Santana observou Marley e Quinn indo embora com a testa franzida. Então olhou para Rachel, que estava à porta, e foi em direção dela.
"Eu vi o que aconteceu contigo. Você precisa de repouso. Eu me lembro que quando Brittany te curava. Mesmo com a ajuda dela, você precisava de um dia ou dois para voltar à normalidade."
"Eu não preciso de repouso, Berry. Só preciso de uma xícara de café." Santana tentou dar alguns passos, mas tropeçou no degrau da varanda de entrada da cabana. Rachel a amparou e evitou a queda.
"Uma xícara de café, você disse?" Rachel provocou e Santana sorriu sem-jeito. Ela estava mesmo com as pernas bambas.
"E me sentar um pouco, talvez." Santana apoiou-se na paixonite e novamente franziu a testa. "Mas o que você está fazendo aqui?"
"Quinn foi até a minha casa, conversou com os meus pais sobre um assunto particular dela, e me fez o convite. Chegamos uns 15 minutos antes de você e Marley."
"Achei que você não queria se envolver."
"Eu não quero me envolver com o lado da vigilância, mas é importante que eu me reequilibre e aprenda a controlar melhor meus poderes. Depois... a cabana é um lugar perfeito para ficar longe da imprensa." Rachel disse já dentro da cabana, ajudando Santana a subir as escadas até ao quarto que a vigilante normalmente ocupava. "Você precisa tomar um banho... está cheirando a hospital, se quer saber. Quinn disse que suas roupas estão lavadas e passadas."
"Ela passou minhas roupas ou é figura de linguagem? Quando é que Ice Queen tem tempo de passar alguma roupa?"
Rachel esperou que Santana tomasse um banho. O que tinha mais para fazer a não ser dar uma de enfermeira e de babá? Não que ela tivesse achando ruim, porque era mesmo ótimo sair da casa dos pais e ir para algum lugar relativamente distante e que, ao mesmo tempo, ela não estaria infringindo lei alguma.
Santana saiu do banheiro enrolada em uma toalha, mas já vestida com a calcinha e sutiã. Rachel ajudou a vigilante com as outras peças de roupa, gerando uma situação embaraçosa para ambas. A vigilante tinha um corpo incrível, feminino e musculoso, que não passou desapercebido pelos olhos de Rachel. O toque de Rachel, por sua vez, queimava a pele de Santana. Era uma eletricidade que a vigilante raramente sentia. Mas ela se manteve firme, procurando não pensar muito nisso. Rachel passou o dedo na marca avermelhada da cirurgia mais recente. Brittany a curou, mas tudo indicava que restaria um pequeno sinal. Independente disso, era mais uma fadiga acumulada no corpo maltratado da vigilante. Rachel não sabia se ficava no quarto de Santana fazendo companhia para ela, ou se procurava fazer qualquer coisa em outro lugar.
"Está com fome?" Rachel perguntou algo trivial para quebrar o gelo do constrangimento.
"Não muito."
"Mesmo assim eu vou preparar uma sopa. Uma bem substanciosa."
Santana não questionou. Era bom que Rachel saísse daquele quarto para fazer qualquer outra coisa. Ela relaxou um pouco depois que Rachel saiu. Foi quando pôde fechar os olhos e dormir.
...
"Você está miserável!"
Quinn disse sem nem mesmo precisar olhar para Marley. As duas estavam a caminho do apartamento do centro da cidade. George havia conseguido uma pista da empresa farmacêutica fantasma, e Quinn queria checar todas as informações antes de tomar uma decisão. Além disso, queria conversar com Brittany: a única da velha gangue que respondeu ao chamado. Matt tornou-se incomunicável, e o carinho que Quinn sentia por ele começava a se tornar ressentimento.
"Eu chamei Rachel para a cabana, porque queria ficar de olho nela. Mas a ideia de deixar Santana fazendo companhia foi inteiramente sua. Você sabe da minha opinião."
"É a oportunidade de as duas se acertarem." Marley disse ainda incerta. "Pode acontecer três coisas: ou Santana e Rachel ficam juntas; ou Santana entende que ela quer ficar comigo; ou ela decide ficar com ninguém. E se Santana quiser ficar comigo, num relacionamento de verdade, ela precisa tirar Rachel do sistema primeiro."
"Vocês garotas deveriam aprender a ficar solteiras, para variar."
"Eu não me deixo definir pelo um relacionamento com um homem ou com uma mulher, se é o que pensa. Sou perfeitamente capaz de ficar só. Mas o meu lance com Santana... eu preciso de uma definição, é isso. Assim eu posso seguir em frente."
"Você, Jenny, Rachel... eu lembro quando fazíamos teatro juntas, ouvia Mercedes, Artie e ela falando das novas conquistas... ela é tão boa assim?"
"Se você está falando da parte sexual, definitivamente. Santana tem sérios problemas com relacionamentos, mas na cama ela se garante..."
"Okay..."
Quinn ficou vermelha. Ela jamais confessaria para Marley que ficou curiosa em uma ocasião ou outra sobre como seria com uma mulher ou mesmo com a própria Santana. Mas nunca passou disso: mera curiosidade. Ela olhou o celular e suspirou. Não havia novos recados dos demais vigilantes. Era como se todos estivessem em compasso de espera. Era um sinal também que o resto da equipe via em Quinn outra líder em potencial, e a respeitavam. Marley manobrou o carro na garagem subterrânea do prédio, e as duas subiram no elevador. Encontraram todos os vigilantes presentes, discutindo possibilidades. George, Artie, Mercedes e até mesmo Brittany, conversando sobre o caso. Havia também uma caixa enorme de rosquinhas recheadas que seriam rapidamente devoradas por alguém como Quinn, Artie e Brittany.
