Cada passo que Trevor dava na grama fazia com que afundasse. Passou por entre duas lápides e encontrou uma árvore debaixo de onde se sentar para contemplar o lago. Do lado direito pastava um pônei, guiado por um monge de barba branca. Olhou para cima e uma gota se desprendeu das folhas, atingindo-lhe a testa. Atrás de si, ouviu passos, e se esticou para ver quem era.
—Está me seguindo? - Ergueu uma sobrancelha.
—Não. - Alucard também se sentou à sombra desnecessária da árvore naquele dia cinzento que já tinha seu fim. - Só não tenho muito mais para onde ir.
Tecnicamente, está me seguindo, sim. Deu de ombros. Não que seja de grande ajuda. Também não sei aonde ir. A garoa engrossava, e Trevor suspirou.
—Quando acha que chegaremos a Bucareste? - Alucard perguntou.
—Em mais três ou quatro dias, se voltarmos por onde viemos. Deixei a droga do mapa na carruagem, então, não passa de um chute. - Trevor se espreguiçou. - O que tenho que fazer por mais um caneco daquela cerveja?
—Pedir, talvez.
—Parece uma boa ideia. - Trevor riu.
—Obrigado, acho. Enfim. - Alucard se moveu, provavelmente para se acomodar. - De todos os lugares para achar trabalho, justo no que viemos por acidente.
—Olhe só para você, engajado a esse ponto. - Carregou o tom sarcástico. - Nem parece o mesmo mimado rebelde que nos recebeu.
—Espere, está feliz por mim ou apontando minha hipocrisia?
—Talvez os dois. - Trevor fechou os olhos. - Sente falta de casa?
—Sim e não, eu diria. - Sei bem como é. Deixou Alucard continuar. - Há coisas que me fazem mais falta.
—Como, por exemplo…?
—Não deve ser difícil acertar. - Alucard suspirou.
—Não é. Já tive família um dia. - Trevor cruzou os dedos sobre a barriga. - Éramos três filhos de meus pais. Fui o terceiro, um irmão e uma irmã antes de mim. Minha irmã era melhor com o chicote que eu. Testou em mim algumas vezes.
—Meus pêsames. - Alucard riu.
—Já meu irmão era bom com a espada. Meus pais eram bons em tudo no que botassem as mãos. Eu não deixava nenhum deles em paz, mas eles retribuíam sem falta. Sangue do meu sangue.
Contando assim, parece uma história que li em algum lugar. Sorriu sozinho, em direção ao lago. Faz tanto tempo.
—Há dias que é como se pudesse vê-los na sua frente? - Alucard perguntou.
—Sim, há, sim. O que diriam, o que fariam. - Sentiu um peso no peito. - Meus pais e irmãos, tios e tias, primos e primas, todos eles.
E só sobrou a mim. A sensação das lágrimas lhe parecia estranhamente inatingível. Estou só. Mas isso você também está. Deu uma risadinha, balançando a cabeça em negação. Quem diria, lá atrás, que, em algum dia da minha vida, eu estaria conversando sobre a família que perdi com um prêmio de caça valioso desses. Meu pai me daria um bofetão na orelha.
—Pense pelo lado bom. - Alucard sugeriu. Há um lado bom? - Agora, temos uma casa melhor para onde voltar.
—Eu cedi a minha casa a você, não o contrário.
—Não é como se eu fosse expulsar você se batesse à minha porta de novo.
—Não, é? - As lágrimas pareciam um passo mais próximas. - E não é como se eu fosse emoldurar seu crânio na parede por descer as escadas para a biblioteca.
Trevor ouviu uma movimentação na grama e olhou para trás; Alucard ficara de pé. Imitou-o e viu Sypha se aproximando de capuz na cabeça com Laurentiu do lado. O jovem monge os guiou por alguns corredores até que chegassem aos silenciosos quartos, vazios de ocupantes àquele horário. Destrancou uma porta primeiro e comentou:
—Mandaram que alguém limpasse, mas pode não ter sido o bastante. Já há tempos não se usam estes quartos.
