Santana se preparava para patrulhar em trajes "civis" no final daquela tarde de domingo. Colocou uma camiseta da universidade, uma calça jeans e calçou um tênis. Mercedes estava olhando pequenos apartamentos para alugar, uma vez que ela e Santana estavam prestes a deixar o dormitório. Ainda não tinham discutido se continuariam ou não a morar juntas, mas tudo indicava que a resposta era sim.

"Encontrou alguma coisa boa?" Santana perguntou enquanto colocava a máscara dela dentro da mochila.

"Talvez. Não quero fazer uma lista grande demais de opções. Mas não há apartamentos bons disponíveis para o que estou disposta a pagar de aluguel. Há muita coisa no bairro da Quinn."

"Ela não reclamava tanto assim de lá, até acontecer o incidente com o traficante."

"Verdade, só que não é a minha primeira opção."

"Sempre tem um trailer disponível também..." Santana deu um beliscão de leve na bochecha da amiga, só para provocar.

"Vai sonhando Lopez!"

O celular de Santana vibrou com a chegada de uma mensagem nova. Ela pegou o aparelho, e franziu a testa ao ver que a origem era Kurt Hummel: justamente um sujeito com quem ela não conversava há quase um ano. Ficou até surpresa por ele ter o telefone dela ainda. E o que mais a incomodava na ocasião é que Kurt só entraria em contato com ela por um único motivo: Rachel Berry. A leitura da mensagem confirmou a urgência. Ela respondeu a mensagem, e recebeu de volta um mapa de localização. Sem dizer a Mercedes aonde iria, simplesmente pegou a mochila, a colocou nas costas e correu para fora do dormitório.

Não tinha mais o carro, mas a corrida não seria longa. Atravessou o parque correndo, que àquela hora ainda estava movimentado. Pegou um atalho e agarrou-se a um caminhão que estava indo na direção desejada. Era em momentos assim que gostaria que Artie estivesse perto. Voar seria muito mais fácil do que se movimentar por terra quando se estava com pressa. Estava indo em direção a uma das ruas do bairro tradicional, que era um lugar cheio de lojinhas de toda natureza, alguns bares, e muita gente simples que morava por ali nos prédios antigos que tinham entre três e quatro andares.

A localização de Kurt indicava um dos becos, e Santana até duvidou que aquilo pudesse estar certo, mas decidiu conferir mesmo assim. Ela viu dois sujeitos lado a lado olhando para alguma coisa que estava ao lado de uma das caçambas de lixeira. Reconheceu vagamente que os sujeitos eram Blaine, do teatro amador, e o cara que estava com Rachel dois dias atrás.

"O que aconteceu aqui?" Santana se fez notar. "Cadê ela?"

"Santana!" Blaine apontou para o que estava o que estava ao lado da lixeira.

Foi quando Santana viu Rachel sendo abraçada com força por Kurt, e os dois estavam sentados naquele ambiente imundo e fedido. Santana procurou ignorar a pequena plateia masculina. Ela se aproximou cuidadosamente de Rachel e levou a mão delicadamente até o rosto da amiga.

"Oi." Santana disse com a voz suave. "O que está acontecendo Rach?"

"Eu ando me descontrolando ultimamente." Rachel disse ainda com os olhos fechados. Estava trêmula.

"Não fez mais o tai chi que eu te ensinei?"

"Tai chi?" Brody esbravejou. "Essa menina está viajando? Você disse que ela poderia ajudar, mas isso parece piada. A gente já teria resolvido isso do nosso jeito! Rachel... vamos embora."

"Ei, garoto engomado, porque você não tira o bofe de cima de mim antes que eu perca a paciência?" Santana advertiu.

