Medo não era bem a palavra que definia o sentimento de Quinn Fabray naquele instante. Ela estava com raiva. Com muita raiva. Tinha raiva por ter tanto poder e se sentir inútil, incapaz de proteger à própria filha. Tinha raiva por não poder se mexer, tinha raiva por não ter voz, tinha raiva por permitir que um bando de merdas pudesse ter poder sobre ela. Era mais um revés sofrido por Quinn. Logo ela que já havia sofrido tanto e que lutava tanto.
"Você entendeu, loirinha?" O homem negro a ameaçava dentro do próprio apartamento. Beth estava abraçada a Quinn, que a protegia dos três homens ali presentes.
Quinn desviava o olhar do rosto do homem. Ela estava fria, muito fria. A fumaça que saía das narinas dos homens indicava que o poder dela estava ativo, que talvez os olhos tivessem se tornado cinzas. Ela apertava Beth contra o próprio corpo e tentava se controlar.
"Você entendeu?" O homem se proximou e apontou a arma contra a cabeça de Quinn.
"Sim, eu entendi." Quinn disse com raiva, entre os dentes.
"Você tem 24 horas para tirar o seu traseiro branco daqui." O homem a olhou de cima para baixo. "E nunca mais volte, ou eu vou pensar em fazer coisas contigo, e talvez com sua filha, antes de enfiar uma bala na sua cabecinha loirinha. Encare isso como uma cordialidade, sua puta, porque você ajudou Sayana uma vez."
O homem foi embora, levando consigo os outros dois capangas. Bateram a porta do apartamento, fazendo Quinn saltar. Ela não se importava em tentar fechar a porta. Não quando o trinco tinha sido arrebentado. Engoliu o choro e ajoelhou-se diante da filha.
"Vá arrumar suas coisas, ok?"
"Mas mamãe..." Beth disse chorosa.
"Vá arrumar suas coisas. Quero ver todo o seu material de escola dentro da mochila. Pegue só os seus brinquedos favoritos. Depois eu te ajudo a colocar suas roupas na mala."
Quinn entrou no próprio quarto e pegou a mala velha, a mesma em que chegou à cidade. Não pensava que fosse voltar a usá-la tão cedo, muito menos em tais circunstâncias. Ela poderia ligar para os companheiros vigilantes, poderia assistir de camarote Big Sea levar uma surra. Ela mesma poderia esfriar o cérebro do bandido de merda e deixa-lo como um vegetal. Big Sea era um traficante e cafetão que controlava os pontos de prostituição do bairro. Era também o líder da gangue local, um idiota que achava que ser temido era o mesmo que ser respeitado. Tinha diversas passagens pela polícia, e recentemente cumpriu pena por três anos pelos mesmos crimes que ainda praticava.
Big Sea já tinha conhecido o punho de Santana certa vez, que resultou em uma semana de internação no hospital. A surra salvou a prostituta de morrer naquele momento, mas, ainda assim, a moça se recusou em dar o testemunho que colocaria o cafetão de volta a cadeia. A polícia não ligava para Big Sea, por ele ser um peixe-pequeno, um cafetão como tantos outros que oferecia alguns serviços gratuitos em troca das vistas-grossas de certos policiais. Os vigilantes nunca se voltaram contra os negócios de Big Sea simplesmente por se dedicavam a outras demandas que achavam ser mais importantes. Acabar com brigas entre gangues de bairro, para o bem ou para o mal, era uma tarefa da comunidade com o apoio do poder público, ou seja, uma esfera que os vigilantes não conseguiam alcançar. O máximo que poderiam fazer era conter um pouco da violência arruinando certos negócios.
A própria Quinn nunca teve nenhum problema com o cafetão. Todo mundo sabia que ele morava em uma cobertura em um prédio perto dali, e que alguns parentes dele moravam no mesmo prédio de Quinn. Os dois já tinham se cruzado antes, e Quinn conhecia Sayana, irmã do cafetão. As duas se conheceram no parque das crianças, e ambas foram mães adolescentes. No ano anterior, Sayana ficou desempregada, e ela jamais cogitaria em pedir dinheiro ao irmão cafetão. Quinn a ajudou a arrumar um trabalho na creche próxima a livraria, e tomo conta da filha dela em duas ocasiões enquanto Sayana terminava de fazer o treinamento para ser auxiliar de enfermagem.
Big Sea tinha notado a presença de Quinn no bairro (quem não notaria uma mulher linda com Quinn andando por aí?), e sabia que ela e Sayana se conheciam. Por isso ele nunca a incomodou, até a fatídica noite em que, sem querer, Quinn atropelou e deu uma surra no primo que fazia parte da gangue. Os dois homens que estavam atrás dele eram de uma gangue rival, revidando o fato de que o tal primo estava fazendo negócios em território alheio. Basicamente, o sujeito atravessou a rua do bairro e vendeu cocaína e crack na esquina errada. Ao bater nele, Quinn também permitiu que os outros dois sujeitos aproveitassem a oportunidade para enviar o primo de Big Sea em estado crítico no hospital. Ele acabou morrendo sem contar a ninguém que foi derrubado primeiro por uma mulher literalmente tão fria quanto o gelo. Mas houve testemunhas. Pessoas viram Quinn "atropelando" e batendo no homem, o deixando a mercê daqueles que viriam a mata-lo.
