Trevor se sentava a sós à mesa. Tirou um momento para olhar ao redor, com a cabeça leve e a mão ocupada pela caneca de cerveja. Não esperava que a porta da taverna se abrisse para a entrada de forasteiros; no entanto, assim ela fez. Os dois recém-chegados se esquivaram por entre as mesas até que ele pudesse cumprimentá-los.

—Onde está seu colega? - Alucard perguntou.

—Lá fora. - Indicou com o polegar para os fundos do prédio. - Fazendo o que ninguém pode fazer por ele. Ótimo que tenham vindo. Estão com dinheiro?

Alucard revirou os bolsos do paletó e contou alguns trocados, questionando:

—Não trouxe o seu?

—Não. Deixe-me ver quanto tem aí. - Estendeu a mão para pegar as moedas e deu nelas uma breve olhada. - Não vai dar. Sypha?

Ela fez o mesmo, escavando uma moeda de maior valor. Trevor suspirou aliviado e viu no periférico uma porta lateral se abrindo, para a entrada do companheiro de copo.

—Florin! - Trevor chamou. - Eis o homem.

Ele se aproximou, trocando as pernas de leve, e se sentou na cadeira oposta, com outro suspiro de alívio:

—Meio litro mais leve, graças a Deus. Vocês dois são os que ele falou?

—Provavelmente, senhor. - Alucard ergueu a sobrancelha.

—Deixe o "senhor" para lá. Não estou velho, só acabado. - Florin estendeu uma mão, que Alucard apertou com cara de desconfiança. - Faço a idade de Cristo ainda este mês. Seu nome?

—Adrian, muito prazer. Ainda ficam mais tempo aqui?

—Já é hora de ir. - Trevor deixou as costas caírem, procurando um encosto no banco que não existia e logo notando o erro. - Meu amigo aqui tem que voltar e partir cedo, não é mesmo?

—Preciso. - Florin arrotou. - Eu deveria estar na cama, ou melhor, num monte de feno, sonhando com os anjos ao som do rio corrente.

—E eu me ofereci para levá-lo em segurança. - Trevor apontou para si mesmo. - Então, vamos todos. Que acham?

Alucard e Sypha olharam um para o outro e deram de ombros em concordância. Ergueram-se os dois da mesa até o balcão com os trocados adicionais, entregando-os ao taverneiro bigodudo com uma impassível carranca.

Fora da taverna, uma brisa fria atingiu Trevor, que envolveu Sypha com um braço. Discutia com Florin sobre qual era a ave de caça mais veloz da Europa, sem chegar a uma conclusão. Nenhum dos outros dois sabia desempatar, e foram respondidos com reviradas de olhos. Passaram pelas plantações ainda com a dúvida.

—Qual seria o mamífero, então? - Florin perguntou. - A lebre?

—É uma boa tentativa, mas já tentou correr atrás de uma doninha? - Trevor apontou para ele. - Pois eu já, quando era moleque.

—E elas comem lebres, não comem? - Florin virou a cabeça.

—Ah, se comem. Mas não há muito o que assar numa doninha. - Trevor riu. - Dariam bons animais de estimação, se não arrancassem os dedos do dono. E caçam bem, se me permite. Livram-se de ratos como gatos, sem metade da barulheira no telhado.

Trevor olhou em frente, espreguiçando-se, e notou um bocado de fumaça subindo ao céu com os olhos acostumados ao escuro da noite.

—Olhem ali. - Apontou. - É mais do que a de uma fogueira.

—Meu acampamento. - Florin parou de caminhar. - Meu acampamento é ali.

Puta merda. Apertaram todos o passo. Quase à beira do rio, no barranco antes dele, Alucard se aproximou pelas costas e deu-lhe um tapinha no ombro para chamar a atenção:

—Cheiro de sangue. - Sussurrou. - Bastante sangue.

Trevor olhou de lado e fez que sim com a cabeça. Ao terminar de subir a baixada, tiveram cautela ao chegar perto, até que parassem a metros do acampamento em chamas. Por cima de uma barraca rasgada pegando fogo, Trevor viu uma perna estirada com um talho e barrou Florin com o braço:

—Para trás.

