Mercedes foi a primeira a chegar ao hospital. Ela era o contato emergencial de Santana naquela cidade, fruto da amizade que construíram desde o primeiro ano da faculdade. Nos quatro anos em que se conheciam, Mercedes nunca imaginou que o recurso seria alguma vez usado, mesmo com o trabalho de vigilante. Santana foi baleada mais de uma vez, se machucou em dezenas de ocasiões, mas em quase todas elas havia Brittany para curá-la. Desde que a colega mudou-se para a Metrópole para perseguir o sonho de se tornar (e de conseguir ser) uma dançarina profissional, Santana passou a ter muito mais cuidado com o trabalho de vigilância. Era algo que passava por um preparo melhor tanto nos treinamentos quanto nas ações. Ela usava um colete a prova de balas nas patrulhas, era menos impulsiva, e como tinha uma equipe sob responsabilidade, era mais criteriosa quando agia.

O grupo tinha discutido o afastamento de Santana das atividades vigilantes mal havia três horas. Não foi tempo suficiente nem mesmo para alguém como Santana se rebelar. Não quando a líder tinha acabado de sair de uma delegacia, e estava louca por um banho. Por tudo isso que Mercedes não acreditou quando recebeu o telefonema emergencial.

A cidade tinha três grandes hospitais: um público e popular, um universitário, e um melhor equipado, destinado aos grandes bolsos, além de alguns postos de saúde espalhados pela cidade. Santana foi enviada ao hospital universitário, por ser o mais próximo de onde a tentativa de assassinato aconteceu, e também por ser o local que atendia ao plano de saúde estudantil. Mercedes teve dificuldade em conseguir ser atendida no balcão. Levou alguns minutos até a atendente a identificasse e a deixasse passar a área restrita de atendimento.

"Estou à procura de Santana Lopez. Sou o contato de emergência dela." Mercedes disse ao segundo balcão que precisou comparecer.

"Seu nome?"

"Mercedes Jones."

A atendente consultou os registros no computador e depois usou o telefone, antes de dar uma explicação.

"Tudo que sabemos é que a senhorita Lopez foi baleada e está neste momento na sala de cirurgia. Não sei te informar nada além disso, senhorita Jones. Mas o médico responsável vai te dar um retorno assim que possível. Você pode aguardar no hall."

"Tudo bem."

"Senhorita Jones, como acontece nos casos de pessoas que chegam baleadas..."

"Um policial pode fazer perguntas para mim. Sim, eu sou jornalista e sei como funciona."

Mercedes sentou-se na cadeira, e escreveu a mensagem para avisar ao restante do grupo. Rapidamente recebeu respostas de Artie e Quinn, mas nada de Marley. Os amigos que responderam ao recado estavam a caminho. Mercedes ainda não sabia da gravidade do ferimento de Santana, mas se ela estava numa mesa cirúrgica era porque o ferimento podia ser muito grave. Não achava que era momento para deixar as coisas acontecerem naturalmente. Tomou uma decisão e ligou para um último número.

"Alô? Mercedes?" A voz respondeu à chamada.

"Britt, desculpe te ligar desse jeito, mas se trata de uma emergência. Santana foi baleada e está fazendo uma cirurgia nesse momento."

Houve um breve silêncio.

"Ok. Estou indo para aí o mais rápido que posso."

...

"Eu não gostaria de ir." Brody disse arrumando a própria mala. "Eu sei que posso te ajudar, Rach." O jovem tentou insistir.

Rachel estava de braços cruzados à porta do quarto de hóspede. Hiram e Leroy chegaram em casa naquele mesmo dia e um rápido resumo foi o suficiente para os dois homens decidirem tirar a filha da cidade e leva-la a uma viagem ao campo, a fim de que ela pudesse descansar a mente e, ao mesmo tempo, afastá-la de qualquer problema. Brody entendeu rapidamente que não faria parte do processo, e os dois homens mais velhos disseram gentilmente que ele deveria ir embora.

"Você foi a minha rocha até agora, Brody. Mas eu preciso do colo dos meus pais nesse momento." Rachel disse em tom gentil, porém decidido. "Desculpe por não ter sido uma boa viagem."

"Não foi uma viagem usual... quer dizer... eu conheci e fui hostilizado pela famosa vigilante!" Brody e Rachel riram um pouco.

