Trevor piscou algumas vezes com os olhos embaçados e tentou mover a cabeça. Deus do céu, o quanto pesa minha testa? Não se lembrava de ter sonhado. Espiou a janela entreaberta da sala, por onde entravam feixes de luz. Que horas devem ser? Começou a girar o corpo para se acomodar melhor no chão e só então notou algo atrás de si, apoiado em suas costas. Completou o giro e abraçou tal algo com um sorriso de alívio. A garganta coçou de leve, e aplacou o ímpeto de tossir para não acordá-la.

Sypha tinha a respiração ruidosa e interrompida em seus braços. Ele respirou fundo, sentindo cheiro de sabão nos cabelos dela, e beijou-lhe o topo da cabeça. Graças a qualquer coisa, você voltou. A casa da Madame estava em silêncio e não havia sinal da própria na sala. Ficou com Sypha como se fossem os últimos do mundo até que o sono passasse e o ombro contra o piso começasse a doer. Espere, se ela está aqui, então… Apoiou-se no braço para se erguer e compreender o mundo ao redor, batendo a cabeça na parte de baixo da mesa. Deixou escapar um xingamento por entre os dentes.

—Mais cuidado, filho. - A voz do velho veio de cima da mesa. - Estou dolorido até os ossos.

—Tudo bem aí? - Trevor perguntou com um suspiro.

—Tanto quanto posso estar. - O velho tossiu. - E aí embaixo?

—Idem, senhor.

Trevor, ainda apoiado no cotovelo e no antebraço, olhou para Sypha. Ela se aninhava em posição fetal com um cobertor velho que lhe tapava até o nariz. Ele tirou-lhe a franja do rosto com a ponta dos dedos.

—A mulher mandou avisar que estaria na horta. - O velho disse. - Caso precisasse de algo, claro.

Trevor se ergueu de vez e seguiu a passos leves até a porta entreaberta.

Do lado de fora, a claridade fez com que espremesse os olhos e se protegesse da luz com a mão, assim como dos pingos da garoa. Deu a volta no chalé e viu Marisa rolando com o pé um grande repolho para fora do canteiro. Ela o ouviu se aproximar e perguntou:

—Como está?

—Dolorido. - Trevor deu de ombros debaixo da capa de pele, encolhendo-se contra a brisa fria. - E apreciaria um pouco de sol no dia de hoje.

—Todos nós adoraríamos essa graça. - Marisa limpou as mãos sujas de terra no avental. - Venha aqui.

Trevor deu um passo à frente e ela o tocou no pescoço, fazendo uma careta com o resultado.

—Está com febre. - Marisa apontou para a casa. - Entre.

—Posso ajudar com a horta?

—Mandei entrar. - Ela se agachou para pegar cenouras da terra. - Se quer alguma coisa, seja breve.

—Quero saber o que houve ontem.

Marisa jogou as hortaliças uma por uma num cesto, exceto o feixe de cenouras, que foi para lá como um ramalhete, amarrado por uma tira de tecido. Ela recolheu o cesto do chão sem dificuldade e começou a gesticular com a mão livre:

—Estava uma chuva dos infernos. Ouvi alguém bater à porta. Quando sequer pensei em abrir… - A mulher fez uma onomatopeia de pancada, acompanhada de um movimento de braço. - Chegaram. A tranca está em frangalhos. Não viu?

—Chegaram? - Trevor arqueou a sobrancelha.

—Sim, um rapaz enorme, branco como uma vela, e a moça quase sem vida. Ela não respirava.

Certo, há alguém com quem preciso brigar.

—Então, ele a trouxe. - Trevor pôs a mão na cintura.

—Tal como parece.

—E aonde ele foi?

—À vila, foi tudo o que ele disse. - Marisa o empurrou na direção do chalé. - Agora, entre.

Trevor tossiu. Rápido, preciso de um plano.

—Na verdade, não estou me sentindo muito bem. - Ele ergueu um dedo.

—É por isso que estou mandando entrar, mentecapto.

—Não, sabe… Pode me arranjar um par de folhas que não deem urticária? - Trevor tentou sorrir da própria piada. - É uma emergência que só eu posso resolver.

—Posso. - Marisa deixou o cesto no chão. - Segure-se aí. Não vá emporcalhar minha horta.

