Foram 48 horas de detenção. Foi o tempo que levou para Ryder agir contra a ilegalidade da prisão sem um flagrante e sem um mandato de um juiz. A polícia queria a vigilante, a prefeitura queria a vigilante, mas o fato é que não havia crime algum cometido que pudesse ser provado, e foi exatamente isso o habeas corpus do juiz disse. De qualquer maneira, foram 48 horas quase ininterruptas em que Santana Lopez foi torturada psicologicamente e agredida. Ela ouviu todo tipo de ameaças, de barbaridades, mas ela ficou em silêncio. Não admitiu nada, não fez demonstrações de força, não assinou absolutamente nada. Apenas suportou o martírio, enquanto Marley, Quinn e Ryder agiam. Na realidade, nem mesmo a força policial não tinha nenhum crime em que justificasse a permanência dela sob custódia, a não ser um registro de agressão feito por Howard Battes há quase dois anos, que não necessariamente pode ser atribuída a ela, além da invasão da casa de Holly Martinez, cujo marido estava preso pelo assassinato de Grant Fish. Havia outros vigilantes, isso era sabido, daí a dificuldade em processá-la. Não havia nada além de provas circunstanciais, não havia nada que pudesse garantir prisão e julgamento.

Por outro lado, Santana não estava tão entusiasmada em sair da detenção. Não quando ela sabia que assim que colocasse os pés fora do departamento de polícia, o inferno surgiria diante dos próprios olhos. Foi exatamente o que aconteceu ao ver a quantidade de jornalistas que se amontoavam tentando conseguir uma declaração da vigilante mascarada. Amparada por Ryder e por Marley, ela passou direto pelo cerco e entrou direto no carro do advogado.

"Para onde vamos?" Ryder perguntou.

"Para o meu dormitório." Santana respondeu lacônica.

"Acha que é prudente?" Marley questionou. "Talvez a cabana..."

"Para colocar Quinn e Beth em posição desconfortável? Não, obrigada."

"Elas já estão na mira de qualquer maneira. Todas as pessoas próximas a você vão ser intimadas para depor. Quinn, Mercedes, Artie... até mesmo os seus pais." Ryder constatou.

"A questão é que eu não estarei lá para atrair gente indesejada."

Santana não tinha certeza, mas intuía que os demais vigilantes passaram as últimas 48 horas fazendo a limpeza de provas, de modo que a polícia não seria capaz de encontrar absolutamente nada em caso de mandatos de busca e de apreensão. Sim, ela estava certa quanto a isso. Ryder deixou Santana no dormitório da universidade. Marley decidiu acompanha-la. As duas caminharam próximas em meio a uma outra pequena multidão formada por alguns jornalistas, por estudantes e curiosos. Havia também fãs dos vigilantes, pessoas que vestiam máscaras semelhantes as de Santana e dos demais. A vigilante não estava interessada nessas pessoas.

Marley e Santana entraram no quarto já sem as fitas de isolamento que fizeram Mercedes lembrar que um crime aconteceu ali. Santana suspirou e abraçou a melhor amiga ao entrar no quarto. Então olhou para o lado do quarto que ocupava. Era a primeira vez que retornava ao dormitório desde a tentativa de assassinado. Olhou para o chão. A mancha do sangue dela ainda estava lá, apesar do nítido esforço para apaga-lo. A vigilante, ainda em silêncio, pegou algumas roupas e foi até o banheiro coletivo do andar. O caminho entre o dormitório e o banheiro costumava a ser sem eventos, comum, com gente se esbarrando pelos corredores sem consequência alguma. Não mais. O caminho estava cheio de estudantes curiosos em ver a colega. Os olhares de medo e repreensão feriam Santana. Mas havia também os apoiadores.

Ela tomou banho, porque tinha de tirar o cheiro de suor, urina e sangue do corpo. Permitiu prolongar-se no chuveiro. Julgou que merecia gastar mais água. Secou o corpo, enxugou o cabelo, penteou-se rapidamente, vestiu o roupão e saiu. No corredor, novamente os olhares confrontadores e nenhuma palavra dita. Entrou no quarto e encontrou Marley e Mercedes conversando sobre alguma coisa, provavelmente sobre o caso. Vestiu um short e uma camiseta, afastou a colcha da cama e deitou-se de costas para as meninas. Precisava desesperadamente dormir. Sentiu um corpo de aconchegando ao lado dela. Um corpo magro, mais alto, que conhecia muito bem.

