O dono da estalagem deu uma última espiada nos cavalos às portas que davam para a estrada, naquela manhã em que o cinza se repetia. Já montavam e a carga estava toda em seu lugar. O velho se aproximou, com a mão na lateral do pescoço do cavalo, e puxou assunto com Trevor:

—Está lembrado?

—Sim, senhor? - Olhou para baixo.

—Então, repita.

—Deixar os cavalos no estábulo da entrada norte… Com o senhor de bigode loiro.

—E o que mais, rapaz?

—Também pode atender a mulher que fala para dentro, ou o filho magricela. - Trevor coçou a cabeça.

—E…?

—Não tirar os cavalos da estrada.

—Muito bom, muito bom. - O velho riu. - Pois não é porque não tenho um olho, que não tenho ouvidos. Eu tenho, sim, ouvidos por toda parte. É bom fazer o que digo, ou não vai ser bonito.

—Eu imagino, senhor. - Também riu e acariciou a crina do cavalo. - Estão mesmo muito bem cuidados.

—Obra do meu menino mais novo. Um capricho, o garoto. Agora, boa viagem, amigos.

Trevor e Sypha despediram-se do velho dando adeus com a mão, e Alucard só olhou para trás com um aceno de cabeça. O quarto dia de viagem se seguiu sem interrupções; no quinto, fez um frio de gelar os ossos, mas a ameaça de chuva não se concretizou. Ao dormir, Trevor olhou longamente para os cavalos e decidiu jogar sobre eles uma das mantas, agarrando-se a Sypha o quanto foi capaz. Na manhã do sexto dia, onde o céu parou de ensaiar e os enviou uma garoa, foi que viram Ploiesti aparecer no horizonte.

Os muros da cidade eram de pedra antiga, e o trânsito nos portões já era mais movimento do que tinham visto em toda Sohodol. Tiveram que se desviar de mais de uma carruagem abarrotada e bando de pedestres antes de conseguirem entrar. Os dois que andavam a cavalo desceram para esticar as pernas e puxavam os animais com gentileza pelas rédeas. Sypha olhava ao redor e comentou:

—Deve ser uma cidade belíssima no verão. Vejam só essas árvores.

—É mais ainda na primavera, senhora. - Uma voz de garoto surgiu. - Compra uma maçã? Os cavalos gostam.

Procuraram por quem a chamara e encontraram um menino sentado a um banco, debaixo de uma árvore baixa e em frente a uma casa velha, com uma cesta cheia de maçãs no colo e outra no chão. Sypha escolheu um bocado da cesta e acabou por tirar os trocados dos bolsos, comprando cinco maçãs, que ela distribuiu por igual entre humanos e cavalos.

—E o que mais há por aqui? - Ela perguntou ao garoto.

—É a primeira vez que vêm? Vão à Árvore no centro. Ela está alaranjada, é um carvalho, é uma bela vista. Lá se monta o mercado, mas não hoje, que é dia santo. Montam amanhã, se não chover.

O cavalo de Trevor se espichou à vista de maçãs, e ele deu metade da própria fruta ao animal, com um afago no pescoço. Olhou para o céu. Se não chover? Sorriu, irônico. A garoa ainda os atingia. Falou com o vendedor:

—O estábulo é por aqui?

—É, sim, senhor, logo aqui. Virem naquela rua. - Apontou uma via estreita. - Mas talvez não atendam.

—Por quê? - Trevor ergueu a sobrancelha.

—A filha do dono. - O garoto cochichou. - Dizem que está maldita.

Seguiram pela ruela e identificaram o estábulo, num canto com menos movimento. Trevor bateu à porta e quem os atendeu foi o tal senhor de bigode loiro, com um longo suspiro e um ar de cansaço.

—Bom dia, senhores. - Olhou para os animais. - De onde vêm?

—De Sohodol, ao norte, senhor. - De um castelo sinistro lá perto. Trevor riu por dentro. - Ouve-se de Ploiesti até mesmo lá.

—São os cavalos da estalagem, não são? Serão entregues.

Mudou de assunto. A história da filha deve ser verdade. Deram a ele as rédeas, e seguiram o senhor, por mais que ele não tivesse chamado. Ele não vai negar o telhado do estábulo a três viajantes na chuva. Deixaram com ele a taxa pela devolução dos cavalos. O dono os disse um "voltem sempre" sem vontade alguma de que voltassem. Tenho que ser rápido. Vamos, tenha uma ideia.

