Nota da autora: Olá, como vai você? Este é o início de uma jornada. Que tamanho ela terá, eu ainda não sei.

Pretendo priorizar o lançamento em português e manter uma rotina de atualização de quinze em quinze dias. Na semana seguinte à estreia de um capítulo original, o mesmo capítulo em inglês estará disponível. Vide que esta história já está disponível no Archive of Our Own há alguns meses, vou iniciar a publicação aqui com os seis capítulos já publicados lá, e sexta que vem é dia de capítulo em português.

Esta história explorará temas incluindo, mas não limitados a depressão e seus sintomas, traumas, ideação suicida e tentativa de suicídio. Sugiro que, caso você seja sensível a esse tipo de tema ou esteja em um período suscetível da vida, evite a leitura.

De forma a auxiliar na escolha ou não da leitura da história, seguem as tags presentes no ao3 até o momento: Pre-OT3, Mystery, Mental Health Issues, Paranormal Investigators, Implied Sexual Content, Angst, Depression, Suicidal Thoughts, Emotional Support, Post-Season 2, Established Trevor/Sypha, Hurt/Comfort, Slow Burn, Friends to Lovers, Mutual Pining, Other Additional Tags to Be Added.

Boa leitura.


O castelo estava em silêncio. Não a quietude habitual, mas calado de propósito. Era uma nuance apenas, enlaçada no saguão de entrada, no laboratório, nos inúmeros quartos, no salão de baile, no porão infindável e em toda a miríade de outros cômodos. Velada; no entanto, estava lá. Aguçado mesmo dormindo, Alucard se revirou de leve no invólucro onde se acomodava, sem abrir os olhos. Não ouvia som além da água no encanamento e da própria respiração. Decidiu ficar de pé, ainda letárgico, e descobriu ter frio. Desceu ao chão flutuando com leveza e deu os primeiros passos descalço no carpete.

Onde estava o maldito paletó? Da última vez que se erguera para uma ronda, ainda era verão, e dispensara o excesso de vestimenta ao se deitar; crendo estar desperto no outono, era o bastante para que se incomodasse com o frio. Encontrou-o pendurado num cabideiro do salão, cheio de pó e com uma traça intrusa ou outra, e perdeu tempo dispensando-as todas com petelecos. Vestiu-o e olhou ao redor. Havia muito a reparar ali, o que via mesmo com as cortinas fechadas e luzes apagadas. Um dia. Subiu a escada do lado direito em direção a uma das torres de observação.


—Então, aqui está.

Sypha ergueu os olhos para a monumental construção, tirando do rosto o cabelo que o vento trazia. Era fim de tarde, e o sol aquecia pouco. Afagou com o dedão a mão de Trevor.

—Não é como se essa geringonça fosse sair do lugar. — Ele deu de ombros. — Por que será?

—Não foi de propósito.

Abaixou-se para beijar a lateral da cabeça dela. Seguiram em frente pelo pavimento, Sypha correndo a mão livre pelo beiral. Ao olhar para baixo, viram o fosso cheio, que, antes disso, talvez tivesse estado igual mais de dez anos antes. Não duvido que foi só a chuva. Trevor riu sozinho.

Vinham a pé desde o início do bosque, onde deixaram os cavalos com um garoto de estábulo. O menino, que não podia ter mais de quinze anos, fizera o sinal da cruz tantas vezes no trajeto que perdera as contas. Trevor inventou qualquer coisa como "caçar mais demônios por ali" para que ele parasse de perguntar se era aquele mesmo o caminho. Infelizmente, com ele, fora embora para a vila mais próxima o luxo de andar a cavalo. Um para ele, um para Sypha; uma raridade ainda maior. Além de tremer como vara verde, o garoto agradecera a eles mais outras mil vezes. Tinha, com certeza, assistido à noite na qual deram cabo de uma incômoda gárgula com fogo, água benta, chicotadas e o que mais conviesse. A recompensa pesava os ombros, e se usada com sabedoria, seria alimento para uma semana.

—E se ele não estiver em casa? - Ela perguntou.

—O tipo dele não é muito afeito a sair sem motivo.

Sypha ergueu a sobrancelha.

—Estou com saudade de ver vocês brigarem…

—Ótimo. Vai ter. E eu sinto falta de uma cama sem pulgas. Por acaso, hoje-

—Não.

