Sypha despertou da sonolência e se espreguiçando. Que cama boa. Rolou para o lado e se deparou com Trevor, no escuro do início de manhã, ainda adormecido. Ergueu o corpo e descobriu-se a sós com ele no quarto. Pôs a mão sobre o ombro de Trevor e ele abriu os olhos, também de uma vez só.
—Bom dia. - Ele desejou.
—Estamos só nós dois aqui. - Olhou em volta uma segunda vez, por motivo nenhum. - Viu aonde ele foi?
—Não, mas ótimo. Venha cá. - Puxou-a pela cintura.
—Posso trancar a porta primeiro?
—Ah, existe uma chave. Tranque, sim.
Ela se levantou e o fez, também servindo água a ambos. Tomaram-na de uma vez, largando os copos ao pé da cama, e Sypha voltou aos braços de Trevor sem demora.
—Sua voz é linda. - Elogiou-o depois de um beijo. - Você foi incrível ontem.
—A sua também. Você deveria cantar mais.
—Não é verdade.
—Estou dizendo. Você tem potencial. É coisa de Orador?
—Nós temos algumas canções, sim. - Sorriu, constrangida.
—É prática, como qualquer coisa. Mas o bom ouvido ajuda, e isso não falta.
Você é tão galante quando ninguém está olhando. Não havia sempre o sido, no entanto; no início, ele era distante o suficiente para que Sypha se perguntasse se ele sequer sabia o que fazer com uma mulher do lado… Ou com uma pessoa ao redor. Passaram-se os meses e os pedidos. E olhe só como as coisas mudaram. Ele a puxou para se beijarem de novo. "Fale o que estiver pensando, não guarde para você. Eu quero saber." Começaram como elogios sutis, que se abriram aos poucos, e vinham acompanhados do sorriso que surgia nele enquanto a cara fechada se esvaía. Uma coisa, porém, nunca mudara: confissões em voz baixa, na calada da noite, quando mais nenhuma alma viva estava desperta para ouvir. Recordou o pesadelo da noite anterior e o abraçou mais forte, aquele corpo oposto, largo e receptivo. Não posso proteger você dos seus fantasmas, mas posso ajudar a deixá-los para trás. Soltaram-se já sem ar. Trevor deu uma esperta olhada para baixo; Sypha olhou de relance, só para ter certeza.
—Até que essa roupa fica bem em você. - Ele sorriu de lado, subinho-lhe a mão pelo corpo. Sypha sentiu o rosto se aquecer.
Essa blusa não é minha. Lembrou-se de ter trocado alguns dias antes as próprias roupas por camisas emprestadas de Alucard, e vestia uma de tom creme que caía muito bem no corpo. Trevor parou o que fazia e perguntou:
—O que foi, não gostou?
—Inesperadamente… Gostei.
—Então, ótimo. - Voltou a se ocupar.
Alucard se sentava a uma mesa, o único no salão da taverna àquela hora do dia. Olhava fixamente para a última página escrita do diário. O que escrever? Considerou não completar a frase. Acho que é hora de começar a seguinte, mesmo. Ouviu passos vindos da escada e os dois descendo do quarto. Cumprimentou-os primeiro.
—Bom dia. - Sypha ajeitava a blusa, tal qual imaginou que faria. - O que vale a pena pedir?
—Talvez, o mesmo que eu. - Mostrou o mingau de aveia, feito com provisões que tinham levado. - Mas qualquer coisa há de ser boa. A cozinha daqui é habilidosa.
Uma jovem muito parecida com a dona da taverna passou para perguntar o que queriam.
—Veja o chá mais amargo que tiverem. - Trevor pediu. - Não estou muito bem do estômago.
—Mais dois mingaus de aveia, por favor. - Sypha ergueu o dedo.
Ao que chegaram seus pedidos, ela sacou um favo de mel pego na bagagem e despejou sobre as vasilhas. Quando provou, soltou um som de apreciação, e chamou a atendente para perguntar o que havia no prato.
—É gengibre, senhora. - Deixou o chá de Trevor na mesa. - Disse que era para os cantores da noite passada. Espero que gostem.
Ainda comiam quando ouviram um som de algo caindo, vindo do andar de cima. O dono da taverna, que aparecera para limpar o balcão, deixou o pano onde estava e subiu as escadas, logo após descendo-a às pressas para falar com a esposa e a jovem, saindo do estabelecimento em seguida. Sypha fez um gesto para chamar uma das duas, e a dona se aproximou.