—Sabe, senhor. - Começou Trevor. - Pode nos fazer um desconto? Tenho experiência no trato. Os outros dois não, mas são fortes e saudáveis, e fazem o que se mandar.

Sypha e Alucard se entreolharam, mas não disseram nada. O dono os mediu com os olhos e suspirou de novo:

—Estou um tanto ocupado hoje. Vamos ver como se sai. Se estiver mentindo, peço que nos deixe em paz.

—Não estou, senhor. Você vai ver.

O resto do dia, até o pôr-do-sol, se passou tomando conta de crinas, cascos, feno, limpeza, água, montes de folhas e goteiras no telhado, sob as instruções de Trevor, que não parava quieto um segundo, e do desanimado senhor. O próprio Trevor, ao fim do expediente, se atirou ao chão, recostado a uma pilastra, com um copo de água para o qual desejava ter poderes de profeta, comentando:

—Pode-se dizer que eu estava com saudade de fazer isso.

—Pois acho que deveria voltar. - O senhor se aproximou por suas costas. - Tem jeito para a lida, rapaz. Onde aprendeu?

—Em casa. Minha família tinha cavalos. Mas perdemos tudo.

—E de onde é que são?

A desculpa demorou um pouco a lhe ocorrer:

—Da Transilvânia, senhor, É difícil que nos conheçam cá por estas bandas.

—Compreendo. - O senhor olhava para um ponto qualquer no espaço e não pareceu notar a mentira. - Estou muito grato por tudo, senhores. Sinto que deveria pagá-los, na verdade.

—Não vou negar uma sopa quente e um pouco de prosa. - Trevor se espreguiçou.

—Entrem, então. Vamos sair dessa garoa.

A casa os surpreendeu com mais espaço do que esperavam, e em pouco se parecia com as moradas apertadas da maioria do povo. A minúscula esposa do dono apareceu caminhando miúdo para ver o que se sucedia, e Trevor ouviu-o pedir em voz baixa que servisse a comida. Ao que a sopa esfriou, saborosa e de bons ingredientes, Alucard perguntou ao dono:

—Que tem se sucedido na cidade, senhor? Muito se ouve lá fora, mas não sabemos o quanto é boato.

—Já estão sabendo, então. A praga que o Diabo nos jogou. - O senhor balançou a cabeça. - Obra do demônio. Só pode ser.

—Por que diz isso, senhor? - Continuou Alucard.

O homem levou um tempo até respondê-lo:

—Nossa… Nossa menina. - Ele suspirou. - Ela ronda a casa durante o sono. Acordada, não sai do quarto. Diz que alguém está atrás dela. Vigiamos a casa, eu e meu filho, que está em Bucareste. Não há ninguém. Ela está…

Louca? Trevor levou a mão ao queixo e arriscou:

—Não acha que aconteceu algo com ela? Algo que ela não tenha contado.

—Nada. É uma boa filha. Não sai sem aviso, nunca nos ergue a voz, vai à igreja conosco.

—Ela não fez algo fora do comum nos últimos tempos? - Questionou Trevor.

O senhor pensou por um instante:

—Há uma trupe itinerante na cidade. Mas também fomos ver, a família toda, e estamos… Estamos bem, o resto de nós.

—Quando se apresentam de novo? - Alucard deixou a tigela na mesa. - Disseram-nos que hoje é dia santo, então…

—Hoje mesmo, se não houver chuva, na Árvore.

A esposa do dono do estábulo ouvia a conversa da porta que levava ao resto da casa e se aproximou pelas costas do marido, sussurrando:

—Vou ver como está Katrina.

O senhor respondeu com um aceno de cabeça e voltou a olhar para a mesa:

—Sirvam-se de mais, por favor. Se assim desejarem.

Ao que Trevor ficou de pé e deu um passo em direção ao fogão, ouviram um grito. Vinha de outra parte da casa e se seguiu da voz mansa da esposa do senhor. Houve mais desespero e o som de coisas atiradas à parede. Os quatro ficaram em silêncio até que cessasse a comoção, Trevor sentindo um gelo na espinha. Encheu a vasilha calado e voltou a se sentar, a mesa em clima de luto.