"Bom dia." Quinn assumiu a equipe. "Nosso tempo está correndo, pessoal. Os ataques de Hydes estão ficando diários, e estou começando a concordar com Santana sobre as pessoas por trás do projeto ranger querer nos matar ao vivo pela TV. George, por favor, me diga que você conseguiu um endereço."
"Consegui. Só estávamos esperando por você e por Santana..." George respondeu. "Posso perguntar por que a nossa dita líder não está aqui?" A dúvida de George era pertinente. Sendo o integrante novato, ele passou a maior parte do tempo vendo Quinn comandar.
"Depois de enfrentar sozinha um mr. Hyde, ser baleada de novo e ter um surto nervoso, fique surpreso de ela conseguir andar." Marley bronqueou.
"Certo." George baixou o tom. "Qual é o plano?"
"Eu, você e Artie vamos dar uma olhada no local. Marley fica de watchtower hoje, Mercedes, eu gostaria que você não só acompanhasse as repercussões, veja como está a opinião pública, como precisamos de uma defesa jornalística. Você poderia escrever alguma coisa e também conversar com algum colega seu do jornal?"
"Claro."
"E quanto a mim?" Brittany se prontificou.
"Auxilie Marley aqui, e fique à postos. Se um Hyde aparecer, e a gente precisar enfrenta-lo, vamos precisar de você para ficarmos vivos, pelo menos."
Quinn foi até o quarto e trocou de roupa. Já não era mais a aprendiz de assistente jurídica. Com o uniforme ela era Ice, e estava em uma missão.
...
Santana acordou se assustando com o grito no andar debaixo. Ela deu um salto da cama e, num fôlego só, foi verificar o que estava acontecendo. Respirou aliviada ao perceber que era apenas Rachel e Beth brincando. A criança soltava gritinhos enquanto corria da saudosa "tia" Rachel. Quando percebeu que estava tudo bem, relaxou, as pernas fraquejaram um pouco e ela sentiu dores por todo corpo, especialmente no ombro direito. Rachel olhou para as escadas e viu a amiga a observando. Ela parou de correr atrás de Beth e acenou para a vigilante.
"Você estava dormindo como uma pedra. Não quis te acordar. Fiz o almoço e depois fui pegar Beth na escola."
"Posso ver." Santana desceu as escadas com um pouco de dificuldade. "Quinn e os demais deixaram algum recado?"
"Nada. Meu celular não tocou, nem o seu."
"Quinn parece estar mesmo firme nesse negócio de tomar a liderança do grupo enquanto eu me recupero. Não posso dizer que ela está errada."
"Nem eu posso. É bom estar em um lugar sem um jornalista à minha porta, ou alguém me chamando de assassina. Estava precisando dessa paz."
"A cabana também é para isso."
Santana vasculhou o resto do almoço que Rachel havia feito. Salada, queijo e legumes cozidos. Nada de carne, como era de se esperar de uma vegetariana. Também havia a sopa que Rachel havia prometido fazer. Estava com cara e cheiro bom, mas Santana não estava afim. A vigilante também não se importou com a ausência de alguma proteína e serviu-se do resto da comida do almoço. Estava faminta e precisava mastigar alguma coisa. Enquanto comia um pouco, sentiu dois pares de olhos a observando. Não sabia que vê-la almoçando às quatro horas da tarde fosse tão atraente para Beth e Rachel.
"O que foi? Por um acaso cresceu um terceiro olho na minha testa?"
"Posso fritar um bife se quiser." Rachel ofereceu. "Você deve estar com muita fome."
Santana se deu conta que ela tinha colocado toda sobra do almoço na panela e estava comendo ali mesmo. De fato, era um volume considerável de comida capaz de impressionar qualquer um.
"Comida de coelho não me sustenta. Mas obrigada pela oferta. Fica para outra hora."
"Marley mandou o receituário no meu celular. Eu comprei os seus analgésicos quando fui buscar Beth na escola. Não vai querer um?"
"Depois, quando for dormir. Detesto tomar remédio."
"Tia Rachel, posso brincar de videogame?" Beth chamou atenção puxando a barra da camiseta da atriz.
"Claro, Beth. Você pode brincar um pouco antes de fazer o dever de casa." Rachel sorriu para a criança e depois voltou a atenção novamente para a vigilante. "Quinn não vem dormir aqui. Disse que vai ficar no apartamento hoje. Ela parece mesmo empenhada nas investigações."
"Ela tomou gosto por essa coisa de super-herói. Está parecendo mais e mais o Batman do meu Superman."
"Que comparação!" Rachel permitiu-se sorrir.
"Falo no sentido que ela está se revelando uma detetive nata, ao passo que eu me sinto mais à vontade na ação."
"Eu entendi a referência, San."
"Certo..."
Santana terminou a refeição e tomou um pouco de suco. Quando sentiu um pouco o braço, Rachel a mandou se afastar e terminou ela mesma de limpar a cozinha. Santana sentou-se e observou Rachel trabalhar rapidamente.
"Como está se sentindo?" A vigilante perguntou.
"Eu não sei... a única coisa que vem a minha cabeça agora é do quanto é bom ter um pouco de normalidade na minha vida após passar um tempo na cadeia."
"Esses caras não tem nenhum preparo para lidar com alguém como nós."
