"Você não gosta de mim." Marley disparou.

Quinn parou de ler o código penal e olhou para Marley. As duas estavam sozinhas do apartamento do centro da cidade. Marley fazia o trabalho de contabilidade, Quinn estudava depois de ter feito uma entrevista de emprego em uma loja de roupas no shopping center da cidade. Emprego com salário base de meio salário mínimo, que poderia crescer com base em comissões de vendas. Para isso, deveria trabalhar das 10h às 21h com direito a meia hora de almoço. Quinn teria de largar o curso e pagar para alguém cuidar de Beth. Seria o caos, mas se não aparecesse nada melhor, era o que ela se submeteria.

Ela foi ao apartamento, encontrou Marley por lá, e tirou o livro para estudar enquanto aguardava a hora de pegar Beth na escola e ir para a cabana. Santana, Artie e Mercedes estavam fora da cidade, para o enterro de Jenny. Rachel estava presa, George ainda não estava exatamente integrado, e tudo estava meio em suspenso entre os vigilantes. Então Marley a questionou.

"Eu gosto de você. Só não te conheço o suficiente para te chamar de amiga."

"Reparei que você é a pessoa entre os vigilantes que mais tem problemas de confiança."

"Isso é um problema para você?"

"Não. Só acho que é um balanço interessante entre você e Santana. Vocês formariam uma bela dupla... não falo no campo amoroso, porque eu acho que você não daria chance ao lado sáfico da força, mas você e Santana... é como Spock e Kirk."

"Obviamente eu sou Spock... onde estão as minhas orelhas?" Quinn disse sem muito humor.

"Eu só estou divagando." Marley balançou a cabeça. "A propósito, você já conseguiu um novo emprego?"

"Não."

"Ryder ficou impressionado com a sua segurança naquele dia, e ele não tem uma assistente. Ele é um ótimo advogado, mas não tem muita organização... se estiver interessada."

"Ele disse isso a você?"

"Ele pediu para que eu sondasse."

"Poderia ter horários flexíveis?"

"Liga para ele e marque uma entrevista."

"Sério?"

"A gente não precisa ser os melhores amigos, mas a gente se apoia, certo?"

"Certo." Quinn abriu um sorriso. "Obrigada, Marley."

Marley acenou e voltou a se concentrar no próprio trabalho.

...

Quinn acompanhava com preocupação os processos de negociação entre o promotor do estado que processava Rachel por danos a um prédio público e a acusava de homicídio culposo no caso Jennifer May. Os promotores também a pressionavam sobre entregar Santana Lopez. A lógica era muito simples: Jenny atirou em Santana e sequestrou Rachel. Se os advogados da família May provassem que Jenny agiu sob estresse induzido pelo relacionamento com Santana, eles poderiam limpar a imagem dela. Na mente de Quinn estava muito claro que os detetives tinham Santana como principal suspeita sobre ser a vigilante, mas tudo que se tinha contra ela era circunstancial: a conexão com Rachel, o biotipo, a briga no restaurante. Faltava uma prova concreta, uma denúncia, qualquer pequena coisa que pudesse justificar uma intimação ou até mesmo, com sorte, um pedido de prisão.

"Cinco anos de prisão." O promotor ofereceu. "Declare-se culpada e entregue a vigilante que você pegará apenas cinco anos de prisão, com a possibilidade de condicional após três anos."

"E se eu me declarar culpada, mas sem dar uma palavra sobre a vigilante?"

O promotor mexeu rapidamente nos papeis e resmungou.

"Nove anos de prisão com condicional depois de seis anos." Ele começou a brincar com a caneta, como se fosse um tique nervoso que tinha em meio a negociações e disse sem encarar Rachel. "Você é atriz, Rachel. Uma carreira de atriz exige juventude, caso você queira fazê-la ser duradoura. Faz toda diferença você poder retomá-la aos 25 anos do que aos 28. Também devo te lembrar que se formos ao julgamento sem chegar a um acordo, você corre o risco de cumprir 30 anos de prisão pelo assassinato de Jennifer May. Duvido muito que você teria uma carreira depois disso."

