Trevor abriu os olhos com relutância, mesmo no escuro do quarto, e a primeira coisa que sentiu foi dor nas costas. Era difícil dizer, na verdade, o que doía mais: o rosto, o joelho, as costas em si ou algum detalhe que ainda não notara. Afundou o rosto no travesseiro e rolou devagar em direção a Sypha, deitada no canto da cama. Ela despertou e alcançou-lhe o queixo com um afago; arrastou-se para mais perto e se abraçaram, perto demais, tal qual era do gosto dele. O toque o lembrou da noite anterior, do gelo que ela lhe aplicara nos hematomas, do remédio que preparara, das mãos suaves massageando o que podia ser apertado, e também da recíproca; Sypha estava menos ferida, mas não o bastante para que ele ignorasse. Ao que se deitaram, ouviu-a recitar o cântico de Madre Bethania para ele num sussurro noturno, que, no silêncio da chuva, tinha ocupado todo o quarto.

De repente, Trevor sentiu a cama atrás de si se mexer e deu uma olhada para ver do que se tratava. Alucard se levantou dela e foi vasculhar a bagagem. Ele dormiu aqui? De onde estava, não conseguia ver o monte de palha para conferir se estava amassado ou não. Bom, que seja. De esgueira, conseguiu ver o outro atacar um bocado de bolachas duras de aveia com pedaços de favo de mel. Voltou a fechar os olhos, e se perdeu no abraço até ouvir um som de metal se estatelando no chão. Os dois se sobressaltaram e ergueram o corpo para constatar uma caneca de água derrubada, e Alucard encarando-a com falta de jeito:

—Perdão.

Não disseram nada e voltaram a se deitar, sob a felicidade tranquila daquela manhã. Ao que Alucard saiu e fechou a porta, Sypha murmurou:

—Ele não está bem.

—Nenhum de nós está. - Deu de ombros e a abraçou mais forte.

—É mais complicado que isso.

Trevor suspirou e se virou de peito para cima com uma reclamação de dor, Sypha se aconchegando em seu ombro esquerdo.

—Sabe, estou pensando em descansar hoje. Talvez amanhã, também. - Ele tirou uma mecha de cabelo do olho. - Minha perna está terrível.

E estou com vontade de devolver esse presentinho.

—Bom, não vai ser de todo ruim. - Sypha o afagava no peitoral.

—Mas, sobre o assunto de antes. Vejo se converso com ele.


Alucard subiu as escadas com uma sacola de pano em uma mão e uma caneca quente de chá de salgueiro-branco na outra. Pelo vitral do andar de cima, não entrava nenhum raio de sol daquele dia de garoa e tempo fechado, de fim de outono. Respirou fundo e sentiu-se recobrando as energias, da cabeça aos pés. A bela janela tinha um beiral no qual se sentar. Deixou a parafernália apoiada nele ao fazê-lo e abriu a sacola, contendo o diário e a pena. Montou-a, molhou-a de tinta e começou.

"Seria plausível se eu não voltasse para escrever esta página seguinte, mas aqui estou eu. Sim, eu sei: é curioso como funciona a mente. Por vezes, gostaria de me apagar como quem limpa poeira de uma mesa, mas ontem, reencontrei-me na fronteira entre a vida e a morte, e lutei como um desesperado para não atravessá-la. Não só pela minha própria vida, mas pelas vidas dos lá presentes que contavam comigo, e eu, com eles.

Katrina, a garota de quem falei antes, resistiu. Fora do choque e da loucura, parece uma garota doce e educada. Tem dezesseis anos, e não falou muito de si para mim, o que é bastante compreensível. Ela tem uma irmã mais velha, chamada de Thea pela família, suponho Theodora, que já deu a ela um sobrinho, e também um irmão mais velho que não tive a oportunidade de conhecer. Antes do infortúnio, não é difícil imaginá-los como uma família comum, trabalhadora, cheia de fé em Deus e no futuro.

