Outro lado
Trevor descobriu pelos murmúrios dos monges passando que os banhos se atrasariam naquele dia. Ótimo, já passa da hora de que eu tome um. A paz do lugar era capaz de se manter mesmo com um morto entre eles. E um morto que estava andando ontem. Não sabia e não estava muito interessado em saber o que aconteceria com os ossos de Pavel; duvidou que os monges os convidassem a qualquer cerimônia. Atirou ao lago a pedrinha que girava entre os dedos e voltou ao quarto.
Ao que abriu a porta, Sypha virou a cabeça para trás e sorriu de tranquilidade. Ele se sentou à cama e viu à mesa o diário dos ocultistas aberto numa página escrita na caligrafia dela. Perguntou:
—Escrevendo, ainda?
—Dei uma pausa. - Ela se levantou da cadeira e se espreguiçou. - Minhas mãos acabam doendo.
—Ah, eu imagino. Ainda me lembro de aprender a escrever. - Acolheu-a no abraço. - Espere, "mãos"?
—Sim. Consigo escrever com as duas. Nunca contei?
—Não, na verdade. - Trevor coçou a cabeça.
—Também não é como se fosse segredo. - Sypha riu.
Beijou-a no topo da cabeça e suspirou de leve. Por favor, volte a escrever. Você fica linda quando trabalha.
—Ainda é a cópia da carta? - Questionou ele.
—É. - Sypha também suspirou. - Queria guardar de lembrança.
—Sei bem.
Trevor deixou a cabeça cair até se encostar na parede, olhando para o teto. Por que o homem teve que morrer? Não achou que sentiria falta de Pavel, com sua curta companhia e sua matraca interminável. Aliás, como diabos? Não havia nem carne naquele corpo mais. Irmão Laurentiu lhes dissera que não restava mais do que um esqueleto dentro do hábito. E, como é que era aquela passagem, um acampamento suntuoso o matou? Sentiu um aperto no peito. É difícil confiar no mundo lá fora. Fechou os olhos e abraçou Sypha com ternura. É difícil confiar nos outros.
—Quer que eu escreva um pouco? - Ele se ofereceu.
—Não. Só eu sei ler, lembra? Vamos manter assim.
—Oh. É verdade. - Trevor riu, e ela riu junto.
Sypha virou o rosto para olhar para o livro aberto, com a carta emprestada ao lado.
—Era um bom homem. - Ela disse.
—E parecia muito vivo.
—Parecia. - Sypha concordou.
Aproveitaram o abraço por mais um instante, e Trevor pediu licença para alcançar o jarro d'água ao pé da cama. Está vazio. Ficou de pé e, acometido pela preguiça de ir buscar água na fonte, decidiu raptar a do quarto oposto.
Saiu ao corredor e bateu à porta de Alucard. Ele não atendeu. Bateu de novo sem resposta. Trevor a empurrou e, para sua surpresa, não estava trancada; apenas se emperrava no chão. Passou a cabeça para dentro e olhou para os lados. O escuro das janelas fechadas dificultava que visse qualquer coisa. O pé esbarrou em um objeto que não se moveu, e teve a sorte de ser o jarro. Abaixou-se para pegá-lo, e, ao aproximar o ouvido da cama, escutou Alucard respirando pesado durante o sono. É manhã ainda, e ele está cochilando. Tomou a água sem usar copo e começou a ouvi-lo murmurar.
—Hã? - Trevor sussurrou.
Cutucou Alucard no rosto. Estava frio como de costume, mas uma gota de suor lhe escorria pela bochecha. Na verdade, está gelado como um cadáver. Empurrou-o na face mais algumas vezes e o chamou; Alucard correspondeu trincando os dentes, sem acordar. Trevor tirou a mão. Não vá me morder. Olhou para o jarro e despejou-lhe o resto de água.
Alucard abriu os olhos com o susto e ergueu o tronco, desperto como se nunca tivesse dormido.
—Trevor? - Encarou-o.
—Você está encharcado. - Trevor pôs o jarro no chão.
—Mas é lógico, você acaba de me molhar.
—Não, seu idiota. - Trevor apontou com o dedo. - Sinta o próprio pescoço. Está suado.
Alucard o fez e, em seguida, puxou uma beirada do paletó pendurado na cabeceira para enxugar o rosto.
—Com o que estava sonhando? - Perguntou Trevor.
—Com uma voz.
—Voz? - Ergueu a sobrancelha.
—Não gaguejei. - Alucard ficou de pé. - Uma voz de mulher. Já faz alguns dias que a ouço.
—E por que não disse nada?
—Porque queria ter certeza de uma coisa. - Alucard pegou o paletó e tirou dele o colar com o cristal vermelho encontrado no acampamento. - Sorte sua que fui eu a carregar isto aqui.