"Não apenas isso. Nunca olharam para mim com tanto pavor. Eu fiquei isolada boa parte do tempo numa espécie de solitária. Tinha sempre dois policiais armados com rifles à minha porta. Eu tinha duas refeições ao dia, todas feitas em minha cela. Quando eles me deixavam pegar um pouco se sol, era quando eu tinha um pouco de contato com as outras detentas. Não posso dizer que foi uma experiência boa, pois eu tinha medo delas, mas também ninguém se aproximava de mim. Pode parecer inacreditável, mas a melhor parte do meu dia era quando Ryder Lynn me visitava. Pelo menos era uma hora que eu poderia conversar com alguém."
"Eu sinto muito que tenha sido assim. Quando eu fiquei presa, acho que eles tinham a certeza de que eu não faria nada. Que eu não poderia fazer nada até para não comprometer a minha imagem. Então eles tentaram arrancar alguma coisa de mim com violência. Não deu certo. Mas eu te juro que eu precisei de todo meu autocontrole. Minha vontade era revidar cada golpe na mesma proporção."
"Pelo menos você não está sendo acusada de homicídio culposo, e por implodir um prédio."
"Eu sei que você é inocente... sobre a parte do homicídio, pelo menos. Você é totalmente culpada pelo prédio, se quer a minha sincera opinião."
"Como pode ter essa certeza que eu não sou a responsável pela morte da Jenny, se eu nem mesmo a tenho? Santana, eu explodi naquela noite."
"Do que você se lembra exatamente naquela noite?"
"Eu me lembro de estar irritada e frustrada. Então eu decidi caminhar um pouco. Acho que Jenny estava me esperando, porque ela rapidamente me interceptou. Ela apontou a arma para mim e me fez entrar no carro. Lembro que ela estava muito nervosa, tinha dito que tinha te matado, mas eu não conseguia acreditar. Pensava que ela estava fazendo isso só porque era uma vaca ciumenta e que queria me ver fora do caminho dela. O que também não fazia muito sentido porque eu não estava no caminho dela. Eu gosto de você, San, mas eu não estava interessada em retomar àquele nosso estado confuso de relacionamento. Bom, eu sei que ela dirigiu para fora da cidade, para a trilha dos pescadores, e ela parou o carro ali. Eu fiquei mesmo nervosa porque foi o momento que tive a certeza que Jenny me matar e jogar o meu corpo no rio. Só sei que eu me apavorei e explodi. Então eu desmaiei e não tenho certeza por quanto tempo fiquei desacordada. Só que quando eu recobrei a minha consciência, Jenny estava deitada no chão, ela gemeu, como se tivesse querendo dizer alguma coisa. Foi quando a polícia chegou. Eles pediram uma ambulância para Jenny e como viram que eu não estava ferida, me levaram para a delegacia. Eu fiquei horas dentro de uma saleta, que parecia um desse lugares de interrogatório. A porta estava aberta, eles me ofereceram água e me deixaram ir ao banheiro. Quando eu recebi a notícia que Jenny teve morte cerebral, eles me deram voz de prisão."
"Posso imaginar o desespero e a confusão da Jenny naquele dia. Eu nunca a tinha visto tão fora de si, e sabe o que eu fiz? Dei as costas para ela, e disse que a odiava. Se eu pudesse voltar atrás..."
"O que você teria feito?"
"Eu teria conversado com ela. Eu teria prestado atenção."
"Uma pena que não conhecemos ninguém com o poder de voltar ao passado."
"Acredito que não exista ninguém com esse poder. Acho que seria o caos se alguém o tivesse."
"Como sabe se seria o caos?"
"Sei lá. Imagine alguém criando multiversos ao bel prazer? Não me parece algo bom."
"Multiversos? Você é mesmo uma nerd no armário!" Rachel se permitiu trocar sorrisos com a vigilante, antes de encarar novamente a amiga.
"Como se sente? Digo, de verdade." Santana repetiu a pergunta.
"Frustrada, irritada, preocupada. Tenho medo de ser condenada por um crime que eu não sei realmente se cometi, tenho medo de não conseguir mais me controlar, tenho medo de nunca mais conseguir retomar a minha carreira. E você?"
"Frustrada, irritada, preocupada... dolorida, exausta, cansada de parar no hospital. Alguém anda fabricando Hydes na cidade, e tudo que eu tenho é uma hipótese, além de evidências circunstanciais. Tem o seu julgamento... tem o fato da nossa identidade ser pública agora... Tudo ao mesmo tempo."
"Santana..."
"O quê?"
"Você me perdoa?" Rachel olhou para o chão, não querendo ver o rosto da amiga naquele momento específico.
"Perdoar de quê?"
"Por ter matado Jenny."
"Você não matou Jenny."
"A quem você quer enganar, San? Mesmo que eu não tenha a matado com uma apunhalada ou com um tiro, ela bateu a cabeça naquela pedra porque eu explodi. Você me perdoa?"
Santana suspirou. Ela olhou para as árvores que cercavam a propriedade. Não havia nada mais naquele momento do que o ruído do vento nas copas e o barulho dos pássaros.
"Jenny estava fora de si. Você tinha que se defender."
"Você a perdoou por ela ter atirado em você?"
"Eu ainda estou tentando me perdoar." Santana confessou. "Jenny estava claramente em um momento ruim, instável, e eu virei as costas para ela."
"Por minha causa."
"Não foi por sua causa. O meu problema com Jenny tinha nada a ver contigo."
"Mas eu não posso evitar em pensar que fui parte do problema, San. Do jeito que a gente se envolveu no ano passado, o nosso flerte, tudo contribuiu para a sua relação com ela ficasse ruim."
