Santana sentou na cama e se espreguiçou. Olhou para a companhia ao lado, que ainda dormia. Levantou-se e foi diretamente para o chuveiro. Fechou os olhos e deixou a água morna correr pelo corpo. Lavou o rosto, as partes íntimas e se higienizou. Jenny tinha os melhores sabonetes, xampus e cremes. Andava sempre perfumada, e isso era algo que Santana admirava na namorada. Secou-se e vestiu uma roupa de Jenny, aproveitando que as duas vestiam tamanhos de roupas semelhantes. As roupas de Santana estavam sujas, cheirando a cigarro, suor e álcool por causa do festival de rock na noite anterior. Embolou tudo e colocou dentro de um saco plástico para levar ao dormitório e lavar depois. Escolheu uma camiseta velha (ou a mais velha que Jenny se permitia manter no guarda-roupas) e uma calça de moletom que Santana costumava usar quando dormia com a namorada (e essa era a única razão que Jenny não a jogou fora ainda). Pegou algum dinheiro na carteira e desceu até a cafeteria que ficava naquele quarteirão de avenida. Comprou dois copos de café e dois pães recheados. Jenny estava acordada quando Santana voltou com o café da manhã. A namorada, ainda nua, levantou-se, vestiu o roupão sem se incomodar em fechá-lo. Foi até a vigilante, dando-lhe um beijo molhado.
"Bom dia!" Jenny disse contente. "Café preto?"
"Sem açúcar." Santana acenou e fez uma careta. Jenny gostava da bebida dela amarga, diferente de Santana, que adorava todas as misturas que se poderia colocar num café: chocolate, leite, chantili e tudo mais. "Não vai tomar um banho? Eu te espero."
"Está me chamando de fedida?"
"Estou!" Santana sorriu. "É o que acontece quando a gente chega de um show e vai direto para a cama."
"Sem mencionar no orgasmo entre uma coisa e outra." Jenny beijou os lábios da namorada e foi se lavar.
Santana suspirou enquanto aguardava Jenny fazer a própria higiene. Deitou-se na cama e olhou para o teto. Ficou pensando na noite anterior. Pensou no desconforto que gerou o encontro de Jenny com Marley, mas acima disso tudo, pensou em Rachel. Ela estava de volta a cidade e, aparentemente, com um namorado. Santana especulou que talvez fosse por causa dele que Rachel havia deixado de responder as mensagens, e quando o fazia, eram respostas vagas, apressadas. E foi assim até as comunicações entre elas deixarem de existir seis meses atrás. Então, pouco mais de um ano depois da última vez que viu Rachel, lá estava a diva em pleno esplendor de volta a cidade. Talvez estivesse passando férias, visitando os pais ou sei lá. Santana não queria parecer uma ex desesperada, mas ela gostaria muito de poder conversar com Rachel e entender o que aconteceu para as comunicações cessarem. Acima de tudo, ela queria saber se Rachel estava bem.
"Cadê o meu café?" Jenny saiu do banheiro com os cabelos ainda molhados e agora propriamente com o roupão fechado.
Santana levantou-se mais uma vez para tomar o café da manhã com a namorada. Ficou em silêncio enquanto comia o pão recheado. Reparou que a namorada não tocava na comida dela.
"Não vai querer?" Santana franziu a testa. Aquele pão recheado sempre foi um dos favoritos de Jenny.
"Estou de dieta."
"Coma pelo menos a metade. Você bebeu muito ontem e não pode ficar de estômago vazio. Você também costuma ter muita tontura quando faz essas dietas malucas." Santana repartiu o pão e ficou com a outra metade. O organismo dela processaria tudo num instante, de qualquer maneira.
"É por isso que eu gosto de você. Está sempre cuidando de mim!" Santana deu de ombros ao elogio de Jenny. "O que vamos fazer hoje?"
"Eu vou treinar. Podemos combinar algo mais à noite."
"Não vai patrulhar neste fim de semana?"
"Talvez eu ande pela cidade à paisana."
"Gostaria de ir contigo dessa vez, se você for andar pela cidade à paisana."
"É perigoso, Jenny."
"Mas você andava com aquela Rachel, não é mesmo? Não era perigoso para ela também?"
Santana passou a mão pelo rosto e suspirou fundo. Lá vinha aquela história mais uma vez.
"Eu nunca quis envolver Rachel em nada daquilo. Foi uma coincidência. Eu a salvei de uma enrascada, ela descobriu a minha identidade, e depois me ajudou em algumas coisas."
"Você já me contou essa história."
"Então por que você ainda insiste?"