"Você não está namorando o advogado?" Santana disse com a voz rouca.

"Cala a boca." Foi a resposta de Marley.

Santana não contestou mais. Precisava desesperadamente do contato e do carinho. Adormeceu rápido e não sabe por quanto tempo dormiu. Acordou ouvindo pancadas à porta, achou que fechou os olhos por apenas cinco minutos, mas foram duas horas de cochilo. Marley levantou e foi atender. Mercedes já não estava mais no dormitório. Era a polícia.

"Boa tarde, vigilante. Eu disse que a gente se veria em breve." A detetive Mesquita entregou a ela a ordem de busca e apreensão.

Santana não contestou. Marley checou os papeis e foi em direção a vigilante. Segurou a mão dela e, com os dedos entrelaçados, conduziu Santana para fora do quarto. Quatro policiais, incluindo a detetive, depenavam o dormitório. Reviravam tudo mais pelo prazer do que pela necessidade da procura. Pegaram o computador de Santana, que não tinha nada além dos projetos de arquitetura, textos e fichamentos para os estudos. Apreenderam o celular de uso comum, uma vez que o de linha segura tinha sido eliminado e destruído. Não encontrariam nada ali também, a não ser contatos dos amigos (inclusive todos os vigilantes), fotos e mensagens genéricas. Apreenderam a máscara, porque algo óbvio tinha de virar um troféu. De resto, apenas destruição desnecessária. Quando a polícia deixou o local, tudo que restou no quarto foram móveis revirados, roupas no chão, papéis e pequenos objetos espalhados e quebrados. Marley pegou algumas roupas de Santana, além de um tênis, e colocou tudo em uma mochila. Alguns colegas entraram no quarto para filmar a destruição causada pela polícia, para receber likes nas redes sociais.

"Vamos embora."

"Para onde?"

"Minha casa."

"Mas você disse que sua casa estava fora dos limites. Eu posso pagar um hotel."

"Não discuta comigo."

Santana nunca havia entrado no apartamento de Marley. Seria algo que poderia deixa-la entusiasmada, mas não era mais o caso. Pegaram um táxi ainda sob olhares de uma pequena multidão de plantão no prédio do dormitório.

"Aqui está 50 para você não dizer uma palavra." Marley disse ao motorista assim que entraram no transporte.

Marley indicou um endereço que ficava dois quarteirões antes do apartamento dela. Com Santana de boné e óculos escuros, as duas caminharam até o prédio correto. O apartamento de Marley era um studio pequeno, elegante e aconchegante. Não tinha divisões, a não ser para o banheiro. A cama ficava no mezanino, a sala-cozinha era decorada com móveis de madeira escura. Havia um quadro colorido na parede de arte pop. Mas a melhor coisa sobre o apartamento de Marley era o silêncio. Não havia ruídos ali.

"Você está com fome? Posso fazer um sanduíche." Marley não esperou a resposta e já se movimentou no sentido de preparar a refeição. Santana, ainda muito apática, apenas sentou-se passivamente no confortável sofá.

"Pela primeira vez em muito tempo... estou perdida. Eu não sei o que fazer." Passou as mãos pelos cabelos pretos.

"Imagino."

"Aquela gravação e o tempo que levou para ser publicada... só consigo imaginar que tudo foi parte de um plano muito bem articulado. Um que eu não sei como vamos sair. Eu mal sei como será a minha vida daqui em diante, se ainda tenho um emprego, se vou poder me formar, se vou ter uma vida normal apesar... disso."

"Você nunca escolheu uma vida normal, San. Seus poderes tiveram impacto nas suas escolhas, obvio, mas mesmo se você não os tivesse, você estaria fazendo a mesma coisa de alguma maneira. Grant disse que você é naturalmente uma heroína, não apenas alguém com um mero complexo. Ele disse que isso poderia te matar algum dia, ao mesmo tempo que nos salvaria de alguma maneira. Foi uma das coisas que me atraiu sobre aceitar esse trabalho, em primeiro lugar."

Santana encarou Marley por um instante. Ela recebeu o sanduíche e continuou a encarar a administradora financeira. Ela achava que Marley lhe dava mais crédito que o necessário, e colocava mais pressão nos ombros dela.

"Não está com fome? Logo você que come mais que um estivador?"

"Perdi a fome."