Saíram do quarto observando o corredor para ver se passava algum monge. Ao que notaram estar vazio, adentraram ao quarto oposto. Alucard o fechou e fez o mesmo com as janelas. Sypha protestou:
—Não consigo escrever assim.
—Só um momento. - Alucard se sentou à cama.
Trevor também se sentou. Sypha girou a cadeira ao contrário, de forma a encará-los. Este tipo de reunião já está virando rotina. Alucard abriu a mão para exibir o cristal, e acendeu por trás dele uma luz para exibir o vivo tom de vermelho. Trevor sentiu um arrepio subir-lhe a espinha, um que não sabia explicar.
—Isto aqui. - Alucard sussurrou. - Acho que significa problema.
—Por que não se livrou desse negócio? - Sypha perguntou.
—Pode ser importante. - Ele olhou para Trevor. - O lobo era a mulher do acampamento. Lembra-se?
—É o mesmo tipo de cristal que havia no pescoço. - Trevor cruzou os braços. - É simples de deduzir.
—Exato. A questão é que, agora, ela tem falado comigo. O nome dela é Greta, como Constantin nos disse. - Alucard suspirou. Prefiro não dar nome a um lobo assassino, mas ela tinha um, pelo visto. - Ela precisa de ajuda. É uma alma perdida num lugar que ela desconhece. É difícil entender o que ela diz, mas essa parte é óbvia.
—E como conversam? - Trevor questionou.
—Ouço-a em sonho, naquele estado de transição entre estar dormindo e estar acordado. Não a vi, apenas ouço sua voz. E o que me preocupa… Ela não sabe como não me transformei ainda no mesmo que ela. Mas tenho uma boa ideia. - Alucard desfez a ilusão que vinha mantendo para encobrir a existência das presas. - Acho que sou imune a esse tipo de maldição.
—Menos mal. - Trevor sentiu o mesmo gelo na espinha. - Agora, Constantin disse que o colar foi comprado em Targoviste. É na outra direção, se quisermos investigar.
—Não podemos deixar a família de Leo Alexe sem saber o que houve com ele. - Alucard argumentou. - Já estamos atrasados em alguns dias.
—Sinceramente, não somos o correio. - Trevor deu de ombros. - Qualquer lugar que tenha trabalho é um lugar para mim. Mas-
—Tenha coração, uma vez na vida. Leo estava vivo por um fio. - Alucard interrompeu.
—Eu nunca disse que daríamos meia-volta a Targoviste. - Trevor revirou os olhos.
—Foco. - Sypha pediu. - Greta está morta, e o marido também, e quase todo o resto do acampamento deles. Vamos fazer algo a respeito de outra forma.
—De que forma? - Os dois perguntaram em uníssono.
—Não sei. Como, por exemplo… - Sypha pôs a mão no queixo. - Como se fala com um fantasma?
Alucard deu uma risadinha e sugeriu:
—Podemos perguntar a um.
Antes da refeição do meio-dia, Laurentiu bateu à porta e perguntou se os dois homens gostariam de se juntar aos irmãos no banho público.
—Tinha mencionado antes, senhor, que procurava um banho. - O jovem falou com Trevor. - Hoje é dia, apesar dos pesares… Quanto à senhora, posso ver se arranjo sabão e um barril de água quente para que se lave no quarto.
—Seria ótimo, Irmão. - Ela fez que sim com a cabeça. - Não seria justo se eles fossem os únicos limpos.
—Vou guiá-los até lá, que já estou atrasado. - Laurentiu deu um passo para trás. - Peço que entreguem a água aqui.
Saíram os três com alguma pressa, e Sypha ficou a sós no quarto, entretida com as últimas linhas da carta. Fico aqui e tento descobrir onde raios fica esse fantasma. A pena de Alucard era boa e precisa; nunca vazava tinta, e o traço ficava fino, tal qual se agradava. O papel do diário dos ocultistas, no entanto, não era dos melhores, já gasto nas bordas, amarelado pelo tempo e com algumas manchas suspeitas, mesmo nas páginas limpas. Sypha encontrou uma traça na mesa, fugindo das páginas, e a esmagou com o dedo. Folheou algumas páginas para trás e se encontrou relendo o parágrafo sobre o general. "A reputação é algo que transcende esse tipo de trivialidade que é a vida." Deu um sorriso. Muito boa, Pavel. Bateram à porta e pediu que entrassem.
—Abra a porta, senhora. - Ouviu uma voz desconhecida. - Preciso de ajuda com o peso.
Levantou-se e atendeu ao pedido. Um monge grisalho de talvez cinquenta anos e com uma perna manca apareceu sozinho, com um barril quase do tamanho dele. Sypha o auxiliou a levá-lo para o meio do quarto, acabando por deixá-lo sem espaço.
—Muito obrigado, irmão. - Fez uma breve mesura. - Tomarei um excelente banho.
—Sem dúvida, senhora. Permite-me, no entanto, uma indiscreta pergunta?
