Rachel estava aliviada por finalmente estar em casa. Foram o total de três semanas na cadeia, vestindo o uniforme de algodão grosso, dormindo em colchão fino, passando frio e, especialmente com medo. Era irônico porque eram as pessoas com que ela "conviveu" na cadeira que morriam de medo dela. Os pais dela, que nunca foram ricos, tiveram de vender um dos carros para conseguir os 20 mil da fiança e pagar os honorários de Ryder Lynn. Daí a demora para soltar Rachel. A atriz se sentou no colchão do próprio quarto. Era tão confortável. Mais macio até do que o minúsculo apartamento em que morava na metrópole. Conferiu o calendário. Ela deveria ter retornado a companhia de teatro, as férias tinham acabado, mas ela ainda estava ali, na cidade natal, impedida de sair sem autorização judicial. Do que adiantaria voltar?

"Rachel?" Ela ouviu Leroy bater à porta.

"O que foi?"

"Quinn Fabray está aqui."

"Diz que estou indisposta."

Quinn, que estava logo atrás de Leroy, ouviu a negativa de Rachel em recebe-la. Não havia nada previamente combinado, por isso o resultado não poderia ser melhor. Quinn sorriu para Leroy e tentou, sutilmente e suavemente, persuadir de deixar o homem a falar com Rachel.

"Deixa eu tentar por cinco minutos?"

"Mas e se ela..."

"Eu não sou Santana Lopez, mas eu consigo lidar com os poderes dela. Fique tranquilo."

Leroy permitiu que Quinn avançasse em direção ao quarto de Rachel, mas antes ressaltou.

"Cinco minutos. Se ela te rejeitar, por favor, saia."

Quinn acenou e abriu a porta da colega, entrando no quarto sem pedir permissão. Rachel estava sentada em cima da cama dela, abraçando as próprias pernas e com o queixo escorado no joelho. Quinn sorriu para ela e andou de braços cruzados até a janela do quarto, que dava para a lateral da casa. Era possível ver dali o pequeno corredor de acesso ao quintal, além da casa do vizinho.

"Sabe aqueles clichês de se apaixonar pelo vizinho que tem a janela do quarto imediatamente a frente da sua?" Quinn procurou dizer casualmente.

"Não." Rachel respondeu seca. "O vizinho ao lado tem um filho que deve ter uns 10 anos de idade agora."

"Eu vivi esse clichê." Quinn se permitiu sorrir. "Na minha cidade natal."

"Deixa eu adivinhar: foi o pai da Beth?"

"Não. O pai da Beth foi o meu segundo namorado. Logo após o meu vizinho. Hyun era um sujeito legal. Os pais eram coreanos, mas ele era americano. Foi o meu primeiro beijo, minha primeira dança. Foi doce enquanto durou."

"Aí você trocou o doce coreano por um imbecil padrão americano." Rachel não estava exatamente interessada na historinha, mas também não podia dizer que a companhia de Quinn era ruim.

"Bingo." Quinn balançou a cabeça e sentou na beira da cama de Rachel. "O pai de Beth era o perfeito clichê americano: atleta, bonito, forte... eu entrei para o esquadrão das líderes de torcida, e para a turma dos populares. E para quê? Para engravidar aos 16, ser expulsa do lar falsamente cristão, e ir morar com meu lindo namorado, que se transformou no meu abusador."

"Quinn..." Rachel franziu a testa. Ela não conhecia essa parte da história da vida da amiga.

"Santana... ela pode ter sofrido alguns traumas... mas ela nunca vai saber o que eu e você sabemos. Ela nunca vai saber o que é se sentir acuada, sem defesa, fraca e violada. Não da mesma maneira que nós."

"Não... ela nunca vai saber."

"Rachel, os meus poderes se manifestaram na puberdade. Mas eu sei o que é não ter o controle. Eu sei o que é viver em medo de alguém descobrir. Eu também sei que pior do que ficar só, e se sentir só."

"Você veio aqui para falar isso como assistente do meu advogado ou como vigilante?"

"Eu vim aqui como sua amiga. Você se lembra de quando você costumava me visitar na livraria e comprava biscoitos para Beth?"

"Sim... bons tempos. Quando tudo ainda era mais fácil."

"Nem tanto." Quinn sorriu.

"Por que você está realmente aqui?"

