Capítulo 15: Pontos
Draco decidiu não anexar uma carta à sua mãe para Hermione enviar. Era o suficiente saber que ela se encontrava bem e que sabia que ele estava sobrevivendo aos tempos difíceis. Não havia sentido arriscar a ira do Ministério naquele momento – poderia prolongar sua sentença sem magia, estender o exílio de sua mãe e possivelmente colocar Hermione em problemas por agir como mensageira. Então, novamente, lembrou-se que tratava-se de Hermione Granger – o Ministério provavelmente daria um tapinha nas costas dela e a perdoaria de qualquer transgressão tendo em vista suas nobres intenções.
Ainda assim, o fato de Hermione ter conhecimento de que sua mãe estava completamente bem aliviou um pouco sua mente. Ela o procurara na tarde anterior, mas ele já havia saído para o trabalho.
- Então, qual é o seu plano brilhante para conseguir a atenção de Belby que você não podia esperar para me contar? – ele perguntou, levantando seu copo e uma sobrancelha.
Ela deu uma olhada no assado no forno e fechou a porta novamente. Levaria mais dez minutos.
- Bem, mesmo tendo sido bem intencionado o seu conselho sobre envenená-lo, eu realmente não acho que esse é o melhor caminho que eu poderia tomar. – Ela levantou um dedo quando ele começou a protestar – Eu não estou dizendo que não funcionaria, apenas que as potenciais repercussões negativas superam a probabilidade de sucesso.
- E então seu plano é...? – ele falou lentamente.
- E então meu plano é brilhante – ela sorriu.
- Apenas me conte – ele disse, seguindo-a com os olhos conforme ela se movia da cozinha para a mesa e voltava, trazendo os talheres e pratos. Ela podia ser irritantemente presunçosa às vezes.
- Você sabe que as coisas que Fred e Jorge inventaram são absolutamente brilhantes, certo? O Encanto do Devaneio Patenteado deles é uma parte incrível da magia. E também há os vários itens de segurança, bem como os logros habituais.
Ele inclinou a cabeça.
- Eu nunca estive na loja deles, mas eu posso ter ouvido falar de algo nesse sentido.
- Mesmo não parecendo que levavam a sério o currículo escolar ou os exames, eles têm mentes extremamente inteligentes e um bom talento para negócios. – Ela pausou, percebendo que ainda pensava neles como um só. E eles ainda eram, de certa forma. Mas eram também dois indivíduos e um deles tinha ido-se para sempre. Ela se apressou no resto de sua explicação para cobrir a pontada que sentia. Fred se foi. Assim como Rony. – De qualquer forma, as Gemialidades Weasley estão crescendo há alguns anos e produziram uma série de notáveis frações de nova magia. Não apenas adaptações de velhos feitiços, mas alguns novos trabalhos realmente impressionantes. Todo mundo pode aprender feitiços e poções existentes de maneira automática. Isso não é exatamente impressionante. Mas desenvolver-se em novas direções é algo bem diferente. Você não vê? A melhor maneira de chamar a atenção de Belby é desenvolvendo uma nova poção para a loja e mostrar a ele que eu compreendo as propriedades bem o suficiente para desenvolver coisas novas e não apenas repetir informações existentes. É disso que nós precisamos agora – forçar os limites do que podemos fazer.
Ela olhou para ele e ficou surpresa ao encontrá-lo sentado lá de forma sombria, sem olhar para ela com a mesma excitação que ela estava sentindo. Soltou um exasperado:
- Bem?
- A mãe de Luna Lovegood se matou fazendo esse tipo de experimento, sabe. - Hermione simplesmente olhou para ele, que sentiu como se o olhar o atravessasse, arrastando-se com as palavras. – Ela me contou uma vez. Sua mãe amava realizar experimentos e um dia... as coisas simplesmente saíram do controle.
Ela levantou uma sobrancelha para esconder sua surpresa com a preocupação dele. Ela nem teria pensado que ele saberia algo assim sobre Luna.
- Você passou meses consertando um armário sumidouro quebrado, sem saber o que poderia acontecer caso o feitiço não funcionasse corretamente, mas está me alertando para ter cuidado?
Ele encolheu os ombros.
- Eu tenho talento para consertar feitiços mal feitos.
- Eu preparei a Poção Polissuco no segundo ano. E funcionou. Eu diria que tenho um certo talento para poções. - Afinal, transformar-se acidentalmente em um gato não foi um erro em sua preparação, apenas um erro em escolher o cabelo errado das vestes daquela garota. Tinha sido totalmente diferente. Ainda assim, ela se virou e escondeu o rosto tirando o assado do forno até ter certeza de que não estava corada por causa daquele desastre em particular.