"Como eu posso assumir a culpa de um assassinato que eu não tenho sequer certeza que eu cometi?" Rachel indagou.

"Você não cometeu nenhum crime, e ele está blefando. Jennifer morreu com um choque acidental no crânio em uma pedra pontiaguda que perfurou a base da nuca. Ela caiu em cima de uma pedra. Esse foi o único sinal de lesão no corpo de Jennifer May. Não há sinais de briga corporal, a não ser pequenos sinais de escoriações mais antigos, provavelmente gerados na briga de bar." Ryder Lynn mostrou mais uma vez o laudo da perícia. "Tudo aqui é circunstancial. Isso não apaga o fato de Jennifer May, horas antes, atirado para matar a ex-namorada, Santana Lopez, e ter sequestrado e ameaçado matar Rachel Berry. Há um vídeo que prova o sequestro. Tudo que a minha cliente fez, foi em legítima defesa, garantido por nossa constituição federal. Vocês vão ter que oferecer algo melhor do que isso."

O promotor encostou-se na cadeira e resmungou. Isso era um sinal de que o advogado de defesa tinha um ponto forte o suficiente para comprometer toda a estratégia que ele traçou.

"Terminamos aqui, Correl." Ryder sinalizou para que os dois promotores deixassem a sala. Ele esperou saírem em definitivo para voltar a conversa com a cliente dele. "Rachel, você não precisa decidir nada ainda. Nessa primeira audiência o juiz vai ler os dois processos de acusação: sobre a morte de Jennifer May e sobre a queda do edifício. Você vai se declarar culpada ou inocente especificamente para cada um desses casos. Então, o juiz vai estabelecer uma fiança e a data do julgamento será marcada. Até lá, você ainda tem algum tempo para decidir o que fazer, mas gostaríamos de ouvir o que tem em mente."

Rachel cruzou olhares com Quinn. Havia orgulho e temor na expressão da atriz.

"Eu sou inocente no que diz respeito a morte de Jenny. Ela confessou ter atirado em Santana, me sequestrou e me coagiu. Verdade que eu me descontrolei e explodi, mas se ela não morreu diretamente por causa do meu poder, então não há porque eu fazer algum acordo quando, na verdade, eu sou a vítima."

Quinn acenou para Rachel. Era bom ouvir a atriz ter um pouco de lucidez em meio ao caos. Eram boas notícias.

"Mas no caso do edifício... eu sou culpada em parte."

"Culpada em parte?"

"Estava tudo bem naquele dia, até Jenny me abordar na loja de instrumentos musicais e me ameaçar. O meu emocional já não estava muito bom... e aconteceu o que aconteceu. Eu sinto muito, eu sinto pela perda material daquelas pessoas, mas não foi a minha intenção."

"Podemos trabalhar com isso." Ryder piscou para Rachel. "Não se preocupe, Rachel. O seu caso não é tão complicado. A promotoria está desesperada em te pressionar por um acordo porque é a maneira que eles têm de ganhar. Se você estivesse em uma situação ruim, acredite, seria eu que estaria te convencendo a fazer um acordo."

Rachel acenou e apertou a mão de Ryder. Ela sempre foi uma lutadora, e não havia razão para mudar.

...

"Não há nada de errado nas redes sociais de Jenny." Mercedes disse frustrada. "Nada além de fotos dela contigo, com a família e com colegas."

Santana passou os olhos nas diversas fotografias impressas para melhor investigar. Ela, Artie e Mercedes estavam focados em descobrir o que Audrey May sabia e o que ela planejava fazer. Havia fotos e mais fotos espalhadas pelo chão do apartamento, além de inúmeras etiquetas identificando cada uma das pessoas que apareciam nas redes sociais de Jenny e da família dela.

"E o dossiê sobre os parceiros comerciais de Jenny e de Audrey..." Santana franziu a testa tentando lembrar-se do nome do mais novo integrante do grupo.

"George! Meu nome é George." O inventor disse impaciente.

"Tanto faz. Você já tem o dossiê ou não?"

