Soava apenas a chuva fora do quarto. A dona da taverna voltou do andar de baixo com uma garrafa pequena de vidro, empurrando a porta entreaberta. Trevor a entregou o ramalhete de arnica e ela começou a triturar a planta com um macerador de madeira. O marido chegou em seguida com cervejas fortes para três, revogando a proibição de bebidas no andar de cima por um momento, além de dar-lhes um jarro de água limpa. Sypha escondeu sob as cobertas a caneca congelada que aplicava nos hematomas de Trevor, todos os três sentados à cama.
Alucard tocou o pescoço e o sentiu esfolado. Alizia deixou de lidar com a arnica e se aproximou dele com uma vasilha de unguento. Ergueu os olhos para ela e tirou a mão do ferimento puxando a gola do paletó para o lado. Ela recuou de espanto, mas aplicou a pomada mesmo assim. Está tão feio, é? Fez uma careta de dor; o remédio ardia. A mulher sussurrou:
—Melhoras, senhor. - Fechou os olhos e balançou a cabeça. - Muito cuidado. São dias sombrios por aqui.
—Muito grato, senhora.
Ela se virou de costas. Lembrou-se de vê-la com a filha bebê no colo e notou o véu que lhe cobria os cabelos, ligando-os com as suaves manchas marrons no rosto. Ela foi falar com Trevor sobre a tintura de arnica que ainda precisava curtir e o que disse foi apenas um borrão, o coração ocupado demais com saudade para que se importasse. Minha mãe não iria me tratar sem antes me dar uma bronca. Sorriu sozinho. O que ela diria de mim agora?
Os donos do lugar deixaram o quarto pedindo que chamassem caso necessário. Alucard olhou para a janela e tentou imaginar a queda. Para mim, é como se não fosse nada. No entanto, para Leo Alexe, fora quase fatal. Quantos ossos teria quebrado? Resistiria por muito mais tempo? E, principalmente, por que fez isso? Levou a mão ao queixo e lembrou-se de ter cerveja na outra, tomando um longo gole. Viu de relance Trevor fazer o mesmo, e Sypha ainda não tocara a dela. Mas não podemos ficar aqui para sempre. Não agora que sabemos como quebrar a maldição.
—Aonde vamos agora? - Perguntou.
—Boa pergunta, para a qual eu não tenho uma boa resposta. - Trevor suspirou. - Aonde deveríamos ir?
Alucard recordou os gritos de Katrina no fundo da mente e sugeriu:
—Ao estábulo, talvez. A garota pareceu bem atormentada.
—E Leo Alexe tentou suicídio. - Trevor deu de ombros.
—Mas ele não está trancado num quarto há dias. - Alucard argumentou.
—Não seria o caso de nos separarmos? - Sypha voltou a aplicar a caneca fria. - Não sabemos como estão cada um, mas suponho que temos que ter urgência.
—Se eu tiver espaço para puxar a droga do chicote sem ser massacrado, já sei o que me aguarda, e acho que consigo me virar. - Trevor olhava para a janela.
—Tem certeza? - Perguntou Alucard.
—Hã, não, mas acho.
—Você não está em condições de agir sozinho. - Sypha interferiu. - Não com a perna desse jeito.
—Já fiz coisa pior em pior estado. Vão salvar a garota. Encontro vocês lá.
Alucard viu Sypha prender a respiração. Trevor ficou de pé com dificuldade e foi à mesa pingar algumas gotas de arnica na cerveja, assim como aplicá-la no rosto e na perna. Praguejava de dor a cada passo. Quase me arrependo. Ele e Sypha também se ergueram da cama. Munidos cada um de sua capa, desceram as escadas e, à saída, Alucard deu um tapinha amigável no ombro de Trevor:
—Volte vivo.
Trevor devolveu com uma revirada de olhos. Preferia o que, "volte morto"? Observaram a chuva que não estiava com falta de coragem e partiram em direções diferentes.
Não havia uma pessoa sequer nas ruas além deles. Além do temporal, já anoitecia cedo naquela época do ano. As casas estavam todas de janelas fechadas, e o máximo que viram de vida foi um cão de rua sob um telhado, encolhido de frio. Alucard sorriu para ele, que ignorou a passagem dos dois. Quem sabe eu pudesse entretê-lo se o céu não estivesse desabando.
O estábulo onde tinham deixado os cavalos da estalagem estava tão fechado e silencioso quanto o resto dos lares ao redor. Bateram à porta e atendeu uma mulher miúda, por volta dos trinta anos, que não tinham visto antes, com um menino pequeno agarrado à saia, e ambos os olharam com desconfiança.
—Se vieram tratar de cavalos, meu pai não está. - Tinha tom de quem não queria ser incomodada. - Sendo pagamento, apenas deixem o dinheiro.
—Na verdade, senhora… - Começou Sypha.