Se não for sobre as minhas partes baixas… Pensou duas vezes antes de aceitar.
—Claro, irmão. O que é?
—A carta de Pavel. - O monge cochichou. - Há mesmo um Belmont entre nós?
—Não, não, senhor. - Sypha riu da própria mentira. - Nosso companheiro de viagem não é muito versado nos brasões de famílias, e comprou aquele cinto de um vendedor qualquer por uma pechincha. Deus sabe onde foram parar as posses da família depois da queda da Fortaleza, não?
—Que alívio. - Ele suspirou. - É uma bênção ouvir isso.
Nunca saberá que Trevor fez aquele cinto ele mesmo. Sypha deu de ombros e teve uma ideia.
—Posso retribuir com outra pergunta indiscreta, Irmão?
—Com certeza. Já estou fazendo muito ao me meter nas vidas dos senhores.
—É sobre… - Sypha também cochichou. - A aparição do monastério.
—Oh, sim. - O monge confirmou com a cabeça. - Já sabemos que era Pavel. Está na carta.
—Não, não sobre isso.
—O general? - Ele cobriu a boca com as mãos. - É como um corvo, é mau agouro. Também fica empoleirado como um, dizem.
—Entendo. - Sypha ergueu a sobrancelha. - E ele fala?
—Uns dizem que sim, outros dizem que não… Espero que não planejem ir atrás dele.
—Não, de forma alguma, irmão.
—Então, já me vou. - Ele se virou de costas. - Tenho que ir acender a pira.
—Antes, pode me passar o sabão e as toalhas? - Sypha apontou para o tecido pendurado no ombro do monge.
—Claro, claro, quase esqueço. - Ele riu e a entregou. - Até mais ver, senhora.
Sypha se despediu com um aceno. Bom, não foi de todo à toa. Fechou as janelas e despiu-se até estar de roupas de baixo, entrando no barril com cuidado. A água estava mais quente do que de seu agrado. Enquanto lavava os cabelos, espiou o livro aberto sobre a mesa. "No telhado, foi que o conheci"… "Ele se empoleira como um corvo"...
—É isso! - Exclamou, sozinha no quarto.
A porta rangeu para a entrada de alguém. Sypha girou o corpo e viu Alucard entrar, com Trevor em seu encalço, ambos de roupas novas e limpas.
—Isso o quê? - Perguntou Trevor, equilibrando uma toalha na cabeça.
—O general. - Sypha saiu da banheira pela metade, por pura empolgação, trajando não mais do que uma regata e um calção marrons. - Ele fica no alto. Deve ser fácil encontrá-lo em algum lugar como a torre do sino.
—Muito bom - Trevor a beijou. - Mas como subir lá sem que nos vejam?
—Subir não é problema algum. - Alucard sorriu. - Só precisa anoitecer para que ninguém veja.
O dia se passou com demora e paciência, entre partidas de dama e Alucard ensinando os outros dois a jogar gamão com o verso do tabuleiro. Saiu pela janela em forma de morcego, aproveitando-se do bom tempo daquela noite, e se dependurou na torre do sino. Um monge subiu para dar sete badaladas, sem notar que havia algo no teto. Quando ele se foi, Alucard deu algumas voltas ao redor do prédio sem encontrar o dito fantasma.
Voltou para dentro da torre e retornou à forma habitual, de braços apoiados no parapeito. Um pouco da Lua aparecia por entre as nuvens e corria o vento fresco nos cabelos limpos. Seria uma boa noite se não fossem as circunstâncias. Tirou o colar do bolso interno do paletó e ouviu um choro cheio de gritos atravessar-lhe os ouvidos. Com os olhos acostumados ao escuro, observou na direção da torre da biblioteca e, da parede, saía um braço, com uma cabeça nas mãos. O fantasma. Alucard acenou, e ele notou o movimento no escuro. Saiu do lugar voltando a cabeça para o pescoço e flutuando até o parapeito.
—A que devo a visita, rapaz? - O espírito tinha uma voz cavernosa, mas inaudível a mais do que um metro de distância.
—Quero conversar, apenas.
—Ah, claro. - O general riu abafado. - Mas antes, o sacrifício.
—Perdão? - Alucard ergueu uma sobrancelha.
—Não seja tolo. Pelo menos, uma gotinha de sangue, ou nada feito.
—Hã… Certo.
—Vamos, não tenho a noite toda. - O fantasma o apressou. - Vou deixá-lo aqui e dar uma volta enquanto para de tremer, tudo bem?
—É que eu não fazia ideia, senhor.
Alucard abriu a boca, e já começava a furar o polegar com a presa quando o general Dragoi riu em alto e bom som, que a quietude inteira da ilha deveria ter escutado. O vento soprou mais forte.
—Mas que belo canino. Nem precisa de faca, rapaz. - O fantasma pôs a mão no queixo.
—Senhor, por que sinto que está me pregando uma peça?