—Ah, pelo amor de Deus. Você nem sabe o que vou dizer. - Olhou esperançoso para ela, que devolveu com uma encarada ranzinza. - Por favor.

—Cinco doses e chega. Fique inteligível por um dia, só.

—Mereço. - Trevor ajeitou a sacola com um muxoxo.

—Merecemos. Ou essa única garrafa de vinho que nos deram vai acabar em cinco minutos.

—Deve ter mais lá dentro, pare com isso.

—Deve ter sangue lá dentro, você quer dizer.

—Também. Basta não tomar.

Atravessaram os portais de pedra, e se as ruínas já eram capazes de diminuir a presença humana, o castelo era de ainda mais impacto. As portas se fechavam como se estivessem mortas, e correu por um instante apenas o som do vento.

—Devemos bater? - Indagou Sypha.

—Duvido que ele vá ouvir, numa espelunca desse tamanho.

E as metades se abriram.

—Ouço melhor do que você pensa.

A voz de Alucard ressoou na entrada, vinda do fundo do corredor. As luzes se acendiam à medida que caminhava e projetavam sua longa sombra até os dois. Trevor espichou o olhar para dentro do saguão. Ele deu fim nos cadáveres, ao menos.

—Há quanto tempo. - Ele sorriu de leve, coçando o olho.

Sypha soltou a mão de Trevor para abraçar Alucard, ficando na ponta dos pés. Ei, volte aqui. Nada efusivo, Trevor só o encarou com pouco caso, e assim retribuiu o anfitrião.

—Eu já dormia há meses, e achei que continuaria assim por mais algumas estações.

—Perdão por atrapalhar seu sono de beleza, senhora. - Trevor cruzou os braços.

—Mas é importante saber por que estão aqui. - Alucard retornou a falar. - Não me digam que-

—Não, nada tão sério, na verdade.

—Pode parar de me interromper, por favor? Vamos conversar sentados, longe desse vento frio. Vou mostrar onde há quartos para deixar a bagagem.

—A maior parte, na verdade, é comida. - Sypha tirou dos ombros um dos embrulhos e o estendeu a Alucard, que viu belas verduras frescas.

—Conversemos na cozinha, então, depois dos quartos. Faremos bem em ficar perto do fogo.

Quem diria que sou um convidado neste lugar. Trevor deu as mãos a Sypha de novo, e caminhavam os três lado a lado. Pelos corredores, ela perguntou:

—Se, de acordo com a lenda, é preciso convidar um vampiro para que ele entre numa casa humana, o contrário também é válido?

—É bom que seja, não acha? - Alucard riu. - Podem ficar aqui. Há um tanto de pó, mas cuido disso num instante.

Abriu a porta para revelar um confortável aposento de hóspedes, há muito não usado. Havia nele uma penteadeira, criado-mudo, armário, baú e cama de casal, tudo de fina madeira e bom gosto. Notou a sutileza da cama e não protestou. Deixaram a pouca bagagem dentro do baú; consistia de uma troca de roupa mais fresca, cantil e utensílios. No meio da ida e vinda de lençóis, tecidos e um espanador que não notara de início, Trevor aproveitou para sacar a garrafa de vinho dos pertences e posicioná-la de forma estratégica. Em cinco minutos de telecinese e uma mão dos outros dois, Alucard declarou habitável o lugar e os encaminhou à cozinha.

—A não ser que queiram descansar - Terminava de posicionar um travesseiro. - Estou às ordens.

—Voto pela comida. - Sypha ergueu a mão. - Posso cuidar do fogo?

—Sem dúvida.

—Primeira dose. - Ela interrompeu a movimentação suspeita de Trevor com a garrafa apontando o dedo.

—Dê um tempo. - Baixou a garrafa, depois de um bom gole.

—Nem comemos ainda. Dê um tempo você.

—Há uma adega no castelo. Não há por que se preocupar. - Alucard pôs no lugar o espanador.

—Eu disse. Está vendo.

—Não importa. Primeira dose. - Sypha deu as costas e seguiu Alucard, ignorando a discussão também.

A cozinha se encontrava mais ao fundo do castelo, depois do salão de baile e do salão de jantar; seguia-se um corredor longo e vazio até ela. Os olhos de Sypha brilhavam com as chamas que se acendiam sozinhas, agora que não estavam mais nas catacumbas de Gresit. Trevor a convidou para se acomodar com seu braço sobre os ombros, sorrindo para o outro lado.