—Quem é, Thea?
A esposa do dono do estábulo, tão franzina quanto a mulher que os atendeu, apareceu com sua passada miúda e sua voz comedida.
—Não sei, mamãe. - Respondeu a primeira mulher.
—São vocês de ontem. - A outra reconheceu. - Que há?
—Sabemos como ajudar Katrina agora, senhora. - Alucard disse.
Mãe e filha se entreolharam. Thea perguntou:
—Eles sabem, mamãe?
—Estiveram aqui ontem. Vieram de longe. Mas havia mais um rapaz.
—Ele está no hospital, cuidando de outra pessoa. - Sypha deu um sorriso caridoso convincente.
A senhorinha deu alguns passos atrás e falou à filha:
—Deixe entrarem, Thea.
A outra fez o mesmo. Alucard viu que, ao lado da mãe, ela era só dois dedos maior. Seguiram as duas para a cozinha, e a filha foi para outro cômodo. Sentaram-se à mesa como no dia anterior a convite da senhora, e ela se juntou a eles de cabeça baixa.
—Katrina não dormiu ontem. - Ela quase sussurrou, com a voz chorosa. - Está morta de medo. Ela fala da mulher, que a mulher vai matá-la. Acha que sou eu, ou que é Thea. O único que entra no quarto é meu genro. Ele está aqui, enquanto meu marido e meu filho não estão.
Alucard e Sypha se entreolharam. Vai ter que ser.
—Senhora, com sua permissão, posso ver o que há com ela? - Alucard pediu.
—Não quero que aconteça mais mal à minha filha.
—Ela vai ficar bem. - Olhou para Sypha. - Sou casado, senhora.
—Imaginei. - A senhora assentiu. - Parecem se dar bem.
Sim, mas não… Dessa forma. De relance, viu Sypha tentar disfarçar a vergonha. Bom, por ora, que ela acredite. Ele continuou:
—Só há um problema, senhora. - Respirou fundo, sentindo um arrepio subir-lhe a espinha. - Mais cedo, tiramos a maldição de uma velha freira no convento. Ela sofreu. Viveu, e agora está dormindo apenas, mas sofreu. E pode ser que aconteça o mesmo com Katrina.
A mãe o olhava como quem pedia piedade, depois para a mesa, suspirando com desesperança:
—Não quero perder minha menina.
—Não vai perdê-la se fizermos o que temos que fazer. - Sypha tocou a mão da senhora. - Eu juro, em nome de Deus.
Esperta. A senhora fez que sim com a cabeça e ficou de pé:
—Vou levar vocês ao quarto.
Encaminhou-os por um corredor até chegar a uma porta fechada. Falou muito baixo:
—É aqui. Não façam som alto, ou gestos bruscos, ela se assusta.
Alucard deu um passo à frente e bateu à porta, ouvindo um temeroso:
—Quem é?
—Katrina? - Sentiu o coração se apertar. - É um amigo. Posso entrar?
A garota não respondeu. Ele olhou para a senhora, que sussurrou:
—Quando sou eu, ela grita.
Ele fez gesto para que as duas chegassem para trás. Ouviu Sypha tranquilizar a senhora quando abriu a porta, que rangeu e encobriu a conversa das duas. O quarto se encontrava escuro, de janelas fechadas contra a chuva e a luz, e tropeçou numa peça de roupa. Ao que entrou, Sypha fechou todas as entradas com selos iluminados, e pôde ver Katrina encolhida a um canto da cama, assim como roupas de mulher, um espelho de prata amassado, um baú aberto. Deve ter herdado da irmã, que herdou da mãe, nesta boa família temente a Deus. Katrina tinha o nariz levemente grande do pai, os olhos arregalados e o porte da mãe; estava descabelada e com as mãos na frente do peito, os joelhos dobrados.
—Perdoe-me a grosseria. Meu nome é Adrian. - Aguardou que ela respondesse, o que não aconteceu. - Posso acender uma vela? Não consigo ver você direito.
—O que é você? Médico?
—Poderia ser. - Sorriu a contragosto.
Buscou uma vela no bolso interno do paletó e escondeu também atrás dele a mão que a acenderia. Ao que fechou o baú e apoiou a vela, viu a sombra abraçando a garota pelas costas, menor do que a da velha, mas ainda mais escura. Engoliu em seco. Perguntou a ela:
—Quantos anos você tem?
—Dezesseis.
—Está quase em idade de casar. Pensa em alguém? - Ela se calou. - Tudo bem se não quiser contar. Sei como são essas questões do coração.
Bom, sei menos do que gostaria.
—Posso chegar mais perto? - Pediu ele, a cerca de dois metros da cama.
—Você vai me machucar, não vai?
Infelizmente.
—Vim cuidar de você. - E vou ter que mentir um pouco.
