Capítulo 13: Surpresas


Hermione tomou mais um pouco de café. Ela estudava dia e noite há semanas. Sua parte racional sabia que a melhor maneira de fazer os exames era bem descansada, mas outra parte sabia que precisava de tanto tempo para colocar as informações em sua cabeça quanto possível. As poções N.I.E.M. precisavam estar não apenas boas, mas perfeitas. Nada menos que isso. Esfregou as têmporas doloridas. Onde estavam suas anotações sobre antídotos?

Ela estava aprofundando em suas anotações quando ouviu uma batida à porta. Olhou para o relógio em cima do fogão. Essa hora?

Ela se levantou e foi até a porta, não exatamente surpresa ao ver Malfoy ali. Afinal, quem mais a visitaria? Ainda assim, era um pouco tarde e - com todos os seus estudos - ela não o via há dias.

- Malfoy. Pensei que você estivesse trabalhando.

- Acabei de sair.

- Eu pensei que seu turno geralmente terminasse mais tarde - ela disse.

Ele se mexeu no batente da porta, fazendo o possível para não parecer constrangido.

- As quintas-feiras não são muito cheias - disse ele, evasivo. - Além do mais, se eu não aparecesse, você ficaria acordada a noite toda cheia de coisas e estaria um lixo para o seu exame amanhã.

Ela levantou uma sobrancelha, com mão no quadril, olhando para ele.

Draco aproveitou a oportunidade para entrar no apartamento. Quando ele passou pela mesa onde os estudos dela estavam espalhados, ele torceu o nariz.

- Café a essa hora? Granger, isso é inconveniente.

Hermione bufou, entrando na cozinha.

- Bem, o chá não me deixava acordada, e com a quantidade de assuntos que tenho estudado, o vinho está definitivamente fora de questão. Mas você pode beber um pouco, se quiser.

- Vinho, por favor - disse ele. - Você deveria beber também.

Ela revirou os olhos. No entanto, pegou duas taças. Poderia deixá-la relaxada. Perdeu a conta de quantas xícaras de café havia tomado aquela noite.

- E por que isso?

- Porque, caso contrário, entre os nervos do seu N.I.E.M. e todo o lixo que bebeu hoje à noite, você estará um caco amanhã. Precisa relaxar e dormir. - Havia um ar de presunção nele.

Ela pegou duas taças e estava preparada para se acomodar à mesa com suas anotações, mas encontrou Draco no sofá.

Ela passou uma taça para ele e se sentou na poltrona ao lado. - Bem, fale-me sobre algo além de poções.

Ele encolheu os ombros. O que havia para contar?

- O gerente da semana ainda é um idiota. Os clientes ainda são imbecis. As aulas de informática que eu fiz foram... interessantes. Eu não teria imaginado que... trouxas poderiam fazer algo assim.

- É incrível o que as pessoas podem desenvolver sem magia, não é? - Ela sorriu um pouco e tomou um gole de vinho. Sem magia e com seu passado de experiência, Malfoy certamente estava se transformando em algo que poderia um dia se parecer com um ser humano.

Eles se demoraram em seus copos de vinho, alcançando os detalhes de suas vidas que haviam perdido nas últimas semanas, enquanto Hermione se envolvia mais e mais em seus estudos. Ela fez algumas perguntas a ele sobre as poções do N.I.E.M., e ele perguntou sobre o que mais trouxas haviam criado que ele ainda não havia encontrado.

Com a descrição de um barbeador elétrico, Draco riu e passou um dedo em sua mandíbula. Ele havia se cortado mais de uma vez em suas primeiras tentativas de usar uma navalha trouxa de plástico no lugar de seu feitiço habitual de barbear.

Por fim, as duas taças estavam vazias. Hermione sentiu que poderia conseguir dormir um pouco antes de sair para Hogwarts. Draco sentiu que sua missão havia sido cumprida. Agora, se Granger não descansasse um pouco antes do exame, não era culpa dele. Ele não tinha certeza do motivo pelo qual ele tentou ficar de olho nela. Mas com Weasley morto, Potter desaparecido e seus pais que se foram, quem mais estava lá por ela? Além disso, não era como se ele tivesse exatamente um lotado calendário social nos dias de hoje.

Ele disse boa noite e desejou-lhe boa sorte enquanto voltava para seu apartamento. Estava quase pronto para dormir. Seus outros planos poderiam esperar até amanhã. Ele não estava exatamente certo sobre eles, mas sentiu que deveria fazer... alguma coisa.