—Senhor. - Alucard chamou. - Pode parecer estranho o que vou lhe dizer, mas nós três viajamos para cuidar de situações como essa.

Quê? Trevor quase se engasgou com a sopa. Olhou de relance para Sypha, que estava com a mesma cara. Quem é você e o que fez com o cara do começo da semana? Nenhum dos dois ousou interromper. O senhor encarava Alucard com algo entre a desesperança e o julgamento. Não se pode culpá-lo. Alucard continuou:

—O mundo deu muitas reviravoltas desde os ataques do inexplicável, e acredito que podemos ajudar com sua filha.

Inexplicável, uma ova. Trevor se calou, e o senhor disse:

—Espero que não esteja mentindo, rapaz.

—Não estou. Não estamos. Passaremos a semana na cidade e vamos descobrir o que é a maldição. - Alucard respirou fundo. - Sabe onde podemos nos hospedar?

—Há boas tavernas na Árvore. Sigam ao centro e vão encontrar.

—Muito grato, senhor. - Levantou-se e chamou Trevor e Sypha. - Vamos, antes que fique tarde. Que Deus olhe por essa casa.

Trevor engoliu o risinho ao ouvi-lo falar de religião. Mas, bom, foi uma boa pedida.


A Árvore era um frondoso e velho carvalho, com a copa alaranjada da estação. As folhas e frutos cobriam boa parte da praça, e uma forte chuva acompanhada de uma ventania faziam questão de derrubar mais deles. Pena que está caindo um dilúvio. Adoraria me sentar embaixo dela e ler. Sypha corria na frente, de capuz na cabeça, até aportarem numa taverna de boa aparência. Abriram a porta fazendo com que uma torrente de água entrasse no estabelecimento, muito para o susto de clientes e atendentes. Uma mulher mais velha do que os três, com um bebê de peito no colo, aproximou-se para perguntar se queriam quartos.

—Estamos com um desocupado, mas a cama é para um casal. Sempre se pode pôr palha no chão, caso queiram.

—Há problema? - Sypha olhou para os outros dois, que não responderam, ocupados espremendo as roupas. - Acho que tudo bem, senhora.

—Vou pedir a chave ao meu marido. Deixem só ele acabar de atender ali.

O bebê começou a resmungar, e a mulher o embalava. Sypha elogiou:

—É uma criança linda. Como se chama?

—Obrigada, senhorita. Ainda não escolhemos. Pensei em dar o meu nome, que é Alizia, mas também é o nome da minha mãe… - Ela gesticulou para um homem do outro lado do salão, que se aproximou. - Querido, pegue a chave do quarto que resta. Os três aqui vão ficar com ele.

—Três? - Ele coçou a cabeça. - Bom… Certo. Só um minuto, senhores.

Subiram as escadas, o homem apareceu com a chave e com um rolo de palha debaixo de um dos braços. Ajeitou a cama improvisada no chão enquanto perguntou com cordialidade de onde tinham vindo e o que faziam na cidade. Trevor desconversou falando de um problema com uma herança e pediu uma bebida.

—Posso trazer água ao quarto. - Informou o dono. - Não permitimos cerveja no andar de cima, senhor.

—Que seja. Não sou de recusar.

Ele e Sypha se jogaram na cama ao que o homem saiu, e Alucard parecia pensativo se devia fazê-lo ou ocupar o monte de palha, sobre o qual terminou por escolher, desistindo logo depois e se sentando na ponta do colchão. O dono da taverna voltou com um jarro d'água e os deixou, então, a sós. Após um momento de preguiça, Sypha se ergueu da cama, começando:

—Pois bem. Do que acham que se trata a maldição, se podemos chamar assim? Não me parece uma doença.

—Não parece, mesmo. - Concordou Alucard. - Pegue as anotações, por favor.

Ela achou o livro surrado na bagagem, abriu-o na página e releu:

—Vítimas da maldição, datas, causa da morte, circunstâncias, coincidências e relações entre elas. - Sentou-se de novo. - Até agora, sabemos do ladrão e de Katrina. Que é algo das últimas semanas, talvez do último mês. Os comportamentos estranhos começam durante o sono, e depois evoluem para a vítima acordada.

—E envolvem paranoia, mania de perseguição, talvez alucinações. - Comentou Alucard.

—Pesadelos? - Trevor perguntou.