—Perdão a intromissão, mas o que houve? - Sypha perguntou.
Alizia balançou a cabeça e respondeu em voz baixa:
—Mais um caso.
—Podemos conversar com a pessoa? - Alucard pediu.
—Se não forem incomodá-lo, podem tentar. É um mercador de tecidos que vai a Targoviste. Quem imaginava… - Alizia olhou para fora da janela. - Ele está no último quarto.
Alucard subiu as escadas e bateu à porta. Uma voz amedrontada de homem perguntou quem era.
—Senhor, também estou hospedado aqui. - Teve que pensar rápido. - Acho que está acontecendo o mesmo comigo
O mercador abriu a porta, trêmulo e com ar de desconfiança. Devia ter quarenta anos, usava finas roupas, uma barba densa e castanha cobria-lhe as faces e tinha o corpo cheio.
—Obrigado, senhor. - Alucard disse. - Posso me sentar?
—Por favor.
As janelas estavam apenas entreabertas, e o quarto se mantinha na penumbra. O senhor hesitou antes de contar:
—Há dois dias, sonho com sombras. - Ele encarava o chão, ainda de pé. - Peguei o espelho para aparar a barba, e era uma sombra eu mesmo. Não havia rosto. Não havia nada.
—Também sonhei com sombras, senhor. - Torceu para soar convincente. - Minha própria sombra tentou me afogar num rio.
—Sabia que não devia ter vindo. Na estrada só se ouve sobre isso. - O homem fez o sinal da cruz com as mãos ainda tremendo, e deixou-se cair sentado sobre a cama. - Vá embora de Ploiesti, antes que seja tarde para você também.
—Alguém teria rogado isso em você?
—Não sei. - Passou uma mão pelo rosto. - Estive aqui na última semana e fui embora, achando que estava seguro.
Alucard notou um terço de prata sobre a mesa e perguntou:
—Vai à igreja sempre, senhor?
—A toda missa, menos quando estou na estrada. - Gaguejou. - Iria à de amanhã se não fosse um homem morto.
—Não somos. Não perca a fé. Vou procurar ajuda. - Ficou de pé. - Não sei seu nome. Sou Adrian Fahrenheit.
—Leo Alexe. - Apertaram as mãos. A dele está mais fria do que a minha.
—É um prazer, senhor. Cuide-se. Se precisar, me procure no quarto.
Deixou o aposento de Leo e seguiu para o próprio. Olhando do topo do primeiro andar, não viu os outros dois no salão, e abriu a porta para descobri-los jogando damas em um tabuleiro que tinham levado.
—Como ele está? - Perguntou Trevor, que estava de frente para a porta.
—Morto de medo. É compreensível.
Relatou a conversa em tom baixo, sentado à cadeira.
—Então, ele não está aqui há uma semana? - Trevor ergueu a sobrancelha.
—Foi o que me disse. Que foi embora, na tentativa de não ser amaldiçoado.
—Das duas uma, então. - Sypha contou nos dedos. - Ou aconteceu em outro lugar, ou o prazo de uma semana é só uma estimativa.
—E a primeira hipótese é a menos provável. Não se tem notícia da maldição em outra cidade ou região. É "de Ploiesti" e ponto final. - Olhou de Trevor para Sypha. - Sobre a questão do prazo, é o que me intriga. Por que uma semana?
—Pode ser uma questão de observação. - Sugeriu Trevor. - Pode ser que procurem os alvos mais fáceis.
—Até agora temos um ladrão, uma jovem e um mercador forasteiro. Não me parece que eles façam parte do mesmo grupo. - Alucard pôs a mão no queixo.
—Mas pode ser que tenham entrado em contato com a mesma coisa. - Trevor fez um movimento no tabuleiro.
—E isso já é bem mais provável.
—Tínhamos falado de ir ao hospital. Parece uma boa próxima parada. - Sypha disse.
Houve batidas à porta. A jovem atendente levou a eles a sobra da refeição de Alucard, que tinha deixado à mesa para falar com Leo. Ele a questionou sobre o hospital.
—Fica aos fundos da igreja. Não esta da Árvore, a que fica a leste. Quase na muralha.
Ao que saíram da taverna, notaram que parara de chover e uma aglomeração se formava na praça da Árvore. Havia um palco montado e algumas barracas de feira, mas, apesar da multidão, só se ouvia no lugar uma canção rural que os espectadores acompanhavam com palmas.