"Porque eu sou a sua namorada, sei o seu segredo, e estou disposta a te ajudar. Não acha que você deveria me incluir mais?"
"Não. Porque é perigoso e porque eu me importo contigo e com a sua segurança."
"Então o fato de você ter envolvido Rachel foi porque você não gosta dela?"
"Será que a gente não poderia comer em paz?" Santana estava desesperada para sair daquele apartamento e do interrogatório.
"Desde quando você dorme com aquela Marley?" Santana fechou os olhos e se preparou para a explosão da bomba. Preferiu não responder. "Não te incomoda saber que ela já até abortou?"
"Isso não é da minha conta." Santana queria sair correndo dali. Ela contou, em linhas gerais, a história de Marley para Jenny, quando as duas foram apresentadas. A namorada ficou com ciúmes da súbita aproximação de uma nova garota, e Santana disse que se tratava de uma irmã de consideração de Grant, que era uma prodígio, mas que teve problemas no passado com drogas e sexo, e que tinha feito até um aborto quando ainda era adolescente. Santana mencionou isso uma única vez e não esperava que Jenny guardasse na memória esse detalhe mais de um ano depois.
"Você não é contra o aborto?"
"Eu sou católica."
"E lésbica."
"E daí? Não muda o fato de eu ter crescido na igreja católica, de ter feito primeira comunhão e de acreditar em alguns dos dogmas da igreja. E qual é o ponto dessa conversa?"
"Me diga você, Santana?"
"Você quer que o meu eu católico a condene? Não, eu não acho que o que ela fez foi correto, mas eu não sou juiz. Isso é algo que ela vai ter que resolver com a própria consciência e com Deus. É nisso que acredito. Satisfeita?"
"Mesmo assim, você dormiu com ela."
"Você quer que eu conte detalhes de como me envolvi com Marley? É isso?"
"Você dormiu com ela!" Jenny gritou. "E não foi uma única vez."
"Sim!" Santana disse num desabafo e foi como se um peso enorme tivesse saído do peito. "Eu durmo regularmente com Marley, se quer saber. Faz dois meses que ela é praticamente a minha namorada. Mais do que você jamais foi."
O tapa que Santana recebeu no rosto foi esperado. Bem melhor do que se Jenny resolvesse jogar o café na cara dela. Santana não reagiu. O tapa em si não a machucou. O orgulho, esse sim, estava um pouco ferido. Mas ela viu ali também uma oportunidade.
"Isso está errado." Santana desabafou.
"Sobre você me trair? Definitivamente."
"Sim, eu estou errada por te trair. Mas eu estou mais errada ainda por continuar esse relacionamento contigo. Tudo está errado entre nós, será que você não entende? Isso... nós... não faz mais sentido, Jenny. Como podemos continuar juntas? Como você pôde ter dormido comigo na noite passada sabendo que eu e Marley temos um caso? Para ser sincera, eu já estou no automático aqui. Eu conheço todos os seus botões e vice-versa. É isso o que resume a nossa relação hoje em dia. Quando você está aqui, não faço nada além do que lidar com o seu ciúme e transar. Mas isso é ao mesmo tempo o que te faz ser previsível, o que é algo que eu consigo lidar na minha que é bem imprevisível. Isso não é um relacionamento, Jenny. É só uma situação conveniente."
"Você me pergunta como posso ter dormido contigo sabendo de Marley. Eu sempre soube das suas outras, Santana. A verdadeira pergunta é como você pode ter dormido comigo pensando em outra?" Jenny tentou rebater. "Isso sim é ofensivo!"
"Eu não dormi contigo pensando em outra pessoa. Eu dormi contigo pensando no quanto isso está errado. Eu me importo contigo, eu só desejo o melhor para você, mas eu não te amo mais."
"Você ama Marley?"
"Eu não sei o que sinto por ela. Mas pode ter certeza que Marley não é o problema aqui. Nós somos o problema, Jen. Nós. Eu não te amo mais, e nem você me ama. Essa é a verdade. A nossa relação não tem mais futuro algum." Santana suspirou, pegou o celular e a sacola de roupa suja do dia anterior. "Isso está errado. Está errado há muito tempo. Não dá mais, Jenny. Não tem como continuar assim. Acho que isso coloca um ponto final na nossa relação."
"É o que você quer" Jenny virou o rosto para esconder as lágrimas e a raiva. "Deve ser muito engraçado fazer uma pessoa deixar os próprios afazeres para vir aqui e ficar contigo, porque te ama, só para você poder pisar em cima."