"Ninguém faz um dossiê em quinze minutos, Lopez." George reclamou. "Nem mesmo com a minha ferramenta de rastreamento."

Santana resmungou alto e voltou a atenção para o quadro montado com as pistas que o grupo encontrava. Ela passou os olhos nas imagens e nos documentos. Olhou para as fotos de Jenny e de Rachel. Na realidade, sentia que as duas estavam fora de controle de alguma maneira. Jenny estava mais ciumenta e possessiva que o normal, mas o frustrado plano de pedir a vigilante em casamento tinha fundamento. Rachel estava com os poderes descontrolados. Santana passava os olhos nas fotos e tentava encontrar alguma conexão. Qualquer uma.

"E as redes sociais de Rachel?" Santana perguntou para a equipe. "Vocês verificaram se há alguém em comum entre ela e Jenny? Qualquer um?"

"Tirando você?" Artie mostrou a Santana que os perfis de Rachel e de Jenny tinham ela como amiga em comum no quadro de contatos das redes sociais. "Como é que Jenny pode me conhecer há tanto tempo e nunca me adicionar no Instagram ou em qualquer outro lugar?" Artie disse não necessariamente se sentindo ofendido.

"Jenny era seletiva e esnobe até nisso." Santana disse sem tirar os olhos do quadro. "Tem que haver alguma coisa. Que Audrey quer ferrar Rachel pela morte de Jenny, isso é cristalino. Mas ela não me disse isso porque sabe que Rachel e eu somos amigas..." Santana levou as mãos à cabeça. "Audrey sabe."

"Sabe o quê?" Artie perguntou.

"Ela sabe que eu sou a vigilante. Ela não me ameaçou de graça. Audrey sabe... Jenny deve ter contato com ela ou..."

"Audrey May pode ter boas relações com o prefeito que vocês ferraram." George mostrou na tela do computador uma reportagem antiga, de oito anos antes, de um evento de caridade em que a empresa de Audrey May foi uma das financiadoras da campanha eleitoral do prefeito.

"Há muitas fotos de Audrey com políticos e com gente importante. Ela fez doações para a campanha de cinco pessoas, segundo as declarações do imposto. O prefeito foi apenas um deles." Artie observou e depois levou a mão a testa. "Mas não parece ser circunstancial que três desses cinco nomes estejam ligados ao projeto Ranger."

"Merda!" Santana suspirou.

"Posso fazer algumas ligações, fazer algumas entrevistas. Conversar com alguns informantes sobre Audrey May em específico." Mercedes se prontificou.

"Faça isso, por favor." Santana pegou o casaco e foi caminhando para a porta.

"Onde vai?" Mercedes perguntou.

"Tentar falar com Rachel."

"Santana, isso seria arriscado." Mercedes advertiu.

"Eu não consigo trabalhar, eu não consigo estudar para os exames finais, eu não consigo fazer nada além de ficar presa neste apartamento longe dos olhos do público e da imprensa. Enquanto isso, minha amiga está presa e pode estar pensando que eu virei as costas para ela."

"Quinn, Ryder e Marley estão com Rachel. Ela sabe que não está sozinha e que você não virou as costas para ela."

"Pode ser Cedes. Mas é que isso é confortável demais. Eu sei que proteger a nossa identidade é importante, mas a que custo?"

"O custo é sermos presos!" Artie esbravejou.

"Sem falar em não termos mais privacidade." Mercedes completou.

"Nós não cometemos nenhum crime! Nenhum grave, pelo menos." Santana suspirou, tentando aliviar a própria tensão. "Minhas tripas dão nó só em pensar que tudo isso pode estar acontecendo por minha culpa."

"Bela figura de linguagem." George sorriu, mesmo que tenso.

"Você não é o centro do universo." Artie retrucou. "Nem tudo é sobre você, sabia?"

"Eu sei que não sou, voador. Só que Audrey me deu um recado muito claro. A morte de Jenny e a prisão de Rachel mostram que, nesse caso, talvez eu esteja no centro de algo."

