Mais uma vila, mais um estábulo. Trevor suspirou. Dessa vez, há de existir gente em casa. Desceu do banco do cocheiro depois de puxar as rédeas com dores nos braços e bateu à porta do lugar. A mulher de meia-idade que atendeu se esforçou para a simpatia, apesar dos pesares, e ele notou que, atrás da orelha dela, entre alguns fios do cabelo claro, havia um ramo de planta. Contou as moedas restantes para entregar a ela, já reunidas as encontradas na casa vazia; ao pegar a bolsa de volta, a falta de peso não o agradou. Deve durar mais uns cinco dias. Se eu estiver vivo até lá.

A estrada, no entanto, tinha sido fácil, mais seca com um dia de trégua das chuvas da estação. Também pudera, a carruagem está uns oitenta quilos mais leve. Tossiu de leve, sentindo uma coceira perene no fundo da garganta, que tentava afastar com a língua.

Depois que a primeira mulher e uma empregada mais jovem ajudaram a acomodar os cavalos, chamou a dona do lugar a um canto.

—Tenho um senhor adoecido comigo. - Sussurrou a ela. - Onde posso tratar dele?

A mulher balançou a cabeça em negação pelo inevitável:

—Sei onde pode tentar. Mas bom que já tenha acomodado os cavalos. Vai ter que ir a pé.

Atravessaram a vila sem muito olhar para os lados, alcançando uma estrada íngreme de terra que cortava um bosque. Depois de barrancos, subidas, descidas, raízes e deslizamentos, o péssimo caminho os apresentou uma clareira com um chalé decrépito e uma horta cercada, ladeado por um poço e tudo rodeado por uma planta aromática. Alecrim. O arbusto era uma vista rara entre o povo, de difícil crescimento no clima e solo da Valáquia. A mesma planta que estava na orelha da mulher.

Trevor pôs o senhor de pé no chão, apoiando-o em um braço, e o ouviu com aquela tosse fúnebre em coro com Sypha. À primeira menção de que ela também tossia, sobressaltou-se, mas a crise não terminou em falta de ar. Deu duas batidas à porta do chalé, sem resposta, e aguardou até que aparecesse do bosque outra mulher de meia-idade com um olhar desconfiado e uma cesta de cogumelos colhidos.

—Que querem aqui? - Ela indagou. - Não me digam que estão com a praga.

Trevor deu de ombros. Ela suspirou pesado, baixou a cabeça e entrou em casa, sem convidá-los para que fizessem o mesmo. Seguiram-na. Ela pode nos expulsar, em todo caso.

Bateu a porta de leve para fechá-la. Essa é a tal Madame Marisa. Segundo a mulher do estábulo, não gostava do título de "madame", nem de crucifixos, cavalos ou crianças; qualquer uma das coisas os botaria para fora da propriedade a vassouradas. Marisa tinha fundas olheiras e uma cascata de cachos escuros, cuja cor começava a rarear, escondendo parte deles debaixo de um lenço. Ela salva vidas, com essa cara? Trevor evitou rir.

A casa cheirava a tantas ervas que era impossível discernir qual a de aroma mais forte. Faltava luz ali e havia uma imensidão de objetos naquele espaço de dois cômodos. Marisa se dirigiu ao fogão, mexendo uma panela qualquer; Trevor teve tempo de ver que ela dispensara o vestido e usava calças. A curandeira se dirigiu à mesa da cozinha e começou a desocupá-la da quantidade de bugigangas. Jogando a cabeça de lado, indicou que colocasse o velho ali, e quando Trevor o soltou, ele teve um acesso de tosse que parecia sem fim. Marisa retorceu o rosto.

—O pagamento. - Ela pediu.

Trevor estendeu uma bolsa que outrora guardava moedas, agora cheia de sementes de todo tipo. Marisa a abriu e esparramou num canto da mesa, examinando-as com alguma precisão e voltando-as para a sacola. Pareceu dar-se por satisfeita, virando-se para um recipiente de madeira com tampa.

—Há um pouco de formigas. - Marisa deu uma risada sarcástica. - O senhor não vê, é isso?

—Há quase uma década, com orgulho.

—Então, abra a boca.

Ela destampou a vasilha e enfiou dentro dela uma colher, contendo uma espécie de xarope. Deu o mesmo a Trevor e Sypha, depois de notá-los tossindo, e tossiram mais ao engolir com o irritante sabor doce.

—Há de passar. - Marisa estendeu a mão para duas cadeiras. - Não fiquem de pé.

Sentaram-se. Ela voltou para o fogão, cutucando as brasas, e misturou o conteúdo de uma panela repleta de folhas.