Deu um passo à frente. Ela se encolheu mais. A sombra virou seu fantasmagórico rosto sem face, notando-o ali, e abraçou Katrina com mais força; a garota soltou um lamento de dor. A maldição dela já aparece fora do estado de sono. Apertou as unhas contra as mãos. Então, já deve estar perto do fim. Mais um passo e ela gritou, a sombra agarrando-a pelos ombros. Vindo do lado de fora, Alucard ouviu a mãe da garota chorar.
—Está me machucando.
—Katrina, não sou eu. Há uma coisa em você. É uma sombra.
E a sombra chiou, abrindo uma estranha boca de dentes serrilhados, cujo lado de dentro era de um vazio escuro ainda mais profundo.
—Eu sei. - Katrina respondeu.
—Você a vê?
—Vejo, e também ouço. - Apontou os ouvidos. - Nos sonhos. Ela toma formas. Já teve várias. Agora é uma mulher.
Alucard sentou-se com cuidado na ponta da cama, enquanto ela ocupava o canto da cabeceira, e perguntou:
—Há quanto tempo você não dorme?
—Este é o segundo dia.
—Por quê?
—Porque ela vai me matar.
A sombra riu uma risada abafada.
—Não acho que mereça isso, Katrina.
A garota disse algo que ele não conseguiu compreender.
—Perdão? - Ergueu a sobrancelha.
Ela fez gesto para que se aproximasse. Alucard se arrastou meio metro na cama e colocou a mão ao redor do ouvido em forma de concha. Katrina cochichou:
—Sou uma pecadora.
—O que quer que tenha feito, não é pecado. Fique em paz.
A sombra pôs a mão na garganta dela. Katrina começou a tossir e a tentar se soltar. Alucard voltou a ficar de pé e agarrou a sombra pelo pescoço, arrancando-a e a atirando à parede. A criatura se ergueu e mostrou longas pernas, que a deixavam quase do tamanho dele, e o encarava como se tivesse olhos. Alucard relaxou os ombros e fechou o semblante.
—Muito bonito o que você fez.
Avançou contra ela desarmado e foram ao chão. Atento, não deixou que ela lhe alcançasse o pescoço, encolhendo-o e desviando-o daquelas mãos mortais de dedos compridos. Perdeu a vantagem, e, do lado de cima, a sombra tentou agarrar-lhe o rosto; quando notou que perderia a queda de braço, ela o atacou com o joelho. Faltou-lhe o ar e a mão que segurava a oponente afrouxou. Perdeu as contas de quantos socos levou no rosto até conseguir dar impulso para atirá-la contra a parede outra vez. Não é tão forte quanto a outra… Sentindo gosto de sangue na boca, levantou-se tão rápido quanto pôde e, ainda assim, depois da sombra. Mas estou sozinho.
Armou a guarda, tentou socá-la; ela era ágil e flexível para se desviar. A longa perna passou-lhe uma rasteira e caiu outra vez, acertando a testa em uma quina. Foi pisoteado nas costelas, nos braços e nas pernas. De repente, aguardava mais um chute que demorou a vir; sentiu a temperatura da sala esfriando. Ótimo. Puxou para o chão, e o lamento de Katrina foi ensurdecedor. O corpo queimava dos golpes e avançou contra a sombra, com o próprio antebraço contra a garganta da criatura e as estranhas mãos detidas ao alto.
—Suma daqui. - Sussurrou.
Soltou-lhe a garganta para adentrar-lhe a cabeça com as longas unhas. O grito sinistro da sombra se misturou com o de Katrina, e Alucard não soube dizer qual deles foi mais longo. O gelo cobriu todo aquele corpo escuro e subiu-lhe pelo pulso. Puxou a mão para libertá-la e ele se quebrou na região da cabeça da estátua. Terminou de quebrá-la com os pés, até que restassem apenas estilhaços frios pelo chão do quarto. Ofegante, largou os braços fracos ao lado do corpo e observou os restos. Sentiu-se tremer. Virou para ver Katrina, chorando encolhida.
—Acabou. - Aproximou-se dela e se abaixou ao lado da cama.
A sala se escureceu quando Sypha desfez os selos da porta e da janela, e se iluminou de novo quando ela entrou no quarto com uma grande chama nas mãos. Katrina abraçou-o com pouca força e o minúsculo corpo frio. Alucard a acolheu no paletó.
—Você foi muito forte. - Disse a ela em voz baixa. Ela tremia a ponto de balançar o corpo. - Calma. Já acabou.
Ela desenterrou o rosto do ombro dele e o encarou, o rosto desfeito em lágrimas. Alucard estendeu as mãos para que Katrina as segurasse. Ela murmurou:
—Foi embora. - Soluçou. - Mas dói tanto.
—Veja só. - Ele afastou a roupa do pescoço.
Ao que viu as marcas de estrangulamento, Katrina arregalou os olhos e perguntou:
—A coisa fez isso?
