ALERTA DE CONTEÚDO, POR FAVOR LEIAM: a partir deste capítulo, e principalmente nele, a história começa a ficar mais séria em relação às questões de saúde mental, incluindo sintomas de depressão e ideação suicida. Lembrando que, no fim da Idade Média para o início do Renascimento, não existiam terapeutas nem muitos outros tipos de tratamento, e essa é uma questão central também. Se você for suscetível ou estiver em um período suscetível a esse tipo de coisa, recomendo fortemente que não leia.
A guarda da cidade removeu os corpos ainda pela manhã. Os três foram à frente, indicando as marcações no caminho, e era muito mais fácil achar as lâminas espetadas, que refletiam o pouco de luz do sol. Trevor ouvia a conversa de Sypha e Alucard sobre destilar álcool a partir de vinho, mas não se meteu, por mais que gostasse de palpitar em poções de arremesso. Já tinha os atualizado do acontecido na prisão, e a notícia não foi recebida com muito choque. Talvez porque não tenham visto o que eu vi. Deu um suspiro. Ploiesti? A cidade era outrora grande e próspera. Como estaria depois da horda de criaturas da noite? O morto repentinamente letrado cutucava sua intuição.
—Está tudo bem? - Sypha segurou seu braço.
—Na medida do possível. - Sorriu.
Ela nada mais disse, mas não o soltou. Faz tão pouco tempo, e você já me conhece tão bem.
Ao que o bosque tinha fim e começava a clareira, Carlo os aguardava, recebendo e dando ordens de um lado para outro. Um grupo de curiosos do povo começava a se formar, que ele dispensava com alguma educação e sem sucesso. Quando os viu, deu uma olhada intrigada para ele e Sypha.
—Não sabemos como fizeram isso, mas também não sabemos como agradecer. - Carlo disse ao se aproximarem. - As famílias terão o corpo a velar, ao menos.
—O escrivão não tinha família, certo? - Trevor ergueu a sobrancelha.
—Certo. Ele tinha idade para ser meu pai, e achavam que estava caducando. Era meio imprevisível. Nunca quis se casar. Por vezes, nem ia trabalhar, e, por outras vezes, se trancava por três dias no escritório.
Então, o chumbo e a beladona o estavam consumindo há muito tempo. Sypha pediu licença, e Trevor esticou o olhar para vê-la ir falar com Isobel na multidão que se formava.
—Carlo, há mais algo que eu deva saber?
—Sobre os dois da floresta, ou sobre a cela? - Ele cruzou os braços.
—As duas coisas.
Carlo olhou para cima, depois para baixo, e respondeu:
—As máscaras eram de chumbo, você disse? A prefeitura bem que deu falta de algum encanamento.
—Seria melhor que se livrassem dos canos todos, na verdade. Não creio que queiram acabar como o escrivão.
—Mas foi o chumbo, mesmo? - Carlo coçou a cabeça.
—Não só. Eles andavam ingerindo beladona, e foi como acabaram se matando. Agora, dizer de onde é que ficaram loucos…
—Bom, vai ser uma pena. - Carlo deu de ombros. - Vou falar com o prefeito. Duvido um pouco que ele queira trocar as torneiras por pegar água do poço.
—E sobre o preso, senhor?
—Depois da ajuda que deu à cidade, você é meu senhor. - Gracejou. - O preso fez inimigos porque falava dormindo, de fato. Mas nenhum deles confessou matá-lo, e não acho que estão mentindo. O vigia teria dado falta da chave.
—E morreu estrangulado?
—Ao que parece. O pescoço está péssimo, e gastou a pele dos dedos escrevendo na parede, sabe Deus como. Era analfabeto como eu.
Trevor suspirou de cansaço e agradeceu:
—É hora de irmos. Fique em paz.
—Sohodol é que agradece. São bem-vindos aqui. - Carlo se aproximou e sussurrou, dando-lhe um tapinha no ombro coberto pela capa. - Belmont ou não.