Santana abriu a porta e saiu do apartamento. Sequer percebeu que estava sem a tipoia, que lhe servia como um disfarce para a cura expressa que teve dos ferimentos à bala e dos procedimentos cirúrgicos. Ao chegar no térreo do prédio, deparou-se um com repórter que fazia plantão por ali. Revirou os olhos quando o homem se aproximou.

"Senhorita Lopez. Meu nome é Ben Israel do Diário de Notícias. Você poderia dar uma declaração sobre..."

"É melhor nem se aproximar."

"Essa é a sua chance que retomar a narrativa ao seu favor. Por favor senhorita Lopez."

"Eu disse não!" Santana ergueu a mão de forma ameaçadora. Depois virou as costas para o repórter e pegou um táxi.

A vigilante não se deu conta, naquele momento de cabeça cheia, que o repórter lhe esperava no apartamento da watchtower, e não no dormitório como os demais.

...

George não podia acreditar em como a vida dele sofreu uma mudança brusca a partir do momento em que Quinn Fabray entrou na casa dele atrás de um protótipo pouco desenvolvido para aumentar a força física dela. Sim, considerava que aquele foi o ponto de virada e não, necessariamente, quando conheceu Artie. O amigo cadeirante e mais uma equipe de quatro garantiam o funcionamento do sistema da empresa. George sempre foi o cara da manutenção. Era engenheiro elétrico de formação, mas para aquela empresa, um engenheiro elétrico servia como o cara da manutenção dos equipamentos. O que mudariam se soubessem que o descendente de indiano era um inventor intuitivo e nato? Artie teve a sensibilidade de perceber isso. Foi o que fez o voador se aproximar.

Primeiro foi um serviço que George fez no equipamento de Artie, depois, Artie pagou um almoço. Com o passar do tempo, George e Artie ficaram amigos, e o voador descobriu que a imaginação do engenheiro elétrico e a capacidade de materialização das ideias não poderia ser algo natural. George era um gênio. Ou mesmo, George poderia ser um gênio se não fosse sobrehumano, como os demais. Logicamente, que ele entendeu que todos os favores que Artie pediu era em favor dos vigilantes, e ele se fingiu de sonso para ver até onde aquilo iria.

Alguns favores e o fator Quinn Fabray depois, ali estava George alimentando um sistema com milhares de informações para que pudessem ser cruzados nomes, rostos, qualquer coisa que pudesse ser um indicativo da relação entre "o antigo prefeito", um tal "projeto ranger" e a "garota que morreu". Tudo para salvar a pele de uma "tal de Rachel", que ele não conhecia pessoalmente, porque a garota era muito importante para Santana Lopez, a líder dos vigilantes em que ele foi apresentado quase que casualmente. Com toda sinceridade, George não ligava a mínima para Santana. Por outro lado, ele gostava de Artie e de Quinn Fabray, e entendia que o segredo era uma parte importante para que aquelas pessoas pudessem fazer um trabalho que a polícia não podia ou não queria fazer.

Depois que Santana saiu do apartamento, Artie e Mercedes discutiram sobre a situação. George não prestou atenção nos dois. Ele pegou um copo de café e terminou as últimas configurações no software para o cruzamento de dados na ação de varredura da rede. Nesse meio tempo, Quinn chegou de mãos dadas com Beth. George inconscientemente suspirou. Quinn era tão bonita. Beth parecia não estar feliz por ter sido levada ao apartamento. A pequena garota resmungou e correu para um dos quartos do apartamento.

"Trouxe o lanche." Quinn colocou os pacotes com sanduíches na pequena cozinha. "Alguma novidade?"

"Ainda não." Mercedes pegou um dos sanduíches, deu uma mordida e pegou a bolsa. "Estou atrasada para o jornal."

Quinn acenou e depois encarou Artie, que também se agitou para ir embora. Ela observou o amigo também ir embora, e quando o cadeirante fechou a porta do apartamento, Quinn encarou George.

"Você está de saída também?"

"Não, estou bem." George voltou a se concentrar na configuração. Mais alguns detalhes e pronto, pressionou o enter. "Você parece que precisa dormir por três dias."

