Um solavanco da carruagem foi o bastante para Alucard despertar de um breve cochilo. Abriu os olhos embaçados e contemplou o pálido fim de tarde, sem nenhum tom chamativo de pôr-do-sol; um trovão prenunciava mais daquele tempo cinzento. No banco oposto, Sypha se entretinha com o livro de botânica. E, claro, os cavalos não se conduzem sozinhos. Uma espichada de pescoço mostrou a cabeça de Trevor aparecendo no banco do cocheiro. Ainda bem que ele gosta. Buscando na memória, não se lembrava de ter sonhado.

Abriu o paletó só para se certificar de que a carta à família de Leo Alexe ainda estava ali, acomodada no bolso interno. Foi o bastante para recordar a conversa com o pobre mercador partido em vários pedaços, só uma das várias visitas incômodas que os três tinham feito ao outrora pacífico hospital de Ploiesti. Encontrara Leo na cama de um quarto coletivo, desperto e arruinado. O homem, que, apesar dos pesares, transparecia finesse e boa educação, chorou e soluçou como uma criança quando Alucard se agachou ao lado da cama para explicar-lhe o que acontecera. Leo pedira perdão a Deus mil vezes, e se arrependera mais outras mil. Alucard segurou-lhe o ombro com gentileza, calado na maior parte do tempo, e sem a menor vontade de aplicar-lhe um sermão.

E foi quando tive essa ideia. Pediu a Sypha uma folha do diário dos ocultistas, buscou pena e tinta, e, à luz de vela, sugeriu que redigisse uma carta. "De onde é, senhor? Dê-me o endereço e vamos até lá." Leo não conseguiu escrever mais do que duas palavras, então Alucard apoiou a folha no banco ao lado da cama e esperou que ele lhe recitasse. Puxou a carta do bolso para lembrar as palavras exatas.

"Querida Alina,

Encontro-me, neste momento, numa cama de hospital, no convento da cidade de Ploiesti. Um infortúnio recaiu sobre mim: acidentei-me da janela da taverna onde estou hospedado e caí do primeiro andar. O braço direito e a perna direita restam-me inteiros, mas parti o braço e perna esquerdos na queda. As irmãs ainda não sabem dizer se voltarei a andar normalmente, ou como ficará meu braço depois da fratura. Também quebrei o nariz e o osso da face, mas já passo bem melhor. É, agora, o segundo ou terceiro dia depois do acidente; passei os outros desacordado, sem ser capaz de comer, ver ou ouvir. Fechei os olhos perto da janela de onde caí e os abri há algumas horas, já entre as paredes do hospital.

Minha mercadoria está bem cuidada, depositada no armazém da boa taverna, e aguardo melhorar a cada dia, sob cuidado das habilidosas irmãs. Espero que Deus olhe por mim, assim como por vocês que me aguardam retornar, nossa abençoada família. Não será um acidente a nos separar dessa forma, e volto em breve, para alívio de todos. Dê um beijo nos meninos por mim, e um para você também, meu amor.

De seu saudoso,

Leo.

P.S.: Não estranhe a caligrafia da maior parte das linhas; não consigo escrever direito. Um amigo redigiu para mim."

Amigo? Sorriu em direção ao nada. Trevor chamou do banco do cocheiro e pediu que olhassem o mapa. Alucard encontrou-o em uma das bolsas da bagagem para confirmar que o próximo vilarejo ainda precisava de mais uma hora. Acamparam ali, à beira da estrada, cobrindo os cavalos contra o frio depois de dar-lhes de comer, e acenderam a aguardada fogueira. Trevor teve a iniciativa de aprontar a comida, uma sopa com provisões desidratadas que caiu bem naquele início gelado de noite. Mastigando um fiapo de carne seca, Alucard observou Trevor e Sypha sentando-se perto, mesmo que debaixo de cobertas diferentes. Quando a refeição findou, Trevor se recostou a um pinheiro e ela se deitou sobre uma das pernas dele. Deve ser a que não está ferida. Ele não gritou até agora.

—Como está o joelho? - Sypha perguntou.

—Melhor. Não chamaria de curado, mas parar de forçar ajuda. - Trevor suspirou. - Pode passar a arnica, por favor?

—Está falando comigo? - Alucard apontou para si mesmo.

—Com quem estiver perto da bagagem. No caso, você mesmo.

Alucard buscou o frasco que a dona da taverna enchera com a solução de álcool. Olhou em volta as plantas rasteiras sobre as quais se sentava.