Marley tirou o sanduíche das mãos de Santana e colocou o alimento no prato em cima da bancada da cozinha. Voltou a atenção a vigilante, sentou no colo dela e a beijou na boca. Santana a afastou gentilmente.

"Marley... Eu não posso... não consigo... não agora."

"Quem disse que a nossa relação tem de ser apenas negócios e sexo?"

"Em outras circunstâncias, eu concordaria. Mas agora eu não tenho condições de ser namorada de ninguém. Eu não tenho cabeça para isso."

"É por causa da Rachel?"

"É por causa da Rachel, mas também de Quinn, de Artie, de Mercedes, do Matt, da Brittany, e de você. Os vigilantes acabaram, Marley. Rachel e eu estamos fritas, mas eu não posso deixar isso acontecer com os outros."

"Somos todos adultos, San. Você não é responsável por nossas escolhas."

"Sei disso. Acontece que as minhas escolhas não podem atingir vocês. Eu não tenho esse direito."

"Seria se você fosse um ser perfeitamente isolado. Acontece que ninguém é. Afetamos uns aos outros quer você queira ou não." Marley beijou Santana na boca mais uma vez antes de sair do colo dela. Então caminhou para as escadas que davam acesso ao quarto no mezanino. "Você vem?"

"Marley..."

"Eu não quero transar contigo... agora. Eu só estou te oferecendo um cochilo sem interrupções. Um em que você possa descansar e, quando acordar, possa pensar melhor no que precisa fazer por você e pelo time. Como a líder que é."

Santana levantou-se do sofá e segurou a mão de Marley, deixando-se conduzir pela assistente administrativa. Em uma coisa Marley tinha razão: ela precisava de um momento de paz para conseguir pensar direito. Havia muito em jogo.

...

Quando Santana acordou, estava sem Marley ao lado. Levantou-se da cama e viu a garota em questão no andar de baixo do studio trabalhando no computador. Sentiu um impulso de checar as notícias, mas segurou o próprio ímpeto. Qual seria o ponto? Desceu as escadas e checou as horas. Era início da noite, e ela dormiu por cinco boas horas. Percebeu que finalmente estava com fome e que, sim, voltava a raciocinar direito.

"Aquele sanduíche..." Santana disse enquanto descia as escadas.

"Na geladeira." Marley disse tão casualmente, que causou um certo frio na espinha em Santana. Era como se ela estivesse escutando a velha Marley, amante ocasional e sem compromisso. Ao mesmo tempo, havia algo diferente.

A vigilante abriu a geladeira, encontrou a refeição envolvida em um saco plástico. Saboreou o sanduíche enquanto olhava a paisagem da janela do pequeno edifício. Estavam no terceiro/quarto e último andar.

"Notícias de Rachel?" Santana perguntou.

"Ainda está presa. Considerando que os pais dela vão ter de fazer alguns empréstimos para pagar a fiança... vai levar dois ou três dias até ela sair."

"Okay. Vamos ver depois em como poderemos ajudar."

"O quê?"

"O quê, o quê?"

"Juro que você ia considerar vender o apartamento ou a cabana para pagar a fiança dela."

"Confesso que cheguei a pensar nisso, mas de que adiantaria? A cabana é um refúgio para nós todos, e Quinn e Beth estão morando lá. Não pagar aluguel significa que ela pode continuar com o curso de paralegal. O apartamento é um fundo de garantia que todos nós temos. Por mais que eu quesesse arrumar dinheiro para a fiança de Rachel, eu não tenho dinheiro que seja realmente meu, você é a administradora financeira e já sei que não temos recursos sobrando, além disso, tenho de pensar no grupo."

"Estou impressionada. Achei que você seria capaz de sacrificar qualquer coisa por ela."

"Com ciúmes?"

"E se eu estiver?"

"O que o seu namorado vai pensar?"

"Ryder não é o meu namorado."

"Mas vocês não andaram... dormindo juntos?"

"Com ciúmes?" Marley rebateu.

"Com certeza."

"Muito nobre da sua parte em admitir isso."

"Não é porque ele é um advogado decente, que eu vou gostar de ver você se esfregando nele."

"Ryder... Ryder é uma boa transa, e eu estava precisando disso, já que você estava com Jenny na sua cama e com Rachel na sua cabeça."

"Desculpa por te envolver nessa bagunça."