Ela seguiu em direção às árvores atrás de algum arbusto amigável. Quando a mulher sumiu de vista, Trevor deu as costas e partiu pela trilha acidentada.


—Cavalos, senhor?

A mulher de face redonda e voz suave atendeu à porta menos de cinco segundos depois que Alucard deu três batidas na madeira. Agora, o discurso.

—Não, senhora. - Sorriu para ela com gentileza. - Vim em nome do senhor que deixou aqui ontem uma carruagem de quatro cavalos. Um homem de cabelos escuros e mal cortados, com uma cicatriz no rosto e meio palmo menor do que eu. Acompanhado de uma moça ruiva de olhos azuis, com um capuz na cabeça e, provavelmente, um livro na mão.

—O que mandaram buscar?

—Algumas coisas da bagagem.

—Não me lembro de ver o senhor ontem. - A mulher ergueu a sobrancelha.

Ela não está exatamente acreditando.

—Faça o que digo, então: conto-lhe o que me pediram e a senhora procura para mim. - Alucard arriscou. - Sei de cada fiapo de feno que há na carruagem.

Ele buscou um punhado de moedas nos bolsos e contou-as por alto quando abriu a mão.

—Isto adiantaria uma estadia dos nossos cavalos? - Perguntou com a maior simpatia da qual foi capaz. - Talvez eles demorem a voltar. A estrada até a Madame é ruim.

A mulher recebeu as moedas nas mãos e as contou com precisão, com cara de agrado.

—É o valor de dois dias, senhor.

—Fique com o resto, por favor. - Ele fez um gesto com a mão para que ela as guardasse.

A dona do estábulo o chamou, passando por várias baias vazias e cheias, assim como pilhas de feno. Em algumas delas, reconheceu os animais cedidos pelo pai de Katrina em Ploiesti, agradando uma das éguas no pescoço enquanto a mulher destrancava a porta que levava ao fundo, onde a carruagem se encontrava. Ela subiu no vagão e Alucard a instruiu a pegar o livro de Sypha, o diário, a bolsa com comida desidratada e um dos cantis.

—Senhora, se me permite a intromissão. - Ele chamou, e ela parou de angariar objetos para encará-lo. - Por que carrega esse ramo na orelha?

—Ah, isto. - Ela o ajeitou melhor entre o cabelo. - A Madame diz que espanta a praga. Em tempos como estes…

—Qualquer ajuda é bem-vinda, compreendo.

Será alecrim? Recordou a enorme mariposa sobrevoando a vila vazia. A mulher voltou a remexer na bagagem. Já li que insetos não são afeitos a certos odores. Mas um ramo, para uma monstruosidade daquelas? Pôs a mão no queixo. É a planta no canteiro da Madame. Vi quando passei pela manhã. Um ramo, não. Agora, talvez um monte…

—Perdão se não tenho muito a contar, senhor. - A mulher o entregou a última sacola pedida. - Não muito se passa por aqui além da praga.

—E eu imagino que não seja o melhor dos assuntos.

—Morreram às dezenas nas cidades ao norte. - Ela suspirou. - Não tinham nem mais onde enterrar.

Como me livrar de um inseto gigante que não sei onde está? Pôs a sacola de mantimentos no ombro. É um animal, e alguém há de caçar animais por aqui.

—Sei que parece meio sem propósito, mas há tempos estou atrás de carne fresca de caça. - Alucard pôs uma mão no bolso do paletó. - Sabe onde posso encontrar?

—É uma pena, senhor. - A mulher balançou a cabeça em negação. - Há um bom arqueiro, mas está esperando a morte.

—É de idade?

—Está com a praga.

Alucard quis xingar. A mulher olhou para os lados antes de prosseguir:

—Posso lhe dizer onde ele mora. Mas ouça. Ele é irmão da Madame. Não fale de um para outro, nem se perguntarem.

Saiu do estábulo seguindo as instruções da dona e deixou a vila para adentrar outra trilha enlameada, mas mais curta e plana do que a da direção oposta. Ao final dela, havia uma antiga casa de pedra, grande o bastante para uma família e com trepadeiras pelas paredes. Bateu à porta. Achou que nunca teria resposta quando uma forte tosse pôde ser ouvida transitando de um cômodo a outro. Abriu para atendê-lo um homem de meia-idade com as mesmas olheiras fundas de Marisa, a postura cansada, o rosto magro e o pescoço fino saindo de uma blusa de lã.