Brody não conhecia Santana. Não sabia que ela a líder de que Rachel costumava falar, e nem tinha noção do que ela era capaz de fazer. Blaine a conheceu da época do teatro amador, mas também não tinha a menor ideia de quem ela realmente era. Kurt sabia a dupla identidade de Santana, ele sabia que foi ela quem ajudou Rachel quando os poderes da atriz começaram a se manifestar, tinha uma boa ideia de que a ex-colega de teatro amador era capaz de fazer. Por isso ele a chamou, apesar dos protestos de Brody.

"Blaine, Brody, por favor, saiam daqui." Disse ainda segurando Rachel.

"Rachel?" Brody insistiu. "Eu só saio daqui se você pedir."

"Vai embora, Brody." Rachel disse de olhos fechados.

Foi como se Brody tivesse levado um tapa no rosto. Em vez de respeitar a vontade da amiga, cruzou os braços. Santana balançou a cabeça, e chamou o homem de idiota e de ignorante. Ela não tinha tempo para discutir com ele, ou com qualquer outra pessoa. Chegou a considerar a pedir para que Kurt se retirasse e levasse os outros caras, mas era justamente ele quem segurava Rachel de forma protetora nos braços. De alguma maneira, parecia ser a presença de Kurt que impedia Rachel de explodir. Santana voltou a atenção total a amiga.

"Rachel. Abra os olhos. Você sabe que não é o ciclope."

A atriz hesitou, mas obedeceu. O corpo nunca tremeu tão intensamente quanto naquele momento. Ela não se lembrava de ter tido uma reação tão ruim na metrópolis. Isso era o que mais deixava Rachel assustada. Mas Santana estava ali.

"Oi." Santana disse com um sorriso gentil e procurou agir naturalmente diante dos olhos vermelhos brilhantes. "Parece que teremos de recomeçar nosso trabalho."

"Sam... eu não consigo mais conter." Rachel começou a chorar. "Desculpe."

Rachel se desvencilhou dos braços de Kurt, empurrou Santana no caminho e caminhou mais para o fundo do beco. Ela se ajoelhou, e se apoiou no edifício de quatro andares.

"Hummel... corre!" Santana gritou.

Mas Kurt não correu, nem os outros dois. Todos testemunharam com perplexidade quando a amiga liberou uma energia tão intensa que criou um pequeno abalo sísmico local, a ponto de derrubar parte na parede em que Rachel se apoiou. Santana e os garotos viram o prédio tremer em uma região em que não existem abalos sísmicos. Aquela era a parte histórica da cidade, com construções muito antigas e sem resistência a esse tipo de abalo. O pedaço de uma marquise cedeu. Santana, com reflexo incrível, empurrou Kurt e Brody para fora do caminho. Não conseguiu alcançar Blaine mas, por sorte, o tonel de lixo salvou a vida do cantor e pretenso ator.

"Blaine!" Kurt, coberto de pó, tentou em vão levantar o bloco de concreto que prendia o namorado.

Foi o momento em que Santana se revelou a Brody e Blaine. Ela ergueu a placa de concreto com relativa facilidade, liberando o rapaz. Blaine machucou a perna e o braço, mas estava em condições de se levantar com a ajuda de Kurt. Santana ouvia Brody dizer alguma coisa, mas ela o ignorava por completo. Foi até Rachel, que estava em posição fetal no fundo do beco, com o emocional em frangalhos.

"Ei, está tudo bem... está tudo bem. Vamos dar o fora daqui, ok?" Santana tentou fazer Rachel se mexer.

Mas os gritos de socorro começaram a vir das ruas e de dentro do prédio danificado. Santana olhou para Kurt e para os outros dois. Ela não tinha tempo para explicações.

"Vocês precisam tirar ela daqui!"