—Recomendo que visitemos só a superfície. O subsolo tem instrumentos… Não muito agradáveis. - Instrumentos de cozinhar humanos, você diz, Trevor ergueu a sobrancelha e o deixou continuar. - A parte de cima foi construída especialmente para minha mãe, e, por consequência, para mim.

—Você não come quando acorda? - Questionou Sypha.

—Minha subsistência não depende de muito.

Também levou alguma limpeza e ordem, mas a cozinha voltou a seu esplendor. Sypha se maravilhava com cada objeto e parava de trabalhar com a comida, enquanto Trevor se ocupava de desossar e cortar tudo o que via pela frente, até que lhe doessem os braços. Num descuido de força, a faca lhe acertou o canto do indicador e praguejou.

—O que houve? - Alucard jogou numa panela o monte de cogumelos fatiados e se aproximou.

—Afie este negócio, por favor. - Trevor estendeu-lhe a faca cega e levou o dedo à boca. - Espero que não tenha vindo aqui porque farejou.

—Não. - Buscou a pedra de afiar numa gaveta. - Na verdade, sim.

—Também espero que não queira provar.

—Não. Dessa vez, não mesmo.

Sem dificuldade, Sypha incendiou o forno no chão, que mantinha as chamas sem lenha ou combustível depois de aceso; ela soltou um som de incredulidade ao que viu acontecer.

—Como funciona? É um sigilo? Um circuito? Um feitiço?

—Vou ter que checar os manuais, infelizmente. Não tenho certeza. - Alucard enxugou o suor do rosto. - Aguardamos, agora?

—Esta aqui me parece pronta. - Trevor despejou a última leva de ervas frescas no caldeirão de sopa. - Minha dor de cabeça não me deixa esperar o resto.

Serviram-se de uma porção modesta do caldo com pão e meia taça de vinho, à mesa da própria cozinha. Aquecia as mãos, e o álcool afagava o espírito. Com o fim da tigela, a refeição cheirava cada vez melhor, inclusive os enorme pedaços de cordeiro assado.

—Rápido, assim? - Trevor palitava os dentes.

—As maravilhas da ciência. - Alucard ficou de pé para destampar o forno. - Vão na frente à sala de jantar, eu levo as travessas.

Abriu-se a eles como uma flor o fruto de mais de uma hora de maçante trabalho. O meio-vampiro veio com porcelanas, taças e prataria flutuando com graça e as pousou sobre a superfície de nogueira.

—Bom apetite.

Apesar das inúmeras distrações, Sypha era afiada para contar as taças de Trevor; na quarta, já alardeava que a próxima seria a última. Enquanto pensava em como contornar a situação, a boa comida o inebriava quase do mesmo tanto. Também contava com a sorte de que ela mesma também bebia, coisa que fazia em peso com raridade.

—O que têm feito neste… - Alucard tentou calcular. - Último ano, eu acho?

—Um bocado de coisas. - Trevor coçou a cabeça com a mão limpa. - Mas, em suma, lidar com o resto de criaturas da noite que perambula por aí sem mestre. Há um bocado delas, com fome e muitas presas disponíveis.

—Não posso dizer que não esperava.

—Uma gárgula foi a mais recente. Conhece a vila perto daqui? Sohodol, é como se chama. - Sypha serviu todas as taças. - Última dose, Trevor.

—Não a visitei ainda, se permite a franqueza.

—Talvez devesse. Tem boa cerveja. - Trevor tinha um plano em mente. - Sobre o monstrengo, bem, faz o que faz. Assombra o rebanho, destrói as fazendas, some com um aldeão ou outro. Tinha feito um ninho num rochedo e saía à noite para caçar. O que fizemos?

—Ateamos fogo ao rochedo. - Sypha sorriu.

—A coisa saiu voando e começou a arremessar espinhos! Espinhos para todos os lados. Se não fosse a maior das ventanias, eu seria uma peneira agora mesmo.

—Minha ventania.

—Precisamente.

—Previmos que voaria por cima da cidade, e me catapultei para lá. Já tinha deixado o padre instruído a abençoar a fonte do centro.