Leo Alexe, nosso colega de hospedagem, com quem conversei muito brevemente, também vive. Diz Trevor que ele não acordou até que fosse hora de sair do hospital. Leo jogou-se do telhado da taverna onde estamos, tem dois membros quebrados, talvez algumas costelas, e só Deus sabe o que se passa em sua mente. O coração da velha freira, que descobrimos só depois ser Madre e se chamar Bethania, também batia quando a deixamos dormindo, mas ela é muito vivida e endurecida para se deixar abater pela cegueira que a acometeu. Continua incógnita a nós, no entanto, a origem da maldição de Ploiesti, tal qual outras formas mais eficientes e menos desgastantes de combatê-la além de lutar contra cada sombra uma por uma.

Se há outros amaldiçoados na cidade? Bom, eu creio que sim, e me pergunto se deveríamos lidar com as sombras deles. Sypha se indaga o mesmo, já que estamos todos em más condições e não é um trabalho dos mais fáceis. Ela é a que está menos ferida. Meu pescoço sofreu, meu rosto também e mais um pouco do meu corpo. Trevor está numa situação parecida, e ainda tem de bônus as marcas que lhe causei. Arrependo-me apenas um pouco. A ideia foi dele.

Sobre os dois, agora. Sypha primeiro. Aprecio, desde que a conheci, sua companhia, seus assuntos, a forma como vê o mundo, como lida com as coisas e pessoas. Acho-a talentosa e dedicada. Tem um saudável senso de humor. Preocupo-me com ela, pois acho que se entrega demais ao bem maior. E, bem… Seria mentira se eu dissesse que não há beleza nela. Tem feições delicadas e agradáveis, apesar do visual que adota, e minhas roupas velhas a servem muito bem, o que eu imagino que ela saiba.

Agora, Trevor. Não o odeio e não quero que morra. Ele é insolente, ríspido, cínico, e, por incrível que pareça, se retira de muitos problemas, mesmo que os tenha causado: 'não é da minha conta', ele diz, e cai fora como se não tivesse dedo no acontecido. Mas também admiro sua esperteza, engenhosidade, força e habilidade, todos os atributos fora do comum. Ele não é um homem qualquer. É um Belmont, por mais andarilho, bêbado e sem posses que tenha sido um dia. Bom, na verdade, andarilho, ele ainda é. Bêbado, também… Assim como sem posses. No entanto, é notável a diferença que o tempo e, por que não?, o amor fizeram nele.

E por que estou tocando no assunto:"

—Ocupado?

Alucard levantou o rosto e viu Trevor de pé à sua frente.

—Não o bastante para que não me interrompa. - Fechou o caderno. - Você deveria ficar deitado.

—Mais tarde. Quero aproveitar o dia de folga nesta boa taverna.

—E está me convidando? - Ergueu a sobrancelha.

—De certa forma.

—Sypha foi chamada?

—Eu e ela não nascemos grudados. Venha.

Desceu com ele as escadas para o salão. Àquela hora, uma ou duas pessoas estavam no local além de dois atendentes que conversavam no balcão. Escolheram uma mesa perto da lareira, e Trevor estendeu a perna na cadeira oposta à dele, soltando um som de alívio e comentando:

—Seria uma boa hora para aquela sua banheira.

—Como está a perna?

—E você ainda pergunta? - Trevor olhou-o torto.

—Só quis pegar você desprevenido.

—Esteja pronto para ter de volta. Também não vou avisar.

Um dos atendentes se levantou do balcão para ver se queriam algo, e o especial do dia era vinho quente. A caneca chegou fumegante, e era um pouco aguado, porém saboroso.

—Bem temperado. - Trevor olhou para dentro do copo. - Tem gosto de noz-moscada.

—Parece, de fato.

—Ao que interessa. - Trevor se aproximou e começou a falar bem baixo. - Estava aqui pensando. Certo, salvamos os três. E agora?

—Está falando de sermos pagos?

—Não só. O que eu quero dizer é: esse tipo de coisa não brota do chão.