"Eu sabia muito bem no que estava me metendo, San. Todo mundo sabe que monogamia não pertence ao seu vocabulário."

"É aí que você se engana." Santana lavou a louça em que estava o sanduíche e depois secou as mãos na toalha na cozinha. Em seguida, Santana foi até a mochila que tinha algumas roupas dela. Tirou o short sem se importar em cobrir brevemente a nudez para Marley, e colocou uma calça. "Você pode me emprestar um casaco com capuz?"

"Para onde vai?"

"Andar."

"Acha que deveria?"

"Marley, eu não cometi nenhum crime que eles possam provar. Eu sei que eu não cometi nenhum crime. Eu sou uma cidadã como outra qualquer, e eu cansei de me esconder."

"Eu vou contigo."

"Só vou andar pelo bairro, Mar."

"Não tem problema."

Marley pegou o casaco para ela e para Santana. Estava curiosa em saber que tipo de plano a vigilante tinha em mente. Desceram do apartamento e não havia repórteres ali. Santana colocou o capuz. Muito embora ela tinha discursado que não gostaria de se esconder, ainda tinha de lidar com o fato do rosto dela estar estampado em todos os noticiários em todas as mídias imagináveis. Ela era, literalmente, a pessoa mais conhecida da cidade naquele momento.

"Você nunca patrulhou comigo." Santana sorriu para Marley.

"É isso que estamos fazendo? Patrulhando?"

"Estamos saindo para beber alguma coisa... e patrulhando enquanto isso."

Santana olhou ao redor. Sabia que estava sendo reconhecida por algumas pessoas. As expressões que faziam não deixavam dúvidas. Algumas pessoas até acenavam e sorriam. Santana apontou para uma loja que estava sendo assaltada. Caminhou calmamente até a entrada e bloqueou a passagem do assaltante. Foi um golpe preciso, um soco. O assaltante desmaiou.

"Chame a polícia." Ela disse ao atendente.

Santana seguiu o caminho como se nada tivesse acontecido, com uma Marley atônita ao lado. Era só rotina. Santana nocauteava um assaltante daqueles patrulha sim, patrulha não.

"Quer que eu sintonize no canal da polícia no celular?" Marley perguntou, ainda meio impressionada.

"Não precisa. Olha: aquele bar parece bom. Podemos comer alguma coisa."

"Comer? Depois daquele sanduíche enorme? Eu te odeio por isso."

"Todo mundo me odeia."

Marley sentiu-se olhada no bar por estar em companhia da vigilante. Ela podia ver algumas pessoas discretamente se afastando, como se tivessem culpa de alguma coisa e não quisessem se revelar. Santana apenas fingia que não notava.

"Uma cerveja." Santana pediu.

"Duas." Marley complementou. Ao ver que o barman hesitou, Marley insistiu. "Não ouviu? Duas cervejas."

"Eu não quero confusão aqui." Disse o barman, que provavelmente também era o dono do local.

"Nem eu." Santana acenou. "Eu só sentei aqui para beber uma cerveja."

Ela foi servida e tomou um gole da cerveja sob olhares dos locais. Pudera, o rosto dela passou a ser conhecido em rede nacional. Suas ações passaram a ser temas de debates acalorados entre defensores e opositores. Ao entender o quanto era incômodo não ter a privacidade desejada, Marley entendeu porque os vigilantes nunca cogitaram revelar-se ao público. Entendeu também porque Santana fazia o papel de boi de piranha: estava ficando para trás e servido de sacrifício para que os outros pudessem ter uma vida normal.

"Ei, vigilante, está afim de uma disputa?" Um homem mostrou os bíceps, provavelmente porque duvidava da legitimidade dos acontecimentos e estava disposto a tirar a prova.

"Eu só quero tomar uma cerveja."

"Está com medo?"

Santana levantou-se, ficou diante do homem, que pesava mais de 100kg, e o levantou como se ele fosse um boneco pela cintura da calça jeans. Celulares, é claro, estavam a postos.

"Eu disse, eu só quero tomar uma cerveja em paz, com a minha amiga." Santana colocou o homem de volta ao chão e virou as costas para ele.

"Vigilante." Outra pessoa chamou a atenção dela.

"O que foi agora?" Santana revirou os olhos.

"Você não vai fazer nada?"

"Fazer o quê?"

"Estão tuitando que há um roubo a banco com reféns a quatro quarteirões daqui."

