"Hoje não é um bom dia.

É um daqueles em que os sorrisos são desbotados, a estrada tem buracos, a comida dá azia, a conversa não tem graça e tudo mais é enfadonho. Em dias como esse, só nos resta aguardar que ele acabe e deitar a cabeça no travesseiro esperando que o próximo nascer do sol traga coisa melhor. Creio ter passado por eles o bastante no último ano, nas poucas semanas em que estive acordado, e falo por experiência. Hoje, não importa o que aconteça de bom, será tão positivo quanto um aperto de mão."

Alucard parou de escrever ao que a carruagem deu partida e olhou para trás, vendo mais uma vila que começava a ser deixada e mais garoa sem fim pelos fundos da carruagem. Sypha cochilava recostada ao outro lado e Trevor conduzia, tudo em sua perfeita ordem. Ou não?

Perto do fim da tarde, pararam para descansar e alimentar os cavalos, e voltou a pegar o diário.

"Perdoe a falta de rodeios, mas há um assunto que preciso tirar da garganta antes que me sufoque. Nunca acreditei que, em minha longa expectativa de vida, eu me depararia com a existência de outra Pedra Escarlate que não a de meu pai. A própria natureza da questão me é, no entanto, duvidosa.

A Pedra é feita não apenas de forma, mas também de conteúdo. Ambos se originam da mesma matéria: almas, sendo que o exterior da pedra não passa de um recipiente para uma alma mais poderosa. A estrutura, no entanto, pode necessitar de uma série de testes prévios antes de se chegar à substância ideal. Uma matéria fraca gera uma Pedra fraca, e o contrário também é válido. Quem quer que tenha vendido a Greta um resto de Pedra falha sabia bem o que estava fazendo. Não duvido que exista mais por trás da transmutação dela do que sabemos, também.

Trevor e Sypha já estão a par da gravidade do assunto. Contei a eles antes que nos despedíssemos do monastério de Snagov. Não tive chance de dizer adeus a Dragoi, mas estou certo de que, talvez de cima da torre do sino, ele nos observava partir de barco e ria sozinho no fim da tarde de ontem. E, também talvez, a história sobre a nova Pedra fosse de interesse de nosso singular e temporário aliado.

Entre outras coisas, Greta, minha temporária assombração, se foi. Prefiro acreditar que ela partiu em paz; combatê-la uma vez foi o bastante. Quando eu quase dormia, seu lamento desesperado chegava a mim, e eu não sabia o que fazer. Tentava conversar com ela, procurá-la naquela imensidão cega que era a prisão da joia, mas era como nadar em piche. Quanto mais perto eu chegava, mais evasiva se tornava nossa conexão, até que eu acordava de mãos vazias mais uma vez. Também tomei a acertada decisão de carregar o protótipo da Pedra eu mesmo: nada mais me aconteceu além do contato com Greta. Onde quer que ela esteja, também espero que me perdoe, já que foi minha a ideia de mantê-la entre nós depois de sua partida.

As únicas lembranças boas que levo comigo são dos mortos. Pavel descansa em algum lugar do monastério, junto a seus irmãos de doutrina. Creio que foi um bom homem, acometido pelo infortúnio de se encontrar com a crueldade humana. Quem o matou é um mistério que, provavelmente, foi com ele para o túmulo. Mas um 'suntuoso acampamento' onde se canta, nas palavras dele, é uma vista rara na arrasada Valáquia dos últimos tempos. Manterei os olhos abertos.

O general Dragoi, outro falecido, é hoje uma caricatura do que um dia foi. Na minha concepção, ele só não se sublimou para o além-vida de uma vez por todas por puro sarcasmo: viver o agradava, mas a morte nunca o assustou. Lê-se sobre ele nos escritos do meu pai, por vezes. 'O militarzinho covarde', ele dizia. Dragoi era pouco tolerante a criaturas da noite, pois batia em retirada com qualquer tropa ao menor sinal desse tipo de ameaça; na época dele, os Belmont ainda vigoravam na fortaleza e os parentes de Trevor mantinham tudo mais ou menos sob controle. O general era um humano cujos maiores inimigos eram os da própria espécie. No íntimo, talvez, não tivesse só ferro e fogo para dar aos que o cercavam, como me tratou de forma cortês, mas aos estrangeiros, só falava o idioma da espada.

