Assim que Marley disparou a mensagem sobre Santana estar na cadeia, houve um momento inicial de desespero por parte dos demais vigilantes, muito mais por conta da falta de informação. Até que Quinn assumiu a liderança e convocou uma videoconferência, prontamente atendida.

"Qual é exatamente a situação?" Quinn perguntou.

"Eu estou indo para a delegacia agora ver se eu consigo pagar a fiança, mas pelo tom de Santana, parecia grave."

"A melhor das hipóteses é ela ter sido presa por briga ou embriaguez. A pior das hipóteses é ela ter sido presa por ser a vigilante." Mercedes explicou. "A verdade é que a polícia nada tem contra a pessoa Santana Lopez, mesmo se for revelado que ela seja uma vigilante, porque não tem como provar da participação dela ou de nenhum de nós nos episódios que a polícia poderia apontar como crime. Não existe uma lei contra vigilantes, apesar de isso estar em discussão na câmara legislativa."

"Eles estão atrás principalmente de dois vigilantes: o forte e o que voa, correto?" Quinn estava analisando friamente a situação, tentando aplicar o que ela havia aprendido. Então precisamos apresentar um vigilante forte para um show hoje à noite."

"Como?" Mercedes perguntou.

"Eu não sei, mas temos que dar um jeito."

"Eu sei como, mas isso requer incluir mais uma pessoa no grupo." Artie disse com certo receio.

"Quem?"

"George. Eu sei de fato que ele tem uma espécie de braço mecânico que ele está trabalhando para ajudar carregadores na área rural. É um protótipo e não chega nem perto ao que Santana é capaz de fazer naturalmente, mas sinceramente, acho que poderia nos ajudar nesse exato momento."

"Artie, você e eu vamos fazer uma visita ao George. Marley, quando você for ver Santana, não pague fiança hoje por nada nesse mundo. É fundamental que ela fique na prisão nessa madrugada."

"E quanto a Rachel? Ela não está aí contigo?" Mercedes perguntou.

"Ela está mais calma e vai passar a noite aqui na cabana. Disse que amanhã cedo vai voltar para a casa dos pais... enfim... acho que ela pode perfeitamente ser a babá de Beth hoje a noite. Ao trabalho!"

...

Marley chegou a delegacia acompanhada de Ryder Lynn, advogado recém-formado e considerado um pequeno prodígio que já tinha um cargo na empresa aos 26 anos. Lynn foi contratado pelos escritórios Fishes, mas não foi de lá que ele e Marley se conheceram. A família Lynn, juntamente com os Fishes, faziam parte do grupo do country club, que reunia as famílias privilegiadas da cidade. Os Lynn eram fazendeiros, e dominavam a produção de frango e milho da região. Ryder era o filho caçula que, diferente dos outros dois irmãos, decidiu seguir uma carreira que não envolvesse o agronegócio.

Quando chegaram na delegacia, Ryder exigiu saber todas as informações que pairavam sobre Santana. Uma breve análise já mostrava que não existia absolutamente nada que justificasse o tratamento diferenciado. Palavras trocadas no calor de uma discussão dificilmente podem ser levados em consideração. Seria como prender uma pessoa e passar um pente fino na vida dela, só porque alguém, durante uma briga, o chamou de ladrão ou corrupto. A retenção de Santana só se justificaria mediante evidências concretas.

Ryder, inclusive, fez queixas formais contra a detetive à frente do caso por abuso e violação dos direitos, algo que faria a detetive responder por um processo disciplinar. No entanto, Santana ainda teria de pagar fiança para sair da cadeia por causa da briga no restaurante. Se os policiais não poderiam encostar um dedo que fosse nela, o pagamento da fiança era a desculpa perfeita que Marley tinha para mantê-la a noite inteira na delegacia.

"Santana." Marley se aproximou da cela e ficou horrorizada ao constar que ela ainda estava algemada. "Guarda!" Marley gritou. "Por que ela ainda está algemada?"

Com um aceno do superior, o guarda, à contragosto, foi até a cela e retirou as algemas.

"Oi." Marley forçou um sorriso para a vigilante, que parecia assustada com a situação. "Eles te machucaram?"

"Não fisicamente. Será que dá para arrumar um copo de água? Eu vomitei na lixeira, e eles recusaram até um mísero gole de água."