—Não está errado em sua conjectura. Agora, pare com o "senhor". Não sou assim tão velho. - Dragoi tirou a cabeça para cumprimentá-lo. - Ou será que sou? Como é seu nome, rapaz?
—Chamo-me Adrian.
—Acho que dispenso apresentações. Ninguém vem me procurar há um tempo. - Dragoi mexia no bigode. - Pelo menos, não entre os vivos. Quem sabe, se eu matar um velho monge do coração, terei companhia de novo.
—Tivemos tempo de conhecer Pavel. - Alucard conteve-se para não chamá-lo de "senhor". - Ele deixou uma carta.
—Hmpf. Pavel? - O fantasma franziu o cenho, e Alucard pôde jurar que viu um traço de emoção naquele rosto. - Ele chegou aqui choramingando como um cão, todo aflito. Não é para menos. É mais difícil morrer do que matar. Uma hora, passa, mas quando achei que ele começava a se divertir… - Fez um gesto de sumiço com a mão. - Escafedeu-se. É mesmo filho de Ana, medroso e molenga.
—E seu filho também, pressuponho.
—Com aquelas sobrancelhas, resta dúvida? - Dragoi riu mais. - Conheci a garota por causa de uma aposta. Ela fez uma com as amigas e perdeu, e numa festa de acampamento, ficaram todas olhando por detrás dos arbustos enquanto ela vinha falar comigo. Mas foi um monte de "não pegue aí", "isso, não se faz", "meu santo Deus, o que estamos fazendo"...
—Pode poupar-me dos detalhes. - Alucard pediu.
—As mulheres desenvoltas sempre foram mais do meu agrado. E você?
Por que estou falando desse assunto com um espírito sanguinário de vinte e tantos anos atrás?
—Diria que as intelectuais me atraem.
—Justo as que dão trabalho? - Dragoi assobiou. - Corajoso.
—Mudando de assunto, venho a você por conta de um problema que estou tendo. Estamos tendo, na verdade. Somos um grupo, mas o maior afetado sou eu.
—Não que eu seja um bom confessionário, mas vá em frente. Já que me procurou, talvez eu possa ser de alguma ajuda. - O fantasma deu de ombros.
—Sabe como eu poderia me comunicar com um espírito perdido?
—Bom… - Dragoi teve um momento para raciocinar. - Não me perdi por muito tempo, mas enquanto estive perdido, não conversei com ninguém.
—E como fez para encontrar seu rumo?
—Veja, rapaz, quando morremos, a luz nos chama muito. Fogo, reflexos, a Lua cheia, até. É mais fácil enxergá-los e segui-los. E há mortos que não aceitam que estão mortos, que nem sabem que morreram! Em alguns, você tem que jogar esse balde de água fria.
—Acho que não é o caso. - Alucard suspirou. - Ela só está sofrendo.
—E de quem estamos falando?
Tirou do bolso o cristal e a voz de Greta atravessou-lhe os ouvidos com um lamento agudo.
—Há alguém aí? - Dragoi perguntou, apontando para o colar.
—Pode ser que não, mas é a ligação que temos.
Contou ao general a história do acampamento, desde as chamas até o abate do lobo. O fantasma não moveu um músculo da face à menção de que Greta tinha matado três pessoas, nem quando ouviu que Trevor a degolara.
—E era a mulher mesmo?
—É o mais provável. Tudo o que temos dela é este colar e um nome. - Alucard fechou a mão ao redor da pedra.
—O que acontece se puserem fogo nele?
—Não me parece uma boa ideia.
—Pois pode ser uma boa ideia, sim. Vai atrair a mulher a vocês. E, como não sabem se ela já enfiou na cabeça que está morta… - Dragoi voltou um olho que caía para o lugar. - Sugiro que façam esse contato lá embaixo, a meu convite.
—A cripta? - Sypha perguntou. - Não temos a chave.
Alucard deu de ombros, suspirando:
—É o melhor que conseguimos pensar, perdão.
—Posso tentar me virar com a fechadura. - Trevor procurou na bagagem e mostrou um abridor fino, feito para arrombar portas e baús. - Talvez sirva.
—Eu perguntaria por que tem um desses, se não te conhecesse. - Alucard deu uma risada sarcástica.
—Eu bem queria ter me soltado da prisão com este troço. O problema é que eles quebram, e aí, fica-se sem ele. - Trevor deu de ombros.
—Não seja por isso. - Dragoi surgiu atravessando a parede.
Todos gritaram de susto, de costas para o lado de onde ele vinha. O general riu como um estrondo, acabando com o silêncio do monastério.
—É brincadeira de criança descobrir quem está com as chaves. - O fantasma brincava com o próprio bigode. - Aguardem só um momentinho.
Sypha, com cara de desgosto, pôs as mãos sobre o peito e sentiu o coração acelerado. Por que as pessoas ao meu redor adoram me assustar? Aguardaram até que Dragoi reaparecesse enfiando a cabeça através da porta. Ele perguntou:
—Sabe caminhar em silêncio, Belmont?
