Sypha adentrou a igreja cedo e mirou os bancos do meio: perto o bastante para ver o que se passava, mas longe o bastante para evitar atenção. Tirou o capuz para entrar. Ainda bem que não estou mal vestida. Olhou para a camisa emprestada de Alucard sob a capa. Também usava uma echarpe cor de areia, que puxou de leve sobre o rosto. A seu lado, sentou-se uma família com cinco crianças de várias idades, que faziam bastante silêncio em comparação com o que esperava. Observou ao redor. Tudo normal até então… Tão normal quanto pode ser uma Oradora numa igreja. Evitou dar risada.

A missa começou com o rito de canções dos quais se lembrava nos livros. O coral era afinado e bem ensaiado, e, algumas canções depois, o severo padre começou o sermão. Falou de família, proteção e cuidado, com uma voz que subia e descia como o cântico da Madre, e um olhar fixo, penetrante. Sypha sentiu vontade de cochilar no banco quando ouviu um dos garotos da família ao seu lado fazer uma pergunta à mãe e ser repreendido com um pedido de silêncio. Despertou a contragosto para ouvir o padre pregar:

—Pois, em tempos como estes, é necessário que se tenha cautela. O Diabo age, e, muitas vezes, age em silêncio. Portanto, desconfiem do que o mundo os oferece, e mantenham a fé em Deus.

Sypha estreitou os olhos para enxergá-lo melhor. O padre gesticulava pouco, e também andava pouco pelo altar. O sermão se seguiu no mesmo tom de alerta, até as leituras finais e a hóstia. Teve a chance de encará-lo de perto e ver o rosto sério que já acumulava algumas rugas, mas não ouviu muito mais do que um "Deus abençoe" e não sentiu mais do que gosto de farinha na boca.

Uma ponta de decepção a acompanhou na saída da igreja. Bom, pelo menos, eram belos vitrais. Na Árvore, que pouco lembrava o tumulto das horas anteriores, viu Alucard sentado em uma raiz, olhando a passagem do tempo. Ele notou sua aproximação e perguntou:

—Como foi?

—Normal… Mas esquisito.

—Espere, como? - Ele riu.

—Vamos voltar e explico. - Notou o caderno nas mãos dele e não pôde conter a curiosidade. - O que está escrevendo?

—Nada, por ora. Vamos. - Ficou de pé.

A tarde chegava ao fim e um vento gelado os atingia fora da taverna. Do lado de dentro, a lareira acesa atraía os presentes, e o movimento era grande. Avistou Trevor em uma das mesas num canto, com o pé esticado sobre o colo de Rosa. O resto da trupe também estava lá, mesmo os mais jovens, ocupando o resto das mesas em volta. A cantora olhava Trevor com uma atenção curiosa, sem o flerte que alvejara Sypha durante a tarde.

—E tínhamos também uma espécie de farol que… - Trevor interrompeu e se virou para os recém-chegados. - Ei. Puxem cadeiras a mais.

Incomodaram os clientes de outras mesas atrás dos bancos vazios, e ele fez questão de sentar Sypha bem ao lado, envolvendo-a com um braço e beijando-a sem pudor algum. Quando se desafogou, Sypha notou um pontinho loiro ao lado de Rosa, com uma caneca na frente. Hã? Katrina estava escondida da maior parte dos transeuntes, mas era um visível peixe fora d'água na taverna barulhenta. No entanto, portava um riso de quem muito se divertia. Alucard falou com ela, num leve tom de repreensão:

—Devia estar em casa.

—Não vou demorar. - Arrastou o copo. - Olhe, me deram chá com vinho.

Ela não levantava o copo, com as mãos trêmulas, e tinha que se contentar em beber da borda da caneca. Sypha a advertiu, meio brincando:

—É doce, mas cuidado, ou vai passar mal.

—Acho que todo mundo avisou. - Katrina deu de ombros.

As coisas que fazemos aos dezesseis anos. Sypha pediu sidra a uma atendente e ouvia os animados relatos de Trevor sobre a família e a Fortaleza. Rosa o enchia de perguntas, tão empolgada e talvez tão bêbada quanto. Desistiu de dar um puxão de orelha em Trevor; não era comum que falasse do passado, e menos ainda que o fizesse sorrindo. Não quero estragar o momento. Sypha retribuía seus galanteios e dava um desconto para seus eventuais apertões indiscretos. A mesa da taverna acabou se transformando numa longa aula sobre a árvore genealógica dos Belmont, entre outros detalhes e percalços da história do clã.