Florin esbarrou em seu braço, congelado no lugar, e foi o bastante para sentir que tremia. Deus do céu. Pessoas se aglomeravam de outros acampamentos, acordadas àquela hora da noite, talvez por causa da luz e do calor. Trevor ergueu a voz:

—Levem-no embora. Para trás, todo mundo. Ninguém entra.

Olhou para Sypha, e ela já tinha se apressado em puxar o mercador para outro canto. Mais pessoas apareciam como formigas, e Trevor rosnou:

—Para trás!

Ninguém mais ousou dar um passo, e o murmúrio da multidão se calou. Constatou com uma olhada por cima do ombro que Sypha estava a caminho da vila com Florin e Alucard ficara. Assentindo um para o outro, pisaram dentro do acampamento.

Por entre as barracas destruídas, havia mais de um corpo, com sangue fresco correndo pela grama, cavalos mortos e um bocado de estruturas de pano e madeira no chão.

—Uma tocha. Alguém tem? - Trevor pediu e ninguém se pronunciou. Apontou um rapaz. - Você. Vá buscar.

O jovem sumiu correndo por entre as pessoas. Uma das barracas perdeu as forças e desabou, fazendo com que o fogo se alastrasse pela grama. Alucard alcançou uma panela vazia perto da fogueira e desceu até a beira do rio atrás de água para controlar o incêndio. Trevor o seguiu com os olhos e o viu pular de susto quando uma mão surgiu da água e uma pessoa subiu à superfície. Alucard estendeu a mão ao sujeito e o puxou para fora. O homem tossia e estava encharcado por completo.

—Muito obrigado, senhor. Muito obrigado. - Tossiu mais um pouco e tirou a camisa ensopada. Alucard cedeu-lhe o paletó. - Salvou minha vida. Se eu não tivesse pulado ao rio…

—Acalme-se. - Alucard o guiou ao fogo, segurando seu ombro.

O homem se agachou ao redor da fogueira, sem olhar para os lados. Tremia como vara verde. Alucard o deixou para continuar a apagar o incêndio. Trevor deu um passo para dentro de uma das barracas de teto alto, espaçosa o bastante para ter uma banqueta servindo de mesa e uma quantidade de pertences pessoais. O rapaz voltou com a tocha, entregou-a e deixou o acampamento às pressas. Olhou em volta e puxou a lona de uma das barracas. Alucard voltou, perguntando:

—O que encontrou?

—Veja só. - Estendeu a lona para exibir marcas de garras. - Significa problema.

Caminharam mais para dentro. Trevor apontou os objetos no chão, entre copos, garrafas e ferramentas:

—Foram derrubados de dentro para fora, eu acho.

—É verdade. - Alucard mantinha o mesmo tom baixo. - Temos que tirar essas pessoas daqui.

—É para já.

Trevor saiu dos escombros, elevando a voz de novo:

—Todos vocês, escutem. Não é seguro aqui. Vão todos em direção à vila. Não se separem. Não busquem nada. Adultos nas bordas do círculo, crianças e idosos no centro. Entenderam?

Em silêncio, algumas das pessoas começaram a se mover. O homem à beira do fogo também fez menção de se erguer e Alucard foi até ele:

—Fique, por favor. - Pôs-lhe a mão no ombro. - Está seguro conosco. Como se chama?

—Constantin. - Fez que sim com a cabeça.

—Adrian. - Suspirou. - Que lugar para se ter uma conversa.

Trevor se aproximou e deu a mão ao homem, também lhe entregando a capa de pele. Saíram dos destroços caminhando em direção à vila, e Alucard perguntou com a voz suave:

—Constantin. O que havia no acampamento?

Debaixo da capa, ele parecia ainda menor e mais encolhido. Gaguejou:

—Uma fera, senhor. Maior do que nós.

Trevor e Alucard se entreolharam. Ele continuou:

—Tinha pelo preto, garras, o fogo não a assustava. Não adiantava correr. Joguei-me ao rio e me agarrei às plantas. Não pude fazer nada. Alois tentou furá-la com um ancinho, e o demônio partiu a ele e à madeira em dois, como um graveto.