Quinn não queria dar sorte ao azar. Ela sabia que o fato de Big Sea ter apenas dado um soco no rosto dela e um chute na boca do estômago foi lucro, um ato de cavalheirismo, e que ela não poderia revidar sem revelar a identidade secreta. Pior, sob o risco de levar um tiro. Afinal, tal como Santana, Quinn também não era a prova de balas. Ela pegou as roupas mais usuais, o uniforme de vendedora e os documentos. Foi ao quarto da filha e colocou algumas roupas na mala sem selecionar muito. Pegou a boneca favorita de Beth e outro brinquedo que a criança tinha apego. Colocou as fotografias e os porta-retratos em uma sacola, já que não cabia mais nada na mala. O que aqueles porcos fariam com o resto, ela não queria nem saber. Adeus a todos os eletrodomésticos que ela comprou com dificuldade, os objetos de casa e o sofá. Desceu as escadas. Um andar abaixo do apartamento de Matt morava o senhorio do apartamento.
"Estou de saída." Quinn avisou à esposa do senhorio. "Por favor, mande a rescisão do contrato para o meu email."
"O que aconteceu?" A mulher assustou-se.
"Big Sea não quer ver a minha cara neste bairro."
Era impressionante como aquela resposta bastava. Quinn desceu até o térreo e de lá pediu um táxi. Para onde ela iria? Quando o carro chegou, pediu ao motorista que a levasse para o centro da cidade.
...
"Morar na cabana é uma ótima ideia. Mas você vai precisar de um carro." Marley ponderou. "Eu não acho seguro você pegar a nossa van... quanto menos esse veículo transitar à luz do dia, melhor."
"Eu vou pensar num jeito." Quinn levou as mãos a cabeça.
"Bom, pelo menos não vai pagar aluguel." Mercedes tentou ser otimista.
Santana resmungou enquanto ouvia a conversa. Obviamente que ela não fazia a menor oposição em Quinn morar na cabana, em especial porque estava ciente das dificuldades financeiras da amiga e aliada. Também era muito mais seguro morar fora da cidade, do que na periferia sob ameaças de um traficante local. O que deixou Santana com raiva foi porque, mesmo com todo empenho que tinha semana após semana, esse tipo de situação ainda acontecia na cidade a todo momento. Era desanimador, frustrante. Um passo para ela ficar tentada a discutir o lema de Frank Castle. Punisher era um personagem de quadrinhos que David, ex-namorado de Mercedes, usou para exemplificar as ações dos vigilantes. Santana e Mercedes estavam discutindo com David e outros dois colegas sobre a eficácia dos vigilantes. Dar porrada em bandido não adiantava. Mesmo quando havia provas e prisões, o sistema sempre daria um jeito de soltar quem tivesse dinheiro. Então por que não matar? Santana sabia que não era uma assassina, que não poderia cruzar a fronteira, por mais que fizesse o uso da violência.
Mas ter poderes, lutar por aquilo que acreditava ser justo, não impediu de Quinn estar sem-teto e sob ameaças, do estuprador de Rachel estar solto, do prefeito corrupto ter se livrado da cadeia, e de tantos outros casos denunciados pelos vigilantes que não tiveram evolução jurídica. O único que ainda estava preso era Martinez em uma suposta prisão militar destinada aos chamados "especiais". Talvez nem deus sabia o que se passava dentro desses lugares. Mas esse era o projeto especial de Santana e dos vigilantes, a principal investigação. Ela olhou para o quadro e viu as pistas do projeto ranger.
"Você pode ficar com o meu carro, Fabray. A cabana é um bom lugar. Tem espaço para Beth brincar, tem alguma segurança. O inconveniente é ter de acordar um pouco mais cedo, e que outras cinco pessoas têm a chave da porta da frente. Mas acho que isso não será problema. Vamos procurar aparecer só aos fins de semana, como de habitual."
"Eu vou aceitar o carro, Santana. Vai ser difícil morar a 30 km da padaria mais próxima, mas eu me adapto fácil."
"Então está resolvido." Santana começou a se arrumar para a patrulha.
"Você vai visitar Big Sea?" Quinn perguntou.
"Talvez."
"Porque se você for, eu quero ir junto."
"Não seria recomendável, Fabray."
"Olha, esse cara aterroriza qualquer pessoa que vai contra ele no bairro. Ele briga até com o pastor. Sei que se tirarmos ele de circulação, outro tomará o espaço deixado e sabe Deus como será. Isso é algo que não dá para controlar, mas a gente pode resolver esse problema em específico. Eu vou junto."
"Quinn, tem certeza?" Mercedes colocou a mão no ombro da amiga. "Não vai ter problemas com a Beth? Isso pode demorar."
