Santana não queria ser alarmista. Como se já não bastasse toda a responsabilidade e todo cuidado para que a identidade dela não fosse revelada, a discussão eu tivera especialmente com Artie e Quinn a deixou receosa. Eles precisavam operacionalizar proteções para ficar sempre à frente da polícia, por isso que Artie iria sondar a possibilidade de George entrar para a equipe de vez. Já se sabia, ao menos, que o sujeito era um simpatizante dos vigilantes. Caso fosse viável, eles já resolveriam uma parte do trabalho: um hacker especialista que poderia facilitar e muito o trabalho de detetive. Artie era um desenvolvedor de software, não um quebrador de sistemas, e a habilidade dele em tal área era limitado.

A vigilante sabia que eventualmente deveria apaziguar os ânimos de Quinn Fabray. A rainha do gelo estava preocupada, e com razão. Quinn tinha uma questão de natureza quase familiar com a equipe. Sozinha na cidade, se virando a tanto tempo, ela se dedicava aos vigilantes muito para suprir o buraco que tinha sobre tais questões. Havia o problema do descontrole de Rachel, dos rapazes que passaram a conhecer a identidade dela e que Santana não confiava em nenhum. Cadê o Matt? Oh, sim, na academia para ser policial. Grande merda. Estava na cidade uma Rachel com poderes descontrolados. Essa era a maior preocupação da vigilante, causa da insônia dela. O que fazer com Rachel?

"Lopez!"

"Sim?" Santana saiu do mundo dos sonhos e atendeu o chefe.

"Já terminou os ajustes do projeto do Juarez?"

"Praticamente."

"Preciso disso pronto em uma hora!"

"Sim senhor."

Santana tentou se concentrar no trabalho. O cliente em questão era o dono na livraria em que Quinn trabalhava. Ele queria reformular os negócios e começaria com o ambiente da loja. Aquele era um trabalho de relativa simples execução, mas que requeria uma boa dose de criatividade. A vigilante suspirou e passou a mão no rosto para tentar espantar o cansaço. Quisera poder estar na cama àquela hora, pois ainda sentia os efeitos da ação de dois dias atrás. Levantou da mesa e se serviu com um copo substancioso de café. Voltou para a frente da tela do computador. Viu as anotações no caderno de rascunho para ajudar a lembrar aquele detalhe que precisava ajustar.

"Vocês viram?" O outro estagiário do escritório disse empolgado. "A polícia disse que a vigilante é uma estudante da Universidade Livre. Não-caucasiana, média estatura e magra. Ei, Lopez, poderia ser você."

"Se eu tivesse a força da vigilante, usaria para calar a sua boca!" Santana resmungou. Ela nunca gostou desse colega em particular.

"Só pode ser amor!" O colega ironizou. "A gente deveria sair algum dia, Lopez. Você vai se divertir e, quem sabe, vai melhorar o seu humor azedo. As vezes eu acho que você está investindo no plug errado."

"Se você fizer mais um comentário dessa natureza, você sai daqui direto para o RH." Eric, o arquiteto que era sócio junior do escritório, advertiu.

O colega se calou e Santana acenou para o superior com gratidão. Bem que as vezes ela gostaria que a identidade dela fosse conhecida. Pelo menos panacas como aquele pensariam duas vezes antes de importuná-la.

"Não sei porque vocês contrataram aquele cara." Santana disse em particular para Eric assim que ela entregou os ajustes.

"Ele venceu o prêmio Niemeyer, da qual eu me recordo, você ficou em segundo lugar." Eric justificou mais uma vez, para lembrar a estagiária porque ela e o colega estavam trabalhando naquele escritório.

"Mas e que adianta tanta competência se ele é um babaca?"

"Algumas pessoas são assim." Eric lamentou. "Mas sabe que eu gostaria que você fosse a vigilante? Seria um espetáculo e tanto te ver acabando com ele."

Isso fez Santana sorrir. Eric nunca esteve tão certo e tão errado ao mesmo tempo.

...

Quando Santana recebeu a surpreendente mensagem, decidiu mudar o itinerário. Em vez de ir para o apartamento no centro da cidade, pegou um ônibus e foi em direção ao apartamento de Kurt. Aparentemente, Rachel assistiu ao noticiário e entendeu o tamanho da desgraça que causou. Agora ela queria se encontrar com a vigilante. O ônibus passou diante do prédio parcialmente desmoronado. O prédio vizinho também estava isolado e evacuado. Segundo os noticiários, os moradores só poderiam voltar as suas casas e pegar os pertences depois da liberação dos peritos. O prédio parcialmente desmoronado tinha 16 apartamentos e 44 moradores, além da loja de instrumentos musicais no térreo. Santana pensou nessas 44 pessoas que perderam tudo por causa do descontrole de Rachel. Pessoas inocentes pagaram o preço, e isso lhe doía a alma. Desceu na parada de ônibus mais próxima do apartamento de Kurt e subiu as escadas. Dessa vez foi atendida pela própria Rachel.

"Oi."

"Oi."