"Não, Jen! Eu só quero que você seja feliz e livre. Assim como eu também quero ficar livre." Santana foi andando até a porta de saída. "Assim que lavar, eu devolvo suas roupas."
"Não se incomode, Lopez."
"Jenny... sobre a minha outra identidade..."
"Não se preocupe que eu não vou contar às autoridades que você é a vigilante."
"Obrigada." Santana acenou antes de sair.
Quando a porta se fechou, Jenny olhou raivosa.
"Não vou contar... ainda..."
...
"Desculpe te incomodar." Santana disse em tom baixo assim que entrou no carro de Marley. "Mas o meu carro está com Fabray, e pegar um uber até a cabana vai sair caro."
"Não precisa se justificar, Lopez. Eu sou paga para isso." Marley ligou o carro e começou a dirigir rumo à cabana.
Santana balançou a cabeça negativamente. Não era verdade que Marley era paga para fazer favores particulares a qualquer vigilante. As funções dela estavam muito claras no "contrato": administração dos bens. Tudo que ela fazia além dessa obrigação, era porque queria e podia, não porque era obrigada. Santana sabia muito bem disso, Marley sabia muito bem disso, todos os vigilantes sabiam que Marley era quem administrava a grana, mas que também era uma pessoa que optou por se tornar um membro da equipe.
"Desculpe pelo constrangimento de ontem. Eu nunca imaginei que Jenny pudesse te confrontar. Eu nunca disse nada a ela sobre nós."
"Eu estou ciente da natureza do nosso relacionamento." A voz de Marley continuava tão fria quanto as mãos de Quinn Fabray.
"O que Jenny disse para você ontem? Eu perguntei, mas ela não quis dizer."
"Eu não estou a fim de falar a respeito."
"Seja o que for, me desculpe. Mil desculpas."
"Santana, você não precisa se desculpar pelos atos de Jenny. Talvez você devesse se desculpar por ainda estar em um relacionamento com aquela... pessoa." Marley tentou manter as emoções controladas. Mas era difícil quando foi preciso encarar Jennifer May para confrontar com os próprios sentimentos a respeito da relação dela com Santana. Ela já não pensava mais que as regulares transas casuais eram só por diversão.
"Jenny e eu terminamos agora pela manhã."
"O quê? Você quer que eu dê graças a deus? Que eu caia de joelhos e agradeça por agora nosso relacionamento ser possível ou oficial?"
"Não. Eu sei que a gente chegou a alguns termos, Marley. Eu sei que nós ainda estamos testando as águas. Mas ainda assim, eu tenho que me desculpar por qualquer coisa que Jenny possa ter falado contigo. Eu sei que você não merecia ter ouvido sabe-se lá o que Jenny tenha dito. Sei que não foi coisa boa, porque eu a conheço muito bem."
Marley aproveitou a parada no semáforo para fechar os olhos e apertá-los um pouco.
"Eu dormi com o meu amigo, Ryder, depois do show. Como a gente sempre foi uma transa casual, eu me dou a liberdade de ter transas igualmente casuais com outras pessoas. Espero que você não fique chateada." Marley disse em tom zombeteiro.
Santana emudeceu. Por mais que ela tivesse dito para Marley que estava tudo bem se ela tivesse um relacionamento causal com outras pessoas, uma vez que a própria vigilante já tinha uma namorada, saber que Marley dormiu com outra pessoa doeu um bocado. Foi como se tivesse recebido um chute no estômago. Talvez ela estivesse emocionalmente envolvida com Marley mais do que gostaria. Diante do silêncio massacrante, Santana resolveu ligar o rádio do carro. Estava passando uma música da Anitta. Isso a deixou ainda mais irritada. Trocou as estações, mas nada lhe agradava. Preferiu deligar o rádio. Marley também não se opôs. Ao chegarem na cabana, Santana desceu do carro, e estranhou pelo fato de Marley não ter desligado o motor.
"Não vai descer?" Santana perguntou.
"Não." Marley respondeu seca. "Diga a Quinn que eu mandei um alô."
Santana fechou a porta do carro e se afastou. Marley manobrou e seguiu de volta na pequena estrada de cascalho que dava acesso a cabana. Santana estava desolada, sem chão. Terminar com Jenny foi mais difícil do que pensou que seria, mesmo sabendo que o relacionamento estava condenado desde o início. Levar um fora de Marley no mesmo dia também foi doloroso, sobretudo pelo estado de fragilidade emocional que a vigilante se encontrava.
Não precisou bater à porta. Logo viu Quinn na varanda de entrada da cabana, com Beth logo atrás dela. Santana abriu um sorriso forçado e foi até as ocupantes do local.