—É possível. - Alucard parecia pensativo. - O melhor lugar para averiguar isso pode ser o hospital. Tem de haver um, numa cidade deste tamanho.

—Vamos procurar amanhã. - Sypha pôs a mão em forma de concha na orelha. - Ouçam. Acho que estamos ilhados.

Alucard ficou de pé e abriu a janela para ver a intensidade da chuva. O vento a escancarou e atirou-lhe uma rajada de água no rosto.

—Péssima ideia. - Fechou-a de novo. - Mas você está certa.

—Tenho uma dúvida mais trivial. - Sypha levantou o dedo. - Que hora vamos jantar?

—Fiquem à vontade se quiserem descer. Estou morto. - Trevor se esparramou mais na cama.

—Não se pode beber no andar de cima, mas não disseram nada sobre comer. Trago algo para você. - Ela o afagou na testa.

—Estou morto agora. Mais tarde é outra história.

Só porque trabalhou um monte, hoje vou deixar. Beijou-o no rosto, pegou algumas provisões e desceu as escadas, deixando o quarto destrancado, acompanhada por Alucard.

O salão estava calmo para um fim de tarde de feriado. Deve ser a chuva… Ou o preço daqui. Olhando ao redor, os clientes e o local eram de padrão bem mais alto do que o estabelecimento humilde onde trabalhava Isobel. Os donos se sentavam a um canto em banco altos, com uma grande caixa fechada aos pés, e conversavam em voz baixa. Um atendente bem-vestido passou para perguntar o que queriam.

—O que sugere? - Perguntou Sypha.

—A sidra é uma das coisas que torna a casa famosa, senhora.

—Então veja uma, por favor.

—Duas, na verdade. - Alucard pediu.

Quando os copos chegaram, cada um descobriu o sabor adocicado. Boa para embebedar incautos. Olharam para os donos, ainda no mesmo lugar, e ela questionou:

—O que estão fazendo?

—Também não sei. Vamos aguardar. - Ele tomou um longo gole. - Lugar agradável, este.

—Só não vá passar da conta.

—Não sou assim tão inexperiente com o álcool. Só me falta o hábito.

—Hábito tenho eu de ter que regular a quantidade dos outros. - Ela riu. Perdeu algum tempo observando-o. - Como está hoje?

Alucard demorou a respondê-la, perdido em algum pensamento:

—Meio… Confuso. Eu ia dizer "indeciso", mas não é bem o termo.

—Confuso a respeito de quê?

—É uma confusão que me parece mais de origem interna do que externa. É difícil de entender… E mais ainda de explicar.

—Por que não tenta?

—Tem a ver com o que eu estou fazendo, com o que deveria fazer. Não só neste momento presente, é mais geral. O que eu sou, e o que deveria ser.

Com o canto dos olhos, Sypha notou o homem do casal de donos abrindo a caixa para retirar dela um alaúde e começar a afiná-lo.

—São músicos. - Alucard comentou, com uma sombra de sorriso.

—Agora faz sentido que estejam ali. Devo chamar o adormecido lá em cima?

—Se achar que consegue. - Ele riu.

—Espere aqui.


A pele ardia como fogo. Debatia-se por entre as chamas, correndo e correndo, tentando deixar os corredores para trás. A cada nova curva, eles continuavam, todos iguais, todos infinitos. Alguém gritava por ele. De quem era aquela voz? De uma das irmãs? Da mãe, talvez? O teto desabou diante de si, também incendiando, e por pouco não caiu sobre a cabeça. Ao que olhou para cima, viu o céu estrelado como naquela noite. Não havia mais teto, as paredes eram altas, olhou ao redor e viu uma escada descendente em espiral. Tudo, tudo queimava, até a última bandeira. Deu um passo para trás, tropeçou e foi atirado naquela queda infinita.

Alguém ainda o chamava. Faltava-lhe o ar… Estava chorando? Uma mão se estendeu no escuro e ele estendeu a dele, segurando aquele braço sem corpo. Ficou dependurado entre o abismo da queda e aquela mão de ninguém. Estava tão longe que a Lua não passava de um ponto minúsculo no céu. O braço doía cada vez mais, fraquejava, queria ceder. Outras mãos surgiram e o pegaram por debaixo dos braços, enquanto as paredes desabavam e as pedras incendiadas passavam ao lado como migalhas. Todas as mãos sumiram, e caiu de novo.