—E para onde foi a criatura? - Trevor indagou, de sobrancelha erguida.

—Correu para a floresta, eu acho, quando eu já estava no rio. Mas de onde veio, eu vi. - Olhou para trás, para as barracas chamuscadas. - De dentro da barraca, senhor.


Alucard bateu à porta do estábulo e se identificou ao ouvir o "quem é" de Sypha. Estava destrancada; já era a terceira vez que incomodariam o dono durante a noite, não fosse o caso. Ela e Trevor se abraçaram, e Alucard sentiu o coração acalentado. O consolo de um perdedor, ver a felicidade alheia. Quis balançar a cabeça de leve, mas se conteve.

—O que encontraram? - Perguntou Sypha.

—O companheiro aqui, e mais nada. - Trevor suspirou. - Esse é o problema.

—Constantin? Constantin, é você? - Ouviu a voz de Florin aproximando-se e aparecendo à parca luz da lua. - Mais alguém? Por favor.

Constantin negou com a cabeça e disse:

—Alois não durou. Luca também não.

—Santo Deus. - Florin tinha voz de choro. - E o resto? Procurem o resto.

—Precisamos que um dos dois venha conosco. - Alucard teve o cuidado de não assustá-los mais. - Não conhecemos o grupo.

—Eu vou. - Constantin ergueu a mão. - Fique, Florin.

Florin começou a protestar quando Constantin o interrompeu:

—Você tem família. Eu não.

Quantos anos você tem? Alucard o mediu sob a pouca iluminação. Os cabelos escuros de Constantin não tinham sequer um fio branco. Mais de vinte, tenho certeza. Sypha deu um passo para fora e se despediu de Florin:

—Vou com eles, desta vez, senhor. Fique. Deus o abençoe.

Florin não respondeu e fecharam as portas.

Saindo do estábulo, a vila estava cheia de pessoas com tochas, tanto vindas do acampamento quanto saídas de suas casas. Parece até dia, com tanto movimento. Trevor perguntou a duas ou três pessoas onde morava o prefeito, e logo apontaram-lhe um senhor calvo em trajes de dormir, do lado de fora de uma requintada residência. Chamou-o para perto do grupo depois de confirmar sua identidade e cochichou:

—Há um demônio nos arredores, senhor. Abrigue os viajantes aqui por algumas horas. Vamos caçá-lo, e pode não ser muito bonito.

—Façam-no. - O prefeito respondeu, com tremor na voz. - Vou ordenar que fechem os portões.

—Pode não ser suficiente.

—O que quer dizer?

—Como ainda não sabemos o que é, bem, talvez seja capaz de escalar os muros. - Trevor deu de ombros.

O prefeito engoliu em seco e perguntou:

—Que fazer, então?

—A cidade se importaria em passar um pouco de calor? Venha conosco, por obséquio.

O senhor o acompanhou aos portões e Trevor pediu que subisse à guarita, sob ordens de pedir aos guardas que fechassem os portões quando os quatro os cruzassem.

—Todos da guarita, para trás. - Trevor gritou, com as mãos ao redor da boca. - Para trás, fogo vem aí. Sypha?

—Sim?

—Pode colocar fogo ao redor da vila?

Com alguns movimentos de mão, ela criou um altíssimo anel incendiário em volta dos muros da vila, e o povo que o viu começou a gritar de pânico. Trevor bradou a plenos pulmões:

—Podem se acalmar, tudo sob controle! Voltamos em breve. - Puxou Sypha para um beijo de despedida. - Até logo.

Caminhavam pela estrada, e Constantin disse:

—Sua capa, senhor.

—Fique, não estou com frio. - Trevor negou com um gesto de mão.

Pois eu acho que está. O vento gelado não dava trégua. Passadas as plantações e o bosque sem comentário ou gracejo, Alucard sentia de bem longe o cheiro sufocante de cinzas. Aproximaram-se do acampamento pisando leve, mas nada nele fez menção de despertar. Constantin apontou:

—Ali. - Indicava um corpo pela metade, o tronco e os membros inferiores separados. - Aquele é Alois.