Isobel se sentava à beira da cama e Sypha ocupava a cadeira. Arrancou páginas em branco do diário surrupiado e tinha pedido à menina um pedaço de carvão. Traçou de forma grosseira o alfabeto em ordem, tão bem quanto podia com um improviso daqueles. Passaram o resto da manhã ali, sujando as mãos e repetindo letras, corrigindo e refazendo. Isobel era tão afiada quanto parecia. Não demorou com as vogais, e estava bem nas consoantes para um primeiro dia.
—Mas não conte a ninguém. Promete? - Sypha estendeu o dedo mínimo.
—Prometo. - Isobel retribuiu e laçaram os dedos. - Vou poder ensinar meus filhos?
—Vai.
—E Izidor?
—Se ela aprender, talvez.
—Ela entende o que digo. - Isobel cruzou as pernas sobre a cama. - Só não fala.
—Quem sabe, não seja uma forma de ela falar? - Sypha sorriu.
—É verdade.
A porta se abriu e Alucard entrou no quarto mastigando e com um pedaço grande de pão.
—O que estão fazendo? - Passou os olhos pela mesa. - Que boa ideia. Estão se divertindo?
—Muito, senhor.
—Vai ter que estudar bastante sozinha. - Sypha entregou as folhas a ela. - Agora, vá. Não quero que leve um sermão por minha causa.
Ficaram de pé, e Sypha deu um abraço em Isobel, que disse:
—Até outra vez, senhora.
Outra vez, é? Sypha suspirou. Não sei. A garota se foi sem olhar para trás. Alucard começou a recolher os poucos pertences da viagem curta e Sypha se uniu para ajudar. Desceram as escadas para encontrar Trevor mais ou menos a postos, bebendo em pé perto da porta com o olhar distante.
—Já está pago. - Trevor findou a caneca.
—Como, se o dinheiro está conosco? - Alucard ergueu a sobrancelha.
—Discutam com ela ali. - Trevor apontou para a taberneira, que limpava o balcão. - Se querem gastar mais do que a taxa do armazém, vão em frente.
—Que improvável. - Sypha cochichou. - Porque resgatei Izidor?
—Deve ser. - Trevor deixou a caneca numa mesa e abriu a porta, indicando que os outros saíssem primeiro.
De passagem, quase no portão de Sohodol que os levaria à trilha para a Fortaleza, ouviram gritos de "senhor" numa voz de menino. O garoto do estábulo correu até os três, e, ofegante, começou a falar:
—Que bom que os encontrei, senhor. - Dirigia-se a Trevor. - O patrão disse que levasse os senhores, se for perto aonde vão.
—A parada é a mesma da outra vez. Longe, não é.
—Ah… Bom. - O garoto engoliu em seco. - Vou atrelar os cavalos. Os senhores aguardam? Ou têm pressa?
—Temos pressa? - Trevor olhou ao redor. - Não. Mas nos levar, você diz…?
—Por conta da casa, senhor.
Seria dia de sorte? Sypha se sentou à parte de trás da carruagem, olhando para o céu fechado vez ou outra enquanto o veículo atravessava a trilha entre as fazendas e a do bosque. Trevor deitou-se em seu colo, e ela afagou-lhe o cabelo por todo o trajeto. Ele quis pouca conversa quando ela mencionou a ideia de irem ao laboratório mais tarde, mas ela teve certeza de vê-lo sorrir. Alucard é que era o maior enigma: sentara-se ao lado do jovem cocheiro, muito para desconforto do garoto. O povo não entende. Ela devaneava longe. Um dia, entenderá, talvez.
—Aqui, nesta parte. "Chegada parceiro, ordens superiores". - Sypha virou o livro para que Alucard o visse. - É mais legível e mais coerente do que muita coisa aqui.
—O chumbo ainda não tinha intoxicado demais, creio eu. - Ele coçou o queixo.
—Ou a beladona. E "ordens superiores"?
