Jenny chegou ao aeroporto regional por volta das 10h da manhã. Foi recebida por ninguém. A jovem mulher pegou a própria bagagem e atravessou o saguão de desembarque até a área pública externa com a expressão de poucos amigos. Pegou um táxi em direção ao apartamento que havia comprado na cidade em uma área de classe alta, próxima ao campus universitário. Entrou no pequeno e confortável apartamento, deixou a bagagem no meio da sala, tirou os sapatos de salto e atirou-se na cama bem arrumada. Tudo estava muito limpo e organizado, graças a empresa de limpeza que contratou para fazer o serviço semanal. Era um custo alto para manter um bem na cidade que ela só tinha um assunto importante: a namorada com superpoderes por quem era obcecada.
Fazia dois meses que não via Santana, e tudo por causa do trabalho na empresa que ela estava montando. Era tanta coisa para fazer, que ela passou os dois meses trabalhando duro na publicidade, realizando contatos, contratando pessoas competentes (algo raro na visão de Jenny). E tudo para, no primeiro momento de real folga, ela voltar à cidade e para os braços da namorada com quem mal conversou durante todo esse tempo, mas que, mesmo assim, ela pode também acompanha-la por meios dos noticiários. Achou particularmente divertido o vídeo de Santana correndo pela cidade, brincando de pega-pega com os carros da polícia para revelar uma casamata da máfia num bairro de classe média. Era surreal. Jenny passou a mão nos cabelos e suspirou. Massageou os ombros e fechou os olhos. Então alcançou a bolsa. Tirou o celular de dentro e fez a discagem rápida.
"Jenny? Oi?" Ouviu a voz profunda e meio rouca responder. Achava a voz de Santana sexy até mesmo quando a namorada falava algo casual.
"Onde está?"
"Trabalhando no escritório. Fazendo uma maquete, na verdade."
"Maquete?" Jenny sorriu. "Não pode mostrar seus projetos pelo computador?"
"Há clientes que são old-school." Houve um barulho, como se o telefone tivesse caído. "Desculpe... Então, já chegou?"
"Sim, estou no meu apartamento descansando um pouco. Que tal almoçarmos juntas?"
"Claro, Jen, mas eu não posso me demorar. Tenho aula à tarde."
"Às vezes eu me esqueço que você ainda é uma universitária." Jenny sorriu. "Você é tão ocupada com essa sua vida dupla." Santana não respondeu, se estivessem conversando com a tela ativada, Jenny teria visto a namorada revirar os olhos.
"Jen, eu preciso ir ok? Manda mensagem com o endereço do restaurante que você que ir. Eu te encontro lá."
"Ok, eu te amo."
"Tchau."
Era algo que frustrava Jenny. De ela sempre dizer que amava Santana, mas não receber de volta a resposta que tanto queria ouvir. A mulher de 24 anos tinha uma beleza comparada a da jovem Julia Roberts, e ela definitivamente não era estúpida. Era uma jovem empresária promissora, ocupada, vinha de uma família rica e tradicional que aceitou relativamente bem o fato de ela ser lésbica – contanto que não se transformasse em uma butch ou se relacionasse com tais tipos, como ouviu da mãe certa vez. Não que lésbicas de aparência masculinizadas a atraísse, de qualquer forma.
Jenny não se deixava enganar com o desinteresse e as grosserias da namorada. Ela também sabia que fidelidade não o forte de Santana. Para ser justa, ela também se permitia aproveitar de uma boa transa casual quando tinha oportunidade e vontade. Mas então por que continuava com a vigilante? Nem Jenny conseguia explicar a louca atração que sentia por Santana, nem o forte desejo de domá-la, como se ela fosse um puro sangue que precisava ser domesticado. Era um desejo tão forte que só em pensar em tentar subjugar Santana ela podia sentir a umidade entre as pernas. Pensou bem aonde gostaria de almoçar e mandou a mensagem.
...
Rachel chegou na rodoviária da cidade no meio daquela manhã. Desceu do ônibus e olhou a paisagem pouco interessante. Não havia ninguém esperando por ela, nem os pais, nem Kurt, ninguém dos vigilantes ou dos amigos mais antigos. A razão era plausível: Rachel chegou de surpresa à cidade.
"Toda rodoviária tem cheiro de xixi." Brody disse assim que desceu do ônibus após a amiga. "Está definitivamente comprovado." Fez a gentileza de carregar a bagagem de Rachel, deixando-a carregando a mochila. "Para onde vamos?"