No mais, no dia de hoje, quero estar só. É um dia que passaria com satisfação a um quilômetro de qualquer outra pessoa, confortável nas torres do castelo. Ou é possível que dormisse e acordasse quando a neve já tivesse começado a cair; o que mais me apetecesse na hora. Faz-se tanto silêncio quanto é possível agora, mas a garoa na lama, os cascos dos cavalos, o revoar dos pássaros e a eventual reclamação de Trevor são o suficiente para me deixar desconcertado. Escrever estas páginas me dão algum refúgio, e, por elas, sou grato.

Que amanhã traga alguns raios de sol."

Em mais meia hora, Trevor parou em um estábulo, e um senhor grisalho abriu a metade de cima da porta:

—De onde vêm? - Perguntou em tom rude.

—Do norte, de Snagov. - Trevor coçou a cabeça. - Por quê?

—Graças ao Pai. Aos cavalos, por favor, venham.

Desceram os outros dois para ajudar a descarregar e desatrelar os animais.

—O que se passa, senhor? - Trevor perguntou.

—Não ouviu a respeito? Uma peste corre nas vilas a sul. - O homem virou a cabeça, mostrando a expressão de espanto. - Temos que nos precaver, entende?

—Não fazia ideia. Uma doença, talvez?

Alucard deu a volta na carruagem para buscar os pertences, ainda de ouvidos atentos.

—Parece. Não sei. Pessoas morrem como moscas, aldeias inteiras estão vazias. Os doentes têm partido para Bucareste atrás de médico, ou de uma bênção, pois só Deus sabe o que há. - O homem suspirou. - Primeiro, falta o ar no doente, como algo no pulmão. Vem uma tosse tremenda. Depois, fica magro como um osso, não importa o que coma, e não consegue sair da cama. Poucos dias mais tarde, amanhece o cadáver.

—Devemos nos preocupar? - Sypha indagou.

—Eu diria que dessem meia-volta para norte e esquecessem a viagem. Todo dia, é pelo menos um morto.

Bom, não dá para dizer que contávamos com essa. Trevor pediu a bolsa de moedas da bagagem e Alucard a procurou, encontrando-a mais leve do que esperava. Ao que Trevor a pegou, fez a mesma cara. Perguntou:

—Senhor, por acaso não há um telhado a consertar ou coisa assim? Em troca do feno, ao menos.

—Não, camarada. - O homem negou com a cabeça. - Dinheiro, apenas.

—Sei limpar cascos. - Trevor sorriu.

O dono do estábulo o mediu com os olhos e concluiu:

—Pois estamos precisando. Feito?

—Feito. - Trevor estendeu a mão, que o outro apertou.


O céu começou a desabar sobre o telhado da humilde estalagem que o dono do estábulo mantinha ao lado de casa. O salão, feito para acomodar talvez vinte pessoas, estava vazio, mas de lareira acesa. Ninguém estava atrás do balcão. As duas mulheres que cuidavam do lugar, esposa e filha do dono, já tinham se retirado para dormir, trancando a entrada e deixando-os com acesso ao quarto apenas. As canecas de cerveja meio cheias estavam ao lado da perna de Trevor, sobre o banco, e ele alcançou qualquer uma delas para tomar mais um gole. Sypha também pegou a dela, mas ficou chocando-a entre as mãos, olhando para o fogo.

—E agora? - Ela perguntou num sussurro, o bastante para aquele ambiente.

—Não sei. - Ele suspirou. - Não sei mesmo.

—Há trabalho em qualquer lugar, se for o caso. Mas já viemos tão longe…

—Sim. - Envolveu-a melhor entre os braços. - Sei que é difícil acreditar, mas tenho um bom pressentimento quanto a Bucareste.

—Tem, é? - Sypha tinha desinteresse na voz.

—Tanto quanto se pode ter numa hora dessas.