—Hã, como descobriu? - Trevor perguntou.
—Não é muito discreto este negócio. - O fantasma apontou a fivela do cinto. - Deve saber, então, de pé, e siga-me.
Trevor saiu do quarto com Dragoi ao lado e pisando macio, sem fechar a porta. Ficaram em silêncio no quarto, olhando para os lados, sentados à cama a meio metro de distância. Certo, chega disso.
—Quer ver a cópia da carta? - Ela perguntou.
—Claro, por favor.
Sypha se ergueu do colchão para buscar o livro e a vela. Entregou-os a Alucard, que agradeceu e fez uma leitura não muito compenetrada, indo e voltando pelas páginas, com um meio sorriso.
—Bela caligrafia. - Ele não tirou os olhos do livro. - Ainda mais se comparada ao resto do livro.
—É verdade, não é? - Sypha riu, sentindo o rosto se aquecer de leve.
—Não sei se a minha se compara. - Alucard tirou a carta de Leo Alexe do bolso e a desdobrou. - Dê seu parecer.
Já vi antes, você só não sabe. Passou os olhos pela folha arrancada do mesmo encadernado onde Sypha copiara as palavras de Pavel. Ainda assim, as letras alongadas e elegantes lhe eram belas também pela segunda vez.
—É legível na maior parte do tempo, eu creio. - Alucard comentou.
—Não só isso, é bastante bonita. - Sypha devolveu a carta. - Bem inclinada para a direita, mas…
—É um valioso elogio, vindo de quem vem.
Sypha notou o sangue fluindo para a face de novo e mudou de assunto:
—Acreditaria se eu dissesse que alguns Oradores não sabem escrever?
—Não é difícil de imaginar. Mas creio que todos saibam ler.
—Entre os mais velhos, nem todos. Meu avô sabe. Ensinou meu pai, e aprendi com os dois.
Alucard se encolheu, como que sentindo dor, com uma mão na cabeça e os olhos fechados. Sypha o tocou no ombro, perguntando o que havia.
—A mulher no cristal. - Ele abriu os olhos.
—Gostaria de poder fazer alguma coisa. - Apertou-o com gentileza no ombro.
—Estou bem. - Alucard disse. Sypha o olhou feio pela mentira. - O que foi?
—A quem você quer enganar? - Ela ergueu uma sobrancelha.
—Desculpe. - Com um sorriso amarelo, Alucard segurou-lhe a mão que Sypha pousara em seu ombro, e logo a soltou. - Acho que sermos rápidos é o bastante para eu me livrar logo disso. E não saberíamos o que fazer se não fosse por você.
Sypha abriu a boca para diminuir os próprios esforços quando a cabeça cortada de Dragoi adentrou o quarto, com um sinistro "olá" que não chegou a assustá-los.
—Tudo formidável por aqui? - O fantasma perguntou.
Trevor empurrou com delicadeza a porta do quarto, sem fechá-la, e estendeu um molho de chaves.
—Prêmio do dia. - Ele sorriu. - Vamos-nos todos.
Sypha ajudou Alucard a ficar de pé. Apagaram a vela para levá-la, assim como mais algumas da bagagem e um pouco da palha do colchão, pega com discrição.
Seguiram pelo corredor, guiados por Sypha. Alucard rastejava pelo chão em forma de fumaça e Dragoi flutuava perto do teto.
—A porta range. - Ela sussurrou, apontando para a entrada da torre do sino. - O que vamos fazer? Não duvido que já acordamos o monastério todo, mas…
—Não seja por isso, donzela. - Dragoi desceu de seu voo e se colocou entre as dobradiças. - Abra e experimente.
—Mas qual é a chave? - Alucard perguntou.
Trevor se aproximou para comparar algumas com a fechadura, e decidiu de forma acertada que a segunda maior parecia caber. A porta não fez som exceto pela tranca. Ótimo. Sypha tateou o chão e acendeu uma vela para encontrar a passagem, levantando o alçapão.
—Já que acharam seu rumo, creio que acompanhá-los só vai assustar a morta. - Dragoi deu uma risada cínica. - Sabem como é o povo. Vou deixá-los aqui.
—Obrigado por tudo. - Alucard estendeu a mão e a recolheu quando o fantasma a atravessou.
—Não há de quê, rapaz. Até mais ver.
Ele atravessou o teto em direção à torre e desapareceu. Desceram as escadas, cada um portando uma vela.
Sypha se recordava de haver ali pouco espaço, mas com tantas pessoas, a cripta se tornava ainda mais sufocante. As órbitas das caveiras os encaravam quando passavam, em frente a cada urna funerária. Ao fim, postava-se a do general com sua coroa. Lendário, mas morto, é igual a todos nós. Olhou ao redor, em busca de novos ossos. Onde estará Pavel?