"Para a casa dos meus pais."
Pegaram um táxi e seguiram em silêncio confortável durante o percurso. Brody olhava curioso para a cidade que se apresentava. Era exatamente como ele imaginava: um centro da cidade com prédios altos, novos e modernos, e o todo resto composto entre casas residenciais e prédios mais baixos de, no máximo, seis ou sete andares.
"O campus universitário é lindo. Aliás, a universidade é o orgulho da cidade, sabe? Aqui é quase como New Haven, que só existe por causa de Yale" Rachel disse ao amigo.
"A sua cidade é maior que New Haven, Rach."
"Não muda o fato de a maior atração ser o campus da Universidade Livre. Bom, eu posso te levar ao parque que fica próximo ao centro da cidade. Não tenho muitas lembranças agradáveis de lá, mas ao menos é um lugar a se conhecer. É um lugar bonito."
Mais silêncio até a chegada no bairro de classe média alta. Rachel e Brody desceram do táxi e pegaram as bagagens. Rachel demorou-se por um momento antes de apertar a campainha. Não é que ela estivesse cortado relações com os pais novamente, mas era frustrante voltar para casa, mesmo que de forma temporária, sem ter encontrado a felicidade, mesmo conseguindo trabalhar naquilo que buscou a vida inteira. Talvez fosse a dureza da realidade da grande cidade, talvez fosse pelo fato de ela ter conseguido, em um ano, se estabelecer como uma atriz do segundo escalão da companhia, talvez fosse a frustração por ela ter caído em algumas armadilhas e acabar tendo como amigo mais próximo um ator também do segundo escalão que era amante da patroa. Tocou a campainha. Nada. Foi até a garagem e espiou a pequena janela. Viu que apenas um carro estava na garagem, o que significava que um dos pais com certeza estava fora. Talvez Leroy estivesse em casa, mas no estúdio produzindo algum jingle publicitário.
Rachel pegou o celular e ligou primeiro para Hiram.
"Rachel?" O homem respondeu.
"Oi pai, onde o senhor está?"
"Estou numa feira livre aqui em Aria."
"Papai está junto?"
"Sim. Quer falar com ele?"
"Não. Só diga que eu mandei um beijo."
"Ok... Rachel, meu bem, você está bem?"
"Sim, pai. Estou bem. Até mais."
Rachel desligou e sorriu para o amigo.
"Eles estão fora da cidade."
"Parece que ficamos do lado de fora." Brody colocou a mão no ombro de Rachel para consolá-la.
"Não necessariamente." Rachel abriu a mochila e tirou um molho de chaves. "Eu ainda tenho a minha cópia."
Ao abrir a porta, olhou para a casa espaçosa e sempre organizada. Rachel foi direto para o próprio quarto e deixou as bagagens, para só então dar atenção ao convidado especial. Indicou o quarto de hóspede, o mesmo que há pouco mais de um ano ela deitou-se com Santana após ajudar a vigilante a fugir da polícia.
"É uma família de vegetarianos. Espero que não se importe." Rachel disse ao conduzir o amigo até a cozinha. Sabia que Brody dificilmente dispensava um bom bife.
"Então a sua família tem grana..." Brody disse ao aceitar o sanduíche montado por Rachel: um para ele, dois para ela. Brody já havia se habituado com a quantidade de comida que Rachel ingeria, mesmo sendo uma mulher de estatura pequena e magra. "Eles poderiam te ajudar a viver em um lugar melhor do que aquele buraco, certo?"
"Como já te disse, é complicado. Eu sou independente deles há tanto tempo, que acho que não sei mais pedir por esse tipo de ajuda."
"Você é muito orgulhosa. Se os meus pais tivessem grana, eu não hesitaria."
"Você deixaria de fazer... o seu trabalho extra?"
"Possivelmente."
Apesar de Rachel saber sobre a prostituição a qual Brody se submetia, não queria dizer que ele gostava de tocar no assunto. Por mais que ele dissesse que não julgava ninguém, e que estava bem resolvido quanto a condição, era óbvio que estar em tal vida o feria e ele não gostava de tocar no assunto, especialmente com a garota que ele realmente gostava.
"O que tem para se fazer nessa cidade à noite?" Brody perguntou, tentando mudar de assunto.