Rachel estava envergonhada e relutantemente deu espaço para que Santana pudesse entrar no apartamento. A vigilante viu que Kurt e Brody também estavam por lá. Pensou que a conversa ficaria um tanto quanto cheia dentro daquele apartamento.

"Você já almoçou?" Santana perguntou casualmente.

"Não estou com fome." Rachel respondeu.

"Bom, eu conheço um restaurante aqui perto que a comida é boa e barata."

"Santana, eu não estou a fim de sair."

"Rachel, com todo respeito, eu acho que você deveria. Ficar numa toca não vai te fazer bem algum. Você não vai aprender a ter autocontrole sendo uma eremita urbana. Você precisa encarar as consequências dos seus poderes, aprender a viver situações estressantes sem ficar com os olhos vermelhos, ou você não vai fazer mais nada na vida. Não vai poder ser atriz ou sei lá, cantar, como você fazia quando trabalhava naquele restaurante."

"Talvez."

"Eu só quero conversar em um lugar arejado. Confie em mim. Eu não vou te jogar na frente de um carro."

Rachel pensou por um momento e terminou por concordar. A verdade era que estava se sentindo sufocada e um ar fresco lhe parecia uma boa ideia. Talvez andar com Santana até o bairro dos pais fosse uma alternativa. Agradeceu a Kurt pela hospitalidade, e pediu a Brody que voltasse sozinho para a casa dos pais dela, caso ele não quisesse ir a outro lugar. Ela conversaria mais tarde com o amigo, que talvez fosse hora de ele voltar para a metrópole, e deixa-la enfrentar os demônios sozinha. Rachel e Santana saíram do apartamento, e a vigilante achou por bem andar no sentido oposto ao prédio atingido. Não queria fazer Rachel se sentir pior do que já estava.

"Como está?" Santana perguntou enquanto caminhavam pelo bairro.

"Péssima. E você?"

"Cansada... Mercedes comprou uma pomada analgésica na farmácia que gelou as minhas costas e os meus braços. O cheiro forte de arnica era um horror. Mas sabe que fiquei melhor?"

"Desculpe. Eu não queria te causar problemas."

"Com todo respeito, Rach, você causou problemas ao se fechar. Se você tivesse nos procurado em primeiro lugar, e falasse a verdade, talvez o acidente de ontem pudesse ter sido evitado. Você tem que pensar nas pessoas ao seu redor."

"Eu não sou uma vigilante."

"Não é sobre ser vigilante. É sobre ter poderes extraordinários que podem ferir pessoas."

"Eu não posso voltar ao passado, San. Além disso, Brody..."

"Sim, Brody, quem é esse sujeito? É seu namorado?"

"Mais ou menos."

"Mais ou menos?"

"Brody é o meu amigo... com benefícios."

"Oh!" Santana ficou desconfortável. Uma ponta de ciúmes emergiu, fruto da atração que ela ainda sentia por Rachel, e que teimava em permanecer. "Agora entendo porque ele te acompanhou até aqui."

"Brody é um bom amigo. Ele se importa comigo de verdade. Às vezes ele é um pouco grudento, mas é muito porque ele também não tem ninguém na cidade. Nenhum amigo em que ele possa realmente confiar, digo. Você sabe? Família! Desse tipo que você encontrou aqui com Mercedes e Artie."

"Fico feliz que vocês tenham encontrado um ao outro." Santana disse incerta dos próprios sentimentos.

Entraram no restaurante indicado por Santana. Era um lugar agradável, popular, que Rachel já conhecia. De fato, eles serviam comida saborosa, inclusive com opções vegetarianas variadas. Santana e Rachel fizeram os pedidos e houve um silêncio confortável entre as duas. Santana queria discutir sobre os descontroles de poder de Rachel, mas ela entendia que era preciso fazer isso devagar. Por isso decidiu manter a conversa casual e aproveitar a refeição antes de discutir assuntos mais desagradáveis.

"Como vai Quinn e os outros?" Rachel perguntou apressada, como se tivesse de introduzir qualquer assunto primeiro antes de ter de falar sobre o que evitava.

"Quinn está bem. Ela se mudou para a cabana junto com Beth... óbvio."

"Mesmo? Tão afastada da cidade! Por quê?"

"Problemas com a vizinhança." Ao responder, Santana fez uma careta, achando estranho que não tivesse sido completamente franca com Rachel. "Artie se formou no semestre passado e está trabalhando numa empresa de tecnologia daqui, Mercedes foi contratada pelo jornal, e tem um blogue só dela. Ela ainda vai fazer o exame final para ganhar o diploma universitário. Bom, a carreira dela já está tão bem encaminhada, que ela nem precisa mais desse pedaço de papel."

"E você?"

"Eu preciso desse pedaço de papel, ou não consigo me licenciar como arquiteta. Eu terminei a minha minor em engenharia civil, mas isso não me dá uma licença de engenheira, sabe? Então eu tenho que terminar essa coisa para conseguir trabalhar."

"Ainda não trabalha?"

"Eu sou interna em um escritório de arquitetura, mas não posso assinar os meus próprios projetos. Se eu não me formar, posso continuar fazendo esses trabalhos como profissional técnica, ganhando metade do salário, e ainda sem poder assinar minhas próprias obras. Isso seria muito chato. Sem mencionar que eu seria obrigada a devolver uma grana preta para o crédito estudantil por não conseguir completar o curso. Logo, não tenho muita saída. Preciso do meu diploma."