—Quantos eram vocês? - Alucard sussurrou.

—Seis. Eu, Florin, Alois, Luca, Marius e Greta.

—Uma mulher apenas? - Perguntou Trevor.

—Esposa de Marius. - Constantin fez que sim com a cabeça. - Também vi Luca. Está mais longe da fogueira. Está morto.

Seguiu o olhar para onde ele apontou, um cadáver com um rasgo de garras na região do peito. Sem dúvida. Com o canto do olho, Alucard viu Trevor fazer cara de desgosto e dizer:

—Faltam dois.

—O casal. Ficavam ali. - Constantin apontou a barraca espaçosa, que estava, supostamente, rasgada de dentro para fora.

Adentraram os restos dela. Trevor perguntou:

—Onde é que está o… - Olhou para baixo, com o pé preso em um braço largado ao chão. - Achei.

No novo corpo encontrado, faltava uma perna, arrancada de forma grosseira.

—É Marius. - Constantin disse. - A outra perna é de pau.

Agora, não há perna alguma. Alucard não quis rir da própria piada. Trevor agachou-se ao lado do cadáver, pegando um objeto:

—Isto aqui… - Estendeu-o para que vissem. - Fazem ideia do que é?

Encontrara um pingente de tom vermelho muito vivo e cristalino à pouca luz da Lua. A correia de couro estava arrebentada, mas a pedra permanecia intacta. Alucard ergueu a sobrancelha. Que diabos?

—Era de Greta. - Constantin respondeu. - Comprou em Targoviste há algumas semanas.

—É precioso? - Questionou Trevor.

—Ela achava que sim, senhor. Mas dava dores de cabeça e pesadelos a ela.

Alucard encarou Trevor, que retribuiu o olhar e perguntou:

—E ela não o tirava?

—Jogava fora, mas reaparecia. - Constantin deu de ombros. - Então desistiu.

—Quem vendeu isso a ela? - Alucard tentou.

—Não vi, senhor.

Nem sinal de… Greta, é esse o nome dela? Alucard sentiu a espinha gelar. Mas todo o indício de problemas. A correnteza soava forte ao fundo, avolumada pelas chuvas.

—E para onde a criatura correu, mesmo? - Trevor ergueu um dedo.

—Para lá, senhor. - Constantin apontou o bosque.

Todos se entreolharam e seguiram na direção indicada.

Os próprios passos na folhagem eram a única coisa que ouviam, apesar da atenção. O que quer que esteja em meio a essa mata, está longe ou ainda não nos notou. Trevor ia à frente com a tocha, seguido por Constantin, e Alucard na retaguarda.

—Difícil rastrear a essa hora da noite. - Trevor coçou a cabeça.

—Imagino, senhor. - Constantin gaguejou.

—Façam silêncio, por favor. - Pediu Alucard. - Ou vamos espantar a coisa.

—Ou atrair, o que tornaria nossa vida mais fácil. - Trevor deu de ombros sem olhar para trás. - Este bosque parece sem fim, e nem é dos maiores. Se eu fosse uma coisa do tamanho do que fez aquele estrago, como me esconderia aqui?

—Sinceramente? - Alucard suspirou. - Prefiro emboscar a ser emboscado.

—Disse o mestre da estratégia.

—Não é hora para gracejos. Pessoas morreram, Trevor.

—Morreram, portanto não vão se incomodar.

Alucard revirou os olhos. Se Sypha estivesse aqui… Bom, eu também seria menos cínico. Ficou calado para servir de exemplo e os outros dois o copiaram.

—Espere. - Trevor apontou e se aproximou do que indicava com a tocha. Aquilo ali é…?

Alucard estendeu a mão para pegar o objeto enroscado em uma raiz, concluindo:

—…Um sapato.

—Falta uma perna no cavalheiro lá atrás, então, deve ser por aqui. - Trevor estendeu a tocha. - Opa, uma marca de… Pata?