Todos se calaram. Ocupavam a confortável sala de reuniões, cada um em uma poltrona diferente. Trevor se deitava inteiro, e os outros dois se sentavam apenas. Sypha continuou a ler:
—"Ordens de melhoria e compreensão. Transcendência." Alguém os dava ordens, isso é óbvio.
—E eles provavelmente queriam agradar a essa pessoa. - Constatou Trevor. - Não é muito difícil colocar coisas na mente de pessoas como eles, creio.
—E "transcendência"? Transcender para quê? - Perguntou ela.
—Para se tornar alguma coisa? - Alucard especulou. - Enfim, se me permitem o exagero, ontem foi um longo dia e pretendo me dar ao luxo de outro banho. Com licença.
Ele se levantou e se retirou para dentro da imensidão do castelo. Não sei se ele fala a verdade, mas de qualquer forma… Trevor apreciou quando não precisou chamar Sypha para se juntar a ele no sofá, tão deitada quanto o próprio.
—Não tem muito espaço aqui. - Ela comentou.
—Quanto mais perto melhor, não acha?
Sypha riu quando foi virada, puxada e beijada. As mãos, pouco a pouco, ficavam mais à vontade. Trevor sussurrou:
—Como faz falta ficarmos a sós.
—Faz, não faz? - Ela foi para o lado de cima. - Mas não é melhor irmos para o quarto?
—Esse lugar é enorme. Quem vai nos ver?
—Quem? - Ela ergueu a sobrancelha.
—Não me importo. - Apertou-lhe as costas e desceu mais a mão.
—Eu me importo um pouco.
—Se é só um pouco… - Trevor sorriu.
Sypha balançou a cabeça em negação e o beijou de novo.
Os passos no corredor fizeram com que voltassem a usar o sofá para o que ele foi feito. Mais de uma hora, talvez, se fora enquanto Alucard não voltara. Ainda bem. Sypha tentou pentear o próprio cabelo com as mãos, mas não viu Trevor ter um décimo de preocupação com as faces vermelhas e as roupas amassadas.
—Já são seis horas. Estão convidados a jantar. - Alucard apontou o interior do castelo com a mão aberta. - A fazer o jantar comigo, na verdade, se tiverem urgência.
—Ah, temos, sim. - Trevor ficou de pé e o seguiu.
—Sei bem o que o senhor quer. - Sypha o cutucou nas costelas.
—Comida, o que mais? - Ele se encolheu de cócegas.
—E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará… - Alucard disse, sem olhar para trás.
—Ei, qual é, sem Bíblia aqui. - Protestou Trevor.
O jantar da noite foi módico: usaram as verduras menos duradouras e a carne fresca. Temos que guardar para a estrada. Tudo ficou pronto quando já escurecera, e comeram à luz de velas e tochas na enorme mesa de jantar. Na segunda caneca de vinho quente, Trevor trocou um olhar com Sypha antes de tocar no assunto:
—Quanto a Ploiesti. - Ele começou, com aparente falta de vontade. - Deveríamos ver o que há por lá.
—É uma viagem de quantos dias? - Sypha perguntou. - Seis, sete?
—Sete, com a estrada ruim, o que eu acho que vai estar se o tempo continuar desse jeito.
—É uma boa próxima parada. - Sypha olhou para o próprio copo pela metade, esfriando, e se serviu de mais vinho. - Eu tenho me perguntado o quanto a morte dos ocultistas tem a ver com a do ladrão.
—"Nada" é o meu chute. Foram muito diferentes. A depender do que achamos na casa, não tinham poder para fazer uma coisa daquelas. - Trevor terminou de roer um osso de frango e o atirou ao prato vazio.
—Ainda mais estando mortos há um dia ou dois. - Sypha pôs a mão no queixo. - A não ser que um deles tenha voltado do além para se vingar pela invasão.
—A Ploiesti, então. - Trevor ergueu o copo para brindarem.
