A manhã tinha sido de desmontar restos de barracas, avaliar o que ainda estava inteiro e, sem falta, recolher corpos, cobertos por uma mortalha clara dentro de uma carroceria, que foi enganchada ao vagão da carruagem. Um funcionário da prefeitura também batera à porta do estábulo para entregar uma conveniente bolsa de moedas; o som sobressaltou Florin, que acordou gritando de um cochilo no feno. Trevor notou as olheiras fundas nele e em Constantin, que não devolvera o paletó de Alucard nem a capa de pele até o último segundo. Bom, não que eu tenha dormido o sono dos anjos para julgá-los.
—O prefeito também deu ordens expressas, senhor. - O funcionário gaguejou. - Ele pede que queimem a cabeça do demônio e a joguem no rio. Não enterrem. Sabe, para não trazer mau agouro.
Essa coisa horrorosa não merece mesmo um enterro. Sypha estava acordada o suficiente para ouvir, e deu cabo da tarefa com uma eficiência sem igual.
Já chegava-se ao meio da tarde quando a ponte, enfim, estava livre para se ir e vir. Uma procissão de acampamentos se foi antes que a carruagem de quatro cavalos passasse por ela. Os dois homens, desafortunados convidados no vagão, tinham seu destino na minúscula vila seguinte, cercada de fazendas de feno e logo depois de outro rio, mais estreito e com a ponte inteira. Despediram-se com não mais do que um agradecimento e um aceno de cabeça, e Trevor tocou a carruagem dali olhando para trás. Ao chamado de um senhor com um ancinho, viu o povo se aproximando dos dois que ficavam. Vão fazer perguntas… E não é como se eu quisesse responder. Trevor conduziu até o início da noite, quando pararam para acampar no mesmo silêncio fúnebre. Atirou uma pedra à fogueira, apenas por tédio completo, e se recostou logo para dormir com Sypha a tiracolo.
O dia seguinte teve um doce amanhecer mais ensolarado, com o amargo ainda residindo no fundo da garganta. Sypha se sentava ao banco do cocheiro com o mapa. Trevor avistou algo no horizonte e fez questão de comentar:
—Mais um rio? - Perguntou a Sypha. - É dos grandes, dessa vez.
—É o Lago Snagov. Crê-se que é o maior da Valáquia.
—Não é para menos. - Ergueu uma sobrancelha.
A ponte também era suntuosa e larga, e tinha pequenas guaritas, duas em cada ponta. Deve ser coisa dos tempos de guerra. Também sobre ela, havia um homem que mais se parecia com um trapo no chão; chamou e levantou um braço quando passaram por ele.
—Bom-dia, senhores. - Ele tirou o capuz escuro. - Transporte a este irmão?
Trevor o olhou da cabeça aos pés. E que pé prejudicado. Colocava-se para fora do sapato furado, estava vermelho e com sinais de que infeccionaria. O pobre monge vestia um hábito surrado e desbotado debaixo da capa e carregava um cajado. Não era velho, mas o cabelo branco começava a despontar por entre os cachos escuros.
—Estou aqui já faz mais de um dia, e meu pé já não aguenta caminhar. - O homem se apoiou no beiral da ponte com uma mão e com o cajado na outra. - Por obséquio?
—Venha conosco. - Trevor indicou com a cabeça que subisse. - Aonde está indo?
—Estou de volta a Snagov. É para lá que vão?
—Não, na verdade. Mas não faz mal. - Deu de ombros.
No vagão, Alucard o ajudou a subir e o acomodou a um banco.
—Muito grato, muito grato. - O monge suspirou de alívio. - Chamo-me Pavel. Guio vocês até lá, se lhes convém.
Pavel agradeceu a Deus e a eles mais vezes do que eram capazes de contar. Fora as bênçãos, desandou a falar sobre sua recente peregrinação pela Valáquia, da qual estaria de volta sem demora se não fosse o acidente com o pé.
—Caminhei tudo isso pela minha sobrinha, senhores. O pai dela é meu irmão, e ele a ama mais do que tudo neste mundo. Está saudável a menina e paga a promessa. - Pavel olhou para fora da carruagem. Ele e Alucard tinham se aproximado do banco do cocheiro para que todos pudessem conversar. - Esta estrada fica mesmo terrível quando chove. Cruzes.
—O país inteiro está sob essa garoa interminável, acho. - Alucard comentou.
Trevor olhou para o céu, que lhe retribuiu com uma gota no olho. Lá se vai meu dia de sol.