"Rachel, eu quero te alertar que as coisas vão ficar muito difíceis para nós nesses próximos dias. Estamos perto de desmascarar algo grande, que pode custar as nossas vidas. Se algo acontecer comigo... você poderia pedir para os seus pais tomarem conta de Beth? Eu gostaria de deixar um documento delegando a guarda de Beth caso eu seja presa ou... algo mais definitivo. Eu não queria ver a minha filha ser cuidada por um abusador, e nem com uma família conivente."

"Quinn. O que está acontecendo?"

"Eu quero voltar aqui amanhã com a papelada. Quero conversar pessoalmente com os seus pais. Mas eu queria que você adiantasse um pouco do assunto. Ryder vai ajudar, Marley também."

"Sou eu quem vai ser condenada, mas é você quem parece estar indo à forca. Quinn, fale comigo!"

"Que fique claro, eu não pretendo morrer, muito menos pretendo ser presa. Mas com o aparecimento dos mr. Hydes e pelo que estamos descobrindo... eu não serei relapsa. Não com a minha filha em jogo."

"Mr. Hydes?"

"Esses monstros que estão surgindo pela cidade a todo momento? Eles são realmente fortes. Santana está com muita dificuldade de enfrenta-los. Ela está fisicamente mal, está cansada. Na noite passada nós trabalhamos em equipe, e posso dizer que não foi coisa simples. Eu preciso ser cuidadosa."

"Eu posso ajudar."

"Como se você não aprendeu a se controlar? Você derrubou um prédio com gente dentro morando! Rachel, não podemos contar contigo no estresse do campo de batalha. Mas os seus pais são as pessoas mais decentes que conheço, e os que seriam mais capazes de dar uma vida normal para Beth."

"Tudo bem. Em nome da nossa amizade, eu vou falar com meus pais. Te dou uma resposta hoje a noite para saber se a conversa amanhã será possível ou não."

"Obrigada."

Quinn abraçou Rachel. Ela não estava disposta a morrer ou a ceder a guarda de Beth para qualquer pessoa que fosse. Pelo menos não enquanto ela, Quinn Fabray, estivesse respirando ou em liberdade. Mas com a vida que ela levava, não fazia mal se precaver, e de todas as pessoas que ela teve contato, os pais de Rachel pareciam ser adultos bem decentes e ideais para criar uma criança como Beth.

"Rachel?" Quinn chamou a atenção da amiga antes de deixar o quarto.

"Sim?"

"Sobre o seu controle... olha, a cabana está de portas abertas. Acho que é um lugar bem calmo e sem a sombra desses malditos jornalistas. Mercedes que me desculpe, mas esse pessoal da profissão dela é um nojo."

"Eu gostaria mesmo de voltar a cabana, nem que fosse só para dormir. É o lugar mais sossegado do planeta, se brincar."

"Como eu disse, as portas estão abertas."

...

Era dia do exame final. Mesmo que o último mês tenha sido o caótico, Santana compareceu para fazer o teste. Afinal, ela teve bolsa de estudos durante o curso todo, foi uma aluna de boas notas, tornou-se uma boa arquiteta como sempre desejou desde criança. Só precisava fazer a última formalidade antes de receber o diploma. Foi um mês de pouco sono, em que ela perdeu o emprego, foi temporariamente presa duas vezes, foi baleada pela própria namorada, que a mesma namorada morreu, que ela enfrentou aberrações possivelmente fruto de um soro diabólico, sem mencionar no quanto o corpo dela estava muito dolorido depois da noite anterior. Pensando por esse lado, Santana Lopez não tinha a menor condição de fazer o teste, mas certamente ela tinha todo direito de estar ali.

Ela assinou a lista de presença e sentou-se em uma das cadeiras sob olhares de todos os colegas. A sensação era horrível. Olhou para o lado e viu uma colega com quem ela passou uma noite depois de uma festa na faculdade no segundo ano. A garota que um dia Santana fez gritar em êxtase agora a olhava como se ela fosse uma aberração. Viu o mesmo olhar em colegas com que ela se divertiu, fez trabalhos em equipe, e até mesmo integrou grupos de estudos. Santana dividiu a sala de aula com, virtualmente, todas as pessoas que estavam fazendo a prova final naquele momento. De repente, era como se ela fosse uma estranha que não pertencia àquele lugar. Mas como negar o direito dela?

"Boa sorte."