"A polícia resolve... ou os bombeiros."

"Eu não acho que eles vão dar conta." O homem mostrou a imagem do celular. Alguém havia recém-postado a imagem de um homem gigantesco arremessando um segurança a metros de distância na frente de um banco.

"Por deus!" Santana arregalou os olhos e voltou-se em particular para Marley. "Veja se você pode enviar alguma ajuda."

Santana correu em direção ao tal incidente. Era muito estranho correr livremente daquela maneira pela cidade sem usar uma máscara. Parecia que ela estava nua. Ela sabia que rua era aquela e, a julgar pelas sirenes, o perigo era real.

"O que está acontecendo?" correu em direção ao policial que estava contendo uma pequena multidão de curiosos.

"Esse cara é a prova de balas!" O policial disse atônito.

Santana olhou para o banco. Não dava para ver os reféns, mas aquele não parecia ser trabalho de uma equipe coordenada. Era um trabalho de um homem só. Ou de um monstro só. Santana chegou até o comandante da operação.

"Me dá um colete a prova de balas."

"Fique fora disso, moça, senão eu te prendo."

"Tem um monstro lá dentro que aparentemente é a prova de balas. Eu não sou, por isso, me dá um colete e me dê cobertura."

Não foi preciso o capitão permitir. Outro policial, em um ato de insubordinação, a vestiu com o colete, como o solicitado. Santana agradeceu com um aceno e correu em direção ao edifício ao lado o banco. As pessoas curiosas com o cerco, filmavam a movimentação da vigilante escalando o prédio vizinho e depois saltando em uma pequena marquise já no prédio do banco, por onde entrou por uma janela. Havia expectativa no ar. Cinco minutos depois, o vidro da fachada do banco foi quebrado. Imediatamente, algumas pessoas começaram a correr para fora, em direção a polícia. Eram os funcionários do banco que tinham sido feitos de reféns.

"Tem mais alguém lá dentro?" O policial perguntou para um dos funcionários.

"Acho que não... só tem ela e aquele monstro."

Podiam ouvir o barulho de vidros e outras coisas quebrando. De repente, era a própria vigilante que estava literalmente voando através da fachada quebrada do banco assaltado. Santana rolou pelo chão e foi parar no meio da pista interditada. Estava machucada, meio atordoada, e sangrava devido a um estilhaço fincado no braço. Nesse meio tempo, o homem gigantesco, com o rosto meio desfigurado, saiu do banco. Estava irritado. Correu atrás da vigilante, a levantou acima da cabeça e a arremessou contra a frente de um dos carros estacionados. O impacto fez a vigilante perder o fôlego. Definitivamente aquilo era algo novo, como se a era dos ladrões comuns, pedófilos e traficantes tivesse passado. Sinceramente, Santana começava a sentir falta desse grupo de bandidos. Ao ver o homem grotesco correndo na direção dela. Desviou-se, fazendo o monstro chocar-se contra o carro. Ela rolou no chão, afastou-se um pouco e levantou-se. Ficou em posição de luta. O homem sorriu cheio de desdém. Foi para cima. Por mais que o adversário fosse mais forte, Santana sabia lutar, tinha técnica. Ela usava ao seu favor o fato de ser bem mais ágil.

O público viu uma luta difícil entre uma garota e um ser que tinha duas vezes o tamanho dela. Santana sacou que a pele do homem parecia a prova de balas, como nos quadrinhos de Luke Cage, mas era só isso mesmo. A força era impressionante, mas era proporcional ao peso e ao tamanho da criatura. O monstro também podia ser quebrado. Ela viu isso tão logo o monstro errou um soco, que acertou em um muro, e sentiu dor depois de fazer um buraco na parede. Ela aproveitou a oportunidade, correu e empurrou um carro contra o monstro, o prensando contra a parede. Quando percebeu que estava perdendo a vantagem, soltou o carro, deixou que o monstro se livrasse do veículo, jogando a frente para o lado e se libertando. Foi o tempo que deu para ela correr e derrubar com uma voadora um pequeno poste de sinalização de trânsito. Ela arrancou o poste e o usou como arma. Primeiro bateu o poste com toda força que tinha contra a lateral do joelho do monstro, como se estivesse jogando golfe. O monstro desequilibrou, sentindo a pancada. Num segundo movimento, Santana bateu o poste contra a cabeça do homem, como se estivesse jogando baseball. O monstro caiu desmaiado.