"Todos não estamos?" Quinn sentou-se no sofá. "Nunca pensei que houve algo mais cansativo do que o varejo. Essa história de trabalhar como assistente no caso de Rachel está me deixando louca. Sem mencionar que Ryder paga muito mal. Um salário e meio para telefonar, fazer pesquisas, ir a cartórios... qualquer coisa que precise ser feita em favor dos casos. Esses três empregos me matam."

"Três empregos?"

"O emprego de assistente, os vigilantes e ser mãe solteira."

"Oh..." George sorriu. "Como foi na audiência?"

"Ainda não é a audiência. Essa vai ser só daqui a dois dias. A gente está pesquisando e tentando ver a possibilidade de entrar em um acordo para evitar o julgamento de fato."

"Mesmo assim, como foi?"

"Rachel não é culpada por esse crime em específico. Mesmo que ela tenha matado Jenny com a liberação de energia, foi legítima defesa. O caso da delegacia é um delito contornável. Mas os promotores estão tentando culpa-la pelo prédio que caiu. Se conseguirem, ela vai ficar presa por uns cinco anos."

Quinn levantou-se por um instante. Foi até o quarto onde estava Beth e tudo que George pôde ouvir foram vozes abafadas entre mãe e filha. Aparentemente Beth estava zangada com a mãe por causa de uma atividade na escola com pais e filhos que Quinn não pôde prestigiar. Alguns minutos depois, Quinn retornou a cozinha. Verificou os sanduíches. Eram cinco do mesmo sabor. Mercedes e Artie pegaram os deles. Sobraram quatro, pois Quinn esperava que Santana estivesse por perto. Serviu-se de um sanduíche e observou o painel montado no apartamento. Passou os olhos pelas fotos e pelos documentos coletados.

"Algum avanço?"

"O programa está rodando e cruzando os dados."

"Demora tanto assim?"

"Você tem noção do tamanho da nuvem? Você tem noção do que é preciso ser feito para obter esses dados, inclusive com reconhecimento facial? Ainda tem a dificuldade em definir o que queremos ver exatamente. Demora um pouco sim, mas o importante é que vai funcionar."

"Você é o especialista."

Quinn pegou uma cerveja da geladeira e bebericou um pouco. Não era do feitio dela beber cerveja, mas a ocasião pedia. Ela precisava relaxar um pouco. Ofereceu uma cerveja para George, que aceitou de bom grado. Ele foi até a cozinha e pegou o sanduíche dele para lanchar juntamente com Ice Queen.

"É um sanduíche bem grande esse." George sorriu.

"São as vantagens de se ter um metabolismo mais acelerado que o normal."

"Batata frita e cerveja estão liberados."

"Pode apostar." Quinn terminou o lanche. "Em compensação, a gente precisaria dormir pelo menos umas dez horas por dia para ficar bem. Mas com a vida que a gente leva, com a tripla jornada, isso é impossível. Eu não consigo pensar mais em nada."

"Por que não vai para a sua casa descansar um pouco? Eu monitoro as coisas por aqui."

"Eu não posso. A vigilante precisa fazer uma aparição hoje a noite., porque a polícia está vigiando Santana."

"Falando nisso, eu fiz alguns ajustes no traje. Não consegui aumentar a força, mas consegui torná-lo mais confortável e menos volumoso." George foi até o canto da sala e mostrou o exoesqueleto para Quinn. "Vê, ele está mais flexível. Você terá mais liberdade para se movimentar."

"Ele travou quando precisei esfriar na última vez." Quinn analisou a tecnologia.

"Não sei se resolvi esse problema, mas creio que ele vai responder melhor."

"Obrigada." Quinn sorriu genuinamente.

"Esse lance que você faz... de ir as ruas quando ela não pode... você curte, não é mesmo? Por que?"

"Você já ficou chapado alguma vez?"

"Se eu te disser que eu nunca fumei uma erva ou bebi um pouco além, estarei mentindo. Então... sim, eu sei."

"Patrulhar é como ficar chapado, com a diferença que você não se sente uma merda depois. Pelo contrário, você continua a se sentir bem. Um efeito prolongado incrível. O poder de fazer a diferença de alguma maneira... é incrível. É isso que Santana sente, apesar de ela se machucar as vezes. É isso que eu sinto também."