—Um estraga-festas e delator de mão cheia desde moleque, lembro bem. - Trevor secou a última gota da taça, como quem nada queria. - Mas a isso, serviu, pelo menos.

—Consigo imaginar o resto. - Alucard ouvira tudo com a mão no queixo. - E, graças a vocês, jantamos bem nesta noite. Saúde.

—Saúde. - Trevor ergueu o copo vazio.

—Vai brindar assim? - Perguntou Alucard.

—Eu ia. - Era mal encarado por Sypha.

—Ainda nem provou da adega. Vai recusar?

—Não.

Sypha revirou os olhos e se deu por vencida:

—Mais duas, então.

Alucard serviu todas as taças. Até a cor e consistência do vinho eram outras. Trevor observou surpreso contra a luz do castiçal ao centro. Um gole foi o bastante para uma face encantada. Em vez de secar a taça como era de costume, tomou-a devagar, entre as últimas frutas do jantar.

—Por isso, insisti. - Alucard sorriu.


Sypha abriu os olhos. O braço estava dormente, e a cabeça, zonza. Ergueu-se da cadeira com cuidado, apoiando-se na mesa, e só então reparou o peso da coberta sobre os ombros. Apesar da tontura, estava desperta, sem dor e era seu melhor sono em semanas de estábulos, celeiros e da terra batida. A exceção fora o dia depois da caça à gárgula, numa cama de taverna barata, pequena demais para ela e Trevor. Olhou ao redor, notando por pouco uma silhueta em frente ao vitral. Alucard virou o rosto, sorrindo irônico:

—Bom dia.

—Que horas são? - Ela bocejou.

—Duas, talvez. - Ele se aproximou, e Sypha notou os cabelos presos com um adorno em forma de palito.

Ela empurrou a cadeira de volta ao lugar e viu sobre a mesa a vastidão do jantar intocado. Alucard carregava uma taça de vinho, mas não comia.

—Trevor está no quarto. Ele raptou a garrafa de vinho e a levou. Diga que contei, por favor.

—É sempre assim. - Sypha deu de ombros. - Digo, não todos os dias. Mas quase.

Ele fechou os olhos, como que envolto numa tranquila alegria, e os abriu de novo depois de um suspiro. Esticou a mão para outra taça; apenas a dele estava cheia e não havia sinal de garrafa.

—Aceita? - Estendeu o próprio copo. - Ainda não toquei.

Sypha abriu a boca para dizer que sim, e depois que não, mas não teve tempo. Alucard despejou metade em outra qualquer largada à mesa. Melhor. Por fim, aceitou.

—Pretende dormir agora?

—Acho que não. - Ela coçou a cabeça.

—Há uma sala de estar mais quente e sem tanto eco. Tem meu convite.

Seguiu-o até lá, um espaçoso local de reunião. Três vitrais em forma de meio octógono exibiam a eventual lua crescente por detrás das nuvens e as tochas revelavam a infinidade de entretenimento. Uma prateleira abarrotada sugeria que a pilha de livros no chão estivera, outrora, em uma paralela. Uma mesa pequena, cercada de duas poltronas, tinha desenhado em marchetaria um tabuleiro de xadrez, com as requintadas peças cobertas de poeira e distribuídas num xeque. Um mapa da Valáquia se estendia sobre uma mesa de cartografia e, na mesa central, uma maquete em proporção do próprio castelo era feita apenas de um cuidadoso jogo de luzes que nunca se apagava.

—O que quiser ver primeiro. - Alucard estendeu a mão para a sala.

—Vou deixar que escolha.

—Aos feitiços, então.

Alterada como ainda estava, Sypha não se concentrou na leitura, então passou os olhos nos volumes de magia elemental, separando-os para depois.

—Posso copiar alguns mais tarde?

—Sem problemas. Mas eu sugeriria que ficasse com os que mais interessam.

—Não, não precisa. - Ela gaguejou. - Não demoro tanto a escrever.

—Não levará tempo algum. Veja.

Alucard se levantou e fez sinal para que acompanhasse. No canto da sala, ao que ele pôs a mão, a mesa cartográfica se acendeu em luzes arroxeadas. Tirou o mapa e o enrolou, deixou-o na gaveta e posicionou o livro aberto do lado esquerdo. Fez uma breve conferência na última página e pegou um volume em branco da prateleira, colocando-o do lado oposto. As folhas começaram a se virar sozinhas, uma a uma, e imprimir o conteúdo no novo livro. Sypha se deslumbrava.