—Não há muito onde escolher, mas acho que aqui no centro está bom. - Sypha parou de andar. - Vamos dispor as velas em círculo ao nosso redor.
—Se servir um pentágono. - Trevor mostrou as duas velas apagadas, tiradas do bolso.
Trevor tentava acendê-las usando a própria vela já em chama, e Alucard as raptou da mão dele, fazendo-o sem demora.
—Poderia ter pedido. - Trevor protestou.
—Poderia ter me pedido. - Alucard posicionou-as no chão.
—Agora, a palha. - Sypha evitou revirar os olhos e desdobrou a túnica contendo o furto do colchão, colocando-a no centro. - E o colar.
Alucard inspirou fundo e tirou o cristal do bolso interno, posicionando-o em meio à palha. Tinha recuperado o olhar compenetrado que Sypha conhecera um ano antes. Parece que está carregando um peso. Sentiu o coração se apertar. Um peso que é seu e apenas seu. Ateou fogo a um canto da palha, uma fagulha apenas, que se alastraria sozinho com o tempo. Sentaram-se todos de pernas cruzadas.
—E se déssemos as mãos? - Sypha sugeriu.
Entreolharam-se e o fizeram, não sem um olhar de desgosto de Alucard para Trevor e vice-versa. Não adianta dar bronca. Sypha apertou mais forte as mãos que segurava e disse que todos fechassem os olhos.
—Quero que saiba que estamos aqui. Que estamos ouvindo. - Ela começou. - Você nos ouve e nos vê?
Não houve mudança. Tentou de novo:
—Por favor, fale conosco, queremos conversar. Não tenha medo.
Sypha sentiu a mão esquerda ser repuxada. Naquele silêncio subterrâneo, ouviu uma das respirações se entrecortar por um segundo e depois retornar, mais pesada, mais tensa.
—Não o machuque. - Apertou mais forte a mão de Alucard. - Ele vai ajudar você. Nós três vamos.
O puxão aliviou.
—Siga a luz no centro, é aqui que estamos. - Sypha entreabriu os olhos embaçados.
O cristal tinha ainda o tom vivo, mas estava intacto, enquanto a fumaça do couro queimado empesteava o pouco ar da cripta. Alucard soltou um breve som abafado de agonia, cerrando os dentes.
—Fale conosco. - Sypha se controlou para não acudi-lo. - Como se chama?
—Meu nome é Greta Florescu. - Alucard respondeu, na própria voz, num tom que não era dele.
—Quantos anos tem?
—Vinte e nove.
—Você tem família, Greta?
—Sou casada com Marius Florescu. Não temos filhos, mas essa graça do Senhor ainda recairá sobre nós.
Sinto muito.
—O que está acontecendo com você? - Sypha perguntou.
—Estou perdida. - A voz se tornara chorosa. Sypha abriu mais os olhos. Escorria uma lágrima pelo rosto de Alucard.
—Como é o lugar onde está?
—Não consigo ver nada. Não há ninguém aqui.
—Mas você nos ouve?
—Ouço, sim, ouço.
Sypha inspirou e expirou. E agora? Apertou mais forte ambas as mãos, procurando Alucard.
—Você me tocou? - Greta perguntou.
—Sim. - Sypha abriu os olhos por completo e virou a cabeça para a esquerda. - Sim, toquei na mão.
Sypha viu Trevor apertar a própria mão, ainda de olhos fechados.
—Senti a outra mão. - A mulher confirmou.
—Segure firme, Greta. Vamos guiar você. - Espero que dê certo. - Caminhe para frente.
Trevor e Sypha seguraram mais forte, já de olhos abertos. Alucard deixou a cabeça cair e soltou um som de aflição na própria voz. Devemos parar? Ele ofegava e tremia, até, de repente, parar. Alucard também abriu os olhos de uma vez e observou ao redor, soltando as mãos de ambos, erguendo-as, outra vez trêmulas. Começou a gritar quando Trevor saltou sobre ele para tampar-lhe a boca com a mão e segurar-lhe um braço acima da cabeça.
—Por favor, não. - Trevor sussurrou.
Greta se debatia, usando da força do corpo onde estava. Trevor a imobilizou prendendo-lhe o outro braço. Aguardaram e aguardaram, até que perdesse as energias, num choro sem fim por baixo da mão de Trevor.
—Não vou te machucar. - Trevor murmurou. - Está vendo?
Arriscou tirar a mão e Greta não gritou. Sypha se arrastou para perto. O rosto de Alucard estava desfeito em lágrimas, respirando pela boca, e os cabelos emaranhados cobriam-lhe os olhos. Sypha criou no ar uma lâmina de gelo polido que serviria de espelho.
—Greta, veja. - Sypha engoliu em seco. - Esta não é você.