—Acho que encontramos um monte dessas. - Alucard arrancou uma flor e a entregou a Trevor. - Faça o reconhecimento.

—Não sou eu quem está lendo sobre botânica. Sypha?

—O que há? - Ela tinha tom de quem não queria ser acordada.

—Isso é arnica? - Trevor pôs a flor na frente do rosto dela.

—É mais fácil se você sentir o cheiro. - Ela se virou para o outro lado, enterrando-se na coberta.

Trevor aproximou a flor arrancada do nariz e fez cara de quem estava convencido. Pediu o ramalhete para amarrar mais delas, aplicou o álcool na perna e devolveu tudo a Alucard para voltar à bagagem. Ele próprio também se apoiou a uma árvore, sem sono algum, assistindo aos dois cochilarem. Quantas vezes já devem ter feito o mesmo, sem ninguém para ver? Suspirou fundo e aproveitou o silêncio. De repente, Trevor perguntou:

—O que há?

Alucard abriu os olhos e o encarou por um momento, depois se voltou para o céu sem estrelas.

—Nada. Nada aconteceu, pelo menos. É só que… - Por que eu vou falar disso com você? - …Em alguns dias, se lamenta mais do que em outros.

—E o que há hoje para se lamentar?

Eu preciso mesmo tocar nesse assunto? Alucard riu a contragosto. Lembrou Katrina com o tremor que não passava, a tentativa de suicídio e o coma de Leo, a histérica freira sem o movimento das pernas e Madre Bethania cega. O padre morto, beirando a putrefação e o ladrão em Sohodol que nem chegara a ver. A família do estábulo, em desespero, ferida para sempre. E, para completar, família é uma coisa que não tenho mais. Voltou a olhar para Trevor. Se bem que você também não. Sypha já devia estar no mais profundo sono. Alguém tem que dormir em paz entre nós.

—São só as perdas. - Alucard balançou a cabeça.

—Para perder, basta ter em primeiro lugar. - Trevor olhava para baixo e afagou o cabelo de Sypha. - Assim me diziam.

O que temos para perder, eu e você? Alucard estalou o pescoço e se acomodou melhor. Trevor pegou um bocado de agulhas secas de pinheiro e atirou às chamas, comentando:

—Acho que vamos chegar a Bucareste em mais cinco dias ou seis. - Atiçou a fogueira. - Não sei o que vamos encontrar lá.

—Além da família de Leo.

—Isso. Pode ser viagem perdida, ou pode não ser. Mas temos uma direção, pelo menos.

—Duvido que não haja nada para resolver em uma cidade grande. - Alucard ergueu a sobrancelha.

Que estaria eu fazendo agora, se tivesse ficado em casa? Olhou para dentro de si e não encontrou muitas respostas. Dormindo, talvez. Trevor observava Sypha, ainda mexendo no cabelo ruivo, e sussurrou:

—Espero que ela fique bem.

—O que há com ela?

—Nada. No momento, nada. - Trevor pareceu hesitar, ainda murmurando. - Bucareste foi onde ela perdeu os pais.

Alucard engoliu em seco. Sozinhos no mundo estamos. Sentiu necessidade de buscar uma coberta, mas mais necessidade de caminhar. Levantou-se para ir à carruagem, pulando as raízes e andando com alguma preguiça. Eu sabia dos pais, mas… Remoeu a última noite no castelo, as conversas na madrugada e as palavras secretas escritas no diário. Bom, ainda vai levar alguns dias. Voltou ao canto onde se sentava, ele e Trevor mantendo um silêncio fúnebre pela parte da noite em que continuaram despertos.


O dia seguinte começou com uma estrada enlameada e uma garoa incessante. Uma ponte fraca, que teria que ser atravessada com todo o cuidado e pouco peso, os aguardava antes do vilarejo. Trevor puxou os cavalos um por um pelas rédeas, com exceção do último, que sofreu para arrastar o peso da carruagem sozinho. Uma ou outra pessoa da vila e dos casebres antes dele saiu para assistir à cena, algumas delas gritando e batendo palmas. Não quero assustar os cavalos, não quero assustar os cavalos… A cada novo início de balbúrdia, repetia a frase em mente como uma oração, antes que gritasse de volta com algum aldeão idiota. Depois de reorganizados os cavalos, Alucard se sentou ao banco do cocheiro, alegando buscar um pouco de ar fresco, e Sypha não saiu da parte de trás, supostamente entretida com o livro de botânica.