Olhando para dentro, Trevor viu uma mobília composta de cama de solteiro, mesa sob a janela, cadeira e um baú apenas. "Quartos", então. Dois separados. A hipótese se confirmou quando Laurentiu foi destrancar o aposento do lado oposto do corredor. Trevor sorriu de canto de boca. Abençoada privacidade. Puxou Sypha pela mão com discrição e a viu dar o mesmo sorriso. Conferiu se estavam ali todas as sacolas da pouca bagagem, a maioria deixada no estábulo. Não que roubassem um bocado de comida e um tabuleiro de damas por aqui.
Quando Laurentiu se foi, reuniram-se os três ali, sentados à minúscula cama. Ao que fechou-se a porta, Sypha fez um resumo da visita à biblioteca, à cripta e sobre o suposto fantasma do general.
—Já ouvi falar dele, por alguns escritos de meu pai. - Alucard disse.
—E o que eles diziam? - Sypha perguntou.
—"Aquele militarzinho covarde." - Alucard deu uma risada sarcástica. - Creio que fez seu nome durante a guerra que se deu antes de nascermos.
—Correto. - Sypha acendeu uma chama para que se vissem. - E faleceu em decorrência da mesma guerra, aqui perto.
—Bom, se há mesmo um fantasma, vamos ter que vigiar a capela para saber, e ver se o digníssimo aparece. - Sugeriu Trevor.
—Mas visto que a hipótese já corre entre os monges, é possível que alguém já vigie. - Sypha pôs a outra mão no queixo.
—Ou que alguém já tenha vigiado, e não vigie mais. - Alucard deu de ombros. - Pode ser que não se perca mais tempo com isso, já que não adiantou para conter o fenômeno. Posso ficar de guarda lá.
—Por mim, que seja. - Trevor concordou. - De acordo, Sypha?
—De acordo.
O vento gelado do início de noite fazia bater a janela e mostrou a necessidade do calço que estava sobre a mesa. Buscaram cobertores no baú, que pareciam servir bem à temperatura do outono, e jogou-se uma partida de damas de Trevor e Sypha contra Alucard sozinho até que houve batidas à porta. Trevor mandou que entrasse, e era Laurentiu:
—Chamo-os para lavar as mãos ao jantar, senhores. A comida já se serve.
Deixaram o quarto até a pia a céu aberto, com uma água bastante limpa e fria. Por curiosidade, Trevor perguntou:
—Há banhos por aqui?
—Como em todo lugar deste mundo, senhor. - Laurentiu fez que sim com a cabeça. - E são quentes neste tempo. Mas temo que, caso queiram, a moça terá que ir fora do horário. É um recinto coletivo.
Seguiram-no à longa mesa de jantar, onde sentavam-se os cerca de trinta monges do local. Comiam em silêncio a refeição simples de pequenos peixes salgados, ovos cozidos, sopa e pão preto, acompanhados da cerveja inigualável. A maioria já se encontrava na metade do prato quando chegou Pavel, com o pé tratado e apoiado por um auxiliar.
Quebrou-se qualquer protocolo de quietude e começou-se uma conversa ininterrupta dele com todos que quisessem atenção. Trevor aproveitou o tumulto para pedir com discrição a Laurentiu outra caneca de cerveja, fornecida sem demora e bebida sem reprovação de ninguém. A primeira colherada na sopa, já morna o bastante para ser tomada sem ressalvas, revelou um sabor no qual Trevor não sabia pôr um nome. Está amarelo o caldo. O que será?
Ao que recolheram-se os pratos, foram ligeiros para retornar aos quartos. Sypha encostou a porta com o corpo, soltando um suspiro de alívio:
—Enfim, sós.
—E ganhamos a noite de folga. Sorte grande, não acha? - Trevor sorriu, deitando-se. - É uma pena que as paredes pareçam tão finas.
—Isso já não é problema meu… - Ela se juntou à cama depois de acender uma vela e mordeu-lhe de leve o pescoço.
—Ei, vamos com calma. - Trevor sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. - Não precisa exagerar só porque-
Sypha repetiu a mordida, trocando-a de lugar e com mais pressão nos dentes. Trevor deixou escapar um som.