Hermione usava vestes pretas lisas e checou duas vezes se estava com sua varinha. Ela fez para si mesma um café da manhã leve, mas voltado para proteínas, e uma única xícara de café. Estava tão pronta quanto iria estar.

Aproximou-se da lareira e mais uma vez entrou no escritório de McGonagall.

- Bom dia, Profes... Minerva - disse Hermione, repreendendo-se.

- Bom dia, Hermione - respondeu McGonagall. - Você está pronta?

- Como sempre estarei.

- Bom. Organizamos uma sala de aula não utilizada no terceiro andar para servir como área de testes.

Para alívio de Hermione, os corredores estavam vazios, já que todos os alunos estavam nas aulas. McGonagall a guiou para a sala de aula que havia sido reservada para o teste. Hermione viu-se diante de um homem velho, vestido com vestes oficiais do Ministério. As mesas foram dispostas com papéis, penas, caldeirões e ingredientes. O funcionário verificou sua varinha e a devolveu.

Hermione foi então submetida a uma dura prova escrita que durou duas horas e causou cãibras na mão antes que terminasse. Ela teve um intervalo de alguns minutos - o ministério havia providenciado um lanche - e continuou com a parte prática do teste. O representante do Ministério tinha uma voz totalmente rouca, mas ela ficou aliviada quando o ouviu pedir para que selecionasse todos os ingredientes para uma poção Polissuco. Ela os colocou sobre a mesa e observou-o marcar algo em seu pergaminho.

- Agora, usando apenas os ingredientes que escolheu, eu quero que você prepare a forma alternativa do Elixir da Felicidade de Chesswing.

Hermione mordeu o lábio por um momento e começou a pegar os ingredientes. A versão padrão do Elixir pedia um bezoar moído, mas a forma alternativa poderia ser fabricada na metade do tempo, desde que você encontrasse moscas de outono suficientes. Ela estava suando quando terminou, mas foi imediatamente ordenada a começar outra poção. Quando terminou, os lábios do mago se moveram no mais simples dos sorrisos.

- Muito bem, Srta. Granger. Seus resultados serão entregues a você no devido tempo.

- Obrigada, senhor. E obrigada por fazer uma viagem extra aqui para me avaliar.

- Não há o que agradecer, Srta. Granger. Você nos prestou um ótimo serviço.

Hermione sorriu um pouco sem jeito. Ainda era estranho pensar na guerra, no papel que haviam assumido. Presenciar bruxos e bruxas que tinham três vezes a sua idade agradecendo pelo que eles fizeram. Realmente, o que mais eles poderiam ter feito? Eles precisaram lutar. Não havia outra escolha. Os três receberam prêmios do Ministério - placas com seus nomes, subsídios. Toda a atenção havia sido estranha e os três haviam se retirado da melhor maneira possível, embora Hermione suspeitasse que Rony tenha se divertido um pouco mais do que ela e Harry.

De qualquer forma, estava tudo no passado agora. Rony se foi e nunca mais voltaria. E Harry estava escondido. Não havia outra maneira de dizer aquilo, honestamente. Hermione poderia pensar em desculpas caso alguém dissesse o mesmo- justificando o fato de que agora ele merecia tempo para processar tudo e apenas ser ele mesmo - mas a verdade era que ele estava se escondendo.

Os corredores estavam muito mais ocupados quando ela saiu da sala do que quando entrou. Havia estudantes indo para as aulas pós almoço. Tudo parecia tão... normal. Hogwarts, cheia de estudantes. Parecia viva.

Ela observou as pinturas na parede, sussurrando umas para as outras. Uma menina pequena em uma delas estava acenando timidamente para um garoto em uma pintura do outro lado do corredor. Ela subiu lance após lance de escadas e finalmente encontrou o caminho de volta ao escritório de McGonagall. Ela hesitou ao pé da escada. Era hora do almoço - ela poderia tentar pegar Gina antes da próxima aula, ver como ela estava. Não, hoje não. Talvez ela escrevesse e descobrisse quando seria o próximo final de semana em Hogsmeade, e então viesse ver Gina. Provavelmente haveria um final de semana em Hogsmeade no Dia das Bruxas. Ela voltaria no próximo mês.

Subindo as escadas, Hermione sentiu uma pontada de arrependimento ao pensar em deixar Hogwarts. Mas ela voltaria.

McGonagall estava em seu escritório quando Hermione alcançou o topo da escada.