Santana abriu a mochila e vestiu a máscara na frente de Kurt, Brody e Blaine. Depois entregou a própria mochila para o ex-colega de teatro. Não havia tempo para sutilezas. Santana saiu correndo do beco para dentro do edifício, e começou a peregrinação em busca das origens dos pedidos de socorro. Forçou a entrada em um dos apartamentos para encontrar uma senhora de idade presa debaixo de uma geladeira. Santana tirou o eletrodoméstico de cima da senhora, e fez uma careta de dor ao imaginar a dor da outra pela fratura na perna. Não teve como ser sutil, pois havia mais pedidos de socorro. Ela pegou a velha no colo, desceu as escadas e a levou para a calçada, a deitando com o máximo de cuidado, bem em tempo da primeira patrulha de bombeiros chegar.

"Há mais gente lá dentro pedindo ajuda." A vigilante disse para um dos bombeiros. "Eu não vou dar conta de tudo sozinha!"

Santana deixou a velha e os bombeiros para trás, e correu novamente para o interior do edifício agora condenado. Algumas pessoas já estavam saindo dos apartamentos, com medo dos tremores e dos ruídos que a própria construção em processo de colapso começou a fazer. Havia ainda pedidos de ajuda vindos de dentro de apartamentos, e alguns poucos eram solidários aos que ficavam para trás. Como Santana tinha enorme vantagem física, ela chegava mais rapidamente onde era necessária. Recebeu o incentivo de muitos dos moradores, mas também havia aqueles que esqueciam até da própria tragédia pela oportunidade de fotografar ou de filmar a ação da vigilante, apesar da construção em colapso. Alguns bombeiros estavam auxiliando as pessoas na saída do edifício, especialmente daquelas que estavam dentro da loja de instrumentos musicais que funcionava no térreo. Havia um pandemônio na avenida, que estava difícil de administrar.

Santana sozinha, trabalhava com mais velocidade do que o grupo de três bombeiros que ajudavam no resgate dos moradores nos apartamentos. O cheiro de gás estava fortíssimo e estava claro que o colapso era questão de minutos. Quando Santana ajudou uma criança e a mãe dela a sair do apartamento, viu que uma viga de sustentação estava colapsando, então ela correu para segurá-la. O pó era sufocante, o cheiro de gás estava fortíssimo, e o grupo de três bombeiros ainda trabalhavam no resgate dos últimos moradores.

"Não derrube essa viga por nada neste mundo." Um dos bombeiros ficou ao lado dela. "Se você largar a viga, as colunas que ela está amparando agora vão desmoronar junto com o resto do edifício. Precisamos ter certeza que não há mais ninguém."

"Eu... Tá foda..." Santana disse com a voz trêmula.

"Escuta aqui, vigilante, eu já te vi segurar um carro em uma ponte tempo suficiente para duas pessoas serem salvas. Isso aqui não é muito diferente. Fique firme. Eu vou ficar aqui contigo até o fim. Os rapazes já estão tirando as últimas pessoas."

Santana, como estudante de arquitetura quase formada, tinha conhecimento básico de engenharia civil, e sabia que o bombeiro estava certo. O prédio estava condenado e o teto estava cedendo. Pode ser que a estrutura não caísse por completo naquele momento, mas tudo que restasse seria implodido pela prefeitura da cidade. Então ela resistiu para segurar a viga. Não podia reclamar do bombeiro que ficou ao lado dela, por ele arrumou objetos de dentro do apartamento aberto mais próximo que pudessem ajudar a escorar. Infelizmente, a força maior continuava a ser os braços da vigilante. Os três bombeiros desceram com um senhor idoso que parecia impossibilitado de andar. Então ele estava sendo carregado pelos homens, que não tinham tempo para sutilezas.

"Esse foi o último!" Um dos três bombeiros avisou. Ele ficou ao lado da vigilante e do companheiro de grupamento. Esperou os companheiros descerem aquele último lance de escada e se voltou aos outros dois. "No três, você volta a viga e a gente sai correndo escada abaixo como loucos." O bombeiro propôs.

"Não vai funcionar." A vigilante advertiu. "Vocês... tem... que... sair... agora!"

"Não. Nós vamos juntos, ok? Você solta a viga e a gente corre em um, dois, três!"