—Aquela foi a parte boa. A ruim é esta aqui. - Pegou o líquido com uma concha e o serviu em canecas. O primeiro gole que Trevor deu no chá o fez ter vontade de mastigar um salgueiro-branco inteiro. - Faz quanto tempo?

—Que estamos doentes? - Perguntou Trevor. - Começou hoje, senhora, para nós dois. Para o senhor ali, já faz alguns dias.

—Então ainda hei de vê-los vivos mais um pouco. - Marisa olhou para o velho, que começou a tossir. - Ou não, talvez.

—Não temos exatamente intenção de morrer. - Trevor repousou os braços nos braços da cadeira.

Marisa riu, sombria:

—Logo agora, que estava gostando de vocês.

—Não é algo que ouço todos os dias. - Trevor ergueu a sobrancelha.

Sypha o encarou feio. O que foi? Retribuiu o olhar sem entender e voltou à conversa.

—É pai de vocês? - Marisa apontou o velho.

—Não. - Ele respondeu quando parou de tossir. - Não tenho a sorte de filhos tão bons.

A mulher pareceu pouco se importar com a resposta e pôs um pouco mais de ordem na casa. Em um canto, coberto por um lençol, Trevor a viu puxar com discrição o tecido mais para baixo, batendo o pó para disfarçar. São livros. Sypha também notou, perguntando:

—A senhora lê?

Marisa reagiu tirando uma reluzente faca de cozinha de algum lugar e a empunhando.

—Não vão me levar viva daqui, seus carolas.

Trevor e Sypha ergueram as mãos em sinal de paz.

—Sou excomungado, senhora. - Ele disse como diria que estava com um calo no pé. - Não piso numa igreja desde os doze anos.

Bom, se você descontar o pulinho que dei em uma lá em Gresit.

—Pois prove. - Marisa ordenou, impassível.

—Vou tirar o cinturão e jogá-lo no piso para que veja. Calma. Não me fure. - Trevor desatou a fivela e a arremessou com cuidado.

Marisa deu um passo à frente sem tirar deles o olhar ameaçador, baixando o rosto para espiar o cinto com o brasão dos Belmont.

—Mas quem diria. - Riu sem soltar a faca.

—É, não é? - Trevor baixou as mãos.

A curandeira levou algum tempo ponderando se confiava neles até espetar a faca numa tábua de madeira mole.

—Um Belmont aqui, e mais o quê? - Ergueu uma sobrancelha.

—Uma Oradora, senhora. - Sypha respondeu.

Marisa a encarou como quem não esperava uma resposta.

—Achei que os do seu tipo vivessem em bando, garota.

—Na verdade, sim. - Sypha também baixou as mãos. - Sou um caso à parte.

—E eu sou apenas parte do cenário, se agradar à senhora. - Velho Trevor tossiu.

Ela ignorou o gracejo, direcionando-se a outro frasco misterioso que continha algo como plantas em pó. Tirou água fervendo de uma panela, arremessou-a a um caneco de metal, misturou ao pó e deu o chá ao velho, cuja tosse diminuíra para um episódio a cada dez minutos.

—É para que durma. - Marisa explicou. - Não mata, não se preocupe.

—Mesmo se matasse. - O velho deu de ombros. - Vai me tirar esse gosto horrível da boca.

—Vocês não têm cara do povo daqui. Estão em viagem? - Marisa perguntou a Trevor.

—Vamos a Bucareste. - Ele se ajeitou na cadeira pequena.

—Pois fazer o quê? Peregrinar é que não.

—Levar uma carta, a princípio. - Se a droga da carta não tivesse se escafedido para a floresta.

—A princípio? - Marisa levou a mão ao queixo. - Carta? Vão ter que me explicar essa história.

Trevor suspirou, olhando para Sypha:

—Faça as honras.

Com a mesma cara, ela contou da maldição em Ploiesti em detalhe e do triste destino de Leo Alexe, cuja tentativa de suicídio disfarçada de acidente tinha sido registrada em papel e estava com Alucard, sabe-se lá onde.

—Pois não tinham me contado nada disso. - O velho reclamou.

—Poderia fazer você sair correndo. - Trevor sorriu da própria piada.

—Correndo, com estas pernas? - O velho riu e tossiu.

Marisa deu um passo à frente para medir a febre de todos.

—É bom que tomem disso aqui também. - Apontou o chá para dormir. - Vai ajudar a descansar em paz. Talvez também passe a febre.