Conduziu a carruagem até a vila seguinte, da qual também não teve vontade de perguntar o nome. Quando saíam dela, Alucard chamou Trevor, pedindo que olhasse para o mapa. Atravessavam uma via larga que cortava um bosque, depois de uma plantação ou outra. Trevor espiou o papel, com um olho na estrada e outro de lado.

—O que é? - Perguntou

—Sinto informar que vamos atravessar outro-

Depois de uma breve subida, já era possível avistar dali, e Trevor freou de repente os cavalos. Uma grande ponte de pedra estava cheia de vigas, remendos e outras estruturas de construção.

—Mas não era tudo o que eu mais precisava? - Revirou os olhos e deixou-se amolecer no banco.

Conduziu a carruagem mais um pouco até a beira do rio, onde montavam-se acampamentos a perder de vista, dos mais variados tamanhos. Um trabalhador encurvado, cansado e com o semblante tristonho passou carregando uma tábua grossa. Alucard o chamou para perguntar:

—Com licença, senhor. Pode nos dizer como vai o conserto da ponte?

O homem o avaliou antes de responder, com cara de estranhamento:

—Abre amanhã, com sorte, filho. Este tempo nos atrasou.

—…Grato, senhor.

Trevor desceu e se deixou cair na grama. Olhando pelo lado positivo, eu precisava mesmo sair um pouco daquele banco. Não havia sol do qual esconder o rosto, mas cobriu os olhos com o antebraço e ouviu uma movimentação ao redor. Deu uma espiada e viu os outros dois se sentando em volta dele, Sypha com o livro e Alucard olhando o tempo e o movimento. Logo, uma sombra se projetou sobre seu rosto, e Trevor tirou o braço para ver do que se tratava. Um homem de trinta e poucos anos, com os cabelos ficando grisalhos, o observava com as mãos na cintura.

—Tudo bem, rapaz?

—Sim, senhor. Digo, não, senhor. - Trevor ergueu o corpo e apontou para a ponte com a mão. - O motivo é fácil de descobrir.

O homem riu.

—Sei bem. Estamos acampados bem ali, pelo mesmo motivo. - Estendeu a mão para que Trevor ficasse de pé. - Meu nome é Florin. Estávamos entregando feno nos arredores de Targoviste. Estava indo à taverna-

—Ótimo. Pois vai me mostrar onde é.

Reparou que Sypha tirou os olhos do livro e o encarava feio.

—Que foi, não quer vir? - Trevor perguntou.

—Não estou a fim de ler no meio da barulheira. - Ela deu de ombros. - Fico aqui mesmo.

—Que seja. Se precisarem de mim, sabem onde estou. - Deu as costas e começou a seguir o novo conhecido.

—Não é uma boa ideia levarmos a carruagem para dentro da vila? - Alucard abriu a mão para indicar a chuva que começava a cair.

—Faça isso enquanto ainda consegue, Trevor. - Sypha riu.

—Ah, por favor. Quando foi que você me viu não conseguir conduzir uma carruagem? - Trevor subiu de novo ao banco do cocheiro. - Florin, uma carona?

—Muito bem-vinda, amigo. - O homem acompanhou os outros dois na carroceria.


Sypha bocejou dentro da carruagem, ao mesmo tempo em que um cavalo relinchou e bateu as patas no chão. A coincidência a fez rir, e a chama que tinha na mão, para iluminar e aquecer, tremulou com seu corpo. Virou a página e se deparou com o belo desenho de uma roseira em flor, com uma descrição das similaridades entre tal planta e as macieiras. Curioso. Deixou o livro no colo e puxou a coberta um pouco mais sobre si, sem sucesso. Olhou para o lado e Alucard, distraído, sentava-se sobre a ponta. Ele notou o puxão e pediu desculpas, movendo-se mais para a esquerda do banco. Ela agradeceu e continuou a folhear o livro.

Não foi o bastante para que se aquecesse naquele estábulo gelado. Bem que Trevor podia estar aqui. Não era o suficiente para que o acompanhasse na taverna, onde teriam nenhuma privacidade e muito barulho. E nem vou conseguir tirá-lo de lá tão cedo. Queria ler, de fato; mas queria silêncio, mais do que qualquer coisa. Na página seguinte, lia-se: "As sementes da maçã não devem ser ingeridas, pois, em grandes quantidades, contêm uma substância tóxica ainda não identificada…"

"Da natureza, não se tem medo, mas não se falta com respeito." Sypha sorriu, virando mais uma página. Não é mesmo, pai? O avô falava da mesma coisa, mas era a voz do pai que lhe ocorria com mais frequência. Perdera as contas de quantas pessoas já os tinha visto salvar a vida, pai e filho com o mesmo dom. Como tinham curado suas dores de dente, suas febres de criança, seus primeiros desconfortos femininos. E, se precisássemos de um teto sobre a cabeça, minha mãe estava lá para armá-lo. A mãe não era nem de longe tão afável e sorridente quanto eles. Entendia de construir e consertar como ninguém; podia montar e desmontar um acampamento tão rápida quanto um raio.