- Eu acredito que tudo correu bem?

- Sim, Profes... Minerva. Tudo correu bem. Obrigada novamente por me permitir fazer esses arranjos.

- De nada. De acordo com seus desejos, não contei a mais ninguém que você está aqui. Imagino, contudo, que o Sr. Longbottom, a Srta. Weasley e vários outros gostariam de vê-la hoje. Talvez você esteja disposta a ficar para almoçar? Eu poderia convidar qualquer pessoa que você pudesse gostar de ver.

Hermione balançou a cabeça.

- Obrigada, mas não. Estou pronta para ir para casa. O N.I.E.M. foi bastante árduo. Mas da próxima vez. Da próxima vez irei. - Ela poderia jurar que sua antiga professora parecia desapontada.

- Bem, eu vejo que você está decidida. No entanto, permita-me te desejar um feliz aniversário. - Debaixo de sua mesa, ela pegou um envelope e um pacote cuidadosamente embrulhado.

Depois de agradecer, Hermione se despediu e, segurando o pacote no peito, desapareceu na lareira.

Ela reapareceu em casa e colocou o pacote e o envelope de McGonagall sobre a mesa. Tirou os sapatos e sentou-se na poltrona, inclinando a cabeça para trás e apoiando-a no encosto da cadeira. Bem, um obstáculo a menos. O próximo passo seria chamar adequadamente a atenção de Belby. Ela provavelmente precisaria dedicar um pouco mais de tempo ao Boticário também. Mas, por enquanto, ela contentava-se em sentar. Talvez ela lesse um romance favorito antigo, algo relaxante. Qualquer coisa que não fosse poção hoje. O teste tinha sido rigoroso, mas ela estava pronta. Sentiu-se confiante com as suas respostas. Mas agora que tudo acabara, ela se sentia completamente esgotada.

Por um tempo, Hermione apenas ficou sentada na cadeira com os olhos fechados. Ela pode até mesmo ter cochilado um pouco. Depois de um tempo, decidiu que valia a pena levantar-se e procurar algo na cozinha. Ela deveria ter algo na geladeira além da raiz de asfódelo e absinto. Caso negativo, talvez ela pedisse.

Quando se levantou, avistou algo que havia sido empurrado para baixo da porta. Franzindo a testa, ela foi até a porta e pegou. Havia uma folha de papel e ela reconheceu a caligrafia.

Preciso que você venha às 4.

DM.

Hermione leu a mensagem novamente, imaginando o que Malfoy poderia precisar. Ele estava indo muito bem na vida cotidiana trouxa. Podia lidar com o básico - comprar e cozinhar alimentos, comprar e lavar suas roupas, começar a trabalhar. Ele estava se adaptando bastante bem. Quatro era perto demais da hora em que ele precisava estar no trabalho. Talvez estivesse esperando que Hermione o aparatasse no restaurante; ele já deveria saber que ela não o faria.

Olhou para a porta, como se pudesse ver através dela e do outro lado do corredor. Uma batida na janela fez com que se virasse. Ela reconheceu a coruja que estava lá. Fez uma careta. Realmente precisava de um feitiço que tornasse sua janela permeável apenas às corujas. Teria que ser altamente especializado, mas ela tinha certeza de que isso poderia ser feito. Outra coisa para sua lista.

Atravessando a sala, abriu a janela e Pig entrou, com uma carta amarrada ao tornozelo. Desamarrou-a e a colocou sobre a mesa junto com o envelope de McGonagall, carregando a coruja diminuta até o poleiro e tigela de água de Athena. Ela pegou algumas guloseimas de coruja e ele comeu uma, e depois outra. Para uma coruja pequena, ele tinha bastante apetite.

Ela atravessou a cozinha, deixando-o descansar.

Hermione revistou seus armários e sua geladeira, colocando uma panela de água ferver para o chá e lentamente montando um sanduíche para si mesma, colocando-o em um prato.

Ela sentou-se à mesa e comeu, olhando para os dois envelopes e o pacote da McGonagall. Ela realmente não esperava receber nada em seu aniversário daquele ano, ou qualquer tipo de reconhecimento de que aquele era um dia diferente de qualquer outro. Pensou em sair para jantar naquela noite. Ela ainda poderia sair. Talvez guardasse seus cartões de aniversário para então.

Levou o prato vazio para a pia e retirou as migalhas, lavando-o e colocando-o no escorredor. Sentou-se na poltrona com outra xícara de chá e uma cópia bastante velha de seu livro favorito.