—Porque gosto? - Ela o soltou e riu. - Você sempre fez mais barulho do que eu. Mas, aqui, vai ter que fazer silêncio. Sabe onde estamos.
Alucard ainda sentia o travesseiro debaixo da cabeça, a cama sob o corpo, os braços estendidos no colchão. Respirava fundo, de olhos fechados e peito para cima, coberto pelas mantas encontradas no baú. Não via, e não veria mesmo que abrisse os olhos, naquele início de noite sem vela acesa, mas ouvia um ruído que acreditava ser distante. O que é isso? Forçou-se a prestar atenção, e também a mergulhar mais fundo na escuridão que o levaria ao sonho. Inspirou mais profundamente uma vez e teve a impressão de escutar um "por favor" em tom choroso. Sentiu um arrepio, como que de frio, apesar das mantas suficientes.
Quebrou o feitiço do sono e sentou-se, recostado à cabeceira. Olhou para nada específico por um momento, depois alcançou o bolso interno do paletó pendurado à ponta da cama. Se for isto aqui… Prendeu a respiração por um segundo e acendeu uma faísca atrás do colar. O pingente era vermelho, da cor de sangue fresco. De uma cor muito familiar.
Soaram oito badaladas do sino, e os monges se recolheriam ao sono. Mais um pouco, e vou rondar a capela. De olhos já bem abertos e acostumados à escuridão, ouviu outro ruído. Hã? Uma segunda atenção mostrou que vinha de fora, abafado pelas paredes. Ergueu-se da cama e destrancou a porta girando a chave devagar. Saindo ao corredor com descrição, detectou que vinha do quarto logo à frente. Por que acho que vou me arrepender? Não precisou colar o ouvido à porta para escutar:
—O que tenho que fazer para você ficar quieto?
É Sypha. Falava baixo o bastante para que humano algum ouvisse, mas insinuante o bastante para ter certeza do que se tratava. Certo, minha imaginação não foi tão longe assim. O próximo som foi de Trevor, com certeza, um barulho escapado e não planejado. Alucard congelou na frente da porta por um segundo. Balançou a cabeça e tornou-se névoa, rastejando para não ser visto, em direção à capela.
Atravessou as portas fechadas pela fresta de baixo. O lugar era um tanto quanto mais sinistro durante a noite, sem luz além da pira acesa no altar. Voltou à forma habitual e deu alguns passos no corredor central entre os bancos. O que eu esperava? Suspirou e olhou para o chão, largando os braços sem forças ao lado do corpo. Bom, eu já quase vi acontecendo quando abri a porta da taverna. Agora, foi só o passo seguinte. Fechou as mãos em punhos. Por que me importo tanto? Sabia a resposta. Ergueu a cabeça para ver a capela e caminhou mais um pouco; o eco o recordava de que só havia ele mesmo ali. Os objetos quebrados e desordenados continuavam em tais posições. Sentou-se ao primeiro banco e aguardou, olhando o tempo passar.
Mais de uma hora depois, ouviu passos no corredor. Antes que as portas se abrissem, depois de um girar de chave e um rangido especialmente estrondosos, tornou-se morcego e se dependurou no altar. Acho que não vou ser visto aqui. Um monge anônimo entrou com pressa, caminhando até a pira com um archote e carvão para avivar a chama. É do tipo que não se apaga. Deve haver um revezamento noturno. O monge foi embora da mesma forma que veio, sem sustos ou outras exclamações. Alucard ficou ali, pendurado, até se cansar da posição e alçar voo. Na descida, voltou ao normal e não viu um dos degraus do altar, caindo ao chão. Praguejou baixo. Espero que ninguém tenha ouvido.