O bombeiro agarrou a cintura da vigilante e correu o último lance de escada com o teto caindo atrás dos três até a entrada do edifício ainda com a estrutura intacta. A vigilante olhou para trás e não acreditou na destruição. Estava suada e coberta de poeira densa. Mais do que isso: o corpo estava mole, cansado. Ela viu a polícia cercando o perímetro e sabia que seria presa tão logo deixasse a porta que, por um milagre, ainda estava intacta.

"Eu não posso sair assim." Santana disse ao bombeiro. "Eu não posso ser presa. Esses caras não vão hesitar em atirar se eu não me entregar. Eu não sou a prova de balas."

O bombeiro retirou o colete, o capacete e entregou a vigilante.

"É tudo que posso fazer por você. Saia atrás da gente e dê o fora daqui."

A vigilante vestiu a roupa do bombeiro e saiu junto com o grupo, despistando assim o grupo de seis policiais que estavam isolando o local. Ela passou pelo bloqueio, entrou em meio ao grupo de curiosos que se aglomerava após o bloqueio. Se desvencilhou na multidão até desaparecer. Entrou num beco e se livrou do uniforme do bombeiro. O prédio ao lado do colapsado estava sendo evacuado também, o trânsito na avenida estava interrompido, mas muitas pessoas circulavam por ali ou para se afastarem da confusão ou para acompanhar o movimento. Santana, mesmo com as roupas imundas de pó, se misturou à multidão e se afastou dali em definitivo.

Ficou sem saber para onde ir. Não tinha noção para onde Rachel e os garotos foram, e ela estava preocupada com o grupo. Estava sem o celular, que havia deixado dentro da mochila, e também estava com o corpo exausto, com os braços moles, sem força para levantar nem uma sacola de compras. Decidiu ir ao local mais próximo e obvio: de volta ao dormitório. Cortou caminho pelo parque até a entrada do campus universitário. Quando chegou próxima ao edifício, foi abordada de surpresa por uma Mercedes Jones agitadíssima.

"Você não pode ser vista assim!" A jornalista puxou Santana para a parte menos luminosa da área, em direção a um conjunto de árvores próximas.

"Cedes... eu estou morta. Mal consigo andar."

"Mas já tem vídeos circulando da vigilante. As pessoas vão saber na hora se te virem com essas roupas empoeiradas. Fique aqui escondida, que eu vou buscar uma muda de roupas para você. Pelo menos a sua cara não está suja de pó."

Santana acenou e encostou-se nas árvores. O campus não costumava ter muita circulação domingo à noite. A maioria dos estudantes já estavam recolhidos nos dormitórios, e aquela era época dos exames finais de semestre. Muita gente esquecia as baladas para enfiar a cara nos livros. Santana estava tão fadigada, que nem percebeu por quanto tempo ficou sozinha, encostada em uma árvore longe da iluminação de um poste, até Mercedes retornar com duas sacolas: uma com uma toalha molhada e outra com uma blusa e calça limpas. Santana estava mesmo exausta, e coube a Mercedes ajudar a limpá-la um pouco do pó com a toalha molhada, e a trocar de roupa. Mercedes ajudou a amiga a se levantar e as duas adentraram o prédio do dormitório abraçadas de lado, mas que, na verdade, era Mercedes ajudando Santana a andar. Como de habitual, havia muitos estudantes no hall do prédio, alguns comentavam a última tragédia, mas aparentemente Santana passou despercebida vestindo uma camiseta branca com estampa irônica do Mickey Mouse, e a calça jeans limpa. Do jeito como estava escorada em Mercedes, parecia mais que estava bêbada, e que a colega de quarto a ajudava. Mas se alguém reparasse os tênis imundos de pó de Santana, desconfiaria.