—É a tal apresentação. - Trevor se aproximou. - Não sei se é o repertório, ou se é porque não estou bêbado, mas ontem foi uma performance melhor.
—Que tal vermos, mesmo assim? - Sypha foi na frente, puxando-o pela mão.
Ao que conseguiram uma boa posição para ficar em meio ao público, depois de muitos pedidos de licença e de perdão, a canção acabou e foi ovacionada. Em seguida, apresentaram-se um enorme cachorro que fazia truques, um malabarista especialmente habilidoso ao qual jogaram moedas, um par de dançarinos, mais uma cantora que se demorou no palco por três canções, contando apenas com o coro da plateia como pano de fundo, sem instrumentos. A voz da mulher era marcante e grave, rara de se ouvir. Por último, ela fez um monólogo de uma mãe que lamentava o desdém do filho, encerrando o espetáculo com lágrimas. A cantora desceu do palco com um chapéu na mão, passando para recolher moedas do povo, agradecendo a cada instante. Sypha revirou os bolsos para lhe dar uma sem sucesso.
—Sem problemas, moça. - A cantora sorriu a ela, antes de voltar a circular. - Seu sorriso vale mais.
A multidão se dispersou para as barracas de feira e para outros cantos, e os três seguiram a leste. Não há de ser tão difícil encontrar uma igreja. Enquanto caminhavam, perguntou algo que lhe ocorreu:
—O que vamos fazer para entrar? - Os outros dois pararam e olharam para trás. - Só pedir para conversar com os doentes vai nos render uma expulsão e nada mais.
—Pois eu bem pensei nisso. Faça o seguinte. - Trevor respirou fundo. - Pode me bater.
—Quê? - Alucard e Sypha disseram em uníssono.
—Você ouviu. Um soco. Bem aqui. - Apontou o rosto.
—Que história é essa? - Alucard deu um passo para trás.
—Não comece. Você quis me bater literalmente semana passada. Pode matar a vontade.
—Trevor, não quero-
—Antes que eu mude de ideia.
Trevor puxou-o pelo braço a um beco adjacente.
—Ande logo. - Trevor revirou os olhos. - Já passei por coisa pior.
—Com que força? - Endireitou o pulso.
—Força suficiente para eu precisar tratar minha cara, lógico.
Hesitou, calado. Trevor debochou:
—Isso é hora para ter pena?
—Hã, quer que seja de surpresa, ou prefere que eu conte até três?
—Não conte. Se eu souber quando vem, vou endurecer o corpo.
—Não vai usar isso de desculpa para descontar depois, vai? - Voltou a se aproximar.
—Não seja burro. Que tipo de-
Agora. Chutou-lhe o joelho e, na queda, acertou-lhe o tal soco na lateral direita do rosto. Trevor desabou ao chão como um peso morto e o xingou, reclamando:
—Eu não pedi por esse chute. Vou ficar te devendo, sim. - Cuspiu um pouco de sangue. - Ainda tenho dentes. Ótimo. Sypha?
Ela o pôs de pé e ajudou que andasse. Trevor apontou com o braço restante:
—Agora, ao hospital.
Sypha chegou subindo com Trevor a tiracolo as escadas da igreja, que também era hospital e convento, gritando por ajuda da melhor forma que foi capaz. Só podia não ter gritado tão perto do meu ouvido. Demoraram o dobro do tempo por causa da perna manca, mas, ao menos, a agressão parecia mais verídica. Uma freira saiu para ver o que havia, uma mulher tão jovem quanto eles trajando um hábito escuro.
—Irmã, por favor. - Implorou Sypha. - Ele está ferido. Fomos roubados.
—Por Deus. Entrem. Onde aconteceu?
—Num beco perto da Árvore.
Foi num beco. Trevor riu a contragosto. Só não perto de lá. A freira os guiou a um espaçoso quarto coletivo com várias camas e que rescendia a doença. Retorceu o nariz, e se arrependeu de ter mexido tanto o rosto. Deitaram-no numa cama vazia. A freira perguntou:
—Querem falar com a guarda da cidade?
—Ele não viu quem foi. - Sypha balançou a cabeça. - Não vai adiantar.
—Pobre homem. - A freira se aproximou e se sentou na cadeira ao lado da cama.
—Foi só um susto, Irmã. - Trevor tentou tranquilizá-la. - Ainda tenho a vida, pelo menos.
Ela examinou o início de inchaço no lado direito da face, tocando de leve ao redor. Trevor olhou de relance para Alucard, que encarava qualquer lado, menos o dele. Desgraçado.