"Basicamente tem os bares, o teatro amador deve estar com alguma peça em cartaz... ah, podemos ir ao campus universitário ver se tem alguma festa rolando. Não raro tem alguma coisa acontecendo nos finais de semana: uma festa, algum show de uma banda local, essas coisas."
"Explorar então?"
"Sim, vamos explorar um pouco."
...
Santana forçou um sorriso quando viu Jenny sentada no restaurante que combinaram de se encontrar. Beijou-a rapidamente nos lábios antes de sentar-se de frente para ela à mesa. Santana estava impressionada consigo mesma: dois meses sem ver a namorada, e tudo que ela sentia era indiferença. Uma garota linda diante dela, inteligente, que era ótima de cama e, mais nada. Só havia o desejo de ir embora dali e ir para os braços de outra pessoa, de Marley. Realiza que se sentia assim foi uma grande surpresa até para si própria.
"Fez boa viagem?" Santana disse e depois sorriu para o garçom que lhe entregou o cardápio.
"Nada além de rotina." Jenny se fez de indiferente. "Na verdade, estava esperançosa de que pudéssemos passar o dia juntas."
"Eu tenho aula hoje a tarde."
"Não pode faltar?"
"Faltar a aula de revisão para o exame final? Nem pensar."
"Qual é San. Faz dois meses que a gente não se vê pessoalmente."
"Eu sei, Jen. Mas é que o exame final vai acontecer nas próximas semanas. Sinceramente, eu estou louca para me formar. Eu sou uma bolsista... se eu reprovar, não vou ter dinheiro para pagar um semestre extra do meu próprio bolso."
"Sair comigo não pode, mas se fosse para fazer algo a respeito da sua outra identidade, aposto que teria tempo, independentemente do seu exame final."
"Se eu estivesse fazendo algo usando a minha outra identidade, é porque haveria uma emergência ou um assunto muito sério a resolver, Jen. Não confunda as coisas." Disse entre os dentes. "Você sabe que eu não gosto de discutir a minha outra identidade, assim, e em locais públicos."
"Você é paranoica, Santana Lopez."
"Você é uma egocêntrica sem-noção, Jennifer May."
"Vocês já querem fazer os pedidos?" O garçom interrompeu, e para a vigilante, a ação dele veio em boa hora.
O almoço seguiu tenso, em silêncio, mostrando que aquela situação estava ficando insuportável e insustentável para Santana. Se ela chegou um dia a amar Jenny, a resposta era sim, afinal, eram quatro anos em um relacionamento cheio de idas e vindas. Mas ela continuava a amar Jenny? Não mais, e já fazia tempo. Se importar com a segurança de Jenny estava longe de ser algo similar a alguma forma de amor romântico. Santana beijava a namorada sem paixão, o sexo era quase automático, sem mencionar nos arroubos autoritários de Jenny sempre que estavam juntas. E tudo para quê? Para proteger um segredo? Para manter Jenny em silêncio? Nem mesmo tal motivo parecia mais suficiente naquela altura.
"Preciso ir para a aula." Santana deixou uma nota de 50 sobre a mesa e ia se levantando, mas Jenny a impediu segurando o braço dela.
"Espera! Eu disse que pagava o nosso almoço... além disso, eu não quero ver você sair daqui com raiva. Desculpe, ok?"
Santana suspirou e sentou-se novamente. Ela viu uma oportunidade e talvez devesse aproveitá-la.
"Jenny... a gente deveria encarar o que está acontecendo conosco..."
"Eu sei. Você está estressada com o final da faculdade, com esse seu novo trabalho e aquele seu outro velho trabalho. É muita coisa junta." Jenny disse de forma mais suave, carinhosa.
"Não é bem isso."
"Sabe o que poderíamos fazer?" Jenny disse de forma mais enérgica. "Vai ter esse show de rock no parque hoje à noite. Você adora shows de rock. Acho que deveríamos ir. Vai fazer bem a você. A gente pode tomar um pouco de cerveja, ouvir música, dançar um pouco... fazer amor depois lá em casa..."
"Ok..." Santana suspirou derrotada mais uma vez.
"É um encontro. Eu passo no seu dormitório às nove da noite, pode ser?" Jenny devolveu o dinheiro a namorada e a beijou na mão. "Você só está cansada, San. Vamos superar essa fase juntas."