—Correto. - Alucard tirou um momento para raciocinar. - São três pessoas, quatro se você contar o ladrão em Sohodol, que não parecem se conhecer, e sabe-se lá outras quantas que já morreram. Por quê?

—Exato. - Trevor pôs a mão no queixo. - O que alguém iria querer com isso? Vingança é que não. Dinheiro, também não.

—As hipóteses que me surgem são criar caos… Ou tirar vidas.

—Essa outra caneca sua, o que é?

—Chá de salgueiro. - Alucard olhou para o fundo dela. - Já acabou.

—Então, dê a casca àquele rapaz ali, e peça para que ele traga mais um.

Chamaram o atendente e pediram que ele fervesse mais do analgésico. Voltaram ao assunto:

—Bem, se formos pelo lado do caos. - Começou Trevor. - Acha que alguém planeja desestabilizar a cidade e invadir?

—Não é o que me parece. Ou, se for, é muito ineficiente. O povo está com medo, não em pânico. Não há incendiários ou bandos de vândalos, nada do tipo.

—E se formos pela vida das vítimas, então?

—Isso é uma coisa que todas têm… Ou tinham. - Alucard lembrou o ladrão, estrangulado pela própria sombra, e tocou o pescoço. - Você acha que um ladrão iria à igreja, Trevor?

—Por que a pergunta? - Antes que tivesse chance de responder, Trevor continuou. - Bom, pensando bem, talvez. Nem tudo é preto no branco.

—Pergunto porque a igreja me parece a única conexão entre todas as vítimas.

—É uma hipótese. E o que haveria nessa igreja, que amaldiçoa as pessoas?

—Seria o caso de irmos conferir nós mesmos.

—"Nós" é uma palavra muito forte. Hoje, preciso de uma folga. - Trevor se esparramou na cadeira.

—Justo hoje, dia de missa? - Alucard deu um risinho.

—Não creio. - Trevor soltou. - Tenho a opção de não ir?

—Tem. Eu vou, e deixo vocês aqui repousando.

Trevor suspirou, com um sorriso aliviado:

—Não vou chutar você, como recompensa.

—Agradeço.

—Talvez, só uma rasteira.

—Ah, me poupe.

Dando uma risada abafada, Trevor acabou com o vinho já de pé e deixou a mesa:

—Avise quando sair.

Alucard acenou com a cabeça e esperou que ele sumisse ao quarto para voltar às páginas do diário.

"E por que estou tocando no assunto: é complicado. Eu estava aqui quando os dois se conheceram; vir atrás de mim foi o que fez com que se conhecessem, na verdade. Não estariam juntos se não fossem as coisas se encaminhando de acordo com uma velha profecia, ouvida do futuro pelos Oradores. Estão juntos, e isso é fato."

Engoliu em seco. Sentiu uma palpitação, e começou a bater o pé de leve no chão. Vamos, não é como se alguém estivesse lendo. Os outros dois sabiam que mantinha o diário, mas de que isso importava? Aguardou que se acalmasse sem sucesso, respirou fundo, molhou a pena e forçou-se a completar a linha.

"E eu estou, no momento, com uma confusão pessoal interna que muito tem a ver com um dos elementos do casal. É aí que reside o problema.

Quando isso começou a acontecer é algo no qual não consigo por exatamente uma data. No entanto, nasceu como erva daninha em mim. Tal qual uma planta, quanto mais tempo se passar, mais tende a espalhar seus galhos e raízes enquanto for nutrida. É um ser que se alimenta da presença ao meu redor, da voz que fala comigo, do olhar que se cruza com o meu, e que, portanto, não vai morrer tão cedo. E aí, eu me pergunto, e pergunto a ela: o que eu sinto, por acaso… É o que você também sente?

E se for? O que vou fazer? O que vamos fazer? Sempre tenho a opção de ir embora sem olhar para trás, deixar que sigam seus destinos sem a minha interferência, mas isso seria abandoná-los à mercê da sorte num mundo onde ela está em falta. O castelo, meu castelo, minha casa onde nasci e cresci, está lá para me receber de portas abertas, para que eu durma até ser acordado novamente em algum tempo distante, por qualquer desastre que seja.