Ao meio-dia, estacionaram a carruagem debaixo da maior árvore que Trevor foi capaz de encontrar e pararam para descansar os cavalos à beira do lago. Alucard não tinha apetite e se contentou apenas com um punhado de frutas secas. Na outra ponta do vagão, sentavam-se os outros três, comendo e entretidos com as singularidades das viagens de Pavel. Com o diário em mãos, relutou em começar a escrever, mas, depois da primeira palavra, as outras queriam fluir.
"Como prometi, estou aqui, não só mais esclarecido como também mais confuso. Sei que é uma antítese o que vivo. No entanto, poucas dessas coisas fazem sentido.
Ao mesmo tempo, dói-me escrever e estou radiante. Sypha e eu estamos passando pela mesma coisa. Cada momento que passo a sós com ela me faz queimar de vontade de seu abraço. Como se desviar de uma coisa dessas quando somos criaturas de natureza tão semelhante? Com ela, posso falar do que estiver em mente e por horas a fio; qualquer assunto nunca se esgota. E, mesmo que o silêncio seja, por vezes, desconfortável, sei bem o que faria com ele se tivesse o direito, o que é improvável, para não dizer impossível. Tais coisas são complicadas com mais frequência do que são simples, e ainda não existem instruções claras para se lidar com o curioso ser humano.
Ela ama Trevor. Sei que ama. Tudo o que fazem entrega isso. A forma como olham um para o outro, como buscam momentos a sós, como se preocupam um com o outro e, em especial, como ela o tirou de um ciclo de derrota e álcool do qual ele nunca sairia sozinho. Também, ele não permitiria que qualquer pessoa tivesse esse papel: foi questão de confiança, uma ligação forjada entre eles pelo mesmo fogo cruzado que me levou a conhecê-los. Para ser sincero, não sei de muito do que houve entre os dois; eu não estava lá. Disse a eles um adeus prematuro e vivi, desde então, um sono instável, rodeado pela minha própria ciranda de ruínas. Em dias como hoje, essas ruínas me parecem distantes demais, e, por isso, são dias de estranho bom humor.
Agora, falando sobre Trevor… Bom, ele não é meu foco, nem meu maior problema nos últimos tempos. Mas algo me diz que existem coisas que ele gostaria de tratar comigo. Posso apenas conjecturar o motivo: pode ser que ele tenha percebido nossa movimentação suspeita, motivo pelo qual se incomodou com a minha mentira em Ploiesti. Na melhor das hipóteses, quer apenas conversar. Não é como se eu e ele pertencêssemos a universos tão distintos assim, ou como se fôssemos incapazes de nos compreendermos. Admito que, vez ou outra, dialogar de fato pode ser difícil, mas existe certa forma de compreensão que independe de palavras. Ele me pediu de forma indireta que ajudasse a cuidar de Sypha, já que, em breve, visitaremos o túmulo de seus pais. Para que confie também a mim a única coisa que ele tem, acho que não somos apenas mais farpas um para o outro.
Mesmo que, e a possibilidade é maior do que a contrária, eu acabe de mãos vazias, não saio dessa situação ferido de morte. Sim, mesmo que eu continue na estrada com os dois; ainda verei algo raro e belíssimo acontecer diante dos meus olhos, e não é todo dia que se tem essa sorte. Agora, me pergunto, e se eu for mais afortunado do que mero espectador? Duvido. Mas o tempo dirá, e não negaria a chance… Dependendo do preço que ela tiver.
Obrigado por me acompanhar até aqui, e reaparecerei quando tiver a oportunidade."
Voltaram à estrada sem demora, apesar da garoa. A maior parte do trajeto passava pela margem do lago, cercada de mata fechada e duas ou três aldeias. Apesar do pé em péssimas condições, Pavel mantinha um humor resplandecente. O monge olhava ao redor:
—Muito em breve, estaremos lá. São uma bênção, vocês. Deus os pôs em meu caminho, só pode ser Deus.
—Não fui muito chamado de "bênção" durante a vida, senhor. - Trevor riu.
—Pois foi uma criança endiabrada?
—Fui o filho mais novo de três, em uma casa grande e cheia de parentes. - Trevor voltou a olhar para a estrada. - Não deve ser difícil imaginar.
—É a natureza das crianças, tão novas e ainda cheias de vida.
