Eu sabia que estava acordada. Mas meus olhos permanecerem fechados.

Tudo abaixo de mim parecia me tocar mil vezes. Acima, um milhão. O ar tinha um cheiro tão inebriante que tocava a ponta da língua. O olfato tinha a mesma precisão do tato.

O vazio psicológico me atingiu com força, seguido por leve desespero. Quem eu era? Eu parecia ter acordado de um sono de séculos; mas onde?

Fiquei desorientada com a avalanche sensorial. Tudo podia ser ouvido, tudo podia ser tocado, tudo podia ser cheirado, um milhão de vezes mais perto do que eu pressentia ser possível. Ainda de olhos fechados, estiquei a mão direita e agarrei um punhado da grama. Foi tão rápido, tão fácil, um grão de tempo e eu já a sentia acariciando meus dedos de um jeito que não parecia natural.

Será mesmo que era grama? Meus sentidos não deixavam dúvida, mas quis verificar mesmo assim.

Abri os olhos, e vi tudo.

A poeira espiralando. Tão bela que parecia mágica, impossível. Respirei o mais fundo que consegui, e soube no mesmo instante que eu não precisava daquilo. Ainda assim, fiquei tão feliz com aquela poeira dançando dentro de mim que quase chorei.

O sol coberto pelas folhas, os raios tão brilhantes com bilhões de cores que eu não sabia nomear, mesclando-se entre elas em padrões inacreditáveis. Parecia tão intenso, e eu sabia que nunca tinha visto nada parecido. Nem mesmo sabia se aquilo era o sol.

As folhas em si, do verde mais impressionante, o mais original, com traços, veias, manchas, amassados. Cada uma dolorosamente vívida, clara. Eu podia ouvir cada inseto preso à elas, cada clique de cada pata de cada aranha, cada bater de asas, cada respiração presa. Parecia haver uma multidão comigo, e olhei ao redor, mas não tinha nada.

Mais latente que tudo isso, porém, era aquele incômodo na garganta, descendo para o peito. Como se tivesse inalado poeira demais. Tão potente que me deu vontade de tossir, de arranhar, de enfiar a mão pela minha traqueia. Quanto mais eu pensava nisso, mais forte se tornava, e de repente estava insuportável, e eu queria gritar alto, morrer ou matar aquela dor excruciante.

Nesse exato momento, todo o mundo desapareceu ao meu redor, meus pés saíram do chão e a respiração ficou entalada.

A única coisa que existia era esse rosto que doía tanto. Perfeito. Imaculado. Beleza inconcebível talhada sobre mármore, que cavou um buraco no meio do meu coração e me fez ter vontade de tomá-lo nos braços. Os olhos tristes presos nos meus, as íris reluzindo no vermelho mais vermelho que já existiu na história. As cicatrizes se estendendo como padrões na renda. Os lábios grossos se partiram, uma tristeza em si só, e ele disse, com a voz de vidas passadas:

"Alice."