Antes que escurecesse, os membros da trupe se levantaram e organizaram uma retirada conjunta. Sypha notou as mal disfarçadas mãos dadas de Rosa e Katrina, assim como o evidente sorriso, olhar e falta de jeito. Rosa fez uma mesura e comentou com os que ficavam:

—Paramos a carruagem na saída a Targoviste, e pela manhã, já estaremos longe. - Ela cutucou a bochecha de Katrina. - E esta moça estará em casa, em sua cama quente, às oito em ponto, não é?

—Sim, senhora. - A garota riu.

Estão tranquilas demais… Partiram todos a pé acenando para trás, e ficaram os três na taverna cheia. Voltaram a se sentar.

—Então, a igreja. - Sypha suspirou de cansaço. - Pareceu uma missa como qualquer outra. Mas o padre… Havia algo com ele.

—Algo, como? - Trevor ergueu a sobrancelha.

—Ele não se movia muito, e falava como… Como se estivesse recitando, ou cantando. E estava sério, tal qual todo padre, eu acho.

Sypha recordou quando se aproximava do momento de receber a hóstia. O rosto dele…

—Espere. - Sypha sentiu um gelo na espinha. - Ele não piscava.

Todos da mesa se calaram.

—Quais as chances de estar amaldiçoado? - Trevor se atreveu.

—Quais as chances de que esteja morto? - Rebateu Alucard.

—Vamos ver o que há naquela igreja. - Trevor tirou a perna da cadeira com um grunhido de dor e a dobrou sob a mesa. - Na verdade, vão vocês. Ainda preciso de uma tonelada dessa arnica. Agora vou aceitar que me carregue no colo escada acima.

—Quem, eu? - Alucard apontou para si mesmo com um sorriso irônico. - Espero que esteja brincando.

—Nunca falei tão sério. Faça isso, e não vou te chutar. Desta vez, de verdade.

—Mesmo?

—Promessa é dívida.

Alucard riu e se abaixou para segurá-lo.

—Cuidado.

—Eu é que o diga. - Respondeu Trevor.

Ergueu com cautela os vários quilos de Trevor, que resmungou mesmo assim. Sypha e a taverna inteira pararam qualquer coisa que fizessem para olhar. Alucard deu o primeiro passo:

—Segure direito.

—Você também. - Trevor deu a volta com um braço no pescoço do outro.

Sypha subiu correndo na frente com as chaves e abriu a porta antes que chegassem. Alucard o largou na cama como a um saco de batatas. Trevor resmungou:

—Ai. Grato. - Espreguiçou-se. - Sypha, pode lidar com o curativo aqui?

Ela acendeu uma vela e se aproximou para desenfaixar-lhe o joelho. Limpou os restos de arnica e macerou uma nova, de acordo com o que a dona da taverna tinha lhe dito para fazer. Trevor suspirou de alívio e se esparramou na cama depois que terminou. Também pediu que alguém buscasse água fervente para o chá de salgueiro-branco, e Sypha foi atrás de um atendente no andar de baixo. O próprio dono da taverna foi levar a caneca, perguntando com cordialidade como estavam. Muito atencioso, mas vamos ter que desconversar. Ao que ele fechou a porta, Sypha beijou Trevor no rosto e desejou que descansasse. Conformado, ele respondeu:

—É o que quero fazer desde que acordei.

Alucard teve o cuidado de pegar a espada. Acho mesmo que vamos precisar dela. Olharam uma última vez pela janela para se certificarem da falta de tráfego e desceram.


Trevor enrolou-se nas cobertas. Fazia mais frio no quarto do que ao redor da lareira, no salão cheio. Tomou o chá em goles curtos, olhando para nada específico. A sede, ainda assim, o alcançou, uma que ele poderia matar com facilidade pagando o preço da dor no joelho e descendo a escada. Havia silêncio o suficiente no andar de cima; clima propício para se pensar. E eu não quero pensar. Fechou os olhos e deu um suspiro profundo. Deixou a caneca no chão e deitou-se melhor na cama, virando de posição em posição até desistir de achar um pouco de conforto. Aos poucos, a perna doía menos, mas o ímpeto de usar a taverna para o que ela foi feita já tinha passado. Não quero pensar. Mas era difícil impedir a si mesmo.