Eu, um Belmont, uma Oradora e um monge. O quão irônico, e o quão provável é este grupo? Riu sozinho. Sypha ocupou-se de falar com Pavel sobre textos históricos de todo tipo. Por mais que ela o fizesse por cortesia, era bom diálogo de se ouvir. Alucard recostou a cabeça na carruagem, ainda com o diário no colo, sem coragem de mexer mais na bagagem com todo aquele solavanco.
Já era quase fim de tarde quando Snagov começou a aparecer, com residências de madeira e pedra. Pavel apontou uma viela:
—Em casa, enfim. Siga por ali, por favor, senhor cocheiro. Quero ver meu irmão antes de voltar ao monastério.
—Falando no monastério, fica numa ilha, correto? - Perguntou Sypha.
—Precisamente, moça. E o lago até lá é largo demais para se construir uma ponte. Vai-se de barco. - O monge tocou o ombro de Trevor. - Aqui, pare aqui.
Desceram a uma residência cuja fachada tinha trabalhos em couro de todo tipo à venda. Alucard ajudou que Pavel descesse e também bateu à porta, sem vendedor à vista. Pavel não hesitou em abrir e chamar:
—Matieu? Matieu, está aí?
Uma menina de talvez dez anos apareceu, com os mesmos cabelos escuros e ondulados. Abriu um sorriso e cumprimentou o monge como "tio Pavel", pulando para seu abraço. Pavel a ergueu ao ar com quanto equilíbrio poderia ter com aquele pé, ao que ela riu. Depois de pô-la no chão, perguntou:
—Onde está o pai?
—Lá dentro, tio.
—Mande chamar, Irina, por favor. Temos visita, boa visita.
A garota sumiu para dentro da casa e logo apareceu um homem atarefado, mais novo do que Pavel e com um avental. Tinha nas mãos uma tira de couro de quatro fios meio trançada. Abraçou o irmão por longo tempo, trocando amenidades e ouvindo todo tipo de história um do outro.
—Não vamos deixar as visitas em pé. - Pavel gesticulou para que se encaminhassem à mesa. - E, também, não sem apresentações.
O monge começou a falar de um por um enquanto a esposa de Matieu buscou-lhes água e pão. Alucard aceitou mais por educação do que por fome. A mulher se ofereceu para chamar a velha médica, que morava perto. Pavel fez que não:
—Deixe. Logo estarei em casa e tratarão de mim. Mas vamos precisar do barqueiro, com certeza, que deve estar lá pela beira do lago. - Deu o último gole na água e chamou o irmão. - Acredita? A moça aqui sabe ler uma miríade de idiomas. E nem é freira!
Sypha corou e gaguejou:
—É só que meu pai era bastante letrado, senhor. Como ele não teve filhos homens…
—Entendo, entendo. - Matieu balançou a cabeça em confirmação.
Já era quase noite quando Pavel e o irmão terminaram de atualizar um ao outro da parentela e das viagens, assim como tiveram fim as bajulações do monge para com a sobrinha, que não parava de enchê-lo de perguntas. Alucard ajudou outra vez que Pavel ficasse de pé.
—O barco, agora. E eu os convido a conhecer meu lar. - Pavel fez uma mesura, já do lado de fora. - Muito grato pela recepção, Matieu. Hospedem-se conosco, os três, se lhes convier. Mesmo que pequeno o monastério, há espaço a todos. Menos aos cavalos, talvez.
—Vamos ter que deixá-los no estábulo, no caso. - Trevor coçou a cabeça. - Ajuda se eu descobrir onde é.
—Posso mostrar. - Pavel se acomodou no banco do cocheiro. - Vire ali, à esquerda.
Alucard não participou da negociação, nem deu atenção ao estábulo. É como todos os outros. Não há muito a se ver nele além de cavalos. Olhou para Sypha a intervalos, entretida com o livro, que tinha uma série de páginas com pequenas dobras no canto. Vamos ter muito o que conversar, dada a chance. Seguiram dali para o lago, ao que Alucard preferiu carregar Pavel no colo, muito para divertimento do monge.
A margem tinha um pequeno atracadouro com um silencioso barqueiro, também vestindo o hábito escuro. Ele aguardava de costas com uma vara de pescar atirada à água, quando ouviu passos se aproximando. Virou a cabeça e arregalou os olhos de surpresa, ficando de pé e deixando a vara no chão.
—Irmão Pavel? - Caminhou até ele. - Não creio.