"Bom dia!"
"As coisas não parecem ir bem para o seu lado." Quinn ergueu a infame sobrancelha. "O que você aprontou dessa vez?"
"Eu não fiz nada."
"E eu sou a rainha da China."
"A China não é uma monarquia."
"Exato!"
Santana balançou a cabeça em descrença. Era incrível como o mundo dava voltas. Quando ela podia esperar que de todas as pessoas, Quinn teria se tornado uma das boas amigas que já teve? Amiga de verdade. Muito embora Quinn tivesse uma beleza de tirar o fôlego, Santana estava mais interessada na habilidade ímpar de Quinn observar as coisas ao redor e ser franca a respeito.
"Quer saber, Lopez? Beth e eu estávamos fazendo o almoço. Você pode ajudar arrumando a mesa e depois podemos conversar."
"Obrigada."
"Sinta-se em casa... aliás... a casa é sua mesmo."
Santana estava com o estômago fraco, estava triste, perturbada. Terminar com Jenny, por mais que não quisesse ter deixado transparecer, a deixou mal. Pior ainda foi a indiferença e as notícias indigestas de Marley. Era um dia horrível. Santana sentiu vontade de ir para o quarto dela na cabana e chorar o dia inteiro enquanto secava uma garrafa de vodca. Em vez disso, engoliu a tristeza e decidiu trabalhar.
...
"Vamos lá, Fabray!" Santana bloqueou mais um golpe da colega com facilidade. "Você pode fazer melhor que isso."
"Eu não tenho superforça!" Quinn esbravejou.
"E nem o Batman! Mas isso não o impediu de chutar o traseiro do Superman."
"Você está me comparando com um personagem de quadrinhos?"
"Não posso? Quinn, olhe para nós! Nós temos superpoderes e somos vigilantes! A única coisa do Batman que seria ficção para nós é toda aquela tecnologia e toda aquela grana."
Quinn virou os olhos. Ela então suspirou, levou as mãos a cintura e procurou relaxar um pouco. Estavam na área próxima a cabana, sendo observadas de perto por Beth. Quinn precisava desenvolver tanto os poderes quanto as habilidades de luta, especialmente se ela quisesse ajudar mais nas patrulhas. Mas a questão ia muito além disso: Santana se sentia responsável pela segurança de Quinn e de todos os outros. Tudo era muito mais fácil e simples quando era apenas ela batendo em alguns bandidos. Quando tudo ficou tão complexo? O pior de tudo era que ela sentia uma tremenda falta de Grant. Ele sempre sabia o que fazer. Santana também sentia muita raiva. Como ele pôde deixar nas mãos dela tamanha responsabilidade? Era como se desistir de tudo e viver uma vida comum deixasse de ser uma opção.
"Tente resfriar o corpo." Santana instruiu.
"Por quê?"
"Porque dói muito mais se você acerta com as mãos congeladas, e porque você ganha vigor físico quando se esfria."
Quinn se concentrou. Os olhos ficaram cinzas e começou a surgir um nevoeiro congelante em volta das duas. Uma fina camada de gelo envolveu as mãos de Quinn. Então ela voltou a posição de ataque e repetiu a rotina que Santana havia lhe ensinado. Teve de admitir que ela realmente se movimentava melhor quando resfriava o próprio corpo. Parecia que tinha ficado mais leve e rápida. O nevoeiro também era um elemento interessante de combate corporal, uma vez que dificultava a visão do adversário.
Quinn e Santana passaram a tarde treinando. Começaram com uma rápida musculação, depois fizeram uma corrida ao redor da área de cabanas (em que Santana dava três voltas a mais na região do que Quinn), e terminaram com o treino de combate corporal.
"Você nunca tentou projetar energia para jogar gelo nas pessoas?" Santana questionou.
"Não dá. O que eu iria fazer? Criar uma bola de neve e jogar na sua cabeça?"
"Mas você resfria o ambiente a sua volta. Isso é projeção de energia."
"Não adianta, Lopez. Eu não consigo soltar raios de gelo, se é o que está pensando. Eu teria de ter poderes como os de Matt ou os de Rachel."
"Seria bem útil."
"Quer saber? Eu estou cansada e com uma fome dos diabos." Entrou para a cabana, abraçando Beth no caminho, erguendo a filha e a balançando, provocando risadas da menina. "Que tal um super waffle?"
"Com chocolate derretido?"
"Exatamente."