Ela deu alguns passos para trás. Pensou o que faria, então entortou o poste ao redor do monstro. Não estava muito bom, mas criaria uma boa dificuldade caso o homem acordasse. Assim feito, depois da "algema" improvisada, sentou-se no meio do asfalto em exaustão. Olhou para cima. O voador, devidamente mascarado, estava segurando Ice Queen. Os vigilantes pousaram.

"Precisa de ajuda?"

"Esse cara vai acordar daqui a pouco e fazer mais estragos." A vigilante explicou. "Eles não vão dar conta de contê-los"

Com o recado dado, Ice Queen colocou os dedos médio e indicador nas têmporas do brutamontes e resfriou o cérebro, de modo que induzisse o homem ao coma. Enquanto isso, voador tirou uma foto do bandido.

"Deem o fora daqui." Santana ordenou ao ver que os policiais se aproximavam armados. O voador segurou Ice Queen e voou para longe dos holofotes, do helicóptero que passava a sobrevoar o local e, derrubando no processo, um drone. Enquanto isso, em solo, os policiais se aproximaram apontando as armas, inclusive para Santana.

"Vão me prender por que agora? Destruição de patrimônio público?" Santana revirou os olhos.

"Acho melhor nos acompanhar para prestar alguns esclarecimentos, Lopez."

"Será que dá para passar no hospital antes?" A verdade é que Santana estava tão dolorida e machucada, que não seria má-ideia pegar uma carona com a polícia até o hospital para dar uma olhada nos cortes e na costela que parecia ter sido fraturada.

A vigilante não resistiu a "prisão". Permitiu-se ser algemada e ser levada para dentro do carro de polícia, sob protesto dos reféns e das pessoas que ali estavam. Nesse meio tempo, Marley já estava por lá, entre os policiais, e pediu para acompanhar a vigilante. Ela iria garantir que nada de errado fosse feito com Santana.

...

Quinn retirou a máscara e foi até George, que monitorava a situação da casa dele, já que o apartamento foi esvaziado por precaução.

"Precisamos que você faça um reconhecimento facial."

Quinn apressou Artie, que entregou a câmera para o amigo. George começou a rodar o programa de reconhecimento de rosto. O programa precisou de poucos minutos pra rodar e rastrear as redes sociais com os padrões comparativos.

"Como foi lá?" George perguntou enquanto o programa rodava.

"Santana se machucou muito, mas ela deu conta do monstro." Quinn passou a mão pelo rosto. Estava angustiada e excitada ao mesmo tempo.

"Acho que encontramos a identidade do cara." George olhou para os dados obtidos. "Aparentemente esse cara se chama Spencer Porter. Só que não faz sentido algum." Mostrou a foto original do homem para Quinn e Artie. "Esse cara era um motorista de aplicativo que não tinha esse volume todo."

Quinn viu a foto dele e espantou-se com a diferença, apesar do programa acusar que se tratava da mesma pessoa.

"Se são as mesmas pessoas, como esse cara ficou desse jeito?"

"Pois é." Artie também estava impressionado. "Parece que Jekyll e Hyde estavam na cidade."

"Tem que haver uma ligação." Quinn foi até o quadro da investigação e olhou as possíveis conexões. "O projeto Ranger! É a chave que conecta tudo. Audrey May, o prefeito, o programa de segurança de Martinez, o dinheiro de empresários ricos, o envolvimento de cientistas renegados..."

"Tem certeza?" Artie franziu a testa.

"Esse monstro foi criado por alguém." Quinn argumentou. "E não foi para destruir a cidade e desafiar a polícia. Minha hipótese é que o projeto de segurança de Martinez continuou de alguma maneira, conduzida por outro grupo. Há mais pessoas com poderes pelo mundo além de nós. São raras, mas elas existem. Martinez queria nos usar para ganhar dinheiro. Ele se ferrou, mas... há outros. E esse monstro... esse Mr. Hyde... é uma bela desculpa para ter um supergrupo por perto. Só que essa cidade já tem vigilantes."

"Você acha que eles querem nos tirar de cena para introduzir os tais rangers como solução para grandes ameaças... como Mr. Hyde?" George tentou acompanhar o raciocínio.

"Ameaças artificiais... sim... posso apostar dinheiro na hipótese de que essa criatura foi fabricada. E a nossa prioridade é descobrir onde e como."