"Rachel, eu namorei Jenny de verdade, sendo fiel a ela, só no meu primeiro ano de faculdade. O que a gente teve depois foi uma bagunça. Foi na mesma época que eu comecei a patrulhar. Isso me mudou. Eu me achava importante, forte, poderosa, achava que podia dormir com todas as garotas que quisesse. Quando me cansava, ou quando era conveniente, eu sempre voltava para Jenny e ficava com ela por mais um ou dois meses, até querer me aventurar de novo. Foram dois anos assim. Quando voltei com Jenny nesse último ano, já não foi de forma voluntária. Ela me chantageou quando me reconheceu por causa daquele vídeo na ponte. Eu estava me apaixonando por você, mas Jenny me forçou a recuar, ou ela contaria tudo às autoridades."
"Isso é horrível, San."
"Às vezes eu me pergunto se o fato de eu gostar de você tem a ver com aquele efeito Florence Nightingale."
"Com o quê?"
"Aquela síndrome da enfermeira que se apaixona pelo paciente? Eu nunca tinha ligado pra você até aquele dia no parque. Eu tirei aquele cara de cima de você... depois você me salvou... E depois veio o lance dos seus poderes latentes aflorarem por causa de todo o trauma. Virou uma bola de neve."
"É isso que eu sou? Uma patologia psicológica? Tenho que confessar que essa é nova."
"Não é a sua culpa. Eu só estou tentando entender. Por isso que eu penso que não há porque te perdoar por algo que você não construiu. Fui eu. Você foi vítima da minha própria bagunça como pessoa e como vigilante. É por isso que penso que quem precisa de perdão sou eu."
"Você foi a culpada por Howard ter me assaltado e me molestado no parque?"
"Não." Santana franziu a testa.
"Você disse alguma vez para Jenny que estava a deixando por minha causa?"
"Não. O meu namoro com ela estava condenado desde antes de você aparecer."
"Você deu o revolver para ela e a mandou me sequestrar?"
"Não... Rachel, aonde quer chegar?"
"Se é de perdão que você precisa, Santana, eu te perdoo por você ser uma super-heroína tão mal resolvida no campo sentimental. Sentir culpa pelo resto do mundo é o que está te matando. Eu acho que você nunca superou o acidente com aquela sua primeira namorada. Na real? Você precisa de terapia urgente! Dito isso, você me perdoa por ter ferido Jenny?"
"S-sim." Santana ainda disse incerta, tomada pela surpresa do que Rachel tinha acabado de lhe dizer.
"Obrigada!"
As duas permitiram que o silêncio falasse naquele momento. Ficaram ali, ouvindo o ruído ambiente e incapazes de saírem do lugar.
"Não estamos num bom momento de nossas vidas." Rachel lamentou.
"Não mesmo... mas pelo menos podemos tentar resolver uma coisa aqui e agora."
"O quê?"
"Trabalhar no seu controle. Podemos começar do zero, fazer um pouco de tai chi e de meditação. O que acha?"
"Você acha que é uma boa ideia? Quer dizer, temos de ficar de olho em Beth."
"Beth faz tai chi comigo... de vez em quando. Ela está acostumada em fazer esse tipo de exercício com a gente."
"Mas você está sentindo dor."
"E vou continuar sentindo, Rachel, mesmo que eu passe o dia inteiro na cama, ainda vou sentir dor. Então eu prefiro aproveitar a ideia genial de Quinn em nos isolar na cabana, e tentar limpar a minha mente para pensar melhor em tudo que foi dito aqui."
Rachel observou Santana indo para a varanda da cabana. Pela larga janela, ela viu a vigilante levar a mão ao ombro e testar um pouco os movimentos. O rosto de Santana não mentia a respeito da dor. Mesmo assim, a vigilante tentou se alongar minimamente, antes de se posicionar para um exercício respiratório em uma das posições de yoga. Rachel checou Beth, e pediu para que a menina fizesse o dever de casa, que o tempo para descanso e brincadeira havia acabado. Beth mostrou a Rachel o dever de casa. Elas teriam de ler um livro, responder algumas perguntas e Beth deveria fazer uma ilustração sobre a moral da história.
Rachel acomodou-se no sofá e ajudou Beth a ler a pequena história, aproveitando para fazer vozes diferentes e incrementar o exercício com um pouco de encenação. Ajudou Beth a escrever as respostas, que naquele nível ainda eram bem elementares. A atriz deixou a garotinha na mesa de centro da sala fazendo a ilustração para checar a vigilante mais uma vez. Dessa vez, Rachel saiu da cabana para a varanda e observou Santana, de olhos fechados, fazendo movimentos lentos do tai chi chuan. Achou tão bonito, quase hipnotizante. Ela não se juntou a vigilante, mas sentou-se no banco, aconchegou-se e ficou quieta. Não sabia se era só impressão, mas ela estava se sentindo um pouco melhor. Os olhos não arderam nenhuma vez ao longo do dia, não sentiu formigamento nas mãos e nem mesmo a sensação desconfortável de uma pressão na boca do estômago. Fazia muito tempo que não se sentia tão bem.
Beth correu para fora da cabana com o desenho em mãos. Rachel pegou a menina e analisou a ilustração. Beth não dava pinta naquela idade de que seria uma nova Frida Khalo, mas ei, ela ao menos conseguia passar a mensagem por meio da imagem. Rachel olhou para Santana e reparou que a vigilante tinha parado o exercício, e que estava observando a interação das duas. O rosto da atriz ficou rubro por alguns segundos.