"Ajudar Rachel no campo do direito também?"

"Talvez, se bem que essa é a parte em que estou tentando dar uma vida melhor para minha filha. Ser vigilante não vai garantir a minha aposentadoria ou pagar a faculdade de Beth."

"Entendo."

"E você? Por que aceitou andar conosco em um momento tão ruim?"

"Eu não sei... só me parece ser o certo a se fazer. Além do mais, é legal não estar mais sozinho."

Quinn acenou e sorriu. Levantou-se do sofá para checar Beth mais uma vez. Foi quando o computador fez um sinal. Ela acompanhou George para ver o que aparecia na tela. George checou alguns dos resultados e franziu a testa.

"Eu conheço esse cara!" George apontou para uma foto de um grupo de pessoas que brindava com Audrey May e o atual prefeito. "Ele é um bioquímico controverso. Famoso no mercado negro da ciência."

"A ciência tem um mercado negro?" Quinn ergueu a sobrancelha.

"De onde você acha que vem todas as drogas sintéticas?"

"Okay... você consegue fazer rastreamento de possíveis relações entre eles?"

"Claro. É só categorizar que o sistema rastreia por quaisquer documentos ou imagens que eles tenham aparecido ao mesmo tempo."

"Você não mencionou que o sistema rastreia rostos de câmeras."

"Ops."

"Você pode rastrear nossas ações por esse mecanismo?"

"Sim."

"Se você pode rastrear nossos rostos em ação, você pode também apagar evidências, mesmo fora das câmeras que hackeamos?"

"Eu me considero mais um inventor do que um hacker, mas é provável, se o arquivo estiver na nuvem. É muito mais complexo de estiver em outros dispositivos. Hackers experientes depositam informações importantes em hds sem conexões."

"Em quanto tempo você pode fazer o que é possível?"

"Quinn, o sistema agrupa informações, mas é a gente que precisa fazer o resto, quase que manualmente. Pode significar assistir horas e horas de gravações."

"Então é melhor começarmos."

...

Santana sentou-se à mesa e esperou. A sala era nua, pequena, com janelas de observação em que se podia ver o reparo recente, e tinha apenas duas cadeiras colocadas em posições opostas, uma de frente para outra. A porta abriu, trazendo Rachel algemada juntamente com três guardas e a investigadora do caso.

"Você tem dez minutos." A investigadora advertiu. "Sem contato físico. Estaremos observando." Apontou apara a janela.

Rachel sentou-se à frente de Santana e sorriu levemente. As duas esperaram a detetive e os guardas saírem para começar a conversar.

"Como está?" Santana começou.

"Sobrevivendo. E você? Quinn disse que você passou por uma cirurgia séria."

"Jenny atirou em mim antes de ir atrás de você. Perfurou o meu pulmão, estragou meu ombro..."

"Isso faz pouco mais de uma semana e você já está de pé. É impressionante."

"Eu tive ajuda."

"Quinn mencionou... Brittany ainda está na cidade?"

"Não mais." Santana suspirou. "Nós vamos te tirar dessa, Rach. Lynn é um bom advogado e nós vamos ajudar no que foi necessário. Estamos atrás de provas e de qualquer detalhe que possa ajudar a te tirar daqui."

"Eu sabia que vocês estavam trabalhando."

"Sempre."

"San..."

"O quê?"

"Desculpe por não ter te ouvido. Eu deveria ter começado a treinar o meu autocontrole desde o primeiro momento que cheguei na cidade."

"O que eu não entendo é o que aconteceu para você não conseguir ter mais controle? Você não estava assim quando foi morar na Metrópole."

"Estresse, desilusão... pode enumerar."

"Ainda assim."

"Eu não sou como você, San."

"Eu também posso ser impulsiva, Rach. Não sou uma boa referência para ninguém."

"Está enganada."