—Façam boa viagem. - Alucard, que até então estava calado, levantou a caneca.
A conversa silenciou. Os outros dois o olharam. Sypha tomou coragem:
—Como assim?
—Já conversamos sobre isso.
—Por que não vem conosco? - Ela perguntou.
Antes que ele pudesse responder, Trevor se intrometeu:
—Realmente, já tivemos essa conversa.
—Exatamente, eu me lembro de ter sido bem claro. Fiquem o tempo que quiserem ou que for necessário, eu aprecio e agradeço a visita, mas não sairei daqui.
—Você sabe que viemos até aqui por sua causa. - Trevor ficou de pé.
—E eu estou lhes dando tudo o que posso oferecer.
—Já pensou em, não sei, oferecer mais um par de mãos? - Trevor elevou a voz. - O mundo não está seguro lá fora, devia dar uma olhada.
—Confio que sejam capazes de lidar com o que quer que seja.
—Não viemos aqui para implorar.
—Então não implorem. - Alucard deu de ombros.
Sypha apertou as mãos sobre a mesa.
—Você saberia a dimensão das coisas se saísse um pouco mais desse lugar. - Trevor tinha desdém na voz.
—Creio que sou mais necessário aqui, como eu disse um ano atrás. Não tenho obrigação de sair.
—Então prefere rondar essa casa gigantesca e vazia, de madrugada, chorando sozinho pelos cantos? Pois fique à vontade.
Quê? Sypha perguntou:
—Do que ele está falando?
—Eu… - Alucard demorou a completar. - Não esperava isso de você, Trevor.
—E eu não esperava de você o que está fazendo conosco. Magnífico, não? Ficar aqui lamentando o que passou. O que está esperando? Que aconteça pior daqui uns anos, para sair dessa caverna e dizer "olá, vim consertar a bagunça que eu poderia ter ajudado a evitar"? - Trevor se exaltava mais a cada frase. - Fique aqui, então, esconda-se como o seu tipo faz, e, quem sabe um dia, prometo que vou caçar você.
Trevor soltou um longo suspiro e deu as costas, direcionando-se para a saída da sala de jantar, os passos ecoando no ambiente.
—Por favor, Trevor. - Sypha se forçou a reagir. - Você sabe o que aconteceu. Nada disso era necessário-
—Não era? Eu estou literalmente em cima dos restos do meu lar. Eu preciso de mais argumentos? - Ninguém respondeu. - Todos nós aqui não temos alguma coisa. Mas nem todos nós estamos fugindo do que temos que fazer.
Ele se virou outra vez para ir embora. Deixe que vá. Sypha baixou a cabeça e suspirou. Vai ser pior se eu for atrás. Quando levantou o rosto para olhar Alucard, que se sentava do lado oposto da mesa, foi que o viu saltar por cima do que havia em sua frente, em direção a Trevor.
Pego de surpresa, Trevor caiu ao chão e teve tempo de proteger o rosto. Jogou a cabeça para o lado para desviar de um soco, mas Alucard o segurava firme demais contra o piso de madeira para se desequilibrar com o empurrão que deu, então retribuiu com uma cabeçada, puxando o outro com as duas mãos no colarinho. Sypha olhava de um para outro e sentiu que tremia, mas firmou as mãos e disparou uma rajada de vento contra ambos; Trevor, que tinha conseguido rolar para o lado de cima, foi atirado à parede.
—Chega! - Ela gritou. - Antes que façam mais alguma idiotice.
As mãos voltaram a tremer, e baixou-as. Lágrimas começaram a brotar, e teve que respirar fundo para impedir a si mesma. Trevor se ergueu, apoiando-se à parede na qual colidira. Ele cambaleou antes de recuperar o equilíbrio e voltou a ir ao corredor. Olhou para Alucard, ainda no chão, e para ela por um instante, girou na direção oposta e se foi sem nada dizer.
—Quero discordar de Trevor. - Ela confessou, como se falasse sozinha. - Não consigo.