Ela buscou mais uma caneca para entregar aos dois restantes. Ao que se aproximou para entregá-la, Sypha começou a tossir e a ter falta de ar. Marisa disparou a abrir as janelas e ficou ao lado dela, segurando-lhe o ombro, de uma forma que quase parecia afável.

—Ela tem algo nos pulmões? - Perguntou a Trevor.

—Não. - Trevor apertou as unhas contra as palmas. - Nunca teve.

Sypha arquejou mais um pouco, até logo conseguir respirar de novo, com uma mão no peito e a outra enxugando lágrimas do rosto. Marisa tornou a fechar a casa contra o chuvisco que começara a cair e tornou a oferecer-lhes o chá.

—Que mais aprontaram de estranho? - A curandeira pôs as mãos na cintura.

Por onde quer que comecemos? Os dois olharam um para o outro, depois para o velho na mesa, que pegara no sono sem aviso e tossia de leve. Marisa se agachou em frente para ouvi-los contar sobre o confronto com o lobo, o encontro com Pavel e a sessão na cripta. A mulher ouviu tudo, reagindo com caras e bocas e com atenção sem igual.

—É o que fazem da vida? - Ela apontou para os dois. - Meter-se em problemas?

—Não. - Responderam em uníssono. - Sim.

—Invejável. - Marisa se ergueu e foi mexer uma panela. Apontou Sypha com a colher. - Especialmente você. As más línguas diziam que corria sangue de Orador em minhas veias. Mas sequer consigo levitar um copo. Tudo o que tenho são plantas e fogo. Agora, eu não acho que estejam com a praga.

—Hã, não? - Trevor ergueu uma sobrancelha.

—Não parece. Ninguém até agora teve tal falta de ar. E, também, a infecção é muito mais rápida. Vocês não estão com cara de cadáver. - Marisa virou de costas, dando de ombros. - Podem ser muitas coisas. Algo que vivia na cripta. O contato com o morto. O lobo mordeu vocês?

—Não. Não a nós dois. - Mas Alucard, sim. Onde estaria, àquela altura?

—Bom, uma possibilidade a menos. - Marisa começou a lavar os cogumelos numa bacia. - Disseram que o morto já era um esqueleto. Acho pouco provável que seja culpa dele Resta como mais provável a cripta. Todo tipo de porcaria vive nesses lugares.

Trevor tossiu, sentindo a garganta se arranhar. Será mesmo que é outra coisa? A cabeça também fisgou de dor, e pressionou a testa até que passasse. Talvez eu não seja um homem morto.

—Havia mais um de vocês, foi o que disseram? - Marisa perguntou.

—Dissemos. - Sypha confirmou.

—E ele não deu nem sinal de adoecer?

—Nem mesmo uma singela tosse. - Trevor deu um gole no chá, com um gosto tremendamente melhor do que o primeiro.

—Hmm. E ele é… - Marisa se aproximou para cochichar. - Apenas meio humano?

Sypha fez que sim com a cabeça, por trás da caneca.

—De que tipo? - Indagou Marisa.

Do tipo que dá trabalho, e que está merecendo ficar de castigo. Respondeu-a:

—Do tipo que toma sangue e não é chegado a crucifixos.

—O tipo que vocês Belmonts caçam. - Marisa o indicou com o dedo.

—Exato. - Trevor fez que sim.

—E por que sequer trabalham juntos? - Marisa se afastou e voltou à panela.

—É uma longa história, senhora. - Trevor controlava-se para não chamá-la de "madame".

Marisa abriu uma fresta da janela para olhar para fora.

—Ainda não é tarde. - Fechou-a. - Contem sua longa história e permito que fiquem pela noite.

Sypha e Trevor se entreolharam, e ela deixou seu recente silêncio para recitar as memórias. Começou da própria jornada e também da deles em conjunto, desde a parada em Gresit até o resgate, o encontro com o Soldado Adormecido da profecia, a viagem, a ida à Fortaleza, a conquista do castelo e o combate final. Você fica tão linda quando fala. Apertou-lhe mais forte a mão nas partes difíceis, e completou um detalhe ou outro sem que discutissem quem estava certo. E, agora, só Deus sabe onde está o digníssimo companheiro que fomos buscar mais de uma vez. Sypha terminou o relato como quem descia e pousava de um voo, e Marisa bateu leves palmas depois de seu perfeito silêncio sob o som da chuva.

—Gosto de acreditar que estou entre heróis. - Marisa deu um breve sorriso, com olhar de admiração.

—Não é mentira. - Trevor olhou para o outro lado, coçando a cabeça. - Nenhuma parte.

—Nem a história do graveto? - Marisa riu. - Por favor.

—Eu juro, senhora. - Ele também riu.