Santana olhou ao redor da sala, mais precisamente para a janela. Ela não via os guardas ou qualquer um dos detetives que estavam trabalhando no caso. Ela tinha receio de comentar qualquer detalhe, de falar qualquer informação que levasse aos vigilantes. Escutar conversas de visitas era ilegal, mas elas estavam na sala de interrogação. A própria Santana já estivera ali. Além disso, a polícia estava no pé dela, esperando pelo menor deslize.

"Rachel. Só queria que soubesse que estaremos aqui por você não importa o que o juiz decidir nessa primeira audiência. Eu sei que você é inocente."

"Obrigada. Ouvi isso de você significa muito para mim. Apesar de tudo, eu sei que você gostava da Jenny."

"Sim, eu gostava dela. Eu a amei. Mas eu também sei que era um relacionamento tóxico. Eu não fazia bem a ela, e nem ela a mim."

"Eu lembro."

"Admito que está sendo mais difícil do que poderia imaginar. Eu não queria ficar com ela, mas eu jamais desejei a morte dela."

"Desculpe se eu faço piorar tudo."

"Não, você não piora nada. Seja lá o que aconteceu entre vocês naquela noite, eu sei que você não procurou por nada daquilo, e só quis se defender. Eu sou a responsável."

"Santana, você não é responsável pelo desequilíbrio da Jenny, ou pelo meu." Ao ver que Santana não respondeu e que, pior, parecia estar em uma batalha silenciosa interna, Rachel levou as mãos até as da vigilante para tocá-la, mesmo que brevemente e discretamente. "Se você perder a cabeça, eles vencem."

A atriz acenou antes de se levantar. Os guardas abriram a porta e levaram Rachel de volta a cela improvisada e subterrânea no departamento de polícia. Santana levantou-se em seguida, mas antes de sair da sala, teve o caminho bloqueado pela detetive Mesquita. A mulher encarou a vigilante e disse séria.

"Você pode ser a vítima nesse caso, mas gente como você não me engana, Lopez. Eu e você sabemos muito bem que Rachel tem poderes sobrehumanos, mas ela não tem o perfil de quem faz justiça com as próprias mãos. Você, por outro lado..."

"Até onde sei, detetive, a vigilante não faz exatamente justiça com as próprias mãos. Os bandidos são entregues a polícia, certo? Eles entram no sistema, apesar de sabermos que esse mesmo sistema é uma porcaria. O problema de vocês não é esse. O que seria então, detetive? Retaliação por que os vigilantes expuseram um prefeito corrupto e um departamento de polícia contaminado, para dizer o mínimo?"

"Nós vamos te pegar. Você será presa."

"Qual foi exatamente o crime que eu cometi? Uma briga de bar na qual a fiança já foi paga e a advertência registrada e arquivada? Ou será por que Lynn entrou com uma ação contra você por um interrogatório feito de maneira ilegal?"

Sem ter uma resposta pronta, a detetive calou-se. Colocou um sorriso falso no rosto e deixou Santana passar.

...

Quinn estava confiante. Ela era inexperiente, estava acompanhando o primeiro caso como assistente, mas a participação dela na elaboração da defesa a deixou feliz. Aquela era só a primeira audiência em que o caso seria apresentado pela promotoria pública, as acusações seriam feitas, Rachel se declararia e o juiz determinaria se haveria fiança ou não, além de marcar o julgamento. Havia uma grande plateia do lado de fora do tribunal devido a notoriedade que o caso tomou. Repórteres de todo país demarcavam seus lugares, gente com cartazes de apoio e contra vigilantes. Dentro do tribunal, apenas as pessoas autorizadas pela instituição e pelas partes interessadas.

Quinn estava vestida no único tailleur que tinha. Os cabelos estavam perfeitamente penteados e o olhar era concentrado na mesa em que se apresentaria a réu. Ela estava sentada na plateia ao lado de Santana Lopez e de Marley Rose. Também estavam no tribunal os pais de Rachel, Kurt Hummel, Blaine, Mercedes, Artie e os amigos mais antigos de Rachel: Tina Chang, Samuel Evans, Noah Puckerman, os professores William e Emma Schuester, além do ex-namorado Finn Hudson. Do outro lado da plateia estavam basicamente a família de Jenny e algumas autoridades. Quinn, Santana, Marley, Mercedes e Artie estavam afastados dos demais conhecidos. Pelos olhares de ódio vindos de Finn e de Kurt, parecia que um grupo de amigos não era bem quisto pelo outro. Nem Audrey May, em um elegante vestido escuro, encarou Santana com expressão de raiva ou de ódio.