Sypha caminhou até Alucard e estendeu a mão a ele quando viu que se levantava; ele recusou. Não a encarou, preferindo qualquer outro lado, passou a mão na própria testa atingida para limpar sangue que não era dele. Não respondeu.
—Eu sabia que você não estava bem. - Olhou para ele com reprovação. - Mas isso é-
—Você deveria ter interferido.
—Eu acabei de evitar que vocês dois se matassem.
—Deveria ter dito alguma coisa. - Ele negou com a cabeça, fechou os olhos e suspirou. - Deveria-
—Você não está no direito de dizer a ninguém o que fazer, Alucard.
Ele deixou cair a mão, que antes pressionava o local da pancada e se calou.
—O que há com você? - Sypha perguntou num sussurro.
—Você sabe o que houve comigo.
—Não acho que seja só isso.
Alucard, enfim, olhou para ela, que encontrou no pouco que podia ver dele leve surpresa. É uma construção incrível, mas não é um lugar feito para muita luz, exatamente. Sypha perguntou:
—Para que lado é aquela sala de reuniões?
—Por que quer ir até lá a uma hora dessas?
—Estivemos lá bem mais tarde do que isso.
Ele deu de ombros e se encaminhou na frente.
De todos os dois sofás e duas poltronas nos quais Alucard poderia ter se sentado, escolheu aquele no qual Trevor se esparramava mais cedo, e depois, ela também. Sypha sentiu as bochechas se aquecerem. Será que é de propósito? Sentou-se ao lado.
—Se queria se sentar, a mesa estava logo atrás de nós. - Alucard apontou para trás com o dedão. - Por que mudar de ares?
—Por que não? - Ela ergueu a sobrancelha.
Ele não respondeu e voltou a se calar.
—Conte sobre o ano que passou aqui. - Sypha pediu.
—Como eu disse, eu dormi, mais do que qualquer coisa.
—E o que mais, além disso?
—Eu… - Ele olhava para as próprias mãos, com os cotovelos apoiados nos joelhos. - Acordei algumas vezes, caminhei pelo castelo. Desci à biblioteca dos Belmont, mas já falei disso antes.
—E por que não passou o tempo todo dormindo, como quando encontramos você?
—Eu estava ferido da outra vez. Precisava dormir. Precisava me recuperar.
—E agora, não precisa?
—Não há sono no mundo que vá remendar.
Eu sei. Sypha passou-lhe o braço pelos ombros e deixou que falasse.
—Além disso, é como se… É como se meu sono não fosse mais o mesmo. Quando acordo, não tenho energia. Como se tivesse corrido de ponta a ponta da Valáquia e parado para cochilar. Minha cabeça também dói. Agora, ao menos, há motivo. - Ele sorriu sarcástico em direção ao chão. - Demorava semanas para pegar no sono outra vez, e continuava ouvindo o vento, a chuva, as trovoadas lá fora. Eu conseguia ignorar antes, mas não agora.
—Você sonha quando dorme?
—Às vezes. Quando menos espero, é um pesadelo. Não costumava ter tantos.
—Consegue se lembrar de como foi o último?
—Lembro quando foi. O tema é… Recorrente.
Ela suspirou e apertou-lhe o ombro com delicadeza.
—Eu vou até lá às vezes. Era disso que Trevor estava falando. - Alucard fechou os olhos. - Até o lugar com o qual sonho.
—Por que faz isso?
—Não sei. - A voz dele se embargou. - Para me fazer sofrer, eu acho.
O coração de Sypha se apertou. Ela repetiu:
—Por quê?
—Porque há dias em que eu… - Caiu a primeira lágrima. - Em que eu não queria estar aqui.
—Então venha conosco.
—Eu não queria estar vivo.
Sypha se levantou e ficou frente a frente com ele, de joelhos no chão, com as duas mãos em seus braços.