"Profissão de ator não tem dessas coisas."

"Sorte sua."

"Quinn conseguiu entrar para a faculdade?"

"A comunitária? Sim. Ela está fazendo curso de direito penal e uma classe de técnicas de investigação. Tudo à distância ou em sistema semi-presencial. Não sei bem como funciona... Sinceramente, eu não sei como ela dá conta de tudo. Digo, estudar, trabalhar em tempo integral e ainda ser mãe."

"Matt está na polícia, certo?"

"Sim. Matt entrou para academia de polícia. Ele diz que vai agir do lado certo da lei." Santana balançou a cabeça. O fato de ela ser vigilante é porque ela queria ter liberdade para agir, e não ser uma burocrata que seguia protocolos. Santana seguia a própria consciência e o próprio código moral, além de poder ser também arquiteta, que ela amava. "Você lembra da Marley?"

"Alta, magra, cabelos castanhos claros, olhos claros?"

"Sim. Ela está..."

"Olha mais que coisa! Já estão almoçando juntas?" Rachel e Santana foram surpreendidas por Jenny. Rachel, em especial, se encolheu na cadeira devido a presença intimidante da jovem mulher. Jenny, sem cerimônia, sentou-se à mesa com Rachel e Santana, ficando ao lado da ex-namorada.

"Quem disse que você foi convidada?" Santana disse em tom levemente ameaçador.

"Ora, querida. Não vê a oportunidade? Você me descartou tão depressa quando colocou os olhos nela. Não acha que eu tenho o direito de entender algumas coisas depois de todo esse tempo dedicado a você?"

"Santana... acho melhor eu ir embora." Rachel deixou o prato de comida e ia se levantando.

"Não querida, fique!" Jenny disse em alto e bom tom, para chamar a atenção das demais pessoas no restaurante. "Acho que é mais que justo você esclarecer porque a minha namorada aqui está largando uma relação de quatro anos por sua causa! Sabe, ela estava transando nas minhas costas com uma garota chamada Marley. Mesmo assim, Santana nunca me largou por ela. Mas quando você apareceu, a coisa mudou de figura."

"Jenny, pelo amor de deus, abaixa o tom." Santana sentiu todos os olhos do restaurante sobre ela. Eram olhares de curiosidade, mas também de julgamento.

"Eu não sei Santana. Eu queria entender a razão. Se é ela, se é o seu OUTRO EMPREGO? Ou se é porque ela é como você?"

"Agora chega!" Santana agarrou o braço de Jenny com força e foi a empurrando para fora da mesa.

"É melhor tratar a moça direito!" Um homem da mesa ao lado se levantou de forma ameaçadora.

Santana soltou o braço de Jenny. Sentindo todos os olhos sobre ela, o constrangimento de Rachel e a postura desafiadora de Jenny, não tinha outra saída a não ser recuar.

"Jenny, por favor. Isso aqui não é lugar. Eu converso contigo hoje a noite, ok? É uma promessa."

"É bom você cumprir mesmo, Santana." Jenny levantou-se e foi embora sem olhar para trás.

Santana e Rachel precisaram de um minuto para reagirem da ameaça explícita de exposição.

"Perdi a fome." Rachel se levantou. Santana se apressou em deixar o dinheiro dos pedidos à mesa e foi atrás de Rachel, que a deteve. "É melhor eu ir sozinha para casa, San. Obviamente você tem tantos problemas a resolver quanto eu."

Rachel saiu do restaurante, deixando Santana para trás. A vigilante estava furiosa. Ainda bem que Jenny já estivesse fora do seu alcance, caso contrário, uma coisa muito ruim poderia acontecer. Pelo menos a vigilante teria algum tempo para colocar a cabeça no lugar antes de se encontrar novamente com Jenny.

...

Quinn estava correndo apressada. Ficou retida na livraria por mais tempo devido a uma "reunião" que teve com o gerente e o dono da loja. Eram tempos de mudanças, e o dono da loja iria fazer algumas reformulações para tornar o negócio mais atraente. O café que existia dentro da livraria seria reformado e com um novo conceito, tornando-se um ambiente mais atrativo e convidativo. Haveria a abertura de um espaço destinado a lançamentos de livros, palestras, encontros e, até mesmo, a apresentações musicais em formato pocket. A livraria inauguraria um novo setor de "barganhas" para compra e vendas de livros usados, além da ampliação da venda de artigos geeks. O setor de CD e Blue Ray seria fechado, muito embora o dono criaria uma espécie de clube do vinil, apostando na mídia mais antiga e com mais apelo comercial. Para tudo isso, a livraria só funcionaria com encomendas online durante as reformas.

O coração de Quinn quase saiu pela boca. Ela via com bons olhos a reformulação dos negócios, mas a frase "apenas vendas online" lhe doeu o coração. Ela pensou logo que ficaria desempregada. O dono e o gerente elogiaram o fato de ela ser a vendedora mais eficiente da casa, e lhe propuseram um acordo para que ela ficasse com a equipe.