Marisa se levantou da banqueta e começou a servir-lhes a comida, um misto de raízes da horta com cogumelos.

—E pensar que eu queria furá-los sem ouvir isso tudo. - Ela entregou a tigela a Trevor.

—Não pretende continuar com o plano, não é? - Ele jogou um pedaço do cozido para dentro da boca.

—Carregar um corpo tem que valer a pena. - Marisa deu uma risada sombria para dentro. Sentou-se com a comida. - Mas o rapaz fugitivo. Por que se foi?

—Precisamos responder? - Sypha revirou os olhos.

—Seria bom. - Marisa ergueu a sobrancelha, de boca cheia.

—Porque eu nos condenei - Trevor suspirou. - Salvando o velho da rua por um impulso.

—Não seja tolo. - A curandeira pôs uma mão na cintura. - O povo traz seus doentes aqui todos os dias. Não acha que eu seria a primeira na cova se fosse contagioso?

Como não pensei nisso antes? Trevor sentiu uma chama de esperança no peito, apesar da sonolência do chá que o tonteava.

—E também. - Marisa se ergueu da banqueta e se aproximou do velho, que dormia respirando com fraqueza. - Sei do que estou falando. Ninguém teve falta de ar como a moça aí. A tosse de vocês é muito fraca e inconstante. Só pode ser outra coisa.


—Tem certeza?

Não.

—Tenho. - Sypha se inclinou para beijá-lo. - Fique e ajude-a.

Puxou o capuz sobre a própria cabeça para aparar o chuvisco, à porta aberta da cabana. Trevor a olhava com expressão preocupada por trás de um semblante severo. Ele respirou fundo e soltou um longo suspiro, olhando para baixo.

—Eu vou. - Ele insistiu, segurando-a pelo ombro. - Fique você.

—Por terra é mais demorado.

—Sei rastrear.

—Sei voar. - Sypha sorriu com gentileza. - E, por acaso, acha que ele vai querer ver você?

—Ele não vai querer ver ninguém. Não é sua charmosa presença que vai fazer com que ele mude de ideia.

—Não se trata de mim. - Sypha franziu o cenho, tossindo de leve. - São os fatos.

—Deixe para lá. Ele vai nos encontrar em alguma hora, nem que seja para dar uma de sabe-tudo outra vez.

—Antes cedo do que tarde, Trevor. Antes que ele vá longe demais.

—Tenho sérias dúvidas se deveríamos mesmo perder nosso tempo.

Eu também.

—Vamos dar uma última chance. - Ela sugeriu.

—E ele vai ter que se provar, ou está fora, e pode ir cochilar no caixão.

—Feito.

Beijou-o de novo, e foi puxada para um abraço caloroso, que durou como se o mundo parasse ao redor. Soltou-o sem vontade, deu um passo de ré, virou-se de costas e levantou voo por cima da trilha, sem olhar para trás.

O vento do alto era cortante, e a alta velocidade era de congelar os ossos. Flutuou por cima dos arredores do que deveria ser o território de Marisa e da acidentada trilha pela qual tinham vindo, não encontrando mais do que árvores e a estrada vazia. Mais perto da cidade, uma senhora encurvada puxava um cavalo debaixo da mesma chuva.

Se eu fosse ele, onde estaria? Encaminhou-se para norte com uma curva, para onde tinham vindo mais cedo. Não deve estar em nenhuma taverna. Nem no mercado, se houver feira hoje com esse tempo. Sobrevoando as fazendas desertas, de terra revolvida e marcada por sulcos, Sypha suspirou, o vendaval trazendo-lhe mais água ao rosto. Deve estar na floresta… Ou em outro lugar do tipo. Desceu, perdendo altitude sem pousar, e deu um rasante sobre o telhado de um casebre, voando então a poucos metros da terra. E se… Aumentou a velocidade. Não custa tentar.


Marisa tirou o lençol da estante de livros para remexer nela, tirou alguns volumes e os colocou sobre uma segunda mesa, a de cozinhar ocupada pelo velho adormecido. Trevor pensou em perguntar o que estava fazendo; ela, no entanto, foi mais rápida:

—Sei que ministrei chá para dormir. - Despejou uma pilha de livros. - Mas vou precisar que desperte.

—Falar é fácil. - Trevor suspirou, pondo a mão na testa contra uma breve tontura. - O que tenho que fazer?

—Oh, um bocado. Pode começar atiçando a lenha do fogão.

Entre uma profusão de "pegue isso", "busque aquilo", "não esse, o que está do lado" e "tire o pó dos livros", Marisa também trabalhou para deixar a casa caótica mais em ordem todo o tempo.