Mais tempo ali e declarou a vigília infrutífera. Nada se movera, ou se arrastara, ou quebrara, ou virara de ponta-cabeça. Saiu da capela tornando-se névoa, pela porta dos fundos, e foi caminhar no cemitério. Procurou a luz da Lua no céu e não a encontrou, sendo recebido com o início de um chuvisco. Acendeu uma pequena chama na mão para transitar por entre as lápides, e deu a volta na ilhota em direção ao atracadouro. Desde que acordara, sentia um peso no peito, e o vazio se tornava ainda pior quanto mais tentava pensar. Sei o motivo… Parte dele, pelo menos. O resto era um rascunho embolado e indiscernível. Da parte que conhecia, não queria lembrar-se.
O atracadouro tinha o bote amarrado como feito ainda em dia claro, e uma figura conhecida, carregando uma tocha e apoiada a uma bengala, olhando em direção ao lago. Alucard apagou a chama. Irmão Pavel olhou para trás e o cumprimentou:
—Olá, rapaz. Bela noite, não acha?
—Nem tanto para mim, Irmão. - Riu a contragosto.
—Tudo é uma questão de ponto de vista. - O monge tinha voz de contador de histórias. - Estou em casa, meu pé está tratado, minha barriga está cheia, e minha sobrinha está viva.
—Então, tem mais sorte do que eu.
—Ora, de que está falando? - Pavel perguntou.
Devo mesmo? Não parecia uma atitude sensata contar o que se passava a um quase desconhecido tagarela. Não importa. Daqui um dia ou dois, não estarei mais aqui.
—Irmão, já entrou numa luta na qual sabia não ter chance de vencer?
—Assim é a vida, não é? - O monge riu. - Sobrevivemos todos os dias, para que terminemos todos debaixos da mesma terra, não importa o que se faça.
Bom, talvez não eu. Guardou a piada para si mesmo e lançou a questão:
—Por que lutar, então?
—Hmm. - Pavel ponderou por um momento. - Se não adianta tentar ganhar, lute para dar uma surra, por exemplo.
Alucard riu e respondeu:
—Achei que fizessem voto de não-violência.
—Pois somos todos humanos, mesmo aqui dentro.
A chuva engrossava, e tiveram que se refugiar em outro lugar antes que a tocha apagasse. Pavel apontou um memorial coberto por um pequeno telhado. Alucard ofereceu-lhe ajuda, mas o monge recusou, suportado pela bengala, melhor do que pelo cajado que antes carregava.
—Pois bem. - Alucard começou. - E se eu dissesse que existe uma espécie de… Outra coisa em minha mente? Uma coisa que sou eu, e, ao mesmo tempo, não sou.
—Prossiga, estou acompanhando.
—É uma coisa que embaralha meus pensamentos, deixa minha visão torpe e meu julgamento torto, joga uma pá de terra em qualquer sensação que eu venha a ter. Agora há pouco eu estava bem, e agora, não estou mais. O que é isso?
—No mundo lá fora, o povo chama de "decepção", creio eu. - Pavel coçou o queixo, a barba já aparada, antes mal cuidada e torta.
Você está meio certo.
—É uma parte do problema. - Alucard suspirou. - Mas e quando acontece sem motivo algum?
—Jovem, conhece a anedota da carruagem?
—Conte-me, por favor.
—Sabe conduzir cavalos?
—Não, Irmão, infelizmente. - Alucard balançou a cabeça em negação.
—Finja que sabe, por um momento. - O monge começou a gesticular de leve com a tocha, mas Alucard só o via com o canto dos olhos, ambos encarando o lago. - E que é um mercador com um exigente patrão. E, também, que ele o mandou numa longa, longa viagem. Ele deu-lhe a escolha de um desconhecido cocheiro, homem de terra distante, e que lê mapas de forma… Duvidosa, para dizer o mínimo. Mas, se for com ele, você ficará confortável sentado à carruagem, perdido aonde quer que ele leve você.
—E qual é a outra opção?
—Conduzir você mesmo. De sol a sol, ou debaixo de chuva. Segurando as rédeas, lendo o mapa, pedindo informações nos vilarejos. O que lhe parece melhor?
Alucard tirou um momento para pensar e concluiu:
—Conduzir eu mesmo, claro.
—Mas, pense bem! O banco da carruagem é estofado. Pode até dormir nele, se a estrada estiver boa. Caso se perca, coloque a culpa no cocheiro. Claro, nada estará resolvido, mas não terá sido você quem se meteu naquela situação.