"Beth pode dormir aqui hoje a noite. Não vai atrapalhar, ela sabe... Marley pode ficar e ajudar, certo?" Quinn disse com olhar tão determinado que seria loucura a assistente dizer não.
"Vista o uniforme completo, Ice." Santana acenou. "Vamos sair depois das nove. Enquanto isso, vamos estudar um pouco."
O estudar que Santana se referia tinha nada de acadêmico. Como se tratava de uma operação em específico, ela tinha de estudar as possíveis entradas e saídas. Big Sea morava em uma cobertura, o que deixava as coisas mais fáceis até certo ponto. Como não havia câmeras na região, Artie planejava utilizar um drone controlado da van que estaria estacionado nas proximidades. As imagens serviriam tanto para ele auxiliar as garotas em campo, quanto para transmitir tudo para watchtower, que era basicamente Marley. O drone proveria Quinn e Santana as primeiras informações sobre como entrar, e dependendo do que capturasse, as imagens poderiam ser usadas como provas dos crimes. Chefes de tráfico costumavam ter capangas e muitas armas, e era sabido que Big Sea providenciou reforço na própria após a primeira visita do vigilante alguns meses antes.
"Os prédios são próximos o bastante. Podemos saltar de um para o outro." Santana analisou as imagens.
"Você consegue saltar essa distância com facilidade, mas eu não."
"Eu posso te arremessar." Santana não estava de brincadeira. "Kurt cuida em desligar a energia do prédio ao meu sinal. É quando vamos saltar. A queda de energia vai ser a vantagem que terei para pegar o cara sem levar nenhum tiro. Pelo menos, é o que espero."
"Eu não vou só filmar para gerar provas, Lopez?"
"Não... você vai me dar cobertura também." Santana andou para o lado de Mercedes e Artie. "Cedes, você pode nos ajudar com o equipamento na van hoje? Artie precisa ficar à postos caso a gente precise fugir dali voando."
Artie acenou. Ele sempre estaria a postos.
...
Havia algo que aborrecia Santana profundamente a respeito da missão em curso. Ela não estava com o coração engajado em pegar o bandido. Não era porque Big Sea não merecesse: o homem deveria estar na cadeia cumprindo algumas décadas de sentença por ser um traficante, gigolô, explorador de pessoas, e por atormentar uma vizinhança que ele considerava ser dono. Mas Big Sea era só mais um dentre o ciclo de violência que se caracterizava o mundo das gangues. Sem ele, outras pessoas assumiriam o lugar e função. Não seria uma surra dos vigilantes que iria encerrar tal ciclo. A ação teria de ser mais profunda, envolver comunidade e as autoridades estaduais. Em suma, mudança exigia que alguém em posição de poder se importasse com toda aquela gente. Mas com uma prefeitura e uma polícia corrupta, o que fazer?
Outra coisa incomodava Santana profundamente a respeito da operação: era uma vingança. No fundo, Big Sea receberia uma lição e seria tirado das ruas porque ele ameaçou Quinn Fabray. Caso o tal atropelamento, seguido da invasão coercitiva ao apartamento de Quinn, não tivessem ocorrido, será que os vigilantes estariam nessa missão? A resposta era não. Até mesmo a primeira surra que Santana deu em Big Sea foi puramente casual: um flagrante durante uma das patrulhas. A líder olhou para a colega. Iriam fazer algo certo pela razão errada. Não era a primeira vez, mas não significava que Santana estava em paz com a ideia.
"Vamos?"
Quinn acenou. Ela falou rapidamente com Beth, e fez algumas recomendações para Marley. Não seria a primeira vez que a contadora bancava a babá. Mercedes, Artie, Quinn e Santana entraram no elevador com uma sacola esportiva em mãos, e desceram até a garagem, onde estava a van cor preta, de vidros escuros. Não havia nada de muito interessante no veículo, a não ser um computador com conexão com as câmeras espalhadas na cidade, o rádio que ficava sincronizado com o da polícia, e o drone. Santana e Quinn vestiram o uniforme preto, que passou a contar com um colete a prova de balas por dentro da jaqueta.
"Não faça nada precipitado, Ice. Lembre-se que em campo..."
"A gente se chama pelo codinome. Sei que é raro, mas não é a primeira vez que vou a campo."
Santana e Quinn desceram do carro já no bairro da periferia, em um ponto em que não havia câmeras, próximas ao edifício em que deveriam subir para observar antes de entrar em ação. Santana e Quinn, já totalmente uniformizadas, andaram lado a lado. Acenaram para Artie e Mercedes, de que eles deveriam se posicionar no lugar combinado. Santana recebeu mensagem de Marley, que estava perfeitamente segura no apartamento no centro da cidade no papel de watchtower.
Quinn indicou a entrada lateral do edifício, que estava trancada. Nada que um empurrão de Santana não resolvesse. Subiram sete andares de escadas, porque usar o elevador seria arriscado. Para Santana, era apenas um exercício simples. Para Quinn, aquilo demandou algum esforço. Chegaram ao telhado e Quinn aproveitou a oportunidade para tirar rapidamente a máscara e beber um pouco de água para ajudar a recuperar o fôlego.