—Não sabe o quanto agradeço.

—Sei que fará bom uso. - Ele terminou a taça de vinho.

Enquanto o material se copiava, aproveitaram o tempo com o xadrez. Nenhum dos dois era excepcional, mas foi o bastante. Sypha recordava os dias de descanso na estrada e o único tabuleiro rústico que circulava entre os Oradores; vencera um bocado dos torneios, valendo prêmios simbólicos como uma maçã a mais ou a última coxa do pato assado. Durante a melhor de três, ela captou Alucard sorrindo sem razão. Jogava com os pais. O coração dela se apertou. Eu também.

—Onde aprendeu essa defesa? - Ele perguntou, depois de perder o embate.

—Um livro de nível avançado, num dia de nada para fazer. - Sypha coçou a cabeça e espichou os olhos à outra mesa. - Acho que a cópia terminou.

—Ao próximo, então.

As horas se passaram como minutos enquanto deixaram o jogo de lado e vasculharam os livros restantes. Falaram sobre tudo e Sypha não só aproveitou imensamente a amostra de biblioteca na sala como observou Alucard. Ele não mudara de fato, não era tempo o bastante para tanto. Mas havia algo com ele… Não sabia apontar com certeza. A forma como se portava, como se visse algo que não estava ali. Às vezes, chamava e ele demorava a sair de seu próprio mundo para respondê-la. Nada tinha do olhar atento e compenetrado que conhecera antes. Talvez seja só o momento. Ela bocejou sem tampar a boca e os olhos embaçaram.

—Perdão.

—A viagem deve ter sido exaustiva. - Alucard fechou um livro no colo. - Não se prenda a ficar aqui.

—Não vai se recolher também?

—Não acha que já dormi demais? - Ele riu. - Descanse. Amanhã há mais horas. Vou levá-la ao quarto.

Deixou-a no início do corredor. Sypha abriu a porta e caminhou na ponta dos pés até a cama. Preservar o sono de Trevor era impossível, então não se preocupava tanto com fazer barulho quanto com o volume do som. Aconchegou-se nele, que abriu meio olho para vê-la.

—Essa é a melhor cama em que já deitei. - A voz era de sono, rouca e profunda. - Decisão acertada virmos para cá.

—Tendo a concordar, mas você é que não queria vir.

—Ó, Senhor, arrependo-me de todos os erros cometidos nesta vida, perdoai-me, este pobre pecador.

—Durma, por favor. - Começou a beijar-lhe o rosto, e ele fez um barulho de satisfação.

—Até quero.

—Mas…?

Trevor a abraçou pela cintura e a puxou para cima do corpo, levantando-lhe o queixo com a outra mão.

—Quero aproveitar você um pouco mais.

—É bom concordar. - Ela riu.


Sypha esticou a mão para apalpar a cama e sentiu falta de Trevor nela. Espantando o sono, levantou-se e o encontrou ao vento, contemplando o dia sem sol à beira da grande janela. Abraçou-o pelas costas e riram. Ele se soltou com delicadeza do abraço para inverter a ordem e a pôs na frente.

—Dormiu bem? - Trevor sussurrou-lhe ao ouvido.

—Como um anjo.

Ouviu-o rir e o fez pelo mesmo motivo. Respirou fundo o ar frio da manhã. Algumas gotas de chuva caíam no beiral, e fecharam os vitrais para continuar ali. Houve batidas à porta; Trevor a cobriu com o edredom como uma capa que carregava nos ombros, as roupas de ambos fora do lugar. Sypha respondeu que entrasse, e Alucard o fez. Notou os cabelos dele ainda presos.

—Bom-dia. Não quis despertá-los cedo. - Passou para dentro. - Acompanhariam uma refeição leve?

—Na mosca. Estou meio sem fome de ontem. - Respondeu Trevor.

—Vou trazer, então.

Esperaram se comportando na medida do possível; nenhuma peça de roupa foi para o chão. Alucard retornou com a bandeja flutuando acima da mão, um resto de sopa com pão amanhecido e frutas para três. Trevor abriu a boca para protestar quando viu chegarem também três canecas de vinho aquecido com especiarias.