Ela ouviu o incentivo de uma única pessoa, de um único colega. Stoner Brett era o sujeito mais antigo da turma, notório apreciador da cannabis, e que nunca foi de julgar alguém. E pensar que Santana nunca ligou ou deu valor para Brett. O professor entregou as pastas aos alunos. Seriam 50 questões divididas em duas categorias, em que os alunos teriam até três horas para responder. Quando o alarme foi disparado, Santana sentiu certo alívio ao ler as primeiras questões. Ela sabia a respostas. Não quis perder tempo e logo preencheu o cartão. Pessoas odiavam fazer provas. Santana não era diferente. Mas diante de todo que estava passando, do estado físico comprometido pela exaustão e pelo estresse, com todas as preocupações, fazer uma prova de arquitetura parecia um refresco, em que ela podia se concentrar e esquecer por algumas horas, de todos os problemas que enfrentava.

Foi respondendo as questões com relativa tranquilidade. Completou toda a etapa objetiva do teste, e começou a responder as questões subjetivas. Eram dois grupos de questões: uma com duas questões e outra com quatro. A prova pedia que se escolhesse uma questão do grupo A e duas questões do grupo B. Santana respondeu objetivamente a questão que escolheu do grupo A, mas quando começou a escrever a primeira questão do tipo B, alguém, um aluno, invadiu a sala berrando.

"Você precisa sair daqui agora!" Gritou o aluno para a vigilante.

"Por quê?"

"Senhor, se retire dessa sala agora." O professor broqueou.

A situação, porém, pareceu que era séria quando mais gente entrou na sala a procura de Santana.

"Há um monstro atirando no campus!" Berrou uma garota. "Faça alguma coisa!"

Santana hesitou por um segundo. Era o exame final dela, por deus do céu. Mas ela largou o teste e correu para fora da sala. Se fosse trote, ela jurava que mataria aquelas pessoas.

Não era trote.

Do lado de fora do prédio havia gritaria. Um terceiro mr. Hyde estava mesmo no campus, atirando e atacando os próprios alunos, que corriam desesperados em todas as direções. Havia alguns poucos corajosos que arremessavam o que podiam, seguranças do campus atiravam. Não adiantava. A pele era impenetrável, pelo menos momentaneamente. Santana arrancou um extintor de incêndio para usar como arma e correu em direção do monstro, chegando por trás dele. Ela bateu o extintor com toda força nas mãos dele, conseguindo desarmá-lo. Em seguida, tentou bater no rosto, mas sem uma condição física ideal, ela acabou sendo lenta, permitindo que o monstro se defendesse e contra-atacasse. Santana estava sem colete, que além das balas, protegia um pouco do impacto. Ela caiu de costas, perdeu o fôlego por um segundo. Não tinha tempo para se recuperar. Chutou o monstro, que parecia particularmente foda de controle. Muito mais que os dois anteriores.

Santana socou o monstro. Procurava usar a habilidade, as técnicas que conhecia, mas um safanão do monstro bastou para que ela novamente colidisse com as costas no chão. O monstro a pegou pelo pescoço e a ergueu do chão. Ela estava sufocando, sufocando. Mas uma pressão e o pescoço seria quebrado. Um segurança a salvou ao chocar o carro elétrico que usava para monitorar o campus contra a criatura. Houve um urro tão alto, que o homem se mijou todo. Começou a atirar, mas as balas chicoteavam. Santana sentiu uma picada extremamente dolorosa. Uma bala a atingiu pelas costas, na altura do ombro direito. Ela gritou de dor.

O monstro atacou o segurança, mas Santana correu para impedir que o homem fosse morto. Ela se atirou contra as pernas no monstro e o fez cair. Saiu de perto dele o mais rápido que pôde, empurrou o segurança, o arremessando para longe.

"Eu vou te matar!" o monstro berrava. "Eu vou te matar agora."

"Entra na fila!"

Santana não imaginou que tivesse a força necessária, mas ela pegou o carro elétrico, o ergueu acima dos ombros e o jogou contra a criatura. Não satisfeita, repetiu o movimento, dessa vez com a criatura já caída, e jogou novamente o carro elétrico. O monstro parou de se mexer. A vigilante sentou à grama. Uma onda de emoções se abateu contra ela, e Santana começou a chorar.

...

Santana abriu os olhos e fiou surpresa por estar em um quarto de hospital. Não se lembrava de ter ido parar ali. Tentou levantar, mas o corpo estava fraco e tão dolorido que ela desistiu.