"Parece que o seu amigo está em casa. Sorte nossa." Santana disse enquanto observava o terraço do traficante com um binóculo.
"Quantos capangas?" Quinn perguntou. "É inacreditável... Ele é um covarde que bate em mulheres e tem capangas para protege-lo."
"Não dá para dizer ao certo. Vejo três pessoas circulando."
Quinn vestiu novamente a máscara preta e cinza. O uniforme dela também tinha detalhes cinzas, que ela dizia ser para caracterizar os poderes dela.
"Preparada? Equipamentos? Tudo?" Santana perguntou e Quinn acenou. Então Santana pegou o rádio comunicador que estava preso junto ao colete, por dentro da jaqueta, e acionou Artie. "Voador, manda ver com o blecaute."
Santana não teve trabalho algum em arremessar Quinn até o prédio ao lado quando as luzes se apagaram. Ela própria, em seguida, precisou tomar pouca distância para saltar. Quinn sentiu o tornozelo e os pulsos por pousar de mal jeito, mas era apenas a dor do impacto, uma vez que logo ela estava em pé. Santana sinalizou para que ela esperasse e ficasse atrás dela. Santana e ela só teriam de pular a mureta que separava a área de antenas e serviços do telhado do prédio do apartamento do traficante. Santana escalou com destreza e puxou Quinn consigo. Havia certa agitação com a falta de luz. Podia-se ver lanternas dos celulares sendo ativadas. Santana pulou como um gato.
A escuridão facilitou para que Santana, apoiada por Quinn, nocauteasse um a um com facilidade e sem correr riscos desnecessários, afinal, todos os homens ali estavam armados. Não era mesmo uma tarefa complicada quando se invadia o palácio diretamente pelo quarto do rei. A luz do luar, dos celulares caídos e da pequena lanterna que Quinn acendeu para melhor gravar a provas permitiam visualizar as garrafas de bebidas e o pó de cocaína em cima da mesa de vidro da sala e do bar dentro do apartamento luxuoso, mas de incrível mau-gosto. Era até tedioso de tão cliché. Santana invadiu o quarto de Big Sea, e o encontrou sentado à beira da cama, vestido com uma cueca, com duas mulheres nuas, já com uma pistola em mãos. As mulheres gritaram: eram duas garotas jovens, adolescentes ainda. Quinn se encarregou de contê-las enquanto Santana avançou sobre o bandido. Ele não teve chance e foi rapidamente imobilizado.
"Onde estão os livros da contabilidade?" Santana perguntou.
Livros da contabilidade era qualquer coisa usada para o controle dos negócios. Qualquer bandido tinha o seu em meio eletrônico ou numa simples agenda: tudo dependia das extensões dos negócios.
"Vai se fuder." O bandido resistiu.
"Ice!" Santana sinalizou para Quinn, que procurava registrar toda a cena.
"Jenna McCullens?" Quinn disse com a voz dela modificada pelo dispositivo na máscara, o que tornava o tom metalizado. "Seu bastardo! Essa garota não tem nem 15 anos!"
"E daí?" Big Sea disse cinicamente. "Ela é velha o suficiente."
Quinn aproximou-se do traficante imobilizado e deu-lhe um tapa no rosto. A força foi maximizada pela temperatura fria do corpo de Quinn, que já se expandia para o ambiente. O traficante riu, irônico.
"Acha mesmo que pode me prender? Vocês não vão conseguir dar um passo além desse terraço."
Santana percebeu que havia um sistema de emergência naquele apartamento. Era algo que ela não tinha detectado. Sem hesitar, ela correu até as portas de entrada e rapidamente as bloqueou. Recolheu todas as armas que encontrou e as colocou numa sacola. Podiam ser evidências de posse de armas ilegais. Fez o mesmo com os celulares dos homens desmaiados. Bateu novamente nos homens que estavam acordando. Percorreu rapidamente o apartamento e encontrou um computador e alguns cadernos. Também os recolheu. Ouviu os gritos de homens que tentavam ter acesso ao apartamento. Os tiros não demoraram a acontecer. As meninas começaram a gritar, e Big Sea sorriu.
"Você não se envergonha em prostituir adolescentes?" Quinn interrogava um traficante extremamente arrogante.
"Têm idade suficiente para lidar com um pau grande."
"Você é repulsivo em se aproveitar de garotas de 14 anos."
"Elas ganham mais dinheiro comigo do que trabalhando como babá." Quinn sentiu ódio daquele homem. Mas era importante a confissão para o colocar na cadeia por pedofilia, exploração e estupro de vulnerável. A chamada idade de concessão no estado era de 16 anos, mas a prostituição de menores de 18 anos poderia levar alguém para a cadeia.
"Ice!" Santana entrou novamente no quarto. "Hora de ir."
Santana socou o traficante e o deixou desacordado, carregando o homem em seguida. As meninas ficaram para trás. Não havia muito que fazer por elas naquele momento.
"Voador!" Santana chamou pelo comunicador enquanto ela e Quinn corriam de volta ao pátio do terraço.