—Às vezes, fico realmente feliz de não ter te transformado em sapatos.

—Ótimo. Pena que envenenei seu copo. - Alucard o olhou por cima da tigela de sopa, sentando-se na cadeira da penteadeira.

—Morro feliz, com este vinho maravilhoso.

Sypha se afundou com um som descrente aos travesseiros apoiados na cabeceira e continuou comendo em silêncio. Terminaram sem demora, e Trevor começou a se coçar em desespero até ficar com o pescoço vermelho..

—Você me envenenou mesmo?

—Não. Dá má-sorte matar os convidados fora de combate franco.

—Então sou só eu precisando de um banho. Com esse tempo, a água fria das vilas por aí não me inspirou muito. - Trevor se arrepiou.

—Fique à vontade para pular no fosso. Não vou aquecer aquela água toda, no entanto. - Alucard começava a descascar uma noz. - Enfim. Teriam algum pudor caso eu-

—Vergonha? De você? - Interrompeu Trevor. - Debaixo de Gresit, não era eu quem estava sem camisa.

—Se me deixasse falar uma vez sequer, saberia que estou me propondo a aquecer a maldita banheira. É uma relíquia, e é coletiva. Eis a questão. - Jogou a noz na boca e mastigou. - Posso conseguir roupas que não há problema molhar.

—Quero as roupas. - Sypha sentiu o rosto se aquecer.

—E você? - Alucard apontou Trevor, que o ignorou.

O anfitrião os levou para fora do quarto em direção a outros espaços privativos da casa. Olhou de um canto a outro por um momento e os guiou a outro lado.

—O quarto onde estão não deve ter roupas, mas este tem. - Abriu o armário, revelando finas camisas para um garoto jovem. - Devem servir, Sypha. Já as suas…

—Vou entrar com minhas roupas de baixo. - Trevor deu de ombros, distraído.

—Nem pense em empestear a banheira com esse trapo sujo. Eu me recuso a entrar na mesma água.

—Espera, quem disse que você vai entrar?

—Por que eu os emprestaria roupas se fossem entrar a sós? - Alucard revirou os olhos e atirou um par de grandes calções velhos em Trevor. - Posso deixá-los irem primeiro, caso eu seja um empecilho.

—Ah, que seja, entre. - Trevor começou a desatar o cordão da camisa. - Não vou deixar que isso estrague o momento.


O salão que se abriu depois das grossas portas era recoberto de uma pedra esverdeada e escorregadia. Uma escada descendia e, ao centro, desabrochava uma banheira em forma de flor de cinco pétalas arredondadas, com luzes nas laterais. O ambiente escuro era convidativo ao momento, mas cada gota ecoava, e, para relaxar de fato, se fazia silêncio. Havia uma queda d'água em uma parede, e Alucard os instruiu a entrar debaixo dela antes de qualquer coisa.

Sypha teve o cuidado de escolher uma camisa opaca, que pesava o triplo ao ser molhada. Passou boa parte do tempo compenetrada em lavar os cabelos de Trevor com o sofisticado sabão, nada parecido com as barras ensebadas e malcheirosas que usara antes. Ele soltava um som satisfeito ou outro, de olhos fechados e com um leve sorriso. A água, também, era quente e assim permanecia; uma bênção naquele clima que só esfriaria dali em diante. Ela própria já estava limpa, e, depois de enxaguar a cabeça de Trevor, se sentou ao lado no banco de pedra. Ele a abraçou sem mais se mover. Alucard era o mais taciturno: se sentara do lado oposto e nem mencionara conversar. Nem ele, nem Trevor vestiam além de um calção até os joelhos.

—Nunca tinha visto algo do tipo. - Ela tentou manter baixo o tom de voz, mas fez com que os outros dois despertassem. - Digo, na literatura, sim, os banhos públicos, mas…

—É uma relíquia, eu disse. - Alucard alongou o pescoço. - Foi nos dada antes de eu nascer por um servo de meu pai, vindo da China, um presente de agradecimento.

—Agradecimento pelo quê? - Perguntou Trevor.

—Foi tudo o que ele me disse à época. Esqueci-me de perguntar mais depois.

Trevor se espreguiçou e puxou Sypha mais um pouco, mudando de assunto:

—Tudo o que faltava agora era uma-

—Garrafa de vinho. - Alucard o interrompeu. - Que eu não vou permitir que derrube na água.

