"Odeio segunda/ não gosto de terça/ melhoro na quarta/ sorrio na quinta/ gargalho na sexta/ eu subo na mesa..."(1)

Santana Lopez sentia o coração pulsar no peito enquanto corria o máximo que podia. Estava na melhor forma até então: não tinha ferimentos sérios há um bom tempo, os treinamentos regulares lhe deram condicionamento para correr mais rápido e por mais tempo. Podia chegar a 50km/h e manter a velocidade máxima por cerca de 10 minutos, como consta as medições feitas por Marley Rose. Santana também estava mais forte. Chegou a erguer duas toneladas por alguns poucos minutos. Marley fazia um ótimo trabalho ministrando os treinamentos propostos por Grant. Ela não tinha formação, mas as instruções eram tão bem detalhadas, que a administradora não teve o menor problema em conduzir o treinamento. Marley era a pessoa que também administrava com competência os bens dos vigilantes (a herança que Grant Fish deixou a Santana), e se esforçava para aprender o máximo que podia para contribuir com o grupo. Santana estava mais forte, Quinn era capaz de projetar energia e congelar o ar em volta dela (na prática, ela conseguia "fabricar" um nevoeiro). Artie conseguia voar com mais velocidade, e Mercedes criou um blog investigativo.

"... e começo a dançar/ e só vou parar/ quando a polícia chegar."(1)

Santana estava dando tudo de si. As sirenes estavam próximas, havia carros da polícia a perseguindo como loucos. Imagina? A vigilante corria pela cidade em plena luz do dia, promovendo um espetáculo midiático para jornalistas, e para as centenas de testemunhas que registravam trechos da louca perseguição pelas ruas da cidade. Os caminhos que precisava fazer promovia um espetáculo que provocava a fricção de pneus, freadas bruscas, pequenas batidas pelo caminho. As sirenes promoviam uma sinfonia irritante, mas a vigilante não podia parar.

"Está quase lá, San!" Santana ouvia Marley pelo ponto de escuta.

Santana não podia responder verbalmente. Com o esforço que fazia para correr para o lugar certo, não ser pega no caminho e não levar um tiro, vocalizar qualquer frase coerente era exigir demais. Ela corria entre carros na contramão, desviava o caminho, pegava supostos atalhos de fuga, mas logo reaparecia para a polícia continuar a prossegui-la. Ouvia sirenes, buzinas, e até gritos de incentivo. Para o desespero da polícia e dos políticos, os vigilantes tornaram-se um tanto quanto populares na cidade, especialmente a suposta líder, a garota magrela com incrível força que, há pouco mais de um ano, salvou vidas ao segurar uma caminhonete que despencaria da maior ponte da cidade.

"Não tem como voltar/ só vamos parar/ quando a polícia chegar..."(1)

Com o uniforme completamente negro e a velha touca ninja que deixava apenas os olhos à mostra, Santana começava a dar sinais de exaustão. Por sorte, o destino final estava muito próximo. A polícia estava logo atrás, as sirenes estavam ligadas, havia todo barulho, e Santana entrou correndo no bairro de classe média, que ficava muito próximo da casa onde os pais de Rachel Berry moravam. A pacata rua, de repente, se viu invadida pela confusão da vigilante. Santana entrou em uma das casas. Invadiu para falar a verdade, pegando de surpresa dois homens que estavam armados. Deu um soco certeiro em ambos, para deixa-los inconsciente. Então voltou-se por um breve momento para a frente da casa, que já estava sendo cercada pela polícia.

"Voador!" Santana disse pelo fone. "Agora!"

Correu até o quintal da casa e esperou. Viu Artie fazendo um sobrevoo espalhando os panfletos e, em seguida, voo até o quintal da casa, segurando a mão de Santana. Voaram em direção ao bosque, de onde poderiam desviar dos policiais e fugir. Não que os agentes da lei fossem atrás dos vigilantes, uma vez que, de repente, um homem desesperado que estava na casa invadida pela vigilante, se desesperou e abriu fogo. A polícia reagiu. No tiro cruzados, o homem foi abatido e a casa foi invadida. Da vigilante não havia mais sinal algum, em compensação, os agentes descobriram que o porão da casa estava abarrotado de armas, munições, explosivos e uma caríssima coleção de vinhos.

"Quando a polícia chegar..." (1)

...

Santana estava exausta e suada quando chegou ao apartamento acompanhada de Artie. Encontraram Marley Rose e Quinn Fabray assistindo a cobertura que a imprensa fazia ao vivo em frente à casa, que foi o ponto final da ação da vigilante por aquele dia.