—Cocheiro pelo qual eu teria optado. - Alucard ergueu a sobrancelha. - A culpa é minha.
Pavel riu em alto e bom som.
—Gosto de como é ágil. Pode dar uma mão a este homem que precisa voltar aos aposentos, antes que o médico o descubra?
—Claro, Irmão. - Alucard estendeu a mão e pegou a bengala.
Pela porta aberta da frente do monastério, Pavel o guiou ao início dos corredores com quartos. O monge disse que partiria sozinho dali, deixando a tocha na parede, onde a teria encontrado. Alucard olhou para fora pela fresta da porta e voltou ao memorial. Parece um bom lugar para pensar. Sentou-se lá, debaixo do pequeno telhado e fechou os olhos, numa meditação leve, ouvindo o som da chuva. Em um momento, não soube dizer se sonhava ou se estava de olhos abertos, teve certeza de ver um homem cumprimentá-lo, um senhor sem chapéu que, ainda assim, tirou algo da cabeça…
—Onde é que você estava?
Sypha ficou de pé, com a caneca de cerveja na mão, ao ver a porta se abrir. Alucard estava encharcado da chuva e com cara de cão sem dono.
—Desculpe. - Ele olhava para o chão.
—Isso não responde à pergunta. - Trevor o olhou feio.
—No memorial. - Alucard deu mais alguns passos para dentro do quarto, sem encará-los. - Dormi lá.
Trevor se ergueu da cama e deu a volta nele até o baú, de onde tirou um pedaço de pano e atirou ao rosto de Alucard.
—Devia ver sua cara. - Trevor riu, sarcástico.
—Não é como se tivesse me jogado um espelho. - Alucard passou-o no rosto.
Antes que tivesse a chance de falar qualquer outra coisa, uma camisa limpa e seca também foi arremessada.
—Avise de suas andanças da próxima vez. - Trevor ralhou. - E a capela?
—Juro que passei horas olhando os vitrais escorrerem, e nada nela se moveu além da pira. - Alucard deu de ombros. - Na verdade, os monges vão em ronda durante a noite para mantê-la acesa.
—Escorrerem os vitrais, você diz? - Trevor ergueu uma sobrancelha. - Choveu durante a madrugada? Não notei.
Não notamos. Sypha riu por trás do copo.
—Não choveu tanto assim. Foi uma piada. - Alucard tirou a camisa molhada e a atirou ao chão. - Vidro é líquido afinal.
Trevor abriu a boca para responder e acabou por grasnar:
—Sério?
—Sim. - Sypha deixou a caneca vazia na mesa. - Você não sabia?
—Se visto bem de perto, ele não forma cristais. - Alucard explicou. - É mais parecido com um líquido do que com um sólido.
—Bom… - Gaguejou Trevor. - Interessante, eu acho.
Os três se calaram. Não temos nada. Nenhuma pista. Sypha suspirou, com a mão na testa. Antes silencioso como uma tumba, o corredor começou a ter sons de pessoas correndo de um lado para outro, e o murmúrio alcançou o quarto. Com o pano em volta dos cabelos, Alucard abriu a porta, sinalizando com a cabeça para que saíssem também.
No fim do corredor, havia uma aglomeração de monges. Parecem corvos ao redor de um cadáver. Sypha evitou rir da mórbida piada. Irmão Laurentiu saiu do meio do grupo, com as faces brancas, sem nada do rosado que costumavam ter, e as mãos trêmulas. Sypha tocou-lhe o braço para perguntar:
—Irmão, o que houve?
—É Irmão Pavel, senhora. - Ele gaguejou. - Está morto.
Seguiram de volta ao quarto e fecharam a porta à chave.
—Deus do céu. - Sypha deixou-se cair sentada na cama, sem mais palavras.
—Acho que fui o último a vê-lo com vida. - Alucard recostou-se à porta.
—E como ele estava? - Trevor perguntou.