—Trevor!

Abriu os olhos. Sypha se debruçava sobre ele, e sentiu uma gota cair no rosto. Respirava pela boca, ofegante, e sentiu a cabeça encharcada de suor. Ela se sentou ao lado e ele ergueu metade do corpo; devagar, pois faltavam-lhe as forças. Sypha o abraçou tão forte que parecia não vê-lo há muito.

—Por um momento… - Ela soluçou. - Achei que fosse a tal maldição. Você não acordava.

Retribuiu o abraço também com lentidão e sentiu o coração desacelerar. Obrigado.

—Não. Foi só mais um daqueles. - Ele inspirou fundo. - Acontece quando você não está comigo.

Apertou-a mais forte e se sentiu lacrimejando. Sypha não disse nada.

—Estou ficando mal acostumado. Ou muito bem-acostumado. - Sorriu.

A sensação do sonho não parecia que passaria tão cedo. É um dos que se carrega depois que se acorda.

—É muito mais difícil quando você não está. - Sussurrou ele.

—Desculpe. - Ela tinha a voz embargada.

—Shh. Deixe disso. Acontece há tempo demais.

Ficaram em silêncio, segurando-se um no outro, até que ele a puxasse para um beijo, que durou o quanto precisou para que despertasse. Perguntou, com os rostos ainda perto:

—Por que subiu aqui?

—Vim chamar você. Vão se apresentar lá embaixo, os donos da taverna. Trouxeram um alaúde.

—Sério?

—Venha ver. - Sypha ficou de pé e o puxou pela mão.

Limparam as faces às pressas e desceram as escadas.

Encontraram Alucard na mesma mesa, com o rosto apoiado na mão. Sypha o chamou:

—Como estão as coisas aqui?

—Não muito movimentadas. Estavam afinando o instrumento.

Trevor viu à mesa um prato com duas douradas coxas de frango e pediu por uma delas; Alucard o olhou feio, mas cedeu, e se sentaram. A taverna, que já estava escura por causa do mau tempo, já dava boas-vindas à noite, e a dona se levantou para acender as tochas na lareira. Ela caminhava pelo lugar com um longo vestido esvoaçante e uma trança lateral. Não é roupa que se vê qualquer um do povo usar. Olhou de relance para Sypha e tentou imaginá-la nesse tipo de traje. Sorriu de lado. Não parece que combina muito.

Quando a mulher, enfim, se sentou de volta ao banco, todo o salão se calou. O alaúde começou lento como um lamúrio, e a voz da mulher veio igual, seguindo assim por duas estrofes, até explodir num refrão cheio de saudade e pesar. A dupla continuou a brincar com as emoções da plateia, a ponto de que até os solteiros não deviam se sentir assim. A canção seguinte foi uma animada balada que se costumava dançar, e se sucederam outras de bom humor, de trabalho, de amor não correspondido, dor, perda e paixão. O público, acompanhando a maioria do concerto, ocupava pouco mais da metade das mesas, e os funcionários circulavam enlouquecidos ainda assim. Trevor perdeu rápido a conta das canecas de sidra, e nenhum dos outros dois na mesa implicou com ele, ambos fazendo o mesmo. Quanto mais canecas, mais alto queria cantar. Sypha soltava a voz bastante bem, e Alucard apenas sussurrava alguns versos.

Ao que aparentaram encerrar a apresentação, a mulher do casal anunciou:

—Aos convidados, para a última da noite. Alguém?

Só se ouvia o murmúrio da conversa que retornava, e ninguém se apresentou. Os dois se entreolharam, e o dono da taverna apontou com a mão livre, segurando o alaúde com a outra:

—Ele ali, querida. Estava cantando a plenos pulmões. Gostaria de vir?

Trevor demorou um pouco para notar que era com ele que estavam falando. Perguntou:

—É comigo?

—Sim, senhor. - O homem respondeu.

—Se for, não vou sozinho. - Ficou de pé.

Alucard abriu a boca para protestar pela vergonha quando Trevor puxou Sypha pela mão.

—Vem comigo? - Perguntou a ela.

—Se você for, eu vou. - Gaguejou.

