"Você provocou o acidente na ponte no ano passado?" O agente perguntou.

"Pela enésima vez... Não!"

Rachel estava ficando frustrada de responder as mesmas perguntas de forma seguida. Tudo que sabia era que estava muito cansada, com uma terrível dor de cabeça, e em um lugar que não tinha certeza se ainda era o departamento de polícia. Estava algemada, sentada em uma sala que parecia muito ser parte do porão, a julgar pelo conjunto de escadas que ela acha que desceu. Havia um agente em um terno surrado fazendo as perguntas, uma mulher negra que também parecia ser uma detetive num canto da sala, e outros dois policiais armados, prontos para atirar caso fosse necessário.

"Quem é a outra vigilante? É Santana Lopez?"

"Eu não sou uma vigilante... eu só tenho esses poderes..."

"Santana Lopez é a vigilante?"

"Não." Mesmo na pior, Rachel ainda se agarrava num censo de fidelidade com os amigos com poderes sobre-humanos. Ela sabia que eles eram a melhor chance que tinha para sair daquela roubada, nem que fosse fugindo dali.

"Por que você está acobertando Santana Lopez?"

"Santana é só a minha amiga."

"Quem são os vigilantes?"

"Eu não sei."

"Santana Lopez é a líder dos vigilantes?"

"Ela é minha amiga."

"Para quem você trabalha?"

"Eu trabalho na Companhia de Teatro Corcoran."

"Para quem você trabalha?" O agente esmurrou a mesa e gritou no ouvido de Rachel.

"Por favor..." A atriz começou a chorar. "Eu só quero ir para casa... eu não matei Jenny. Eu juro! Ela me sequestrou e estava histérica, com um revólver apontado para mim... Por favor... Jenny era uma maluca e eu só queria ficar sozinha..."

"Quem é a vigilante que você ajuda?" O agente continuou a gritar, aumentando a pressão.

"Eu não sei..."

"Santana Lopez é a vigilante?"

"Não..."

"Você é a vigilante?"

"Eu nunca fui uma... eu nem moro mais aqui..."

"Você derrubou aquele prédio?"

"Não... por favor..." Rachel continuava a chorar. "Eu não sou a vigilante, eu não faço parte do time... eu só quero ir para casa..."

"Então os vigilantes são uma equipe?"

"Eu não sei..."

"Quem são eles?"

"Eu não sei..."

"Santana Lopez é a vigilante?"

"Não..."

"Por que você protege Santana Lopez?"

"Eu não a protejo..."

"Por que você derrubou aquele prédio?"

"Eu não derrubei..."

"Qual é o seu nome?"

"Eu não sei..." Rachel chorou ainda mais forte.

"Droga, Berry! Eu juro que você não vai sair daqui enquanto não me der alguma coisa."

"Por favor..." Rachel chorava compulsivamente. "Eu quero ir para casa... eu só quero ir para casa... eu juro que vou ficar quieta... por favor..."

"Berry!" O agente fez menção em aumentar ainda mais a pressão, mas foi contido pela detetive Emília Mesquita. Ela percebeu os olhos de Rachel mudarem de cor e achou por bem uma mudança de estratégia.

"James, é melhor parar um pouco."

O homem recuou e se afastou da atriz acuada na mesa. No fundo, todos ali tinham medo de que aquela garota usasse os poderes novamente. Apesar de estarem literalmente no porão do departamento de polícia, na sala de acesso ao almoxarifado, que era teoricamente o lugar mais sólido de todo prédio, eles estavam com medo. Rachel chorava e não prestava atenção no que os dois detetives conversavam, mas ficou grata quando James se retirou da sala juntamente com os outros dois policiais armados, a deixando sozinha com a outra detetive. A mulher sentou-se à frente de Rachel e esperou a atriz se acalmar. Então gentilmente ofereceu um copo de água, que foi recebido de bom grado por Rachel.

"Está tudo bem. James pode exagerar um pouco, mas ele não é uma má pessoa."

"Não é o que parece."