—Vou buscar gelo. - A freira ficou de pé. - Evite se mover enquanto isso.
Alucard notou que era encarado e sussurrou:
—Nem comece. A ideia foi sua.
—O chute não foi. - Recostou-se na cabeceira. - Espere, tem gelo aqui?
—Deve ter uma casa de gelo em algum lugar. - Sypha sugeriu. - Mas posso resolver esse problema num instante mais tarde.
Trevor olhou para os lados e se aproveitou da pouca atenção que davam as outras Irmãs e doentes:
—Vejam o que conseguem encontrar.
Os outros dois se entreolharam, consentiram com a cabeça e saíram.
A freira voltou com um pacote de pano. Perguntou:
—Foi apenas o rosto?
—Não, o joelho também. Mas o rosto dói mais.
Ela aplicou a compressa fria e ele praguejou de dor.
—Perdão pelos modos, Irmã.
—Está perdoado. Ouve-se muito pior por aqui, na verdade.
Trevor respirou fundo para suportar o contato do gelo com o hematoma que se formava. Puxou assunto:
—Como tem sido nos últimos tempos por aqui?
—Vou ter que tirar sua bota. Do que está falando, senhor?
—Digo, não sou de Ploiesti. Estou aqui há poucos dias, e ouvi os rumores.
O gelo foi trocado do rosto para o joelho, o que o fez xingar ainda mais alto. A freira pediu:
—Segure a compressa, por favor.
Certeza que não posso atirar pela janela?
—Não há nada quebrado na minha perna, há?
—Vou ter certeza daqui a pouco. Segure a compressa no lugar. - Repetiu ela, puxando-lhe a bota do pé. - Há mais alguma ferida?
—Só de uma semana atrás. Uma briga de bar. - Meia verdade está bom. - Já estão melhores, não se preocupe.
—Deveria ser mais cuidadoso, senhor.
—Não se pode evitar, às vezes. - Suspirou.
—E onde estão os outros dois?
—Foram aguardar do lado de fora, eu acho. Mandei que voltassem a hospedagem, mas não sei se quiseram.
—Entendo. - Começou a tocar-lhe o joelho, muito para seu desgosto. - Ainda quer saber da maldição, senhor?
—Não tinha perguntado disso em específico, mas é sempre bom. Não quero que aconteça conosco.
—Não parece ter quebrado nada, graças a Deus. - A freira sentou-se a cadeira e começou a falar mais baixo. - A maldição começou desde que chegaram aqueles saltimbancos, há duas ou três semanas.
Trevor sentiu o corpo gelar. Será? Respondeu:
—Conversei com um senhor que os viu e está bem. Só a filha dele foi pega, Irmã.
—Não amaldiçoam todos que assistem, ou a cidade inteira estaria morta. Claro que escolhem alguns. Não sei como fazem, mas o Diabo age por eles, Deus me proteja.
Ficou pensativo. Bom, impossível não é. Pôs a mão no queixo.
—E os amaldiçoados têm cura, Irmã?
Ela balançou a cabeça em negação, sussurrando:
—Temos alguns aqui no hospital, que a família não consegue manter em casa. Estão em quartos fechados, senão, podem machucar os outros. Tentamos fazer com que partam em paz, apenas.
Os corredores do convento eram escuros e vazios de mobília, com poucas janelas, alguns salões com pilares e muitas portas fechadas. Sypha caminhava na frente, e Alucard ia atrás, ambos em silêncio. Numa olhada para baixo, recordou-se. "Até que essa roupa fica bem em você." Segura de estar à frente e no escuro, o rosto se enrubesceu.
—O que deveríamos procurar, exatamente? - Perguntou Alucard.
Sypha deu um pulo de susto, parou de andar e se virou para responder:
—Não dar de cara com nenhuma freira, em primeiro lugar. Em segundo, tentar falar com algum amaldiçoado, eu acho.
Ele ergueu a sobrancelha e apontou para a direção dela:
—Pois seu primeiro plano acaba de dar errado.
Ela olhou pra trás e viu uma senhora vestindo o hábito, de coluna encurvada e enrugada como uma ameixa seca. Levou outro susto e cumprimentou a religiosa com um "boa tarde" gaguejado. A senhora nada disse e seguiu pelo corredor perpendicular numa passada acelerada.
—Vamos atrás dela? - Sypha perguntou, sussurrando para evitar o eco.
—Por que não?