—Bom pressentimento em relação a quê?

—Ah, bem… Não sei. - Trevor coçou a cabeça. - Só acho que exista algo lá para nós.

Sei que é difícil, mas estou aqui. Segurou a mão dela, afagando-a com o polegar. A lareira crepitava, quase inaudível com o som da tempestade encobrindo-a. Uma gota ou outra encontrava seu caminho pela chaminé, evaporando ao contato com o fogo. Do dinheiro rareando, ela já sabe. Não tenho tempo de contar as moedas conduzindo cavalos. Sypha virou a cabeça e aproximou o rosto do dele quando uma pancada no telhado os assustou. Ficaram de pé e rodearam o salão atrás de onde tinha vindo o barulho. Ele soou, repetindo-se, mais distante.

—Acho que é no estábulo. - Sypha sugeriu.

—Deve ser. - Puxou-a pela mão. - Agora, volte aqui.

Ela se desequilibrou de leve ao ser trazida para perto e beijada de surpresa. Seguiram de mãos dadas até uma saída lateral, esquecida destrancada, que levava à casa do dono. Ele os aguardava com a esposa, ambos em roupas de dormir e com uma vela acesa.

—Ouviram, também? - Perguntou o homem, assombrado. - Sabem o que foi?

—Estávamos indo ver agora mesmo. - Trevor deu de ombros.

—Sigam-me. - O dono gesticulou com a cabeça para ambos, evitando que a esposa fosse com um movimento de braço. - Acho que veio do estábulo.

De chave em punho, ele tirou uma capa de um gancho na parede. Atravessaram a sala e abriram outra porta. O temporal que caía até abafava, mas era possível ouvir a inquietação dos cavalos. Sypha puxou o capuz sobre a cabeça e Trevor se encolheu na capa de pele, a água os castigando sem piedade. O homem protegia a chama da vela como era capaz, o que ela retribuiu se apagando com uma gota de chuva.

Na varanda do estábulo, era impossível enxergar. O dono os perguntou se tinham uma pederneira. Trevor pensou duas vezes, tirou uma vela do cinto e a entregou a Sypha, que entendeu o recado, acendendo-a com discrição por trás da capa. Entraram, olhando para o chão de pedra e constatando uma poça. No teto, havia um rombo nas telhas, perto da parede.

—Agora um telhado a consertar. - Trevor riu.

—Espero que não tenha sido obra de vocês. - O dono os olhou com suspeita.

—Garanto que estávamos secos e aquecidos quando nos encontrou, senhor. - Trevor ergueu um dedo. - E que não há rastro de água no chão do salão.

O homem pensou um pouco antes de acreditar. Água e mais água escorria pela parede, inundando o chão desnivelado.

—Deus do céu, o feno. - O dono andou para trás, afastando-se da poça crescente. - Vai se encharcar inteiro se não fizermos nada.

—Podemos tentar consertar agora mesmo. - Trevor disse.

—Está louco? - O homem se sobressaltou. - Como vai parar em cima do telhado num tempo deste?

Trevor e Sypha olharam um para o outro.

—Algum plano? - Ele perguntou.

—Talvez.

O dono do estábulo vasculhou um canto, trazendo tábuas e cordas de lá, e apontou no escuro da varanda:

—Temos uma escada. Não está das melhores.

—Vai ter que servir. - Trevor desatou a capa e foi buscar a escada.

Apoiando-a ao lado do rombo no telhado, pediu que Sypha subisse pelo outro lado. Com passadas cuidadosas, ele venceu um degrau após o outro, e cada rangido neles o fazia trincar os dentes. Aguardou até Sypha avisar por cima da chuva e dos trovões que já estava sobre as telhas.

—Agora, coloque a tábua. - Ela gritou para Trevor.

Ele tirou uma mão da escada para pegar a tábua que o dono do estábulo o estendia e a apoiou no teto.

—Assim? - Gritou de volta.

—Mais para a esquerda. - Ela devolveu no mesmo tom. Trevor moveu a tábua. - Não tão para a esquerda. Para o meio. Isso. Não se mova.