—Todo dia, vêm ao menos dois pacientes. - Ela desceu da banqueta depois de pendurar um talher de cozinhar em um prego na parede. - Sinto-me vivendo num baú velho.

—Achei que fosse o estado natural das coisas. - Trevor olhou em volta e mal reconheceu a casa.

Marisa o encarou de sobrancelha erguida.

—Espero que esteja brincando, rapaz. - Ela buscou a cadeira onde antes estava Sypha e se sentou ao redor da segunda mesa, bem menor do que a primeira. - Agora, acomode-se aqui, traga a vela e me ajude a descobrir o que vocês dois têm.

Gotas mais pesadas começaram a castigar o telhado do chalé. Trevor pegou um livro da mesa e o abriu numa parte qualquer. Para variar, agora, nossa melhor pessoa com livros também não está aqui. Olhou por cima das pilhas e viu Marisa escrever em um volume com uma pena velha e maltratada. Voltou às páginas para não pensar em Sypha na chuva. A caligrafia de Marisa o surpreendeu por ser cuidadosa e bastante legível. "Paciente: homem, 18 anos de idade, ajudante de ferreiro. Problema ou sintomas: pé esmagado por uma bigorna quente em uma ferraria. Dedos quebrados, perda de sangue, incapacidade de andar…" Trevor sentiu uma reviravolta no estômago. Pulou a parte do tratamento para o fim do texto; havia uma grande letra X grafada no canto inferior. Avançou mais algumas páginas sem lê-las e cerca de um quarto delas tinha a mesma marcação.

—O que é isto aqui? - Chamou-a para mostrar a tal marca, apontando-a. - Já me deparei com algumas.

Marisa tirou brevemente os olhos do que escrevia e respondeu sem pestanejar:

—Morreram.

—Oh. - Eu deveria imaginar. - E onde estão os livros com relatos da praga?

—Esse que você tem em mãos deve ser de uns dois anos atrás. Eles têm datas na primeira página. - Ela o entregou um livro do mesmo tamanho com melhor aspecto. - Confira este aqui.

—O que encontrou até agora?

—Nada muito conclusivo. - Marisa ergueu a sobrancelha sem erguer o olhar da pena. - Os sintomas se parecem com uma gripe, em parte, ou com algo que aflige os pulmões.

Trevor checou o ano no início e partiu para as páginas mais recentes, até achar o primeiro X do mês de outubro. "Paciente: homem, 28 anos de idade, guarda da cidade. Problemas ou sintomas: tosse intensa, perda de peso, fraqueza, febre. Tratamento: xarope de mel e alcaçuz três vezes ao dia, chá de urtiga três vezes ao dia, dentes de alho cru uma vez ao dia, chá de camomila e valeriana para o sono uma vez ao pôr do sol. Resultados: piora rápida, enfraquecimento." Passou para a página seguinte. "Paciente: homem, 26 anos de idade, guarda da cidade", onde o resto do texto se seguiu idêntico. Na terceira página, também o relato de um homem de idade semelhante e da mesma profissão. Chamou Marisa, que devolveu com cara de quem não queria ser interrompida.

—Por que morreram da praga três guardas da cidade? - Trevor perguntou.

—Minha primeira impressão foi de que eles tinham contagiado um ao outro. - Ela repousou a pena na mesa. - Até que as famílias deles não adoeceram, e eu também não.

Então, é outra coisa. Trevor pôs a mão no queixo, sentindo o braço repuxar de dor. Piscou devagar uma vez; a sonolência do chá começava a afetá-lo. Adoro trabalhar sob pressão.

—Que mal pergunte. - Marisa disse. - Não lidaram com mais ninguém doente nos últimos tempos? Além do que está ali dormindo. Qualquer um. Qualquer doença.

—Nenhum, senhora. - Trevor coçou o olho.

—Não esconda nada de mim.

—Minha roupa de baixo está furada. - Ele bocejou.

—Esconda algumas coisas.

Trevor recostou o cotovelo na mesa e apoiou o rosto na mão.

—Bom, achamos uma pena de corvo gigante. - Ele deu de ombros.

—As fezes de pássaros transmitem algumas doenças. Mas uma pena? - Marisa coçou o queixo. - Espere, gigante?

—E que come pessoas.

—Que adorável. - Ela riu com amargura.

—Mas choveu naquele dia. Se havia qualquer coisa na pena, foi bem lavada.

—Sabe, duvido um pouco que estejam com uma gripe qualquer. - Marisa se levantou para fechar melhor a janela. - Não estão espirrando. Digo, você até que poderia ter coisa do tipo. Mas a moça Oradora está com aquela falta de ar…

—Acha que eu e ela temos a mesma coisa?