Agachou-se ao lado da pegada, e os outros dois o rodearam da mesma forma. Lembra uma pata de lobo. Alucard a tocou com os dedos antes de ficar de pé. Talvez, eu mesmo deixe algumas hoje. Trevor continuou na pista de uma trilha de folhas amassadas e galhos partidos, levando-os a uma grande pedra arredondada coberta de musgo. Ao que deram a volta nela, depararam-se com um fêmur com poucos restos de carne. A cor deixou as faces de Constantin, e ele teve que ser segurado pelos ombros por ambos. Apesar do apoio, o homem vomitou o que quer que tivesse jantado. Pobre rapaz. Sem que tivesse tempo para avisar qualquer um deles, Alucard ouviu um farfalhar de árvores e a criatura saltou sobre ele.

Trevor empurrara para trás o elemento mais frágil do trio, mas a mão ocupada pela tocha não permitiu que puxasse o chicote. Alucard recepcionou o ser lupino com a espada apontada, que atravessou o peito do animal. Em duas patas, era maior do que qualquer ser humano, de pelo todo negro exceto por um cristal vermelho na garganta.

O animal balançou as enormes patas e Alucard o chutou para longe. Não tão longe quanto eu gostaria, mas… A criatura colidiu com uma árvore, e o pouco que Alucard podia ver da noite revelou que qualquer corte feito pela espada logo estava fechado. Merda. Trevor entregou a tocha a Constantin, pedindo que cuidasse bem e empunhou a Estrela da Manhã.

A criatura avançou outra vez, pegando impulso, vinda de vários metros à distância; Trevor tentou vários golpes do chicote, recuando com saltos para trás, até um deles acertar-lhe o focinho e gerar um ganido sinistro de dor. É a minha hora. Alucard lançou a espada ao ar, levitando, e tornou-se lobo num bote contra o outro. Ouviu Trevor protestar que não tinha avisado. Tarde demais.

Seguiu-se uma série de patadas, mordidas e cavernosos sons da criatura. Cercavam-se e atacavam-se quando se desatracaram. A forma de Alucard era alguns palmos menor do que o outro lobo, e descobriu ser vários quilos mais leve quando uma patada com as costas da mão da criatura o atirou a um tronco. Revanche, é? Sentiu o ar sair dos pulmões e caiu ao chão, voltando à forma habitual. Ficou de pé, trouxe a espada de volta à mão e limpou o sangue da boca. Antes que tivesse chance de reagir, a criatura saltou sobre Constantin, encolhido contra a pedra.

Trevor laçou o demônio pelo pescoço com o chicote para impedir e o disforme lobo em duas patas caiu sobre a folhagem. Trevor se aproximou o mais rápido que pôde e cravou a espada curta no cristal vermelho. A criatura agitava os braços e pernas e rugia até que amolecesse, sem forças, restando um corpo sem vida. Alucard deu passos cambaleantes em direção a eles e terminou de cortar-lhe a cabeça com mais de um golpe, espalhando um grosso sangue escuro pelo chão.

Ofegante, Trevor tirou do bolso o colar com o pingente vermelho e o apoiou na pedra. Alucard arregalou os olhos. É da mesma cor. Com o cabo da espada, Trevor fez menção de destruir o colar.

—Espere. - Alucard impediu-o. - Vamos levá-lo. Posso me comprometer a carregar.

Trevor congelou no lugar e o mediu com os olhos, perguntando:

—Tem certeza? Acho melhor acabar com isso.

—Não, mas dê-me aqui. - Estendeu a mão.

Pegou o colar e colocou-o no cós da calça. Ponho no bolso quando recuperar o paletó. Constantin, que o vestia, aproximou-se, trêmulo da cabeça aos pés.

—Senhor. - Segurava a tocha como se a vida dependesse dela. - O monstro… Era Greta?

—Provavelmente. - Trevor suspirou e chamou-lhe à realidade com um tapinha nas costas, a mão ocupada carregando a cabeça da criatura. - Venha. Vamos embora.

Mais uma vez, pobre homem. Seguiram caminho de volta em silêncio.