Santana arremessou o traficante no edifício ao lado como se fosse um saco de areia, depois foi a vez de Quinn e, finalmente, ela saltou. Artie apareceu voando e carregou o traficante enquanto as duas teriam de se virar por hora. Santana observou o terraço ser tomado pela gangue e esperou o momento certo para ir embora.
"Gravou tudo?" Santana perguntou.
"Sim." Quinn conferiu o arquivo gerado e o ouviu. "Está tudo aqui."
Santana pegou o rádio comunicador e entrou em contato com Mercedes.
"Cedes, as imagens chegaram?"
"Não estão muito boas, mas o áudio está perfeito. E dá para ver a cara do vagabundo."
"Ótimo. Empacote tudo. Vamos entregar a encomenda."
Havia um sistema de proteção nos equipamentos que tornava improvável a identificação do IP. Era uma invenção de George, o amigo de Artie que, aparentemente, conseguia criar qualquer coisa. Santana desconfiava que esse colega fosse dotado de poderes especiais, que a capacidade de invenção de coisas incríveis com materiais simples era por demais extraordinário.
"Sujeitinho nojento." Santana comentou enquanto conferia a gritaria no prédio ao lado.
"Infelizmente, esse tipo não é novidade para nós."
"Infelizmente."
"Você está bem?"
"Não." Quinn balançou a cabeça e Santana podia sentir pelo frio que a amiga estava ainda muito consternada com a missão. "Aquela garota na cama desse ordinário era uma menina cheia de sonhos. É inacreditável que ela tenha caído nessa vida. Eu não entendo o que houve."
"Bom, ela tem 14 anos, mora num bairro em que gravidez na adolescência é uma epidemia, que boa parte dos meninos são iniciados em gangues, que traficantes se julgam reis feudais, e que a prefeitura nem quer saber."
"É um bom resumo." Quinn suspirou. "Há pessoas de bem morando aqui. Gente honesta que trabalha e luta. Tudo para ser ferradas por um canalha como esse merda."
"Não é só nesse bairro, Ice."
"Eu sei..." Quinn sabia muito bem do que Santana se referia. Quinn nunca contou muitos detalhes do passado a Santana, pois nunca a considerou ser amiga próxima suficiente para tal. Por outro lado, a líder vigilante tinha boa ideia da história e não precisava de tantas informações assim para ligar os pontos.
...
Rachel viu a notícia vinculada no blog de Mercedes sobre a mais recente ação dos vigilantes, que prenderam um traficante local que estava prostituindo adolescentes do bairro mais pobre da cidade. Por "coincidência" o mesmo em que Quinn Fabray morava. Ficou com vontade de mantar uma mensagem para Santana perguntando detalhes. Segundo a matéria escrita por Mercedes, o traficante foi preso só de cueca próximo a delegacia de polícia enquanto o autofalante público da cidade replicava em looping uma gravação em que o homem confessava prostituir uma adolescente. A polícia chegou a tempo de impedir que a população linchasse o homem. Enquanto isso, documentos e provas como armas com licença raspadas, cadernos e um computador foi entregue a polícia.
"Dormiu bem?" Brody beijou-a no ombro e depois observou o que Rachel observava no tablet. "Hum... Vigilantes capturam traficante local... leitura leve pela manhã."
"É bom saber o que está acontecendo na minha cidade natal."
"Acho incrível que a sua cidade natal tenha vigilantes e aqui não. Pelo menos, eu acho que não." Comparativamente, a metrópoles era como a cidade de São Paulo, e a cidade natal de Rachel era como se fosse Campinas. Brody beijou Rachel no rosto. "Mas eu sei que aqui também tem gente super-poderosa."
"Eu não me sinto tão super-poderosa." Rachel resmungou e desligou o tablet.
Estava no apartamento de Brody, que era semelhante em tamanho ao que ela dividia com Kurt. Brody também tinha um amigo para dividir o aluguel: um dançarino chamado Alex, que Rachel sabia ser um garoto de programa de luxo. Alex raramente estava por perto, o que era bom. Rachel achava o dançarino antipático, cheio de si e nenhum pouco confiável.
"Você é! E não é por causa da sua capacidade de mudar a cor dos olhos." Brody sorriu e entregou a Rachel uma vasilha com cereal e leite. "Tem falado com a líder" Brody sabia que Rachel conhecia a líder dos vigilantes, até mesmo porque não havia como negar tal fato em meio aos antigos vídeos espalhados na internet. Rachel, no entanto, nunca revelou a identidade de Santana para Brody.
"Não. Já faz um bom tempo que não entro em contato com ela."
"Nem para dizer que você está pensando em voltar?"
"Ela é muito ocupada e importante demais para alguém como eu."
"E você acredita mesmo nisso?"
"É um fato."
Rachel comeu o cereal e depois ajudou o amigo a arrumar a pequena cozinha. Os dois estavam em silêncio, fazendo uma rotina que era quase que terrivelmente caseira.
"Sabe... eu estava pensando em ir contigo."