—Outra coisa, mas sim. -Respirou fundo. O rosto latejava. - Quem estava assustando você era uma mulher?
—Era. Ela tinha uma faca. - Ela fez que sim com a cabeça. - Veja. Foi ela quem fez.
Katrina puxou a camisola para mostrar uma cicatriz funda e arroxeada na coxa, perto do joelho. O coração de Alucard se apertou. Ouviu os passos miúdos da mãe da garota se aproximando da porta.
—Cubra-se. - Ele pediu a Katrina.
Um braço dela ainda o segurava, e ela não parava de tremer. A garota perguntou:
—Vou ficar assim?
—Não sei, infelizmente.
Ela voltou a chorar. Deixou que acontecesse, por um tempo. Certas dores precisam sair. Teve outra ideia:
—Posso ensinar uma coisa? - Sugeriu ele. Ela ergueu o rosto, sem responder. - Posso?
Soltou-a e se sentou na ponta da cama, de frente para ela, com as pernas cruzadas. Respirou fundo e endireitou as costas.
—O que é? - Ela questionou.
—É uma canção. Um cântico antigo. Vai ajudar você a dormir.
Com o canto dos olhos, viu Sypha dar mais um passo para dentro do quarto, mas fez um gesto para impedi-la. Ela voltou para trás.
—Repita comigo. - Ele estendeu a mão para que Katrina a segurasse. - Tente copiar a forma como faço.
Fez o melhor que foi capaz ao reproduzir os versos da velha freira. Minha voz é um desastre. Em seguida, Katrina arriscou, com a voz tão miúda quanto ela própria. Ele voltou do início, e ela o imitou, ao mesmo tempo, com falta de ar do choro. Quando voltou a respirar, a terceira vez foi melhor que a anterior, e assim seguiu, até que não soubessem mais em que vez estavam e Alucard achasse que era o bastante.
—Muito bom. - Elogiou-a, e falava a sério. Suspirou. - Espero que me perdoe pelo que eu fiz. Era a única forma.
—Eu sei. - Katrina soltou-lhe a mão. - A sombra disse num sonho. O que fizessem com ela, fariam comigo.
—Está bem, mesmo?
—Estou.
Ela abriu os braços e o abraçou uma segunda vez. Para uma garota dessa idade, ela não tem muita vergonha de mim. Afastou-se dela e se ergueu da cama, olhando para a porta. Afirmou com a cabeça e a mãe de Katrina entrou, correndo em direção à filha como se não a visse há meses. As duas deixaram que saísse um choro suave, de alívio e felicidade, mais do que de qualquer outra coisa.
—Acabou, mamãe. - Katrina sorriu. - Estou bem.
Alucard olhou para Sypha, e teve certeza de vê-la limpar uma lágrima do rosto.
—O que veio fazer aqui de novo, senhor?
A freira que atendera Trevor durante a tarde o viu chegar na porta do hospital, ensopado e com a perna doendo.
—Piorou novamente? - Ela tinha um enorme molho de chaves nas mãos. Bem na hora.
—Sim e não. Longa história. - Coçou a cabeça. - Para encurtar, o que acontece é o seguinte: o paciente recente. Acima do peso, roupas verdes, bigode bem arrumado, que tentou se matar. Ele está amaldiçoado.
A freira levou as mãos à boca:
—Por Deus, fale baixo dessas coisas, senhor.
—Ele já começou a falar durante o sono?
—Não sei dizer. - Ela balançou a cabeça. - Eu ia à outra ala.
—Antes, me mostre onde é que ele está.
Ela o guiou até outro dos quartos coletivos, diferente do que tinha conhecido mais cedo. Estava, no entanto, tão cheio de camas, pacientes e freiras quanto o anterior.
—Este aqui. - Ela falou baixo, parada ao lado de uma cama.
Trevor aproximou um ouvido e notou Leo sussurrar. Viu a penumbra de um dos braços e uma das pernas colocados em talas, o rosto enrolado em panos cheios de sangue e acreditou que estivesse de olhos fechados. Trevor pegou uma tocha da parede sem pedir permissão e passou-a nos arredores, sem encontrar nada. As freiras e os pacientes acordados começaram a olhar a cena.
—Senhor, não perturbe os doentes. - A freira o pediu. - E ainda está machucado.
—Estou melhor, não vê? - Subiu o tom de voz do sussurro para o normal, o que ecoou naquele aposento fúnebre e deu um largo sorriso quando sentiu o joelho fisgar. - Ouçam-me, todos. Espaço. Vou precisar de espaço. Irmãs, protejam os doentes. Há um amaldiçoado no quarto. Repito: um amaldiçoado no quarto. Isto aqui vai virar uma bagunça.
Estalou os dedos e se agachou com dificuldade, procurando pelo chão… Até ver a sombra agarrada ao estrado da cama de Leo.