"Fique calma. Respire." Ela sorriu para Rachel e ficou em silêncio até que os olhos da jovem mulher voltassem ao normal. Então, abriu um pequeno sorriso e disse com suavidade. "Você não controla, não é mesmo?"

"O quê?" Rachel limpou as lágrimas.

"Seus poderes. Você não sabe como controla-los."

"Não muito bem. Eu tento... juro que tento... mas tem vezes que o melhor é deixar a onda sair."

"É por isso que você não é uma vigilante." A detetive disse com convicção.

"Claro que não sou." Ela respondeu de forma desleixada e depois voltou a ficar atenta para a conversa. "Então você sabe que eu não sou uma vigilante!"

"Eu estudo a atuação dos vigilantes faz alguns meses. Eles são coordenados, treinados. Tudo que você não é." A detetive se permitiu rir.

"Não... eu não tenho esse tipo de coordenação."

"Sim. Mas me diga, Rachel... posso te chamar de Rachel?"

"Sim."

"Me diga, Rachel, por que Jennifer May te atacaria depois de tentar assassinar Santana Lopez? O que você fez?"

"Nada. Eu não fiz nada. Eu juro! Eu vim de volta para casa porque eu precisava ter paz... as coisas na metrópole estão difíceis, e eu só queria ficar quieta. Mas logo no primeiro dia, eu encontrei Santana e Jenny. Foi casual, juro. Santana me convidou para almoçar, e as coisas foram ladeira abaixo desde então."

"Você e Santana Lopez já ficaram... íntimas de alguma forma?"

"Sim." Rachel confessou, deixando-se levar pela conversa amistosa e a voz suave da detetive. "A gente se beijou algumas vezes. Nunca passou disso, juro. Ficou no passado."

"A senhorita May sabia que você e senhorita Lopez tiveram um rápido envolvimento?"

"Aparentemente sim."

"Rachel, você já ficou íntima de alguma forma com a vigilante?"

"Eu..." Rachel olhou para a detetive e engasgou. "Só foram beijos."

James entrou na sala, interrompendo a conversa mais amistosa e reveladora, em que Rachel poderia potencialmente entregar os vigilantes. Ele cochichou no pé do ouvido da colega antes de sinalizar para a entrada de duas pessoas na sala de interrogatório improvisada.

"Mesquita, esses são o senhor..."

"Lynn, Ryder Lynn. Essa é a minha assistente, a senhorita Fabray. Rachel Berry, como seu advogado, eu digo para você não dizer absolutamente nada."

"Okay, então os senhores podem acompanhar o interrogatório." Mesquita testou as águas.

"Sem mais interrogatórios. Minha cliente não vai mais dizer uma palavra que seja." Ryder enfatizou.

Rachel não sabia quem era aquele homem alto, mas ela conhecia Quinn Fabray muito bem, e isso lhe aqueceu o coração. Os vigilantes não a abandonaram.

"Detetive, se me dá licença, nós temos o direito de conversar com nossa cliente, mas não nessa sala." Ryder disse com educação, mas firme. "Não onde corremos o risco da polícia violar os direitos de confidência entre eu e minha cliente. Gostaria, pois de a gente ser dirigido ao local de praxe."

Emilia Mesquita ficou desconfiada porque o advogado de Santana Lopez era o mesmo de Rachel Berry. Ela conhecia boa parte dos advogados da cidade: dos mais caros aos chaves-de-cadeia. Ryder Lynn era um iniciante, mas que trabalhava para a maior firma da cidade, e ela podia presumir que ele não jogaria para perder. Então a detetive olhou para Rachel, que parecia ter ganhado nova vida ao ver os dois.

"Okay. Garanto a vocês que essa sala não tem escutas. Vocês têm 15 minutos para conversar com a sua... cliente."

Assim que a detetive se retirou, Quinn abraçou Rachel brevemente antes de sentar-se a frente da amiga.

"Eu não sei ainda como vamos te tirar dessa, mas saiba que Lynn é bom no que faz, e nós estamos pensando em um jeito de te inocentar." Quinn assegurou e olhou para a amiga.