A mulher assustou-se ao ver outro rosto e perguntou:
—O que aconteceu comigo? - Não responderam. - Onde está meu marido? Que lugar é esse?
Trevor matou você. Está cercada de ossos numa cripta, longe de casa. E matou todas as pessoas nas quais pôs as patas.
—Qual é a última coisa da qual se lembra? - Sypha questionou.
—O acampamento à noite. Marius me abraçando. Florin tinha saído para a vila, e o resto estava na fogueira. - E havia sangue na grama, um homem partido ao meio, outro sem perna, e outro com o peito rasgado e os cavalos magros mortos. E sobraram dois de vocês, carregando-os para a sepultura. - Tive uma tontura, minha cabeça doeu. Achei que fosse um sinal, nossa bênção, talvez… A joia me trazendo sorte. Uma criança, finalmente.
Greta pôs as mãos no rosto e fez menção de voltar a chorar, encarando-se no reflexo:
—O que aconteceu comigo?
—A joia era uma obra do inimigo. - Sypha disse. - Ele a envenenou.
—Estou morta?
Mantiveram silêncio por um momento. Trevor confirmou:
—Está.
—Estou no Inferno?
—Não. - Trevor balançou a cabeça. - É só uma cripta.
—Onde está Marius? Onde estão os outros?
Sypha e Trevor se entreolharam. Não podemos contar.
—Eles a levaram para o lugar onde nasceu, para descansar com Deus. - Sypha segurou-lhe o ombro.
Greta chorava e chorava. Trevor apertava-lhe a mão. Sypha a abraçou. É totalmente diferente. Apertou um pouco mais forte. Não é Alucard.
—Vamos libertar você. - Sypha a soltou. - Mas precisamos saber sobre a joia.
—Uma senhora me vendeu em Targoviste. Para assuntos de mulher, ela me disse.
—E como ela era? - Perguntou Sypha.
—Não muito velha. Cheirava forte, como um perfume… - Greta negou com a cabeça. - Tinha olhos grandes e azuis, mas é tudo o que lembro. Perdão.
—Tudo bem. - Sypha sorriu sem vontade. - Vai ajudar.
—Para onde vão me mandar?
Não temos a mínima ideia.
—À paz eterna do Senhor. - Trevor respondeu. Boa ideia, mas é uma mentira óbvia.
—Amém. - Greta disse. - Estou tão, tão cansada.
—Por favor, sente-se aqui. - Sypha pediu. - Dê as mãos a nós outra vez.
De volta ao círculo, notou que a mulher tremia. Ela perguntou:
—Este rapaz que está comigo. Ele vai ficar bem?
—Vai. - Sypha a confortou. Não sei.
—Espero que ele me perdoe. - Greta baixou a cabeça.
Sypha começou a recitar o cântico de Madre Bethania várias e várias vezes, com suas subidas e descidas sinuosas, até que as palavras perdessem o sentido. Abriu os olhos para ver o cristal, que terminava de absorver o calor do fogo, tornando-se incandescente e não mais cor de sangue. Viu brotar nele uma rachadura e Alucard caiu para trás como um boneco de pano, virando os olhos e quase acertando uma vela. Sypha e Trevor se debruçaram sobre ele para ver se vivia, ambos respirando aliviados ao notar que ainda havia pulso. Ouviram um som de algo se quebrando, e, ao que olharam para trás, o cristal estourou, tornando-se pó no ar.
—Nem sei por que me preocupo. - Trevor sorriu a contragosto. - Ele é duro na queda.
Era melhor ter ficado calado. Sypha riu um riso amargo.
Desfizeram qualquer vestígio de que estiveram na cripta antes de sair. Sypha encontrou num canto um jarro de óleo de lamparina, velho e empoeirado, e o aplicou às dobradiças da porta depois de saírem pelo alçapão. Olhou para trás e viu Trevor com dificuldades para carregar Alucard desacordado escada acima.
—Precisa de ajuda? - Perguntou ela.
—Acho que consigo. - Ele tirou o peso morto dos ombros saindo do subterrâneo e o segurou nos braços, com um grunhido de esforço. - Melhor agora.
Ele carregou você quando bebeu, essa é só a recíproca. Sypha desacelerou o passo para acompanhá-los. Perto do corredor dos quartos, vinha um monge com uma tocha, e Sypha quase comemorou quando viu que era Laurentiu.
—Boa noite aos senhores. - O monge tinha cara de interrogação . - O que há com ele?
—Teve um desmaio, eu acho. - Trevor deu de ombros. - Demos falta dele e o achamos caído por aqui.
—Levem-no ao quarto, vejo o que posso fazer. - Laurentiu passou na frente e os guiou.
Deixou-os depois de acomodarem Alucard na cama e de se certificar de que passava bem. Trevor e Sypha fecharam a porta e olharam um para o outro.
—Estou exausta. - Suspirou.
—Não é só você. - Trevor raptou uma coberta de Alucard e se sentou ao chão. - Venha cá.