—Bom dia, senhor. - O homem tinha a voz rouca. - O que deseja?

Suas melhoras, em primeiro lugar.

—Estou procurando um homem que saiba rastrear e atirar com arco. - Alucard sorriu de leve.

—Deveria ter vindo uma semana atrás. - Ele abriu passagem e indicou a sala de casa com a mão aberta. - Entre, não fique nessa garoa.

Ao que Alucard pôs o pé para dentro, um grande vulto felpudo e escuro na frente da lareira lhe chamou a atenção. O cão espetou as orelhas pontudas e se levantou para cheirar o visitante; o dono, chamando-o de Maximus, ordenou que ficasse e o animal obedeceu, de olhos fixos no recém-chegado. Seguiu o caçador e seu rastro de tosse até um fogão com as brasas se apagando.

—Só posso lhe servir chá velho, se aceitar. - O homem buscou uma caneca e a exibiu.

—É bem-vindo.

Alucard deu mais uma olhadela para o cão. Quem sabe nos divertíssemos correndo atrás um do outro num dia mais amigável. O outro, tossindo, o chamou por "senhor" e gesticulou para que se aproximasse do fogão.

—Peço que sirva o chá, o quanto quiser. - Entregou a caneca a Alucard. - Vou derrubá-lo se insistir nisso.

O homem também lhe deu uma colher em concha de madeira e saiu da frente da panela. Alucard encheu a própria caneca e também a do anfitrião. Uma bebericada do chá deixou-lhe gosto de grama na boca. Não que eu vá reclamar. O homem também convidou que se sentasse e se apresentou como Andrei.

—Não é das melhores bebidas que lhe sirvo, mas vamos ver se me faz viver mais um dia ou dois. - Andrei tossiu. - Quem o mandou aqui?

—A senhora do estábulo.

—A viúva. - Ele fez cara de concordância e deu um gole no chá. - Boa mulher.

De repente, Andrei deixou a caneca no chão e teve um acesso de tosse que parecia sem fim, com uma mão sobre a boca e a outra no peito. Perto do fogo e da cadeira do dono, o cão se assustou, virando a cabeça para encará-lo. Ao que voltou a respirar, o caçador continuou:

—Perdão. E por que precisaria dos serviços de um… Como disse? Homem que saiba rastrear e atirar com arco.

—Vamos dizer que caço recompensas. - Alucard cruzou os dedos sobre o colo, reclinando-se na cadeira.

—Um dos meus. - Andrei pegou a caneca de volta e a ergueu. - Saúde.

Brindaram, e o caçador teve tempo de dar um gole no chá antes de voltar a tossir. Ele deixou a mão cair para afagar entre as orelhas do cão e perguntou:

—A que devo a visita, então?

—Há uma bela presa rondando a região. - Alucard disse. - Melhor dizendo, duas.

—Duas? - Andrei ergueu a sobrancelha.

—E do tipo que voa.

—Pode ser que estejamos no rastro da mesma coisa - O caçador suspirou e se levantou da cadeira. - Veja só o que Maximus achou.

Andrei se arrastou até um canto com troféus de caça, de onde tirou uma pena idêntica à do telhado do estábulo, várias vilas para trás.

—Pois veja só. - Alucard sacou da bagagem o diário, e, saindo do meio das páginas, tirou a pena, muito maior do que o livro.

O caçador arregalou os olhos e franziu a testa:

—Sabe do que se trata?

—Um corvo gigante. - Alucard afirmou. - Não é um animal comum.

—Corvo gigante. - Andrei repetiu. - É uma das criaturas que o demônio nos trouxe?

Alucard abriu a boca pensando em confirmar a suspeita e decidiu desconversar:

—É uma criatura da noite.

—Hmpf. - Andrei se deixou cair na cadeira, tossindo. - Perdi um cão para um monstro cheio de dentes que estava na floresta. Sem ele, eu não estaria aqui. Era velho e teimoso, mas era meu.

—Meus pêsames. - Alucard suspirou. - Chegou a ver o corvo voar por aqui?

—Agora que perguntou, vi, sim, algo voar sobre minha cabeça. - Andrei cobriu a boca com a mão e tossiu. - Mas era madrugada de lua minguante. Se está me dizendo que era o corvo, acredito.