Santana não respondeu. Apenas acenou e aceitou a carícia antes de ir embora. Não estava mentindo ao dizer que precisava mesmo estudar. Diziam que o último semestre da faculdade era o mais tenso e o dito provou ser verdade. Jenny fez uma leitura correta: o acúmulo de atividades estava fazendo mal a Santana. Mas o que Jenny não levou em consideração era que o relacionamento delas também era um fator de estresse. Mas isso ela não admitiria nem morta.
...
Rachel passou os olhos na lista de contatos mais de uma vez, e relutou em acionar qualquer um deles. Não havia nenhuma mensagem recente. A última que recebeu foi de Kurt, duas semanas anteriores, em que o amigo comentou perplexo sobre o fato de ele e Blaine ter começado a namorar, apesar de todas as diferenças entre os dois. Rachel ficou feliz pelo amigo, que sobreu muito com o fim do namoro com Adam. Mas eis que ela estava de volta a cidade e ninguém, a não ser Brody, sabia. Ela iria aparecer nos lugares, seria vista por conhecidos, falaria com os amigos, sabia que era uma questão de tempo. Então, por que tal falta de vontade? Ela gostava de Kurt, mas não sentia vontade de vê-lo, ou Finn, ou Tina, ou Puck, ou Mr. Schue. Rachel poderia fazer encenar um sucesso e glamourizar uma vida que não existia como atriz contratada de uma companhia média de teatro. Seus amigos mais antigos ficariam felizes e com ciúmes, mas ela saberia de toda verdade, tal como Brody. Pensou nos vigilantes. Ela não tinha a menor vontade de falar com Mercedes, Matt ou Artie. Mas provavelmente conversaria com Quinn. E quanto a Santana? Rachel não tinha um consenso a respeito. Santana tinha aquela energia maluca e atraente. Mas Rachel sabia que desapontaria a vigilante assim que a líder soubesse dos descontroles da atriz.
"Temos três opções." Brody disse enquanto consultava o blog com informes culturais. "Tem uma peça em cartaz no teatro amador chamada Brasília 80, tem um bar de karaokê que está fazendo uma competição, e tem um festival chamado Mangue Bit Sessions e Outros Covers. Parece que é no tal parque que você quer me mostrar."
"Ou podemos ficar e assistir a um filme."
"Chato!" Brody tentou fazer cosquinha em Rachel. "Vamos lá, Rach. Você precisa sair dessa deprê. Você veio para cá para fazer as pazes com seus monstros ou para se isolar num casulo? Se for assim, era melhor você ter ficado na metrópole, naquela capsula onde você mora."
"Então vamos ao parque."
Era uma opção relativamente simples de escolher pois, no escuro, a probabilidade de esbarrar com pessoas conhecidas é menor. Além disso, ela sabia que os velhos amigos estavam encenando a peça no teatro amador, e que havia alta possibilidade de encontrar gente da antiga faculdade comunitária em uma competição de karaokê.
...
"Tem certeza que você não vai querer ir?" Santana perguntou a Mercedes ainda no dormitório que as duas ainda dividiam: um feito raro entre colegas universitários.
"San, minha amiga, eu ia adorar testemunhar o seu desespero em ter de ficar com Jenny, mas eu tenho um encontro."
"Oh!" Santana sorriu. "Por um acaso é com aquele repórter por quem você anda sorridente nessas últimas semanas?"
"Por um acaso é."
Santana estava genuinamente feliz por Mercedes. O tal repórter era um homem de descendência peruana que fazia crítica de gastronomia e cobria eventos culturais. Mas, aparentemente, o festival de rock não estava na agenda dele.
"Bom, sendo assim, divirta-se, não se esqueça de usar camisinha. Se ele for cozinhar, traga um pouco para mim."
Santana sorriu para a amiga enquanto vestia-se para o encontro. Escolheu as roupas mais simples: calça jeans slim, blusa preta, bota e casaco. Nada de mochila, pois nenhum vigilante estava escalado para fazer patrulhas naquele dia. A ação contra a máfia e contra Big Sea era recente, e sempre que uma ação com repercussão midiática acontecia, a polícia costumava dobrar a patrulha nas ruas por alguns dias, o que tornava a circulação dos vigilantes mais delicada. Ao menos havia um efeito positivo nisso: a maior circulação da polícia, mesmo que pelo motivo errado, ajudava a inibir os pequenos crimes. Santana às vezes achava que a cidade não seria um buraco tão difícil e violento se o estado atuasse mais onde deveria.