"Está melhor?" Rachel perguntou a Santana que, reparando bem, lhe parecia pálida.
"Vou chegar lá." Santana acenou. "Acho que vou precisar daqueles analgésicos agora... e deitar um pouco."
"Você não deveria ter forçado tanto. Ainda ontem você estava em uma mesa cirúrgica extraindo uma bala do seu corpo!" Rachel se levantou e foi até a vigilante, pronta para a amparar caso necessário.
"Eu não tenho o luxo de não estar preparada, Rach. Cedo ou tarde, o perigo vai bater à porta."
"Hoje você tem esse luxo. Nós temos." Rachel passou o braço pela cintura de Santana e a ajudou a entrar. "Você pode ser forte e pode curar rápido, mas neste momento você precisa é de cama!"
A vigilante sorriu quando a pequena Beth correu para também "ajudar" a subir as escadas. Santana usou o banheiro, lavou o rosto e deitou-se. Enquanto isso, Rachel pegou os comprimidos e um copo d'água. Subiu as escadas depressa e serviu o remédio. Santana ainda interagiu um pouco com Beth, fazendo comentários espertos e levemente provocadores sobre os vídeos e os desenhos animados infantis que a menina lhe mostrava. Então os olhos pesaram e Santana dormiu mais uma vez.
...
Quinn, George e Artie estacionaram a Van próximo ao endereço indicado pelo inventor, onde supostamente teria acontecido a tal vacinação que poderia ter criado os Hydes.
"Isso não me surpreende." Quinn resmungou ao observar a região.
"O que não te surpreende?" George perguntou.
"Esse é o bairro que eu morava. Esse é o lado mais pobre da cidade. É obvio que se alguém quisesse atrair voluntário para tomar veneno, desde que recebesse dinheiro, recrutaria gente daqui." Quinn resmungou. "Bastardos."
"O drone está preparado." George pegou o controle remoto.
"Pode soltar."
George pilotou o pequeno drone por meio de uma série de telas na tela do computador dele. Tinha muita destreza para manobrar o controle remoto, coisa que Quinn e Artie não fariam com a mesma facilidade. A câmera acoplada no drone mostrou um pequeno galpão aparentemente vazio. As imagens através das janelas também mostravam que, aparentemente, não havia ninguém por lá. Quinn pediu para George recolher o drone, e assim que ele o fez, a dupla saltou da van, sem máscaras, sem a jaqueta, sem o exoesqueleto. Queriam apenas sondar.
"Isso aqui era um ginásio que os garotos do bairro usavam para jogar basquete. Até que a prefeitura do bairro fechou. Isso faz alguns meses."
"Isso aqui está muito limpo para ser algo abandonado."
"Está na cara que alguém usou isso aqui recentemente."
Quinn olhou para as grandes correntes na porta. Andaram ao redor e encontraram uma porta menor, que seria a entrada dos fundos da sala da administração. A porta também estava com um cadeado e uma corrente grossa. Quinn tocou no metal e o congelou o melhor que conseguia. Em seguida, George arrebentou com o alicate que tinha na mochila, sem precisar fazer força. Como o esperado, tudo estava vazio, mas incrivelmente limpo. Quinn e George reviraram o armário e as gavetas do escritório em busca de alguma evidência. Qualquer uma. Não acharam nem cartão de visitas. Visitaram a quadra de basquete. Tinha pequenos reparos no piso, e mais uma vez, uma limpeza impressionante para um local que estava meses abandonado e trancafiado. Até mesmo as pichações do lado de dentro tinham sido pintadas. Era como se alguém tivesse se esforçado para apagar evidências, mesmo que deixando outras no lugar.
Saíram do galpão, e Quinn teve a ideia de conversar com uma senhora que trabalhava num quiosque de cachorro quente ali perto. Ela sorriu para a mulher, que lhe era um rosto familiar, e comprou três lanches.
"Dois para comer aqui. Um para viagem." Quinn fez o pedido.
"Eu já não te vi por aqui antes?" A moça perguntou enquanto preparava o lanche.
"Eu morava no bairro." Quinn respondeu com um sorriso.
"Deixa eu adivinhar: conseguiu um emprego melhor e caiu fora?"
"Quase isso." Quinn sorriu. "Você sabe se a prefeitura do bairro vai reabrir a quadra?" Perguntou tentando soar casual.
"Não sei."
"Parece que foi reformado."
"Semanas atrás teve um pessoal que trabalhou no ginásio por quatro dias. Era uma tal de empresa farmacêutica que estava testando uma vacina, e o dinheiro que ofereceram valia a pena. Pagaram 400."
"Isso tudo por uma vacina?"
"Formou fila no dia da seleção, mas dizem que eles escolheram só umas 30 pessoas."
"Você conhece alguém que tomou a vacina?"
"Meu irmão."
"Nossa! Que bom! Será que o seu irmão conversaria comigo?" Ao ver a expressão de desconfiança da mulher, Quinn precisou inventar algo rápido. "Eu não sou da polícia, juro!" Ela deu logo essa explicação, porque sabia da aversão das pessoas daquele bairro com a força policial. Pudera: eram sempre truculentos. "Cá entre nós, eu sou da empresa concorrente. Dá o seu cartão para ela."
O companheiro de Quinn se assustou por um segundo. Em seguida abriu a carteira e entregou à moça um cartão de visitas de uma empresa que havia lhe oferecido emprego há algum tempo.
"A gente estava querendo fazer uma pequena espionagem." Quinn deu uma piscadela. "Será que 50 está de bom tamanho para esse lanche?" Quinn abriu a carteira e quase teve um treco quando tirou a única cédula que tinha na bolsa. "Pode ficar com o troco."