"Acabamos de ter acesso a um dos panfletos espalhados pelo vigilante voador. São cópias de uma carta pedindo desculpas pelo transtorno e justificando a mobilização por ser a única forma que encontraram de fazer a polícia estourar um depósito de armas russas contrabandeadas que seriam distribuídas a grupos de traficantes pelo estado. A carta diz que a denúncia deles foi sumariamente ignorada, e ainda acusam a existência de agentes corruptos e infiltrados..."

A carta foi ideia de Quinn Fabray, que não estava presente naquela operação em específico, mas ela gostava mesmo era de participar da atividade de vigilante como uma investigadora. Ao passo que Santana era a pessoa que efetivamente ia ao campo, e Mercedes ia atrás da notícia, mas também tentava buscar informações importantes para o grupo, Quinn tinha uma abordagem bem mais discreta e estratégica em solucionar mistérios. Ela só ia a campo quando era absolutamente necessário.

Foi como naquele caso. Os vigilantes descobriram que havia um agente infiltrado na polícia que ocultava provas, evidências e denúncias que chegavam ao departamento. Quando entenderam que um dos depósitos de distribuição clandestina poderia ser desativado caso denunciassem anonimamente o local, Santana teve a ideia de levar a polícia até lá, e Quinn sugeriu a redação da "carta aberta" para explicar a confusão que seria causada.

"A repercussão nas redes sociais já está grande." Quinn disse enquanto manipulava o celular. "Mas tenho certeza que o novo chefe da polícia vai surtar mais por termos denunciado em carta aberta que há um infiltrado na polícia do que o depósito de armas em si."

"Graças a Mercedes, se ele não sabia, ficou sabendo agora." Santana retirou os equipamentos de escuta e olhou para o quadro de casos que estavam investigando. Pegou o pincel e riscou a operação que acabara de executar. Depois voltou-se para os amigos. "Alguém pediu lanche? Essa corrida toda me deixou faminta!"

"Tem uma pizza inteira de ontem." Marley informou enquanto checava os computadores. "É sério. Precisamos de um hacker ou alguém ágil suficiente para operar essa torre." Reclamou.

"Qual o problema, Rose?" Artie se aproximou da mesa de comando. Ele próprio tinha mais habilidade com computadores que a amiga, mas o fato de que precisava estar em campo para auxiliar os amigos o impedia de operar a mesa tanto quanto gostaria.

"Esse negócio travou de novo."

Enquanto Artie assumia a cadeira para checar os computadores, Marley levantou-se e foi em direção a Santana. Segurou a mão da vigilante, que ainda estava com luva (passou a usar o assessório desde que começou a usar o novo uniforme, pois foi convencida que ela uma questão de proteção da identidade dela). As duas trocaram olhares rápidos, como se estivessem conversando em silêncio. O gesto não passou desapercebido por Quinn, de longe, a melhor observadora do time. Fazia algum tempo que Santana e Marley estavam se encontrando de forma íntima. Não podiam chamar isso de namoro, pois Santana ainda tinha coisas pendentes a resolver com Jenny. A líder não assumiria nada com Marley enquanto não resolvesse o problemão que tinha nas costas. Jenny era possessiva e conhecia a identidade secreta de Santana. A líder odiava o fato de estar nas mãos de alguém que, num momento de raiva, poderia denunciá-la.

Quinn via tudo com certa preocupação. Marley era a pessoa que administrava toda verba destinada a operação dos vigilantes. Ela tinha aplicado o dinheiro em ações e em fundos ativos, de forma que podia, todos os meses, pegar dinheiro para pagar as contas e o próprio salário. Quinn entendia que o dinheiro era oficialmente de Santana, assim como todos os imóveis que os vigilantes usavam: o apartamento no centro da cidade e a cabana no terreno da floresta. E se as duas se desentendessem? E se Santana não conseguisse resolver a pendência com Jenny? E se Marley for desonesta? Pior: e se Rachel voltasse? Será que Marley teria maturidade suficiente para encarar todos esses problemas e ainda permanecer profissional? Afinal, de todos ali, Marley era a única que tinha um salário.

"Que um pedaço de pizza, ice queen? Vou esquentar no forninho. Demora um pouco mais, porém é melhor do que no micro-ondas." Santana finalmente retirou as luvas e pegou a embalagem da pizza amanhecida.