No melhor reflexo do qual foi capaz, Trevor pegou a Estrela da Manhã e varreu a parte de baixo da cama com um golpe. Sentiu a ponta do chicote bater em algo, e acreditou que fosse na sombra, que conseguiu escapar e se encolheu em algum canto da escuridão. Saco.
—As tochas, por favor! - Esperou ter falado bem alto. - Ou não vou conseguir ver.
Assustadas e gritando, algumas freiras não o fizeram. Os pacientes que conseguiam se mover olhavam de um lado para outro. Repetiu:
—Tochas! Tochas para o alto!
Viu a criatura espremida a um canto de parede não muito longe. Deixou a própria tocha na parede outra vez e desembainhou a espada, avançando contra ela. A sombra aparou a lâmina com as duas mãos, e Trevor aproveitou para empurrá-la para longe. Ela subiu ao teto, escalando como se tivesse quatro patas, e produziu um som que lembrava uma risada. Com a outra mão, brandiu o chicote para o alto, na esperança de acertá-la, mas ela saltava de um canto a outro como uma aranha. O chão e as paredes do lugar sentiam o impacto da Estrela da Manhã, partindo-se quando ela os acertava. Está perto. De prontidão, Trevor a aguardou saltar com a espada preparada e ela avançou, não sobre ele, mas sobre Leo.
Com um rodopio do chicote, enlaçou-a e a atraiu para perto com um puxão. Conseguiu desferir-lhe um golpe de espada no peito antes que ela se afastasse. Leo gemeu de agonia. Puxou com mais força, e a sombra arrastava os pés no chão, arrancando as tábuas do piso, até que tivesse distância a menos para outro corte, dessa vez na mandíbula. A sombra cambaleou, então Trevor saltou sobre ela cravando a espada curta na cabeça. Ela agonizou emitindo um som de doer os ouvidos antes de se desfazer em fumaça. Trevor sentiu o corpo ceder e desabou ao chão, com lágrimas escorrendo do canto dos olhos, e a última coisa que viu e ouviu foi uma freira correr em sua direção.
Abriu os olhos e se encontrou deitado numa cama, com a mesma freira que o atendera ao lado, e no mesmo quarto onde encontrara Leo. Quando virou a dolorida cabeça para olhar ao redor, a freira o estendeu uma caneca.
—O que é? - Ergueu a sobrancelha.
—Chá de salgueiro, senhor. Vai tirar a dor.
—Tem álcool?
—Creio que não, senhor.
Suspirou e se endireitou para pegar a caneca. Deu um gole e sentiu o sabor de madeira. As pessoas do quarto murmuravam e reclamavam. Tudo normal, então. Perguntou:
—Leo está vivo?
—O paciente? Parece estar. - A freira olhou para outro lado. - Ele chora durante o sono, mas não há sinal do demônio contra o qual o senhor lutou.
Trevor fez um muxoxo e deixou a cabeça cair de lado:
—Irmã, quando vou poder sair daqui?
—Amanhã, com sorte, creio. - Ela suspirou.
—Amanhã? Há pessoas me esperando.
—O senhor é de Ploiesti?
—Não. - Céus, vou ter que fugir? - Estou numa taverna na Árvore. A mesma onde Leo está.
—Permito que saia se alguém vier buscá-lo, senhor.
Ele resmungou e se calou. Ouviu passos vindos do corredor.
—Onde estamos? - Disse uma voz familiar à porta.
A velha freira apareceu, acompanhada de outra irmã que lhe dava o braço e que respondeu:
—Em um quarto de doentes, Madre Bethania.
—Suspeitei pelo cheiro. Limpem direito isto aqui. E onde é que ele está?
—Venha comigo, Madre.
A freira que a levava a guiou até a lateral da cama de Trevor. A Madre perguntou:
—Aqui?
—Sim, aqui, Madre. Estenda a mão.
A mão enrugada da senhora tocou o ombro de Trevor, depois tateou até o rosto, bem em cima do hematoma. Odiou Alucard por um instante.
—O rapaz ferido de barba. - A Madre constatou. - Que veio farejar aqui?
Trevor perdeu um segundo chegando à conclusão:
—Madre, a senhora é cega?
—Não era até esta manhã. Mas fiquei, depois da confusão com a tal sombra de vocês. De que importa? Enxergo mal há tantos anos. Mas responda minha pergunta.
Explicou a ela sobre a sombra que possuía Leo e a tentativa de suicídio do mercador. Todas as outras freiras que ouviram torceram o nariz, mas a Madre não se comoveu:
—Pobre homem. - Ela disse, com pouca piedade. - Espero que viva.
—Eu também, Madre. - Respirou fundo, exausto e com dor. - Não muito a ver, eu realmente gostaria de ser liberado e dormir em minha cama hoje.