A primeira coisa que o ocorreu foi uma voz, depois um rosto; a face do pai, que era um porto seguro, uma rocha, mas com um coração. Depois, a mãe, cujo temperamento mudava como o tempo. Os dois irmãos, o mais velho e a do meio, cada um dos três com uma réplica de brinquedo das armas que usariam um dia. Todos eles presos, levados a sabe-se lá onde, e nunca mais os viu. Não pude nem enterrá-los. O fogo, que levava tudo o que era superfície da imponente Fortaleza com ele, transformava em cinzas cada memória concreta, exceto o que se escondera sob o chão. Os dias que passou largado em meio às ruínas, desenterrando um animal chamuscado para comer, sem saber para onde ir em seguida. Sohodol não o aceitaria nem como pedinte, então caminhou e caminhou até não saber mais onde estava. Guardava as coisas que conseguira juntar dos destroços numa fenda de telhado, como um tesouro que o mundo não podia roubar dele, e dormia sonhando com o dia em que acordaria na própria cama depois de um pesadelo qualquer. Quando se deu conta de que não havia mais rastro de presença dos outros dois no quarto, já estava chorando há muito tempo.

"Você está triste o tempo todo, só não percebe." Era mais fácil quando não percebia. E era também mais fácil quando Sypha estava lá para ouvir, ou que fosse para abraçá-lo até que a sensação sumisse. Ela já sabia de muito, e um dia saberia de tudo; não era como se fosse privá-la. Mas não quero que me entenda, nunca. E havia quem entendesse? Lembrou Alucard a contragosto. Ele deve entender. Limpou o rosto com as mãos, o que adiantou de pouco; continuava a soluçar. Agarrou o travesseiro até que os dedos ficassem sem sangue e só o soltou quando não os sentia mais. Inspirou pela boca, o peito se retorcendo de dor, até que suas energias se foram, e, enfim, dormiu.


Sypha dava a volta na igreja central para iluminar o caminho, em direção aos aposentos do padre e ao cemitério, e Alucard a seguia. A residência ficava junto à parte de trás da construção, e tinha longas janelas estreitas bastante fechadas para o gosto de ambos. A porta principal também está trancada. Só resta… Alucard olhou para a torre do sino, depois para Sypha.

—Subimos lá? - Perguntou ele.

—Por que não?

Levitaram os dois até o topo, pousando perto do grande sino. O alçapão cedeu com um pouco de esforço e algum barulho, no outrora absoluto silêncio. Desceram as apertadas escadas lado a lado. Alucard viu Sypha dar um passo em falso em um degrau partido cheio de lodo e quase rolar espiral abaixo; foi rápido o bastante para segurá-la pela cintura.

—Cuidado. - Sussurrou, soltando-a sem delongas.

Ela agradeceu no mesmo tom e aumentou o tamanho da chama que os guiava. No térreo, a porta não estava trancada, e se abria para um pequeno saguão empoeirado, cuja saída seguinte deveria ser paras os fundos do altar. Alucard viu as próprias marcas de pegadas no chão e comentou:

—Isto aqui precisa de uma faxina. - Coçou o nariz. - E este cheiro…

—Uma beleza, não? - Sypha espirrou.

—Não, não o de poeira.

Seguiu para uma das três portas, pisando leve no chão de madeira que devia ranger um bocado, e fez sinal para que ela se aproximasse no mesmo silêncio. Abriu-a e caminharam até encontrarem a cama. Viram um corpo de batina estirado sobre os lençóis claros, com a cabeça em cima de uma mancha escura. O quarto começava a rescender a decomposição.

—Estava morto. - Sypha gaguejou. - Conduziu a missa morto.

Deu um passo para trás e diminuiu a chama. O cadáver saiu da cama e saltou sobre eles com as mãos esticadas.

Alucard teve tempo de desembainhar a espada para aparar o golpe, que o corpo retribuiu segurando a lâmina com as duas mãos e fazendo inesperada força para a frente. Sentiu-se arrastado para trás, e brandiu a espada com um cuidadoso golpe giratório que evitou Sypha e o atirou à porta do quarto, estilhaçando a madeira e dando a chance à enorme sombra que o controlava de fugir para o altar. O corpo restou à entrada do quarto, atirado como um boneco de pano e sem movimento.

—Já estou me cansando disso. - Reclamou ele.

Correu para o altar também e Sypha seguiu em seu encalço.