Mercedes abriu a porta do dormitório, ajudou Santana a deitar na cama, e tirou os sapatos da amiga. Do jeito que a vigilante apagou, sugerir uma chuveirada estava fora de questão. Mas ela tinha ainda trabalho a fazer. Pegou as roupas sujas nas sacolas e também algumas moedas. Desceu até a lavanderia do prédio e jogou tudo na máquina de lavar. Vinte minutos depois, pegou tudo e colocou na secadora. Enquanto esperava o processo, trabalhava no próprio celular, especialmente acompanhando as notícias. Treze pessoas deram entrada no hospital com ferimentos de moderados a leves. Não houve fatalidades. Havia um monte de testemunhas falando da ação corajosa dos bombeiros e da vigilante, e também muita especulação do que teria causado o colapso do prédio. Havia também dois vídeos rapidamente virais da vigilante no prédio, onde era possível identificar a camiseta da universidade. Isso fez com que Mercedes pensasse em outra coisa. Assim que a máquina terminou de lavar as roupas, ela pegou a camiseta de Santana, a cortou com uma tesoura e a jogou no lixo.

...

Santana não foi trabalhar na segunda-feira de manhã. Apesar das dores no corpo, ela tinha uma missão: encontrar Rachel Berry. Ela se levantou meio cambaleante e sorriu quando viu o post it mais recente de Mercedes no quadro de avisos: "Ligue para Kurt", e o número do telefone. O telefone pré-pago estava na mochila, e Santana não tinha certeza onde ela deixou o celular de uso social.

"Ei!" Mercedes chegou ao dormitório com uma sacola de comida. Ela ofereceu a Santana um copo de café e um sanduíche grande.

"Você é minha salva-vidas!" Santana abocanhou o sanduíche. "Você falou com Kurt?"

"Yeap. Ontem ele levou Blaine para o hospital. Parece que ele quebrou o braço com a queda da marquise." Santana fazer uma pergunta, mas a amiga antecipou. "Rachel está na casa de Kurt, e suas coisas também estão lá."

"Ela está bem?"

"Aparentemente não. Ele pediu para você ir lá assim que pudesse."

"Ele deixou o endereço? Cadê o meu celular?"

"Aparentemente na sua mochila, na casa de Kurt..." Mercedes pegou o telefone dela e mostrou a mensagem. "Ele me deixou o endereço."

Uma hora depois, Santana estava na portaria do prédio em que Kurt morava. Ela subiu os três lances de escadas com certa dificuldade. As pernas dela estavam pesadas, ainda sentindo os efeitos do esforço físico extremo do dia anterior. O próprio Kurt atendeu a porta, e deixou a vigilante entrar imediatamente. Santana reparou no pequeno apartamento quarto-sala muito bem arrumado e decorado. Brody estava lá, mas não havia sinais de Rachel.

"Rachel está no meu quarto." Kurt disse já se antecipando à pergunta da vigilante.

"Ela está bem?"

"Não. Eu dei um calmante pesado para ela ontem. Ela acordou há pouco, mas ainda está meio grogue."

"Como está Blaine?"

"Na casa dos pais dele. Ele está ferido, mas está bem. Aparentemente, você ganhou um fã."

"Será que ele..."

"O seu segredo? Não se preocupe, Santana. Meu namorado pode ser meio egocêntrico, narcisista, mas ele sabe ser discreto e guardar um segredo."

"Eu também não vou contar nada para ninguém." Brody disse. "Eu nunca traí a confiança de Rachel, e não vou trair a sua. Pelo menos não a respeito disso."

"Obrigada." Santana agradeceu com sinceridade.

"Como você está?" Kurt perguntou.

"Dolorida... Kurt eu agradeço a sua discrição e apoio, mas eu queria mesmo ver como Rachel está."

"Claro... mas..." Kurt hesitou por um instante.

"O quê?"

"Ela está pior do que naquela época de quando... você sabe... Por que você acha que isso aconteceu? Ela estava bem e confiante na época em que ela foi embora."

"Eu não sei, Kurt. Se alguém pode ter uma resposta, é ele." Apontou para Brody.