Mas… Por que eu faria isso? Não adianta mentir para mim mesmo: deixá-los, principalmente a ela, é a última coisa que quero. Às vezes, acho que devo, que seria melhor, e, nesse tipo de momento, concordo com isso com uma veemência inexplicável. No entanto, é como eu disse a ela naquele dia; meus desejos verdadeiros não são os mesmos de quando minha assombração pessoal tapa meus olhos e sussurra em meus ouvidos. Apesar das feridas, do álcool e do que se passa comigo, quero continuar aqui, por pior que seja lidar com o mundo lá fora vez ou outra.

Retornarei quando tiver mais esclarecimentos sobre tudo isso. Até breve."


Sypha ouviu as dobradiças da porta, mas não se dignou a abrir os olhos, perdida nas cobertas e travesseiros da cama espaçosa. Sentiu alguém se deitar com ela, e também dispensou a necessidade de ver; estava escuro no quarto de qualquer maneira.

—Que demora. - Ela bocejou.

—Nem foi tanta, vai.

Foi abraçada outra vez, daquela forma que ela conhecia bem. Perguntou:

—Como está seu rosto?

—Razoável. - Trevor fez cara feia. - A perna é que está um lixo.

—Arnica?

—Por favor.

Sypha saiu da cama enrolada em uma das mantas para pingar a solução de álcool num copo d'água. Ocorreu-lhe a dúvida:

—O gosto disso é bom?

—Não, mas não discuto com remédios. Muito menos com esse.

—Posso provar? - Ela caminhou até a cama e o estendeu o copo.

Ele o tomou de um só gole, brindando sozinho. Sypha riu, deu de ombros e voltou para a cama, exatamente para a posição de antes. Seria pedir demais parar o tempo, só um pouco? A sonolência quase lhe voltava.

—Não sonhei nada hoje. - Trevor comentou, como que sozinho. - Nada. Dormi como uma pedra.

—Que bom.

Sem pesadelos e sem sustos, não é? Chegou mais perto e o beijou no rosto.

—Mas, sobre ontem. - Ele mal teve tempo de começar e Sypha já revirava os olhos. - Não aconteceu nada, mesmo?

—Claro que não, por favor. Como eu teria tempo para adultério com as mãos ocupadas, gente me olhando e uma vida em perigo?

—Eu só… - Está inseguro, é assim que se chama o sentimento. - Só tenho medo de perder você.

—Não vou a lugar algum sem você do lado.

O olhar de súplica dele logo se fechou ao que ela aproximou os rostos e os lábios de ambos. Segurou-o onde sabia que não doeria, com gestos comedidos. Sei que não vai pedir desculpas, mas que seja isto. Tratou de se esquecer um pouco das coisas. As mãos de ambos começavam a ficar mais à vontade, e o beijo se tornava mais profundo. Quando Trevor começou a levantar-lhe a blusa, ouviram o ranger da porta. Merda, está destrancado. Alucard passou dois segundos ali até soltar um pedido de desculpas e fechar a porta de novo. Ela e Trevor se encararam e deixaram sair uma risada nervosa ao mesmo tempo. Voltaram ao beijo, com mais suavidade.


Alucard desceu as escadas para o salão e viu a porta da taverna aberta, com um dos atendentes, um rapaz de uns quinze anos, diante dela. Perguntou a ele:

—O que está acontecendo?

—Não sei, senhor. - Olhou por cima do ombro. - Aquela não é a caravana?

Pediu licença para ver a aglomeração de pessoas na praça da Árvore, um ajuntamento ao redor de um palco meio montado. Havia gritos e xingamentos de todo tipo, entre eles, de que havia ali servos do Diabo. Alucard deu um passo para fora da taverna e viu um enorme homem de braços abertos, junto a alguns guardas, tentando enxotar a multidão.