No salão da igreja, ela projetou um amplo selo na porta com uma mão. O brilho foi o bastante para enxergar a sombra uma vez. E agora, tenho bastante espaço. Avançou sobre ela e levou um chute que teve que bloquear com o braço. Outro golpe de espada, a sombra desviou abaixando-se e sumindo na escuridão da igreja. Sypha aumentou o raio de luz da chama, mas ele ainda não pôde vê-la. Ela, então, ateou fogo à grande cruz do altar. A sombra riu como uma maníaca. Alucard encontrou a criatura no teto da igreja e disparou contra ela. Rebatia-se de um canto para outro com um golpe atrás do outro, evitando pisar nos vitrais, enquanto a sombra escapava dele em alta velocidade.

—Sypha, congele!

Com a mão restante, ela começou a resfriar o ar do ambiente. Alucard conseguiu atingir um golpe e a força do brandir atirou a sombra ao chão, sobre os bancos da igreja. Propulsionou a si mesmo do teto para o piso com a espada apontada para a cabeça da aparição. Quando a cravou, ela não cessou a risada que estremecia as paredes até desaparecer.

O fogo na cruz do altar começava a se alastrar, e Sypha atraiu os pingentes de gelo para arremessá-los nas chamas. De pouco adiantou, e ela manipulou a água benta da fonte perto da porta para apagá-las de vez.

—Acha que chamamos atenção? - Perguntou Alucard, ofegante.

—Tanto faz. - Ela deu de ombros. - Amanhã vão descobrir, mesmo.

Tornaram a sair pelo mesmo trajeto e voltaram flutuando até a janela da taverna. Quando a fecharam, Trevor acordou assustado, olhando ao redor. Quando os viu, deixou-se cair na cama de novo, perguntando:

—Como foi?

—O padre estava morto. - Alucard suspirou. - Não estava muito podre.

—Mas que coisa. E o que mais?

—Quase pus fogo na igreja. - Sypha apagou a chama e se deitou. - E você?

—Fiz o que disse que ia fazer, e pretendo continuar.

—Descansemos todos, então. - Alucard se acomodou no monte de palha.


Trevor sentiu a cabeça doer e abriu os olhos com dificuldade, sem fazer ideia de que horas eram. Aquilo ali é sol fora do quarto? Sorriu sozinho. Ouviu grosseiras batidas à porta e se levantou para destrancá-la. Um guarda mal-encarado e mais outros dois atrás dele o examinaram, e sentiu a espinha gelar. De canto de olho, viu Sypha e Alucard acordando com a movimentação.

—Você é o Belmont? - Resmungou o guarda.

—O próprio. Algum problema, senhor?

—Venham conosco. Todos os três.

Deu um passo à frente e o guarda o barrou com o braço:

—Deixe as armas, amigo.

Trevor suspirou, tirando a Estrela da Manhã do cinto e largando-a na cama. Os outros dois ficaram de pé e Trevor fez um gesto com a cabeça para que o seguissem. Desceram a escada observados por clientes e funcionários da taverna e saíram à praça, cercados pelos guardas. Do lado de fora, o aparente chefe ergueu a voz:

—Mãos para cima. Os três estão presos.

Não creio. Os outros dois guardas ataram os pulsos de todos com um forte nó de cordas grossas. Caminharam até um prédio que Trevor acreditou ser a prefeitura e deram a volta nele; nos fundos, um dos três guardas abriu um alçapão e ordenou que descessem a escada, para um quase completo escuro.

O corredor era mais largo do que o da pequena prisão de Sohodol, mas não por isso menos sufocante. Cada guarda direcionou um dos três a uma cela vazia, deixando-os com as mãos amarradas e sob o olhar de um vigia sentado em um toco de madeira não muito longe. Trancaram-se as celas, e cada um se deixou cair no chão com seu desgosto particular. Sypha tentou dizer algo que ninguém teve tempo de entender; o vigia pediu silêncio.

As horas se passaram todas iguais, contando as pedras da parede, até que Trevor ouviu o som de passos descendo a escada e identificou o primeiro guarda na pouca luz da prisão.

—De pé, Belmont. - Destrancou a cela.

Obedeceu com desconfiança e saiu.

—Caminhando à minha frente. Vamos.

—Já sou um homem livre? - Trevor perguntou.

—Não.