Hermione permitiu se perder no livro por várias horas, voltando a si mesma somente quando Athena voou e pousou em seu ombro, não se dignando a compartilhar o poleiro com Pig, que ainda estava se recuperando de seu voo. Para sua surpresa, Athena voltou com uma carta e um pequeno pacote. Ela pensou que a coruja estivesse caçando nos últimos dias. Reconheceu a caligrafia na frente da carta e mordeu o lábio. Era de Molly.

Ela se perguntou como a Sra. Weasley estava lidando com tudo. Ela realmente deveria escrever a ela, perguntar se poderia fazer alguma coisa, mas sabia a resposta. Finalmente tinha chegado a um acordo com algo que tinha sido difícil para ela aceitar na escola - havia algumas coisas que ela não conseguiria consertar.

Olhando para o relógio, viu que eram quatro e cinco. Ela havia perdido a noção do tempo. Levou Athena para seu poleiro e a coruja relutantemente aceitou dividir o espaço com Pig, que estava cochilando. Ela entrou no quarto e pendurou as vestes, vestindo um par de jeans e uma camiseta. Era hora de ir ver o que Malfoy queria.

Ela bateu à porta dele, que se abriu imediatamente.

- Eu estava começando a pensar que você tinha algo melhor para fazer - disse ele, erguendo uma sobrancelha.

- Dificilmente. Só perdi a noção do tempo. O que foi?

- Entre.

Ela o seguiu para dentro e avistou algo quando ele fechou a porta. O jantar estava na mesa. Uma pequena placa pendia do outro lado da parede. Dizia: FELIZ ANIVERSÁRIO. Ele conseguiu deixá-la sem palavras. Ele sentiu uma certa satisfação presunçosa por tê-la surpreendido de uma maneira boa.

A mesa estava posta com um pouco de frango e macarrão com molho de limão. Uma garrafa de vinho estava sobre a mesa, além de duas canecas - Draco ainda não havia comprado taças.

Ele foi em frente e puxou uma cadeira para ela.

- Feliz aniversário, Granger.

Parada aturdida diante da porta, Hermione voltou a si mesma e sentou-se na cadeira quando ele a ofereceu.

- Você não precisava fazer isso.

- E deixar você sozinha em casa com um livro hoje à noite? - ele zombou.

Um sorriso irônico cruzou o rosto dela.

- Isso é exatamente o que você ia fazer, não é? - ele acusou.

Ela cedeu e riu, olhando-o enquanto ele abria o vinho.

- Isso é o que eu já estava fazendo, na verdade. Embora eu tenha pensado em sair para comer.

Ele inclinou a garrafa e serviu uma caneca para cada um. Ele realmente teria que comprar algumas taças de vinho. O vinho em si pareceu mais prioritário do que as taças no mês passado, principalmente porque a carteira dele estava ficando cada vez mais leve.

- Bem, espero que isso seja suficiente.

Ela se viu sorrindo, seu rosto uma cópia da expressão no rosto dele.

- Qualquer companhia é bem-vinda hoje à noite, até a sua.

Ele levantou a caneca e ofereceu-lhe um brinde.

- Posso ser uma companhia um pouco melhor do que um livro.

- Algumas vezes, pelo menos - ela admitiu. - Obrigada. Você não tinha que fazer isso.

Ele encolheu os ombros.

- Coma. Já está ficando frio, pois você se atrasou.

Hermione começou a comer.

- Quanto tempo falta para você pegar o metrô?

- Eu não vou hoje - disse. Ele tinha colocado o telefone em uso e ligado para o restaurante dizendo que estava doente e não iria. Tony não ficou feliz, mas Draco se esforçara para soar miserável ao telefone. Ele percebeu que o olhar que ela estava lhe dando significava que queria mais informações. Ele simplesmente sorriu e fez um gesto para ela comer.

E assim eles comeram, beberam e conversaram.

Quando os pratos finalmente estavam vazios, Hermione começou a se levantar e os levou para a cozinha.

- Sente-se, há algo mais. - Ele pegou os pratos e entrou na cozinha. Ele tendo que lidar com pratos para 2 em vez de pratos para 50 tinha sido um alívio bem-vindo naquela noite. Ele colocou-os na pia e trouxe o pequeno bolo que tinha visto na loja. Olhou para o pacote em seu balcão. Não estava particularmente bem embrulhado. Aquela fita adesiva era muito mais difícil de trabalhar do que a fita adesiva mágica e o papel continuava tentando ir para o lugar errado. Quando ela chegou atrasada, ele meio que esperava que Potter pudesse tê-la procurado com algum tipo de plano, mas evidentemente não. A vida de Granger no pós-guerra era completamente solitária. Draco sabia que a solidão dele era apenas temporária. Tudo voltaria ao normal em pouco mais de 10 meses.