"Santana... ela..."

"Está viva. Está bem... quer dizer, Jenny realmente a baleou, foi por um tris, e depois ela ainda teve uma crise nervosa quando soube que Jenny morreu. Deve sair do hospital amanhã."

"Fico grata e aliviada." Rachel esboçou um sorriso. "Meus pais... eles... sabem?"

"Todo mundo sabe, Rach. Está em todos os noticiários. A gente tentou retardar um pouco a presença deles, tentamos a ajuda de Kurt... mas Ryder teve um bom argumento sobre a sua defesa, e a gente convenceu os seus pais a contratá-lo." Quinn explicou e Ryder acenou.

"Agora preste atenção." Ryder sentou-se em frente a Rachel. "Preste muita atenção no que eu vou dizer, eu não sou um criminalista, mas tenho conhecimento suficiente para te defender. Além disso, Marley e Quinn abriram o jogo sobre Santana. O que posso te garantir, Rachel, é que não existem leis específicas para pessoas com poderes, ou para incriminar vigilantes. Pelo menos, não ainda. Eles não podem te tratar de forma diferente de qualquer outra pessoa. Eles não podem te mandar para um complexo militar, por exemplo. Mas você foi acusada formalmente de homicídio culposo, que significa que você provocou a morte de alguém sem ter intenção. Isso, no seu caso, é bom. Mas ainda temos de nos preocupar com outra coisa em paralelo. Você manifestou seus poderes de uma forma pouco apropriada na delegacia, e agora é principal suspeita por ter derrubado o prédio. É um complicador que teremos de enfrentar. A promotoria está agindo e vai conseguir que você fique presa até o dia da audiência, que vai determinar fiança e a possibilidade de você responder em liberdade."

"Mas e se eu realmente matei Jenny." Rachel lamentou.

"Rachel... como exatamente isso aconteceu?" Ryder perguntou procurando ser cuidadoso. "Lembre-se que eu sou o seu advogado, e eu preciso saber de absolutamente tudo para te defender. Não podemos ser pegos de surpresa no tribunal."

"Ela ia atirar em mim e eu explodi. Lembra do que aconteceu com Kurt?" Rachel perguntou a Quinn que acenou. "Faz um ano e meio mais ou menos, quando os meus poderes começaram a manifestar por conta de um trauma. Eu estava voltando do trabalho... eu era uma garçonete e cantora no restaurante Barroso's... fui pegar um atalho pelo parque para chegar em casa, e fui assaltada. Esse homem... Howard Battes, me assaltou e decidiu fazer mais. A vigilante me salvou, mas esse homem... já tinha me tocado, me penetrado, contra a minha vontade. Eu não quis denunciá-lo, apesar dos pedidos do meu ex-namorado Finn Hudson, e do meu melhor amigo, Kurt Hummel. Eu só queria esquecer e seguir com a minha vida. Mas o trauma fez com que os meus poderes, que estavam latentes, aflorassem, e eu nunca aprendi a realmente controlar."

"Você não tinha poderes antes?" Ryder questionou.

"Não é que eu seja uma especialista..." Quinn explicou. "Pessoas com poderes são absurdamente raras. Eu digo, muito raras mesmo. A única razão de se ter um número maior de pessoas com poderes nessa cidade, é porque elas foram deliberadamente atraídas para cá por um lunático... enfim... os poderes se manifestam na puberdade, mas no caso de Rachel, foi depois de um trauma. A teoria é que se não fosse por isso, ela poderia passar a vida inteira sem saber."

Ryder acenou e fez algumas anotações.

"Rachel, você já se envolveu em acidentes por causa dos seus poderes?"

"Sim, quando eles se manifestaram pela primeira vez. Eu explodi o meu apartamento."

"Houve mais algum... incidente?"

"Eu meio que aprendi a descarregar a energia, no solo... isso nunca provocou nenhum problema. O lance do prédio e da delegacia, eu juro que foram um descuido. Eu estava muito estressada."