Em um dia como outro qualquer… Bem, na verdade, não. Eu estava de castigo. Sentiu um nó na garganta, acompanhado de um sorriso tristonho. Com as outras crianças dos Oradores, tinha tentado colocar fogo em uma barraca. Levou uma bronca sem precedentes e não podia sair para ver a cidade. Depois, a guarda apareceu no prédio abandonado onde se escondiam. Normalmente, davam as caras para expulsá-los. No entanto, vinham com notícias e um par de cadáveres. "Um bêbado com uma clava, nós acreditamos. Não recomendo que tirem as mantas de cima deles."

Descansavam juntos em uma cova rasa, no exterior da cidade, lado a lado como sempre estiveram. Não tive nem a chance de dizer que os amava uma última vez. Chorara com o avô por dias na estrada, deixando a cidade antes que tivessem mais problemas, e por mais meses depois dali. Por que certas coisas têm que acontecer? As lágrimas surgiram sozinhas e caíram sobre as páginas do livro, que pegara da biblioteca do castelo sem pensar muito. Apagou a chama e se encolheu no banco da carroceria. Logo, estava soluçando. Por quê?

Ouviu Alucard se arrastar outra vez para mais perto e sentiu-o passar o braço por cima de seus ombros. Sypha não conseguia respirar e escondeu o próprio rosto com as mãos. A dor no peito talvez nunca a deixasse. Ele a apertou de leve no abraço e a puxou para mais perto. Ela acabou por apoiar a própria cabeça no ombro que a acolhia.

—Era da minha mãe, esse livro. - Alucard sussurrou, como que para ninguém, quando Sypha ficou fungando sem falar nada. - Pode ser seu agora.

—Obrigada. - Esforçou-se para sorrir, mesmo no escuro. - Não queria que tivesse me visto assim.

—Você me viu pior.

Acho que estamos no mesmo barco. Aquele silêncio a incomodava, como um inseto rodeando-lhe os ouvidos. O toque de Trevor era diferente; era como se ficarem calados um com o outro fosse a melhor opção. Disse a ele:

—Gostaria de conversar.

—E sobre o que quer falar?

—Cuidado. Vou acender fogo. - Ela estendeu uma mão à frente e convocou a chama. - Não sei. Faça perguntas.

—Perguntas?

—Sobre o que quiser.

Ele levou um momento para pensar, e, por fim, se decidiu:

—O que acha do livro?

—É fascinante. Quero devorá-lo, mas prefiro ir por partes.

—Que bom. - Ele fez que sim com a cabeça. - E chegou a ponto de não entender algo nele?

—Algumas coisas, mas não tenho como anotar.

—Espero que tenha marcado as páginas. E o que gostaria de ler em seguida?

—Sobre química, ou história ou… - Sypha hesitou, pensando duas, três, quatro vezes antes de colocar para fora. - …Talvez, seu diário.

—Meu diário? - Ele riu, nervoso. - Bom, é o que há na bagagem. Quer lê-lo agora?

—Não, na verdade. Você pode contar o que há escrito nele.

—Mesmo que não queira ler? - Ele ergueu a sobrancelha. - O que quer saber?

—Tudo o que for importante.

—Mas tudo é importante. - Alucard riu. - E então?

—Conte tudo, se for o caso.

Sypha começou a sentir o sangue fluir para a face e diminuiu a chama.

—Bom, para começar, falo dos meus dias, do que acontece comigo. - Ele enumerava com a mão livre. - Do que penso, de medos, esperanças, do passado. Falo sobre meus pais, sobre mim… Sobre vocês.

—Sobre nós? - Sobre mim, com certeza. - O que sobre nós?

—Eu preciso continuar a fazer perguntas?

—Acho que isso conta como uma pergunta. - Sypha riu.

—Bom… Escrevo sobre quem são, como são, o que fazem. O que mais?

—Você é quem sabe. - Sei parte da resposta, mas quero ouvir de você.

—Também escrevo… - Ele hesitou. - Sobre as coisas que sinto, mesmo as que não entendo muito bem.

—Que tipo de coisas? - Sypha notou que o coração palpitava.