"Fique calma aí." Ouviu a voz de Mercedes. Santana acalmou-se quando viu a melhor amiga. "Você foi baleada... de novo... e está com duas costelas quebradas."

"Cedes, como eu vim parar aqui?"

"Você se lembra de enfrentar um mr Hyde no campus?"

"Sim, eu me lembro dessa parte."

"Dizem que você teve um colapso nervoso depois disso. Não parava de chorar quando chegou aqui. Quando me ligaram, você já estava fazendo a cirurgia para remover a bala."

Santana passou a mão por trás do ombro direito e sentiu o curativo. Era impressionante que ela mal conseguia se mexer.

"Não se esforce muito, San. Precisa descansar de verdade."

"Eu não posso, Cedes."

"Você pode e vai. Brittany está chegando. Ela vem passar um período mais longo dessa vez."

Um homem espiou pela porta entreaberta. Santana reparou que ele estava uniformizado: parecia ser policial.

"Cedes... eu estou presa?"

"Você não vai acreditar, mas eles estão aqui para te proteger. A imprensa está lá fora."

"Droga!"

"Não se preocupe, ok? Durma um pouco mais. Daqui a pouco, Marley deve chegar para passar a noite contigo."

"Cedes, e se outro mr. Hyde aparecer? Como vai ser se eu ficar aqui nessa cama de hospital? Eu não posso."

"San, o plano é claramente te matar. Você não pode sair daqui. E mesmo se um mr. Hyde aparecer nesse hospital, a gente vai dar um jeito."

...

Santana não sabe por quanto tempo dormiu. Quando acordou, estava se sentindo melhor, ainda muito dolorida, porém sem a fraqueza de antes. Olhou para o lado esperando encontrar Mercedes, mas viu Marley analisando uma papelada.

"Oi." Santana disse com um pouco mais de ânimo.

"Oi, babe." Marley levantou-se e deu um rápido beijo nos lábios. "Como amanheceu?"

"Com vontade de fazer xixi! Brittany esteve aqui?"

"Sim. Ela deu um jeito em você... de novo. Consegue ir ao banheiro sozinha?"

"Acho que sim."

Santana levantou o corpo e fez expressão de dor. Estava fraca, mas conseguiu chegar ao banheiro. Foi um alívio. Aproveitou para olhar-se no espelho. Estava terrivelmente pálida, com olheiras, parecia uma morta-viva. Passou a mão pelos cabelos, lavou a boca. Quando saiu do banheiro, surpreendeu-se com Marley lhe dando uma caneta.

"Vamos sair daqui. Você precisa assinar o termo de responsabilidade por sair antes de ter alta médica."

Santana não discutiu. Assinou o papel e Marley saiu do quarto para encaminhá-los. Santana tirou o acesso do soro e dos medicamentos para então sondar o quarto. Ela viu pela janela que havia um policial fazendo guarda. Pôde ver também a movimentação de médicos e de enfermeiros. No canto do quarto dela estava uma porção de roupas em um saco plástico. Estavam imundas e sujas de sangue. Felizmente, Marley tinha levado para ela uma muda de roupas limpas. Santana trocou de roupa e esperou por Marley, que chegou quinze minutos depois com uma cadeira de rodas.

"Eu estacionei no subsolo. O segurança vai nos ajudar até a garagem e a imprensa não pode nos importunar em área privada do hospital."

"Esse policial..."

"É um segurança do hospital, San. A polícia veio aqui, falou com Mercedes, mas você estava grogue demais para depor. Eles devem te chamar depois para prestar depoimento, apesar de que os vídeos são auto-explicativos." Marley disse com um tom ameno. "E antes que você me pergunte, a universidade comunicou que aceitou a parte que você conseguiu completar do exame, e que vai permitir que você tenha um tempo extra para terminar. Pelo menos uma boa notícia, certo?"

Santana acenou e sentou-se na cadeira de rodas, deixando-se conduzir por Marley, com o segurança do hospital as escoltando. Desceram no elevador até o estacionamento e entraram no carro de Marley. A imprensa estava na frente do hospital, e eles não tinham pistas de que aquele carro que saía no momento era justamente da vigilante. O hospital só comunicaria que Santana foi embora dali a meia hora, o que dava tempo mais que suficiente para saírem da cidade. Santana ligou o rádio. Os dias estavam tão tensos que ela havia esquecido da música. Procurou uma estação que lhe agradasse. Parou em uma canção.