"A ponte... quando você foi vista pela primeira vez junto com a vigilante?"

"Eu não tive nada a ver com aquilo. Nem a vigilante. Coincidiu de a gente estar voltando de um passeio quando aconteceu tudo aquilo. A vigilante encostou o carro e correu para a ponte depois que o acidente aconteceu."

"O que exatamente aconteceu na noite em que Jenny te sequestrou?"

"Eu tinha me despedido do meu amigo Brody. Meu pai foi leva-lo para a rodoviária e eu fiquei em casa. Mas eu estava com muita dor de cabeça, com ansiedade, e decidi sair para comprar um remédio. Eu acho que Jenny já estava de tocaia na frente da casa dos meus pais, só esperando uma oportunidade. Ela me abordou, apontou a arma, e me fez entrar no carro dela. Ela estava completamente desequilibrada, dizendo que tinha matado Santana, e que depois seria a minha vez. Jenny dirigiu meio sem-rumo pela cidade, acho que estava decidindo para onde me levar. Andamos de carro pela cidade por algum tempo, coisa de meia hora, até que ela decidiu pegar a estrada para a saída da cidade e entrou na trilha do ponto de pescaria. Ela me fez descer do carro e acho que a intenção dela era desovar o meu corpo no rio, não sei... só sei que eu reagi, e foi por instinto. Eu usei os meus poderes para... desarmá-la. Eu acabei perdendo a consciência e quando acordei... Jenny estava deitada, quieta. Eu me certifiquei de que ela ainda estava viva, mas na escuridão eu não vi que ela tinha batido a cabeça. Isso deve ter acontecido quando o corpo dela foi jogado para trás. A polícia chegou uns dez minutos depois, e eu fui levada para a delegacia."

"Quanto a isso, Rachel, você não pode falar absolutamente nada enquanto não sair o laudo do legista. Entendido?"

"Mas e se eu..."

"Não interessa o que você ache. Você não vai dizer uma palavra mais, você não vai assinar nenhum documento sem a minha presença."

"Okay."

"Ótimo. Amanhã eu passo aqui para a gente se preparar para a primeira audiência."

Quinn se levantou e deu um beijo na testa de Rachel antes de ir embora acompanhada de Ryder.

"Não se esqueça do que eu disse. Nós vamos te tirar dessa. Fique forte." Quinn sorriu para Rachel, mas ela própria não se sentia tão confiante.

...

Santana estava desconfortável durante o enterro de Jenny. Ela sentia uma tristeza imensa pela morte da ex-namorada, e vivenciar o luto não era uma tarefa fácil. Ali, no cemitério, acompanhada de Mercedes e de Artie, com Marley e Ryder mais ao longe, era extremamente desconfortável encarar os olhares fulminantes que alguns dos familiares de Jenny dirigiam contra ela. A imprensa havia construído algumas hipóteses a respeito do caso. Eram suposições de que Jenny enlouqueceu com as sucessivas traições da namorada, que inclusive teve um affair com Rachel Berry. Santana acabou sendo relacionada como uma vilã nessas narrativas.

A teoria da jornalista Sue Sylvester foi além: era de que Santana Lopez era de fato a vigilante, e fazia comparações bastante críveis baseadas em especial nos famosos vídeos do acidente na ponte. Mas o fato incontestável era que Santana foi a vítima de tentativa de homicídio pelas mãos de Jenny, não estava sendo acusada de absolutamente nada, e não era obrigada a dar depoimento algum a não ser como testemunha, e se quisesse. No entanto, Santana se recusou veementemente a dar qualquer tipo de declaração à imprensa.