"Olha aqui. A nossa vida não é fácil, mas eu não tenho ideia de como funciona os poderes de Rachel. O que eu sei é que descarregar a energia ajuda."

"Só que alguma coisa deve ter acontecido para ela ficar assim." Santana insistiu.

"Eu não sei... Rachel anda para baixo nesses últimos meses. Acha que isso tem a ver com depressão?" Brody especulou.

"Os poderes de Rachel afloraram depois de um grande trauma... talvez..."

Os dois rapazes acenaram e o trio ficou pensativo por um minuto. Santana apontou para o quarto e pediu uma silenciosa autorização para ver a amiga. Kurt acenou e Santana foi em direção do cômodo onde Rachel estava. A vigilante a encontrou sentada na cama, com as costas na cabeceira e os joelhos contra o peito. Rachel parecia ainda aérea, mas ela franziu a testa ao ver Santana.

"Eu não quero conversar, Santana. Não quero o seu tai-chi."

"Rachel, você causou um estrago terrível ontem. Um estrago nível ômega. Trabalhar no controle dos seus poderes não é uma questão de querer ou não."

"Eu posso fazer tai-chi e exercícios de respiração com qualquer outra pessoa."

"Desculpe, mas eu estou perdida. Por um acaso eu fiz alguma coisa para receber essa hostilidade?"

"Sim... você irritou aquela louca da sua namorada."

"O que Jenny tem a ver com isso?"

"Ela me ameaçou."

Santana suspirou. Quinn tinha razão: os problemas amorosos de Santana estavam saindo do controle e afetando a vida de outras pessoas. Ela precisava resolver isso.

"Eu sinto muito."

"Eu sei que sente... de um jeito ou de outro, eu não quero conversar contigo. Não agora, não hoje."

Já que Rachel estava sem controle dos poderes, Santana não quis insistir. Ela saiu do quarto, fechou a porta e deparou-se com dois pares de olhos cheios de expectativa.

"Rachel precisa de um tempo..." Santana disse com a voz miúda. "Kurt, você está com as minhas coisas?" O jovem homem acenou e devolveu a mochila de Santana, onde estavam os dois celulares que ela usava. "Mais uma coisa... eu poderia ter o telefone atual de Rachel?"

Brody pegou um pedaço de papel e escreveu o número, entregando em seguida para a vigilante, que agradeceu e se despediu.

...

Quinn acompanhou as repercussões do acidente no edifício com muita preocupação. As autoridades especulavam a origem do abalo sísmico e a atuação quase imediata da vigilante. Os vídeos mostravam correria e gritaria. Santana (com a máscara) carregava pessoas no colo ou sobre os ombros. Um vídeo mostrava a vigilante toda coberta em poeira, sustentando uma viga rompida. Era uma visão positiva da vigilante ou dos vigilantes, mas também era uma exposição desnecessária.

"Graças a deus que Santana não tem tatuagens." Quinn disse a Artie e Marley, enquanto estudava alguns dos vídeos. "Mas todo mundo sabe que a vigilante é uma mulher de cor, com aproximadamente 45kg e 1.60m, o que é péssimo."

"Não é muito diferente dos vídeos da ponte. Essas imagens são até piores, mais trêmulas e escuras." Artie comentou. "Você conseguiu falar com Santana?" Perguntou a Marley.

"Não. Mas eu falei com Mercedes. Santana está cansada e dolorida, mas está bem. Pode ser que ela venha para cá agora à tarde." Marley conferiu mais uma vez o celular. "Rachel pode ter causado tudo isso?"

"Poder para isso, ela tem." Artie analisou a situação. "Ela chegou a treinar com a gente antes de se mudar. Pouca coisa, pouco tempo, mas a gente teve uma pequena mostra do que ela é capaz. Sabe aquele caso mal explicado nos noticiários de como um apartamento explodiu, ferindo quatro pessoas? Pois então, ela explodiu o apartamento com o poder dela. Rachel é a pessoa mais poderosa entre nós aqui, mas também é a que tem menos controle."