"Não. Eu vou sair daqui a pouco para pegar Beth na escola." Suspirou e foi até a máquina de café expresso. Serviu-se de uma xícara. "Ainda tenho uma prova a fazer hoje a noite na faculdade. Ainda bem que resolvemos esse problema." Foi diante do quadro de investigação e viu os casos pendentes. Ainda havia um grande em investigação, fora os problemas do dia a dia que eles interviam enquanto patrulhavam.

Quinn olhou para o caso central. O grupo tinha ainda pouquíssimos elementos para descobrir o que era o tal "projeto rangers".

"Você vai dormir na cabana hoje?" Santana perguntou procurando ser casual. Quinn era a vigilante que mais gostava de passar tempo na cabana, pois era um lugar quieto e pacífico, diferente do conjunto habitacional em que morava.

"Hoje não." Quinn respondeu tentando fingir indiferença. "Não tem como ir para lá com tanta coisa a fazer na cidade hoje e amanhã. Quem vai dar cobertura a Mercedes?"

"Não seria eu?" Artie franziu a testa para Quinn. "Aliás, Rose, o sistema já está ok. Foi só um bug."

Artie mostrou todas as câmeras que estavam conectadas ao sistema. Eram 40 no total, que espalharam pela cidade em locais estratégicos, inclusive no prédio em que estavam. Havia uma câmera em frente a central de polícia, outra na rua da prefeitura, duas no parque e algumas outras que eram realocadas de acordo com as investigações que estavam sendo feitas. Todas elas funcionavam usando o sistema de wi-fi da própria cidade, cuja senhas foram hackeadas por um amigo de Artie há alguns meses.

"As coisas parecem agitadas na delegacia e na prefeitura." Artie destacou as duas câmeras e depois checou as mensagens de Mercedes. "Vai ter uma coletiva daqui a pouco. A cartinha ganhou mais repercussão do que tínhamos previsto."

"Ótimo!" Santana viu as mensagens enquanto comia os pedaços de pizza. "É bom que as coisas sejam sacudidas do lado de dentro. Se eles não cortarem o câncer, não podemos compartilhar o que descobrimos com eles. Não será seguro."

"Isso porque a prioridade da polícia hoje é nos prender, e acabaram se esquecendo dos bandidos de verdade." Quinn suspirou e começou a recolher as coisas dela. "Preciso pegar Beth na escola... já estou atrasada." Quinn resmungou.

"Pegue o meu carro, Ice." Santana pegou as chaves em cima da mesa e as ofereceu para a amiga.

Quinn não se fez de rogada. Pegou as chaves das mãos de Santana e saiu apressada do apartamento. Santana não iria precisar do carro dela naquela noite.

...

Marley era a única pessoa que ganhava dinheiro trabalhando para os vigilantes. Pelo menos foi dessa forma que todos os demais votaram para se ter alguém com dedicação exclusiva. Mas havia momentos que Quinn se arrependia amargamente por ter votado a favor de tal proposta. Ela fez um juramento de que ajudar ao próximo não poderia envolver dinheiro, um pagamento. Se assim fosse, que ela entrasse para a academia de polícia, como Matt fez.

Quinn pensou no ex-namorado. Com a prisão de Martinez, Matt ficou sem chão por um tempo. Ele acreditava no projeto do chefe que provou ser um vilão, mas duvidava de que o projeto deixado por Grant, que colocava Santana no centro das atenções, fosse a melhor escolha. Ele decidiu fazer o próprio caminho, mudou-se para outra cidade e entrou numa academia de polícia. Disse que enfrentaria bandidos do jeito certo, e não como um criminoso bem-intencionado. Quinn sabia que o namorado tinha certa razão, mas ela não quis acompanha-lo. Ela pensou na própria independência, em se descobrir como pessoa. Ela podia ser uma heroína à margem da lei, se quisesse, ou uma paralegal de um bom escritório de advocacia. De um jeito ou de outro, a mensagem que ela queria transmitir a Beth era de se permitir fazer as próprias escolhas e tração o próprio caminho.

Às vezes pensava que o caminho poderia ser um pouco mais fácil. Pelo menos rentável. Quinn ainda trabalhava na livraria, ainda morava em um dos bairros mais pobres, e ainda tinha de estudar para o curso de paralegal semipresencial que fazia na faculdade comunitária da cidade (ela tinha aula uma vez por semana e provas quinzenais). Pagava aluguel, pagava o curso de paralegal, pagava a comida, pagava pelas atividades extras que Beth fazia na escola e, no fim do mês, não tinha dinheiro nem para comprar uma calcinha nova. À vezes Quinn tinha vontade de chorar. Tanto poder em mãos, tantas responsabilidades, um ano inteiro dedicado aos vigilantes. Ela era uma super-heroína, mas nem mesmo isso a impedia de ter dias em que ela se sentia uma merda. Não era o caso daquele quando ela ainda vivia a adrenalina de mais uma missão cumprida, mas sim, ela tinha os seus momentos.