Rachel deixou os talheres caírem no chão pela surpresa da notícia e encarou o amigo.
"Por quê?"
"Eu não sei... me pareceu uma boa ideia sair um pouco desse ambiente e respirar um novo ar."
"Logo você que se orgulha tanto em vir de uma cidade menor que a minha e de ter se empoderado na cidade grande? Não é o que você disse para a mim quando nos conhecemos: que essa cidade me daria um banho de loja, eu querendo ou não?" Rachel encarou o amigo. "Por que mudar agora?"
Brody encarou a amiga e suspirou. Ele não tinha uma resposta melhor do que a verdade: que ele era um ator que só ganhava bons papeis na companhia por ser amante de uma das sócias, e que, além disso, ele tinha uma suggar mama. Brody estava de saco cheio da metrópole, mas voltar para a cidade natal estava fora de questão.
"Um cavalheiro sempre acompanha a sua dama." Brody abriu um falso sorriso.
Rachel não estava convencida, mas também não havia nada que poderia fazer para impedi-lo. Metade da companhia iria entrar de recesso pelo resto do mês, muitos iriam trabalhar em outras coisas ou projetos. Rachel ignorou o amigo. Não tocaria mais no assunto na esperança de fazê-lo esquecer.
"Rachel?" Brody chamou atenção da amiga com benefícios.
"O quê?"
"Estava pensando... se você tem poderes e é tão ligada no que os vigilantes, porque não tenta fazer algo do tipo aqui?"
"Essas pessoas treinam muito para fazerem o que fazem, Brody. Não basta ter poderes." Rachel resmungou. "Eu sei muito bem que se pode morrer fazendo isso."
"Ainda assim, é o que você deseja fazer. Fala a verdade."
Rachel não respondeu, mas o que Brody disse não foi completamente errado. Rachel queria ser uma atriz de sucesso nos palcos, mas ela já tinha sentido o gosto da adrenalina da ação dos vigilantes, que ela precisava confessar: era viciante.
...
"Vamos procurar não vir aqui em dia de semana, Fabray. Mas é importante que a gente tenha esse lugar aqui para treinar. Não podemos abrir mão disso." Santana disse enquanto ajudava a reconfigurar a distribuição dos móveis para o quarto de Beth.
"Eu sei. Isso não será um problema. Também não é que eu queira passar o resto da minha vida nesta cabana. Já estou tendo que reorganizar todos os meus horários. Tenho que acordar mais cedo, e o mercado mais próximo está a 30 quilômetros daqui. Sem mencionar que o seu carro é tão velho, que deve consumir uma quantidade absurda de gasolina." Quinn terminou esbravejando devido ao cansaço e a frustração.
"Quem disse que vida é fácil?" Santana sorriu. "Tem certeza que não quer voltar para o velho bairro agora que nós desarticulamos a gangue? Big Sea não será mais problema para você."
"Já estou marcada por lá, Lopez. Não vai funcionar."
"Você pode congelar a gangue inteira, e se tornar a rainha do bairro."
Quinn não se contagiou pelo humor de Santana. Saiu do quarto e desceu as escadas de madeira, já observando o movimento da sala. Artie flutuava pela cabana fazendo pequenas manutenções, Beth seguia Marley pela casa, pois era "assistente" de alguma coisa que a watchtower estava fazendo. Mercedes falava ao celular, e pelo jeito animado, parecia com um amigo de faculdade. O que mais impressionava Quinn era a maneira como Beth se sentia a vontade perto de todas aquelas pessoas. A garotinha estava cercada de "tios" e "tias" e ela dizia com muito orgulho, que era aprendiz de super-herói. Era disfuncional, mas aquela era a melhor família que Quinn tivera, e ela estava com medo de que tudo aquilo poderia acabar um dia.
"Vou correr um pouco. Quer ir junto?" Santana perguntou ao passar por Quinn nas escadas. "Você precisa melhorar seu condicionamento, Fabray. Mal conseguiu subir as escadas nessa semana."
"Eram sete lances de escadas em um fôlego só... e eu tenho coisas a organizar aqui."
"Você é quem sabe."
Quinn observou Santana sair pela porta para uma corrida. Suspirou. Ela estava calçando tênis e com roupas apropriadas para fazer exercícios. Então, por que não? Desceu o restante das escadas e correu porta afora, alcançando Santana Lopez no caminho. Assim que percebeu a colega lhe fazendo companhia, a líder diminuiu o ritmo para que Quinn conseguisse a acompanhar. As duas nunca foram próximas, mas os eventos da semana fizeram com que elas passassem a se entender melhor, e até a serem mais simpáticas uma com a outra. Correram em silêncio na trilha que havia na floresta até o limite da propriedade, que dava para um riacho. Santana parou e respirou fundo.
"Correr 500 metros não é bem um exercício de qualidade." Quinn revirou os olhos.
Santana tirou o tênis e pulou nas pedras do córrego. Pôs um pé na água e resmungou.
"Está muito gelada, mas aposto que você nem liga."