Abraçaram-se com a mesma intimidade e alegria do que com a família de Pavel. Depois de dois dedos de prosa, o barqueiro os informou:
—Só cabem dois passageiros por vez. Aguardem na margem, e logo venho buscá-los.
Bom, deixe que o casal vá junto. Sentou-se no barco apoiando Pavel enquanto o condutor se posicionava com os remos. O lago tinha um bocado de plantas flutuantes em flor, que se espaçavam enquanto passavam. Ganharam distância, e Alucard observava os dois pontos que se tornaram Trevor e Sypha falando de algo que ele desconhecia. Estão tão perto quanto eu estava anteontem. A vista do monastério saía de um também ponto disforme para um prédio de arquitetura antiga, feito de pedra e cercado de um pouco de verde. Sorriu para ninguém, e aproveitou o momento para fechar os olhos. Ouviu um sussurro ininteligível e os abriu de novo, não ouvindo mais. Os monges estavam em silêncio. O que será? Voltou à própria meditação, e, logo, eles começaram a conversar. A primeira frase à qual prestou atenção foi do barqueiro:
—…Assombrado há algumas semanas, Irmão Pavel. Trocam os castiçais de lugar. Apagam-se as velas sem vento. Até quebraram-se algumas porcelanas. Derrubaram o altar! Não sei como, em nosso sagrado lar, uma coisa dessas. Nunca aconteceu antes, apesar dos pesares.
Apesar do quê? Pavel respondeu:
—Por Deus. Não é ninguém que o faz?
—Não, irmão. Todos os da vigília da madrugada também testemunharam. Os que passam no cemitério também, vão ao chão como frutas podres sem tropeçar em nada.
Quem diria que um caso para nós brotaria de um desvio de caminho. Sorriu outra vez. O barco chegou à ilhota e o barqueiro parou para que descessem. Auxiliou Pavel mais uma vez, e ficou apoiando-o, olhando para o horizonte até que a embarcação voltasse com os outros dois. Foi, depois, devidamente atracada na ilha, e o monge que os transportara recolheu do novo atracadouro uma rede repleta de peixes. Pavel falava com todos por onde passava, recebido com mais efusividade do que Alucard esperava de um monastério. Era, no entanto, o mais alegre dentre os companheiros. Adentraram o prédio, que era menor de perto do que parecia de longe, cercados por mais pessoas e mais conversa. Logo na entrada, Pavel decidiu, em uma conversa com outros três monges:
—Agora, meu pé. Eu levaria os visitantes para conhecer o lugar, mas vou deixá-los com Irmão Laurentiu aqui. Alguém, por favor, leve-me ao quarto.
Alucard deixou que um noviço o guiasse e, enfim, viu-se livre da tarefa de muleta. O tal Laurentiu deu um passo à frente do trio de monges; tinha faces rosadas de rapaz e usava grossos óculos.
—Como posso ajudá-los, senhores? - Gaguejou. - Posso recolher suas bagagens e levá-las ao quarto? Pensei em irmos às cozinhas logo depois. A estrada dá fome, dizem.
—Parece excelente. - Trevor concordou. - Objeções?
Ninguém se opôs, e seguiram ao destino depois que o jovem estava de volta. As espaçosas cozinhas tinham também grandes panelas, colheres e todo tipo de utensílio. Laurentiu corria de um lado para outro a fim de servir-lhes mais pão, dessa vez, acompanhado de cerveja.
—A hora da refeição já passou, e aqui, não se desperdiça. - Laurentiu também se sentou, com um pão preto de centeio, que partiu em vários pedaços com uma faca. - O que falta, a cidade nos doa. Mas pão e cerveja não nos faltam. São a nós como pão e vinho são Cristo.
—Se me permite mais uma caneca. - Trevor secara a dele, rápido como um raio. - É maravilhosa. Parabéns a quem a faz. O que há nisso aqui?
—Cascas de laranja, senhor. Uma iguaria que chegou a nós de terra distante. Da fruta, faz-se um doce que é sem igual. Pergunto ao padre se posso dar-lhes um pouco para provar.
Antes que pudessem recusar, Laurentiu já tinha ido atrás da permissão. Alucard deu o primeiro gole no próprio copo e descobriu uma bebida consistente como uma refeição. Acho que não vou ter fome para jantar. O noviço voltou com o vasilhame, tendo dificuldade em abri-lo, mas conseguindo no fim. Deu uma colherada a cada visitante sobre uma fatia de pão. O sabor do tal doce era mesmo muito particular, e o pão, com ele, ganhava outra vida.