Ele balançou sua cabeça.
- Eu não estou dizendo que você não é competente. Apenas... tenha cuidado. - ele terminou, soando patético para seus próprios ouvidos. Teve que adicionar algo... algo Draco - Afinal, os grifinórios tendem a ser impetuosos e se precipitam nas coisas.
Ela revirou os olhos, colocando a carne e as batatas assadas na mesa e sentando-se. - E os sonserinos são tão cuidadosos assim?
Ele sorriu.
- Quando conta. A autopreservação é um instinto para nós. Nenhum de vocês parece possui-la. - Ele a notou abaixar o rosto e um olhar de horror cruzou sua própria face. - Droga. Isso... não foi isso que eu quis dizer.
Hermione respirou fundo. Quantas vezes ela repreendeu Rony e Harry por fazer exatamente isso? Correndo sem medo algum em direção a algo perigoso. E quantas vezes ela esteve do lado deles fazendo o mesmo? Rony se foi. Fred se foi. Colin. Dumbledore. Remo. Sirius. Lillian e James Potter. Frank e Alice Longbottom, corpos permanecendo onde a mente já havia desistido. Ela nem percebeu que estava chorando até Draco colocar um braço em volta dela. Se ela tivesse energia para qualquer coisa além de lágrimas, ela poderia ter rido - ele parecia tão estranho. Não acostumado a confortar outra pessoa. Colocou o braço sobre os ombros dela, mas ficou lá rigidamente. Ela tentou encontrar palavras.
- Nós não pulamos de um penhasco para tentar ver como é voar sem uma vassoura. Nós pulamos de um penhasco esperando salvar a pessoa presa na borda abaixo. - Ela não tinha certeza de que sua analogia fazia algum sentido (ou se suas palavras eram compreensíveis por meio das lágrimas). Mas foi o melhor que ela conseguiu no momento. Ela se viu xingando de maneira pouco característica. - Droga. Eu consigo passar dias sem chorar e então... - Ela fungou.
Ele levantou a mão para dar um tapinha no ombro dela sem jeito, seu braço já ficando rígido e dolorido quando ele se inclinou para colocá-lo sobre os ombros dela. O que você deveria fazer quando as garotas choravam? Ele não tinha a intenção de ser cruel naquele caso. Era a verdade, mas não era o que ele queria dizer. Salazar. Ele não a via assim há um tempo. Ela poderia passar os próximos três dias de roupão. Estava vagamente consciente de que ela fizera algum tipo de explicação que ele não havia entendido. Isso não importava. Há muito ele aprendeu a blefar na maioria das situações. Levantou-se e se aproximou da cadeira dela para abraçá-la adequadamente. Não era algo que estava particularmente acostumado a fazer. Ela se deixou enterrar o rosto no peito dele e continuou chorando por mais alguns minutos.
- Obrigada - disse ela, secando os olhos e olhando para a mesa.
Ele deu de ombros sem jeito, ciente de sua camisa agora úmida. Ah, bem. Estava prestes a ir a lavanderia novamente, de qualquer maneira. Ele podia ver que os olhos dela estavam inchados e vermelhos de tanto chorar. Na verdade, todo o seu rosto estava. Olhou para o vinho na mesa e decidiu que talvez não fosse uma boa noite para vinho.
- Chá?
Ela assentiu e permaneceu em seu assento enquanto ele levantava e preparava uma xícara de chá. Ele trouxe para ela e voltou a se sentar. O jantar estava um pouco frio nesse momento, mas eles comeram de qualquer maneira e procuraram um novo tópico de conversa.
- Você já teve mais aulas de informática na biblioteca?
Draco balançou a cabeça.
- A garota que ensina parece legal, mas na verdade só ensina a turma iniciante, nada mais avançado. E não tenho muita certeza do que mais você pode fazer com uma dessas máquinas.
- Oh. - Ela parou por um momento e tomou um gole de chá. - Bem, você pode fazer todo tipo de coisa. Organizar contas e planilhas e enviar mensagens para pessoas em lugares diferentes em pouco tempo. É muito mais rápido do que usar corujas.
- Mais rápido que um telefone?
- Tão rápido quanto falar no telefone, mas você pode enviar palavras e imagens, porém tenho quase certeza de que as imagens demoram um pouco mais. Receio não ter muita experiência prática com um computador, apenas uma visão geral. - Ela riu. - Eu nunca nem mesmo tirei minha carteira de motorista. Suponho que não vi a necessidade de fazer isso antes. Provavelmente nunca precisarei de uma.
Eles discutiram por um tempo sobre o processo para obter uma licença para dirigir. No centro, você podia se virar sem carro - havia os ônibus, o metrô e os trens. Com o estacionamento, os carros eram realmente um inconveniente mais do que qualquer outra coisa. Mas nos subúrbios, onde as coisas eram mais longes... bem, um carro seria útil.