"Desculpe te desapontar, mas ser hostilizado por Santana Lopez não é um privilégio. Ela é assim com todo mundo desde a época em que fazíamos teatro amador."

"Puxa, e eu estava começando a me sentir especial!" Brody sorriu, fechou o zíper da mala, então encarou a melhor amiga antes de abraça-la. "Vou sentir sua falta, Rach."

"Não seja bobo! No final do mês e estarei de volta."

Leroy se aproximou. Ele não queria arruinar o momento, mas o horário da passagem de ônibus que compraram para Brody já estava se aproximando. Ele se comprometeu de levar o jovem rapaz até a rodoviária e, no caminho, comprar alguma coisa para a família comer.

Brody deu um beijo nos lábios de Rachel e caminhou juntamente com Leroy até a porta. Hiram também cumprimentou o rapaz, para em seguida abraçar Rachel e confortá-la por causa da partida do amigo. Quando Leroy e Brody entraram no carro, Rachel tirou o falso sorriso do rosto, entrou no quarto dela e se trancou. Estava estressada com tudo que tinha acontecido nos últimos dias, ainda mais do que quando deixou a metrópole. Sentou-se na cama e levou as mãos ao rosto. Chorou e chorou. O que estava acontecendo com ela? Uma experiência estressante na metrópole não deveria provocar tamanho caos e descontrole. Ela estava quase conformada em ser uma atriz de teatro do seguindo escalão, de que não era tão talentosa quanto imaginava. Mesmo que não fosse verdade, naquele momento, em meio a raiva e a frustração, Rachel se sentia um fracasso retumbante. Pior: havia a culpa que a corroía por ter derrubado o prédio.

Deitou-se na cama e procurou se acalmar. Tentou lembrar-se dos exercícios de respiração. Era uma atriz e não podia se dar ao luxo de andar por aí com os olhos estufados de tanto chorar. Foi ao banheiro do próprio quarto. Olhou-se no espelho. Sentia-se horrível. O celular apitava como louco. Rachel não quis conferir as mensagens. Presumiu que era Kurt lhe torrando a paciência. Desligou o aparelho. Rolou de um lado ao outro na cama. Não conseguia deixar a mente quieta. Não tinha exercício de meditação ou tai-chi algum que poderia funcionar naquele momento. Quem sabe um calmante?

Foi até o quarto dos pais e verificou os medicamentos. Lamentou-se por Hiram ser um homeopata. Nada daquilo adiantaria. Ela precisava de um Diazepam ou algo mais forte. Rachel suspirou e fez um crime que há anos não cometia. Desceu as escadas e entrou no escritório dos pais. Abriu a gaveta e escreveu no bloco de receituário de Hiram. Pegou o carimbo antigo (mas que farmacêutico algum iria conferir) e rubricou a assinatura.

"Vou sair." Rachel disse para Hiram, que estava ao telefone com alguém.

"Eu vou contigo." Hiram se ofereceu

"Não, papai, realmente não precisa. Eu só vou andar em volta do quarteirão para tomar ar fresco."

"Rachel!" Hiram falou mais grosso, fazendo a filha parar ainda no meio da sala.

"O que foi?"

"Você não deveria ficar sozinha."

"Papai, eu te prometo que só vou andar em volta do quarteirão e mais nada. Eu estou me sentido bem agora, não estou com formigamento e nem nada. Pode ficar tranquilo. Eu só preciso de espaço e um pouco de um ar fresco."

Rachel saiu de casa. Pensou em pegar a velha bicicleta na garagem, mas optou por andar pelo bairro, como havia prometido ao pai. Quando chegou ao final da rua onde os pais moravam, virou a esquina em direção ao comércio mais próximo. Estava perdida nos próprios pensamentos. Como tudo havia acontecido tão depressa? Ela sentiu um pequeno formigamento nas mãos. Quis chorar só pela antecipação do que iria porvir. Parou por um momento. Respirou fundo. Precisava se controlar.

Foi quando um carro subiu a calçada, parando logo em frente de Rachel. A atriz deu um pulo para trás devido ao susto que levou.

"Você está maluca?" Gritou para a ocupante do carro.

