seu respeito e praticamente implorei para enviar uma carta e um presente em seu aniversário de 11 anos.
No entanto, a vida nos separou, primeiramente em grifinória e sonserina, e depois, em tudo.
Eu te odeio, Harry Potter, por me fazer amá-lo mais do que tudo, mesmo depois de todos esses anos.
Eu odeio esses sentimentos, porque meu coração está tão cheio de você que mal posso chamá-lo de meu.
É patético, eu sei, e você vai se casar com a Weasley, ter meia dúzia de ruivos e continuar me odiando pra sempre. Mas não posso evitar.
É você, sempre foi, sempre será.
É você, porque ninguém mais faz sentido.
Eu sei que nunca ficaremos juntos, e por isso, depois de 20 anos, essa será minha última carta.
Eu sinto muito, por tudo que poderíamos ter sido, e não fomos.
Para Harry, o único que já amei.
Assinado:
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Antes que Harry pudesse formar qualquer pensamento coerente a respeito do que tinha acabado de ler, uma nota de papel se materializou entre as cartas, e nela estava escrito: use o feitiço Scriptum Revelio.
Sem nem pensar que poderia ser perigoso usar um feitiço desconhecido, ordenado por um pedaço de papel, ele pegou a varinha e repetiu as palavras.
"Scriptum Revelio."
Ao olhar para os papéis, Harry percebeu que uma assinatura estava aparecendo em todos os traços em branco, de todas as cartas.
Draco Malfoy.
Draco Malfoy.
Draco Malfoy.
•
Não foi muito difícil para Harry conseguir o endereço de Malfoy, apenas uma coruja para o RH do Ministério já bastou, e logo ele aparatou na frente do prédio. Despistou o porteiro, subiu correndo as escadas para não precisar esperar pelo elevador, e quando finalmente estava diante porta da cobertura e prestes a bater, ela se abriu.
Uma mulher loira muito bonita sorriu pra ele, e o deu passagem para entrar.
"Senhor Potter, eu estava mesmo te esperando."
Ele entrou no lugar, extremamente confuso e após ela fechar a porta e o conduzir para a sala, ele se lembrou de que Malfoy era casado, e aquela provavelmente era a esposa dele.
"Aceita chá?"
"Err, eu agradeço senhora Malfoy mas eu acho melhor eu voltar outra hora..." Ele falou já se levantando. "Preciso conversar com seu marido, e não é muito educado esperar por ele aqui com você e-"
"Sente-se senhor Potter, por favor." Ela pediu gentilmente e ele obedeceu. "Eu te enviei as cartas."
Ele deixou o queixo cair em surpresa.
"Como... o que?"
"Draco jamais enviaria. Ele as mantinha trancadas com um feitiço poderoso dentro de um cofre mágico. Levei quase 2 anos para descobrir o segredo da tranca." Ela tomou um gole de seu próprio chá. "Eu amo Draco Malfoy. Muito. Somos como irmãos. E eu não aguentava mais vê-lo infeliz."
Harry piscou confuso.
"Irmãos? Mas vocês não são casados?"
"Ora Potter, você fala como se não soubesse da tradição de casamentos arranjados entre famílias puro-sangue bruxas." Ela sorriu de lado. "Ele sempre foi sincero comigo, e nunca me tocou."
"Então ele..."
"Ele fica nervoso toda vez que vê sua cara porque tem tantos sentimentos escondidos dentro dele, que é capaz de explodir. Ele quase chora sempre que O Profeta Diário publica alguma matéria sobre seu noivado com Ginny Weasley. Ele trabalha no Departamento de Análise de Objetos Mágicos, mas é um escritor." Ela encarou Harry, seu olhar profundo parecia desvendar-lhe a alma. "Ele escreveu essas cartas, e até a terceira, quando criança ele acreditava ter enviado, mas Lucius Malfoy interceptava. A partir da quarta, ele mesmo decidiu escrever como se você pudesse ler, mas nunca enviou nenhuma."
Harry estava chocado. Então Malfoy era mesmo apaixonado por ele.
"Que horas ele... que horas ele estará de volta?"
"Eu vou te dizer, Potter." Astoria o encarou extremamente séria. "Mas se você machucá-lo eu juro que vai se arrepender." Ela esperou ele concordar com a cabeça. "Draco voltará às 19 horas. Irei permitir a sua entrada pela lareira, e então você não correrá o risco de ter a porta batida na sua cara." Ela se levantou e Harry fez o mesmo, ela o acompanhou até a saída. "Ele é... difícil. Tenha paciência." A loira concluiu.