Quinn retirou o tênis e acompanhou Santana. Colocou o pé na água e sorriu ao constar que realmente aquele frio não a incomodava nenhum pouco. Sorriu para si mesma, porque ela ficou com a música Let It Go na cabeça e o verso "the cold never bothered me anyway". Resolveu se exibir. Concentrou-se por um momento a pontos dos olhos ficaram cinzas e uma fina crosta de gelo começou a se formar sob a água do córrego.
"Impressionante, Elsa."
"Não me chame assim." Quinn advertiu. Ela podia até estar coma música na cabeça,. Mas achava abominável ser comparada com o desenho animado e Santana sabia perfeitamente disso. "Mas de que adianta? Congelar água? Poder inútil. Só serve para salvar festas para não deixar a cerveja esquentar."
"Você faz muito mais que isso, Quinn. Você fabrica nevoeiros, consegue ser um ar condicionado biológico, e ainda congela coisas com o toque. Isso é impressionante. Seu poder me salvou de Martinez, se me lembro bem. Nessa semana, você agiu com muita coragem ao prender Big Sea."
"Você fez o trabalho quase todo." Quinn resmungou.
"Mas você estava lá fazendo a cobertura, congelando o cérebro daqueles caras e prevenindo que eu levasse um tiro pelas costas. Eu não sou a prova de balas, Fabray. E depois, você gravou tudo, e ainda arrancou a confissão de que aquele idiota explorava menores adolescentes. Além disso, poderes à parte, você é uma investigadora bem decente. Melhor do que eu. Só não faz melhor porque não tem tempo por causa do trabalho e tudo mais."
"Pode ser..."
"Por que está duvidando de si mesma agora?"
"Acontece quando se tem 23 anos com uma filha de seis anos para criar e não se tem muitas expectativas de que as coisas vão melhorar." Quinn suspirou. "Acabei de ser expulsa da minha própria casa por um traficante mequetrefe, e mal tenho dinheiro para pagar minhas contas. Isso não é vida."
"Pelo menos agora você vai economizar o dinheiro do aluguel." Santana sorriu sem-graça. Ela entendia a frustração da colega, mas havia muito pouco que ela poderia fazer a respeito. Santana representava o sucesso em pessoa aos olhos de Quinn: a garota originária de uma família modesta que ganhou bolsa de estudo em uma universidade renomada, solteira e com poderes extraordinários e, o melhor de tudo, livre para fazer o que bem entender. "Escute, Fabray. Eu estive pensando muito a respeito do que aconteceu contigo e sobre a nossa última ação. Pensei naquela garota de 14 anos que costumava ser babá da Beth. Pensei também no nosso trabalho. De que adianta a gente bater em bandidos à noite se não conseguimos mudar nada de modo significativo?"
"O que está tentando dizer?"
"A sua situação me fez pensar que, talvez, em vez de olhar a cidade como um todo, a gente vai conseguir melhores resultados se a gente se concentrar na parte que mais precisa de atenção. Estava pensando em montar um escritório de arquitetura e desenvolver algo para ajudar a comunidade."
"As pessoas daquele bairro não precisam de casas bonitas, Lopez."
"Estou fazendo um brainstorm aqui, Fabray."
"Quer mesmo ajudar aquelas pessoas?"
"Sim."
"Então continue fazendo o que sempre fez, até o momento em que tiver poder de mudar as coisas de modo estrutural."
"Como você é cética."
"Ou você que é otimista demais."
Quinn continuou a trabalhar em seu poder, aumentando a crosta de gelo no pequeno riacho. Santana se levantou ao escutar um barulho. Ao longe viu um homem se aproximar, um vizinho, na verdade, cujas terras começavam na outra margem do riacho. No susto, Santana pisou na crosta de gelo criada por Quinn, escorregou e caiu na água. Pelo menos, isso fez com que o bloco de gelo quebrasse e começasse a descer pela suave correnteza.
"Santana! Está bem?" Quinn tentou ajudar a colega. Só então se atentou para a presença do vizinho. "Olá?" Disse encarando o homem que tinha por volta dos 50 anos que parecia um lenhador.
"Está tudo bem aí?" O homem perguntou.
"Sim..." Santana respondeu assim que conseguiu ficar de pé outra vez. Estava com as roupas ensopadas e morrendo de frio. "Eu escorreguei."
"Ok..." O homem parecia incerto, mas ao menos entendeu que as duas jovens mulheres não queriam confusão. "Meu nome é Sheldon Beiste." O homem estendeu a mão. "
"Santana Lopez." Santana cumprimentou o vizinho. "Essa é Quinn Fabray."
"Vocês moram na casa que era de Grant?" Bestie perguntou e recebeu um aceno como resposta. "Somos vizinhos, então. Essas propriedades são tão grandes e as casas tão afastadas, que fica difícil nos conhecer e nos falar."
"Quem mora aqui procura tranquilidade. Então..." Quinn respondeu, demonstrando que não estava muito interessada em socializar.
"Bom, é melhor você se trocar, Lopez. Pode pegar um resfriado forte."
"Obrigada. Foi um prazer em conhece-lo."