O resto da noite passou pacificamente. Draco permaneceu por um tempo, mas Hermione parecia não mostrar sinais de cair em lágrimas novamente. Ele pensou em não dizer nada, mas quando finalmente estava a caminho da porta, as palavras saíram de sua boca.
- Eu sei que é da sua conta se você quer ou não arriscar o pescoço na loja do Weasley, mas... tenha cuidado. Eu me acostumei a ter você por perto.
As palavras soaram mais rudes a seus ouvidos do que esperava. Ele não estava acostumado a admitir que queria alguém por perto por qualquer motivo - os Malfoys sempre podiam cuidar de si mesmos.
Hermione olhou para ele com um sorriso irônico. A maior parte da vermelhidão e inchaço de antes haviam se dissipado.
- Prometo me cuidar. Afinal, eu já me acostumei a estar por perto. Além disso, se eu não estivesse aqui, quem ensinaria você a pagar seus impostos? Pintar seu apartamento?
Ele franziu o cenho para ela.
- Pintar? Do jeito trouxa?
- Só se você decidir que está cansado daquelas paredes sem graça - ela admitiu.
- Estou completamente enjoado delas desde que me mudei.
Ela sorriu para ele.
- Então eu suponho que você vai precisar de mim por mais um pouco. Eu farei o meu melhor para me manter segura.
Draco assentiu e saiu. Grifinórios malditos. Ele adormeceu naquela noite, pensando em todos os grifinórios que conhecia e ouvira falar, todos morrendo por algo ou alguém. De que adiantava morrer por alguém? Não era melhor viver para eles? Os pais de Potter haviam morrido por ele e isso o levou a uma vida inteira de inferno. Os pais de Draco fizeram o que era necessário para viver por ele. Ele foi assombrado pelos pensamentos e se perguntou se, caso tivesse uma chance, todos agiriam da mesma forma novamente. Ele se agitou e suou nos lençóis, vagamente consciente de que amanhã teria que ser o dia da lavanderia.
Perguntou-se se havia algo trouxa equivalente a uma poção do sono sem sonhos e esperou fervorosamente que houvesse.
Do outro lado do corredor, atrás da porta fechada, Hermione vestiu um dos pulôveres de Rony e se curvou para dormir, levando o pescoço ao rosto e inalando profundamente. Meses haviam se passado. Realmente não cheirava mais a ele. Ela não chorou. Não havia mais lágrimas sobrando para aquelanoite. Houve apenas uma longa espera no escuro até amanhecer.
Os clientes faziam sons abafados na frente da loja, mas Hermione tentou ignorá-los. Ela tinha uma missão. Ela e Jorge precisavam criar o próximo grande produto dos Weasleys. Se ao menos ela tivesse a menor ideia do que poderia ser.
Jorge estava sentado em seu banquinho, um pouco melancólico. Ele queria encontrar um motivo para rir, mas nada parecia mais engraçado. E se ele abrisse um sorriso, parecia errado, porque não havia um sorriso igual no rosto de Fred.
- Vamos lá, Jorge, há apenas dois dias você me queria aqui. Vamos fazer algo que deixaria Fred orgulhoso - disse. Ela se perguntou se tudo aquilo era uma péssima ideia. Jorge provavelmente ainda precisava de tempo para si mesmo. Se ela quisesse lidar com o sofrimento de alguém que não fosse o dela, teria procurado Harry há semanas. Ela simplesmente não podia agora. Ainda assim, Lino parecia agradecido ao vê-la entrar naquela manhã e havia lhe confidenciado que tudo o que ele podia fazer era deixá-los sozinhos para que ela tentasse trazer um sorriso ao rosto de Jorge. Ela prometeu fazer o que pudesse. Cansada de se mexer, desceu do banquinho para verificar os projetos semiacabados da oficina.
Havia flores que manchariam suas mãos e ficariam azuis se você apertasse o espinho certo. Havia algum tipo de coisa que se encaixava nos dentes da frente e transformava todas as palavras que você tentava dizer em sons de animais. Havia um pequeno conjunto de espelhos. Uma crosta de massa acompanhada por três folhas pergaminho, cheias de notas. Havia uma tigela extremamente pegajosa com o que poderia ter sido sorvete em uma vida anterior.
- Nada disso é bom - disse Jorge, vendo-a estudar suas tentativas tímidas de fazer alguma coisa. Ele tentou, honestamente ele tentou. Nada disso era bom.
Hermione franziu a testa.
- Que tal algo como o meu pergaminho enfeitiçado, mas... menos permanente?