"Mas nós vamos fechar a livraria por dois meses, e só vamos atender online enquanto isso." O patrão explicou. "Mas queremos que você continue conosco quando voltarmos."

"Mas eu vou ficar dois meses sem um emprego? É isso?"

"Reparei que você tem um carro agora, então eu ia propor que você trabalhasse no serviço de entrega enquanto isso. O salário é menor, mas pelo menos você não vai ficar sem nada."

"Ou é isso ou é rua? Eu ganho um salário mínimo, que mal dá para pagar as contas básicas, minha comissão de vendas é uma piada, eu tenho uma filha para sustentar, e você está me propondo receber ainda menos para eu fazer um serviço em que eu ainda vou ter que pagar a minha própria gasolina?"

"Ou pode usar a bicicleta. Bom, se não quiser, você está livre para procurar outras oportunidades."

Quinn suspirou derrotada. Aceitar uma humilhação para reservar para si a vaga de um emprego futuro no mesmo lugar? Por mais que ela não pagasse mais aluguel, ainda tinha muitas contas a cumprir, muitos boletos bancários. E se a obra atrasasse? E se ela ficasse mais de dois meses recebendo metade do salário? Ela ocupava a cabana, ela tinha um carro emprestado, mais a gasolina, a comida, e a conta do celular. Sem falar nas despesas com Beth. Quinn não tinha plano de saúde para si, mas pagava um seguro básico para Beth. Tudo isso era dinheiro. Ela não poderia custear tudo isso com metade de um salário mínimo.

"Obrigada, vocês foram muito gentis por todos esses anos, mas eu não posso aceitar uma redução salarial, por mais que tenha a promessa de um cargo melhor remunerado no futuro. Eu tenho uma filha, eu tenho contas a pagar... eu não posso aceitar."

"Isso é uma pena, Fabray. Eu... eu vou te pagar o salário integral desse mês. É como eu posso ajudar uma boa funcionária."

"Obrigada, senhor. Foi um prazer."

Era uma falsa humildade, porque restava apenas uma semana para ela cumprir o mês. Quinn cumprimentou o agora ex-patrão. Teria de assinar a demissão em três dias, mas desde já a cabeça dela pirava em arrumar outra coisa. Qualquer outra coisa que lhe pagasse, pelo menos, um salário mínimo.

A reunião a fez chegar atrasada na escola para pegar Beth. Encontrou a garotinha sentada na sala da secretaria, com os braços cruzados. Era o procedimento de segurança que a escola adotava após sofrerem com uma tragédia de anos atrás, de um sequestro que acabou em morte da criança. Se o procedimento era correto, ter de ficar sentada e quieta não era uma condição muito confortável para qualquer criança.

"Docinho, me desculpa pelo atraso." Quinn disse primeiro a filha antes de voltar-se para a secretária. "Mil perdões. Fiquei presa no trabalho."

"Tudo bem. Até amanhã."

Quinn acenou para a secretária, pegou a mochila de Beth e as duas caminharam em direção ao carro. Quinn sempre olhava para a redondeza naqueles tempos. Em geral, a área da escola das crianças do ensino elementar costumava ser deixada em paz pelos traficantes locais. Era como se houvesse um acordo informal. Mas Quinn, mesmo com a prisão e a desarticulação da gangue de Big Sea, não era mais uma pessoa bem-vinda no bairro, e isso seria razão de apreensão até o final do ano letivo, que estava muito próximo, até que pudesse transferir Beth para outra escola pública.

O caminho até a cabana era oposto ao bairro em que estavam. Quinn precisava passar pela região central da cidade e ir até a famosa ponte alta, em que a vigilante segurou uma caminhonete. Foi justamente nessa fatídica ponte que Quinn viu um rosto conhecido caminhando na passagem para pedestres. Assim que passou a ponte, Quinn parou o carro no acostamento.

"Beth, fique no carro só um minuto, ok? Não destrave a porta para ninguém!"

Quinn travou a ponta do carro e correu até a pessoa que estava encostada no parapeito da ponte, olhando para o rio que passava metros abaixo dali.

"Rachel?"

Rachel virou-se para Quinn, e não parecia nada bem.

"Rachel... está tudo bem?"

"Quinn Fabray... faz algum tempo..." Rachel enxugou as lágrimas.

"Sim faz algum tempo que não nos vemos, mas eu fiquei sabendo de notícias suas."

"Oh... aquilo."

"É, aquilo. Rachel, eu estou com Beth esperando no carro e não posso me demorar aqui. Você não gostaria de ir com a gente até a cabana? Podemos conversar algumas coisas, tomar um café juntas, e você tem uma área verde bem ampla caso precise, você sabe, descarregar."

"Quinn, eu não quero causar nenhum problema."

"Acho que você vai causar problemas se nos evitar. Olha, Beth está esperando no carro e precisamos ir para casa. Vamos? Você avisa Kurt, seus pais, ou sei lá quem e passa o resto do dia conosco. Você pode tomar um banho, colocar roupas frescas e pode conversar com alguém que vai te entender sem te julgar. O que acha?"