—Fizemos com mel, porque açúcar não nos chegou. - Laurentiu comentou. - É mesmo uma raridade.
—Mudando de assunto, vocês têm uma biblioteca, certamente. - Sypha falou de boca cheia.
Laurentiu olhou para os lados antes de responder:
—Não é permitido que estranhos entrem, senhora. Mas vejo se os levo até lá. Digam que se perderam, se forem vistos.
O rapaz aguardou que comessem e bebessem antes de ficar de pé e guiá-los ao resto da visita. Passaram pelo pequeno cemitério, com suas lápides simples, sem estátuas, uma horta também pequena, um conjunto de videiras, que produziam suculentas uvas de mesa e, por último, a capela. Não tinha luxos como ouro por toda parte, nem muitos bancos, mas mesmo a beleza singela do lugar estava em falta de alguma decoração. Alucard olhou ao redor e viu um castiçal partido, faltando alguns apoios para vela. Perguntou:
—O que houve com esta peça?
—Ah, bom… - Laurentiu gaguejou. - Não sei. Creio que alguém tropeçou perto dela, senhor.
Alucard olhou para Sypha, que olhou para Trevor. É claro que não é verdade.
—Irmão, pode me mostrar onde é a biblioteca, por gentileza? - Sypha pediu.
—Certo, senhora. Os outros dois não vêm?
—Sou a única que sabe ler, então, para eles, não vai passar de uma sala cheia de papel. - Ela riu.
—Sim, sim. - Laurentiu confirmou com a cabeça. - Senhores, se precisarem nos encontrar, peçam para que os indiquem a torre que não é a do sino. Não nos estenderemos muito.
Esperaram que se distanciassem pelo corredor. O eco é um excelente espião.. Tocou no ombro de Trevor para chamá-lo:
—Não sei se vocês dois ouviram o mesmo que eu no barco. - Sussurrou. - Esta capela é assombrada.
—Hã, não, não ouvimos. - Trevor começou a caminhar por entre os bancos. - Mas vamos dar uma olhada no lugar.
Observaram a capela e o altar em especial, que tinha poucos objetos. A maior parte já deve estar longe das mãos da assombração. A grande cruz tinha uma lasca faltando na parte de baixo. Trevor a apontou:
—Aqui. O pedaço já deve ter ido para o lixo.
—E é a única falha. - Alucard virou o rosto para ele. - Foi um puxão no sentido das fibras da madeira, está vendo?
—Estou.
Ficaram de pé e seguiram para a Bíblia aberta.
—Está de ponta-cabeça. - Trevor virou uma página.
—E aquela taça ali tem palha dentro. - Alucard ergueu uma sobrancelha.
—E este cheiro?
Alucard farejou e detectou que vinha de uma aromática pira acesa, com carvão em brasa dentro.
—Parece tudo certo com ela. - Estreitou os olhos para as brasas. - Mas o que acha que pode ser tudo isso?
—Não parece arte de um demônio. Faria muito mais estrago. Talvez um fantasma, mas quem assombraria um monastério?
—Depende. - Alucard levou a mão ao queixo. - Quem é o morto?
Sypha subia a escadaria em espiral da torre, com Irmão Laurentiu à frente. O rapaz levava um pesado e enferrujado molho de chaves, que tilintava a cada passo. Já está quase anoitecendo, de fato, mas creio que é escuro aqui até no dia mais claro. O jovem monge perguntou:
—A senhora é freira?
—Não, Irmão. - Sypha quis rir.
—Então, como aprendeu a ler?
Contou a ele de cor a história dita à família de Pavel em Snagov. Não é como se aqui fosse o melhor lugar para mim.
—Mas, digo, seu pai não a casou? - Ele gaguejou. - Seu marido saberia ler.
—Meu marido me deixou, Irmão, porque não posso ter filhos. - Adquiriu o tom mais triste do qual foi capaz. - Meu velho pai imaginava que isso me aconteceria, visto minha saúde quando menina…
—Ah, mil perdões, senhora. Não deveria ter insistido no assunto. Desculpe a indelicadeza. - Laurentiu gaguejou sem precedentes.
—Não há problema. Tento ser feliz de outras formas, e a leitura é uma delas. - Deu de ombros.
—Que, um dia, Deus a abençoe com uma linda família, de quantos filhos desejar.
—Muito grata, Irmão.