- Como o que você fez com aquela garota alguns anos atrás? Ma... Marietta, qualquer-que-seja-o-nome-dela?
- Sim, assim. Mas menos permanente. Se não tivesse sido tão sério, eu não teria usado um encantamento tão forte naqueles furúnculos. E esses espelhos, o que você está tentando fazer com isso?
Ele se levantou e foi olhar para a pequena pilha de espelhos de mão.
- Ver o futuro. Ou pelo menos uma versão dele. Algo bom para rir em festas, ou talvez em reuniões.
E lentamente, eles começaram a pensar em algumas ideias.
- O sorvete é realmente uma boa ideia - Hermione disse a certa altura. - E Terror Congelado não é um nome ruim para isso. Só acho que não deveria ter deixado a amostra aqui no último mês.
- Mês e meio - corrigiu Jorge.
Ela torceu o nariz.
- Estou surpresa que não haja formigas.
- Oh, temos um feitiço para isso.
Ela suspirou.
- Claro que têm.
Até certo ponto, os feitiços domésticos eram uma parte do conhecimento que faltava para ela. Exceto por aqueles que ela usara com Rony e Harry na fuga do ano anterior, os feitiços de limpeza doméstica não fizeram parte de sua educação. Ela estava vagamente consciente de que a Sra. Weasley fazia através de mágica a maioria das coisas que sua mãe fazia à mão ou por aparelhos, mas ela não era maior de idade para fazer os feitiços durante os verões em que estivera lá.
Quando Hermione saiu naquela tarde, eles tinham descartado algumas ideias e concordado em seguir em frente com outras. Houve o início de um plano. Tudo poderia vir a dar certo.
Hermione abriu a carta que recebeu. Reconheceu a letra da Sra. Weasley na frente. Havia escrito para ela no dia anterior e ficou surpresa por ter recebido uma resposta tão rápido. Não havia demorado muito.
14/08/1998
Hermione,
Obrigada por pensar em mim. Eu acho que seu instinto é melhor. Doe-as para onde elas serão mais necessárias.
A porta está sempre aberta, sempre que você quiser vir.
Molly
Ela soltou um suspiro que não sabia que estava segurando. O apartamento estava silencioso, exceto pelo som de Athena tomando um café da manhã. Ela ficou lá por um tempo, lendo novamente.
Finalmente se recompôs e voltou para o quarto. Abriu o armário e começou a olhar as roupas, pegando as peças uma por uma e dobrando-as cuidadosamente na cama. Puxou os cantos retos e alisou as rugas. Conjurou várias bolsas resistentes para elas. Abriu uma das gavetas da cômoda que não era aberta há algum tempo e acrescentou meias e cuecas ao topo.
Ela juntou tudo e levou até a porta. Precisava fazer isso agora ou ela simplesmente não faria. Mas era longe demais para carregá-las por conta própria, e as bolsas pareciam muito pesadas. Ela as carregou pelo corredor e bateu na porta de Draco, fazendo malabarismos com as mãos até que tivesse uma mão livre para bater.
Levou apenas um momento para ele abrir a porta, ainda de pijama, apesar de a manhã estar a caminho do meio-dia.
- Hermione.
- Você vem comigo? Vou deixar as roupas de Rony para algumas pessoas que precisam delas - explicou ela, as palavras saindo da boca sem ordem certa.
Ele piscou para ela, vendo-a parada lá com as bolsas pesadas nos braços. Ele abafou um bocejo. Com certeza deveria haver algo trouxa equivalente a uma poção de sono sem sonhos. Ele assentiu.
- Eu irei. Sente-se por um minuto enquanto eu me visto.
Hermione sorriu agradecida e colocou suas malas para dentro. Seria uma experiência bastante difícil; pelo menos ela não teria que fazer isso sozinha. Não eram apenas roupas - era a camisa que ele usara na primeira vez em que a convidara para sair e mil outros dias juntos. Eram lembranças. Ela ainda teria que encontrar um lugar para doar as vestes dele, mas pelo menos não veria todas as suas roupas trouxas toda vez que fosse se vestir. Ela apenas manteve o suéter em que dormira nas últimas duas noites. Era o que a Sra. Weasley havia feito. A vida continuara. As roupas seriam muito melhores para alguém usar do que assombrando seu armário.
Notas finais:
1. Novo cronograma de postagens: SEGUNDA - QUARTA - SEXTA.Porém pode acontecer de sair capítulo novo em um outro dia da semana, dependendo do meu tempo livre. Então sugiro que sigam a fic e o meu perfil para que sejam notificados quando houver capítulo novo.
2. Obrigada krolagataborralheira pelo comentário no último capítulo, amei saber que você está amando a história!
3. Deixem comentários, por favor!