Estacionou o carro e foi para frente da escola. Beth já estava a espera ao lado da monitora.

"Desculpe o atraso. Tive um contratempo e esse trânsito..." Quinn sorriu sem-graça para a monitora.

"Tudo bem." A mulher disse em tom seco, liberando a criança. "Parece que aquele vigilante maldito atrapalhou o trânsito da cidade inteira."

Beth olhou feio para a monitora, mas Quinn agiu rápido antes que a menina de seis anos tentasse defender os vigilantes. Era o que Beth fazia, pois sabia que a mãe fazia parte do grupo. A menina tinha um orgulho danado em saber que a mãe dela era uma super-heroína secreta.

"Não está tão ruim assim. Eu me enrolei. Desculpe."

Quinn pegou a mochila da filha e as duas foram em direção ao carro.

"Você pegou o carro da tia Santana emprestado de novo?"

"Mais ou menos, agora entre aí, docinho."

Beth foi para o banco de trás enquanto Quinn assumiu a direção. Olhou para o relógio. Não ia dar tempo de deixar Beth em casa e ir para a faculdade. A menina já ficava sozinha por algumas horas, o que facilitava imensamente o trabalho de Quinn. A mãe ensinou a garotinha a ligar para os telefones de emergência em caso de necessidade, a nunca atender a porta para ninguém enquanto estivesse sozinha, nem mesmo para o tio Matt (as horríveis e, infelizmente, frequentes histórias de homens que violentavam as filhas das namoradas eram suficientes para Quinn jamais confiar nem mesmo na pessoa mais próxima que tinha). Beth também sabia usar o micro-ondas, a fazer o próprio lanche, e sabia que, a não ser que o prédio estivesse pegando fogo, que não deveria em circunstância alguma deixar o apartamento.

"Beth, você se importa de ir hoje à faculdade comigo?"

"Mais escola?"

"Eu tenho uma prova a fazer. Prometo que comeremos tacos para o jantar. O que acha?"

"Okay." A garotinha não pareceu muito animada. "Mamãe?"

"Sim?" Quinn ligou carro e foi em direção a faculdade.

"Tia Santana fez trabalho de super-herói hoje?"

"Foi preciso." Quinn nunca dava detalhes à filha.

"A senhora ajudou?"

"Sim, querida. A mamãe ajudou."

Quinn olhou pelo retrovisor e viu a filha com um pequeno sorrisinho banguela no banco de trás. Beth tinha o maior orgulho da mãe ser uma super-heroína secreta: the ice queen. Quinn só não tinha certeza por quanto tempo tal orgulho perpetuaria. Havia na faculdade comunitária uma espécie de creche, devido a quantidade de mães solteiras que faziam curso. Era só uma sala grande com um monte de brinquedos e com dois monitores. Poucas eram as crianças da idade de Beth, e Quinn sabia que aquele não era o lugar favorito da filha. Paciência. Enquanto estava na faculdade, Quinn pôde fazer a prova sobre direito penal, assunto por qual estava a se especializar até pela natureza do trabalho paralelo. Mesmo o dia agitado não atrapalhou a execução da prova. Enquanto isso, na creche, Beth assistia televisão pois não havia nada mais que lhe interessava. Ela não gostava das crianças dali.

Passava o noticiário sobre a ação do vigilante, que revelou um grande depósito clandestino de armas em um dos bairros mais tranquilos da cidade.

"Esses vigilantes vão se dar mal qualquer dia desses." Um monitor comentou para o outro.

"Pelo menos eles fazem o que a polícia não faz." O outro rebateu.

"Ah, esses caras não me enganam. Ninguém faz isso de graça."

"Faz sim!" Beth bronqueou.

O monitor apenas sorriu para a menina. Ninguém dava crédito a um comentário de uma criança de seis anos.

Quinn saiu da faculdade segurando a mão de Beth em direção ao velho carro de Santana. Ligou o rádio, que estava fixado na estação de noticiário. Era o programa de economia. Olhou para o retrovisor, e viu a filha adormecida no banco de trás. O bairro não ficava longe do campus da faculdade comunitária, mas a menina devia estar mesmo cansada. Quinn apertou os olhos por um segundo, suspirou e quando deu por si, precisou frear bruscamente já na entrada do bairro onde morava. O coração dela disparou quando ela viu um homem batendo no capô do carro. Imediatamente ela saiu do carro e, só então deparou-se com um homem muito nervoso, que lhe apontou a arma.