Chegaram à porta da biblioteca, e Laurentiu a destrancou. Era uma sala pequena e abarrotada de prateleiras, cujos corredores eram largos apenas o bastante para uma pessoa. Agora, sim, estamos falando a minha língua.
—Sobre o que gostaria de ler, senhora?
—Estive lendo botânica nos últimos tempos, mas pensei em história desta vez.
—Boa escolha. O monastério tem setenta anos de registros, caso se interesse. - Ele apontou para dentro com a mão aberta.
—Vou acatar o livro que sugerir, obrigada.
Já anoitecia, e Laurentiu arranjou-lhe uma vela, junto a um grosso livro marrom. Sypha pensou em recusar a vela, mas aceitou. Não é como se ele pudesse saber. Abriu o imenso volume, sentada a uma mesa de estudo, e as primeiras horas da noite se passaram com aprendizado. Na verdade, as cidades que circundavam o lago é que surgiram ao redor do monastério de Snagov, e não o contrário; décadas antes, pouco antes que Sypha nascesse, fora ali travado um desfecho de guerra, e o grande general Dragoi da Valáquia foi morto e enterrado pelo exército inimigo… Na cripta do monastério?
—Irmão Laurentiu. - Chamou-o, perdido entre as estantes, e ele se aproximou de prontidão. - Fale-me mais sobre este general.
—Aprecia histórias de guerra, senhora?
—Aprecio boas personagens, antes de mais nada.
—Pois bem. - Ele pigarreou. - O general Dragoi era cruel e sanguinário, sem dúvida. Era obstinado, e um combatente sem igual. No entanto, conta-se que, aqui mesmo na floresta que cerca o lago, cometeu o erro da prepotência e foi pego numa armadilha inimiga. Sua cabeça foi espetada numa estaca, tal qual ele fazia com os soldados inimigos mortos, e foi exibida a toda Istambul.
—E o que sobrou dele?
—Repousa sob nossos pés, como diz o livro.
—Hmm. - Sypha lembrou o castiçal partido na capela. - E que tipo de morto ele é?
Laurentiu fez sinal de silêncio, sussurrando:
—Devemos falar baixo, senhora. - Olhou para os lados. - As paredes têm ouvidos.
O jovem monge convidou-a a sair da biblioteca, e pediu que o seguisse. Passaram por um caminho que não tinham feito antes, atravessando um salão central em direção à torre do sino. Laurentiu estava em perfeito silêncio, e pegou uma tocha da parede ao que destrancaram outra porta, maior e mais barulhenta, deixando-a aberta. Num canto discreto, havia um alçapão, que ele abriu e desceu primeiro. Devo mesmo? Seguiu-o. Assim que estavam fechados no subsolo, Laurentiu sussurrou:
—Dizem que é o general, senhora, que tem assombrado a capela. Os mais velhos dizem já tê-lo visto rondar o prédio mais de uma vez. Quando o olham, se ele olhar de volta, tira a cabeça para mostrar que está morto.
—Um fantasma, então.
—Um demônio, é o que ele era em vida. Mas sim, um fantasma. Venha ver a cripta.
Caminharam por aquele corredor apertado. Laurentiu tinha que abaixar mais a cabeça do que Sypha, até chegarem a um espaço mais amplo, com uma série de urnas em espaços nas paredes, com as caveiras em frente. O monge apontou:
—Ali. Essa última é a do general.
As outras urnas eram simples, de madeiras com poucos adornos e desenhos; a dele carregava uma ostensiva coroa no topo da caveira, repousando no topo do vaso. Será mesmo que recuperaram de Istambul a cabeça do homem? Sypha ergueu a sobrancelha e encarou as órbitas sem olhos do esqueleto, sentindo um breve calafrio.
—Devo contar-lhe um segredo, senhora?
—Conte. - Sim, pelo amor de Deus. - Garanto que o levarei ao túmulo.
—Dizem as más línguas que Irmão Pavel é filho bastardo do general.
Assim que Laurentiu terminou de falar, o teto acima deles estremeceu seis vezes, as badaladas marcando seis horas da tarde. Esperaram um pouco até que os passos atravessassem o alçapão e saíram com a maior prudência possível.
—Estou atrasado para lavar as mãos, e vou chegar mais atrasado ainda no jantar. - Laurentiu gaguejou.
Como é bom voltar ao ar fresco.
—Eu é que peço desculpas por atrasá-lo, Irmão.
—Não se preocupe, já levo sermões demais por aqui. Vamos atrás dos outros dois.