—Queria estar morto e queimado, queria ser uma pilha de cinzas, até que não restasse nada, nenhum rastro meu. - Soluçou. - E há uma eternidade pela frente.
Alucard chorava sem fim, e ela o abraçou. Ele retribuiu com as mãos fracas, trêmulas, agarrando-se à camisa que ele a emprestara. Ver você assim… Sypha também deixou rolar uma lágrima. Só se soltaram quando Alucard voltou a respirar.
—Sabe. - Ela sussurrou. - Não vou dizer que conheço sua dor. Não seria verdade. Mas eu… Eu também não tenho meus pais.
—O que houve com eles?
—É comum entre o meu povo. Foram confundidos com ladrões e assassinos. Um pai não deveria enterrar o filho, mas foi o que meu avô fez. - Ela engoliu em seco, tentando evitar o próprio choro. - Sinto falta deles todos os dias.
—Sinto muito.
—Obrigada. - Limpou o rosto. - Ainda tenho meu avô, e os Oradores são uma família. Mas uma pessoa não substitui a outra, não é?
Aproveitou a manga longa da blusa para enxugar a face de Alucard também, e, ainda ajoelhada ao chão, segurou a mão dele. Como no dia em que dissemos adeus.
—Estou aqui porque Trevor me salvou nas catacumbas. Você está aqui porque o encontramos lá. Ele está aqui por nossa causa, do contrário, seria um bêbado sem rumo, sabe deus onde. E nós estamos aqui por sua causa. Entende?
É tudo o que temos. Não disse o que pensava; não quis ser pessimista. Continuou:
—Precisamos de você. Não morra ainda.
Ele apertou sua mão mais forte e suspirou, olhando-a como se ela tivesse respostas.
—Quero dar uma volta. - Sypha ficou de pé. - Aonde podemos ir?
—Trevor está te esperando.
—Ele me vê o tempo todo. E deve estar num humor terrível. - Ela riu de desgosto. - Tinha falado em me levar ao laboratório, não?
—Tem certeza de que é uma boa hora?
—Tenho. Vamos, mostre para que lado é.
Chegaram até o laboratório depois de uma miríade de escadas e corredores. Que labirinto. Alucard acendeu as luzes, muito mais fortes do que as do resto da casa. Depois de acostumar os olhos, Sypha notou o vazio do cômodo.
—Onde estão as coisas?
—Houve uma briga muito pior por aqui. - Alucard revirava as gavetas. - Ainda restam artigos de interesse, no entanto. Tenho um experimento em mente. Já viu ouro falso?
—Já vi ouro-de-tolo, se é do que está falando.
—Não, é muito mais bonito. - Ele sorriu, para lá e para cá do lugar, angariando peças. - Se fosse você no meu lugar, deveria usar equipamentos de proteção. Mas digamos que sou imune a um bocado de coisas nocivas.
Alucard montou a estrutura necessária de vidrarias com uma chama acesa embaixo de uma delas. Mostrou a Sypha dois recipientes tampados:
—Isto é nitrato de chumbo, e isto é iodeto de potássio. Na água quente… - Ele mediu a quantidade correta de cada um com uma balança. - …Vão causar uma reação.
Nem precisaria fazer nada para essa visita ser incrível. Alucard despejou as substâncias em pó na água e esperaram que a solução esfriasse devagar. Pontos dourados de brilho surgiram, caindo como chuva.
—E este é o composto com o qual pintaram as máscaras.
—Magnífico. - Sypha esqueceu a boca aberta.
—Não é? Enganou um bocado de alquimistas, e creio que ainda engana. - Apagou a chama e suspirou. - Trevor teria apreciado a visita, eu acho.
—Teria. Os livros de química para principiantes, lá embaixo na Fortaleza, são dele.
—E eu o impedi, sendo um idiota.
Sypha se aproximou e o segurou com delicadeza no braço:
—Com o humor que ele está, é melhor que fique sozinho.
—Não tenho medo dele.