Santana observou a uma distância respeitosa a interação entre mãe e filha. Depois de uma tarde inteira de treinamento, fazer um lanche calórico não seria nada mal. Poder comer de tudo e sem restrições definitivamente era uma das melhores coisas em se ter habilidades especiais. Quinn cumpriu a promessa para a filha: preparou um monte de waffles, enquanto Santana e Beth ajudavam a arrumar a mesa. Comeram enquanto conversavam amenidades. Falaram sobre os filmes de animação e as atividades de Beth na escola. A menina parecia não sentir a menor falta de voltar ao antigo bairro, e o fato de ela ainda estudar na mesma escola ajudou muito nisso, pois ela não perdeu o contato com os colegas. Apenas deixou de ser vizinha deles. Além disso, a nova "casa" tinha muito espaço, dois andares, um quarto bem maior do que o minúsculo espaço que ela ocupava, e o "quintal" era imenso.
Ao final do jantar, e de lavar todas as louças, as três foram tomar banho. Santana mantinha sempre duas ou três mudas de roupas na cabana, guardadas no quarto que ela sempre ocupava, além de itens de higiene pessoal. Já com roupas limpas e o corpo refrescado, desceu as escadas e sentou-se no sofá. Conferiu o celular e respondeu algumas mensagens de Mercedes, Artie e do trabalho. Viu que os colegas não tinham avançado nas investigações do principal caso, mas Mercedes fez um update a respeito das consequências da prisão de Big Sea. Parecia que o velho bairro estava sendo reivindicado pelo traficante vizinho. Algo que Santana teria de tomar providências logo, para frear a ascensão de um novo pequeno rei do crime. Mas não havia nada a respeito de Rachel, Marley ou Jenny. Isso a deixou frustrada e triste. Jenny e Marley não iriam mesmo querer falar com ela. Mas e quanto a Rachel? Depois do encontro totalmente casual na noite anterior, ela achava que a amiga iria ao menos mandar uma pequena mensagem. Afinal, Rachel disse que mudou o número do celular, mas que ainda tinha o contato de Santana. Talvez o dia de Rachel tivesse sido agitado também.
"Beth já foi dormir. Deve pegar no sono daqui a pouco." Quinn disse enquanto descia as escadas.
"Você não alivia o horário de ela ir dormir nem aos sábados?"
"Não. Ela só tem seis anos. Só vou deixar reivindicar outros horários para dormir quando ela tiver uns 12 anos."
"Pobre, Beth! O que ela fez para merecer uma mãe tão carrasca?" Santana ironizou.
"Agora podemos conversar sobre as suas encrencas amorosas." Sentou-se no sofá ao lado da amiga. "Só recapitulando: você terminou tudo com Jenny, Marley está puta contigo e Rachel está na cidade."
"Correto."
"Santana Lopez, é observando a sua vida que eu agradeço pela minha chata e tediosa falta de ação no campo amoroso."
"Eu te invejo exatamente por isso, Fabray. Mas não pense que eu procuro por esse tipo de problema." Ao ver a cara de Quinn, Santana reformulou. "Ok, talvez eu tenha procurado esse tipo de problema quando eu e Marley começamos esse lance. Mas, em minha defesa, eu não fiquei com mais ninguém nesse tempo todo além de Jenny e Marley."
"Mas e aquela garota negra do café?"
"Yvonne? Só foi... uns dois encontros. E foi antes de Marley."
"Teve mais alguma? Eu não estou lembrada."
"Não teve mais ninguém."
"Você sabia que passar uma noite com uma pessoa entra na contabilidade?"
"Não teve mais ninguém nesse tempo todo, Fabray." Santana respondeu irritada com o julgamento da amiga. "Em minha defesa, o meu relacionamento com Jenny já estava em uma situação insuportável nesses últimos meses."
"É por isso que você procurou Marley em primeiro lugar?"
"Foi casual. Todas essas noites de patrulha com ela sendo a watchtower... eu bem que tentei evitar, mas acabou rolando. Mas eu nunca escondi dela sobre a situação do meu relacionamento com Jenny, e nós concordamos em manter esse relacionamento... aberto e casual. Que eu jamais a censuraria caso ela se envolvesse com outra pessoa. Mas foram dois meses com Marley... só com Marley. Ontem teve esse festival de rock no parque. Jenny é que nem esses cachorros farejadores. Ela deve ter notado o clima de constrangimento entre Marley e eu, e ligou os pontos. Eu não sei o que ela disse a Marley, mas deve ter sido algo muito ruim para ela passar a sentir tanta raiva de mim e terminar a noite dormindo com um cara."