—Se andaram juntos o tempo todo, é difícil que tenham doenças diferentes. - Ela voltou a se sentar. - Pode me garantir que isso aconteceu?

—Raramente nos separamos.

—Então, são esse tipo de casal. - Marisa fez cara de desgosto.

Trevor olhou para baixo, como se o tampo da mesa pudesse lhe dar respostas. Começou a bater os dedos nele. Acho que estou deixando algo passar. Mas o quê? Fechou os olhos, tentando espantar o sono sem sucesso. Um cochilo não vai me fazer mal. Deitou-se sobre os livros, fazendo os braços de travesseiro. Ouviu Marisa protestar, sem forças para retrucá-la.

Dormiu um sono leve e desconfortável, com os sentidos despertos. Ainda escutava a chuva e a lenha estalando no fogão, o ronco baixo do velho, o virar de páginas. O sonho, no entanto, era como uma barreira que se esticava quando tentava rompê-la; imagens da floresta e do lobo, do acampamento destruído em chamas, gritos que não chegara a ouvir, o sino do monastério, as vozes dos monges em um coro que não chegou a escutar, Alucard deitado na cama, suando durante o sono, Alucard na cripta de mãos dadas aos dois, Alucard com aquela expressão que não era dele, sob a luz das velas e da pira de palha no meio do círculo…

Trevor abriu os olhos com a imagem da pedra vermelha incandescente impressa na retina. Piscou algumas vezes e não conseguiu se livrar dela. Passou a mão na frente do rosto, como para espantar um inseto, sentindo-se estranhamente desperto.

—A Pedra - Ele disse de supetão.

—Pedra? - Marisa perguntou, de sobrancelha erguida.

Trevor olhou para o velho, só para ter certeza de que dormia o mais profundo sono. Olhou para os lados sem utilidade alguma e fez gesto para que Marisa se aproximasse. Ela puxou a cadeira mais para perto, saindo do lado oposto da mesa.

—Peço que mantenha sigilo, por favor. - Trevor pediu.

—Não seja por isso. - Marisa deu seu sorriso sarcástico.

—Há um tipo de pedra capaz de tornar um humano imortal. - Não é só isso, mas que seja. - Chama-se Pedra Escarlate. Uma versão fraca dela pode fazer absurdos menores.

—Absurdos de que tipo estamos falando?

—Como transformar uma pessoa em lobo. Nosso desaparecido da vez é imune a esse tipo de coisa. Ele carregou a tal pedra, e, bem, nada aconteceu com ele. - Nada grave, pelo menos. - Mas conosco…

—Seu amigo deve ser imune por ter uma origem tão peculiar. - Ela pôs a mão no queixo.

Amigo? Trevor deu uma risada amarga.

—Deve ser isso. - Ele deu de ombros.

—E por que está falando disso agora?

—Porque houve um dia em que eu e a Oradora tivemos contato com a tal Pedra por um momento. Na noite da cripta.

—Aquela em que a moça pôs fogo no cristal, que se tornou pó?

—Exato.

Trevor sentiu a garganta coçar com força e teve um acesso de tosse. Sentiu gosto de sangue no fundo da língua. Merda. Sem se abalar, Marisa deu-lhe outra caneca do chá horroroso já frio, que tomou de um único gole; não queria reconhecer o gosto. Ainda tossiu mais um pouco, engasgado de leve com o líquido.

—O que fazer então? - Ela perguntou. - O problema parece fora do meu alcance.

—Eu pago para que tente.

—Sabe que nada garante, não é, Belmont?

Sei. Ele suspirou, sentindo a sonolência voltar. Marisa deu-lhe um tapinha no ombro.

—Descanse. - Ela sugeriu. - Vou aprontar-lhe uma cama, e peço que a moça o acorde com um beijo de amor verdadeiro.

Não teve forças para rir. Ela andou de um lado para outro até encontrar e estender uma coberta no chão, com outra dobrada servindo de travesseiro. Trevor se deitou e ouviu pouco dos arredores até pegar no sono.


Sypha chegou à primeira vila desocupada descobrindo nela uma pesada chuva que atrapalhava o voo. Voltou o capuz sobre a cabeça, já encharcado e quase inútil. Caminhando por entre as casas do centro, demorou a reconhecer qual era a correta, tendo as visto antes cobertas de neblina. Esta aqui. Empurrou a porta, e o cheiro das pétalas velhas lembrou-a de que estava certa. Acendeu fogo, e só com o tremular da chama é que notou o quanto o próprio corpo tremia.