Aninhou-se ao lado dele, debaixo da outra ponta da coberta que Trevor oferecia. Não quis conversar; ele também não puxou assunto.
Sypha lembrava-se de ter acordado algumas vezes durante a madrugada quando viu luz do sol despontando por uma fresta da janela. Em todas, espiara se Alucard respirava. Ele dormira a noite toda da forma como foi posto na cama, sem mover um músculo para sair da posição, e ainda dormia em paz quando ela despertou de vez. Olhando para o lado, viu Trevor de braços cruzados, olhando para a janela.
—Bom dia. - Ela cumprimentou. Ele respondeu o mesmo em um sussurro e um beijo no rosto. - Como está?
—Dolorido e cansado.
—Não é só você. - Sypha se espreguiçou e voltou a deitar no ombro dele.
Bateram à porta pouco depois, e era Laurentiu chamando-os ao desjejum. O rapaz os detectou no quarto com estranheza, mas nada disse.
—Pode trazer a comida ao quarto outra vez, Irmão? - Sypha pediu.
—Vou perguntar se posso, senhora.
Ele se retirou. Não tenho fome. Sypha fechou os olhos. E não quero ver mais ninguém.
Alucard descobriu-se deitado de lado e só no quarto. Piscou duas vezes para que o borrão nos olhos fosse embora e girou o corpo para cima. Apalpou o bolso interno do paletó e descobriu lá apenas a carta de Leo. O colar se foi. Observou ao redor, as janelas do quarto mal fechadas deixando entrar a claridade. Que horas devem ser? Sentou-se apoiando as costas na cabeceira. Como vim parar aqui? Pôs uma mão na testa. Minha cabeça não dói. Pelo contrário… Está muito leve. Tirou a mão da testa e olhou para a palma aberta, fechando-a em seguida.
O que houve na noite passada? Lembrava-se bem de ter ido à torre conversar com o fantasma do general que assombrava a ilha. Conversa que fez pouco sentido, aliás. Riu sozinho do próprio absurdo. O resto era um emaranhado feito de vozes e cenas do quarto do monastério, até que saiu dele, e dali, já não era mais capaz de puxar memórias. Mas uma coisa é certa. Respirou fundo e sentiu uma falta. Greta se foi.
Ouviu passos vindos do corredor. A porta se abriu com um empurrão e Sypha entrou no quarto com uma caneca.
—Que bom que não vamos precisar te acordar. - Ela o entregou a caneca, que descobriu estar quente. - É vinho com mel. Mandaram que tomasse.
Alucard deu um gole e descobriu não ser de má qualidade. Mas tem água, é inegável.
—Por favor, não fique de pé. - Ele deu um tapinha na cama a seu lado.
Sypha se sentou, tal qual tinha uma vaga memória de terem estado na noite anterior. Ela perguntou:
—Como está?
—Não sei. - Deu outro gole no vinho. - E você?
—Sinto-me estranha. - Sypha coçou a cabeça. - Então, acho que também não sei.
Ambos riram baixo.
—Aquela mulher, Greta. - Alucard olhava para o teto. - Não está mais aqui.
—Sei bem.
E minha suspeita se confirma.
—Não vou sentir falta de que ela me assombre. - Ele deu um sorriso sarcástico.
—Não vou querer que aconteça de novo.
—Sabe, não me lembro muito de ontem. - Alucard suspirou. - Agradeceria se pudesse me atualizar.
—Foi… - Sypha hesitou. - Estranho. Creio que é a melhor palavra, de fato.
—Disseram a ela o que aconteceu?
Ela negou com a cabeça:
—Talvez tenha sido melhor assim. - Não discordo. - Ela pediu perdão a você.
—Greta? - Alucard ergueu uma sobrancelha. - Bom, entendo. Não era o corpo dela, por assim dizer.
Era o meu. Fechou o semblante. Por sorte, era o meu. Ficou de pé para sentir o sangue fluir nas pernas, deixando com Sypha a caneca ainda quente.
—Ainda sobre ontem. - Continuou ele. - Sobre a pedra, em especial.
—O que era aquilo?
—Talvez se lembre de me ouvir dizer que eu já a tinha visto antes. - Começou a discursar no quarto, amargando o momento. - A alma de Greta estava fundida à joia, que era feita de alma, ou almas, em suma. Já deve ter ouvido falar da pedra filosofal, certamente. Não é a mesma coisa, é um estágio de algo parecido.
Virou o rosto para encarar Sypha, completando a si mesmo:
—A Pedra Escarlate. Ainda num estágio um tanto instável, portanto capaz de criar mutações num ser humano àquele ponto… E de criar a confusão de ontem.
—Problemas, não é? - Trevor apareceu à porta entreaberta, com a mesma postura desleixada de sempre.
—Sim, sua especialidade. - Alucard deu um meio sorriso. - Já ia atrás de você.