Seguindo na direção oposta de onde vieram, subiu outra escadaria e o guarda abriu outro alçapão, levando ao interior da prefeitura. Em uma sala de aspecto mais amigável, cheia de papéis que o guarda decerto não era capaz de ler, também foi ordenado que se sentasse. À porta, os outros dois guardas estavam de prontidão.

—Se interrogassem todos assim, e não com espetos quentes, talvez conseguissem confissões melhores. - Trevor sorriu de esgueira.

O guarda não riu e perguntou:

—Onde estava três dias atrás?

—Na estrada para Ploiesti, senhor.

—Tanto você quanto os outros dois?

—Precisamente.

—E ontem à noite?

—Dormia como um anjo, na mesma cama de onde me tiraram mais cedo.

O guarda o encarou com repreensão e questionou:

—O que fez nos últimos dias?

—Um bocado de coisas. Por onde devo começar?

Trevor contou a caça às sombras, desde o episódio com a Madre até Leo, deixando de fora a empreitada da noite anterior.

—Sabemos das tais sombras. O povo viu. - O guarda suspirou. - Por acaso, seus dois amigos não fizeram certo trabalho na igreja?

—É bem provável.

—Também achamos. O padre está morto.

Oh, que surpresa.

—E o que tenho a ver com o padre se eu estava na taverna à noite, debaixo das cobertas, senhor?

—Ele foi visto andando e falando por metade de Ploiesti ontem.

—E eu creio que estava morto há um bom tempo, como eles me disseram e como vocês já devem ter notado. É o tipo de coisa que o sobrenatural faz, sabe? O povo saberia mais a respeito se minha família não tivesse só… Entrado para a História.

O guarda o olhava como a um rato no canto da sala. Fez outra pergunta:

—A jovem que mencionou. Como se chama, Katrina?

—Sim, senhor. Foi uma das vítimas da maldição.

—Sabe onde ela está?

Trevor sentiu uma ponta de preocupação e respondeu:

—Não faço ideia, senhor.

—Então, de volta à cela. De pé.

Fizeram o caminho de volta à cela sem mais conversar.

Quando já começava a enxergar o fim do túnel para o mundo dos sonhos pela milésima vez, Trevor ouviu um ressoar de metal e passos vindos de algum corredor. Não tardou até que o desagradável guarda aparecesse, acompanhado não mais dos brutamontes de antes, mas sim de uma figura miúda.

—Visita, Belmont. - Murmurou o guarda antes de sair.

No escuro da prisão, os olhos demoraram um pouco a identificar Madre Bethania, virada em outra direção. Chamou-a e ela procurou pelo som, virando a cabeça com cuidado.

—Como tem passado, senhora?

—Já tropecei quinhentas vezes. Mas foi embora a coisa. Não me atormentou mais. Os outros estão aqui também? O rapaz e a menina?

—Estão em outras celas. Mais para lá.

—Se deixassem todos juntos, já tinham posto o prédio abaixo. - A Madre riu. - Você aí no canto. Por que prenderam o sujeito?

O guarda do canto que os vigiava parou de roncar como um porco, mas não respondeu.

—Nem tente, Madre. - Trevor também riu.

—Sei que está aí. Não se faça de mudo. - A freira bateu o pé.

O guarda olhou feio para ambos e perguntou:

—Que há, Madre?

—Do que é que estes três são acusados?

—Matar o padre, vandalizar a igreja e da fuga de uma donzela.

—Fuga de quem? - Trevor franziu o cenho.

—Fez isso, Belmont? - A Madre se virou para ele.

—Eu? Não.

Que diabos? Trevor ligou os pontos quanto ao detalhe sobre Katrina que o guarda do interrogatório deixara escapar. Olhou para Alucard, que deu de ombros. Foi arte sua, não foi?

—E a igreja, foi você? - A Madre questionou.

—Gostaria, mas sinto informar que não.

—Ouvi dizer que o padre também está morto.

—Nunca sequer o vi, Madre.

—Pois eu acho que estão com o homem errado. - Ela falou com o vigia, que nada disse.

Trevor suspirou e se recostou à parede. O guarda voltou a roncar. Espere.

—Madre, como é que era mesmo aquele cântico? - Perguntou, como quem nada queria. - Minha memória me falha.

—Já esqueceu? - Ela pôs as mãos na cintura. - Esses jovens. Escute com atenção e trate de lembrar dessa vez.