Deixava um rastro de água por onde passava, no chão e nas escadas de madeira que subiu. Nos degraus, havia um ramalhete esquecido, de alguma flor branca já com as pétalas murchas. Ao que ergueu a cabeça para a porta dos quartos, a claridade a mostrou Alucard, esperando-a de espada na mão e semblante surpreso.

Ele voltou a embainhar a arma e desatou-lhe o cordão que prendia a capa no pescoço, deixando que caísse no chão. Tirou o paletó e o jogou por cima de seus ombros, segurando-os com ambas as mãos. Puxou-a para um abraço silencioso. Ele está quente. Sypha sorriu ao passar os braços ao redor dele. Não acredito. Mais quente do que eu estou.

—Por que veio? - Alucard sussurrou.

—Porque não vamos morrer. - Afastou-se para encará-lo.

—Não minta para mim.

—Há uma mulher numa cabana ao sul. - Sypha disse. - Marisa é o nome dela. Trata os doentes.

—E quantos ela já salvou?

—Nenhum.

—Então o que está dizendo? - Ele a apertou nos ombros, balançando-a de leve.

—Ela está viva, Alucard. Tem tratado deles todos os dias, até que morram. E está viva.

A expressão dele se suavizou e se tornou indecifrável no escuro da casa vazia. Deram as mãos e Alucard a puxou para o quarto onde tinham encontrado a bolsa de moedas. Do mesmo baú, ele tirou mais de um cobertor, trapos velhos para que se enrolassem. Fechando a janela e a porta, sentaram-se ao colchão e Sypha acendeu fogo nas mãos. Nunca estive tão grata por um poder. Tentou respirar fundo e sentiu a inspiração superficial. Ah, não. Apagou a chama e começou a sufocar no escuro, puxando o ar sem que os pulmões a obedecessem, com uma das mãos sobre a garganta e os olhos arregalados. Quando tossiu e voltou a respirar, notou que Alucard ainda segurava-lhe a mão, afagando-a com o polegar.

—Melhor? - Ele perguntou.

—Melhor. - Sypha limpou o canto dos olhos.

—Ainda bem. - Alucard suspirou. - Estranha essa história. Se não adoeceram por conta do velho, então, o que é?

—Marisa acha que temos outra coisa. Trevor ficou com ela, tentando descobrir o que pode ser.

—Por que ele não veio? - Ele ergueu a sobrancelha. - Aposto que está em condições muito melhores do que você.

—Eu me ofereci para vir. Ele não seria tão rápido.

—Mas você mal para de pé. - Ele apertou mais forte a mão. - Deveria ter ficado.

—Não está feliz em me ver?

Encararam-se até Alucard baixar a cabeça e repreendê-la:

—Não quero mais que faça esse tipo de coisa.

—Não teria que fazer se você não tivesse ido embora. - Sypha rebateu. - Você voltaria? Voltaria, se eu não viesse atrás?

—Não é motivo para isso.

—Isso o quê, Alucard?

—Esse… - Ele parou para procurar as palavras. - Colocar os outros antes de si dessa forma.

—Não é essa a questão.

—É essa, sim. - Alucard ergueu de leve o tom de voz.

—Não, não é. - Ela se sobressaltou mais, com tosse. - Se fizer outra dessas de novo, não vamos procurar você.

—Está me ameaçando?

—Estou sendo prática. Eu não quero trabalhar com alguém que nem sei se vai estar do meu lado quando eu precisar.

—Mas você tem Trevor.

Não é como se não precisasse de você também.

—E quero ter você da mesma forma. - Ela murmurou.

Calaram-se, encarando um ao outro até que digerissem a frase. Com a mão que restava, Alucard tocou-lhe o rosto, que voltou a ter cor e calor. Pegou-lhe o queixo e o lábio com o polegar. Sypha sentiu-se congelando.

—Ainda me impressiono com o quanto você é boa com as palavras.

Qualquer coisa que pudesse dizer morreu na garganta quando se abraçaram mais forte do que antes, com as testas encostadas. Antes que façamos alguma bobagem.

—Desculpe. - Ele sussurrou.

—Não vá embora.

—Não vou.

De olhos fechados, Sypha ouvia o som do temporal, que caía e caía sem ver hora de parar. Aos poucos, já não era mais dia, e logo estavam no escuro, sem fogo aceso, com a chuva menos ruidosa no telhado. Não mais imóveis, soltaram-se do abraço ainda com as mãos um no outro. Alucard foi o primeiro a olhar para um som do lado de fora que os chamou a atenção. Ele se levantou e fez sinal para que ela ficasse; foi até a janela e a abriu, olhando para fora. Chamou por Sypha com um gesto de mão e um sussurro:

—Luz, por favor.