Seguiram atrás da velha pisando macio, mas ela era rápida de uma forma surpreendente. Ela subiu uma escadaria e seguiu para uma espécie de ponte que ligava o andar de cima com um prédio vizinho, parte do convento.
—Será que há problema estarmos aqui? - A dúvida ocorreu a ela.
—Hã, provavelmente.
Quando chegaram à ponte, começou a chuviscar sobre eles, mas a senhora andava obstinada aonde quer que fosse. Observaram-na se distanciando, os dois debaixo do telhado, entreolharam-se e Sypha continuou na frente, puxando Alucard pela manga do paletó.
No prédio vizinho, não havia salões, os corredores eram mais estreitos e o eco era abafado. A velha desceu mais várias escadas, sem que vissem outra alma viva além dela, e abriu a porta de um quarto entreaberto, deixando-o assim. Espiaram pela fresta e viram um toco de vela esquecido sobre uma mesa, e foi a primeira vez que viram a sombra.
Era uma figura humana alta, enorme em relação à velha e maior do que os dois. Tinha braços longos, ombros esguios e compridos dedos afiados, assim como uma face sem rosto e sem cabelo. Qualquer vestígio desaparecia em seu tom de ébano, e não se podia enxergar através dela. Seguia a velha e seus passos, até ela se sentar na cama alta, levantar a cabeça e a sombra desaparecer. Ela virou o rosto para a porta.
—Quem são vocês? - Indagou.
Sypha abriu a boca para responder duas vezes, e decidiu por ser sincera:
—Irmã, meu nome é Sypha Belnades. Vago pelo país cuidando do povo. A senhora está sendo assombrada, eu acabei de ver.
—Assombrada? Hmpf. - Largou as sandálias na tapeçaria e cruzou as pernas finas na cama. - Eu sei, menina. É a sombra, não é?
Alucard e a velha se olharam. Ela perguntou:
—E você, rapaz?
—Sou Adrian. Sypha é minha… - Hesitou, olhando para a manga da blusa que ela soltou. - Irmã.
—Não sei como raios vieram parar aqui, nem quem os deixou entrar, mas não importa. Se me matarem, já estou velha. - Tossiu. - Essa sombra. Começou a aparecer a mim no último domingo. No começo, achei que era o Diabo. Gritei e gritei para que fosse embora. Mostrei a cruz, joguei água-benta. Cheguei a xingá-lo, que Deus me perdoe. Mas ela não me larga mais.
—Não tem medo, Irmã? - Sypha ergueu a sobrancelha.
—Medo, eu? - Riu com cinismo. - Menina, na sua idade, aleijei um homem do tamanho do seu irmão que tentou me violar. Só temo a Deus.
—E o que a senhora acha que é a sombra?
—Eu sei lá, menina. Há muitos tipos de demônio vagando no mundo, ainda mais nestes tempos. Pena que a maior parte deles seja de carne e osso, igualzinho a eu e você.
Sypha resolveu arriscar:
—A senhora sonha com ela?
—Pois toda noite! Desde domingo retrasado, não houve um dia em que sonhei com outra coisa. Está me aporrinhando essa história.
—E o que a senhora fez no domingo, que não fez em outros domingos? - Alucard ergueu a sobrancelha.
—Fui à missa na outra igreja. Convite do padre, e não tenho muito mais o que fazer com meu tempo.
—Katrina foi à igreja. Leo também. - Alucard lembrou.
—É verdade. - Arrepiou-se
—Sempre que vou, sento-me bem no primeiro banco, que não enxergo mais direito há muitos anos. Mas ainda ouço bem, ah, se ouço. - A velha pigarreou.
—A senhora é sonâmbula, Irmã? - Indagou Sypha.
—Eu? Não.
—Nós a encontramos no corredor. Não nos viu?
—Corredor, menina? Desde quando estive no corredor? Não arredo pé do quarto desde a hora do almoço.
Sypha sentiu o corpo ficar tenso. Comentou:
—Há muitas outras pessoas amaldiçoadas em Ploiesti. Estão morrendo.
—Sei bem. Aqui mesmo, no hospital, há aos montes, e não sabemos o que fazer além de trancá-los no quarto e esperar.
—Eu gostaria de tentar banir a sombra da senhora, Irmã. - Respirou fundo. Força. - Não sabemos o que vai acontecer, mas…
—Não me resta mais muito tempo nesta Terra. Você, ou a sombra, qualquer um que me leve, já seria minha hora.
Sypha fez que sim com a cabeça. Perguntou:
—Alguém mais já sabe da sua condição?