Vindo de cima, ouviu a janela de um quarto ser aberta e viu Trevor e Sypha colocando a cabeça para fora dela. Pouco depois, desceram os dois às pressas, com os cabelos bagunçados e colocando as roupas no lugar. O atendente da taverna voltou ao serviço, e saíram do estabelecimento para ver o que se sucedia em mais detalhes. Ao que se aproximaram, ouviram com mais clareza uma voz esganiçada de mulher no meio do povo, berrando toda forma de insulto e incitação raivosa. Trevor foi na frente abrindo caminho até se depararem com uma freira jovem, com a face vermelha de ódio.

—Irmã, o que está acontecendo? - Trevor perguntou.

—Estes vagabundos jogaram a desgraça sobre Ploiesti! Foram eles. E queriam apresentar de novo suas artes do Diabo. Eu vi, vi ontem o demônio no hospital. É horrendo! E o possuído não acorda!

Elevando a voz o bastante para que a multidão próxima escutasse, Trevor respondeu:

—Eu não me lembro de ter visto você ontem no quarto de pacientes, irmã.

—O que está dizendo? - A freira tinha feição de surpresa.

—Havia muitas irmãs lá, mas você não. - Trevor apontou para si mesmo com o dedão, ao que as pessoas pararam para escutar. - Eu libertei o possuído. Estão ouvindo? Eu mesmo, com este chicote aqui, e esta espada bem aqui.

O povo que os rodeava silenciou, e o resto da aglomeração começou a fazer o mesmo para observá-los, um ou outro cochichando.

—Querem ver? - Trevor abriu os braços. - Estou péssimo, vejam só o estado da minha cara. Minha perna aqui também. Mas posso demonstrar o que estas belezinhas fazem. Agora, quem teve um amaldiçoado na família?

Alguns do povo ergueram as mãos.

—E quais deles vieram ver a trupe?

As mãos erguidas se abaixaram, em sua maioria.

—Quem veio ver a trupe, e nada aconteceu? - Trevor tinha um sorriso vitorioso.

A maior parte das mãos se levantou.

—Juram por Deus que falam a verdade?

—Não diga o nome Dele em vão. - A voz da freira soou cavernosa.

Alucard viu os olhos dela se enegrecerem por completo. Deu um passo para trás e impeliu as pessoas em volta a fazerem o mesmo, com os braços abertos. Trevor pediu:

—Sypha, luzes.

Ela acendeu uma chama e projetou a longa sombra da freira naquele dia sem sol, enquanto recitava o cântico de Madre Bethania. A maioria da multidão começou a dispersar, alguns correndo de medo, outros apenas abrindo espaço. A freira gritou, tapando os ouvidos com as mãos e caindo de joelhos enquanto a sombra se levantava do chão. Trevor tirou a espada do cinto e a arremessou à curta distância para Alucard, dizendo:

—Essa, deixo com você.

—O que faço com esta faca de cozinha? - Ergueu a sobrancelha, desembainhando a espada curta.

—Dê seu melhor. - Trevor apontou para a freira caída de bruços.

A sombra saltou para o topo da carruagem da trupe e lá se empoleirava, como se tivesse quatro patas. Sobraram poucos curiosos do tumulto de antes, a trupe itinerante ajuntada em um canto aos pés da Árvore e os guardas da cidade com lanças em riste. Os cavalos da trupe começaram a entrar em pânico e um rapazote correu para apaziguá-los. Alucard olhou para a espada e suspirou. Bom, não dá tempo de ir buscar a minha. Pulou em direção ao alvo.

A nova sombra era ágil e desviou dali para um telhado com uma acrobacia. Alucard fez o mesmo, de telhado em telhado, aos saltos. Cada golpe desferido com a espada curta era um erro de distância, a sombra caminhando e pulando de costas, girando o pescoço por completo para ver aonde ia. Deu um passo à frente e teve que recuar ao sentir um espinho de gelo de Sypha passar a milímetros de seu rosto. Ela atirou outros, os quais a criatura evitou com maestria; Alucard teve que pular para não ser furado por um ou outro.