"Sua vaca! Eu quero o carro agora."

"Ok..." Ela disse trêmula, com as mãos para cima. "Só deixa eu tirar a minha filha." O grito e o choro de Beth vindo de dentro do carro a deixou desesperada.

O homem, nervoso e mancando por causa da batida com o carro, não a escutou, não queria saber. Ele bateu no rosto de Quinn e a empurrou para fora do carro. O homem levaria o carro sem permitir que Beth saísse, isso deixou Quinn em pânico. Ela sequer pensou no que estava fazendo. Os olhos delas se tornaram cinzas, um efeito comum quando ela usava os poderes em toda a capacidade. Segurou o braço do homem antes que ele conseguisse entrar no carro de uma vez. O homem ficou confuso com o choque térmico que levou, sem mencionar que, de repente, era como se ele estivesse sob o ar-condicionado. E o aparelho era a própria mulher.

Confuso, ele sacou a arma. Beth continuava a gritar e a chorar, mas Quinn estava fora de si. Ela era puro instinto. Ela segurou a mão do homem, que congelou. A arma caiu no chão, e Quinn a chutou para longe.

"O que é você, sua vagabunda?" O homem berrou.

Quinn aproveitou a confusão para chutar o homem, num golpe baixo bem aplicado, seguido de uma joelhada no rosto, fazendo o homem cair no chão. Ela o chutou na boca do estômago e, ainda emanando o frio, arrastou o homem para longe do carro o suficiente para que ela corresse e entrasse no veículo com segurança. Era em momentos assim que dava graças aos cansativos treinos físicos que fazia na cabana. Quinn não queria dar sorte ao azar: em vez de ir em direção ao prédio em que morava, que ficava no quarteirão seguinte daquele mesmo bairro, pegou a avenida que dava acesso a saída da cidade.

Parou o carro quando passou da ponte e, mais calma, voltou-se para a filha, que ainda chorava.

"Você está machucada?"

"Não." A menina respondeu chorosa. "Eu quero ir para casa."

"Escuta... aquele homem... pode nos machucar se a gente for para casa agora."

"É por isso que a gente está indo para a cabana?" Beth disse entre suspiros, mas já ficando mais calma.

"Sim."

"Mas não é sexta-feira."

"Não importa. A gente vai dormir na cabana hoje, okay?"

"Mas e a escola?"

"Estramos com o carro da tia Santana, certo? Então não teremos problemas. Okay?"

"Mas eu não tenho roupas limpas."

"Tudo bem. Você vai tomar um banho e pode dormir de calcinha. Amanhã eu pego roupas novas."

"Tá bom..." Beth parecia mais calma.

Quinn ligou novamente o carro, saiu do acostamento e pegou a estrada rumo a cabana, que ficava a 45km do centro da cidade. Quinn tinha as chaves daquele lugar. Todos os vigilantes tinham uma cópia. Quando passou pelo portão de entrada e andou os 50 metros da estrada de cascalho até a casa, notou que havia um carro estacionado. Era de Marley. Quinn não se surpreendeu nenhum pouco ao perceber que Santana e ela usavam a cabana nos dias de semana para poderem transar sem sustos. Também não ligava a mínima. Havia apenas uma janela com a luz acessa que vinha da cozinha, além do som da música. Se as duas estavam fazendo sexo na cozinha, problema era delas. Quinn abriu a porta e deparou-se com a pitoresca cena de ver Santana nua em cima do cobertor e do tapete da sala, juntamente a lareira, enquanto Marley, igualmente nua, estava preparando um lanche de final de noite.

"Beth." Quinn ordenou a filha, que não entendeu porque Santana e Marley estavam peladas dentro de casa. "Suba as escadas e vá para o quarto da mamãe." A garotinha obedeceu e correu para o quarto. A mãe dela havia feito explicações suficientes de que uma criança não poderia ficar diante de uma pessoa adulta pelada, a não ser que essa pessoa fosse a própria Quinn.

Santana levantou-se, puxando a coberta consigo, para cobrir o corpo, ao passo que Marley estava tão chocada, que não sabia se ficava escondida ou se usava o pires para tampar as partes íntimas.

"Quinn... o que deu em você para aparecer aqui a uma hora dessas?"