Ele pegou o bolo com uma mão, enfiou o pacote debaixo do braço e pegou pratos, garfos e uma faca com a outra mão. Levantou o cotovelo e deixou cair o pacote sem cerimônia no colo de Granger, espalhando as outras coisas sobre a mesa.

Ela olhou para ele quando ele se sentou em sua cadeira.

- O que é isso?

- Eu pensei que seria óbvio, Granger. É um presente de aniversário. As pessoas te entregam um desses no dia de seu nascimento, para comemorar mais um ano de respiração.

Hermione balançou a cabeça, abrindo cuidadosamente o envelope em cima da embalagem. Era um cartão trouxa, com dois animais na frente e uma piada esfarrapada por dentro. Ela riu, colocando-o em cima da mesa.

De forma curiosa, ela começou a abrir o pacote, sem saber o que esperar.

- Não é nada demais. Eu apenas pensei que talvez fosse útil nos próximos meses, com a sua aprendizagem - disse ele, subitamente se sentindo um pouco nervoso por não saber se ela gostaria ou não. - Eu não poderia obter ingredientes de poções para você, ou um caldeirão novo ou algo assim.

Hermione terminou de abrir e encontrou uma pequena caixa com uma imagem na frente.

- Processador manual.

- Para picar as moscas de outono, e esse tipo de coisa.

- É perfeito. Obrigada - ela disse, sinceramente.

Ele ficou satisfeito por ela parecer gostar de verdade e achar útil. Ele não tinha muita experiência em comprar presentes para outras pessoas.

- Como foram as coisas hoje?

- Muito bem. Não sei quanto tempo levará para que meus resultados cheguem... foi exaustivo, mas eu consegui. E acho que fui bem. Você pensa em voltar e conseguir algum de seus N.I.E.M.s?

Draco cortou uma fatia de bolo para cada um deles e colocou-o nos respectivos pratos.

- Duvido. Mesmo que eu quisesse, teria que esperar um ano antes de poder começar a estudar o material.

- O que você acha que fará quando voltar ao mundo bruxo?

Draco deu de ombros, sentando-se na cadeira.

- Eu não tinha pensado muito nisso. Meus pais não trabalhavam das nove às cinco no Ministério. Meu pai sempre esteve envolvido em... toda a política. Eu posso viver com o dinheiro da família Malfoy.

- Mas você não quer fazer algo da sua vida? - ela persistiu.

Ele bufou e comeu um pouco de bolo.

- Como o quê? Nenhum dos principais departamentos do Ministério me aceitaria nos dias de hoje. Eu não quero lidar com o treinamento necessário para ser um curandeiro. Não há nenhum negócio que eu queira criar. - Ele encolheu os ombros. No momento, ele estava mais preocupado em passar pelo próximo ano. Todo o resto poderia esperar. Teria que esperar - não é como se ele tivesse permissão para enviar corujas para alguém.

- Bem, você tem muitos dias pela frente. Vale a pena pensar no que você pode querer fazer com eles. Eu não imagino que você queira carregar pratos de comida para sempre.

Ele estremeceu com esse pensamento.

Os dois ficaram em silêncio e comeram bolo durante um tempo. Hermione até se entregou a um segundo pedaço. Eles derramaram o resto da garrafa em suas canecas e foram para o sofá.

- Você já decidiu o que dirá a Belby? Não pode deixá-lo esquecer-se de você, se quiser levar isso a sério.

- Quão comovente sua preocupação.

- Granger, eu sou a única pessoa com quem você ainda fala. Se eu não lhe disser para manter sua vida em movimento, ninguém o fará.

Ela apertou os lábios, mas era difícil argumentar com isso. A convivência deles? Aliança? O que quer que fosse, nessas circunstâncias, significava que - apesar da improbabilidade de tudo - eles haviam dito verdades difíceis um ao outro algumas vezes.

- Ah, outras pessoas podem tentar me dizer - argumentou.

- Se você estivesse disposta a ficar na mesma sala que eles o tempo suficiente para ouvir qualquer coisa.