A sombra foi para a copa da Árvore, agarrando-se aos galhos, e Alucard teve que adentrá-los. Tentou espetá-la enquanto saltava de galho em galho, e, quando se aproximou o suficiente para um corte bem-sucedido, uma bofetada no rosto da enorme mão o atirou longe, no calçamento. Ficou de pé espanando a roupa quando viu a sombra notar de onde vinham os espinhos de gelo e dar o bote em Sypha, que teve tempo de virar o rosto para ver. A Estrela da Manhã de Trevor estalou e laçou os pés da sombra como faria uma boleadeira, e ele arrastou o peso da criatura pelo chão. Alucard se aproximou dela devagar e evitou que se debatesse pisando em ambos os pulsos. A sombra girou o pescoço para trás e ecoou com a voz profunda, que vinha de um rosto sem boca:

—Prazer em conhecê-los.

Vejo você no Inferno. Alucard respondeu:

—Morra calado.

Cravou-lhe a espada na cabeça, espetando-a mais fundo até que o grunhido ensurdecedor cessasse. Quando o corpo escuro começou a se desfazer, olhou em volta e viu os guardas erguendo a freira inconsciente do chão, apoiando-a aos pés da Árvore. A sombra desapareceu no ar, e os três se aproximaram da caravana, que ainda se encolhia atrás do homem grande que os protegera.

—Obrigado. - Disse ele, com um forte sotaque. - Muito obrigado.

—Você não é daqui? - Trevor perguntou.

—Não, ele é francês.

Aproximou-se uma mulher, a cantora da apresentação que viram; era também grande, mas magra e de cabelos escuros presos num rabo baixo. Ela agradeceu e continuou:

—Estaríamos mortos se não fosse por vocês. - Ela suspirou. - Meu nome é Rosa. Creio que notei vocês ontem…

—Viemos ontem, de fato. Sou Adrian, prazer. Esta é Sypha, e aquele é-

Olhou para o lado e não viu Trevor. Ele se retirara para um canto para trocar frases em francês com o grandalhão. Rosa perguntou a Sypha:

—O rapaz ali fala francês?

—Sim, é uma coisa de família. - Sypha coçou a cabeça. - Até consigo ler um pouco do idioma, mas…

—Ler, é? - Rosa abriu um sorriso.

—Algum tanto. Nunca me deparei com muitos livros em francês.

Sentaram-se para conversar nas raízes da Árvore, enquanto Alucard ficou de pé recostado a ela, ouvindo de braços cruzados. Captou alguns detalhes como Rosa comentar que também contava histórias em algumas apresentações, e os nomes de alguns dos artistas. Um dos guardas que vigiava a freira logo se aproximou de Rosa, ordenando que teriam até o anoitecer do dia seguinte para saírem de Ploiesti, finalizando:

—Já houve e há confusão o bastante. Espero que entendam.

Rosa disse "sim, senhor" e "não, senhor" o suficiente até que ele fosse embora. Quando virou as costas, comentou com Sypha:

—Acontece. - Deu de ombros. - "O povo isso", "o prefeito aquilo"… Até duramos aqui em Ploiesti. O que é bom. Gostei do lugar.

—Tem estado conturbado aqui, mas que bom, eu acho. - Sypha sorriu com gentileza.

—Também, com as coisas que se encontra por aqui… - Rosa devolveu a ela outro tipo de sorriso.

Alucard abafou uma risada ao ver Sypha ficar sem palavras e com o rosto vermelho.

—Eu… - Ela gaguejou. - Bem, como explicar…

—É uma pena. - Rosa suspirou e estendeu a mão. - Amigas, então?

Sypha a apertou sem muita convicção. A outra começou a desabafar, com o olhar distante:

—Sabe, é que tenho tentado ocupar meu coração. Conheci uma mocinha encantadora. Mas é tão difícil vê-la… Nem sei onde mora. Nós nos conhecemos quando ela me deu moedas, tal qual você quase fez ontem. Eu a vi algumas vezes atrás de uma ferraria, mas parece que os pais a trancaram no quarto. Acho que me descobriram.