—Não. Essas desnaturadas me tratariam como uma velha caduca.
—E, se acontecer algo, quer que eu repasse suas palavras a alguém?
—Diga àquelas preguiçosas para lavar direito os travesseiros. Estão cheios de pulgas no hospital.
Sypha concordou com a cabeça e falou com Alucard:
—Vá buscar Trevor.
—Como?
—Dê um jeito.
Ele se virou e partiu para o outro prédio. Sypha ficou com a senhora, e pediu:
—Vou precisar que durma, Irmã.
—É o que eu ia fazer. Acordei para tirar as sandálias.
Alucard saiu do quarto para o restante do convento com pressa nos pés. Se formos rápidos, há como salvar o resto. O coração batia rápido. Faz mal se eu correr? E correu. Atravessou o caminho de volta na metade do tempo, escada depois de escada, corredor após corredor. A ala do hospital aonde foi primeiro estava próxima quando colidiu em cheio com algo mal-humorado e dolorido, que xingou todos os nomes existentes ao cair. Alucard se desequilibrou também e foi ao chão, balançou a cabeça e só então entendeu do que se tratava. Ficou de pé, estendeu a mão para Trevor e viu seu rosto inchado na lateral, um pouco desfigurado. Ele dispensou a ajuda e reclamou:
—Saio para tomar um ar e é assim que você me aparece?
—O que é isso na sua mão? - Viu um feixe de plantas.
—Arnica. A flor mais sem graça da Valáquia. - Trevor ergueu o ramalhete para mostrá-lo. - Pode-se tomar com álcool, o que ajuda muito.
—Ótimo.
—Agora, colabore não atrapalhando mais.
—A ideia foi sua. Venha, antes que nos vejam.
Seguiram pelo mesmo caminho; Trevor ainda mancava e praguejou a cada degrau de escada.
—Podia me ajudar aqui.
—Não quer que eu te carregue no colo, quer? - Alucard riu, sarcástico.
Estendeu o braço para ajudar que ele se suportasse, e Trevor alcançou também o corrimão.
—Então, alguma pista?
—Pista? - Riu outra vez. - Temos um caso inteiro.
Contou a ele a história da velha. Trevor ligou os pontos:
—Deve ser uma sombra. A entidade. Do tipo que toma o corpo da vítima. - Suspirou. - Acho que temos mesmo um caso e tanto.
—Se ela quer um corpo, por que teria matado o ladrão? De que serve um cadáver?
—Ele resistiu à possessão, decerto.
—Mesmo que um indigente como ele não tivesse muito como lutar contra um ataque desses? É algo mental, não é? - Alucard perguntou.
—Então, acho que ele durou até onde foi capaz e fugiu de Ploiesti tentando viver.
—O que faz mais sentido. - Levou a mão livre ao queixo. - Mas, pense comigo, se fosse procurar outro corpo, escolheria as pessoas que escolheu?
—Não. - Trevor abanou a cabeça.
—Leo Alexe é rico, mas acho que isso não serve de muito.
—A garota não deve ter nada a oferecer, e a velha freira está às portas de Deus, você disse. São inúteis nesse aspecto.
—Eu não diria "inúteis", mas você tem razão.
Ouviram a chuva ficar mais forte no telhado. Ao que atravessaram a ponte suspensa, notaram passos no corredor, e esconderam-se cada um atrás de uma coluna, sem sequer respirar; uma freira passava com uma montanha de roupas dentro de um cesto de vime. Ela pareceu passar sem notá-los e voltaram a caminhar. Quando já era seguro, Trevor comentou:
—A freira do quarto me contou algumas coisas. - Limpou a garganta. - Que a trupe de hoje mais cedo é a culpada pela maldição. Que começou desde que estão aqui.
—Pois tenho outra hipótese. - Alucard levantou o dedo. - E se for a igreja?
—Por que diz isso?
—Katrina vai à igreja. Leo vai à igreja. A velha freira foi nos últimos tempos… Não é difícil traçar.
—E se forem os dois? - Trevor ergueu a sobrancelha
—Bom, não é impossível. - Pararam de caminhar. - É aqui.
—Pareceu uma longa viagem, como tudo com a perna desse jeito.
Alucard o olhou feio. Cale a boca acerca desses machucados um segundo, por favor. Bateram à porta e Sypha abriu.
—Boa hora. - Ela fez gesto para que entrassem. - A senhora está tentando dormir.