—Pois entendo muito bem. Esta cama de hospital é um pavor. Irmã Sibila? - Falou com a freira a quem segurava o braço. - Arranje uma carruagem para este homem. Como é que se chama, rapaz? Ainda não sei.
—Trevor.
—Belo nome. De quê?
Relutou, mas talvez ajudasse a ir embora mais rápido:
—Último da casa Belmont, senhora.
As outras freiras fizeram o sinal da cruz, mas ela nem se moveu:
—Uma família em falta. O mundo era melhor com vocês.
Respirou aliviado. Aguardaram algo como meia hora, até que a tal Sibila voltasse pingando chuva e com notícias de que incomodara um vizinho endinheirado para usar a carruagem. Trevor se despediu de Madre Bethania com um abraço e um tapinha nas costas, sussurrando a ela um agradecimento. Antes que saísse, alguém colocou em suas mãos uma sacola de pano com mais casca de salgueiro.
O cocheiro do vizinho foi em silêncio debaixo da chuva, instruído a ir à taverna, tão descontente quanto ele de estar naquele lugar, naquela hora. O saltitar da carruagem era infernal para as dores, e o salgueiro se demonstrara de apenas alguma ajuda. Olhou longamente para as cascas e pensou em mastigá-las. Deve ter um gosto terrível. Trevor desceu do veículo com dificuldade e abriu a porta do estabelecimento. Os donos, que atendiam mesas, o olharam com espanto.
—Os dois voltaram? - Perguntou a eles. - Os dois do meu quarto?
Eles fizeram que não, com os mesmos olhos arregalados. Eu devo estar um trapo. Voltou para a carruagem, mais molhado do que antes. Falou ao cocheiro:
—Ao estábulo da saída norte, por favor.
Sypha apagou a vela sobre o baú, retirou-a e se sentou sobre a tampa fechada, ainda com fogo nas mãos. A mãe de Katrina escovava os cabelos desgrenhados da filha com uma escova macia que antes estava atirada ao chão, em um silêncio choroso. Sypha olhou para o chão e rolou com o pé um dos pedaços de gelo, que derretia sobre o piso com o novo calor do quarto. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Não fiz muito além de fechar a sala, mas… Observou Katrina, e ela retribuía a canção aprendida de Alucard com uma canção de roda infantil, que era um pouco diferente do que Sypha se lembrava. Deve ser algo daqui. Alucard parou de repetir a letra e tornou-se atento a algo que vinha de fora; Sypha logo ouviu passos no corredor, e um homem, que devia ser o cunhado de Katrina, veio acompanhado de Trevor, manco, molhado e com o rosto roxo. Sypha e Alucard ficaram de pé, e as duas restantes só olharam para a porta.
—Como estão as coisas aqui? - Trevor perguntou.
—Agora, estão bem. - Alucard apontou com a mão. - Trevor, esta é Katrina. Está livre de qualquer coisa agora.
—Olá, moça. - Trevor forçou um sorriso. - Como pode ver, não estou nos meus melhores dias.
—Eu também não, senhor. - Katrina balançou a cabeça. - Não paro de tremer. Não consigo nem segurar um copo.
—Vai melhorar, e eu também vou.
Sypha suspirou e olhou ao redor, o quarto em pura desordem, os riscos nas paredes. Trevor estendeu o braço para ela, que se aconchegou, e sentiram o calado olhar de estranheza da mãe da garota. Bom, deixe que ela pense o que quiser.
—Vamos deixar vocês agora. - Trevor disse. - Fique bem, Katrina.
Do lado de fora, o cocheiro os esperava na chuva com um olhar gélido. Entraram na carruagem e tocaram para a taverna de novo, ouvindo Trevor contar em poucos detalhes da sombra debaixo da cama de Leo, e em muitas reclamações sobre o quanto o joelho doía. Alucard tinha cara de desdém.
—E aquela senhora, a Madre. - Lembrou Trevor. - Está cega.
—Mesmo? - Sypha perguntou.
—Ela não parece ter se importado muito. - Trevor deu de ombros.
Na taverna, deram a volta no lugar e bateram à porta dos fundos. Um rapaz da cozinha atendeu com cara de espanto e os olhou de cima a baixo.
—Somos do quarto do meio, com palha no chão. - Trevor apontou para cima. - Se já entrou lá, sabe que estamos falando a verdade. Não queremos chamar atenção.
O rapaz fechou a porta. Trevor o xingou de uma série de nomes depois disso, e Sypha não pôde evitar um risinho. Acendeu fogo nas mãos outra vez, e ficaram ali, debaixo da beira de telhado, olhando o temporal. Trevor, de repente, perguntou para ninguém específico:
—Por que a senhora lá do estábulo estava me olhando esquisito?
Como quem tinha feito nada demais, Alucard respondeu:
—Eu menti para ela.
—Ah, foi? - Trevor ergueu a sobrancelha.