"Veio até mim/ quem me deixou olhar assim/ não pediu minha permissão/ não pude evitar/ tirou meu ar/ fiquei sem chão..."

"O que aconteceu enquanto estive apagada?" Santana perguntou quando Marley entrou no carro.

"O vídeo viralizou." Marley disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "O mais visto é um em que você está com as costas sangrando, erguendo o carro dos vigilantes, e o jogando contra Hyde. Bem dramático. Também tem um vídeo das pessoas te acudindo enquanto você tinha um surto nervoso."

"Aposto."

"Seis estudantes morreram, San."

"O quê? Eu... eu não sabia."

"Hyde matou seis pessoas antes de você detê-lo no campus."

"Que droga!" Santana desligou o rádio. A música não tinha mais sentido. "Descobriram a identidade dele?"

"Chandler Kiehl."

"Espera aí... esse não era o cara da rádio da universidade? Ele não era um desses caras estilo paz e amor?"

"Parece que a droga faz a pessoa ficar muito aberta ao poder da sugestão. O primeiro cara... ele voltou a forma normal após 48 horas e sem nenhuma lembrança do que aconteceu."

"Quem descobriu isso?"

"Artie e George conseguiram acessar as informações da polícia."

"Que droga... seis pessoas? Alguém que eu conheça?"

"Não saberia dizer. Mas a polícia parece estar disposta a sair do seu pé, por enquanto. Os seus colegas de universidade fizeram uma vigília de apoio a você ontem no hospital. Cantaram o hino da universidade e acenderam velas. Foi emocionante. Mercedes vai fazer algum trabalho de assessoria de imprensa para ver se controla um pouco essas informações."

"Tudo isso em um dia?"

"Na verdade, foram dois dias no hospital. É que você ficou sedada por 24 horas por causa do seu surto nervoso, além da cirurgia para tirar a bala das suas costas."

"Seis pessoas morreram por minha causa..."

"Não entre nesse looping de culpa, porque não vai dar certo. Ok?"

Santana ficou em silêncio, olhou a paisagem urbana por um momento.

"Marley, por que estamos indo para a cabana?"

"Ordens de Quinn."

"Desde quando ela dá ordens?"

"Desde quando você deixou de ter condições de ficar de pé."

Mais alguns minutos de silêncio. A cabeça de Santana estava remoendo a culpa, mas Marley tinha outra coisa em mente.

"San, eu sei que não é hora para discutirmos isso, como estamos? Digo, o que é o nosso relacionamento?"

"Eu não sei, Marley. Não me faça perguntas complicadas agora."

"Sabe? Depois que passar essa crise, depois que resolvermos esse caso, eu vou voltar a fazer essa pergunta. Se você não mudar essa resposta, então a nossa relação vai se tornar puramente profissional."

"Por que está me dizendo isso agora?"

Marley não respondeu. Ela entrou na estrada de cascalho e em poucos minutos chegaram até a cabana, onde Quinn estava as aguardando. A vigilante, em um vestido preto e adulto, sorriu para a colega e a ajudou a sair do carro.

"Fico feliz por ter chegado. A agenda de Beth está pendurada na geladeira e Rachel está lá dentro."

"Rachel está aqui?" Santana franziu a testa.

"Rachel precisa reencontrar o equilíbrio bem longe da bagunça que virou a vida dela. Você precisa se recuperar fisicamente e resolver certas pendências cruciais com ela. E quanto ao resto de nós, temos de ter espaço e paz para resolver o quebra-cabeça. Por isso que vocês duas vão ficar na cabana e vão cuidar de Beth para mim, enquanto nós vamos estar no apartamento trabalhando. As chaves do seu carro estão penduradas ao lado da geladeira."

Santana observou Quinn entrar no carro de Marley. Quem diria que uma pessoa poderia mudar tanto? Depois que passou a morar na cabana, largou o emprego como vendedora de livros e passou a trabalhar como assistente de Ryder Lynn, era como se fosse outra pessoa. Era como se Quinn tivesse encontrado o próprio espaço no mundo. Estava mais confiante, adulta. Quinn tinha razão: a vida de Santana estava uma bagunça. A líder não tinha a menor condições de liderar a própria vida, quanto mais uma equipe. Era preciso dar um passo para trás. Santana também entendeu o ultimato de Marley. Quando Rachel apareceu à porta, Santana sabia que precisava tomar decisões para voltar aos trilhos.