—Sabe que eu não faria uma coisa dessas.

—O velho conto do bêbado que cai, mas não derruba o copo?

—Exato. Por sorte, bebi antes. - Trevor se acomodou melhor no banco e mudou de assunto. - Contamos uma odisseia, mas você ainda não nos disse o que fez enquanto estivemos fora.

—Talvez porque não há muito o que contar. - Alucard deu de ombros. - Eu dormi, na maior parte. O mais marcante foi ir à biblioteca uma vez ou duas.

—Ah, foi?

—Sim. Fui por motivo nenhum. Foi interessante topar com algumas coisas suas.

Sypha sentiu o braço que a segurava ficar tenso. Trevor perguntou:

—Coisas?

—Um desenho ou outro. Páginas de diário. O tipo de coisa que se faz quando criança. Eu também-

—Espero que não esteja brincando.

—Sei o que são limites. - Alucard o olhou com reprovação.

Sypha passou o resto do banho de mão dada a Trevor, e todos eles sem conversar. Voltaram ao quarto; tiraram as roupas encharcadas e vestiram as novas, também empréstimos. Tentou puxá-lo para a cama com sutileza, mas ele preferiu secar a garrafa observando o horizonte que se apagava.

—Acho que não foi por mal. - Consolou quando achou que fosse momento.

—Não acho nada. - Findou o vinho e soltou a garrafa ao fosso. - Nada.

Ouviram batidas à porta mais perto da noite, quando ela já deixava de lado mudar aquele mau humor. Alucard entrou sem pedir, com cara de zero arrependimentos e algo em mãos.

—Achei. - Sentou-se à mesma cadeira de outrora e estendeu o objeto a Trevor. - Também fiz o favor de encadernar.

Trevor pegou o livro, mais como um bloco de papel com capa sem nome, e o abriu com cuidado. A primeira folha era de curvas e nomes; um rascunho de árvore genealógica até um século antes que nascesse. Seguiram-se cenários da mansão Belmont, a árvore de infância, um rosto ou outro. Virava as páginas, descobrindo-as pela segunda vez.

—Não sabia que desenhava assim. - Sypha o beijou no rosto.

—Faz tempo que não toco um pedaço de carvão. - Não tirava os olhos do encadernado. - Você achou todos.

—Obrigado por espalhá-los por toda a biblioteca. - Alucard esticou os pés sobre a cama, de braços cruzados. - Fiquei acordado mais de uma semana atrás de todos os livros iniciados em "T".

Sypha viu um canto de sorriso cruzar o rosto de Trevor. Ele fechou o bloco e agradeceu. Agora, as desculpas. Nunca vieram. Deixa pra lá.


—Quando acha que conversamos com ele?

Ventava frio do lado de fora, mas colados um ao outro, era um masoquismo aceitável. A janela se abria para a queda livre até o fosso, e se podia ver pouco do céu encoberto. Trevor a puxou para mais perto, mais do que sabia que era possível, mas o tanto que gostava. Respondeu:

—Não sei. Mas logo. Não podemos ficar para sempre.

—O que é uma pena. - Sypha suspirou. - Há bibliotecas fascinantes aqui. É preciso uma eternidade para ler tudo.

—O dono original de uma delas meio que tinha uma eternidade.

—Errado não está.

—É, não é? - Virou-a para um beijo, e virada ela permaneceu.

—Você acha que ele vem?

—Se você pedir, com certeza.

—Você teria mais poder de convencimento se vocês dois não agissem como pirralhos.

—Estou falando do seu charme, querida. - Trevor sorriu, malicioso, e a mão alcançou-lhe a cintura. - Devia se olhar no espelho.

—Pare de bobagem. Não vou fazer uma coisa dess-

—Shh, estou brincando.

O beijo foi mais a fundo, mais demorado e mais entregue. Quando se soltaram, a respiração se condensava no ar da noite. Trevor tirou os olhos dela e os pôs no beiral da janela:

—Se você se sentar aqui…

—Nem em sonho. Há muitos metros até lá embaixo.

—De janela fechada.

—Mesmo assim.

—Eu vou te segurar. - Fez voz de piedade.

—Colchão. - Ela apontou. - Agora.