- Verdade. - Entre o jantar, o vinho e sua exaustão geral, ela estava sentindo-se bastante bem. - E é por isso que eu posso sentar aqui e lhe dizer que é melhor você começar a pensar sobre o que você quer fazer quando sua sentença terminar. - Ela deu-lhe um olhar nivelado. - Você tem que fazer algo com sua vida.

- Touché.

Eles ficaram sentados em um silêncio sociável em lados opostos do sofá por um tempo.

- Foi estranho voltar?

Ela se virou e olhou para ele.

- Para Hogwarts? - Ele assentiu. - Sim e não. Eu realmente não conversei com ninguém. Foi bom vê-la cheia de estudantes novamente. Mas... é estranho ver os danos... os reparos. Eu já te contei que Neville está ensinando lá?

- Longbottom?

- Ele vai ser diretor da Grifinória. E está ajudando a professora Sprout nas aulas dela.

- Pobres estudantes.

- Ele é realmente muito capaz.

Ele olhou contemplativamente para sua caneca de vinho.

- Suponho que ninguém permaneça da mesma forma para sempre.

Hermione olhou o relógio e ficou surpresa com quanto tempo tinha se passado.

- Suponho que devo voltar, descansar um pouco. E amanhã, tentar entrar em contato com Belby novamente.

Ele assentiu com aprovação.

Hermione levantou-se e foi até a mesa para pegar seu presente e cartão. Ela voltou ao sofá e abraçou Draco com um braço. Ele não a abraçou de volta, mas também não resistiu - o que era tão bom quanto você poderia esperar de alguém que não era do tipo que abraçava.

- Obrigada, Draco, você não precisava fazer isso.

- Não mencione isso. - Ele a sentiu se afastar e a viu sair. Sim, essa tinha sido uma ideia melhor do que ir para o trabalho naquela noite. Olhou para o bolo em cima da mesa e decidiu que, assim que conseguisse se convencer a levantar, pegaria outra fatia. E então, talvez, uma corrida extra-longa pela manhã.

Hermione voltou para o apartamento e colocou o cartão de Draco na prateleira sobre a lareira. Ela tirou o processador da caixa e encontrou um lugar para ele junto a seus utensílios de poções. Depois de fazer uma xícara de chá, ela sentou-se à mesa da cozinha e começou a abrir seus cartões de aniversário.

Gina havia lhe enviado um cartão com a foto de uma rosa que brotava e florescia. Surpreendentemente, Gina estava tentando lhe dizer que esperava vê-la em breve.

O cartão de McGonagall lhe desejava um feliz aniversário e a convidava a voltar a Hogwarts a qualquer momento. O pacote continha um livro de transfiguração no nível N.I.E.M., bem como um livro de feitiços no nível N.I.E.M.

Molly havia enviado um pacote de tortas de carne e algumas de suas bolachas. Seu cartão desejava a Hermione um feliz aniversário e lembrava que ela sempre seria da família e teria um lugar à mesa.

Hermione colocou os outros cartões na prateleira junto com o cartão de Draco e começou a organizar as coisas. Jogou fora o papel de embrulho, colocou os livros na estante e as tortas e doces na geladeira. Ela andou pelo apartamento por mais alguns minutos, lavando a xícara de chá e a colher. Trancou a porta e foi para a cama.


Hermione observou Athena sair com sua última carta para Belby. Ela ainda não havia recebido sua pontuação no N.I.E.M., mas se Belby não respondesse logo, teria que pensar em uma maneira mais criativa de chamar sua atenção. Ela tinha muito que aprender e queria aprender agora.

Suspirou e amarrou os tênis. Ela havia concordado em ir ao parque com Malfoy e talvez ver um pouco da luz do dia. Ela já havia dito a ele que andaria, mas certamente não iria correr. Ele podia correr durante o tempo que quisesse, mas ela encontraria um lugar à sombra para sentar e ler.


Uma semana depois do aniversário dela, Hermione recebeu outra coruja. Não havia nome no envelope. Ela abriu e desdobrou um pequeno pedaço de pergaminho.

Hermione,

Feliz Aniversário. Me desculpe pelo atraso. Eu meio que perdi a noção dos dias, e acabei de ver um jornal que dizia que já era quase outubro. Os dias estão meio confusos. Sinto sua falta, mas ainda não estou pronto para voltar.

Harry

Hermione releu a carta meia dúzia de vezes antes de colocá-la na prateleira junto a seus outros cartões de aniversário. Ele estava vivo. Já era alguma coisa.