—Disse a ela que eu e Sypha éramos casados, para que-
—Você fez o quê?
Fez-se silêncio.
—Exatamente o que você me ouviu dizer, ora. - Alucard deu de ombros.
—Sypha, isso é verdade? - Trevor subiu o tom de voz.
—É, e daí? Qual é o problema-
—Que história é essa de vocês dois?
Sypha passou a mão livre no rosto, decepcionada, e pediu:
—Pelo amor de Deus, espere alguém acabar de explicar.
—Não há nada o que explicar de uma coisa dessas.
Ela e Alucard ficaram olhando Trevor dar a volta no prédio, indo em direção à chuva. Sypha apagou o fogo e criou uma parede de gelo, na qual Trevor, caminhando enquanto olhava para baixo, esbarrou o rosto pela milésima vez no dia. Ele caiu ao chão e ela se aproximou, pisando em seu peito, já que ele rolara de face para cima.
—Você vai ficar aqui e nos escutar, seu cabeça-dura impossível. - Cruzou os braços. - Agora, levante daí.
—Meio difícil com um… Pé em cima de mim.
Sypha tirou o tal pé e ele se ergueu, perguntando:
—Qual é a desculpa de vocês? Estava com medo que lhe oferecessem a garota, Alucard?
—Pare de supor as coisas por um segundo. - Alucard revirou os olhos. - O que você queria que eu fizesse? Sou um homem desconhecido. Imagine sua filha vulnerável, num espaço fechado com um homem que ela não conhece. Sua filha mostrando um corte fundo e feio na coxa a esse homem, sem vergonha nenhuma. O que você faria?
—Eu não mentiria para a pessoa com quem estou há quase um ano. - Trevor olhou feio para Sypha.
—Ela não mentiu a ninguém, Trevor. Eu menti, e foi só isso. E sinceramente, nem foi para você. Contei a verdade a você, ponto final. Eu estava ocupado demais batendo naquela droga. Você sabe o quanto elas dão trabalho. Use a cabeça, deixe a senhora estranhar o que quiser, não é da conta dela.
Sypha pressionou a testa com uma mão e apagou o fogo. O rapaz da cozinha abriu a porta de novo, avisando que podiam entrar por ali. Ela suspirou e disse:
—Deixe-o aí. Vamos para dentro.
Alucard a seguiu e atravessaram a cozinha sem olhar muito para os lados, gratos pelo calor. Sypha ficara com a chave, e subiram ao quarto para largar as capas encharcadas.
—Vamos descer. - Alucard balançou a cabeça. - Ficarmos aqui em cima só vai criar mais confusão.
—É, eu sei.
Seguiram para o salão. Não era dia de apresentação, então se conversava apenas, a um volume que Sypha preferia não ter que suportar. Sentaram-se o mais perto da fogueira possível, a maior parte das mesas ocupadas nos melhores lugares. Pediram uma sidra cada um, sem apetite, apesar das várias horas sem comer. Depois de secar o copo, ela olhou para o fundo e aceitou quando a atendente lhe ofereceu mais um.
—Sabe, é a primeira vez que eu e ele temos esse tipo de problema. - Sypha olhava para o estalar do fogo. - Quando éramos nós dois, isso nunca aconteceu.
Não viu se Alucard a estava encarando, ou se estava sequer escutando, mas ela continuou a falar:
—Qualquer coisa assim era resolvida indo embora no dia seguinte. Não havia muito por que mentir.
—Ele poderia ter entrado e resolvido as coisas, se quisesse. - Ambos ergueram a cabeça, e Alucard a olhava. - Não é como se o tivéssemos proibido.
—É. - Ela deu de ombros. - É difícil lidar com ele quando enfia uma coisa na cabeça. Ele só vê as coisas de outra forma depois de algum tempo.
—Por que não fala de si mesma um pouco?
Sypha abriu a boca para responder e sentiu que as palavras lhe fugiam. Perguntou:
—Como, por exemplo?
—Não sei. Como se sente?
—Talvez… - Demorou a formular. - Talvez como todos nós. Exausta, dolorida e com frio.
—Nem me fale. - Alucard suspirou. - Mas prossiga.
—É mais fácil quando eu faço as perguntas. - Sypha riu.
—Você consegue. Fale do que tem pensado.
A mão dele alcançou a dela por cima da mesa com um breve afago e depois a soltou. Sypha prendeu a respiração por um segundo e tomou mais um gole da sidra. Que ela me ajude a falar.
—Bom, uma das coisas é que… - Começou ela. - Eu acho que esse caso não está perto de acabar. Digo, nós sabemos como eliminar as sombras agora, mas não como é que elas são transmitidas. E se continuarmos nesse ritmo, lidando com uma por uma…
—…Eu também não acho que vamos aguentar.
—Acho que vamos ter que ir embora da cidade depois de lidarmos com a fonte delas. - Sypha olhava para baixo com desânimo. - Não podemos salvar todo mundo.