A líder vigilante sabia que Artie tentaria ir ao festival juntamente com o tal George, que sabia inventar qualquer coisa. Que Quinn provavelmente ficaria na cabana junto com Beth. Marley? Santana tinha trocado algumas mensagens ao longo do dia explicando que Jenny estava na cidade, mas ela não tinha ideia do que a outra namorada iria fazer. Marley simplesmente a ignorou por completo nas mensagens.
Ouviu o alerta do celular. Era Jenny dizendo que havia chegado. Santana despediu-se de Mercedes e desceu até ao estacionamento. Jenny costumava alugar um carro compacto sempre que estava na cidade, ou quando resolvia ir a metrópole pela rodovia. Santana abriu a porta do passageiro e entrou.
"Oi." Santana disse antes de beijar a namorada nos lábios. Ela pretendia ser algo rápido, trivial, mas Jenny a segurou e aprofundou o beijo. Apesar de todos os problemas do relacionamento, Santana tinha que admitir que nesse setor, as duas ainda tinham química. "Wow!" Santana disse depois que rompeu o beijo. "Tem certeza que vai querer ir ao festival?"
"Eu disse, beijos, cerveja, música, dança e, depois, sexo. Eu vou cumprir o meu itinerário."
"Tudo bem. Só que o parque fica tão perto daqui, por que não deixa o carro estacionado e vamos à pé?"
"O show fica na parte sul do parque."
"E daí?"
"Põe o cinto. Nem todo mundo tem a sua disposição para andar ou correr."
Santana revirou os olhos. A parte sul do parque era mais próxima do apartamento que Rachel explodiu. Havia um pavilhão na região que costumava abrigar shows e eventos de médio porte, e também um amplo estacionamento. Jenny basicamente deu a volta ao redor da área do parque até o local do show. Não gastou nem cinco minutos. Santana não se surpreendeu quando Jenny a puxou para uma espécie de credencial vip. Já imaginava que Jennifer May jamais estaria em um festival como aquele se não fosse com credencial especial.
A entrada vip era na altura da lateral do palco. Com a credencial, era possível circular na área dos camarins, no espaço imediatamente à frente do palco, e a uma espécie de hall com mesinhas e pufes coloridos decorando o espaço. O festival já tinha iniciado e a segunda banda estava no palco. Jenny não estava muito interessada na música, mas em circular e socializar. Ela foi até ao food truck de um restaurante da moda, que servia a área vip e comprou dois copos de cerveja. Santana deixou que ela fizesse o que bem entendesse. O importante era que o som estava bom, e a cerveja estava gelada.
"Olha só quem está aqui! Não acredito!" Jenny correu em direção a um grupo de colegas que faziam parte do circulo social da alta sociedade em que ela costumava andar. Ela abraçou primeiro Mônica, com quem estudou.
Santana sentiu a pressão cair um pouco quando percebeu que Marley estava no grupo. Às vezes a vigilante se esquecia que a contadora tinha outro grupo social antes de se engajar com os vigilantes. Os pais de Marley eram pobres e humildes, mas Marley foi criada como a irmã mais nova de Grant entre os ricos da cidade, e que aquelas pessoas engomadas conviviam com ela desde sempre. Santana viu Marley cumprimentar Jenny e depois a encarar em tom de provocação.
"Oi Marley, como vai?" Santana a cumprimentou com educação, dando-lhe um beijo na bochecha e depois forçou um sorriso. Apesar de Santana saber quem eram aquelas pessoas por causa de Jenny, não cumprimentou ninguém mais.
"Oh, é mesmo! Eu tinha me esquecido que você e Marley são amigas." Jenny comentou de uma forma afetada.
Ironicamente, Jenny conheceu Marley por meio de Santana, depois que a contadora passou a administrar os bens dos vigilantes. Por outro lado, Jenny já tinha ouvido falar da filha da empregada que os Fishes resolveram praticamente adotar. Os Fishes não eram próximos dos May, mas era incrível como o círculo da alta sociedade era provinciano naquele estado. Era como moradores de uma cidade do interior em que todo mundo sabia da vida de todo mundo. Ou pelo menos, era assim que se pensava.
Se assim fosse, Jenny saberia que Marley e Santana eram muito mais do que pessoas que se conheceram por causa do relacionamento com Grant. Jenny não tinha ideia que Marley trabalhava para Santana e para os demais vigilantes. Da última vez em que as três estiveram juntas no mesmo lugar, Santana e Marley ainda não estavam envolvidas romanticamente. A vigilante procurou disfarçar, mas a verdade era que ela estava tensa. Não era que Marley fosse falar qualquer coisa, porque era discreta e ciente da situação. Ainda assim, não era nada confortável estar diante dela. Especialmente quando Jenny decidiu abraçar Santana pela cintura e beijá-la nos lábios na frente de Marley.