Foi quando a porta do carro se abriu e a ocupante saiu com uma arma em mãos. Era Jenny. A mulher mais velha estava seriamente perturbada, com o rosto inchado de tanto chorar, maquiagem borrada.

"Entra no carro antes que eu te mate aqui mesmo."

"Jenny... se acalme..." Rachel tentou a cautela.

"Entra no carro!" Jenny gritou e destravou a arma.

"Okay!" Rachel levantou as mãos.

Jenny mandou Rachel entrar pela porta do motorista e a empurrou para o banco do passageiro. Em seguida, fechou a porta do carro, engatou a macha ré, bateu em algumas latas de lixo e seguiu queimando pneus.

"Jenny." Rachel estava ofegante. "Eu acho que sei o que você está pensando. Santana deve ter sido uma cretina contigo, não foi? Ela é mesmo uma péssima namorada. Mas vou te dizer pela enésima vez, eu não tenho absolutamente nada com ela."

"Cala a boca! Apenas cala a boca!"

"Jenny... me deixa sair..." Rachel tentou falar com alma, apesar de estar extremamente assustada com a direção perigosa de Jenny.

"Não."

"Okay... então e se a gente fosse até Santana? Ela pode confirmar a minha história em cada detalhe. Você vai ver que eu e ela não temos relacionamento algum."

"Santana está morta!" Jenny gritou e acelerou ainda mais o carro, cortando os demais no trânsito, provocando freadas bruscas e buzinas nervosas por parte dos outros motoristas.

"O que?" A espinha de Rachel gelou de verdade, como se Quinn Fabray a tivesse tocado.

"Eu matei Santana e a próxima será você!"

...

Mercedes estava sentada na cadeira do hospital. As mãos estavam na cabeça. O corpo estava inclinado para frente, o rosto encarava o chão. Mercedes não estava focada no desenho discreto do piso brilhante e de cor clara, que imitava mármore. Mercedes rezava fervorosamente para o sucesso dos médicos na sala cirúrgica. Rezava fervorosamente para que Santana ficasse viva tempo suficiente para Brittany chegar. Rezou tanto que mal sentiu a mão que lhe tocou o ombro.

"Cedes?" A jornalista olhou para o lado e viu Artie parado ao lado dela. "Vim assim que li o seu recado."

Mercedes não disse nada. Apenas estava aliviada por ter alguém ao lado, em que poderia abraçar e chorar acompanhada. Sobretudo se esse alguém fosse o melhor amigo. Artie, ela e Santana formavam um trio infernal na universidade. Os três sempre estiveram juntos desde o início, e fazia todo sentido que num momento como aquele, Mercedes e Artie estivessem juntos para consolar um ao outro.

"Eu ouvi muitas histórias no prédio do dormitório. Está tudo cercado." Artie continuou a massagear as costas da amiga, a consolando. "Não quis acreditar em nenhuma até poder falar contigo. O que aconteceu, Cedes? O que fizeram com a nossa Santana?"

"Atiraram nela, é só o que sei. Três tiros. Ela chegou em estado crítico e está há mais de duas horas na cirurgia."

"Oh deus..."

"Uma enfermeira falou comigo. Ela disse que isso é um bom sinal, sabe? A demora. É sinal de que a nossa garota está lutando."

"É o que ela sabe fazer de melhor, Cedes. Ela luta como ninguém."

"Espero que ela consiga lutar pelo menos até Brittany chegar."

"Você ligou para ela?"

"Sim. Antes mesmo de mandar mensagens para todos vocês."

"Garota esperta." Artie suspirou. "Cedes... eu conversei com alguns colegas do dormitório, e as descrições batem com Jenny. Parece que houve testemunhas das duas discutindo no corredor do andar... a polícia deve resolver esse caso assim que checar a câmera de segurança do andar."

"Jenny... Gostaria de dizer que ela não seria capaz." Mercedes lamentou. Ela verificou a mensagem do celular que vibrava no bolso do casaco. "Quinn disse que vai vir assim que conseguir uma babá para Beth."

"Marley mandou alguma mensagem?"

"Nada."

"Bom, o importante é que estamos aqui."

...

"Jenny..."

"Já mandei você calar a boca!" Jenny apontou a arma mais uma vez para a passageira ao lado.