Com o canto do olho, Trevor espiava o guarda a cada novo verso, até que o viu deixar a cabeça cair para a frente, com um fio de saliva escorrendo da boca. Isso!

—Madre, pegue as chaves. - Trevor sussurrou. - Ande dois passos para a sua esquerda e tire do cinto do guarda.

Assim que ela se virou na direção do vigia adormecido, Trevor ouviu o som do alçapão se abrindo. A Madre também virou a cabeça na direção do ruído e congelou no lugar como estátua. O guarda do interrogatório se aproximou e ordenou que ficassem de pé. O vigia do corredor foi devidamente cutucado por ele para que acordasse e cedesse as chaves para soltá-los.

—Poderia fazer o favor de nos desamarrar? - Perguntou Trevor, erguendo os punhos atados.

O guarda o ignorou, empurrando-o para que fosse à frente com os outros dois, e guiou a Madre pela mão. Só tiveram os pulsos desatados depois de passarem pelo alçapão por onde tinham entrado. Um dos guardas grandes os aguardava na saída com um saco de pano e um papel enrolado, entregando-o ao chefe, que perguntou:

—Sabem ler, ou devo chamar o escrivão?

—Dê cá isso aqui. - Trevor estendeu a mão e desenrolou o documento.

"Por meio deste, a cidade de Ploiesti vem agradecer aos três viajantes por evitar o conflito entre o povo e a trupe itinerante, assim como pela libertação de Irmã Sofia da amaldiçoada sombra que a controlava, evento testemunhado em praça pública pela população, e também pela descoberta da morte de Padre Ivan, que, averiguou-se em diários de caligrafia do falecido, relatava estar sob a mesma maldição. A cidade requisita que os viajantes libertem quantos mais cidadãos estejam dentro das capacidades possíveis.

No entanto, a igreja da praça da Árvore encontra-se deteriorada por ação suspeita dos mesmos três viajantes, e o montante pago corresponde ao valor inicial pretendido com a subtração do necessário para a restauração da igreja.

Que Deus abençoe e os proteja,

Prefeitura de Ploiesti."

Raios, mas será possível? Quando Trevor tirou os olhos do documento, o brutamontes pôs em suas mãos sem cuidado algum o saco de pano. Pois pesa bem menos do que eu esperava.

—Agora, sim, é um homem livre, Belmont. - O chefe deu um riso abafado.

Trevor se despediu de Madre Bethania com um abraço e um agradecimento sussurrado pela tentativa, fazendo gesto para que os outros dois o seguissem. Caminharam sem rumo até se descobrirem na Árvore mais uma vez, e dali, para as portas da taverna. O sol já começava a se esconder e o mau tempo dava sinais de retorno. Trevor alongou o pescoço antes de entrar, dando uma última olhada para o céu com descrença.

—Tudo bem, senhor? - O dono os recepcionou, deixando um prato em uma mesa cheia e se aproximando.

—"Bem" não é a palavra. - Trevor deu de ombros. - Tudo em ordem por aqui?

—Graças a Deus. Confesso que, por aqui, não se falava de outra coisa. - O dono chegou mais perto e começou a cochichar. - Vocês têm um talento para a confusão…

—Digamos que é a intenção. - Trevor riu. - O quarto nos aguarda.

—Fiquem à vontade.

Deixaram-no e subiram as escadas. Do lado de dentro, Trevor entregou a carta a Sypha, e Alucard se aproximou para ler junto. Trevor viu a face deles se tornar a mesma que fizera atrás da prefeitura. Sypha, no entanto, caiu em um riso desconcertado, pedindo desculpas pelo surto. Ela dobrou o papel e o guardou no meio de um livro de botânica que ele a vira lendo em mais de uma ocasião.

—Dá vontade de jogá-lo fora, mas papel é papel. - Ela suspirou. - Minha sugestão é de que demos o fora daqui o quanto antes.

—Pois é o que eu ia propor. - Trevor recuperou a Estrela da Manhã e a posicionou no cinto outra vez. - Vamos embora, antes que comecem a pedir que trabalhemos de graça. Só vamos lá embaixo, que um chá de salgueiro e a conta nos aguardam.


Depois de uma batida à porta, enfim, o dono do estábulo estava em casa. Perguntou se queriam cavalos, como faria a qualquer cliente, e demorou um segundo para reconhecê-los. Pediu que entrassem, com mais vida do que da primeira vez, e a mirrada esposa, mantendo o fogão aceso, também os recebeu com a alegria que permitiam os próprios modos. O homem quase implorou que se sentassem à mesa e repartissem os vários enrolados de repolho do jantar. Nenhum dos três ousou recusar, depois de um dia inteiro de jejum na cela.