"Oh!" Quinn fez cara de dor. "Você estragou tudo direitinho. Sinceramente, eu não me importaria caso essa sua bagunça não corresse o risco de respingar em mim. Mas se quer saber? Você não é a vítima aqui. Aliás, nenhuma das três é. Jenny ficou contigo mesmo sabendo o tempo todo que você não a amava. Marley aceitou dormir contigo sabendo do seu relacionamento com Jenny. E você é uma arrogante womanizer. Aliás, você precisa agir como qualquer pessoa normal e aprender a viver um relacionamento de cada vez."
"Acredite se quiser, Fabray, mas a fase de eu querer dormir com um monte de garotas na faculdade passou. Eu não penso mais nisso. Minhas prioridades nesse momento são, nessa ordem, as atividades vigilantes, os vigilantes, me formar, meu emprego, pagar as contas. Relacionamentos não estão nem no top 10 da minha lista."
"Fico contente por eu ser uma prioridade para você, já que eu estou no time."
"Por que você acha que eu cedi o meu carro, que os meus pais me deram, para você?"
Quinn acenou e agradeceu silenciosamente pelo voto de confiança.
"Se quer saber, Santana? Eis o que eu faria. Eu ligaria para Jenny e assumiria toda a culpa. Deixaria claro que não gostaria de reatar, mas é uma questão de fazê-la pensar quem está por cima. Depois eu ligaria para Marley, e a convidaria para uma conversa em um lugar interessante. Eu jogaria limpo com ela. Quer dizer, se eu quisesse continuar esse rolo, eu acabaria com essa palhaçada de relacionamento aberto. Eu também ficaria longe de Rachel."
"O que Rachel tem a ver com essa história?"
"Estou falando do seu casinho mal resolvido com ela. Se eu me lembro bem, antes de Rachel ir embora, vocês duas ficavam se beijando pelos cantos."
"Casinho mal resolvido, mas definitivamente encerrado. Eu gosto dela, mas... estou em outra agora."
"Ótimo! Rachel está fora!"
"Não é tão simples. Rachel é uma de nós."
"Só porque ela tem poderes, não quer dizer que ela seja uma de nós. Ela nos ajudou com o caso de Martinez, treinou conosco por uns... 15 dias? Mas faz um ano que ela foi embora. E faz seis meses que ela passou a nos ignorar por completo. A mensagem é claríssima, Santana: Rachel não está minimamente interessada."
"Não é tão simples. Não é preto no branco."
"Claro que não é simples. Mas chega um momento que se precisa fazer demarcações. Ou Rachel é do time ou ela não é. Se quer saber a minha opinião? Ela não é. Rachel passou um ano tentando ser atriz, enquanto nós passamos um ano ralando nossas bundas para deixar essa cidade menos perigosa. Ela não é o nosso problema!"
"Acho que você tem razão."
"Óbvio que eu tenho." Quinn piscou para Santana. "Aceita uma cerveja para encerrar a noite?"
"Aceitaria até algo mais forte."
"Pode ser... você está precisando chorar, de qualquer maneira."
"Quem disse que eu quero chorar?"
"Você está querendo enganar quem, Lopez? Você passou o dia todo com a voz embaçada e sem a concentração usual."
"Eu não..."
"Corta o papo. Até mesmo uma womanizer canalha como você merece chorar depois de hoje."
Santana acenou para a amiga. Sim, ela passou o dia inteiro segurando o choro, tentando ser forte. Mas foram quatro anos de namoro com Jenny que se encerraram. Não era fácil. Nem isso, e nem o suposto fim abrupto com Marley. A vida estava uma merda naquele momento. Santana pegou o vidro de vodca, que estava pela metade, no armário de bebidas. Serviu dois shots para ela e para Quinn. As duas brindaram e beberam. Quinn fez um afago na cabeça da líder e subiu as escadas para verificar se Beth estava bem e para se deitar.
Santana viu Quinn subir as escadas. Quando se viu sozinha, deixou a bebida de lado. Encostou-se no sofá da sala e se permitiu chorar até ela própria adormecer.
...
Kurt não conseguia parar de olhar de lado, na direção de Brody. Ele se mexia impacientemente com a xícara de café. Girava para um lado, para o outro, como se tentasse que a peça de cerâmica absorvesse todo o desconforto que sentia. Blaine, ao lado dele à mesa, conversava sobre a metrópole, e de como ele próprio tinha vontade de se aventurar na cidade no verão que já batia à porta. Blaine decidiu passar um ano sabático antes de ingressar na faculdade. Ele e Kurt estavam morando juntos em um pequeno apartamento, não muito diferente daquele em que Kurt dividia com Rachel. Kurt começou a investir na carreira de personal stylist, trabalhava meio período como vendedor em uma loja de roupas e, por fim, ensaiava duas vezes por semana no teatro amador. Era uma vida muito diferente de Blaine, que passou a ser uma atração semanal e regular em um bar da cidade, e tentava investir na própria música. De família rica, Blaine ainda viajava sempre que possível para qualquer parte do mundo, e ainda tinha condições de arcar com os custos do namorado.