—Como se chama? - Sypha perguntou.

—Katrina é o nome dela.

Alucard arregalou os olhos. Aquela Katrina? Lembrou o sussurro da garota na noite de terror. "Sou uma pecadora." É disso que ela estava falando. Aproximou-se das duas:

—Perdoem-me a intromissão, mas sabemos o que aconteceu com ela.

Contou a Rosa tudo o que achou que pudesse contar, e, a cada frase, o espanto da moça crescia. Alucard sentiu o coração se apertar.

—Como ela está agora? - Rosa perguntou, como se suplicasse.

—Estava tremendo quando a deixamos. - Balançou a cabeça. - Não creio que tenha parado.

—Céus.

Um sino soou não muito longe deles. A igreja da praça da Árvore dava as badaladas para anunciar a missa, e o som despertou a freira desacordada. Ela mal abriu os olhos e começou a gritar em pânico. Trevor e mais um membro da trupe, um garoto à beira da adolescência, correram até ela.

—Minhas pernas. - A freira estava estática. - Não sinto minhas pernas!

—Você. - Trevor apontou o garoto. - Vou colocá-la na carruagem de vocês. Mande levarem-na ao hospital.

—Certo, senhor. - Ele fez que sim com a cabeça.

Trevor a recolheu do chão com cara de desinteresse na tarefa, mas ela não deixava de olhá-lo muito torto. Perguntou:

—Disseram que havia um Belmont no hospital. Era você, não era?

Ele não respondeu.

—Hereges. - Ela tinha raiva na voz. Trevor continuou a ignorá-la. - Deveria deixar a cidade e nunca mais voltar.

Soltou-a na parte de trás da carruagem sem muita delicadeza e desejou:

—Melhoras, irmã. Deus abençoe.

O grandalhão francês e os dançarinos desmontaram o palco o mais rápido que foram capazes, e logo a carruagem partiu.

Com o tempo e o som do sino, o povo voltou a se aproximar da Árvore para a missa, se esgueirando pelas ruas e evitando passar perto da caravana.

—E pensar que eu só queria um dia de folga. - Trevor resmungou ao se aproximar dos outros três.

Quando ele chegou, Rosa o olhou de cima a baixo e perguntou:

—Eu ouvi Belmont?

—Sim, senhora.

—Há algo que eu não saiba sobre vocês?

—Talvez um monte de coisas. - Trevor coçou a cabeça. - Por quê?

—Pago-lhe bebida e me conte todas mais tarde. Onde é que estão hospedados?

Os três apontaram na direção da taverna ao mesmo tempo. Rosa comentou:

—Bom gosto, pelo visto.

—Agora, se me permitem, quero muito deitar naquela cama. - Trevor se espreguiçou. - Chamem se o mundo estiver em chamas ou coisa assim.

Ele se abaixou para beijar Sypha e deu tapinhas no ombro de Alucard, que devolveu um olhar de amigável desdém. Alucard se desencostou da Árvore e falou com Rosa:

—Com licença, mas vamos à missa agora. Procure-nos na taverna mais tarde, se for o caso.

—Na verdade, senhor, há algo no qual preciso da ajuda de vocês agora mesmo.

—E seria…? - Ergueu a sobrancelha.

—Gostaria de encontrar Katrina antes de partir.

—Vá com ela, e eu vou à missa. - Sypha também ficou de pé.

—Parece um bom plano. - Alucard fez que sim com a cabeça. - Volto em breve.

Rosa o seguiu em direção à saída da cidade onde ficava o estábulo. Ela olhava em volta com curiosidade. Alucard perguntou:

—Onde costumam se ver?

—Creio que seja algumas ruas à esquerda. Acho que consigo me encontrar.

—Aguarde lá. Volto logo.

Bateu à porta do estábulo e foi atendido por um rapaz que não conhecia, talvez pouco mais velho do que Alucard.

—Cavalos, senhor?