Rachel podia reconhecer para onde estavam indo. Ela mesma fez aquele caminho algumas vezes quando morava na cidade. Estava na estrada para as cabanas e para a reserva ambiental, o que fazia certo sentido, uma vez que se Jenny a pretendia matar, um assassinato na floresta evitaria potenciais testemunhas.

"Acho melhor você se acalmar enquanto ainda há tempo." Rachel alertou enquanto cruzavam a famosa ponte alta. "Você precisa saber que eu sou potencialmente mais perigosa que Santana."

"Eu não dou a mínima para o que você pode ou não fazer."

Rachel dizia para tentar se defender, mas era sim uma verdade na qual ela sentia vergonha e remorso. O poder dela era potencialmente muito maior e mais perigoso do que de qualquer um dos vigilantes. Infelizmente, ela não se esforçou para treinar e controlar o potencial que tinha, achando que isso atrapalharia a carreira no teatro. Foi um erro que estava lhe custando muito caro.

"Santana morreu." Jenny dizia com lágrimas nos olhos. "E a culpa foi toda sua."

"Você está me culpando porque você matou a sua namorada?" Não é que Rachel não estivesse sentindo o impacto da notícia, mas era óbvio que ela não podia deixar de se indignar diante de uma mulher completamente descontrolada que a acusava de algo absurdo.

"Se você não tivesse aparecido, Santana jamais teria terminado comigo."

"Você está culpando alguém que nunca teve um relacionamento com Santana além de amizade. Santana era muitas coisas, womanizer, inclusive, mas ela também era uma boa amiga. Era tudo o que ela era para mim: uma boa amiga."

"Uma boa amiga que te amava!"

"Se ela me amava desse jeito, nunca foi recíproco da minha parte." Não totalmente, Rachel complementou em pensamento. Porque, sim, havia uma parte dela que correspondeu aos afetos da vigilante. Beijos e carícias foram trocados. Mas a outra parte de Rachel, a que ambicionava uma carreira e a fama, falou muito mais alto. Além disso, Rachel passou muitos anos priorizando um relacionamento com Finn Hudson que não tinha o menor futuro. Não queria cometer o mesmo erro. Por mais que ela tivesse sentido atração por Santana, por mais que as duas tivessem conexão, ela não abriria a mão para a possibilidade de uma carreira por mais ninguém.

Jenny chorou mais forte e adentrou o carro em uma das várias e pequenas estradas de chão que havia naquela região que dava acesso a cabanas e também a pequenas fazendas. Ela parou o veículo em um pequeno vão naquele passeio em que alguns costumavam estacionar para ter acesso a uma trilha para um ponto de pesca no rio. Não havia ninguém por ali naquela hora do dia. Tudo que havia era escuridão, os sons da mata e um distante ruído da cidade.

"Desce."

"Jenny, você precisa pensa melhor... Sabe aquele prédio da loja de instrumentos? Eu o derrubei. Eu sou contra violência, mas eu sei me defender quando preciso."

"Desce!" Jenny disparou a arma contra o vidro da janela.

Rachel se encolheu temerosa. Ela podia sentir que o medo que passava pelo corpo dela estava a ascendendo. Podia sentir o formigamento nas mãos, a habitual ardência nos olhos. Estava em conflito. Por que se segurar contra Jenny? Ela supostamente matou Santana e iria fazer o mesmo com ela. Então por que não apenas deixar explodir? Não havia mesmo prédios ou pessoas por perto para sentir os efeitos. A questão que ocupava de forma conflitante a mente de Rachel tinha uma resposta simples: porque Rachel não era uma assassina, e todo estrago que ela causou no passado quando estava descobrindo os poderes foi involuntário.

Rachel desceu do carro. Estava no limite do controle para não explodir. Ela rezava pela vida, por um milagre e, também por um sopro de controle.

Quando Jenny, chorando, desceu do carro e apontou a arma para ela, o instinto de sobrevivência foi mais forte.

...

Quinn chegou ao hospital quase que ao mesmo tempo em que o médico se aproximou para dar explicações aos amigos que ali estavam para receber as notícias. Tudo que pôde fazer naquele instante foi dar um rápido abraço em Mercedes e voltar-se para o médico.

"Vocês são os amigos da senhorita Lopez, correto?"