Viu o par de cordas atravessar o buraco e um lampejo de fogo vindo do lado de fora, das mãos dela. Deve querer ver o que está fazendo. Sypha parou de amarrar. Com os braços para cima, segurando a placa de madeira, Trevor reclamou em alto e bom som:

—Não posso segurar para sempre.

—Já vai.

Trevor deu um nó improvisado do lado de dentro com uma mão só, a outra o apoiando na escada. O dono do estábulo, com um erguer de vela, viu seus esforços e segurou-a para que usasse as duas mãos. Sypha gritou que estava terminado, e Trevor desceu. Sypha também saiu do telhado e caminhou até os outros dois com algo nas mãos.

—Vejam. - Ela estendeu o objeto. - Estava lá em cima.

Trevor arregalou os olhos. Era uma pena de ave do comprimento de um braço humano, escura como a noite. Ao que ela o entregou, viu um reflexo avermelhado nas cores.

—É enorme. - Trevor fechou o semblante. - E é mau sinal.


Alucard abriu os olhos, encarando o teto. Ocorreu-lhe apagar a vela acesa, mas deixou-a como estava. Espreguiçou-se apenas, sob as pobres cobertas da estalagem, e sentiu o pé tocar a armação. Ouviu o som do temporal do lado de fora. As extensas camas de outros lugares faziam falta. Continua sendo melhor do que um monte de palha. Sentiu uma fisgada no pescoço o atingir e prendeu a respiração. Cansou-se da posição e se sentou, recostado à cabeceira. Eu estava sonhando. Balançou a cabeça. Só um sonho sem sentido.

Via-se só no quarto. Bem o que eu queria mais cedo. Pôs a mão no peito. Havia um peso nele; uma espécie de vazio quase palpável, denso e opaco. Apertou as unhas contra a palma até que quase as cortou. Não dói. Estendeu a mão para a chama da vela, sem tocá-la. Não o suficiente. Resistiu um pouco e acabou por desistir. Deixou o braço cair, suspirando. Fechou os olhos e sentiu-os marejar. Por quê? Limpou o rosto. O que é isso? Teve tempo de manter a respiração estável e engolir o choro quando a porta se abriu.

Trevor entrou primeiro, com cara de quem trazia problemas. Sypha veio atrás, com o semblante preocupado e algo nas mãos.

—Achamos uma coisinha no telhado. - Trevor tirou a capa molhada e a pendurou. - Reconhece isso?

Sypha o entregou a longa pena escura.

—É de um corvo gigante. - Alucard pôs a mão no queixo. - Do tipo que se alimenta de carne. Deve estar caçando pela região. Onde estava?

—No telhado, como eu disse. - Trevor revirou os olhos.

—Em qual parte dele? - Devolveu com uma encarada feia.

—No estábulo. A coisa deve saber que há cavalos ali. - Trevor apontou para trás com o polegar.

—Foi o que pensei, também. - Alucard devolveu a pena a Sypha. - Não que pássaros sejam bons farejadores, mas cavalos parecem uma refeição melhor do que nós.

—Mas esses corvos são infecciosos? - Sypha ergueu a sobrancelha. - Não parece o tipo de coisa que um corvo seria.

—Não que eu me lembre. Deve ser outra coisa causando a tal praga. - Trevor se deitou na cama. - Agora, com licença.

Alucard ficou de pé a contragosto, dirigindo-se ao monte de feno coberto por uma manta. Difícil vai ser que eu durma outra vez agora.


Sypha despertou pela milésima vez depois de um trovão, que não sabia se escutava em sonho ou não. Piscou algumas vezes para desembaçar os olhos e se levantou da cama. Se já é pequena para uma pessoa… Endireitou as costas doloridas e caminhou até a janela, abrindo-a. Já é dia claro. Dormiria mais mil horas. Bocejou e voltou para acordar Trevor com um balanço no ombro. Em sintonia, ele também deu um bocejo que engoliria o planeta e se ergueu do colchão, acordando Alucard com um cutucão do pé. Trevor pôs a cabeça para fora da janela e comentou:

—Acho que é um bom dia para sairmos do lugar. Não está chovendo. - Voltou a cabeça para dentro do quarto. - Mesmo que esteja um lamaçal lá fora por causa de ontem.