Rachel enxugou as lágrimas e concordou. Seguiu Quinn de volta ao carro, e se surpreendeu ao perceber que conhecia aquele veículo. Ela sentou-se no banco do passageiro e sorriu para a garotinha no banco de trás. Beth havia esticado bastante no último ano, e já estava bem diferente desde a última vez que Rachel tinha a visto. Quinn dirigiu em silêncio até a cabana. Virou à esquerda na rodovia, numa estrada de asfalto secundária dentro da floresta com demarcações quase apagadas. Três minutos mais e virou novamente a esquerda numa estrada de cascalho, e seguiu até o terceiro portão que demarcava a propriedade. Estacionou o carro no toldo ao lado da casa.

Rachel observou a cena caseira de Quinn deixando as coisas dela em cima da mesa, de Beth correndo escadas acima para o quarto dela. Rachel conhecia a cabana. Passou algumas poucas noites ali aprendendo a lidar com os poderes dela juntamente com Quinn, Santana, Artie e Matt. Mas o lugar estava bem diferente do que o lugar quase nu de móveis. A cabana se parecia bem mais com um lar naquele momento. Imaginou que fosse por causa de Quinn, mas foi algo que aconteceu aos poucos com contribuições de todos os vigilantes.

"Santana te deu o carro dela?"

"É emprestado." Quinn ofereceu um copo de água a Rachel. "Faz pouco tempo que moro aqui. A cabana estava sendo usada nos fins de semana para treinamento, e nos dias de semana para Santana transar com Marley. Você se lembra da Marley?"

"Sim. Alta, magra, bonita. Soube que as duas estão juntas."

"Posso até imaginar em que situação. Se quer saber, a pior coisa que se pode fazer é se envolver nos rolos amorosos de Santana Lopez. Nossa líder é uma heroína nata e tem grande coração, não há dúvidas quanto a isso. Mas ela é muito pouco inteligente com os assuntos que envolvem a vagina, especialmente a dela."

"Eu não me envolvo nisso." Rachel disse sem encarar Quinn.

"É bom mesmo." Quinn convidou Rachel a sentar-se. "Agora você pode me dizer por que eu te encontrei chorando e vagando numa ponte?"

Rachel passou a mão no rosto e ficou em silêncio. Quinn sempre lhe foi amigável e sensata, mas a vendedora também era uma vigilante, portanto, alguém com todo interesse no rolo que Rachel se meteu. Por causa disso, Rachel não tinha certeza da imparcialidade que Quinn poderia ter diante do caso.

"Você sabia que Santana tinha terminado com aquela namorada dela, Jenny?" Rachel perguntou receosa.

"Sim." Quinn levantou uma sobrancelha.

"Você sabia que Jenny não encarou isso muito bem?"

"Imagino que não."

"Acho que Jenny anda seguindo Santana pela cidade. Ela foi até um restaurante em que Santana e eu estávamos almoçando, e foi nada bonito. Jenny ameaçou contar que Santana é a vigilante na frente de todo mundo."

Quinn passou a mão pelo rosto. Ela sabia que tudo ia dar em merda assim que Rachel Berry pisasse os pés de volta na cidade. Foi tão certeira na previsão que achava que o poder dela era adivinhar o futuro em vez de fazer gelo.

"Rachel, você precisa me dizer exatamente o que aconteceu."

Após o relato de Rachel, Quinn sugeriu que a colega tomasse um banho e vestisse roupa frescas. Enquanto isso, pegou o celular e ligou para a líder. Mas Santana parecia que não queria falar com ninguém. Então mandou uma mensagem de texto dizendo que estava ciente da situação, que Rachel estava com ela na cabana, e que precisava discutir algumas coisas. Como Santana continuou a não responder (apesar de ter lido a mensagem), Quinn mandou mensagem para todos os outros.

"Jenny ameaçou revelar a identidade de Santana. Precisamos tomar algumas providências" – ICE.

Dois minutos depois, resolveu enviar uma segunda mensagem.

"Perdi o meu emprego. Se alguém souber de alguma oportunidade de trabalho, me fale" – ICE.

...

Santana se encontrou com Jenny no restaurante preferido dos vigilantes justamente por ser um lugar pequeno e discreto. Ela preferia se encontrar com Jenny na casa da ex-namorada ou em outro lugar privado justamente para ajudar na ideia de que ela queria negociar uma situação como uma pessoa adulta. Mas Jenny exigiu um lugar público. Santana repassou todos os conselhos que recebera de Quinn dias atrás, ou seja, admitir toda culpa, elogiar Jenny e rezar para que a abordagem funcionasse.

"Oi Jenny." Santana sorriu timidamente.

"Achei que não viria mais." Jenny serviu-se do vinho que estava à mesa. A garrafa já estava pela metade. "Sirva-se."

"Vinhos são para momentos diferentes, não acha?"

"Faça como quiser, Lopez."

Santana sentou-se e pediu uma coca-cola para o garçom, mostrando que estava ali para negócios, e não para se embriagar. Bebeu o líquido, que desceu deliciosamente gelado pela garganta. Era como se precisasse daquilo, considerando aos últimos dias estressantes que tivera.