"Isso é um absurdo!" Marley ficou furiosa. "Uma desumanidade."

"Eu sei que é. Eles estão tentando me pressionar de todas as formas que podem."

"Eu vou providenciar água, mas San, me escute com atenção. Você vai passar o resto da noite aqui, tudo bem?"

"Por quê?"

"A gente precisa resolver algumas coisas para limpar a sua barra. Mas amanhã eu venho aqui e pago a fiança para te liberar. Tudo bem?"

"Marley..."

"Você confia em nós?"

"Claro."

"Eu vou providenciar água. Você vai se ajeitar nesse banco e vai tentar cochilar um pouco. Amanhã eu pago a fiança."

"Marley."

"O quê?"

"Jenny está bem?"

"Como você ainda pode se preocupar com essa pessoa depois do que ela te fez?"

"Ela está machucada."

"Eu também estou."

"Desculpe por isso. Não tive a intensão."

"Eu sei que não. Boa noite, Lopez."

Santana observou Marley sair da área das celas e só então voltou a sentar-se. Cinco minutos depois, um guarda foi até ela e lhe entregou água num copo de papel. Era toda cortesia que Santana iria dispor naquele lugar. Ela agradeceu, tomou água e tentou descansar um pouco, porque tudo indicava que a noite seria longa.

Marley saiu da delegacia um pouco mais aliviada. A atuação de Ryder foi exemplar, e ela não acho tão ruim assim dever mais um favor para o amigo.

"Que tal pagar os meus honorários? Jantar?" Ryder perguntou fazendo charme enquanto os dois saiam do departamento de polícia.

"Eu janto contigo amanhã, sem falta." Marley caminhou para o carro dela.

"Compromissos a essa hora?"

"Nem me fale."

"Marley... ela é a vigilante?"

"Santana?" Foi a vez de Marley mentir usando algum charme. "Não. Ela tem vocação para encrenca, mas não é a vigilante."

"Então por que você acha que a namorada a acusou na frente de todo mundo?"

"A verdade?"

"Seria bom."

"Porque Jenny soube que eu transei com Santana e quis se vingar. Jenny é uma desequilibrada perigosa, se quer saber."

Ryder ficou perplexo com a revelação. Balançou a cabeça e tentou engolir o ciúme. Marley e ele se conheciam desde pequenos. De certa maneira, Ryder sempre gostou de Marley. E pensar que ele seria o advogado de uma potencial concorrente não lhe agradava tanto assim. Mas, enfim, o que ele não faria por Marley?

...

A casa de George não apresentava nada demais. Era um lugar pequeno e simples, situação um uma das saídas da cidade, com uma motocicleta na garagem. A pintura estava velha, o jardim e o gramado estavam sem cuidados. Era possível ver no quintal que havia um barraquinho, que Artie disse ser o local onde o amigo armazenava peças eletrônicas e fazia pequenos trabalhos com ferragens e soldas. Tudo era horrivelmente comum se considerar que o morador da casa era supostamente um gênio inventor e hacker de primeira categoria. Quinn trocou olhares com o amigo e vestiu a máscara. George queria conhecer a vigilante, logo, Quinn lhe daria uma. Os dois desceram da van. Enquanto Artie entrava pela porta da frente, Quinn circulou pela porta dos fundos. Ficou assustada quando dois cachorros foram para cima dela. No reflexo, levou a mão a frente do corpo e fechou os olhos. Quando deu por si, os cachorros estavam choramingando, com seus focinhos congelados. Quinn ficou com dó, não gostava de machucar animal algum, mas também tinha de se defender. A porta de trás se abriu abruptamente, e um jovem homem de ascendência indiana saiu de dentro apavorado com a condição dos cachorros.

"Enrole um pano com água quente ao redor dos focinhos. Rápido!" Quinn instruiu.

O homem derramou o café em duas toalhinhas e pressionou o pano aquecido nos focinhos dos cachorros. Felizmente, pareceu funcionar. Mais aliviado, o homem voltou-se para os dois visitantes inesperados.

"Eu não sabia que a vigilante tinha poderes glaciais." Ele disse zangado. "Da próxima vez, tudo que precisa fazer é apertar a campainha."

"Desculpe, mas eles me atacaram."

"Porque é noite e você é uma estranha. Eles são mansos, ok?"