A plateia vibrou de leve. Caminharam até o ponto onde ficavam os bancos da apresentação. O dono da taverna questionou se conheciam algum dueto, de canção em canção, até chegar a uma que todos os três saberiam executar, uma divertida peça de rivais que era sucesso em qualquer lugar. Trevor começou seu lado da melodia e Sypha o seguiu, cada um cumprindo sua parte dos desafios que a música propunha da forma como o estado de embriaguez os permitia. Na nota mais aguda da canção, se surpreenderam e a todos não desafinando, o que gerou uma ovação antecipada. Interagiam rodeando e se encarando, dando as mãos e se afastando, Sypha evitando um tropeço ou outro e Trevor muito acostumado a estar daquele jeito. Ao que terminaram, foram recebidos com palmas e rodadas pagas de bebidas. Sentaram-se à mesa outra vez enquanto os donos guardavam o alaúde. Para uma cidade amaldiçoada, eu bem que gosto deste lugar.


A chuva não parava de castigar o telhado e a janela, o vento a carregando na direção do quarto onde estavam. Trevor e Sypha atiraram os próprios corpos à cama, sem se preocuparem em acender luzes. Devem estar exaustos. Alucard se sentou à cadeira, endireitando as costas e o pescoço doloridos do dia de trabalho.

—Que coisa, não? - Trevor falava meio sozinho, meio para os outros dois. - Veja só como começamos a semana e onde viemos parar.

—Bela voz a de vocês. Eu não imaginava. - Alucard elogiou.

—Grato. Belo silêncio o seu, mas esse, eu já conhecia.

—Acho que prefiro você calado, então. - Riu, sarcástico.

Deixou-os em paz e voltou-se para a mesa. Passou um tempo olhando para o tampo, escutando o som da chuva, até se decidir por acender uma vela. Não vou atrapalhar muito. Suspirou e buscou o diário na bagagem. Naquela mesma mesa, talvez tivessem aberto livros, mapas e documentos. Mas é tudo o que tenho. Deu-se um intervalo para começar a comer a maçã comprada pela manhã. Molhou a pena e começou.

"Estou de volta a estas páginas privadas. Ouço a chuva lá fora, e mais nada. É como se eu fosse o único ser desperto da terra, ou, talvez, o último ser vivo. Desejável? Invejável? Não sei. Acho que não.

Faz mais ou menos uma semana que não estamos mais no castelo. Cinco desses dias se passaram inteiros na estrada, que foi tranquila, e, portanto, pouco relevante. Na verdade, o perdão, e também o pedido de perdão, de Trevor foram relevantes, mas não posso perder o hábito. Fui rude com ele, que não merecia sequer um de meus socos. Estou me aproximando do álcool, com a bênção dele, e tem sido proveitoso. Consigo entendê-lo nesse aspecto agora. É fácil de conseguir e pode ser muito barato; em dose baixa, é um raio de luz no dia. Contudo, pode tornar tolo, violento ou inútil até o melhor dos homens, e é aí que mora o perigo. Trevor, creio, tem sorte.

Hoje foi um bom dia para mim, apesar das más circunstâncias. Ficamos sabendo de uma jovem acometida pela maldição de Ploiesti, de nome Katrina, filha do dono do estábulo onde deixamos os cavalos alugados. São animais fascinantes, mesmo que os que utilizamos não fossem da melhor raça; com certeza, eram do melhor trato. Não chegamos, no entanto, a ver a garota. Apenas nos contaram dela, e ouvimos seus gritos. Ela é o tesouro dos pais. Estão em pânico. Farei o impossível para que não padeça de uma morte miserável durante o sono, amedrontada e indefesa do que quer que a persiga. Conhecendo meus companheiros como conheço, pensam como eu.

Entre outras coisas, houve a performance de Trevor e Sypha. Convidados a cantar com os donos da taverna, o que não sei se foi uma honra ou apenas uma estratégia bem pensada, foi revigorante não estar caminhando ou resolvendo problemas, por um instante que fosse. Também foi bom vê-los se divertindo, mesmo que pegos de surpresa.

Por mais cansativo que seja estar na estrada, sempre sobra tempo em algum momento, como agora, em que não tenho sono. Da última vez que considerei escrever e não tive inspiração, prometi a Sypha que mostraria a ela o que tenho anotado aqui, mas não o fiz. Quando estava prestes a abordar o assunto, no entanto, não tive mais chance. Certas coincidências são…"

Olhou para trás. Sypha estava sentada na cama. Ouvira-a se mover; só não achou que acordaria. Ela perguntou:

—Sem sono também?