Sypha subiu o nível do círculo de fogo quando ouviu movimento vindo do bosque. Só se acalmou quando viu o ponto de luz, a tocha na mão de Constantin. Quando Trevor apareceu ao lado dele, deu um passo à frente para abraçá-lo, depois um passo para trás. Não, muito obrigada. Ele ergueu uma horrível cabeça lupina que ainda pingava sangue como quem mostrava um prêmio de caça, mas sem um centésimo da alegria.

—Quer que eu ponha fogo nisso também? - Ela apontou a cabeça.

—Não, ainda não. - Trevor gesticulou para que ela os seguisse até a guarita. De lá, gritava para o alto. - Senhor prefeito, está aí? Senhor prefeito?

O amedrontado homem pôs a cabeça para fora da janela de observação.

—Está morta a ameaça. - Continuou Trevor. - Vamos apagar as chamas. Que bom que não foram necessárias, não acha?

O prefeito respondeu em concordância com outro grito e sumiu para dentro da guarita outra vez. Trevor sussurrou para ela:

—A questão é, apagar como?

Sypha apontou o rio no fim da estrada:

—Há um bocado de água ali. Já volto.

Ajeitou-se para viajar com o vento quando Alucard perguntou:

—Posso levá-la, Trevor?

—Não é para mim que você pergunta. - Trevor deu de ombros.

Todos se entreolharam e Alucard se aproximou dela:

—Posso? Vai demorar menos da metade do tempo.

—Bom, que seja. - Sypha riu.

Ele a pegou no colo como fizera com Trevor na taverna para levá-lo escada acima. Talvez eu pese vários quilos a menos. Agarrou-se ao pescoço de Alucard, temendo que o próprio rosto estivesse em todos os tons de vermelho.

Ele começou a saltar pela estrada, levando ambos a uma velocidade que ela não alcançaria. Antes que percebesse, os quinze minutos andando se tornaram segundos. Ao ser posta no chão, Sypha precisou se segurar por um momento contra a tontura.

—Tudo bem? - Perguntou ele.

—Quase. - Segurava o braço de Alucard.

Deu um passo em direção ao rio e quase foi ao chão; ele a manteve de pé envolvendo-a pelos ombros. No susto, Sypha virou a cabeça para o lado de Alucard, e olharam-se por alguns segundos.

—Não precisava. Eu não ia demorar. - Sypha colocou-se de pé. Passou a tontura.

—Perdão, não achei que fosse um oferecimento impróprio.

—Não é. É só que… - As palavras escapavam a ela. Ah, desisto. - Obrigada.

Estendeu ambas as mãos para manipular a água do rio, criando uma enorme onda, que passou por cima de suas cabeças e correu em direção à vila. Ao longe, viram desaparecer o círculo de fogo e ouviram os longínquos gritos de susto, em contraste com o silêncio da noite. Ambos riram do absurdo, e o silêncio retornou. Sypha olhou para os acampamentos vazios, vendo o braço estendido de um cadáver no mais próximo. Desviou o olhar. Não estou com estômago para isso.

—Lamento por eles. - Falou como que sozinha, observando o rio.

—Eram seis. - Alucard olhava na mesma direção. - Três corpos para enterrar, dois vivos para contar a história.

—E o sexto?

—O lobo.

Sypha sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

—Como isso veio a acontecer? - Ela perguntou.

—Com os conhecimentos que tenho, um mestre da forja dos exércitos de meu pai seria perfeitamente capaz de uma coisa dessas, com um cadáver ou com matéria viva. - Ele passou a encará-la, virando a cabeça. - Mas a vítima transformada estava em convívio normal com os outros… Apenas portando um tipo incomum de pedra.

Ele puxou um cordão do cós da calça, e, antes que Sypha tivesse a chance de se corar outra vez, Alucard abriu a mão para mostrar um colar com um pingente vermelho, de tom tão vibrante que quase parecia ter brilho natural.

—Uma pedra amaldiçoada. - Ele fechou a mão e o semblante. - De um tipo que eu creio já ter visto antes.