—Não quero que tenha. Só quero que não se desentendam. - Pegou o frasco de reagente. - E não acho que tenha acabado desse negócio. Sempre pode fazer o experimento de novo.
—Posso.
—É bom te ver sorrir outra vez. - Soltou-o.
Já faz um ano. Esperou não estar com o rosto vermelho. Um ano que você não percebeu.
—E é bom ter alguém que me ouça. - Alucard diminuiu as luzes da bancada. - Mesmo que seja um elogio repetido.
Sypha sentiu que engolia um espinho, e desejou que ele descesse rápido pela garganta:
—Obrigada. Já deve ser hora de eu ir.
—Consegue se encontrar pela casa? - Ele se dirigiu à porta.
—Não, na verdade.
—Então, vou com você.
O caminho de volta pareceu um tanto quanto mais curto que o de ida. Mas é assim que sempre se parece a volta. Quando começou a reconhecer os arredores, perguntou:
—Vai se recolher agora?
—Não. Tenho que organizar as coisas no laboratório. - Olhou para baixo. - Não sei se pedir desculpas adianta.
—É um bom começo. Boa noite, então?
—Boa noite.
Sypha abriu a porta e se aconchegou na cama. Debaixo dos lençóis quentes, tirou a blusa e abraçou Trevor, que retribuiu com um som agradável.
—Você demorou. - Ele lamentou.
—Já está melhor? - Beijou-lhe a nuca.
—Não.
—Está machucado?
—Não muito. - Trevor girou o corpo para segurá-la de frente. - Você ainda acha que eu exagerei?
—Acho. Mas também acho que está certo.
—Se viesse me culpar pela briga, eu iria dormir no sofá. - Ele suspirou pesado. - E sobre Ploiesti?
—Vamos ver como as coisas progridem amanhã. Também não quero ir sem ele.
—Sinceramente? Depois de hoje, pensei em deixar para lá.
—É, eu sei bem. - Inclinou-se para beijar a testa dele e foi recebida com um resmungo de dor. - Perdão.
Calaram-se por um instante, até Trevor puxar assunto:
—Precisamos de um plano caso dê errado.
—Não há muito como ter um plano. - Ela deu de ombros. - Vamos ao mundo lá fora ver o que está acontecendo, eu e você.
—Como antes?
—Como antes. - Sypha olhou para baixo. - Você não acha que estamos insistindo demais?
—Insistindo em quê?
—Tentando a todo custo que ele venha conosco. Talvez estejamos fazendo mais mal do que bem.
—Hã, não, eu não acho. - Ele ergueu a sobrancelha. - Não acho mesmo.
—Não sei, eu tenho minhas dúvidas.
—Dúvida de quê? - Trevor levantou a voz, alto o bastante no silêncio do quarto. - Se eu tivesse matado meu pai na minha casa, não iria querer ficar em casa. Há certas coisas das quais precisamos de distância.
—Eu não tenho casa, ou do que correr. Não vou saber como é.
Bom, talvez eu tenha do que correr. Fechou os olhos antes que a memória a atormentasse. Com o tempo, o cansaço os tomou, e adormeceram sem mais falar.
Alucard não tinha sono. Cada passo que dava pela casa era um eco enviado a um canto distante de um corredor enorme, e saberia que não veria muito ali além de um fantasma ou dois. Os mortos não eram boas companhias. Não sabia aonde ir, mas tinha lugares onde não queria estar, disso estava certo. Os pés o levaram à porta da torre de observação. Mal não fará. Subiu a escada em espiral.
Da janela aberta, olhou para baixo. Havia entre ele e o chão uma imensidão. Pôs a cabeça para fora, com as mãos apoiadas no beiral, e depois os ombros. O vento batia forte e uma garoa, que logo se transformou em chuva pesada, o atingia. O que acontece se… Inclinou-se mais. Não muita coisa, não é? Voltou para dentro da sala e fechou a janela. O frio do corpo molhado o incomodava o bastante para ir atrás do paletó de novo. Desceu e vagou mais até o salão que escolhera para dormir.