Puxou Trevor para um beijo de cumprimento. A velha perguntou, deitada de lado com a face para a parede:
—Quem mais é, menina?
—Meu irmão voltou, e meu marido veio. Não se preocupe.
Trevor olhou com estranheza para a velha, depois para Sypha, abriu a boca para protestar e recebeu um gesto de silêncio sobre os lábios.
—Desde que saibam ficar calados, podem entrar. - A velha resmungou.
Sypha seguiu para a mesa e acendeu uma nova vela usando os restos da antiga. Ela indagou a velha:
—Tudo bem mesmo fazer isso, senhora?
—Já disse que sim, e não me importune mais com esse assunto. Sorte de vocês que a vela não incomoda. Se forem conversar, saiam.
Entreolharam-se e saíram do quarto, fechando a porta. Sypha sussurrou:
—Temos um plano?
—Hã, não? - Os outros dois disseram ao mesmo tempo.
—Eu tenho. Penso em fechar a sala com um selo, esperar que a sombra apareça e ver o que acontece.
—Ela deve atacar. - Trevor advertiu. - E então?
—E então eu tento congelá-la. Usar fogo aqui pode botar o prédio abaixo.
—Ela atravessa objetos? - Perguntou Trevor.
—Não sabemos. - Ela balançou a cabeça.
—Viu vocês?
—Também não sabemos.
Trevor pôs a mão no queixo e disse:
—Bom, caso nos ataque, eu-
—Voltem. - Gritou a velha de dentro do quarto. - Lembrei uma coisa.
—…Eu cuido disso. - Completou, com a mão no cabo da espada curta.
Abriram a porta e a freira estava sentada outra vez, de pernas cruzadas. Ela começou:
—Há um cântico. Acalma até o homem mais possuído e louco. Na minha terra, diziam que era para curar os endemoniados. Talvez seja de serventia. Os rapazes parecem fortes, mas mesmo assim. Escutem.
Ela disse as palavras, uma série de versos rítmicos com uma acentuação e melodia específicas, comprimento de palavras exato; não era uma canção deslumbrante ou uma voz treinada como a da dona da taverna, mas tinha sua mística e estranha beleza.
—Repita comigo, menina. Os outros dois também, até aprenderem.
Iniciaram a canção junto à voz da velha e foram interrompidos no primeiro verso:
—Não. Você aí. - Ela apontou Alucard. - Solte a voz. Você tem uma, não tem?
Voltaram ao exercício. Passaram-se três versos e ela os impediu de novo:
—Você. - Ela indicou Trevor. - Ombro reto, peito para fora.
Trevor deu um suspiro e se endireitou. Retornaram ao cântico. Foi a vez de Sypha ser corrigida:
—Menina. Fale como se falasse a um teatro inteiro. Se alguém ouvir, ouviu.
Fechados no quarto à luz da vela, ao som apenas da chuva e das próprias vozes, a existência do mundo do lado de fora se apagou enquanto ensaiavam, cada vez mais perto das subidas e descidas sinuosas de tom que faziam a voz da velha. Ao fim da enésima repetição, quando a tarde já estava no fim, ela declarou:
—Já estou cansada. Vai ter que servir. - Deitou-se e cobriu o corpo. - Agora, boa noite.
Aguardaram em silêncio até acharem que a velha começava a pegar no sono. Sypha se dirigiu à porta e à janela, trancando-as com um selo e voltando ao lugar. Ela está tremendo? Trevor perguntou num sussurro:
—Nada?
—Não está funcionando. - Sypha balançou a cabeça. - Vamos tentar o cântico. Alucard?
—Sim?
—Pode começar?
—Tem certeza? - Ergueu a sobrancelha. - Fui o pior de nós.
—Repito com você, mas tenho que ficar atenta aos selos.
Fechou os olhos. Os três de pé iniciaram os versos, devagar até que se sincronizassem, as diferentes vozes se encontrando no ar. Sentiu uma mão segurar a sua; Sypha era quem estava ao lado. Emendavam um novo começo a cada final, repetindo e repetindo, como uma canção para embalar o sono, com a chuva forte ao fundo. Alucard percebeu a cabeça tornando-se leve e o corpo em seguida, sem que flutuasse sequer um milímetro do chão, e os dedos que estavam livres começaram a formigar. Quando abriu os olhos, notou-se despertando, e viu que algo se materializava sobre o corpo da freira.
—Ali. - Sussurrou.