Quinn queria brigar, esbravejar, aplicar um sermão. Em vez disso, a voz não veio, um tremor percorreu por todo o corpo dela, a temperatura dentro da cabana caiu alguns graus e Quinn começou a chorar.

...

Santana estava enamorada pelo jeito doce de Marley. Quem conhecia a jovem mulher, pouco mais de um ano mais jovem que a líder dos vigilantes, jamais poderia imaginar que a prodígio teve um passado problemático de sexo, drogas e muito funk carioca. Após o fim e o sucesso da operação de desarticulou um depósito de distribuição de armas destinadas ao tráfico, Santana e Marley resolveram escapar para a cabana, afinal, a vigilante se julgava no direito de relaxar um pouco após ter colocado a própria pele na parte mais perigosa da missão, que era justamente fazer a polícia entrar num jogo de pega-pega. Santana perdeu as contas de quantas balas passaram zunindo perto dela durante o trajeto, como se, por mais que os vigilantes estivessem atuando para ajudar a limpar a cidade, a polícia só os via como bandidos da mais alta periculosidade.

A cabana era um refúgio de tranquilidade. Ficava a 30 minutos da cidade, e era usada como local de treinamento e de lazer pelos vigilantes. Não havia privilégios entre os vigilantes quanto ao uso do lugar, os quartos eram ocupados de acordo com a disponibilidade e todos tinham a obrigação de manter o local limpo e organizado. Mas, é claro, que havia algumas preferências entre eles. Quinn passava os fins de semana na cabana e gostava de usar o quarto com a janela voltada em direção ao nascer do sol. Santana usava a cabana no meio da semana para ficar com Marley, ou aos fins de semana para treinar pela manhã. Ela sempre usava o mesmo quarto no segundo andar, que tinha a janela voltada para a frente da casa. Não era o maior quarto (Quinn usava o maior), mas era o que considerava ser o mais aconchegante.

Mercedes e Artie pouco frequentavam a cabana. Mercedes não era uma country girl e Artie tinha preguiça de treinar fisicamente, por isso pouco aparecia. Mas eles tinham também quartos que ocupavam nas raras vezes em que apareciam: Artie dormia no único que ficava no primeiro andar, e Mercedes usava o pequeno quarto ao lado da suíte de Quinn. Rachel só esteve no local em duas ocasiões antes de partir em definitivo para a metrópole. A cabana era um refúgio para relaxar e treinar, ao contrário do apartamento no centro da cidade, que era um local de trabalho.

Santana se encontrava com Marley na cabana porque sabia que não haveria ninguém por lá para atrapalhar. Elas podiam fazer uma noite romântica, transar ao som da floresta e voltar para a cidade de manhã cedo. Santana passou a estagiar 20 horas semanais em um escritório de arquitetura, e só tinha uma aula por semana na faculdade, uma vez que já estava no último semestre do curso. Em termos acadêmicos, a única preocupação dela era estudar para o teste final. Estudos pela tarde, patrulha à noite. Nessa rotina, às vezes ela tirava um dia de folga para namorar.

Foi assim no fim daquela tarde, depois de ter cumprido cuidadosamente o plano para fazer a polícia estourar o depósito de armas, com todo apoio midiático, ela decidiu descansar e celebrar com a namorada nem tão secreta assim. Apesar da recomendação de Grant a respeito de não se apaixonar por Marley, e do fato de Jenny ainda ser a namorada oficial, Santana não conseguiu resistir aos encantos da assistente. Além disso, Rachel estava fora de cena. Marley, por sua vez, já tinha ficado com mulheres de forma ocasional antes de Santana. Ela não se considerava gay, mas estava curtindo o momento com a vigilante, sobretudo porque não levava o relacionamento tão à sério. Eram duas pessoas adultas (mesmo que ainda jovens) se curtindo sexualmente.

"Com sede?" Marley perguntou após se recuperar do orgasmo mais recente.

"Bebi bastante líquido agora a pouco."

"Oh!" Marley fez careta e ficou vermelha. "Isso foi para ferir?"

"Apenas a triste realidade, babe. Em compensação, creio que esteja mesmo com a garganta seca, já que gritou tanto ainda agora."