—Também.

Só se ouvia a chuva por um momento.

—Estou atrapalhando? - Ela bocejou.

—Não. Sempre é uma boa hora.

Ficou de pé, com a maçã em mãos, comendo-a sem pressa. Quando a terminou, convidou:

—Eu gostaria de ir ver a chuva cair do vitral que há neste andar. Quer vir? - Sorriu. - Entendo, caso não queira.

—Vou, sim. Claro.

Ele a viu chamar Trevor com leveza e avisar que sairia. Ele respondeu algo como "tudo bem". Por que ela se incomodou com isso? Ele estava dormindo como uma pedra. Sypha se levantou enrolada em um dos cobertores e saiu pela porta que ele abriu.

Pisaram macio pelo corredor para evitar ressoar nos outros cômodos. Fazia mais frio do lado de fora do que dentro do quarto. No salão lá embaixo, as luzes já se apagavam e os clientes tinham dado seu jeito de irem embora debaixo do temporal que caía no exterior.

—Eis o clima da Valáquia em toda sua glória.

—Sinto saudade de um pouco de sol. - Ela virou a cabeça para olhá-lo. - Não está com frio?

—Não.

—Sei.

Sypha chegou mais perto do vitral transparente e incolor, em formato de flor de seis pétalas, e pousou nele a mão; o vidro se embaçou ao toque. Ela olhou para ambos os lados, só para ter certeza, e acendeu uma chama com a outra mão.

—Pronto. - Tirou a mão do vitral. - Agora, enxergamos.

—E nos aquecemos um pouco.

O silêncio os cobriu por um tempo.

—Espere, você só veio mesmo ver a chuva cair? - Ela ergueu a sobrancelha.

—Sim. Digo, não. - Riu, como se estivesse mais leve. - Quero conversar também, mas vemos a chuva, apenas, caso não queira.

Ela também riu, mas bem baixo:

—Não precisa de rodeios desse tanto. Quer falar sobre a maldição?

—Prefiro acreditar que é um dia santo, ou seja, não trabalhamos.

—E trabalhamos, inclusive, a tarde inteira. - Ela deu de ombros. - Está cansado?

—Não. - Suspirou. - Apenas solitário.

Sypha riu outra vez, mas mais alto, tão em alto e bom som quanto se permitia naquele silêncio morto da taverna fechada.

—Que história é essa de me copiar? - Ela estendeu a manta com um braço, convidando-o. - Há espaço para dois sob esta coberta velha.

Alucard de um passo ao lado e se aproximou, jogando a ponta do tecido sobre o ombro oposto. Onde foi que já vi isso antes? Sorriu sozinho, rememorando a biblioteca.

—Grato. - Limpou a garganta. - Mas eu não estava arremedando você.

—E por que se sente só?

Alucard olhou para cima, depois para o chão. Como responder a essa pergunta? Tentou:

—Por onde quer que eu comece?

—Por onde achar melhor.

Há "melhor" nesse caso? Escolheu por começar de fora para dentro:

—Já percebeu que há poucos do meu tipo? - Gesticulou com uma mão. - Meio-vampiros, digo. A maior parte deles é fruto de violência. Sou um dos poucos nascidos do amor. Você esteve comigo quando… Quando respeitei o último desejo de minha mãe. Considero-me, portanto, do lado dela na História. Mas se, e apenas se, eu tivesse me aliado ao meu pai, estaria eu errado?

—Provavelmente.

—Uma dezena de vampiros do mundo todo estava com ele… E eu não. O que sou eu?

—É uma charada? - Ela fez cara de quem não entendia.

—É uma dúvida.

Sypha pensou e pensou, com a mão sem fogo no queixo. Respondeu:

—Você é você mesmo.

—Então, estou só, porque só existo eu como eu.

—Mas não somos todos assim?

Ele se calou frente ao óbvio.

—Ninguém precisa ser igual para encontrar um semelhante, não acha?

—Acho que você está certa. Estou pensando em círculos. - Ele balançou a cabeça. - É o tipo de coisa que ocupa minha mente nas horas vagas.

—O nome é "dúvida existencial". Acontece nas melhores mentes.

Seria a minha uma das melhores mentes?

—Mais alguma coisa sobre a qual quer falar? - Ela perguntou.