"É uma bomba relógio ambulante!" Quinn esbravejou. "Ela nunca deveria ter ido embora enquanto não treinasse o suficiente para se controlar. Agora ela virou um risco para todos nós."

"Ok, tudo bem... só que a gente precisa fazer algumas ações a partir de agora. Coisas como entrar no sistema de câmeras de segurança e apagar os vestígios de Santana." Artie ponderou. "Acho que George pode nos ajudar."

"Você não consegue fazer isso?" Quinn franziu a testa.

"Não com o nível de sofisticação que isso exige. George consegue hackear o sistema de distribuição de energia, se quiser. A gente consegue monitorar as imagens, mas apaga-las é outra coisa. Acredite em mim."

"Nós não temos orçamento para isso, Artie." Marley observou. "A gente já gastou uma bolada com os computadores da torre, com o drone e com a van. O caixa está fechado pelos próximos seis meses. Senão vamos comprometer o dinheiro para pagar as despesas da cabana, desse apartamento e, principalmente, do meu salário. Fora a reserva para o pagamento de impostos!"

"É... tem que ter o suficiente para o seu salário!" Artie ironizou.

"Você vai questionar isso? Então discuta com a sua líder." Marley retrucou.

"Gente!" Quinn ficou entre os dois. "Vamos colocar a cabeça no lugar, ok? Santana está com Rachel, e não tem condições de fazer decisões complicadas nesse momento. Então vamos fazer o seguinte: Artie, trabalhe no que é possível nesse momento. Tudo que conseguir fazer já será um ganho para nós. Marley, eu preciso que você fique em contato com Mercedes, veja o que ela consegue descobrir e repasse para nós."

"E o que você vai fazer?" Marley disse com certo atrevimento.

"Exatamente o que eu já estou fazendo: mantendo esse grupo funcionando."

...

Mercedes estava agitada. Mais uma série de vídeos da vigilante estavam sendo postados nas redes sociais. Embora as imagens sejam pouco nítidas, havia um detalhe significativo nos trajes da vigilante: a camiseta da universidade livre. Era uma camiseta preta com o símbolo da universidade na frente em um desenho escuro, discreto. Muitas pessoas da cidade compravam camisetas institucionais da universidade. Nada daquilo era novidade. O que chamava atenção era que aquele modelo em específico era vendido pelo diretório dos estudantes exclusivamente para os alunos. Se a vigilante vestia aquela camiseta em específico, era um forte indício para os detetives de que ela provavelmente fosse uma universitária. Era um limitador e tanto para as investigações se aquilo se confirmasse, pois agora precisavam procurar por uma estudante não-caucasiana com uma determinada altura e peso aproximado. Eventualmente a polícia iria chegar até Santana, nem que fosse apenas para interrogar.

Foi um vacilo. Um tremendo vacilo. Quando Santana saiu do dormitório para se encontrar com Rachel sem pensar na vestimenta. Era o efeito Rachel, como Quinn Fabray já alarmou algumas vezes.

"Você viu o que aconteceu?" O parceiro de trabalho de Mercedes disse a ela. "Estão dizendo que muitos dos vídeos da rua estão sendo sabotados. Mas que ainda existe uma imagem de uma câmera particular que flagrou alguém que poderia ser a vigilante."

"Sério? Você teve acesso?"

"Não. A SBN teve acesso e vai divulgar no noticiário logo mais." O jornalista olhou algumas anotações. "A perícia será feita amanhã, mas até onde se sabe, não houve barulho algum de explosão. O prédio foi danificado depois de um abalo sísmico local, o que é muito estranho. Algo que geólogo algum explica. Estão especulando que pode ter sido ação de um desses mutantes com poderes sobrehumanos, talvez um inimigo da vigilante."

"É sério isso?"

"É o que o comissário suspeita... off record, claro."