No salão, foi-lhes servida uma caneca de cerveja, pão de aveia e sopa de cenouras com carne-seca, com um enorme sorriso da jovem esposa do dono ao que ela os entregou os pratos. Não importa o que eu faça, meu corpo não para de doer. Enquanto comia, Sypha a viu trocar uma instrução com a mais jovem ainda filha do senhor. Não tem idade para ser mãe dela. Também viu a menina sair batendo os pés. Adolescentes. Disfarçou um riso por trás da tigela. No periférico, viu-a também olhar fixamente para Trevor com mais do que curiosidade. Que continue só olhando. Sypha franziu o cenho e fez questão de beijá-lo de surpresa.

Atrelaram os cavalos sem demora para aproveitar o raro bom tempo e pagaram ao dono. Ele devolveu algumas moedas:

—Pelo telhado. Eu nunca teria consertado sozinho. - Entregou-as a Trevor. - Vão mesmo ao sul?

—Vamos, senhor, até segunda ordem. - Trevor coçou a cabeça.

—Que Deus os proteja. - O homem acenou.

—Obrigado, senhor. Que o telhado não quebre de novo.

A primeira vila que a estrada trouxe não tinha uma alma viva. O lugarejo era plantado no sopé de uma descida na qual a carruagem encalhou, afundando uma roda na lama. Desceram para tirá-la de lá, com grande auxílio de Alucard, que a ergueu como a uma banqueta de três pés. Aproveitaram a deixa para caminhar um pouco por entre as casas vazias e a névoa densa. Não é muito diferente do resto das vilas, mas… Cada passo ecoava pela rua. Não há vida nenhuma aqui.

No meio do lugar, depois de uma ponte onde um riacho cortava o mapa, testou a porta de uma das moradias mais apresentáveis e a encontrou aberta. Passou a cabeça para dentro e não viu mais do que uma sala vazia. Acenou para que os outros dois a seguissem, e entraram todos.

As cortinas de bom tecido já começavam a acumular pó. Sypha as abriu para que entrasse a pouca luz daquele dia. A moradia de dois andares tinha resquícios de velas, pétalas murchas e ramalhetes secos atirados no chão.

—Um velório. - Sypha sussurrou. O que mais esperar?

Trevor deu a volta nos dois e subiu as escadas. Seguiram-no sem convite e o viram entrar em um dos quartos, remexendo debaixo do colchão e no baú deixado para trás. Debaixo de alguns cobertores, já trapos envelhecidos, encontrou uma pequena bolsa de moedas esquecida com um sorriso vitorioso.

—Sorte grande. - Colocou-a no cinto. - Vejam se há algo de útil nos outros quartos.

—Não está pensando em levar, está? - Alucard perguntou, de sobrancelha erguida.

—No que está pensando, deixar para trás? São só alguns vinténs. - Trevor deu de ombros.

—Isso não torna você menos culpado de saquear a casa alheia. - Alucard cruzou os braços.

—Há uma grande possibilidade de que o dono não esteja vivo para se importar.

—Deixe isso onde estava. - Alucard apontou para o baú, revirando os olhos. - Não é como se fôssemos morrer de fome por falta dessas moedas. Podemos conseguir dinheiro de outras formas.

—Se continuar a me incomodar com isso, vou entrar em outras casas. - Ameaçou Trevor. - Que tal um dia todo de exploração? Sypha, como vota?

—Voto em voltarmos para a carruagem. - Encaminhou-se para a porta. - Vamos embora. A carruagem não se conduz sozinha até Bucareste.

É o último lugar para o qual quero ir. Desceu as escadas na frente, com o corpo dolorido a cada passo, e saiu da casa ignorando as reclamações de Trevor. A garganta coçou. Deve ser só a poeira. Sentou-se ao banco do cocheiro, continuando a fingir que não ouvia o condutor ao lado.