Sypha dormia de leve. Mal conseguia vê-la com as luzes apagadas, mas acariciou seus contornos por cima da roupa mal vestida, e ouviu um agradável barulho de conforto. Linda. Esticou a mão para o criado-mudo e constatou que o jarro d'água estava sem uma gota. Teve que se virar e, no movimento, a cabeça doeu. A boca estava seca como nunca. Maldito vinho delicioso. Sussurrou de leve que buscaria água, o que ela respondeu com algo como um "tudo bem" abafado nos travesseiros. Deixou-a com um beijo no rosto e teve que se desgarrar da cama quente. Ao que acendeu a lamparina e foi fechando a porta, teve tempo de ver Sypha puxar as cobertas sobre si.

Certo, agora, a cozinha. Um corredor depois do outro, uma escada depois da outra, salões e tapetes e se descobriu andando em círculos. Saco de lugar. Tentou ir na direção oposta. Se tudo der errado, vou tomar água do banheiro. Virando uma esquina, começou a achar os arredores familiares. Havia estilhaços de madeira no chão e riscos nas paredes. Redobrou o cuidado para caminhar, como se algo o espreitasse ali. Viu um rombo na parede e as tochas já acesas. Sei onde estou. Do lado de dentro do aposento, ouviu a voz em bom tom:

—Quem está aí?

Não respondeu. Não sabia se dava um passo para frente ou para trás.

—É você, não é, Trevor?

Entrou através da ruptura e descobriu o quarto de infância de Alucard, com ele próprio dentro. Não estava com a cara mais convidativa.

—O que quer?

—Água. - Gaguejou. - Vinho. Dor de cabeça. Sabe como é.

Alucard baixou a cabeça e suspirou, passando as costas da mão no rosto com discrição. Murmurou que o seguisse, e assim fez Trevor, calado.

Chegaram à cozinha e muita água se bebeu ali. Encheu o jarro e o tampou, cuidando-se para não fazer barulho. Alucard se sentou à mesa e o observava com desinteresse, por vezes olhando para as paredes.

—Não conte a Sypha. - Parecia que falava sozinho. - Ou conte. Não importa.

—Ela não precisa saber.

Trevor achou de bom-tom se sentar e o fez do lado oposto.

—Há quanto tempo não vinha à fortaleza? - Alucard perguntou de forma desconexa.

—Com vocês, claro, foi a última vez. Mas antes? Não sei quanto tempo faz. - Revirou as memórias. - Talvez eu tivesse doze anos quando fui embora.

—Nunca perguntei quantos anos tem, mas suponho que faz mais de uma década.

Não me preocupo muito em contar os dias.

—Deve ser.

—Muita coisa deve ter acontecido. - Por que se importa? Trevor quis interrompê-lo, mas o deixou falar. - O que fez para viver?

—Todo tipo de coisa. - Coçou a cabeça.

—Seja específico.

Começou a enumerar nos dedos, buscando as lembranças.

—Limpei estábulos. Amarrei feno. Consertei telhados. Colhi hortaliças. Tirei água do poço. Cortei lenha. Armei barracas de feira.

—Furtou a tal barraca?

Trevor sentiu de leve o insulto.

—Foi raro. Eu era novo e estava com fome.

—Não quis insinuar nada. - Alucard sorriu um sorriso pálido. - Também fugiu e se escondeu?

—O que acha?

—Treinou em segredo?

—Pode apostar que sim.

O que digo agora? "Adeus, vou para o quarto, fique aí chorando sozinho" não é uma boa opção. Tomou mais um gole de água, saudoso do vinho, mas com mais sede que vontade de álcool. Levou a mão aonde ficariam a espada e o chicote. Ele deve estar me esperando ir embora.

—Eu ia perguntar por que voltaram, mas não creio que é uma boa hora.

—Também não é uma hora ruim. - Trevor deu de ombros.

—Prefiro que não precise haver o papel de pombo-correio. Espere Sypha acordar. - Alucard ficou de pé com as mãos sobre a mesa. - Duvido que tenham ficado com saudade.

—Eu? Não.

—Não contei com isso.

Trevor também se ergueu, levando a preciosa água, e ficou calado.

—Vou levá-lo de volta ao quarto. - Alucard olhou por cima do ombro e fez gesto de que fosse atrás. - Vá. Está frio para dormir só.