—Ouvi as notícias. - O dono disse. - Temos uma eterna dívida com os senhores.

—Katrina está bem? - Alucard perguntou.

—Está, graças a Deus. Não sei nem de que forma agradecer. Mas… - O homem hesitou. - Acho que ela está entrando naquela fase.

—O que quer dizer? - Alucard riu por dentro.

—Passou a noite fora. Nunca tinha feito isso. E não quer nos contar aonde foi.

—Nada que um castigo não vá resolver. - Trevor deu de ombros, falando de boca cheia.

Algo me diz que, com você, não resolvia coisa nenhuma. Alucard continuou a comer, calado. E que minha artimanha, por favor, não seja descoberta. Concentrado no repolho, ouviu por alto Trevor negociando selar cavalos dali a pouco, apesar do cair da noite, em troca de um desconto. O dono negou:

—Podem ir aonde quiser por minha conta, senhores. - Sorriu, afável. - Por minha filha.

Ao que se levantaram, Trevor foi ajudar com os cavalos apesar da recusa. Saíram da cozinha para o frio do lado de fora, sob um vento que prenunciava chuva. Enquanto olhava em volta a movimentação de lampiões e selas, Alucard ouviu uma janela lateral da casa se abrir e viu um vulto sair dela, correndo em sua direção e o abraçando.

—Como está? - Alucard perguntou.

—Vocês estão partindo? - Katrina disse. - A essa hora?

—Para o quarto, Katrina. - O pai ordenou.

—Eles me salvaram, papai. Eu gostaria de me despedir.

Alucard notou que ela ainda tremia pegando-lhe a mão, e sentiu o coração se apertar. Talvez nunca vá embora. Soltou-a, e ela o encarava com um olhar mil vezes mais altivo do que quando a conhecera. Também pudera. Ouviu o pai da garota mandar que voltasse ao quarto logo, o que ela não se deu ao trabalho de responder. Pediu que Alucard agachasse para cochichar-lhe ao ouvido:

—Rosa volta no ano que vem. Ela vai me levar embora.

Perdão?, pensou em dizer, assim como "não faça isso", mas engoliu as próprias palavras.

—Tome cuidado. - Foi o que escolheu.

Ela disfarçou beijando-lhe o rosto e ele se ergueu outra vez.

—E o bordado que estava fazendo? - Ele perguntou.

—É difícil terminar assim, então dei uma pausa. Mas olhe. - Ela ergueu a barra do vestido para mostrar um detalhe de flores alaranjadas. - Conseguia fazer bem quando não estava tremendo.

—Muito bom. E o cântico?

—É muito bonito, senhor. Oh, desculpe. Esqueça o "senhor", não é? - Katrina riu. - Mas é, sim, bonito, e me ajuda a dormir.

—Que bom que está funcionando. Foi-me ensinado por uma Madre do convento. Ela o canta muito melhor do que eu, caso um dia queira aprender. - Alucard riu.

—Acho que já vi uma Madre na igreja.

—É bem provável. - Alucard olhou por cima do ombro e viu o trabalho acabando de ser feito. - Volte ao quarto, antes que tenha problemas.

—Katrina, vá chamar seu irmão. - O pai pediu, em alto e bom som.

—Já vou.

Ela o deixou para trás e voltou para dentro pela mesma janela aberta. Logo, dando a volta na casa, apareceu um rapaz magro e franzino, vestido para o frio, com os mesmos cabelos claros do resto da família. Alucard olhou para a carruagem pronta e viu nela uma beleza rústica, feita para quatro cavalos. O rapaz se sentou ao banco do cocheiro, e os três se acomodaram na parte de trás, enfim guardando a incômoda bagagem.

—Levo vocês até a saída da cidade, senhores. - O rapaz olhou para trás. - Aonde vamos?

—Ao hospital. - Alucard disse, antes que perdessem a chance.

—Para quê? - Trevor ergueu a sobrancelha.

—Quero ter uma palavra com Leo antes de partir.

Os outros três fizeram pouco caso e concordaram. Alucard se recostou à carruagem e olhou para trás. Na porta da casa, viu a figura de Katrina acenando, e correspondeu à despedida com um sorriso.