"Eu queria te pedir desculpas. Eu sei que eu errei quando tive um relacionamento com Marley pelas suas costas. Eu fui canalha e você tem todo direito de me odiar por isso..."

"Houve outras?" Jenny a interrompeu.

"Não. Foi apenas com Marley."

"Faz quanto tempo que você transa com ela?"

"Uns dois meses."

"Exatamente o tempo em que eu me ausentei. Você é inacreditável, Lopez."

"De novo: não foi premeditado. Aconteceu."

"Você transou com Rachel Berry?"

"Eu nunca fui para a cama com ela. Rachel é só uma amiga que está passando por um momento difícil."

"Eu vi o que ela fez. Eu cruzei com ela na loja de instrumentos. Não estava a seguindo se é o que pensa. Eu sou melhor que isso. Mas quando eu a vi, sabendo de tudo que você sente por aquela vagabunda, eu tive de confrontá-la. Foi quando ela ficou com os olhos vermelhos cor de sangue bem na minha frente. Não o branco dos olhos. A íris dos olhos. Aí ela começou a passar mal. Eu cheguei a ficar com dor na consciência, sabe? Vi os amigos dela a levando para aquele beco. Por um minuto, eu queria ir lá para ajudar, mas eu fui embora. Cheguei em casa e vi as notícias. Não foi difícil ligar os pontos. Rachel... ela é como você, e ela foi responsável."

"Sim, Rachel é como eu. Mas você precisa entender uma coisa: ela é só uma pessoa que eu estou tentando ajudar a lidar com isso. Não é algo fácil, Jenny. Você não tem ideia o que é ter um grande poder em suas mãos e não conseguir controlar. Pessoas podem morrer."

"Pode até ser, Santana. Mas veja bem, você passou dois meses transando com Marley. Dois meses, e em nenhum momento você terminou comigo. No mesmo dia em que você soube que Rachel estava de volta na cidade, você terminou nosso namoro. O que você quer que eu pense?"

"Nosso relacionamento estava condenado há muito tempo. Você sabe disso. O meu caso com Marley não foi por pura sacanagem. Foi circunstancial. Eu comecei a me relacionar com ela porque eu senti uma conexão. Algo que eu deixei de senti por você há muito tempo. A questão Jen, é que eu não conseguia achar a abertura certa, sem mencionar em que mal nos virmos nesse semestre. Eu não estou reclamando do seu trabalho. Eu tenho orgulho que você é uma empresária bem-sucedida. Mas essa é a verdade. Não tem nada a ver com Rachel Berry ou com Marley Rose. Tem a ver com o fato de a gente não estar mais funcionando como um casal há muito tempo."

"Você não me deseja mais?"

"Não Jen, eu não te desejo. Não mais. Eu te amei, o que senti por você foi verdadeiro, mas isso acabou. Você merece toda felicidade do mundo, e eu não sou a pessoa certa para você. Eu não sou a pessoa que vai poder dar o que você precisa. Você sabe muito bem que é verdade."

"Tão nobre e tão hipócrita que eu tenho até vontade de vomitar."

"Fique à vontade."

A resposta de Santana deixou Jenny tão irritada que, por impulso, ela jogou vinho no rosto da vigilante. Santana fechou os olhos que ardiam por causa do contato com o líquido alcóolico, e tateou a mesa em busca de um guardanapo.

"Sua bitch, você sabe que eu não posso revidar!" Santana disse entre os dentes.

"Tadinha dela! Tão nobre!" Jenny disse com desdém, não comprando uma vírgula do discurso de Santana. "Mas quer saber? Você não passa de uma hipócrita, Lopez. De uma hipócrita." Jenny berrou, chamando atenção de todos no restaurante.

"Senhoritas, a gente precisa pedir que vocês resolvam esse problema lá fora." O garçom advertiu.

"É, coloca para fora!" Estimulou uma mulher na mesa ao lado.

"Cala a boca, seu retardado. Se eu quiser eu compro a porcaria desse restaurante. Agora me deixa em paz." Jenny continuou surtada e empurrou o garçom.

"Jen! Vamos embora!" Santana determinou, ainda com a visão embaçada.

"Você não manda em mim, vigilante!" Jenny disse em alto e bom tom.

Santana arregalou os olhos, por mais que eles tivessem ainda turvos. Ela ficou paralisada por um momento por Jenny gritar a segunda identidade dela ali. Depois veio a raiva. Mas Santana não podia descontar em Jenny. Não com os próprios punhos. Mas ela ainda precisava descarregar a raiva, descontar de alguma forma. Então jogou a coca-cola no rosto de Jenny. Ganhou um tapa no rosto como resposta. Foi o suficiente para um homem se levantar para tirar satisfação, mas Santana o empurrou antes que ele tivesse a chance e exagerou um pouco na força. O homem caiu com as costas em outra mesa. Ficou super nervoso e tentou revidar. Deu um tapa do rosto de Santana.