Quando o caixão desceu, a dor foi ainda maior. Santana não conseguiu conter as lágrimas, e Mercedes gentilmente colocou as mãos nos ombros da amiga em conforto. Jenny agora estava à sete palmos. Que desperdício de talento e de um futuro brilhante pela frente. A loucura obsessiva de Jenny no que seria os últimos dias de vida dela, nada diziam respeito da pessoa inteligente e esperta que ela era. Jenny graduou-se com honras, e isso era coisa rara. Mais do que a inteligência acadêmica, Santana conhecia a ex-namorada como poucos. Ela sabia que Jenny era muito mais do que uma mulher ciumenta: ela tinha humor, era sofisticada, era bonita, e sabia conversar sobre qualquer coisa com uma percepção aguçada e singular. Mesmo quando Jenny era gratuitamente mesquinha e cruel, isso não a fazia menos interessante. E tinha o sexo. Por mais que brigassem, elas se entendiam na cama. A química era inegável.

O trio decidiu deixar o local. Enquanto caminhavam pelo campo verde, e entre algumas das lápides, um homem alcançou o trio. Era um homem de cabelo grisalho que Santana se lembrava vagamente de ter visto nas fotos do celular de Jenny dentro do arquivo de imagens da família.

"Senhorita Lopez?"

"Sim?"

"Eu sou John Bennet, tio de Jenny."

"Meus pêsames, senhor Bennet." Santana o cumprimentou.

"Obrigado, Lopez. Penso que também devo lhe prestar minha solidariedade, afinal, você teve uma presença importante na vida da nossa Jenny nesses últimos anos."

"Sim. Jenny foi uma pessoa muito importante para mim. Eu a amei, apesar de tudo."

"Sim, o fato de você ter a coragem de enfrentar os olhares para estar aqui, e prestar seu respeito a Jenny é uma prova disso. Como você está?"

O homem apontou para o ombro de Santana e para o braço amparado em uma tipoia devido aos tiros que a atingiram no ombro e no braço esquerdo. Santana não precisava do aparato, mas tinha de dar a mínima impressão de que se recuperava como uma pessoa normal.

"Isso? Já passou."

"Fico grato... Senhorita Lopez, eu estou aqui a pedido da minha irmã. Ela gostaria de conversar contigo em privado. Você se incomodaria?"

Santana olhou rapidamente para Mercedes e para Artie. Procurou ao longe por Marley. Estava confusa.

"Eu poderia, mas..."

"Isso não é uma armadilha, senhorita Lopez. Minha irmã só gostaria de falar contigo longe do circo midiático que se tornou essa tragédia."

"Tudo bem. Eu vou."

"Fico feliz com a sua compreensão e sensibilidade." Entregou um cartão para Santana. "Esse é o endereço. Compareça no horário indicado."

"Vocês poderiam me acompanhar?" Perguntou aos amigos na frente do senhor.

"Claro." Mercedes disse. O momento era de dar o suporte emocional que Santana precisava em um dia triste.

...

A casa que Jenny morava era uma pequena mansão em uma das áreas urbanas mais valorizadas da cidade natal dela. Ela nasceu e morou na maior cidade do estado vizinho, que era também famosa pelo turismo atraído pelos resorts e pelas belas praias. Um paraíso que ficava a cinco horas de viagem de carro na direção oposta a da metrópole. Santana já havia estado naquela casa em duas ocasiões, e não tinha muitas lembranças positivas.

"Jenny tinha mesmo dinheiro!" Mercedes disse impressionada com o luxo. Ela, assim como Artie e Santana, vindos de famílias humildes, bolsistas, não estavam habituados a lugares da alta-sociedade.

Santana olhou para a casa assim que saiu do taxi e suspirou antes de tocar o interfone. Achava uma idiotice ter de se identificar sabendo que havia uma câmera de segurança bem acima da cabeça deles.

"Aqui é Santana Lopez." Ela respondeu à voz para, segundos depois, ouvir o barulho do portão sendo destravado.

A casa, como o esperado, estava com certo movimento. Audrey, mãe de Jenny, era a verdadeira matriarca da família, ao passo que o Robert, o pai, era um playboy bon-vivant. O irmão mais velho de Jenny era um sujeito bem-intencionado que tentava viver sem a ajuda do dinheiro dos pais, mas não era muito bom em cuidar de si mesmo. A irmã mais nova estava se preparando para sair de casa e ir para a faculdade no semestre seguinte. Todos estavam em casa naquele momento, juntamente com outras pessoas próximas a família. Todos lançaram olhares hostis contra Santana, Mercedes e Artie.