"Desculpe."

"Artie disse que tinha um assunto muito importante, mas eu não imaginava que isso traria a vigilante na minha porta."

"George, precisamos conversar. Estamos com um problema que só você pode ajudar a resolver."

George apenas sorriu.

"Você veio ao lugar certo."

Quando Quinn entrou na casa de George, ficou impressionada com a quantidade de aparelhos e bugigangas que havia lá dentro. Definitivamente aquela era uma casa de um inventor. Ela poderia passar horas naquela casa tentando descobrir qual era a função e utilidade de todas aquelas coisas. Mas ela estava ali a negócios e tinha pressa.

"Artie disse que você está desenvolvendo um protótipo para aumentar a força de uma pessoa."

"Sim. É um exoesqueleto."

"Eu preciso dele para resolver uma questão hoje a noite."

"Por que, se você é naturalmente forte?"

"Digamos que eu esteja com certos problemas com a minha força."

"George. Será que você poderia fazer esse favor ser questionamentos? É uma emergência." Artie apelou.

"Eu entendo. Não sei se Artie te disse, mas eu sou um fã, apesar de você ter quase matado os meus cachorros. Só que se você veio aqui na confiança de eu fazer um favor, eu quero que você mostre que tem confiança em mim também."

"Você quer que eu tire a máscara?"

"É o preço."

Quinn pensou por um momento. Ele era amigo de Artie, certo? Correto. Ele fez alguns favores para os vigilantes, certo? Correto. Ele era pró-vigilante, certo? Correto. E o pior: havia uma emergência a se resolver ainda naquela noite. Quinn tirou a máscara e encarou o inventor.

"O noticiário disse que você era uma mulher de cor..." George franziu a testa. Mas sorriu diante da linda mulher que estava diante dele.

"Isso vai fazer diferença agora?"

"Quantos vigilantes existem no total?" George ficou curioso.

"Três... que trabalham em patrulha." Quinn explicou. "Eu sou um deles e preciso mesmo da sua ajuda. A outra, que os noticiários mostram, é uma de nós."

"Ela é a garota forte e você congela coisas, aparentemente?"

"Quase isso."

George levantou o dedo, pedindo um minuto. Ele foi até um cômodo da casa e voltou com uma geringonça que parecia um colete com ferros pendurados.

"Meu irmão trabalhava numa fazenda aqui perto. As costas dele estão arrebentadas com o peso que ele carregava diariamente. Eu inventei isso por causa dele, só que ele me chamou de idiota, porque se ele usasse uma geringonça como essa, além de fazê-lo parecer ridículo, ele perderia a indenização." George abriu o colete. "Acho que você vai querer usa-lo por de baixo do uniforme, correto?" Quinn acenou para George e tirou o casaco do uniforme, revelando o corpo em forma, mesmo que ainda coberto por uma camiseta. "Isso é tão emocionante." George não conseguia parar de sorrir. "Com licença." Ele disse antes de ajudar a colocar o colete em Quinn.

Em seguida, George grudou as bolas achatadas que formavam o conjunto metálico nos ombros, nos cotovelos e em cima da mão, próximo ao pulso. Então ele ligou o aparelho. Quinn sentiu um pequeno choque, que logo passou. De repente, era como se os braços dela estivessem tensionados.

"Tente relaxar um pouco e mexa os braços normalmente." George instruiu.

Quinn abriu os braços e se movimentou. Era muito estranho estar com aquele aparelho. Ela se sentia uma androide, sobretudo por causa do barulho que as barras hidráulicas faziam.

"Levante alguma coisa que você normalmente não conseguiria." George desafiou.

Quinn foi até o próprio George e o ergueu. Artie estava certo e errado ao mesmo tempo. O aparelho aumentava a força, mas nem de longe se equiparava ao poder de Santana Lopez. Para o que Quinn precisavaa, no entanto, para a emergência do dia, já dava para quebrar um galho. Tudo que ela precisava fazer era prender algum meliante, qualquer um, diante de uma câmera pública de segurança.

"Vai servir." Quinn acenou para George. "Venha que temos um trabalho a resolver."

"Eu?" George ficou empolgado.

"Se esse treco der algum problema, você precisa estar de prontidão para arrumar. Vem ou não vem?" Disse Quinn enquanto vestia o uniforme de vigilante, com exceção da máscara.