—Não era. - Alucard recuperou o chá. - Era nossa outra caça. Uma mariposa venenosa, também das grandes.

—Animais enormes por todos os lados. - Andrei deu uma risada amarga.

—Que se pode fazer, não é? - Alucard deu de ombros.

—Caçá-los e comê-los. - Andrei ergueu a caneca. - Pois morrem, como tudo que vive.

—Pois bem. Há pessoas que preciso contatar antes de fecharmos qualquer tipo de negócio. - Alucard ficou de pé e seguiu para a porta. - Seria muito inoportuno se eu voltasse mais tarde?

—Claro que não. Acho que estarei vivo até lá. - Andrei também se levantou e abriu a porta. - Até mais ver, amigo.

Alucard agradeceu e deixou a casa, voltando à vila pela trilha. Depois de subir e descer as suaves elevações que cortavam a floresta, as primeiras casas começaram a aparecer. Não é muito diferente das outras vilas de toda a Valáquia. A diferença, contudo, se chamava movimento: havia trânsito, apesar de pouco, pessoas às portas de casa, uma ou outra compra e venda. No centro, como em todas elas, encontraria um lugar para se refugiar mesmo que da pouca vida urbana.

A taverna era cuidada por um senhor soturno, careca e com um bigode. Pagou a ele a última moeda do fundo do bolso em troca de uma cerveja e se sentou ao lado da janela. Ao se cansar de olhar para a terra batida da rua, pegou o diário e a pena. Também os encarou de forma infrutífera, como se as páginas fossem solo estéril. É mais fácil quando está a ponto de sair, não quando tenho que espremer meu cérebro por algumas palavras.

A porta da taverna se abriu para revelar um recém-chegado. Alucard sentiu o corpo se retesar quando Trevor passou até o balcão sem olhar para os lados. Ele me viu? Ousou olhar por cima do ombro apenas para receber uma encarada em resposta, Trevor recostado ao balcão em frente ao dono do lugar. Era só o que me faltava. Trevor trocou algum murmúrio incompreensível com o senhor careca, respondido no mesmo tom, e sumiu para os fundos do lugar por uma porta lateral. Alucard ergueu uma sobrancelha para a cena, fazendo dela pouco caso. Talvez agora eu consiga algumas linhas. Apontou a pena para o papel.

"Gostaria de falar sobre ontem. Na verdade, gostaria de enterrar o dia de ontem tão fundo quanto todos os mortos da região. Para tanto, preciso falar. Escrever, no caso. Não sei dizer se, depois do que me aconteceu, devo ter mais esperança, ou talvez menos. Só sei que nada sei, já não dizia a célebre frase?

De todos os erros que eu poderia cometer nos dois últimos dias, cometi todos, menos a transgressão que mais me deixou tentado. Sou um idiota; não, um covarde. Seria apenas a última pá de terra jogada sobre minha cova, mas eu a receberia de braços abertos e com um sorriso tolo no rosto."

—Quem diria.

Alucard ergueu a cabeça de supetão, dando um pequeno pulo na cadeira. A voz de Trevor vinha do lado de fora, através da janela aberta. Ele se recostava com um braço no parapeito e a postura desleixada de sempre.

—O que faz aqui? - Alucard perguntou, num tom mais ríspido do que pretendia.

—O que se faz numa taverna? - Trevor pôs a mão no queixo. - Não tenho um tostão furado. Não para gastar com bebida. Fui à cozinha desossar um pernil em troca de uma dessas.

Ele apontou a cerveja de Alucard, que questionou:

—E onde está a caneca?

Trevor levantou o copo vazio na outra mão e virou a última gota na terra. Deu a volta no estabelecimento e entrou pela porta, sentando-se à mesa com um suspiro cansado e um acesso breve de tosse.

—Estou péssimo. - Trevor disse.

E estranhamente amigável.

—Por que veio até aqui? - Alucard perguntou.

—Porque a Madame não me deixaria tomar o vinho dela. E, sinceramente, a casa me sufoca.

Também me pergunto como ela deixou você sair, mas acho que é melhor eu não saber. Alucard deu um gole breve na cerveja e fechou o diário. Como estará Sypha?