A vigilante tentava se controlar para não responder às agressões, ela tentava colocar em perspectiva o tempo inteiro de que era a vigilante, de que tinha força sobrehumana, e nenhuma briga de punhos com ela era realmente justa. Mas, de repente, havia uma briga generalizada acontecendo no restaurante, e Santana precisou se defender atacando. As pessoas só pararam quando dois tiros de revolver foram disparados. Era o gerente do restaurante.

"A polícia foi chamada." O gerente gritou. "Parem ou a situação de vocês vai piorar."

Santana parou, assim como Jenny, os três homens e uma mulher que se envolveram na briga, além do garçom. Ficaram quietos, com as mãos para cima. Um dos homens tentou discutir novamente, mas o gerente deixou muito claro com um terceiro disparo que não toleraria nem mais uma palavra. Santana via os olhares de ódio sendo lançados contra ela. Ela via Jenny chorando. Viu o gerente se desculpando com os demais clientes, dizendo que o restaurante seria fechado naquela noite, e que ninguém precisaria pagar pelos pedidos. Uma noite de prejuízos para um negócio honesto. Sim, era para se lamentar.

A polícia prendeu todos os envolvidos. Santana nunca teve uma algema nos pulsos antes, nem mesmo para satisfazer fantasias sexuais. A sensação de ser algemada e colocada dentro de um carro da polícia foi a pior possível. Parecia que estava passando pelo inferno astral. O caminho para a delegacia foi longuíssimo, apesar de ficar a três quarteirões apenas do restaurante. Os brigões foram levados para dentro da delegacia, mas apenas Santana foi conduzida para dentro da cadeira. As algemas sequer foram retiradas. Será que as pessoas realmente levaram a sério da fala de Jenny de que ela era a vigilante? Santana começou a sentir palpitações de nervoso. Ela estava numa delegacia, na cadeia, a única de uma briga em um restaurante que foi trancafiada.

"Eu quero meu telefonema!" Santana gritou para o guarda. "Eu quero os meus direitos!"

"Cala a boca!" Disse um preso na cela ao lado.

Foi quando Santana se deu conta do que realmente se passava ao seu redor. Havia três celas naquele espaço, tinha uma cela com cinco mulheres, que pareciam ser prostitutas e viciadas. Havia outra cela com quatro homens. Mas ela estava sozinha. Por que não foi colocada juntamente com as mulheres?

Sentou-se no banco de metal sem acolchoamento. Tinha vontade de arrebentar com as algemas, coisa que ela sabia ser capaz de fazer com certa facilidade. Mas ela se conteve. Não conseguia fazer a perna parar de tremer. Era um tap tap tap rápido que seus calcanhares faziam contra o chão.

"Você deve ser uma psicopata para eles nem ligarem em tirar suas algemas." Um dos homens desdenhou.

Santana tentou ignorar o homem. Continuou a tremer a perna de tanta ansiedade. Olhou para a câmera de segurança interna. Imaginou um monte de policiais olhando para ela por meio dos monitores, sedentos para que ela fizesse qualquer coisa suspeita que justificasse mantê-la ali no escuro. Fechou os olhos. Ela daria um reino por ter o direito de jogar água no rosto, cheirava a vinho tinto e a suor. O rosto dela estava grudento, lhe dando gastura, as roupas também estavam manchadas de vinho, e ela estava algemada. Respirou fundo, mas nenhum exercício para manter a calma funcionaria. Ela estava na cadeia há pouco mais de uma hora, mas lhe pareceu uma eternidade. Foi quando uma detetive apareceu.

"Santana Lopez?" Diante do aceno, a detetive destrancou a cela. "Sou a detetive Mesquita. Queira me acompanhar, por favor."

O coração de Santana parecia querer saltar pela boca. O nervoso a fez ter ânsia de vômito, o que de fato ela o fez quando viu a primeira lixeira. Um dos dois policiais uniformizados que a acompanhava a puxou para cima de forma bruta. Santana ficou com uma vontade danada de revidar, mas se contentou em reclamar.

"Desde quando uma briga de namoradas que passou do ponto faz alguém passar por esse constrangimento?" Santana esbravejou. "Por que Jenny não está tendo o mesmo tratamento? Por que os outros não estão tendo o mesmo tratamento?'

Santana foi conduzida até a uma sala de interrogatório. A detetive apenas lhe tirou a algema para prendê-la novamente à mesa. Então saiu da sala e a deixou sozinha naquele minúsculo ambiente com um espelho à frente. Santana tinha visto filmes policiais o suficiente para saber que por trás do espelho havia uma outra sala com equipamento de filmagem, captação de áudio e um monte de gente a observando com os braços cruzados, conversando coisas sobre ela.

Ficou sozinha por intermináveis minutos, algemada em uma mesa, e não podia sequer reagir. Jenny só podia ter dito alguma coisa sobre ela ser a vigilante, pois não se justificava aquele tratamento por causa de uma briga. Se fosse num bar, tudo o que aconteceria seria um segurança de dois metros de altura a imobilizar e a colocar para fora. Tão mais civilizado. Então pensou no que diria, ou em não responder nada confiando no direito dela em permanecer calada e a presença de um advogado.

A detetive Mesquita entrou na sala mais uma vez. Trazia uma pasta e uma garrafa de água. Santana estava louca para tomar um pouco de água para tirar um pouco do gosto de fel. Com certeza a garrafa era uma barganha para fazê-la falar.