George apenas pegou o casaco pendurado no cabide de frente à porta e acompanhou os outros dois até a van preta. Era como um sonho que estava virando realidade.

...

Quinn fazia movimentos constantes com os braços enquanto George estacionava a van. Artie observava a vigilante tentando simular movimentos que possivelmente faria em alguns minutos e notou que, por mais que a invenção fosse de fato interessante, havia um desconforto operacional, sem mencionar no volume estranho que o aparelho fazia por debaixo da roupa.

"Acho que vou trabalhar melhor nesse protótipo quando chegar em casa." George franziu a testa.

"Seria bom. Ele não é muito confortável ou prático." Quinn encarou o inventor.

George era um sujeito relativamente alto, com mais ou menos 1,80 metro. Era filho de pais indianos, tinha cabelos negros e lisos, usava óculos, estava com barba por fazer, a pele tinha a tonalidade cor de bronze parecida com a de Santana Lopez. Definitivamente era do tipo nerd, mas um nerd atraente aos olhos de Quinn.

"Tem algum lugar em mente, Fabray?"

"O de sempre: escutar o rádio da polícia e fazer o trabalho."

Santana escutava o canal da polícia pelo celular enquanto patrulhava pelas ruas. Quando a watchtower entrou em operação, Quinn as vezes escutava o canal do rádio da polícia, mas era por questões específicas. O mesmo se podia dizer na atuação dela em campo: eram raras e sempre com tarefas muito específicas a realizar. Ela não tinha a mesma vivência como os outros e muito porque ela era mãe e, portanto, não tinha a mesma disponibilidade de tempo.

"Eu odeio esse rádio..." Artie ligou o canal do rádio da polícia no pequeno aparelho de escuta na van.

Brigas domésticas? Não pareciam ter a plateia que Quinn precisava. Nem mesmo casos de pontos de prostituição. Brigas no bar também não. A noite estava fraca. Quinn, de repente saltou do carro, levando o rádio comunicador. Seja lá como fosse, ela não iria resolver o problema escutando um rádio e parada num estacionamento. Retirou a máscara, colocou uma jaqueta por cima do uniforme e começou a andar pela cidade. Santana geralmente se movimentava por cima dos edifícios mais baixos daquela região. Mas Santana saltava e corria além da normalidade. Para ela, era mais fácil. Quinn teria de fazer tudo por terra. Foi quando, em duas ruas adiante, ela viu algo estranho. Entrou rapidamente num beco para colocar a máscara. Então correu em direção ao homem armado.

Quando o homem se deu conta da presença da vigilante, era tarde demais. Quinn agarrou o pulso do homem para que ele não atirasse. Mas no processo, seu corpo estava tão frio que ela congelou o pulso do homem, queimando a pele dele no processo. O homem gritou de dor. Quinn aproveitou a vantagem e o socou no rosto. Com a força dela levemente ampliada com a engenhoca de George, o homem caiu com o nariz sangrando e ficou muito atordoado com a potência do golpe. Outro homem apareceu enquanto Quinn estava com as atenções voltadas ao primeiro. Ele socou Quinn, que se desequilibrou. Quando o homem tentou dominá-la, ficou espantado ao parecer que estava tocando em um bloco de gelo.

"O que você é?" O homem disse espantado. "Uma vadia do ártico?"

Quinn aproveitou a pequena brecha e agarrou a mão do homem e a congelou. O homem gritou de dor. Quinn sabia que não poderia mais vacilar e levou a mão até a lateral da cabeça do homem, que gritou e desmaiou. Foi tempo suficiente para Quinn voltar novamente a atenção ao primeiro que já se recuperava e tentava alcançar a arma no chão. Quinn correu, deu um soco no homem e chutou a arma. Sem tempo a perder, encostou a mão na cabeça do homem, e o fez desmaiar com o choque térmico. Estava feito. Quinn respirava ofegante, podia sentir a eletricidade, o coração disparado, a adrenalina. A ação lhe dava um barato impressionante. Ela viu algumas pessoas saírem na calçada.

"A vigilante pegou os caras que atiraram no meu pai!" Um homem mais jovem gritou e correu em direção a cena juntamente com as pessoas.