"Santana!" John Bennet recebeu o trio. "Audrey está te aguardando."

Mercedes abriu um pequeno sorriso para a amiga e acenou procurando passar confiança. Santana podia ser a líder, a vigilante, mas naquele momento era só uma jovem frágil recebendo atenção midiática indesejável, e com muitos problemas a resolver. Esperava que ali pudesse encerrar um deles. Ela seguiu Bennet até a porta do escritório, que abriu a porta, revelando a matriarca da família olhando pela janela com um copo de bebida em uma das mãos. Parecia uma mafiosa.

"Você foi audaciosa e, francamente, desrespeitosa aparecendo no enterro da minha filha." Audrey disse com as costas ainda virada para Santana. Ela virou-se quase que casualmente e sentou-se na poltrona do escritório.

"Eu não queria incomodar. Eu só queria me despedir de Jenny. Apesar de tudo, foram quase quatro anos de história entre nós."

"Sim... quase quatro anos." Audrey encarou Santana com os olhos azuis glaciais. "Sente-se."

Santana, ainda hesitante, sentou-se na poltrona em frente a Audrey.

"Quer uma bebida?" A mulher perguntou.

"Não, obrigada. Não posso misturar álcool com antibióticos."

"Claro... claro..." Audrey a encarou como se quisesse enxergar a alma e arrancá-la com o olhar. "Faz um bom tempo que eu não te vejo. Qual foi a última vez mesmo?"

"Foi há uns seis meses, na sua festa de aniversário. Acredito que você tenha se referido a mim como a mestiça do gueto que queria dar o golpe do baú em Jenny."

"Hum." Audrey bebeu mais um pouco, sem sentir nenhum constrangimento no que havia dito, porque, para a matriarca, era a mais pura verdade. "Minha filha levou o relacionamento contigo à sério demais. Ela pagou o preço mais caro que pode existir... eu paguei o preço mais caro que pode existir."

"Senhora May, o meu relacionamento com Jenny não estava bom há muito tempo. Quando eu terminei, ela não aceitou. Eu sinto muito pelo desfecho dessa história. Eu me arrependo amargamente pelo que eu disse a ela antes de Jenny atirar em mim. Eu fico pensando que se, talvez, eu tivesse dito que a amava, nada disso teria acontecido. Mas Jenny morreu e a última coisa que eu disse a ela foi que eu a odiava." Santana limpou as lágrimas que teimavam em sair. "Eu sinto muito."

"Eu não pedi para você vir aqui na minha casa para ouvir suas desculpas." A senhora disse em tom glacial.

Santana ficou em choque e emudecida por alguns segundos. Aquela mulher tinha enterrado a própria filha fazia algumas horas, e já parecia a personificação de Don Vito Corleone.

"Então por que mais se incomodaria? A senhora nunca foi do tipo de pessoa que fizesse algo sem uma boa razão."

"Sim, eu tenho uma razão. Só não sei se é boa suficiente para ter você aqui." A mulher abriu uma gaveta e colocou em cima da mesa uma caixinha de joalheria. Era óbvio que aquilo era uma caixa de um anel. Santana olhou o objeto, mas não ousou tocá-lo. "Jenny comprou isso antes de viajar para a sua maldita cidade, nesses dias que antecederam toda essa tragédia. Ela estava falando em casamento."

"Senhora May, como eu disse, o meu relacionamento com Jenny estava ruim há muito tempo. Sinceramente, um compromisso assim não iria consertar nada. Eu não sei no que Jenny estava pensando."

"Obviamente ela não estava pensando. Casar contigo? Por favor!"

"Eu teria dito não. Ela merecia alguém que a fizesse realmente feliz. Eu não era essa pessoa."

"Pelo menos em uma coisa eu concordaria contigo. Minha Jeniffer tinha plena condições de encontrar uma mulher à altura."