As duas vilas seguintes também estavam desocupadas, e passaram por elas sem olhar para os lados. A quarta delas, no entanto, tinha habitantes que entraram em casa e fecharam as portas ao que os viram passar. É estranho pensar que já fiz este caminho antes. Olhou ao redor e tentou espremer da mente alguma memória, algum lampejo de lembrança sobre aqueles arredores, sem nada encontrar. O que está diferente e o que está igual? Suspirou. Este tipo de lugar está parado no tempo. Arrastou o corpo para o lado, recostando a cabeça no ombro de Trevor e ganhando um beijo fugaz na testa. Um clarão os sobressaltou e olharam para o céu; um trovão ressoou no céu escurecido pelas nuvens de chuva e pelo início de noite.

—Vamos parar no estábulo. - Sypha sugeriu. - Já vencemos uma distância boa hoje.

Trevor parou a carruagem ao fim da vila e desceu, batendo à porta do lugar sem resposta. Atreveu-se a tentar empurrá-la sem sucesso.

—Não há ninguém.

Uma voz surgiu da lateral do prédio, e ele deu a volta. Sypha esticou o pescoço para ver e enxergou um senhor de décadas incontáveis, cabelo desgrenhado branco como leite e uma densa barba maltratada. Os olhos dele… Viu as íris de cor também esbranquiçada. Estava magro como uma vareta, e quando Trevor abriu a boca para falar com ele, o velho teve um acesso de tosse que parecia sem fim. Deus do céu. Trevor cobriu o rosto com um braço e se afastou um passo.

—Perdão. - O velho disse quando voltou a respirar e cuspiu um pouco de sangue. - Quem está aí? É daqui?

—Não, senhor. - Trevor respondeu. - Sou um viajante. Meu nome é Trevor.

—Oh! Mas que coisa. O meu também. - Tossiu de novo. - As coisas que acontecem, não?

—Posso fazer algo pelo senhor?

—Acho que não, filho. - Negou com a cabeça.

Sypha sorriu para nada e ninguém, com o peito apertado. Deve ser bem mais velho do que meu avô.

—Não está com fome? - Trevor perguntou, agachando-se a uma distância segura da tosse. - Sede, talvez?

—Sede, sim. Mas de que adianta? - O velho tossiu mais, como se fosse pôr os pulmões para fora.

Sypha olhou para Alucard no vagão e gesticulou para que se aproximasse, pedindo o cantil. Ele fez que sim com a cabeça e a entregou, assim como um copo. Ela desceu do banco, encheu-o e o entregou ao Trevor jovem.

—Aqui, senhor. - Ele indicou. - Estenda a mão.

O velho esticou a mão esquerda. Está tremendo.

—A outra mão. - Trevor riu uma risada triste. - Bom, esqueça. Vou lhe dar a água.

Levou o copo aos lábios ressequidos do homem com cuidado, e o velho a tomou como se fosse néctar.

—Obrigado, rapaz. Muito obrigado. - Tossiu de leve.

—O senhor tem casa? - Trevor perguntou.

—Vivo na rua há anos.

—Família?

O velho riu com amargura e tossiu mais:

—Se conseguir achar algum de meus filhos, dê-lhes uma bofetada na orelha por me largar à própria sorte.

Sypha sentiu o coração se apertar mais. Deixe que conversem.

—E sabe onde estão? - Trevor questionou, num tom de piedade.

—Perdidos no mundo. - O velho fez um som conformado, acompanhado de mais tosse. - Acho que venderam nossa propriedade e foram apostar em Targoviste. Agora que estou doente da tal praga, vou encontrá-los e assombrá-los logo.

—Há quanto tempo está doente, senhor?

—Dias, eu creio. - O velho coçou a barba. - Antes dos donos do estábulo irem embora.

Ele tossiu por quase um minuto inteiro e completou:

—Houve a noite em que ouvi algo, algo no céu. Não estava chovendo. Parecia-se com um bater de asas. No dia seguinte, amanheci tossindo.

—Asas? - Trevor ergueu a sobrancelha.

Mas o tal corvo não é infeccioso. Já a praga…

—Asas grandes e fortes. Alguma coisa voando sobre as cabeças. Talvez até sobre os telhados. - O velho pigarreou.