"Vocês não podem linchar esses caras." Quinn se postou entre os bandidos e o grupo enfurecido. "Eles não vão pagar pelo que fizeram ao seu pai se estiverem mortos. Chame a polícia... tenho certeza que vocês já chamaram a ambulância."

"Mas..."

"Esses caras merecem apodrecer no inferno. É o que a prisão faz. Acreditem."

Vendo que o grupo se acalmou. Quinn pegou os lacres que Santana costumava usar para prender pessoas e os usou nos homens desmaiados. Sabia que estava sendo filmada no processo, o que era perfeito. Esperou tempo suficiente até ouvir as sirenes ao fundo. Era a deixa para ir embora. Missão cumprida. Correu para um beco e viu que a única saída era por cima. Então ela pegou o rádio comunicador e acionou o voador. Se Artie não tinha a intensão de se revelar a George, paciência. Não daria mais para voltar atrás.

"Quer uma carona?" Artie apareceu mais cedo do que o esperado.

"Missão cumprida. Vamos embora daqui."

...

Santana despertou no início da manhã do pequeno cochilo quando viu a agitação nas celas. Os policiais estavam prendendo dois bandidos que haviam atirado em um homem de 60 anos durante um assalto a mão armada. Mas, segundo cinco testemunhas, a vigilante impediu a fuga. Santana ouviu a história que chegava pela madrugada, e não pôde esconder a satisfação em ver o guarda olhar com culpa em direção a ela.

"Aquela vadia era feita de gelo. Juro por deus." Um dos homens dizia aos demais.

Santana escutava tudo na cela ao lado com um sorriso no canto do rosto. Então era por isso que Marley não pagou a fiança na noite anterior: era preciso esperar que Quinn gerasse um álibi perfeito para Santana.

...

Santana encarou todos os integrantes do grupo ao final de um dia exaustivo. Tinha acabado de sair da cadeia, porque Marley se atrasou no pagamento da fiança. De qualquer forma, ela estava orgulhosa de todos. De como Quinn tomou a iniciativa da liderança, de como Marley conseguiu agir friamente em crise, e até mesmo de Rachel, que não estava ali, mas tinha feito um favor para todo o grupo ao ficar como babá de Beth. Mas era momento de parar e refletir sobre os acontecimentos dos últimos dias, e também de desabafar, de cada um dizer o que pensava. Era por isso que aquela reunião era entre Santana, Quinn, Artie, Mercedes e Marley. Não havia Rachel, não havia muito menos o tal novo integrante, George.

"Com todo perdão, Marley e Santana, mas eu disse que o envolvimento de vocês duas ia dar merda." Quinn foi enfática.

"Com todo respeito, Fabray, mas a minha vida amorosa e sexual não te diz respeito." Santana rebateu.

"Não?" Quinn estourou. "Então o fato de você ter dormido em uma delegacia porque a sua ex-namorada maluca te chamou de vigilante na frente de todo mundo não diz respeito a nenhum de nós aqui? Não é só o seu que está na reta, Lopez. Tudo que acontece contigo como vigilante afeta a todos nós. Especialmente quando a sua vida amorosa cruza essa linha."

"Eu não quero ser chata San, mas Quinn tem total razão." Mercedes fez coro com a colega. "Eu não sou contra você e Marley se envolverem. Mas olha só o que isso causou."

"Vocês estão culpando a pessoa errada." Marley cruzou os braços e fechou o cenho. "E daí se Santana e eu tivemos um caso? Esse trabalho é estressante até mesmo para mim, que fico aqui acompanhando tudo pelos monitores e falando pelo rádio comunicador. Vocês querem uma culpada? Que tal o fato de Santana manter um relacionamento de anos com uma desequilibrada possessiva? Ou que tal o fator Rachel?"

O fator Rachel. Eis um ponto que era crucial na história. Todos ali sabiam do efeito que Rachel causava na vigilante, porque, de certa forma, todos testemunharam o início da relação. Nada mais era do que uma narrativa cliché do arquétipo do herói que vive um amor romântico, porém impossível, pela mocinha da história, após um salvamento traumático. Marley só descobriria como Rachel mexia com Santana há poucos dias e da pior forma, depois de uma conversa pouco amistosa com Jenny. Isso a enfureceu.