Beiste se afastou, mostrando que estava ali mesmo para checar o movimento. Não parecia que queria confusão, pelo menos, por enquanto. Santana retirou o casaco encharcado, ficando apenas com a camiseta e a calça jogger. As duas jovens recolocaram o tênis e caminharam, não em direção à cabana, mas circulando o terreno delimitado por uma cerca de arame de um metro e meio que demarcava a propriedade, exceto no riacho.
"Quinn, eu preciso confiar a você uma coisa." Santana disse incerta, quase com vergonha.
"O que foi?" Quinn ergueu uma sobrancelha.
"Jenny mandou uma mensagem. Ela está voltando à cidade depois de... dois meses."
"Oh." Quinn revirou os olhos. A vida de um vigilante não seria completa sem os problemas amorosos, além de todos os outros que tinha de lidar. "O que vai fazer com a sua amante?"
"O problema não é a minha amante. Marley e eu estamos apenas nos curtindo, e não há nada a sério rolando entre nós. O problema é a minha namorada. Jenny pode fazer uma merda se souber, e ela conhece a minha dupla identidade. Como você é a única que já viu o meu outro lance, gostaria de saber se posso contar com a sua discrição?"
"Claro."
"Obrigada."
"Lopez?"
"Sim?"
"Eu não conheço bem sobre essa parte mais pessoal da sua vida. Não como Artie e como Mercedes conhecem. Mas é visível que você está entusiasmada com esse relacionamento com Marley, por mais que você diga que não é sério. Também é muito claro que você não quer mais ficar com essa Jenny. Por que você continua com essa história?"
"Porque eu tenho medo do que pode acontecer se a verdade vir à tona de um jeito errado." Santana suspirou. "Eu já elaborei mil e um planos, e já ensaiei mil e uma formas de tentar terminar com Jenny. Mas eu nunca consigo achar a abertura e o momento certo. Por mais que eu a trate mal ou de forma indiferente, Jenny nunca termina comigo. É irritante. E se eu terminar com ela, tudo pode dar errado."
"Por quê?"
"Porque Jenny é uma control freak que gosta de ter a última palavra. Eu tenho que fazer com que esse relacionamento termine partindo dela. Como se fosse ideia dela. O meu problema é que Jenny é inteligente na mesma proporção em que é obsessiva e desequilibrada. Às vezes eu acho que ela faz questão de ficar comigo só para me punir. E tudo porque ela sabe que pode acabar com a minha vida, e eu não posso fazer nada contra ela."
"Tente ser monogâmica na próxima vez. É mais fácil."
"Com a pessoa certa, deve ser mesmo." Santana cruzou os braços e deu alguns pulinhos para se aquecer. "Tem falado com Matt?"
"Ele manda mensagens de vez em quando."
"Você deve estar sentindo falta dele, não é mesmo?"
Quinn acenou positivo.
"Por que não foi embora com ele?" Era uma pergunta que Santana sempre quis fazer, mas nunca havia encontrado uma hora apropriada.
"Porque eu nunca o amei o suficiente para isso. Eu tenho que fazer a minha própria vida."
"Sendo uma de nós? Quinn, eu já te disse isso uma vez e vou repetir: você não precisa ser uma vigilante para ter a nossa ajuda. Você pode morar aqui, treinar o controle dos seus poderes aqui, sem precisar se envolver."
"Eu sei... quer dizer... no início eu achava que tinha que contribuir, mas hoje eu sei que não sou obrigada."
"Então?"
"Beth gosta que eu seja super-heroína... e o problema é que eu também gostei de ser uma super-heroína com identidade secreta."
"É viciante."
"É como você se classifica? Viciada em adrenalina?"
"Não... em parte, eu admito que gosto disso, mas não é a principal razão."
"É por Grant?"
"Não... eu fazia isso bem antes de Grant. Ele me entendeu e agiu para que eu continuasse a lutar. Só penso que faço isso porque sou idiota o suficiente para achar que posso fazer a diferença."
"Mas você faz a diferença... nós fazemos a diferença. Quantas vidas foram poupadas quando estouramos o depósito de armas em plena segunda-feira? Quantas crianças salvamos quando desarticulamos uma rede de pedófilos? Quantas vidas você salvou nas patrulhas de rotina?"
"Não é o suficiente."
"Nunca será, San. Você é forte, mas não é deus. Nenhum de nós somos. Isso não quer dizer que devemos ficar de braços cruzados, certo?"
"Certo." Santana suspirou. "Acho que vou patrulhar hoje. Talvez possa fazer um pouco de trabalho de detetive sobre o projeto ranger."
"Você é uma péssima detetive. Por que não deixa isso comigo, Artie e Mercedes?"
"Vocês estão demorando muito."
"Paciência é uma virtude, e você nunca teve muita."
Santana encarou Quinn por um instante antes de recomeçar a caminhar. Ela tinha razão: sempre foi uma péssima detetive porque não tinha a frieza e a paciência necessária. De qualquer forma, precisava patrulhar. Salvar o bairro nunca lhe pareceu um trabalho menor.