"Santana Lopez." A detetive abriu uma pasta e colocou alguns prints da página da universidade com o perfil público da vigilante. Colocou também uma garrafa de água propositalmente a frente dela. "Estudante sênior da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Livre. Aluna sem registros de advertências acadêmicas. Como consta, você também nunca teve um único registro policial até agora, apesar de ter prestado depoimentos aqui na delegacia como testemunha. O que deu em você, Lopez? Testemunhas disseram que você agrediu a sua namorada assim que ela te chamou de vigilante. O que tem a dizer a respeito?"

"Eu estou sendo acusada ou tratada como suspeita de alguma coisa?"

"Tirando o fato de você ter brigado no bar..."

"Eu briguei no bar, mas a minha pergunta, detetive, é se eu estou sendo acusada ou suspeita de alguma coisa?"

"Por um acaso eu li os seus direitos?"

"Pergunta capciosa, detetive, porque os policiais que prenderam todo mundo no bar leram nossos direitos antes de nos levar para a delegacia. Além disso, eu estou algemada. Se eu estou nessas condições, no mínimo, eu tenho direito a um advogado e a um telefonema."

A detetive Mesquita abriu um pequeno sorriso. Entendeu que não teria muitas chances de ludibriar a garota algemada que estava à frente dela.

"Você está aqui por brigar em um bar, senhorita Lopez. E testemunhas ouviram muito claramente a senhorita May te chamar de vigilante." A detetive mesquita pegou outros prints da pasta e mostrou para a estudante. "Não acha estranho a senhorita May te acusar de ser alguém em que você se encaixa perfeitamente no perfil? Possível estudante universitária, sexo feminino, pele marrom, aproximadamente 1,60m e 45kg, sem tatuagens aparentes."

"Eu não tenho nada a declarar sobre isso, detetive."

"Senhorita Lopez, por que a senhorita May te acusou de ser a vigilante?"

"Eu não sei. Talvez ela quisesse se vingar porque eu terminei o meu relacionamento com ela alguns dias atrás. Olha, eu cometi um erro, mas eu não entendo o excesso que claramente está acontecendo aqui. Eu não entendo por que todos os outros envolvidos sequer foram presos. Por que eu não tenho sequer direito a um telefonema?"

"Senhorita Lopez, preciso que você entenda que essa é uma oportunidade de ouro para você. Você pode colaborar conosco aqui e agora."

"Detetive, eu estou sendo acusada de ser alguém ou de cometer algum crime?"

"Na briga, os rapazes disseram que você é bem forte. Posso ver que conseguiu lidar com caras com o dobro do seu peso e ainda saiu sem nenhum arranhão."

"Eu levei um tapa na cara da minha ex-namorada e empurrei um cara. As pessoas ganham força com a adrenalina. Grande coisa."

"Santana Lopez, você é a vigilante mascarada?" Nenhuma resposta. "Você afirma que não é você nessas fotografias?" A detetive pegou uma pasta e mostrou fotos retiradas de frames de vídeo, mas continuou tendo o silêncio como resposta. "Você esteve presente na Avenida Cardoso domingo à tarde?" Mais silêncio. "Quem são os outros vigilantes?" A detetive perguntava com mais agressividade, mas só recebia o silêncio. "Aposto que você está com sede. Que tal se eu te der um pouco de água para beber e para lavar o seu rosto em troca de algumas respostas?" Mais silêncio e a detetive esmurrou a mesa, num jogo de cena feito para tentar assustar a jovem. "Droga, Lopez, eu juro que se você não me der nenhuma explicação, eu vou te fazer ficar aqui até a audiência com o juiz."

Santana encarou a detetive e permaneceu calada, mesmo com toda vontade que tinha em beber um pouco de água. A detetive pegou o celular de Santana e pediu a senha de acesso. Santana abriu o celular "civil", até porque não havia nada ali que a comprometesse. A detetive começou a ver fotos, últimos telefonemas e encarava Santana, que não parecia afetada, apesar da atitude claramente ilegal. A detetive viu fotos de Santana com Jenny, com Marley, fotos de construções, recados de trabalho e algumas mensagens de Kurt e de Mercedes.

"Você é amiga de Rachel Berry? A mesma Rachel Berry amante da vigilante?" Mais silêncio. "Parece que essa Quinn Fabray estava precisando mesmo conversar contigo. Quem é ela? Outra namorada?" Silêncio.

A detetive balançou a cabeça e jogou o celular para Santana.

"Você tem direito a um telefonema!"

Santana pegou o aparelho e discou para um número, que não atendeu da primeira vez. Insistiu no mesmo número, até que ouviu uma mal-humorada Marley do outro lado.

"O que foi dessa vez, Lopez?" Marley atendeu com a voz impaciente e meio agressiva.

"Rose, preste atenção, eu fui presa e estou aqui no departamento de polícia. Preciso de ajuda."

Depois de um breve silêncio, Marley respondeu.

"Isso é um trote?"

"Infelizmente não é."

"Eu estou indo para aí."

Santana jogou o celular de volta à detetive.