—Temo que não posso perguntar o que é, senhor.

—E eu não vou poder responder, filho. - Balançou a cabeça em negação. - Sou cego como uma toupeira.

—Mas sabe dizer se há hospital por perto?

—Em Bucareste, com certeza. Aqui, tudo o que há são curandeiros. Um ou outro morreu. - O velho deu uma risada irônica. - Sou a parede que tem ouvidos.

O Trevor jovem pôs a mão no queixo e perguntou:

—Viria conosco, senhor? É a Bucareste que vamos. Podemos deixá-lo sob cuidado dos irmãos… Ou irmãs, o que vier primeiro.

—Auxílio? - O velho tossiu. Sou um saco de ossos com os dias contados. Mas não sou de recusar uma carona. Ajude aqui.

O velho estendeu as mãos e Trevor segurou-as sem sucesso; o pedinte desabou no chão com um gemido de dor. Trevor o pegou no colo. Deve pesar tanto quanto uma criança. Houve mais tosse durante todo o trajeto à carruagem, e acomodou o senhor no banco oposto ao de Alucard, entre duas sacolas de bagagem. Está com os dias contados. Sypha cutucou o companheiro no ombro e sussurrou quando se sentaram ao banco do cocheiro:

—Tem certeza?

—Não. - Ele fechou os olhos, lutando contra as lágrimas. - Prefere não fazer nada?

—Não. - Tocou-o no braço com um afago.

Sypha olhou para trás e viu o semblante sério de Alucard. É, eu sei. Não é a ideia mais sábia do mundo.

—Diga se precisar de alguma coisa. - Trevor virou o pescoço para falar com o velho. - Há mais um de nós na carruagem.

—Acho que viajarei calado, filho.

Seguiram em silêncio. A noite caiu antes que pudessem alcançar a vila seguinte, depois de mais uma hora na estrada. Desceram todos da carruagem, exceto o velho: Trevor jovem arrumou para ele uma cama improvisada com feno e duas cobertas, mas o tirou do vagão, trazendo-o até a fogueira. Mais uma sopa foi feita com as provisões, e aveia com água e mel para o convidado. Sypha sentou-se ao lado do velho, lutando contra o cansaço, e se apresentou com a tigela, dando-lhe esparsas colheradas muito agradecidas por ele.

—Graças a Deus, aveia mole. - Ele tossiu de leve. - Meus dentes já quase não existem. Não há muito como um inválido como eu retribuir, mas posso entreter vocês falando de mim.

—Por favor, senhor. - Sypha confirmou.

—Pois bem. - O velho pigarreou. - Este nome não me foi dado de graça. Meus pais eram franceses, veja só. Nasci aqui por um atraso na viagem de volta deles, mercadores de bons vinhos, e a saúde de minha mãe, que Deus a tenha, se complicou. - Deu uma pausa para tossir. - Ficaram na Valáquia, comigo, fazendo a vida aqui com muito menos do que tinham lá.

"Cresci, e estudei no seminário como era de desejo deles. Larguei tudo por causa de uma linda moça, como quase todo jovem faz, não? Era tão apaixonada por mim quanto eu por ela. Nasceram meu filho e filha, e com ela fiquei até que Deus a tirou de mim. Um acidente de cavalo. - Respirou fundo e tossiu de novo. - Não me casei outra vez. Nunca quis.

Meu sogro me cedeu uma propriedade, uma terrinha pequena, por mais que eu nunca tenha me dado com ele, e lá me escondi do mundo. Ajudei-o a tocar a fazenda… E meus filhos tinham outros planos para mim, mais do que me deixar viúvo em paz. - Tossiu. - Queriam a pouca terra que eu tinha. Para vender, digo. Minha vista ia ladeira abaixo a cada dia, até que decidiram me jogar na vila. Dois covardes, sem coragem de me envenenar. Que fosse me sufocar no sono! Que seja. Qualquer coisa."

—Foi uma vida e tanto, senhor. - Trevor atirou um galho ao fogo.