—Ela está melhor. - Trevor olhava para fora pela janela.

Não leia meus pensamentos.

—Que bom. - Alucard se limitou a dizer. E acho que não queremos falar muito disso.

—Vai tomar isso? - Trevor apontou para a caneca.

—Não, eu acho.

Trevor pegou a caneca e virou o conteúdo dela na garganta de uma só vez. Com certo impacto, ele a deixou sobre a mesa e olhou para os lados, inspecionando-os com alguma suspeita no olhar.

—Escute. - Trevor começou, num sussurro ameaçador que destoava do quanto antes parecia afável. - Agora mesmo, estou com vontade de chutá-lo com a força do meu corpo inteiro.

—Eu preciso mesmo saber?

—Precisa. Porque Sypha só saiu ontem por sua causa. O lugar dela era numa cama quente com um médico do lado, não debaixo de um temporal porque o senhor decidiu abandonar o barco quando-

—Eu não sabia que o mal não era contagioso. - Alucard interrompeu.

—Pois nem nós. Você viu algum de nós fugindo? Culpando um ao outro? Não, porque não estava sequer lá para ver. Então, se qualquer coisa, a menor coisa que fizer der a mera sugestão de que vai aprontar outra dessas, não vou mover um músculo. Vou deixar que vá para o raio que o parta, vou fazer questão de impedir Sypha de ir atrás, e se suas malcriações a colocarem em risco de novo, eu não-

—Não a coloquei em risco. - Alucard pronunciou cada palavra com cautela enquanto Trevor se calou e apertou as mãos sobre a mesa. - Estava tão preocupado quanto você. Ela estava à beira da morte quando-

—Poupe-me. Não estaria à beira da morte se não tivesse ido atrás de um moleque mimado que não sabe trabalhar em equipe. E é por isso que eu adoraria chutar você.

Trevor começou a tossir até que acabou por espirrar um pouco de saliva com sangue na mão. Ele a limpou na calça, tornando a olhar para Alucard com ameaça.

—Isso não acabou bem da última vez. - Alucard advertiu.

—E não vai acabar bem de novo se continuar a me aporrinhar. Engula que está errado e aceite sua maldita última chance.

Ambos perderam as palavras enquanto Alucard baixou a cabeça, encarando o tampo da mesa. A bronca, entalada na garganta como um espinho, não desceria nem se tomasse mil cervejas. Repreendido como a um garotinho travesso. Que patético.

—Prometi a Sypha que não faria mais isso. - Alucard murmurou.

—Não é só ela que importa.

Alucard suspirou e sussurrou um fraco "desculpe".

—Não espere que eu faça festa. Não passa da sua obrigação. - Trevor ficou de pé. - Vou atrás de mais uma cerveja.

Enquanto aguardava que Trevor se resolvesse com o dono do lugar, pegou de volta o diário e não teve coragem de nele escrever uma linha. Posso ser lido e muito mal interpretado… com razão. Logo, Trevor voltou à mesa e indicou com a cabeça que saíssem. Alucard ficou de pé e o seguiu para fora, perguntando em tom baixo:

—Você tem um plano?

—Depende. - Trevor olhava para a rua pouco movimentada, caminhando com as mãos nos bolsos. - Seja mais específico.

—Porque eu tenho um.

—Agora, seja direto. - Trevor tossiu.

—Nosso problema se trata de uma mariposa.

—Por que uma mariposa seria um problema? - Trevor ergueu uma sobrancelha. - Basta matá-la.

—Sim, basta. - Começou a enumerar nos dedos. - Mas é um pouco mais complicado quando, um: ela é da envergadura de um cavalo; dois, quando não se sabe onde ela está; e três, quando é ela que solta o veneno que vem matando a população.

—Como sabe disso?

—Eu e Sypha a vimos na outra vila.

—Hmm. - Trevor pareceu ponderar. - O velho bem disse que ouviu um bater de asas sobre a cabeça.

—Que podia ser o corvo, cuja pena encontramos lá atrás durante a estrada.

—Ou podia não ser. - Trevor deu de ombros.

—Aonde estamos indo, se posso perguntar?

Alucard parou de caminhar e Trevor o copiou. Olharam ao redor, vendo um bocado de casas pouco rebuscadas, como que empilhadas umas sobre as outras em andares precários. A rua deserta não tinha mais do que um cão que a atravessou.