"Sim." Mercedes disse com urgência. "Eu sou o contato de emergência dela. Doutor, ela..."

"Santana chegou ao hospital em estado grave, com três ferimentos causados por arma de fogo. Nós retiramos duas balas que ficaram alojadas, a terceira perfurou o braço esquerdo e saiu. Uma bala se alojou no ombro esquerdo, e a outra perfurou o pulmão esquerdo, e por muito pouco não atingiu o coração. Nós conseguimos reparar os danos, a amiga de vocês está em ótima forma física, e isso contou a favor dela. Mas foram traumas importantes."

"Então ela tem boas chances de sobreviver?" Mercedes perguntou com lágrimas nos olhos, em um misto de alivio e angústia.

"Sim, senhorita Lopez ainda está entubada neste momento por precaução. Mas vocês precisam entender que senhorita Lopez tem uma batalha pela frente. Ela vai precisar de fisioterapia para recuperar o movimento do braço esquerdo, e vai precisar fazer muitos exercícios de respiração para recuperar a capacidade pulmonar." O médico disse em tom sóbrio. "A ajuda de vocês será fundamental."

"Senhorita Jones, como você é o contato da senhorita Lopez, você sabe me dizer se ela tem alergias quanto a algum alimento ou a algum medicamento?"

"Não... Santana come de tudo, e ela nunca comentou comigo se tinha alergia a medicações. Ela não fuma e nem usa drogas. Ela também só bebe socialmente."

"Você tem o telefone dos pais ou da família dela?"

"Sim... eu vou avisar os pais dela e também perguntar sobre alergias. Santana é natural de outro estado, e veio para cursar a faculdade... os pais moram a uns 500km daqui, e eu não sei se eles terão condições de vir."

"Tudo bem. Você é o contato de emergência da senhorita Lopez, e tem autorização para acompanhar o caso. Nós te manteremos informada."

"O senhor não parece tão otimista, doutor." Quinn franziu a testa.

"São os pais dela, Quinn." Artie tocou o braço da amiga.

"Doutor, quando poderemos vê-la?" Mercedes perguntou.

"Ela na UTI ainda sob efeitos de sedativos na sala de recuperação. Vocês poderão vê-la quando a transferirmos para o quarto. Se tudo ocorrer bem, isso deve acontecer em algumas horas."

O médico despediu-se e as duas mulheres se sentaram no banco com o cadeirante logo a frente delas.

"Quem fez isso?" Quinn perguntou apertando os dentes.

"Aparentemente... Jenny."

"Eu sabia!" Quinn deu um soco no braço da cadeira, chamando atenção de outras pessoas que estavam na sala de espera. Ela conteve as próprias emoções e encarou os amigos. "Alguém tem notícias de Rachel e de Marley?"

"Não." Artie ficou confuso. "Deveríamos?"

"Se Jenny atirou mesmo em Santana, na própria namorada, nem quero pensar no que ela pode fazer para se vingar das rivais."

"Nós precisamos nos mexer." Mercedes disse com urgência.

"Artie e eu vamos procurar Jenny e Marley. Você fica aqui. Alguém tem que ficar aqui com ela."

"Além disso, Cedes, Britt está chegando." Artie a rememorou.

"Brittany está chegando?" Quinn ficou visivelmente aliviada. "Ótimo... ótimo... quando Santana acordar, nós teremos muito que discutir."

Quinn pegou a bolsa e escreveu uma mensagem no celular.

"Artie, chame George. Temos um trabalho a fazer."

...

Era madrugada quando Brittany acordou Mercedes, que dormia em uma poltrona ao lado da cama em que Santana estava deitada. A jornalista levou um susto. Como é que Brittany passou pela segurança do hospital e entrou no quarto? Então ela se lembrou de que a amiga dançarina estava habituada a fazer aquele tipo de ação enquanto desenvolvia os próprios poderes. Brittany gesticulou para que Mercedes fizesse silêncio e apontou para Santana ainda inconsciente, entubada e monitorada por aparelhos.

"Ela levou três tiros. Um passou perto do coração e perfurou o pulmão." Mercedes explicou sussurrando. "É bom ver você, Britt."