A mulher pegou a cédula de 50 e entregou os lanches para a dupla.
"Loja de móveis de segunda mão João Bittar. Pode procurar o Saul."
"Obrigada."
Assim que se afastaram, George começou a procurar a loja no serviço de GPS, mas Quinn foi caminhando sem prestar atenção no amigo.
"Eu conheço o lugar. Quer dizer, eu não conheço, mas sei onde é. Avise Artie."
George e Quinn caminharam até a loja em questão. Encontraram o local vazio de clientes, com um senhor negro e alto olhando o movimento da rua. Não parecia ter mais de 40 anos. Quinn e George entraram na loja com se fosse um casal a procura de algo. Ficaram de mãos dadas, observando algumas mesas e poltronas reformadas.
"Posso ajudar?"
"Claro!" Quinn disse, enquanto estava segurando a mão de George, com os dedos entrelaçados. "Estava procurando uma cadeira especial para o meu namorado aqui. Ele tomou vacina, coitado, e está de mau humor."
"Oh... como voluntário?" O homem ficou curioso.
"Sim, tomamos uma vacina pela Orthomax. É uma coisa experimental que eles estão fazendo." Quinn continuou jogando conversa fora.
"Deve ser uma dessas corridas de empresas. Há duas semanas, eu fui selecionado para tomar uma vacina experimental, mas era de outra empresa. Deram um bom dinheiro para isso." O homem disse como se fosse uma confidência, e Quinn ergueu a sobrancelha.
"Eles também pagaram para o meu homem aqui. Por isso que estamos podendo comprar a poltrona que ele sempre quis." Quinn apertou a mão de George para ver se ele ajudava com o teatro. Mas ele não era muito bom nisso.
"Sim..." George estava um pouco nervoso. "Minhas costas doem, essa vacina me deixou com febre, eu acho."
"Sabe que eu também tive uma reação estranha? Eu liguei para o laboratório, mas eles disseram que era o normal. Eu não sei... eles me deram a vacina junto com o soro. Era uma coisa azul. Fiquei tonto por dois dias, mas eles disseram que era normal. Mas se der certo, eu vou estar imunizado para, virtualmente, qualquer doença viral. Até aids!"
"Inacreditável, não é mesmo?" Quinn acenou. "A que meu bem tomou era só para DST. Qual é o telefone desse laboratório? Vai que eles precisam de novos voluntários. Eu posso me candidatar!"
"Eu posso te dar o número do telefone." O homem disse de bom grado. Ele consultou o cartão de visitas e anotou o número em um papelzinho e entregou para Quinn. "Mas então? Qual poltrona vai ser?"
"Vamos fazer o seguinte: deixa o seu cartão conosco, porque ele ainda quer ver mais uma loja."
"Ah, claro." O homem pegou um cartão e entregou para Quinn. "Garanto a vocês que não há nessa região uma loja de móveis de segunda mão melhor do que a nossa. Tanto em qualidade de produtos quanto em preço. Quando voltarem, procurem por Saul Antunes."
"Obrigada, senhor Antunes. Obrigada duas vezes!"
Quinn saiu da loja ainda de mãos dadas com George, que ainda estava desconfortável com o teatro, mas achava nada ruim em segurar a mão de uma mulher que ele estava aprendendo a gostar... muito.
"E agora?" George perguntou.
"Agora você e Artie vão trabalhar para localizar esse telefone."
...
Quinn deveria estar organizando os protocolos dos casos de Ryder Lynn. Ela até que tentava fazer o trabalho no apartamento, uma vez que o Ryder combinou que ela poderia trabalhar em casa em dias de baixa demanda. Pelo menos em um dos períodos. Mas aquele foi um dia em que ela avisou que não apareceria no escritório, que trabalharia integralmente em casa. Estava osso se concentrar. A todo instante, ela espiava o trabalho de Artie e George. Recebeu um recado de Rachel, dizendo que tinha buscado Beth na escola, e que as coisas estavam tranquilas na cabana.
Quinn deu uma lida no caso de Rachel. Era muito provável que ela fosse inocentada pela morte de Jenny, mas a condenação pela queda do prédio era quase certa. Poderia pegar até 10 anos de prisão. Graças a atuação de Santana e dos bombeiros, não houve nenhuma morte. Isso, com certeza, é um apaziguador no processo. Se fizerem um acordo com a promotoria, Rachel poderia pegar quatro anos, e tentar a condicional depois de dois anos de cumprimento de pena. Mas foi como Lynn explicou: Audrey May iria querer fazer justiça por Jenny de qualquer maneira, e acordos seriam difíceis.
O caso de Santana era muito mais simples. Se ela fosse condenada por qualquer coisa, no máximo pegaria alguns meses de prisão, ou faria serviços comunitários.
"Quinn?" Marley chamou atenção da líder interina.
"O que foi?"
"O tempo já está frio. A gente não precisa de ar condicionado hoje.
Com tantas preocupações, ela nem percebeu que esfriou o ambiente. Vai ver que era por isso que estava com tanta fome. Controlou-se e foi até a cozinha. Esquentou três pedaços de pizza no forno elétrico e os lanchou acompanhado de um copo de refrigerante.
"Eureka!" Artie gritou, fazendo Quinn e Marley correrem até ele. "Vocês não vão acreditar, mas esse telefone vem de um endereço perto daqui. É uma floricultura na praça da democracia.