"Olha, eu concordo que a vida amorosa de Santana colocou todos nós em risco." Artie tentou ponderar e voltou-se especialmente para a líder. "Mas isso não é um problema que vai ser resolvido aqui e agora. O nosso problema é que Marley e o advogado te tiraram da cadeia e Quinn e eu produzimos evidências que te desassocia da figura da vigilante. Mas isso é temporário. Não digo a parte da cadeia, porque uma briga de bar não vai prender, mas isso não quer dizer que a polícia não vai te vigiar de agora em diante."

"Concordo." Mercedes, Quinn e Marley chegaram a um consenso enquanto Santana ficou em silêncio.

"O que sugere então?" Santana imaginava qual seria a resposta, embora não gostasse nada dela.

"Que você se afaste por enquanto. Que você não apenas deixe de patrulhar, como também evite se comunicar com a gente sobre os casos."

"Eu não concordo com isso. Não quando estamos investigando." Santana esbravejou.

"Concordo com Artie." Mercedes ponderou. "Isso é temporário, San. É para o bem de todo o trabalho que fizemos até agora. Você deveria aproveitar esse afastamento necessário para estudar para os exames finais."

Santana se sentiu traída, atacada pelas costas, deixada de lado e profundamente irritada. Mas, no fundo, ela sabia que o grupo estava certo.

"Quer saber? Acho que posso aproveitar umas férias. Eu mereço."

Acenou para os amigos e saiu do apartamento. Quinn respirou fundo assim que a porta se fechou. Sabia que a líder não levou o pequeno motim na esportiva, embora ela não pudesse fazer nada. Ela voltou-se então para os amigos e suspirou.

"Isso está aparentemente resolvido, por enquanto, agora precisamos pensar no que vamos fazer com Rachel." Quinn se posicionou como líder. "Ela derrubou um prédio e, infelizmente, tornou-se uma ameaça. Eu conversei um pouco com ela na cabana. Ela não teve nenhum sinal de desequilíbrio, mas eu não preciso ser uma psicóloga para ver que a garota está depressiva e na pior. Rachel não é uma de nós, mas Santana tem razão quando diz que ela é o nosso problema enquanto estiver na cidade."

"O que sugere fazer?"

"Eu não sei."

...

Santana chegou no prédio do dormitório exausta depois de ficar na cadeia por mais tempo que gostaria e pela discussão com o grupo. Tudo que gostaria, pelo menos naquele mesmíssimo momento, era tomar um banho, escovar os dentes e colocar a cabeça no travesseiro. Nessa ordem. Havia alguns poucos estudantes por ali, caminhando até a portaria ou saindo dos respectivos dormitórios para aulas noturnas ou outros tipos de encontros. Santana praticamente arrastava os pés. Ela entrou no prédio, pegou o elevador e caminhou até o dormitório. Revirou os olhos quando viu que ninguém menos que Jenny estava sentada à porta esperando por ela.

"Precisamos conversar." A garota mais velha levantou-se e encarou a ex-namorada ainda no corredor.

"Não há nada para conversar, Jen. Acredito que você me ferrou o suficiente por muito tempo. Por que não me deixa em paz?"

"Eu quero conversar..." Jenny se posicionou entre Santana e a porta do dormitório. "Eu sei que agi mal."

"Escute aqui." Santana se aproximou de Jenny com uma linguagem corporal perigosa, tensa. "Some da minha vida. Você não fez nada além de ser uma pedra no meu caminho ao longo de todos esses anos. Então, pelo amor de deus, se você não tem como ferrar mais a minha vida por hoje, faça a caridade de pegar um avião e volte para a metrópole ou para a casa dos seus pais milionários. Aliás, para dizer a verdade, eu quero mais é que você vá para o inferno, e queime por lá pela eternidade."

Santana empurrou Jenny para o lado, num gesto de absoluto desdém e desprezo. Então colocou a chave, girou-a e destravou a porta. Procurou ao máximo ignorar a presença da ex-namorada. A intenção de Santana era fechar a porta imediatamente, mas Jenny não permitiu e entrou no quarto também. Santana procurou a ignorar, ficou de costas para ela, procurando por roupas limpas para tomar o esperado banho.

"Santana, por favor!"

"Some da minha vida!" Disse ainda de costas. "Eu te odeio."

Foi quando Santana sentiu uma picada nas costas que a fez perder as forças e tropeçar na mesa que servia para ela e Mercedes estudarem. Caiu com o rosto no chão.