Sypha soltou as mãos que segurava e começou a esfriar a temperatura da sala. Ela vai congelar a coisa… Ou tentar. A sombra passou um bom tempo deitada sobre a velha e começou a se erguer. Olhe só. Levantava-se no sentido contrário, a velha de peito para cima na cama, e a sombra de bruços, movendo-se devagar com os longos membros apoiados. Ela girou a cabeça também com lentidão. Será que é assim que se move? Quando o rosto sem face os viu, saltou sobre Sypha como um lince.
Sypha teve tempo de atravessar a mão no peitoral da sombra, mas colidiu com a parede e caiu ao chão. Sem espaço para usar o chicote, Trevor retribuiu o ataque impulsionando ele e a sombra para o chão, agarrando-a pela cintura. Ela se livrou sem dificuldade, também arremessando-o contra outra parede e se erguendo. Essa sala é minúscula. Alucard olhou de relance para a inútil espada longa e atacou com as unhas, arranhou o ar onde estava o pescoço da sombra, e ela se desviou para o lado.
Trevor, já meio de pé, desembainhou a própria espada e a brandiu, acertando um corte nas costas da criatura. A velha produziu um lamento de agonia. Ela sente! Também viu Trevor arregalar os olhos quando ele interrompeu o avanço com a espada. O momento de hesitação foi o bastante para a sombra agarrar Alucard pelo pescoço com as duas mãos e o levantar no ar, apertando os longos dedos. Tentou respirar e o ar lhe fugia, a cabeça parecia que iria explodir; segurou um pulso da sombra com as próprias mãos e sentiu as forças escapando, os dedos afrouxando e a visão a ponto de se embaçar. Num rápido movimento, Trevor operou o milagre de enlaçar o chicote ao redor da garganta da sombra e a puxou para trás, a velha freira sufocando na cama. De repente, uma onda de frio invadiu a sala e a sombra começou a se congelar a partir de um pé, o gelo subindo por todo o longo corpo, até que se tornasse um cristal.
Alucard socou os braços que o mantinham no ar e eles se estilhaçaram. Caiu ao chão respirando pela boca e tossindo, com uma mão na cabeça dolorida. Viu Sypha também atirada ao piso, com a mão no tornozelo da sombra. Ela se arrastou. Ergueram os olhos para a estátua e não houve muito tempo de admirar a bizarra figura, pois Trevor a estilhaçou com um chute. Os pedaços caíram ao chão, contendo a massa negra da sombra, que se desfazia em fumaça. A freira estava, tal qual eles, em mortal silêncio.
—Ela está viva? - Alucard ofegou.
Trevor cambaleou para medir-lhe o pulso:
—Por pouco.
Alucard ficou de pé e os dois ajudaram Sypha a se levantar, que recomendou:
—Vamos deixá-la dormindo. - Caminhou até a cama e pôs a mão na testa da velha. - Bons sonhos, Irmã.
Sypha tirou os selos da janela e da porta, abrindo-a. Escutaram o lado de fora e só soava a tempestade. Saíram procurando pelos fundos do convento e encontraram uma porta traseira.
—Alguém quer correr? - Perguntou Trevor, que olhava para a chuva.
Ninguém se apresentou e seguiram a passo lento.
Cá estamos de novo, molhados e cansados. Abriu a porta da taverna e o dono, antes de pé sobre uma escada, tentava remendar uma goteira no canto do teto. Ele desceu os degraus e mostrou espanto com o rosto inchado de Trevor.
—Deus do céu, o que houve?
—Tentaram nos roubar. - Trevor respondeu. - Conseguimos fugir.
—Voltei do hospital há não muito tempo. Posso mandar chamar de novo. - O dono coçou a cabeça.
—Foi lá perto que aconteceu, é melhor não. - Trevor ergueu a calça encharcada e mostrou o joelho, que aumentara de tamanho e mudara de tom para o roxo e o vermelho.
—Era um bando? - Questionou o dono. - Para atacar vocês três assim…
—Era. Não muito grande, mas nos pegou de surpresa. - Trevor deu de ombros.
—Nossa. - O dono olhou para outro lado. - Não se esqueçam de falar com a guarda da cidade, quando puderem. O que há com este lugar nos últimos tempos?
—Que me perdoem a intromissão, mas o senhor Alexe está? - Alucard perguntou. - Preciso falar com ele.
—Oh. - O dono engoliu em seco. - Achei que teriam visto a movimentação no hospital.
—O que aconteceu, senhor? - Alucard sentiu o peito gelar.
—Ele se atirou do telhado. Está vivo por um fio.