A tal praça da democracia não era onde ficava a atual prefeitura, como se pode imaginar. Na verdade, tratava-se do centro histórico da cidade, onde ficava o prédio da velha prefeitura, que foi transformado no principal museu da cidade. A praça era o único ponto turístico interessante da cidade, por causa disso era rodeado de bares e restaurantes, além de pequenas lojinhas típicas, como floriculturas.
Quinn pegou o celular e ligou imediatamente para Mercedes.
"O que foi, Ice?" A jornalista respondeu.
"Você está na redação?"
"Eu tô saindo para uma pauta. É na prefeitura. Parece ser algo sobre registro de pessoas com habilidades especiais."
"O quê?"
"É isso mesmo, Quinn. Parece que vão lançar uma lei estadual sobre o registro obrigatório de pessoas com habilidades extra-humanas. Adivinhe quem serão as primeiras enquadradas?"
"Tudo bem, é importante que você esteja lá. Me mantenha informada."
Quinn desligou o celular e pensou rápido. Olhou para as horas. Eram quase seis da tarde. Podia ver o semblante cansado dos demais vigilantes, mas ela precisava fazer uma última checagem.
"George e Artie, vistam as máscaras. Marley... preciso de você aqui antes de voltarmos para a cabana."
Quinn, George e Artie saíram na van pela segunda vez no dia, que já tinha sido muito produtivo. Se Santana tinha compulsão em patrulhar, Quinn tinha compulsão em investigar. Ela sentia, paradoxalmente, o sangue quente. Ela não podia deixar para o dia seguinte, precisava ver, precisava verificar. O drone foi mais uma vez acionado para a ronda inicial. Conduzir o aparelho à noite demandava mais atenção e habilidade. A floricultura parecia um lugar acima de qualquer suspeita: tinha uma fachada protocolar, mesmo com a loja já fechada, era possível ver vasos e plantas ornamentais pela vitrine, além de ferramentas coloridas para jardinagem.
"Temos de entrar!" Quinn disse agindo com impulso.
"Não acha que deveríamos esperar? Santana..." Artie tentou argumentar.
"Santana não está em condições."
"Ela não está em condições hoje, agora, mas é ela que tem mais habilidade para fazer essas coisas, Quinn. Você não tem muita experiência nesse tipo de trabalho." Artie insistiu.
"Você pode me levar até os fundos da floricultura e podemos sondar por lá. Eu só quero checar e ir embora. Só isso."
Quinn vestiu o exoesqueleto, colocou a máscara e pediu para George ficar à postos. Artie a segurou debaixo dos braços e voou com Quinn até o pátio interno, que parecia mais o depósito e estoque de plantas e flores. Não havia nada suspeito. Quinn experimentou a maçaneta da porta interna. Estava trancada.
"Ice... vamos cair fora daqui."
"Se eu congelar, eu posso abrir."
"Ice!" Artie sussurrou gritando.
O alarme soou. Artie não perdeu tempo. Segurou Quinn em volta dos braços e voou. Não foram para a van, mas para cima do prédio histórico da velha prefeitura.
"Ficou doida? Não vê que devemos ter mais cautela?" Artie bronqueou onde não poderiam ser ouvidos.
"Mas estamos muito próximos... e amanhã esse pessoal pode não estar mais da floricultura. Não vê que isso é coisa de profissional? Eles limparam e fizeram experimentos num ginásio em quatro dias, Artie. Quatro dia, e não deixaram rastro. A mesma coisa vai acontecer na floricultura, e nós vamos perder a pista que pode ser vital!"
De repente, ouviram uma gritaria na praça. Quinn correu para saber do que se tratava. Era um homem, um garçom, que estava literalmente crescendo enquanto se debatia no chão, como se tivesse uma convulsão. Estava se transformando diante dos olhos de todos em um mr. Hyde. Como se isso não bastasse, outro homem que também estava na praça, começou a ter a mesma reação. Houve histeria, correria. Quinn e Artie sabiam que precisariam de toda ajuda que pudessem dispor, mas não tiveram tempo de fazer as ligações.
...
Rachel suspirou quando viu Santana adormecida. Olhou para os lados, e não tinha muito mais o que fazer, a não ser cuidar de Beth. Quinn era uma mulher organizada e a limpeza do lugar era muito boa. Depois de ajudar Beth com o banho, fazer um rápido lanche e pedir para a garotinha colocar o pijama, Rachel bem que tentou resistir, mas terminou por verificar as notícias do dia pelo celular. Não havia nada de novo a respeito do caso dela nos jornais, o que era um bom sinal, mas havia inúmeras manchetes sobre Santana e da onda de Hydes na cidade. A universidade iria condecorar o guarda de segurança que salvou a vigilante em um momento crucial, ao bater o carro elétrico contra o monstro. Os alunos fizeram uma vigília para homenagear os colegas mortos e feridos pelo Hyde da universidade, mas o apoio a vigilante estava dividido entre Santana ter sido herói ou de ser a responsável pela desgraça no campus.
Rachel franziu a testa quando viu o sinal de alerta. Ela acessou o link e viu uma chamada minuto a minuto de um ataque que estava acontecendo no centro da cidade. Aparentemente havia dois Hydes. Pelos relatos, os vigilantes e a polícia não estavam segurando a barra. Rachel ficou apavorada. Ela tinha de fazer alguma coisa, mas estava há 30km da ação, não podia deixar Beth sozinha, e Santana estava fora de combate. O que fazer? Ela correu até o andar de cima e entrou no quarto de Santana. Surpreendeu-se ao ver a vigilante de pé.