"Jen... porque a gente não vai até ao palco um pouco? Quero ver as bandas." Santana sugeriu mais para ter uma desculpa para se afastar de Marley e do constrangimento.
O casal de namoradas andou de mãos dadas até a parte em frente ao palco destinada ao público vip. A banda que se apresentava era ótima, tinha muita energia e presença. Faziam o cover de um clássico que Santana amava. Naturalmente, Santana abraçou a namorada por trás e começou a se embalar ao som da música.
"Quando a maré encher, quando a maré encher/ Vou tomar banho de canal quando a maré encher"
Perder-se na batida dos tambores fortes e da guitarra cheia de distorção ajudava a melhorar o clima. Santana foi se soltando na batida forte da música. Ela precisava de um pouco daquilo, de não ter de pensar em nada. Era só deixar o corpo reagir. E assim foi por mais três canções, até que Jenny a tirou do transe e a puxou novamente até o lounge da área vip para comprar mais bebida. Voltaram a ver o show, dessa vez Jenny quis se socializar com o grupo de amigos ricos. A banda continuava com o som forte, dançante, envolvente, mas o entusiasmo de Santana diminuiu. A verdade é que ela estava se sentindo uma canalha.
"Quer saber? Acho que vou dar uma volta da área comum. Tem umas barraquinhas ali atrás..." Santana desculpou-se. "Se quiser, você pode ficar, Jen. Eu só quero circular um pouco."
"Eu vou contigo, babe."
"Não precisa. Eu sei que você quer ficar aqui."
"Eu vou contigo." Jenny disse determinada.
Passada a área em que as pessoas se concentravam para ver o show, havia uma série de barraquinhas vendendo comida, bebidas e outras coisas, como roupas hippies, camisetas de bandas, bottons e bijuterias. Tinha maconha e outras drogas também, mas nem Santana e nem Jenny estavam interessadas. Aliás, se tinha uma coisa que Santana admirava na namorada era que, apesar de ela ter nada contra o álcool, Jenny detestava cigarro e drogas. Era algo que as duas tinham em comum.
"A praça de alimentação daqui é muito melhor!" Santana sorriu e foi a vez de Jenny revirar os olhos. Mas em um ponto a namorada tinha razão: a variedade da área comum era muito mais interessante do que o food truck chique da área vip.
Santana animou-se um pouco novamente. Comprou um hambúrguer gigante, que deixou a namorada impressionada e com inveja por não poder consumir o mesmo. Jenny comprou uma batida com vodca. Depois de satisfazer o estômago e se animar mais. Segurou a mão da namorada e caminhou com ela pelas barraquinhas. Não estava interessada em nada, apenas gostava do ambiente, de ver as pessoas andando de lá para cá, namorando ou à caça para encontrar alguém. Santana gostava de ver os grupos de amigos, da música ao fundo, do grito da plateia, e nem mesmo se incomodava com o cheiro da maconha.
Ainda de mãos dadas com Jenny, Santana viu uma pessoa que também circulava por ali. Achou que estivesse vendo uma miragem. Largou a mão de Jenny e foi ao encontro da pessoa em questão. Parou na frente da garota e mal acreditou no que viu.
"Rachel?"
Primeiro veio o susto, e depois da descrença. Parecia que aquele parque tinha uma energia mesmo estranha, capaz de reunir Rachel e Santana nas mais diferentes situações. Ao menos aquela não era nenhuma de vida ou morte, ou de violência.
"Santana... eu..." A atriz foi surpreendida com um abraço da vigilante.
"Você é real?" Santana sussurrou no ouvido de Rachel quando seu gesto foi correspondido.
"Aparentemente." Rachel sorriu. Encontrar com alguém conhecido, especialmente Santana, não foi tão ruim.
"Desde quando você está na cidade?" Santana quebrou o abraço e segurou na mão da atriz, ignorando por completo as presenças de Brody e Jenny.
"Hoje de manhã, para dizer a verdade."
"Uau... você nunca mais ligou, não manda mensagem faz uns seis meses! O que aconteceu?"