Marley deu um tapa no braço de Santana e levantou-se do cobertor estendido em cima do tapete macio que ficava em frente a lareira da cabana. Não ligava em cobrir o corpo nu. Para dizer a verdade, assim como Santana, ela se sentia muito à vontade com o próprio corpo. Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Havia pouca coisa dentro por razões óbvias. Os vigilantes evitavam levar muita comida fresca para o lugar para evitar desperdícios. Pouco se cozinhava no lugar. Mas bebida não faltava. Havia duas maçãs dentro da geladeira, além de limões, cerveja, uma garrafa de vinho, comida congelada no freezer, e comida industrializada nos armários, além de uma providencial garrafa de vodca. Marley ligou o rádio e colocou uma música que gostava.

"Quer dançar? Quer dançar? Então prepara/ A maldição bateu, sambou, nunca mais para/ E tá na cara, a raiz tá cravada no chão/ Do tronco ao fruto com a canabinol fazendo a conexão/ E sangue bom, eu disse, sangue bom." (2)

Santana, ainda deitada, ficou observando a garota dançar nua atrás do balcão da cozinha. Marley pegou biscoitos no armário e cerveja na geladeira. O som relativamente alto mascarou o som que vinha do lado de fora do carro que estacionava. O monitor que mostrada as duas câmeras do lado de fora da cabana estava desligado. Daí a surpresa de ambas quando a porta se abriu. Santana arregalou os olhos quando viu Quinn e Beth entrando na cabana. Marley desligou a música e ficou sem saber como agir.

"Beth." Quinn ordenou a filha. "Suba as escadas e vá para o quarto que a mamãe gosta de ficar."

Santana levantou-se, puxando a coberta consigo, para cobrir o corpo, ao passo que Marley estava tão chocada, que não sabia se ficava escondida ou se usava o pires para tampar as partes íntimas.

"Fabray... o que deu em você para aparecer aqui a uma hora dessas?"

Quinn queria brigar, esbravejar, aplicar um sermão. Em vez disso, a voz não veio, um tremor percorreu por todo o corpo dela, a temperatura dentro da cabana caiu alguns graus e Quinn começou a chorar.

Santana pegou a blusa, que na verdade era de Marley, e colocou a calcinha, que por sorte, era dela mesma. Com o mínimo de roupa do corpo, o suficiente para não constranger a colega, foi até Quinn a envolveu em seus braços. Era como abraçar um bloco de gelo, mas Santana permaneceu amparando Quinn de qualquer forma.

"Ei garota... desabafe..." Santana dizia suavemente para a colega.

Marley foi até a lareira e vestiu as roupas que estavam no chão. Tal como Santana, ela não se importou se as peças eram dela ou não. Vestiu a camiseta que era da quase-namorada e uma calça. Uma vez que Santana estava lidando com a mãe, Marley achou por bem ajudar a criança.

"Fabray... isso aqui está um gelo e eu não tenho a sua resistência ao frio." Santana já estava trêmula, com fumaça de água saindo pela boca. "Precisa se controlar, ok?"

Quinn limpou as lágrimas e respirou fundo. Foi até a cozinha servir-se de um copo de água enquanto Santana ligou o aquecedor para ajudar na temperatura da cabana. Fazia frio à noite, de qualquer maneira. Então aproximou-se da colega mais uma vez. Quinn não era tão próxima assim a ela. Tirando o fato de elas terem poderes e serem vigilantes, não tinham muito em comum, daí porque tais momentos de amparo eram tão estranhos para ambas. Quinn desabafava com Matt, ou preferiria ligar para Rachel do que conversar intimidades com Santana. Mas as duas estavam ali, Marley devia estar com Beth, e coisas aconteceram.

"Eu atropelei um cara que tentou me assaltar..." Quinn tentou elaborar.

"Um cara tentou te assaltar e você o atropelou?"

"Não, foi o contrário." Aquilo pareceu estranho para Santana, mas entender os acontecimentos com detalhes lhe parecia menos importante. "Eu não consigo mais, Santana."

"O que você não consegue?"

"Tudo! Eu não consigo mais ser mãe, ser estudante, se vendedora de livros, ser vigilante e não ganhar o suficiente para pagar o aluguel! E como se não bastasse, vem um merda no meu bairro e tenta roubar o seu carro velho com a minha filha lá dentro!" Quinn colocou as mãos na cabeça. Estava emocional. "Estou exausta... estou exausta!"

"Está tudo bem, Fabray. Você não está sozinha. Está tudo bem."

Foi quando Santana percebeu algo: os vigilantes lutam para salvar pessoas, mas quem vai salvá-los das próprias amarguras da vida? Os heróis dos gibis são sempre super-cientistas, detetives ou repórteres incríveis cujo dinheiro nunca é problema. Santana precisava admitir que a posição dela de estudante bolsista e solteira era confortável, e que ela havia se esquecido de olhar para os próprios companheiros: Quinn precisava de ajuda.