Rachel entrou no tribunal algemada e com uma roupa de detenta. Um guarda tirou as algemas dela para que ela pudesse se sentar à mesa juntamente com Ryder Lynn. Os advogados de acusação (eram três à mesa) já estavam à espera do Juiz. Rachel olhou para trás e acenou para os amigos e para os pais. Depois trocou olhares cúmplices com Santana, que tentou lhe transmitir confiança.

A chegada do juiz foi anunciada, todos ficaram de pé para a chegada da autoridade.

"Ryder explicou que Al Motta é um juiz imprevisível." Quinn sussurrou para Santana. "Se ele se simpatizar com Rachel, temos boas chances de ele estabelecer fiança e permitir que Rachel aguarde o julgamento em liberdade."

A leitura do caso foi feita e os advogados fizeram uma rápida apresentação. O juiz pegou um papel e começou a ler os processos que estavam correndo contra Rachel. Sobre os danos causados na delegacia, Rachel se declarou culpada. Sobre o assassinato de Jennifer May, Rachel se declarou inocente. Sobre a demolição do edifício, Rachel se declarou inocente. O juiz estava mancando o julgamento e estabelecendo uma fiança de 20 mil para que Rachel respondesse em liberdade, quando houve uma agitação no tribunal. As pessoas no tribunal ficaram confusas. Foi quando Mercedes, com olhar assustado e pálido, mostrou o vídeo no celular a Quinn, Marley e Santana.

Era uma gravação de celular de uma pessoa que filmava as pessoas transitando na rua após o prédio ter parcialmente caído. A imagem era nítida, devido a boa iluminação pública, reforçada com a luz do próprio celular. Em meio as pessoas, a câmera focou em uma jovem mulher com o rosto e cabelos relativamente limpos, e as roupas imundas de pó. Ela vestia a camiseta da Universidade Livre. Então a jovem virou o rosto de maneira que ela pudesse ser identificada: era Santana Lopez.

"Oh não..." Santana se levantou.

Todos os olhares estavam voltados para ela. Ela estava congelada, sem saber como reagir. Ela poderia correr e se esconder. Onde? Era como se, naquele momento, não houvesse mais lugar no mundo. Ela viu o movimento dos guardas bloqueando a porta do tribunal, enquanto o juiz exigia ordem. Todos se sentaram novamente, inclusive Santana. Marley entrelaçou os dedos com os dela. Quinn estava mais pálida do que normalmente era. Santana olhou para Audrey, que a encarou por alguns segundos antes de olhar para frente. Um gesto poderia dizer mais que mil palavras. Foi ela. Audrey realmente sabia de tudo. Se Rachel provavelmente seria inocentada pela morte de Jenny, havia uma prova irrefutável que a condenava pelo desabamento do prédio. De quebra, Santana também foi exposta.

O juiz encerrou a sessão, e Santana estava com sentimento misto entre correr e cumprimentar o bom trabalho dos advogados, ou fugir dali para bem longe. Mas os olhos dos presentes não estavam na réu. Estavam todos nela. Ela podia sentir os jornalistas que tinham permissão a acompanhar o julgamento do tribunal, se aproximando. Ela largou a mão de Marley e levantou-se. Mas não sabia para onde correr. Estava claro que aquilo era uma armação muito bem conduzida contra ela e os demais vigilantes. O timing era extraordinariamente perfeito. O que fazer? Talvez ela devesse ser o sacrifício, o velho boi que fica para trás para salvar a manada. Viu os detetives se aproximando. Ela ficou quieta.

"Santana Lopez", a detetive Mesquita parou diante da vigilante com um sorriso sínico estampado no rosto. "Você tem o direito de ficar calada."