—Hã, não sei. - Trevor disse.

—Eu sei, então. - Uma sombra de sorriso surgiu no rosto de Alucard. - Queira me seguir.


Sypha despertou com a garganta coçando infernalmente, mas o corpo bem repousado. A tosse forte vinda de cima da mesa ajudou-a a trazê-la de volta à realidade e sair do sonho sem sentido. Apoiou-se no chão para ficar de pé e a mulher da cabana saiu da cadeira onde se sentava para ajudá-la a se erguer.

—Como está? - A curandeira perguntou, num tom mais profissional do que cordial.

—Melhor, eu acho.

A mulher deu uma risada sombria.

—Bom, não parece que está mais morrendo. Tem alguma ideia de aonde podem ter ido seus amigos?

Eles não estão?

—Quando eles saíram? - Sypha perguntou.

—Quando não estava vendo, claro. Um deles, o que quebrou minha porta, está forte como um touro, então nem me importei. O outro fugiu bem por debaixo do meu nariz.

Trevor… Sypha sentiu o coração se apertar. Não tenho moral para dizer uma palavra sobre o que ele fez, no entanto. "Forte como um touro" só pode ser Alucard. Agora… Tossiu de leve antes de perguntar:

—E como vão as coisas? Acho que perdi um bocado do que se passava.

—Não muito empolgantes. - A mulher suspirou ao se virar e puxou uma cadeira para que Sypha se sentasse ao redor da mesa com ela. - Doentes não ficam de pé.

—Obrigada. - Sypha se acomodou na cadeira e olhou por cima do ombro para o velho, que dormia na mesa de peito para cima. - Sei de algo que pode ajudar. Talvez Alucard tenha comentado a respeito do que vimos nas vilas mais ao norte.

—Que tipo de nome é "Alucard"? - A mulher ergueu a sobrancelha.

Sypha riu.

—É tudo parte daquela longa história. Posso contar mais tarde.

—Que seja. O tal Alucard não me contou nada, então conte você.

Com fôlego quase renovado, Sypha relatou à desconhecida o máximo que pôde sobre a mariposa que viu sob a luz apenas das próprias chamas: a cor marrom, as enormes asas e o pó que soltava delas ao batê-las. A mulher ouviu tudo com uma mão no queixo e face de intriga.

—E acha que os dois rapazes podem estar atrás dessa tal coisa? - Ela perguntou.

—Acho bem provável. - Sypha deu de ombros. - Não se segura Trevor nem amarrado.

—Experiência própria? - A mulher deu uma risadinha e se levantou em direção à prateleira. - Bom, que façam seu melhor trabalho. Não vou ficar aqui parada vendo o tempo passar.

Sypha fez menção de ficar de pé, mas a outra a impediu com um gesto de mão. A mulher começou a procurar volume atrás de volume na estante até se decidir por um sem título, menor do que a maioria e encadernado de forma grosseira, com espessas costuras de corda na lombada.

—Sobre o que é? - Sypha indagou.

—Insetos. - A mulher respondeu sem tirar os olhos do livro e abriu-o. - Eles costumam ter ferrões com veneno e pinças que dão coceira, e não soltar pó no ar, mas deve haver algo aqui para me refrescar a memória.

Páginas foram viradas por um tempo até que a curandeira começou a recitar, parecendo puxar mais da memória do que das páginas:

—Aqui. A maior parte dos problemas com mariposas e borboletas acontece com as larvas, e não com o inseto adulto. Elas são capazes de queimaduras na pele e algumas espécies podem matar até mesmo um adulto. "Em caso de contato com uma lagarta que cause urticária, lava-se o ferimento e se faz compressa fria. A exceção, no entanto…"

A mulher estendeu o livro para que Sypha visse a ilustração. É muito parecida. O formato das asas, o risco que cruzava toda a envergadura, a textura que lembrava uma folha seca. Sypha terminou de ler com um calafrio:

—"…é a Lonomia, cuja interação com o ser humano é fatal e irreversível, devido à potência do veneno."

—Pode me assegurar que foi isso que viu na outra vila? - A mulher perguntou e Sypha murmurou que sim. - Então, não há nada a se fazer da minha parte. Mata-se a mariposa, evitam-se novas vítimas e os que morrem, morrem.