"Acho que aqui não é o melhor para colocarmos a conversa em dia." Rachel acenou para a namorada de Santana. "Olá Jenny. Como vai?"
"Vou bem, obrigada." Jenny apenas acenou.
"Esse é Brody, meu amigo e colega de teatro."
"Ei!" Brody sorriu para as duas jovens mulheres.
"Amor, acho que podemos convidar Rachel e o amigo para sair com a gente ou quem sabe almoçar amanhã ou depois. Mas é que eu gostaria de voltar para a área vip." Jenny enfatizou a área vip, para deixar claro que ela tinha certas vantagens.
"Claro..." Santana começou a voltar a si, fazendo a leitura da situação. "Rachel e... Brody, podemos combinar um encontro. Posso te ligar amanhã? O telefone é o mesmo?"
"Na verdade, eu mudei o número. Mas eu ainda tenho o seu. Eu entro em contato, Santana. Prometo."
"Ok. Até mais." Santana sentiu uma pedra de gelo vindo de Rachel que a desconcertou um pouco. Ela abraçou rapidamente Rachel uma vez mais antes de acompanhar a namorada.
O encontro casual com Rachel mudou completamente o humor de Jenny. Ao voltar para a área vip, Santana ficou em frente do palco, ao passo que Jenny preferiu ir ao lounge e comprou mais uma bebida forte. Jenny já sentia algumas alterações por causa do álcool, e isso a motivou ir ao encontro de Marley, que estava sozinha e sentada em um dos pufes. Puxou um banco e sentou-se ao lado da assistente.
"Eu odeio essa cidade. Parece que aonde quer que eu vá, esbarro em alguém que já ofereceu a vagina para a minha namorada."
Marley engasgou com o comentário de Jenny, e ficou parecendo que estava mais constrangida do que deveria. Jenny, sendo uma mulher muito esperta, começou a ligar os pontos rapidamente.
"Há quanto tempo você está transando com a minha namorada?" Jenny perguntou a Marley, que engasgou de novo com a abordagem direta.
"O que é isso? Santana e eu somos..."
"Corta o papo, Marley. A reação de vocês, o desconforto, e o seu engasgo ficou muito na cara. Santana mente muito mal, e você não parece ser melhor. Além disso, eu sei muito bem com quem estou lidando. Minha namorada não gosta de deixar os lençóis esfriarem, e eu tenho negócios em outra cidade. Eu sei muito bem o que ela faz quando não estou aqui."
"Jenny... olha..."
"Quer saber? Isso não importa. Não quando a queridinha dela acabou de chegar à cidade."
"Quem?"
"Rachel Berry, a atriz amadora de teatro. Não sabia? Aparentemente a única mulher que seria capaz de fazer Santana terminar comigo para ficar come ela."
"Rachel Berry está na cidade?"
"Você é lenta, não é mesmo, Marley?" Jenny disse em tom de deboche. "Rachel Berry, a paixonite suprema de Santana, está na cidade. A única concorrente que existe para mim." Ao ver a testa franzida de Marley, que estava mordendo os próprios lábios de tão nervosa, Jenny começou a rir. "O quê? Você acha que eu tenho medo da sua concorrência? Santana jamais me trocaria por você. Você não é nada. Tanto que depois desse showzinho de merda, na cama de quem ela vai estar? Se liga, garotinha. Santana só ficou contigo porque eu não estava por perto."
"Bom..." Marley tentou não ficar para baixo. "Se você não se incomoda com o sexo, então fique tranquila: minha relação com sua namorada é só pela diversão. Eu não me importo com ela, ou contigo."
"Você está mentindo." Jenny gargalhou. "Você se importa! Sua cara de cachorro chutado não mente. O que me dá pena. Entre eu e você... ela nunca vai te escolher. Eu só tenho uma adversária: Rachel Berry. Você? É só uma vagina e um par de peitos que serviu de distração para ela."
"É o que você acha?"
"É o que ela diz sobre todas as meninas com quem ela dorme nas minhas costas. Você não é exceção. Se quer um conselho, garotinha, é melhor você sair dessa, porque eu não acho que você aguentaria o tombo."
Santana se aproximou do lounge. Ela estava procurando um banheiro químico, e ao longe viu Marley e Jenny conversando. Ficou seriamente preocupada quando Marley levantou-se e passou por ela com o rosto fechado e sem dizer uma palavra. Nem queria imaginar o que Jenny possivelmente teria dito.