Sypha se aproximou com chamas acesas e as atirou ao céu. Há algo ali.

—O que é aquilo? - Ela perguntou.

Arremessou um fluxo de fogo contínuo, e foi quando viu a criatura com mais clareza.

—Uma mariposa! - Sypha grasnou de susto, recolhendo as mãos e interrompendo o fogo. - É do tamanho deste quarto.

Alucard bateu a janela para fechá-la, e ela deu outro salto.

—Por que isso? - Sypha cruzou os braços.

—É venenosa. Não se deve respirar o pó que ela solta das asas. Causa uma intoxicação-

—É isso! - Ela exclamou. - É o que está adoecendo as pessoas.

Alucard abriu a boca para dizer algo e desistiu, olhando para o chão. Sentindo-se culpado, é? Sypha sorriu de lado. Onde já vi isso antes? Balançou a cabeça em negação e o segurou no braço.

—O que vamos fazer agora? - Perguntou ela.

—Vamos esperar que voe para outro canto. - Levantou o rosto para olhá-la. - Depois, pode me levar à mulher que encontraram.


O vento assobiava-lhe nas orelhas. Apertou Sypha mais forte no colo, com as mãos escorregadias das gotas de chuva. Depois de deixarem as duas vilas ocupadas para trás, dando a volta nelas para evitá-las, entraram em uma trilha ruim e íngreme. Se a estrada já estava deserta… Alucard saltou e flutuou, disparando mais rápido para não ter que andar por terra. O temporal os castigava a ponto de doer a pele, e o escuro da noite demandava atenção. Voando alto o suficiente apenas para evitar as árvores, Alucard sacudiu o rosto para tirar mechas do cabelo encharcado da frente dos olhos.

—Tem certeza de que é por aqui? - Perguntou a ela por cima do som de um trovão.

—Tenho.

Acelerou e manteve a alta velocidade até ouvi-la começar a tossir. Freou o próprio voo e pousou à beira da trilha, ao lado de uma árvore que parecia frondosa o bastante para protegê-los um pouco. Colocou Sypha no chão, segurando-a pelos ombros. Ela fazia um som desesperador, tentando inspirar o ar de boca aberta e olhos arregalados. Apertou-a mais forte e se sentiu tremendo, sem forças. Olhou com brevidade para o outro lado atrás de um abrigo melhor, até que ela parou de arquejar.

—Vamos. - Puxou-a para ajudar que se erguesse, e ela cedeu como uma boneca de pano na terra.

Alucard acendeu uma faísca no ar e notou a face dela de cor mudada, arroxeando-se. Não, não, não. Pegou-a de novo e disparou em velocidade máxima até o fim da trilha, sem olhar para mais nada além do final dela. Pousou às portas de um casebre. Deve ser aqui. Socou a porta duas vezes. Atenda. Não teve resposta e a empurrou, quebrando a tranca. A água invadiu a sala e viu do lado de dentro uma mulher de meia-idade, iluminada por uma vela, com uma faca em riste.

—O que fez com a Oradora? - Ela perguntou.

—Cuide dela.

A mulher deixou a faca de lado e tirou Sypha de seus braços com dificuldade. Sypha começou a tossir como nunca antes, agarrando-se à roupa da outra. Ao fim da tosse, um pó avermelhado saiu-lhe da boca e se dissipou no ar. A mulher afastou o rosto com um sorriso astuto.

—Escarlate, é? - Ela olhou para o chão, onde Alucard viu um vulto adormecido. Trevor? - Pois parece bem escarlate.

A mulher desconhecida o devolveu Sypha, que já respirava de novo. Esparramou cobertores no chão e pediu que a colocasse ali. Deitou-a com cuidado.

—Você é o desaparecido, rapaz?

Alucard levou um segundo para notar que ela falava com ele. Abriu a boca para dizer que não, e terminou por ficar calado.

—Sorte que chegou a tempo. - A mulher pôs as costas da mão no pescoço de Sypha. - Você poderia ter trazido um cadáver se demorasse mais. Agora, vou tirar dela essas roupas ensopadas. Olhe para lá.

Alucard virou-se de costas, sentado ao chão. Olhou para um canto qualquer do espaço, ouvindo a movimentação da mulher para lá e para cá da casa. Ela murmurou algo para Sypha e pareceu se satisfazer com a resposta. Ele pôs a mão no chão e sentiu a mão fria de Sypha procurando a dele. Segurou-a de volta. Durma. Ele conteve uma lágrima. Porque eu não dormirei.