"Se tem algo que eu te admiro e a sua família é o fato de vocês terem aceitado a sexualidade de Jenny. Ela sempre foi muito segura e superior a críticas."

"Essa é uma família tradicional, Lopez. Não é o mesmo que primitiva." A senhora May permitiu-se relaxar um pouco na poltrona. "Não foi uma situação confortável quando minha Jen apresentou a primeira namorada, mas ela era o que era. Eu jamais a amaria menos."

"Fico feliz em ouvir isso."

"Posso te fazer uma pergunta?"

"Claro."

"Jeniffer estava tão errada assim por se sentir ameaçada por essa tal de Rachel Berry? Você ama essa moça?"

"Rachel Berry é uma amiga, e eu me preocupo com ela. Jenny tentou se vingar de um ideal, não da coisa real."

"Mas existia outra pessoa?"

"Sim."

"Bom... espero que você tenha tirado alguma lição dessa tragédia, senhorita Lopez. Você poderia levar esse pedaço de lixo?" A senhora May apontou para a caixa com o anel. "Eu não quero nada que seja seu ou que remotamente lembre você dentro dessa casa. Leve e faça o que quiser com essa aberração."

Santana pegou a caixa do anel e a abriu. Franziu a testa, despertando a curiosidade da senhora que estava na frente dela.

"O que foi?" A mulher disse de maneira irritada.

"É o anel de noivado da minha mãe." Santana disse com a voz miúda, e limpou uma lágrima que teimou em cair. Isso a fez se sentir ainda pior do que já estava.

Audrey May analisou cuidadosamente as reações de Santana. Ela nunca gostou da namorada da filha, mas também nunca desejou mal a ela. Sabia que Santana não era uma pessoa ruim. Audrey só achava que ela não era adequada a Jenny.

"Eu não sabia que a minha filha conhecia os seus pais. Jenny nunca comentou nada."

"Eu a levei para a minha cidade natal em duas ocasiões. Jenny... minha família não tem muito dinheiro. Minha mãe é corretora de imóveis e não tem salário fixo... meu pai é enfermeiro. Eu nunca passei necessidade na vida, não sei o que é passar fome, mas não quer dizer que eu tive tudo que quis. Jenny vinha de outra realidade. Ela conhecia o mundo enquanto eu mal conheço o país. Meus pais nunca saíram da minha cidade natal. Quando levei Jenny a minha casa, eu fiquei com medo de ela agir como uma esnobe, mas ela foi perfeita. Minha mãe a adorava."

"Todos a amavam, menos você."

"Eu sinto muito, senhorita May. Não vou te importunar mais!" Santana pegou a caixinha e se levantou.

"Santana." Audrey disse imperativa e a vigilante a encarou. "Eu acredito que o seu pesar é sincero, que você um dia amou minha filha. Eu entendo que amores vão e vem. Eu sei que Jenny era compulsiva e que tinha fixação por você, e que isso não era saudável. Admito que te respeito por ter terminado com ela. Por isso eu vou te dar um aviso: não se meta comigo, e nós ficaremos bem."

Santana sentiu o impacto da ameaça, que ela ainda não sabia bem a razão, mas sim, havia um motivo por trás. Saiu do escritório o mais rápido que pode. Ela encontrou Mercedes e Artie quase que acuados em um canto da sala. A vigilante puxou os dois amigos para fora da casa e, uma vez na rua, já acionando o uber, Mercedes finalmente segurou a amiga e a fez respirar.

"O que foi? A mãe da Jenny te ameaçou de alguma forma?"

"Sim e não." Santana respirou fundo e mostrou a caixa aberta do anel para os amigos.

"Jenny ia te propor?" Mercedes levou a mão à boca.

"É o anel de noivado da minha mãe." Santana explicou ao amigo. "Mas não é isso que me chateia. A senhora May disse para eu não me meter com ela... em que sentido? Ela nunca foi a minha preocupação. Nem com namorada de Jenny, nem como... vigilante."

"Você acha que tem a ver com Rachel? De ela saber que Rachel é sua amiga?" Artie questionou.

"É o que precisamos descobrir."