"Muitos dos nossos amigos também cantam em bares para complementar a renda." Brody conversava com Blaine. "Tenho um amigo, um guitarrista excepcional, que toca todos os domingos na feira livre. Ele até que consegue algumas gorjetas legais."
"Gostaria que isso fosse mais comum aqui. Conheço alguns caras que investem nesse tipo de coisa, mais pelo prazer, porque o público potencial é muito pequeno." Blaine comentou.
Kurt terminou por derrubar a xícara, derramando o conteúdo pela mesa que, para o próprio azar, caiu mais nas roupas dele. Os outros começaram a pegar guardanapos para conter o estrago. Rachel não. Ela podia estar a um milhão de anos sem falar com o melhor amigo, mas nunca esqueceria o que estava por trás de certos maneirismos. Ela precisava conversar às sós com Kurt, sem Blaine e sem Brody.
"Kurt, se a gente for um pouco lá fora, vai ajudar a secar um pouco a roupa." Rachel inventou a desculpa e o amigo concordou.
Deixaram Blaine e Brody à mesa e saíram da cafeteria que era próxima a faculdade comunitária. Era possível ver dali a livraria onde Quinn trabalhava, e também o movimento em frente a faculdade de todos os jovens que ou não foram aceitos em universidades melhores, ou simplesmente não tinham dinheiro para pagar por uma.
"Está tudo bem?" Rachel perguntou ao amigo.
"Estou..."
"Você detestou Brody, não é?" Rachel deu um pequeno sorriso.
"Oh, por deus, Rach, no que está pensando? Com certeza ele é bonito, e não duvido que ele tenha outras qualidades atraentes entre quatro paredes, mas vocês não têm nada a ver um com outro."
"Brody é só meu amigo. O único que fiz naquela cidade..."
"Só amigo?"
"Que diferença isso faz, Kurt?"
Kurt não tinha uma resposta. Talvez estivesse com tal postura porque não gostou de Brody, e muito também porque não estava habituado em ver Rachel com outra pessoa além de Finn (ou da vigilante).
"Desculpe. Acho que estou um pouco amargo porque você não me avisou que estava voltando. A gente sempre falou tudo um para o outro, e quando você partiu sem mim, doeu pra caramba. Confesso que torci um pouco para que você falhasse miseravelmente."
Rachel encarou o amigo com perplexidade. No estante seguinte, caiu na gargalhada. Obviamente que Kurt torceria contra, porque no jogo de divas, no fundo uma sempre quer que a outra torça o tornozelo. As risadas de Rachel deixaram Kurt confuso por um segundo. Mas só por um segundo. Depois ele próprio começou a rir junto com a amiga. Terminaram se abraçando, mostrando ao outro o quanto estavam com saudades. E, na montanha russa de emoções, Rachel chorou nos ombros de Kurt.
...
"Finn está feliz. Ele continua a ser treinador auxiliar do time de futebol. Eles vão estar em campo neste fim de semana. Ele e a Laura começaram a namorar não muito depois que você partiu. Não sei se ele te esqueceu, mas ele está seguindo adiante." Kurt disse enquanto ele e Rachel conversavam pelas ruas. "Os outros da turma estão bem. Puck entrou para o exército, Sam voltou para a faculdade, Tina... está por aí. Desde que ela arrumou um namorado que a gente já não se fala mais com frequência. O professor Schuester continua o mesmo."
"Como é o novo grupo do teatro?" Rachel perguntou enquanto tomava o sorvete.
"É mais fraco, se quer a minha opinião. Tem apenas uma garota, Jane, que é promissora. O restante não vai passar do amadorismo. Não há mais ninguém como nós."
"As coisas realmente mudam."
"Sim... por isso que eu te pergunto e exijo uma resposta sincera desta vez, Rach. Por que você voltou? Não insista em dizer que são as férias entre as temporadas. Eu te conheço. Você jamais choraria no meu ombro se não estivesse se sentindo miserável."