Podia ver as portas do castelo dali e recuperou a peça de roupa de um cabideiro. Olhou longamente para o invólucro do qual tinha se erguido poucos dias antes. Dormir parece uma boa opção. Mas não aqui. Não queria ser acordado; não queria ser sequer encontrado. Vou ter que pensar melhor. O corpo começou a cobrar os últimos dias, e encontrou-se na sala de estar onde tinham passado a tarde.
O velho diário se atirava sobre uma mesa. Abriu-o para ler, sentado a uma poltrona qualquer. Não fazia sentido, muito menos naquela hora. Páginas e mais páginas falavam de testes, hipóteses surreais, conjecturas loucas daqueles homens desconhecidos e entorpecidos pela droga que era a beladona. Alucard começou a murmurar as palavras do caderno sem compreender aquilo que elas diziam. Será que não sou tão insano quanto eles? Riu de si mesmo. Sou uma tragédia. É isso que sou. Uma tragédia sem fim.
—Acorde de uma vez.
O sofá onde Alucard pegou no sono virou de repente e ele foi ao chão.
—Ai. - Tinha batido a cabeça no piso. - Que história é essa?
Ficou de pé e, ainda de olhar embaçado, ouviu Trevor resmungar na sala:
—Achei que tivesse o sono mais atento.
—Se me acordar dessa forma mais uma vez, vou voltar a te bater.
Depois penso em pedir desculpas. De fato, há tempos não dormia tão pesado. Tirou o cabelo do rosto e coçou o olho, piscando algumas vezes até começar a enxergar com clareza, em um dos poucos cômodos do castelo no qual a luz do sol entrava com liberdade, quando ela existia no céu; era um dia cinzento, mas iluminado o bastante para incomodar quem estava dormindo.
—Pois pode ter certeza de que vai apanhar. - Trevor deu-lhe um tapa leve no ombro. - Veja aqui na frente.
—Menos, seu insuportável. É cedo demais para bravatear na minha sala.
Fez como foi dito e viu à mesa de centro o café da manhã mais fino que a despensa permitia. Havia chá servido em finas porcelanas orientais, que nem sabia onde ficavam guardadas, um improviso de pão com mel feito numa panela, um punhado de bolachas de aveia salgadas que encontraram em Sohodol, o resto do vinho quente, água fresca, a conserva de frutas que ele mesmo comprara, um pote de nata salgada e um salame em fatias. Alucard não teve palavras.
—A ideia foi dela. - Trevor apontou para Sypha. - Eu teria deixado você com fome.
—Vamos nos despedir em grande estilo, ao menos. - Ela sorriu, e era visível que se esforçava para tanto.
Sentaram-se todos. Alucard o fazia em silêncio, ouvindo a conversa, notando os detalhes. Onde estava o mapa? Como estaria a estrada? Era comida o bastante? Já tinham contado os trocados? Engoliu em seco. A comida rareava na mesa, e os outros dois começaram a perambular pela sala, com um bocado de bagagem a pôr em ordem.
—O que acha de sairmos depois do meio-dia e pararmos em-
—Vou com vocês.
Sypha parou o que dizia, e ela e Trevor o encararam com espanto.
—Perdão? - Trevor perguntou.
—Vou com vocês a Ploiesti. Não garanto nada depois, mas agora, vou.
Não responderam. Alucard continuou:
—Eu ainda posso ir. - Deu uma pausa. - Não posso?
Antes que tivesse qualquer reação, Sypha pulou nele e o abraçou, enquanto Trevor os olhava com desconfiança. Quando ela o soltou, Trevor ajudou que se erguessem do sofá; ele passou o braço ao redor dos ombros da companheira e segurou um ombro de Alucard com a mão restante, confirmando:
—Feito, então. Se mudar de ideia, vou retribuir a gentileza de ontem.
—Ah, vai, sim. - Alucard sorriu, sarcástico.