Brittany acenou e sorriu. A dançarina postou-se ao lado de Santana, levantou o lençol e viu tórax nu da amiga com uma bandagem que escondia o corte do bisturi. Ela não podia fazer aquilo desaparecer por completo, mas poderia fazer com que restasse apenas uma linha tão discreta, que poderia passar desapercebida naquele belíssimo corpo. Brittany esfregou as mãos, que se ascenderam em uma luz azul tênue. Ela encostou a palma das mãos no corpo de Santana e se concentrou na cura.

Santana abriu os olhos e começou a tossir alguns minutos depois. Brittany ficou ao lado da amiga enquanto Mercedes acionou a enfermeira e a médica de plantão. Os profissionais chegaram logo e por um momento ficaram em choque ao ver Santana desperta. A médica reagiu depressa e logo começou a retirar o tubo.

"Eu nunca vi uma recuperação tão rápida depois de um trauma como esse." A médica admirou-se para a enfermeira e voltou-se para a paciente. "Senhorita Lopez. Você está sentindo um desconforto em sua garganta, o que é perfeitamente normal por causa do tubo. Procure respirar normalmente, ok?" A médica pegou a máscara de oxigênio e colocou no rosto da vigilante. "Estávamos otimistas quanto a sua recuperação, mas isso é extraordinário."

"Doutora. Isso quer dizer que..."

"Que sua amiga está se recuperando melhor do que o esperado." Disse para Mercedes, então voltou-se a paciente. "Ouviu, senhorita Lopez. Você está se saindo muito bem."

"E agora?"

"O fato de ela estar respirando por conta própria, mesmo com uma perfuração no pulmão é um ótimo sinal. Mas ainda temos etapas a vencer. Ela precisa tomar os antibióticos e anti-inflamatórios. Eu prescrevi exames de sangue para ela fazer pela manhã e farei uma melhor avaliação do progresso após os resultados. De qualquer forma, estamos otimistas."

Uma vez que a médica deixou o quarto, e a enfermeira aplicou os medicamentos, Brittany voltou a ficar ao lado da amiga. Foi o tempo de Santana abrir os olhos. Ela parecia grogue, o que era totalmente compreensível.

"B... B..." Santana respirou e sentiu a garganta dolorida. "Britt."

"Eu disse para você tomar cuidado extra já que eu não estaria por perto." Brittany bronqueou. "Tem sorte que eu acabei de voltar de uma turnê."

"Obrigada." A voz de Santana saiu rouca e fraca.

A vigilante fez uma careta, como se estivesse sentindo dor. A vontade dela era de arrancar todas aquelas agulhas e sair andando daquele hospital. Mas tinha de reconhecer que ainda estava muita fraca. A cura de Brittany era formidável, mas havia etapas na recuperação que Santana tinha de fazer por si mesma. Ela tinha consciência de que só não estava sentindo dor por causa dos analgésicos aplicados diretamente na veia.

"San..." Mercedes se aproximou da cama. "Quem fez isso contigo?"

"Jen." Santana apontou para a garrafa. "Água."

"O que vamos fazer com aquela doida?" Mercedes suspirou, enquanto colocava um pouco de água no copo descartável

"Nada." Santana respondeu antes de tomar alguns goles de uma água particularmente refrescante.

"Lamento dizer, San, mas Quinn e Artie estão caçando a sua ex-namorada pela cidade."

"Não..."

"Ela tentou te matar. Não pode ficar impune."

"Não."

Santana mexeu-se na cama e apontou novamente para o copo de água. Mercedes deu-lhe mais um gole, e o líquido desceu como um alívio em Santana, que ainda estava com um incômodo gosto de sangue e fel na boca.

"Descanse, San. Amanhã haverá muitas perguntas a responder."

Brittany passou a mão nos cabelos de Santana e a beijou na testa. Ela olhou para Mercedes e sorriu.

"Vá para casa descansar, Cedes. Eu fico aqui com ela nesta madrugada. Já que estou aqui, pode ser que eu visite outras pessoas também."

Mercedes acenou grata com a chance de se recompor. Na saída do hospital, ela digitou mensagens para a equipe, convocando todos para ir ao apartamento, centro das operações. Era para lá que todos deveriam ir para descansar e conversar. A própria Mercedes odiaria voltar para o dormitório. Ela não queria ver o sangue de Santana no chão.