—Não foi, não. Foi um infortúnio. - O velho tossiu. - Mas espero que tenha servido.

Trevor jovem o levou à carruagem e voltou para se deitar com Sypha ao redor da fogueira. Alucard se acomodou só, como de costume, olhando para a falta de estrelas no céu. Só espero que não chova… E que não percamos nosso recente amigo.


Trevor ouviu algo; sentiu o mesmo algo se mexendo à sua frente. Piscou os olhos algumas vezes. O que está acontecendo? Ao que ergueu o corpo apoiando o antebraço no chão, olhou para Sypha, deitada em seu lugar, com a face lívida e sufocando.

Não, não, não não. Segurou-a pelos ombros e a colocou sentada. Puxava o ar de maneira débil, de olhos arregalados, com uma mão sobre o peito. Não a soltou por um segundo sequer. Pelo amor de Deus, ou de qualquer coisa, não. Viu com o canto do olhar que Alucard se aproximara e estava ao redor. Não ousaram perguntar o que havia. De repente, ela teve um forte acesso de tosse até a cor voltar-lhe ao rosto.

—O que foi isso? - Alucard soltou.

—Não sei. - Sypha limpou uma lágrima do rosto. - Nunca aconteceu antes.

Trevor pegou-lhe a mão e notou-a febril, assim como um pouco trêmula. Também sentiu a garganta coçar e tossiu.

—Vocês estão doentes. - Alucard os encarou.

Estamos. Sentiu um peso no estômago. A praga.

Alucard ainda passou algum tempo ao lado de Sypha, olhando para o chão. Ficou de pé, e Trevor o acompanhou, com a inoportuna coceira na laringe e o corpo dolorido.

—Bonito ver você ser altruísta uma vez na vida, para ficar na história. - Alucard fechou o semblante. - Pena que isso vai lhe custar a vida.

—Que conversa é essa? Não sabemos nem de onde, nem como-

—Não seja ingênuo. - Alucard o interrompeu. - Não sabia que tinha me convidado a sair de casa para vir até aqui assistir a você se matar.

—Pode muito bem ser algo que se pega pelo ar. Pense um pouco.

—Exatamente, seu imbecil. - Alucard subiu o tom de voz. - Não me mande pensar.

Trevor suspirou e cerrou os punhos, sentindo que os músculos se retesaram com dor. Ameaçou:

—Não me faça ter que quebrar você em dois neste estado.

—Pode tentar. - Alucard abriu os braços, baixando a guarda com um sorriso sarcástico. - Sei que está louco para me bater desde aquela vez.

—Sou cego, não surdo, seus moleques. - O velho gritou da carruagem. Se querem se livrar de mim, é melhor que o façam como homens.

Alucard deu as costas e um passo à frente. Olhou por cima do ombro, partindo para o interior do bosque que cercava a lateral da estrada. Não vou atrás. Sypha ficou de pé e caminhou até ele, segurando-o pelo braço sem dizer nada. Caiu novamente em uma crise de falta de ar. Trevor correu até ela, envolvendo-a, em pânico. Alucard aguardou de costas até que ela tossisse e voltasse a respirar.

—Desculpe. - Alucard disse, olhando para o bosque, antes de partir.

Trevor a colocou de pé, com pouca força nos músculos, e a levou de volta ao acampamento. Acendeu a fogueira que se extinguira, trouxe o velho da carruagem para os arredores do fogo e se sentou com ela, de mãos dadas, os dois olhando as brasas, enquanto o sol subia por trás do céu encoberto.

—E então, vou morrer? - O velho ergueu o corpo no monte de feno.

—Não, senhor. - Trevor riu a contragosto. - De que adianta?

Tomaram a pálida sopa, restos da noite, como se não tivesse gosto e sem uma palavra sequer.

—Não sei por que se preocupa. - O velho disse, ao fim da tigela. - Posso cair morto amanhã.

—Porque sou um idiota. - Trevor balançou a cabeça. Era mais fácil quando eu deixava a humanidade se matar sozinha. Deu a mão a Sypha, queimando de febre, e se sentiu tremer de frio. - Um idiota morto, senhor.