...

Rachel terminou a peça ofegante. Ela nem era a principal atriz da companhia, muito menos da peça em que passara três meses encenando. Embora a peça exigisse fisicamente, não era por isso que ela estava cansada. Correu para os camarins ao final e, ainda sozinha no espaço, olhou-se no espelho. Ela já tinha controle suficiente para saber como estavam seus olhos e seu próprio corpo, mas a conferida no espelho passou a ser um ritual. Sim, os olhos estavam ficando avermelhados. Rapidamente, ela tirou as roupas que usava na peça, e vestiu as próprias. Nem se importou em tirar a exagerada maquiagem. Quando as colegas entraram no camarim, Rachel já estava pronta para ir embora, com óculos escuros no rosto.

"Qual é a urgência, Berry?" Unique zombou. "Vai se encontrar com o bofe?"

"Tenho um compromisso." Rachel limitou-se a dizer.

Detestava Unique. Aliás, detestava metade do elenco daquela companhia. Sempre tinha alguém tentando puxar o tapete, e o ambiente competitivo era exaustivo. Unique, Kitty e Sebastian eram os piores bulliers. Ainda havia "grupinho" formado pelos atores mais apreciados pelos diretores Shelby Corcoran, Cassandra July e Jesse St. James.

Rachel detestava pensar em Jesse. Ele era o ator mais famoso da companhia, e tinha prestigio por atuar regularmente na televisão e no teatro. Ganhou tanto dinheiro, que decidiu comprar parte da companhia, e injetar dinheiro nas produções e na pequena escola de formação de atores de Shelby Corcoran. A companhia em si era formada por uma parcela dos melhores alunos formados pela escola, e parte por atores que entraram pelo concorrido processo anual de seleção, como foi o caso de Rachel. Independente de como as atrizes eram aceitas, Jesse gostava de manter o ritual de seduzir e ir para cama com as novatas que despertavam o desejo dele de alguma forma. Rachel foi uma delas.

"Aonde vai?" Brody perguntou. Ele fazia parte do grupo seleto de atores preferidos, e secretamente era amante de Cassandra. Mais importante que isso, Brody era o único na companhia que sabia o segredo de Rachel.

"Preciso descarregar."

Brody desistiu de se arrumar no camarim. Simplesmente deu meia-volta para ajudar a amiga com benefícios.

"É a terceira vez nessa semana." Brody correu ao lado de Rachel. Roubou o casaco do vigia no caminho: a noite na metrópole seria fria. "Vamos ao parque novamente?"

Rachel balançou a cabeça. O que era a relação dos poderes dela com parques? Mas era o que ela tinha à mão em meio a uma cidade daquele tamanho. Pegou carona com o amigo. Não falava nada, concentrada demais em conter-se. Brody entrou num estacionamento deserto, em que Rachel saltou do carro e encostou a mão no asfalto. Então relaxou e deixou a energia fluir pelo corpo, provocando um pequeno abalo sísmico e uma rachadura circular no asfalto.

"Melhorou?" Brody passou a mão nas costas de Rachel.

"Muito..."

"Vamos sair daqui, ok?" Rachel acenou e entrou no carro de Brody. "Quer comer alguma coisa? Pode passar a noite lá em casa, se quiser."

"Não, está tudo bem. Prefiro ir para o meu apartamento."

O apartamento em questão era um minúsculo quarto com banheiro na periferia da cidade. Era o que conseguia pagar com o salário em uma cidade cujo custo de vida era o dobro da cidade natal. Rachel despediu-se de Brody, subiu as escadas e destravou as três trancas do apartamento. Suspirou ao entrar no pequeno espaço que, por mais que Rachel se empenhasse, nunca parecia estar limpo. Sentou-se na cama de molas e jogou o corpo para trás. Não era que a carreira dela não estivesse dando certo, afinal, ela tinha um teto e conseguia se alimentar, além de trabalhar em uma companhia com certa visibilidade. Mas a que preço? Olhou o celular e viu a repercussão da última ação dos vigilantes. Alguém tirou uma foto de Santana correndo entre os carros. O uniforme preto escondia o corpo perfeito e o rosto bonito que Rachel já teve a chance de acariciar e beijar. Sentia a falta da vigilante. Sentia falta da velha cidade. Olhou mais uma vez para o ambiente em que estava e suspirou. Queria voltar, mas de forma alguma gostaria de voltar como um fracasso. Precisava de um plano, ou melhor, de uma boa desculpa.