"Você... você..." Rachel disse urgente.
"Calma! Eu só fui fazer xixi." Santana então reparou bem no estado de Rachel. Ela não estaria com aquela cara de apavorada só por tê-la ouvido batendo a porta do banheiro. "O que aconteceu?"
"Dois hydes no centro da cidade... eu acho... San... eu preciso ajudar..."
"Você fica com Beth. Eu vou."
"Você está louca?"
"Estarei louca em não aparecer."
Santana só teve tempo de calçar o tênis e saiu correndo escadaria abaixo, cometendo pequenos tropeços. Pegou as chaves do carro que era dela, e saiu em disparada em direção ao centro da cidade. Passou muito acima da velocidade por um redutor eletrônico. Prometeu mentalmente arcar com a multa que chegaria dali a alguns dias. Passou pela ponte alta e logo viu que havia um engarrafamento se formando devido ao bloqueio no centro da cidade. Estacionou o carro e saiu correndo em direção ao centro histórico da cidade. Os carros estavam parados, pessoas corriam em na direção contrária. Por causa do desgaste físico, Santana não tinha a mesma resistência e nem a habitual velocidade, que podia alcançar em campo aberto pouco mais de 50 km/h e sustentar tal velocidade máxima por vários minutos. Ainda assim, corria mais rápido do que uma pessoa comum, e naquele cenário caótico. Correu até a barreira de policiais e furou o bloqueio de pessoas curiosas até chegar nos oficiais. Facilitou um pouco o fato de algumas pessoas terem a reconhecido e aberto caminho.
"Onde pensa que vai?" Um policial a empurrou.
"Posso ajuda-los."
"Você mal consegue respirar!" O policial se assustou em ver a vigilante tão ofegante.
"São dois!" O policial insistiu. "Você nem consegue ficar de pé!"
"Você só tem a mim... meus amigos só tem a mim. É pegar ou largar!"
O policial saiu da frente de Santana. Ela ficou assustada com o cenário que estava além da barreira: a praça outrora boêmia, estava completamente revirada. Os dois Hydes estavam cercando Ice, havia dois vigilantes deitados inertes no chão, além de uma dezena de policiais tentando apoiar a vigilante. Santana não podia pensar muito a respeito. Tinha de salvar Quinn. Ela correu com toda velocidade que podia e chegou de costas em um dos Hydes, o empurrando com toda força. Quinn aproveitou a oportunidade para fugir do ataque daquele que estava à frete.
Santana contava que Quinn pudesse brincar de pega-pega com o Hyde que estava atrás dela, enquanto cuidava daquele que tinha acabado de derrubar. Isso poderia levar tempo. Santana sabia que a pele desses homens alterados ficava impenetrável. Mas eles sentiam a pancada. Ela pegou uma das mesas de madeira e tentou acertá-lo com toda força. O Hyde se defendeu e urrou. Os outros Hydes pareciam ter um pouco de consciência, mas esses dois eram diferentes. Eram pura fúria e nada de racionalidade. Santana sentiu a pancada do contra ataque, e voou alguns metros antes de cair por cima de mesas reviradas. O impacto doeu muito. Ela achou que não seria possível levantar. Tentou um último respiro. Jogou um pedaço de granito quebrado contra o Hyde. Por sorte, atingiu o olho do monstro. Ele deu alguns passos para trás, sentindo a dor. Então soltou um grito tão intenso, que deve ter ecoado pela cidade. Ela aproveitou o momento e lançou o outro pedaço de gratino como se fosse um bumerangue, que acertou o outro olho.
Santana olhou ao redor, procurando alguma coisa pesada que pudesse finalizar o Hyde. Mas, de repente, sofreu outro impacto. Não conseguiu desviar do segundo Hyde, que a arremessou longe. Quinn aproveitou a oportunidade e congelou a cabeça do Hyde que estava sem conseguir enxergar. Pelo menos esse estaria fora de combate por um tempo. Quinn estava exausta, dolorida, o exoesqueleto já tinha se quebrado, o colete à prova de balas estava solto no corpo, a máscara ainda estava no rosto por um milagre.
"Levanta!" Quinn gritou para Santana quando viu o Hyde restante correr até a líder.
Mas Santana caiu de mal jeito e fraturou o braço. Com o acúmulo de toda fadiga, ela mal tinha forças para se levantar. O Hyde pegou Santana pelo pescoço e o quebraria, se Quinn não tivesse tocado o pulso do Hyde com as mãos congelantes. O Hyde empurrou Ice, mas a distração foi suficiente para Santana conseguir correr alguns passos e ganhar tempo. Mas Santana tropeçou nos próprios pés e caiu. Não conseguiu mais se levantar. Quinn também estava caída. Não teria como ajudar dessa vez.
Foi quando o milagre aconteceu.
O Hyde foi impedido de prosseguir por uma força invisível. Depois, alguém que corria muito rápido, mais do que Santana conseguia, quebrou um taco na cabeça do monstro. Foi o tempo de chegar um terceiro, que faiscava eletricidade pelas mãos, eletrocutar o Hyde, que caiu diante de Santana. Enquanto os três salvadores viraram as costas e foram "saudar" o público, Quinn foi até a amiga.
"Desculpa, me desculpa!" Quinn disse aos prantos.
"Saia daqui, Ice." Santana disse com a voz fraca. "Chame o voador."
"San..."
"Vocês estão bem?" Uma voz masculina as interrompeu. Uma conhecida. Quinn olhou e viu ninguém menos que Matt, usando um uniforme preto, pomposo, com uma insígnia policial no peito.