Harry concordou com a cabeça, e já estava indo embora quando se virou.
"Obrigado."
Astoria sorriu.
•
Ao chegar em seu apartamento de novo, Harry viu que Ginny estava na sala com seu malão, e levantou assim que ele entrou. Harry percebeu que em cima da mesa de centro, ainda estavam as últimas cartas que ele tinha recebido e deixado abertas em seu desespero de procurar Draco.
"Luna cancelou o almoço... e eu voltei mais cedo." Ginny disse, sem encara-lo nos olhos. "Eu li as cartas, Harry, você as deixou jogadas aqui em cima e até mesmo eu, cruzo os limites do respeitável as vezes. Minha curiosidade falou mais alto, afinal você nunca me explicou direito o que eram! E agora eu sei porque..." Os olhos dela se encheram de lágrimas.
"Ginny, eu..."
"Não, Harry. Tudo bem, eu entendo." Ela o olhou, séria. "Eu tentei ser a melhor que pude pra você, tentei me mostrar compreensiva mas eu não sou burra. Eu sabia que tinha alguma coisa errada já faz um tempo."
"Me desculpe, você não merecia descobrir assim."
"É verdade." Ela tentou forçar um sorriso. "Mas foi necessário. Eu também errei, deixando de viver meus sonhos pra ficar com você..." Ela estava fazendo referência as Harpias de Holyhead, o time de quadribol que a havia convocado faz alguns anos, mas ela recusou, pois teria que viajar muito e consequentemente ficar longe de Harry. "Não mais." Ginny retirou o anel de noivado e estendeu para ele, que aceitou num reflexo. "Adeus, Harry." Ela pegou o malão foi em direção à lareira, desaparecendo nas chamas verdes após dizer o endereço da Toca.
Harry se sentia péssimo. Ele não a amava, é verdade, mas Ginny era uma boa pessoa e ele havia mentido pra ela. Ele sempre machucava às pessoas que mais o amavam, e estava cansado disso.
•
Draco estava aproveitando uma taça do delicioso vinho Château Cheval Blanc enquanto escutava um Jazz suave e rabiscava alguns desenhos. Astoria tinha dito que ia passar a noite fora, e ele gostava de aproveitar seus momentos a sós para praticar sua arte. Entretanto, ao ouvir o característico som da entrada de flu sendo utilizada, ele empunhou a varinha e foi até a sala, pronto para se defender. A pessoa que viu, no entanto, era a última que ele esperava encontrar em seu apartamento.
"Potter!" Draco gritou, ainda apontando a varinha para a visita surpresa.
"Oi."
"Mas que merda você está fazendo aqui?" Ele perguntou, exasperado.
"Vim te devolver isso." Harry estendeu a mão segurando vários envelopes e Draco empalideceu. Ele abaixou a varinha para pegar os papéis, e começou a tremer levemente.
"Onde... onde conseguiu isso?"
"Eu recebi pelo correio. Tenho recebido, ao longo das últimas semanas."
Draco estava ainda mais pálido, seu lábio tinha perdido a a cor e ele parecia paralisado.
"Eu... eu não... não as enviei..."
"Eu sei que não. Mas você as escreveu."
De repente o loiro recolocou sua máscara de desprezo no rosto.
"Tudo bem Potter, eu escrevi. Está feliz? O que vai fazer ein? Me humilhar? Pra que veio aqui?" Draco estava quase gritando, os braços passados ao redor de si mesmo num gesto inconsciente de proteção.
"Não vim te atacar, Draco. Vim conversar."
"Conversar o que? Você nunca teve interesse em conversar comigo, você me odeia. Que diferença faz essas cartas idiotas?!" Ele jogou as cartas no sofá, com hostilidade.
"Faz toda a diferença." Harry avançou um passo mais pra perto, e o outro deu um passo para trás. "Eu não fazia ideia de como você se sentia."
"E daí Potter? E daí como me sinto? Isso não muda o que você sente!"
"Isso muda tudo..." Harry olhou para o chão. Ele tinha estado pensando muito a respeito disso ultimamente, antes mesmo de receber as últimas cartas. "Eu tenho... tenho pensado a respeito e-"
"Ah! Você pensa? Que surpresa."
"Eu sei que hostilidade é apenas seu modo de defesa."
"Você não sabe nada sobre mim! Não ouse... não ouse falar comigo novamente e, fora! Fora da minha casa!"