"A companhia de Shelby é realmente muito profissional. O salário é uma porcaria, mas ao menos é um salário. O trabalho é duro, Shelby é uma tremenda diretora e uma excelente técnica de voz. Eu melhorei 100% sob o comando dela. Mas ficar lá não é fácil. Na primeira semana, uma das sócias da companhia, a diretora de dança e coreografia, me pegou para Cristo, para ser um exemplo de humildade forçada. Depois veio Jesse... cujo problema não foi exatamente ele dormir comigo antes de me descartar. O que me magoou foi ele me ter feito sentir especial para depois me esmagar na sola do chinelo. Daí veio Brody."
"Qual é o seu lance com ele?"
"Amizade com benefícios."
"Rachel Berry, nunca imaginei."
"Eu me envolveria mais seriamente com Brody, mas ele é um sujeito complicado. De um jeito que fica impossível tentar ter um relacionamento de verdade."
"Mas você gosta dele?"
"Sim e não. Sim, eu gosto dele, mas não, eu não estou apaixonada por ele. Brody é um excelente amigo, Kurt. Talvez seja um pouco cheio de si mesmo, mas ele me escuta e tenta não me julgar. Isso é refrescante."
"Você está dizendo que eu te julgava?"
"O tempo todo!" Kurt balançou negativamente a cabeça. Para a própria vergonha, não podia discordar da amiga. "Brody veio comigo porque ele quer me ajudar em uma coisa. Eu preciso de um chão, de um equilíbrio, e ele está aqui para me ajudar a me reencontrar."
"Eu sinto muito que você tenha passado por isso. Não posso dizer que eu mesmo esteja plenamente feliz com Blaine. Quer dizer, Adam foi embora e Blaine estava logo ali. Ele é esperto, ambicioso, talentoso. Sei que ele vai me deixar em breve, porque eu sou uma âncora, assim como Finn foi a sua âncora por muito tempo. Eu não quero ser uma âncora para ninguém."
"Você deveria voltar comigo para a metrópole."
"Eu não sei, Rach. O que eu faria lá?"
"A pergunta é: o que você faz aqui? Pelo menos lá você estaria tentando, em vez que se lamentar por nunca sequer ter se arriscado. Esse é um arrependimento que nunca terei."
Kurt refletiu por um momento e fez uma rápida revisão da vidinha medíocre que ele levava na cidade. Ele talvez estivesse confortável demais em ir a lugar algum. Quando foi que ele chegou a esse ponto? Kurt e Rachel entraram em uma loja de instrumentos musicais apenas porque não tinham nada melhor para fazer. Rachel folheou algumas partituras e materiais didáticos para canto. Não havia nada ali que não pudesse ser encontrado na metrópole. Aquela loja era uma das preferidas de Finn, o que deixou Rachel um pouco ansiosa com a possibilidade de reencontrar o ex-namorado. Em vez de Finn, acabou esbarrando em outra pessoa. Uma por quem sequer pensava a respeito.
"Não é possível!" A mulher disse de forma grosseira.
"Oh... Jenny..." Rachel encarou a jovem mulher que estava usando óculos escuros. "Como vai?"
"Você deve estar se divertindo com isso, não é mesmo? Bastou você aparecer na cidade para ela ficar toda confusa."
"Ela? Você está falando de quem? Santana?"
"Não, estou falando do coelhinho da páscoa."
"Olha... Jenny... seja lá o que tenha acontecido, eu não tenho nada a ver com a sua namorada. Na verdade, fazia mais de seis meses que eu sequer falava com ela, nem por mensagens. O encontro de ontem... foi puramente casual. Ela sequer tem o meu telefone. Então, o que quer que tenha acontecido entre vocês, eu não tenho nada com isso."
Jenny se aproximou perigosamente de Rachel.
"Não se faça de tonta. Aliás, é bom você sair do meu caminho, perdedora. Eu sei a outra identidade de Santana, e eu sei que você é uma associada. Eu posso te colocar na cadeia se eu quiser."
"Coloca então! Eu não tenho nada a esconder."
"É o que veremos." Jenny sorriu cinicamente. "É melhor ficar esperta ou eu levo as duas para o buraco."
Kurt, que estava a uma distância que lhe permitiu observar e ouvir tudo, tomou a frente de Rachel, mesmo sem saber exatamente do que Jenny estava falando.
"Eu acho melhor você ir andando, bitch. Ou eu vou arranhar toda essa sua cara perfeita e fazer um novo corte desses seus cabelos com as minhas próprias unhas."
Jenny fez uma pequena menção em encarar Kurt, mas depois recuou, colocou um pequeno sorriso cínico no rosto e virou as costas. Kurt suspirou e virou-se para a amiga. Rachel estava paralisada.
"Rachel..." Kurt sussurrou. "Seus olhos..."