—E isso incomoda você?
—Um tanto, sabe. Eu queria ser capaz de mais.
—Você já faz muito. - Alucard sorriu, depois abandonou o semblante alegre. - Não deveria se cobrar tanto. Eu é que estou causando mais problemas do que deveria.
—Não diga uma coisa dessas. Se não fosse por você, a freira e Katrina estariam mortas. Você salvou duas vidas.
—E vocês dois teriam salvado as mesmas duas vidas sem mim.
—Alucard, talvez estivéssemos mortos sem você.
Ele fechou os olhos, apertando-os com a ponta dos dedos, e negou:
—Não é verdade.
—É claro que é. - Sypha se controlou para não subir o tom de voz e o segurou no antebraço sobre a mesa. - Pare com esse tipo de coisa.
—Eu não causei nada além de problemas para vocês. Peço perdão.
Ele fez menção de se levantar e Sypha o segurou mais forte. Alucard suspirou e abriu os olhos avermelhados para encará-la com certa surpresa.
—Eu não vou atrás de você. - Sypha foi assertiva. - Fique aqui.
Ele afrouxou a tensão do braço e voltou a se sentar. Ela continuou:
—Não foi culpa de ninguém. Tinha que ser feito, você mesmo disse, não faz nem dez minutos. O que há com você?
Alucard pareceu procurar as palavras nas chamas da fogueira por um tempo e respondeu:
—É o que eu quero dizer com estar doente. Há momentos em que eu só não consigo.
Foi a vez dela de fazer-lhe um breve agrado com o dedão no antebraço, por cima do paletó, e soltá-lo em seguida.
—E este é um desses momentos? - Ela suavizou a voz.
—Um dos vários. É algo que me assombra.
—Eu queria entender como você se sente.
Ele riu com alguma ironia:
—E eu não quero que você entenda. - Deu o último gole na sidra. - Não sei se ajudaria.
—O que ajuda, então?
—Escrever, é o que tem sido. As coisas ficam mais claras quando me trato dessa forma.
—De que forma?
—Como se eu fosse uma coisa alheia que estou estudando. - Ele olhou para as próprias mãos abertas. - Como se eu precisasse desses detalhes estratégicos para me atacar.
—Então, é como se você lutasse contra si mesmo.
—Sim, pode-se pensar dessa forma.
O quanto nós somos capazes de ajudar… E como? Sypha deu um suspiro conformado e perguntou, como se pensasse alto:
—E se um dia você se destruir nessa luta?
—É mais difícil me matar do que parece. - Ele sorriu a contragosto.
E não há mentira nisso. Sypha também deu o mesmo sorriso:
—Você é muito forte, Alucard.
—Não é algo que eu tenha feito por merecer.
—Pois tenho certeza de que fez.
Ela olhou para a caneca vazia de sidra. Trevor ainda está lá fora.
—Pensou o mesmo que eu? - Ela perguntou.
—Talvez. - Alucard ergueu a sobrancelha. - Vai buscar o abençoado lá fora?
—Na mosca. Espere só um minuto.
Sypha saiu pela porta da frente para não ter que incomodar na cozinha e deu a volta no prédio. Tinha o capuz sobre a cabeça e desviava a água da chuva com as mãos, manipulando-a para que desse a volta. Trevor se encolhia no escuro ao lado da porta dos fundos, debaixo da capa encharcada.
—Venha para dentro. - Chamou ela.
—Não me diga o que fazer.
—Grosso.
Trevor não disse mais nada. Sypha se aproximou e pôs a mão no braço dele; sentiu que tremia e acendeu fogo na mão restante. Ele não a encarou em momento algum.
—Vamos. - Puxou-o.
Ela notou o semblante arrependido, mas ele não se moveu. Certo, agora, argumentar vai funcionar.
—Trevor, você gosta quando uso a blusa de outro homem. Você faz piadas sem graça sobre adultério. Você quer fazer coisas arriscadas comigo num lugar em que pode ser visto. E, agora, porque tivemos que contar uma mentira necessária, que nem foi para você, vai se fazer de difícil do lado de fora? Pare com isso e venha. Ainda tenho que cuidar desses seus machucados.
Tirou a capa e jogou sobre ele, que pareceu grato, mas não se pronunciou.
—Não vá ficar mais tempo no frio.
Ele a puxou para um abraço calado, e ficaram olhando a chuva cair.
—Fui um idiota. - Ele a beijou no rosto.
—Foi.
—Acredito em vocês.
—Pois deveria, mesmo, desde o começo. Venha. Pago uma bebida.
—Jura? - Abraçou-a mais forte.
—Pareço estar brincando? - Ela ergueu a sobrancelha.
Trevor a pegou pelo queixo e a beijou, da forma como só fazia quando ninguém estava vendo.