"Ou o que?" Harry desafiou, chegando mais perto.
"Vou chamar os aurores!" Draco apontou a varinha para o moreno novamente.
"Eu sou um dos chefes dos aurores. Poderia facilmente mentir e inverter a situação. Dizer que você estava me atacando, mesmo que eu esteja na sua casa e as evidências provem o contrário... você sabe, eles vão acreditar em mim." Ele continuou andando na direção do loiro, que dava passos hesitantes para trás, ainda empunhando a varinha.
"Claro, Potter! Você adoraria isso, não é mesmo? Você adora manipular as pessoas com sua influência! E tudo o que escrevem sobre você nos jornais está carregado de falsa modéstia. Isso é tão... tão..."
"Sonserino da minha parte?" Harry perguntou, terminando de encurralar Draco em uma parede, e colocou os braços ao lado do corpo do loiro, prendendo-o.
"Mais um movimento e você vai levar um estupefaça bem no meio dessa testa rachada."
"Eu não ligo." Harry sussurrou, aproximando seu rosto do outro, a ponta da varinha de Draco, ainda estendida, tocando levemente seu lábio inferior.
"O que você... o que você quer, Potter..."
"Isso." Harry falou, antes de quebrar a pouca distância entre os corpos e unir seus lábios. Draco gemeu em resposta, o braço que segurava a varinha imediatamente a soltando, e passando por trás do pescoço de Harry.
O moreno o empurrou ainda mais contra a parede, pressionando os corpos totalmente: peito, quadris e pernas. O gosto da boca de Draco era forte, por causa do vinho e Harry sugou aquela língua tentando sentir seu sabor cada vez mais e mais. O cheiro de Draco era inebriante, e o toque de sua pele era suave, mas as mãos de dedos longos puxavam seu cabelo com força, e uma das pernas se empurrava para o meio das do moreno, procurando melhor encaixe.
Draco soltou sons de aprovação quando Harry deixou seus lábios para beijar seu pescoço, sugando um ponto sensível.
"Quer conversar sobre isso?" O moreno o perguntou ao pé do ouvido, vendo ele se arrepiar em seus braços.
"Prefiro não falar." Draco tomou a boca do outro em mais um beijo ávido, urgente, desesperado. Ele agarrava Harry como se este fosse desaparecer a qualquer momento, e simplesmente evaporar de seu toque.
Mas Harry era mais real que qualquer coisa ali, e ele podia sentir isso em todos os pontos de seu corpo.
Malfoy desceu as mãos pelo corpo de Harry, desabotoando suas calças com uma velocidade impressionante. Elas se intrometeram além de seu um umbigo, entrando elástico adentro, obrigando-o a conter um gemido quando os dedos habilidosos encontraram a pele quente. Por Merlin, Harry estava duro pra Draco Malfoy. E não era pouco.
Harry gemeu, não conseguindo se conter e segurou o pulso do loiro, puxando a mão para fora de suas calças e em seguida o beijando novamente, empurrando na direção que ele acreditava ser o quarto.
O caminho foi demorado, e deixou um rastro de roupas e sapatos pelo corredor. Malfoy o empurrou na cama, sentando por cima das pernas de Harry, o observando com gula. O moreno sorriu e inverteu as posições. Com Draco abaixo de si, olhou bem para todos os detalhes daquele rosto. As bochechas coradas de excitação, os olhos com a pupila dilatada deixando o tom cinza prateado quase que imperceptível. A franja loira grudada na testa pelo suor.
Draco soltou um gemido longo quando Harry mordiscou seu queixo, a barba morena raspando na pele de seu pescoço, e seus braços de presos pelas pelas mãos do outro.
"Você é mesmo controlador, Potter." Ele disse sarcástico, entre suspiros.
Harry apenas sorriu para Draco em resposta, apertando os dedos ao redor dos pulsos finos e se perguntando por que diabos ele não tinha recebido as malditas cartas antes.
Fim.
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Para todos que chegaram até aqui: obrigada, de coração.
Espero que tenham gostado, e se gostaram, por favor votem e comentem suas opiniões.
Eu também publiquei essa fanfic no meu perfil do Wattpad (Bia_Silveira).
Btw: se você ama esse casal tanto quanto eu, dá uma passadinha no meu perfil pra ler DARE, a minha longfic drarry.
Obrigada por ler e até a próxima!
Assinado:
x_ (bia )
Ps: por enquanto não tenho nenhuma certeza mas, o que vocês achariam de um epílogo?
Ou está bom assim, do jeito que está?