—Nada tinha de suspeito. Saí da capela, circulei pela ilha e o encontrei no atracadouro. Conversamos lá, e o levei ao quarto por causa do pé, depois voltei ao memorial e peguei no sono. Irmão Laurentiu me acordou, e foi a primeira pessoa que vi hoje.
—Ótimo. - Trevor suspirou. - Agora, vão suspeitar de nós e nos expulsar daqui nos atirando ao lago.
—Podemos voar daqui agora mesmo, se for o caso. - Sypha apontou para a janela. - Só vamos tomar um pouco de chuva.
Houve batidas à porta. Entreolharam-se antes de Alucard perguntar quem era.
—Senhor, posso entrar? - Gaguejou Laurentiu do outro lado.
Alucard abriu a porta. O jovem monge estava tão lívido quanto antes, mas sem o mesmo tremor.
—O que houve, Irmão? - Sypha perguntou.
—Há uma… Uma carta. Cita os senhores. É de Pavel. Por favor, venham.
Os dois da cama se levantaram e todos o seguiram, Sypha segurando o braço de Trevor. Alucard parecia hesitar, mas acabou dizendo:
—Que mal pergunte, Irmão, mas já foi recolhido o corpo?
—Essa é a parte mais difícil, senhor.
—O que há de errado? - Sypha indagou.
—É como se estivesse morto há semanas.
Como é possível? Vimos o homem andando e falando ontem. Sypha apertou mais forte o braço de Trevor. Se bem que o padre em Ploiesti também estava… Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
No quarto de Pavel, que deveria ser igual a todos os outros do monastério, havia um monge grisalho e de coluna curvada sentado à cadeira e olhando para a porta com desconfiança.
—São os forasteiros? - Perguntou ele.
—São, Padre. - Laurentiu gaguejou.- Eu os trouxe.
—Hmpf. - O velho se levantou. - Não se demorem. Temos que levar Pavel para a cripta.
A cripta? Sypha e Trevor se soltaram. É verdade. Não há cheiro de putrefação no quarto. Como? Olhou para a cama, e uma mortalha clara cobria o que restava do monge.
—Senhora. - Laurentiu a chamou. - Pode ler a carta?
—Claro. - Sypha deu um passo à frente.
O longo papel se estendia pela mesa, enrolando-se nas pontas. A caligrafia de Pavel não tinha uma beleza particular, mas era clara e legível, sem manchas de tinta pela folha. Abriu uma fresta da janela, para que aquele dia acinzentado a providenciasse um pouco de luz, e começou a ler, em volume apenas o suficiente para aquele pequeno e fúnebre aposento.
"Meu nome é Pavel Adamache, primogênito de Nicolai e Ana Adamache, irmão mais velho de Matieu e Elena. Fui ordenado no Monastério de Snagov no ano de 1459, e, desde então, vivo em voto de paz, castidade e pobreza, devoto a esta doutrina à qual tenho tanto apreço. Venho, por meio destes registros finais, contar-lhes o que realmente ocorreu comigo na peregrinação que fiz como promessa a Deus em prol da melhora de minha primeira sobrinha Irina. Quando lerem esta carta, já estarei morto, e, na verdade, já o estava há muito tempo.
Em minhas semanas iniciais de caminhada, no início do outono, tudo correu de forma maravilhosa. Como me agrada este belíssimo país! Há muito para se ver na Valáquia, e, não sendo minha primeira vez na estrada, sabia fazer bom julgamento da atitude do povo. Após o ataque do inimigo, há muito medo por estas terras, é verdade; mas isso não é capaz de eliminar a natureza boa da maior parte das pessoas. No entanto, o ser humano erra, e errei ao dar confiança a gente que, de nenhuma forma, me pareceu suspeita ao que lhes pus os olhos.