Mercedes precisou de muito autocontrole para não entrar em pânico. Maldita Rachel Berry! Ela precisava pensar rápido, precisava criar algum factoide, talvez. Usar do conhecimento que ela tinha do jornalismo para fazer um mau jornalismo para desviar a atenção. Como?

...

Quinn estava vendo ao noticiário com atenção juntamente com Artie e Marley, enquanto Beth estava no quarto que costumava ocupar no apartamento no centro da cidade. A garotinha não se interessava por noticiários, por enquanto. Foi divulgado o vídeo que supostamente flagrava a vigilante. Quinn não sabia se respirava aliviada ou se ficava ainda mais preocupada. A imagem revela uma pessoa usando a camiseta na universidade e calça jeans, os mesmos trajes de Santana, mas não era a vigilante. Era uma mulher negra de cabelo curto e encaracolado que usava uma bolsa e que, por um acaso, passava pelo bairro que minutos antes do abalo sísmico. A polícia iria bater na porta dessa garota, ia fazer um monte de perguntas, mas não iria descobrir nada. Quinn só poderia lamentar o inconveniente que a mulher passaria pelos próximos dias, até a polícia descobrir que ela não tinha nada a ver com o caso. Por outro lado, melhor para os vigilantes.

Quando Santana entrou no apartamento com um casaco de chuva, Quinn e Marley quiseram bater na vigilante. O grupo encarou a líder, que fechou a porta com pesar. Santana retirou o casaco de chuva e encarou a equipe.

"Não me julguem, ok?" Santana disse aos amigos. Ela pegou um copo e bebeu água gelada. Vendo que os demais estavam se segurando para gritar com ela, Santana suspirou e sentou-se na cadeira próxima aos três. "Eu jamais pensei que isso pudesse acontecer. Era só para ajudar Rachel a se controlar. Eu nunca imaginei que os poderes dela pudessem estar tão fortes e descontrolados. Eu nunca imaginei que ela estivesse na pior."

"Não leve a mal, Lopez, eu gosto muito da Berry, mas ela não é sua e nem nossa responsabilidade." Quinn esbravejou. "O fato de ela ter poderes e conhecer nossas identidades não faz ela ser uma de nós!"

"O que você faria, Fabray? A deixaria se arrebentar? Logo ela, que sempre foi a sua amiga?"

"Não, Santana. Eu não a deixaria se arrebentar. Mas eu pensaria mais antes de agir."

"Eu penso antes de agir, Elsa! Foi só o que fiz durante todo esse tempo. Ontem eu cometi um erro honesto, ok? Eu não fui até Rachel como vigilante. As coisas fugiram do controle. Por causa disso você acha justo me condenar?"

"Santana..." Marley tentou apaziguar. "Eu entendo que Rachel é uma pessoa importante para você. Que ela é a sua amiga. Mas, neste momento, ela pode nos ferrar."

"Não diga isso, Marley. Rachel precisa da nossa ajuda."

"Ou é você que desesperadamente arruma uma desculpa para estar perto dela?" Marley cruzou os braços. "Quer saber, bem que Jenny avisou. Com Rachel na cidade, não há espaço para mais ninguém."

Marley pegou a bolsa dela e saiu do apartamento. A situação entre as duas parecia que não iria melhorar tão cedo. Santana fechou os olhos quando Marley bateu a porta. Depois ela voltou a encarar os outros amigos. Quinn cruzou os braços e Artie parecia que também estava se segurando para não brigar.

"Bom..." Quinn passou a mão pelos cabelos e sentou-se no sofá. "A boa notícia, para nós pelo menos, é que a polícia desconfia da pessoa errada. Filmaram uma garota negra vestindo uma camiseta da universidade igual a sua."

"Okay..."

"Você precisa se livrar dessa roupa, aliás." Quinn recomendou.

"Cedes já fez isso."

"Ótimo." Quinn olhou novamente para o noticiário na TV. "Nem tudo está perdido."