—Não, na verdade. A senhora sua mãe está? Gostaria de falar com ela.

O rapaz o olhou com estranheza e saiu para chamar. A miúda mulher apareceu e o reconheceu, carregando o semblante ainda preocupado.

—Senhor Adrian. - Ele vislumbrou um brilho no olhar dela. - O que o traz?

—Vim ver como está Katrina.

—Venha, venha. Ela está na cozinha comigo.

Pisar dentro daquele lar tinha muito menos peso do que antes. A garota estava sentada à mesa com um bastidor de um bordado iniciado. Ela largou as agulhas assim que o viu e correu para abraçá-lo.

—Bom ver você. - Sorriu para ela. Katrina o soltou, mas quando o estava segurando, sentiu que ainda tremia. - Como está?

—Melhor. Mas olhe. - Ela estendeu a mão para que visse o tremor nos dedos. - Estou tentando bordar. É para o meu sobrinho, mas está levando o dobro do tempo.

Lembrou a Madre cega e a freira do tumulto que não sentia mais as pernas. Eu poderia mentir para você de novo, mas não vou. Deu uma olhada no caprichoso bordado, um contorno cinzento de ave.

—Está ficando muito bom. É um pato?

—É, sim. Os pequenos gostam. - Ela fez que sim com a cabeça. - Gosto também.

A mãe de Katrina ia de um lado para outro da cozinha enquanto os observava em meio a panelas e colheres de pau. Aproximou-se para perguntar:

—Não vieram os outros dois, senhor?

—Estão feridos e cansados, mas sob bom cuidado.

Agora, por favor, não me pergunte sobre minha esposa. Evitou rir da própria piada. Quando a senhora deu as costas, sussurrou para Katrina:

—Tenho algo para você. Venha.

Ela fez que sim e pediu à mãe:

—Posso dar uma volta, mamãe? Estarei em casa cedo.

A mãe a avaliou com o olhar preocupado que sempre tinha. Disse à filha:

—Hoje é dia de missa, Katrina. Deveríamos ir agradecer à bênção da sua melhora.

E essa é a última coisa que vocês vão fazer. Teve um repente de ideia:

—Vou com ela pela redondeza, senhora. Vou me garantir de que ela chegue em segurança.

A senhora ponderou de cabeça baixa, até que permitiu. Ajudou que Katrina calçasse bons sapatos, e ela se despediu da mãe com um gracioso aceno. Saíram de braços dados, o que, notou, era difícil para que a garota alcançasse. Perguntou com uma risada:

—Gostaria que eu me abaixasse?

—Por favor, senhor. - Ela devolveu o bom humor.

—Não precisa me tratar por senhor. Sou mais jovem do que pareço.

—Quantos anos tem?

—Completei dezoito ainda neste ano.

—Parece mais.

—É o que me dizem. - Ele tirou uma mecha de cabelo do olho, com um sorriso.

—Aonde estamos indo?

—Caminhar, apenas.

—Mas você não conhece Ploiesti. - Ela o encarou. - Mamãe me disse que você e os outros não são daqui.

—Fique tranquila, sei aonde estou indo. - Parou um segundo para pensar. - Na verdade… Pode me mostrar onde fica a ferraria?

Ela soltou seu braço e deu dois passos para trás.

—Como sabe? - Katrina perguntou, aterrorizada.

—Confie em mim. - Estendeu a mão a ela. - Não vou contar a ninguém.

A garota relutou até segurar sua mão, que tremia mais do que antes, e o guiou até lá. Deram a volta no lugar e Rosa os aguardava jogando uma pedrinha para cima até ouvi-los chegar. Katrina correu na direção dela e se abraçaram com lágrimas nos olhos.

—Aguardo nas redondezas, e depois, deixo você em casa. - Alucard disse.

—Não precisa, posso voltar sozinha. - Katrina enxugava o rosto.

—Não acho que sua mãe vá ficar muito contente.

—Eu a deixo lá, como bom cavalheiro. - Rosa deu risada.

Alucard deu de ombros e se foi para a taverna.