Aproximei-me de um suntuoso acampamento nas proximidades de Bucareste em busca de abrigo e alimento. Para ser sincero, pedir aos ricos pode ser ainda menos frutífero do que pedir aos miseráveis, mas cantava-se naquele lugar, e como me encanta a música. Para minha surpresa, foram todos corteses e generosos… Não sem segundas e terceiras intenções para comigo. Se é meu amigo íntimo, ou se acredita em rumores, deve saber o que dizem sobre minha origem e nascimento. É verdade? Não é? Importunar a senhora minha mãe com essa história sempre rendeu uma bela colherada na orelha, não importava de quem viesse a gozação. Meu pai ficava triste, apenas, soturno e envolto em pensamentos distantes. Havia vinho, bom vinho, e in vino veritas, contei a eles sobre este boato, do qual me gabei em juventude, para a tristeza de meus pais. Então, fui abduzido durante o sono, amarrado, espetado, queimado, cortado, furado, e, por fim, envenenado por tal grupo de pessoas, sob qual pretexto, não sei e morri sem saber.
Meu corpo, um saco de ossos e sangue, jazia em algum lugar daquela região a sul daqui, que, a essa altura, nem mesmo recordo onde é. Depois disso, vaguei. Flutuei na condição de alma perdida por lugares que não visitei nem mesmo vivo. Entrava em casas, lojas, estábulos, celeiros, fazendas, adentrei fortalezas, atravessei rochedos, tudo sem sentir fome, sede, frio ou calor. Alguns me viram e ouviram: crianças, idosos, doentes, loucos, todos aqueles próximos da travessia entre este e aquele plano, de alguma maneira. Senti um misto de emoções que, se tentasse descrever por mil anos sentado a esta mesma cadeira, nunca conseguiria explicar. A mente humana não é feita para entender a morte, apenas para temê-la. Que fazer quando se começa a viver seu medo ancestral a cada dia?
Nesse estado, vim a Snagov voando pelos céus como uma gaivota. Circundei as ruas como um invisível cão sem dono, mergulhei no lago, escalei as árvores e decidi visitar meu lar. No telhado, foi que o conheci: o general Dragoi. Achei-me semelhante a ele, mas o entorpecer do falecimento pode ter me tirado a razão. Não é muito alto, é forte e robusto, com uma aparência sombria, de longos cílios e sobrancelhas volumosas como as minhas. Também carregava um imponente bigode, e me cumprimentou não tirando o chapéu, mas a cabeça, tal qual diz a lenda. Não minto: no início, mesmo que já estivesse morto, eu o temi. A reputação é algo que transcende esse tipo de trivialidade que é a vida. Conversamos por longo tempo, e, quase sempre que ele falava, soprava o vento. Acreditariam se eu contasse que ele me aconselhou? Eu queria que meus irmãos soubessem do meu paradeiro. Então, agimos, como fariam dois fantasmas travessos e despreocupados. Mas tudo o que ocorria, punham-lhe a culpa, o bode expiatório mais provável. Despedi-me dele, prometendo que retornaria para vê-lo, meu estranho e improvável amigo.
Voltei a meu corpo por acaso, depois de me grudar a uma carruagem tristonha e calada que descia em direção ao sul. Quando o adentrei, mal acreditei. Vi meu reflexo numa poça, pela primeira vez. Eu me parecia comigo novamente, como se tivesse carne e vida, mas aquele embaraço, aquele vazio confuso não me deixava. Caminhei, então, em direção ao resto do trajeto que teria feito, numa solene despedida, enquanto minha ilusão restasse, e restou até que eu ferisse o pé numa traiçoeira pedra. Ele começou a tirar-me as forças e o equilíbrio, como se minha vida falsa escoasse por ali. Caí na ponte do lago, sem mais energia, e ali fiquei um dia inteiro, só e derrotado quase às portas de casa, até ser encontrado pelos bons samaritanos. Senhor Belmont, não ache que não vi o brasão em sua fivela.
Agradeço eternamente pelos anos em que passei nesta Terra e por ter tido a chance de dizer adeus àqueles que mais amava. Nenhum de vocês sabia, mas era, sim, nossa última conversa, última refeição, último abraço. Agora, a notícia correrá, e suspeitas se levantarão, mas, a todos que duvidarem, leia-lhes esta carta, que escrevi já esgotando a alma deste esqueleto fraco que um dia me abrigou.
Com amor, me desfaço e me despeço,
Pavel Adamache-Dragoi."