—Digamos que essa é apenas a superfície das dúvidas existenciais que tenho.

—Não é como se eu não estivesse acompanhando a conversa. - Sypha jogou a cabeça de lado. - Fale sobre o que mais quiser.

—Também penso bastante sobre os conceitos de "certo" e "errado".

—Em relação a qualquer coisa?

—Praticamente. - Ele puxou a coberta que caía de volta ao ombro e ficou segurando-a

—E você acredita que só existem essas duas opções?

—Aí é que reside a dúvida. Tal qual a meu respeito. - Olhou para baixo. - É algo no qual pensei muito antes de vir.

—Em todas essas coisas?

—Sim. Para começar… - Forçou-se a falar mais. - Há inocentes neste mundo? Pessoas livres de pecado?

—Viver é cometer erros, se é isso que você quer dizer.

—Então, não há. Por que lutar por essas pessoas? Por que acreditar na humanidade?

—Porque alguns erros pesam menos do que outros. - Ela enumerou nos dedos. - Porque existem o perdão e o arrependimento. E porque se acredita que pode haver mais bem do que mal neste mundo. Agora, me responda uma coisa.

—Pergunte.

—O que você acha que significa "bem"?

Alucard perdeu bons e maus momentos pensando em uma série de atos espaçados no tempo. A mãe acolhendo uma viajante com um bebê doente. O pai atirando moedas a um desconhecido. Ele mesmo cuidando de um cão com a pata machucada. A família levando um presente a uma vizinha no nascimento do neto. Respondeu:

—Aquilo que se faz para a salvação dos outros?

—É uma forma de ver as coisas. Eu gosto dela. - Sypha sorriu. - E parece muito positiva para quem não acredita em inocência neste mundo.

—Eu… - Perdeu as palavras.

—Somos todos contradições ambulantes. Relaxe.

Olharam a chuva cair por um tempo. Como se antes não tivesse compreendido a informação, notou o quanto Sypha estava próxima de si, juntos ombro a ombro. Eu me lembro da última vez.

—Posso dar um conselho? - Ela perguntou. - E também fazer um pedido.

—O que quiser.

—Continue a fazer o que acha que é certo. - Sypha tinha o olhar distante, focado na chuva que caía. - Seria triste perder você para… O que não é certo.

—Eu ouvi a mesma coisa no começo da semana, mas de uma forma muito mais grosseira.

—Sei bem. - Ela suspirou. - Trevor não tem muito tato.

—E eu o agredi por isso. Espero que me perdoe. - Sentiu a culpa subir ao esôfago. - Você, no caso. Já me entendi com ele.

—É como homens resolvem as coisas, eu acho.

—Não é essa a questão. Eu não quis machucá-lo demais. Perdi a cabeça.

—Posso ser sincera? - Ele fez que sim. - Estou, sim, ainda um pouco magoada.

Alucard expirou todo o ar dos pulmões, e, de repente, se sentiu sem forças.

—Mas me conte mais sobre o que estava falando. - Pediu Sypha.

Ele refletiu, e então começou:

—Pense num cabresto de cavalo. Ou numa vidraça que amplia, ou diminui as coisas. Em suma, enxerga-se o mundo de uma forma que ele não é. É como me sinto nesse tipo de momento. As ameaças parecem maiores. As dores cortam mais fundo. E dá a sensação de que aquilo nunca terá fim.

Ela murmurou algo como "sei", como quem não sabia, e disse:

—É por isso que você tem passado, então?

—Digamos que não só por isso, mas também. - Manteve os olhos no chão. - Acho… Acho que estou doente. Só não sei como isso se chama.

Numa faísca de lembrança, recordou Katrina, a garota do estábulo, cujo rosto não vira. A maldição, ao menos, tem nome. Mas e isto?

—Sabe. - Sypha virou-se para olhá-lo. - Se Trevor perdoou você, eu também perdoo, então.

—Tudo o que ele disse é que foi um idiota, e pediu desculpas.

—Ele quis dizer que perdoou você.

Riram juntos, e se encararam com um resquício de sorriso. Sypha desviou o rosto para baixo.

—Obrigado por ter vindo.

—Eu que o diga.

—Estou tentando fazer o que é certo.

Alucard esperou que ela erguesse a face para beijar-lhe a testa.

—Creio que seja hora de voltarmos ao quarto. - Sugeriu.