—Achei que eu deveria fazer as perguntas.

—Não é como se fosse uma regra. Mas espere. Do que está falando?

Ele não respondeu. Sypha prosseguiu:

—Das coisas que sente… Por nós?

—De certa forma.

O braço de Alucard que ainda a segurava ficou tenso, e ele virou o rosto para o lado oposto ao dela. Sypha sentiu o estômago gelar, e a única forma de lidar com tal coisa era falar até que passasse.

—O que quer dizer?

—É complicado. - Ele suspirou e relaxou o corpo.

Pelo amor de Deus, me diga o que é. A palpitação que lhe incomodava o peito era cada vez pior. É o que eu estou pensando? Não é? Por favor. As palavras escaparam dela:

—É complicado para mim também.

Alucard voltou o rosto para encará-la com olhos arregalados, perguntando:

—Para você? - Ela não respondeu. - O que é complicado para você?

Ele apertou-lhe o ombro com delicadeza, repetindo a pergunta.

—Você. - Sypha sussurrou. - Você é complicado para mim.

Não é como se eu pudesse, mas… Alucard a virou de frente, encarando-a, e a abraçou. Sypha retribuiu melhor do que da primeira vez e descobriu ali um calor inesperado, que ultrapassava o físico. Fechou os olhos e inspirou fundo, sentindo um perfume nas roupas dele que não esperava encontrar. E, por tão pouco, você poderia não estar nem aqui, conosco.

—Tem certeza? - Ele a soltou para olhá-la nos olhos de novo. - É isso mesmo que está me dizendo?

—O que eu disse? - Tentou não gaguejar.

—Que sou… Complicado para você.

—É só que… - Sypha tentava pegar as palavras no ar. - Você está aqui tão perto, mas, ao mesmo tempo, tão longe.

—Estou bem aqui.

Mas eu não posso. Segurou-o mais forte no braço, deixou que o ar escapasse dos pulmões e o soltou, perdendo todas as forças. Se pudesse, já teria feito. Abraçaram-se mais uma vez, num toque que trazia outro tipo de conforto. Alucard apoiou o queixo em sua cabeça e a afagava nas costas. E agora? Quando deixaram um ao outro, Sypha sentiu que lhe faltavam as energias, e que tinha se esquecido dos arredores por um instante.

—Na biblioteca. Você se lembra? - Ela riu de leve. - Hoje, olho para trás e me sinto uma tola.

—O que quer dizer? - Ele ergueu a sobrancelha.

Sypha riu com liberdade da segunda vez. Perguntou:

—Você não percebeu?

—Perceber o quê?

—Quando eu, sabe… Quando tentei me aproximar.

Quando Trevor ainda não existia dessa forma para mim, e eu não conseguia tirar os olhos de você. A lembrança era como uma dor aguda que não ia embora. Quando, em meio àquele mar de livros, eu encontrava você pelos corredores, com aquela cara séria de quem carregava o mundo nos ombros. Fechou os olhos para evitar chorar de novo. Quando você me ignorou até que a profecia se concretizasse.

—Digamos que eu não era terreno muito fértil para esse tipo de coisa quando nos conhecemos. - Alucard balançou a cabeça.

—Eu imaginei. Pensei que não fosse nada pessoal.

—Não, não era. - Ele riu. - Talvez seja mais claro agora.

Agora que estamos com este problema chamado… Impediu a si mesma de colocar um nome na situação. Teria sido melhor se nenhum de nós dois tivéssemos ousado contar.

—Que horas já devem ser? - Sypha perguntou.

—Tarde, creio eu. E nada de Trevor até agora.

Ainda bem. Se ele já fez uma cena e tanto por causa de uma mentira que nem foi para ele…

—Bom, creio que ele está bem e seguro na taverna. - Alucard completou, dando de ombros.

—Creio que ele está bem bêbado, você quer dizer. - Deu uma risada sarcástica.

—Isso também. Vamos atrás dele, ou…?

—Vai ser bom darmos uma volta. - Eu ficaria aqui o resto da noite, na verdade.

—Ele, por acaso, não vai se incomodar com o tempo que passamos aqui?

—Poderíamos ter dormido, ou jogado damas, ou tentado incendiar o estábulo. Ele saberia? - Sypha se levantou e se dirigiu à saída da carruagem. - Ele confia em mim. Aquele dia em Ploiesti foi só um mau momento.

—Acompanhado de uma má escolha minha, não se esqueça.

Ela o olhou feio e estendeu a mão, desfazendo a carranca com um sorriso.

—Já falei sobre isso. Venha.