Capítulo 32: Tropeçando
Hermione se oferecera para planejar o Dia dos Namorados - ela realmente não precisava de nada luxuoso, apenas queria passar um dia com Draco - mas ele insistiu que já tinha tudo esquematizado e que queria surpreendê-la novamente.
Ela não pôde deixar de admitir o quão bom era estar com alguém que queria planejar as coisas. Surpreendê-la. Fazê-la se sentir especial. Ela não precisava lidar com toda a parte romântica sozinha. Olhou para seu reflexo no espelho usando calças e um suéter. Vestiu o casaco, sabendo que Draco chegaria a qualquer momento. Passou a mão pelos cabelos. Finalmente experimentara a poção que Narcisa havia lhe dado. Ela tinha que admitir, seus cabelos estavam macios. Ela não estava convencida de que gostava do reflexo que via no espelho. O cabelo dela estava brilhante e liso, emoldurando as laterais de seu rosto. Supôs que aquele cabelo a deixava mais convencionalmente bonita, porém... não se parecia com ela.
Ela foi salva de suas reflexões sobre autoaceitação por uma batida à porta. Lá estava Draco, carregando uma pequena caixa de chocolates em forma de coração em uma mão e uma única rosa na outra. Ele estudara a cultura popular trouxa da melhor maneira possível - observando as vitrines das lojas e a televisão - e determinara que aqueles eram os presentes apropriados para aquela data. Ele ficara horrorizado ao descobrir o custo de um buquê de rosas como Hermione merecia, então tudo o que pôde pagar tinha sido uma única rosa. Não era tão diferente do mundo bruxo, embora ele tenha declarado mais tarde que não era tão bom quanto o chocolate da Dedos de Mel, o qual ele conseguiria comprar para Hermione... dentro de cinco meses e meio.
No momento, no entanto, Draco estendeu os itens em suas mãos, a boca entreaberta, encarando os cabelos de Hermione.
- Vai voltar ao normal... daqui a algumas semanas... eu acho - disse ela pegando a rosa e os chocolates que ele lhe entregava.
Ele estendeu a mão agora livre e, com ternura, passou um dedo sobre os cabelos dela. Estavam macios. Os cabelos dela caíam em seus ombros. Mas... simplesmente não se parecia com ela. Talvez fosse mais pela incerteza em seu rosto do que pela mudança nos cabelos.
- Se você não gosta, aos poucos ele voltará ao normal e você se parecerá novamente com você. Está legal. Mas você fica mais bonita com um sorriso no rosto. Você se parece mais com a minha Hermione quando tem um sorriso no rosto e o cabelo espetado em todas as direções.
O rosto de Hermione se abriu em um sorriso e ela o beijou (com muito entusiasmo, visto que estavam na porta). Parecia que ele preferia deixá-la confortável com sua aparência do que incentivá-la a atender um padrão de beleza artificial. Simplesmente o tipo de homem que ela sempre havia esperado encontrar. Eles realmente existiam. Quem diria?
Draco aprofundou o beijo, lábios nos lábios, provocando-a com sua língua e dentes. Quando eles fizeram uma pausa para respirar, Hermione perguntou:
- Você prefere ficar aqui ao invés de sairmos?
Ele notou um brilho provocante em seus olhos.
- A ideia me tenta, mas tive o trabalho de planejar um Dia dos Namorados trouxa para você, sabe? Seria uma pena desperdiçar meu trabalho duro. Ainda assim... - Ele olhou por cima do ombro dela. O sofá.
- Oh não, você não pode desperdiçar seu trabalho duro - ela repetiu. - Vou colocar isso na água e poderemos ir - disse ela, sorrindo.
Alguns minutos depois, eles saíram. Como era de se esperar, os planos de Draco não saíram... bem, não saíram de acordo com o planejado.
Haviam colocado cartazes na biblioteca anunciando patinação no gelo no Dia dos Namorados. A localização parecia pitoresca. Theresa havia passado a impressão de que era algo fácil de fazer, olhando os pôsteres com um pouco de nostalgia. Parecia tão simples... Certamente era algo que Hermione provavelmente já havia feito e que ele faria sem problemas. Suas costas machucadas e as pernas doloridas não concordaram com isso mais tarde.
Ele deveria ter percebido que estava condenado quando, ao pegarem seus patins, Hermione o olhou surpresa.
- Eu não sabia que você patinava no gelo.
- Todo mundo não pode? - ele disse, sentindo uma leve sensação de pavor no estômago.
Talvez tenha sido uma má ideia. Ele olhou para os patins de couro duvidosamente, examinando a lâmina afiada no solado. Aqueles calçados eram surpreendentemente pesados.
- Eu não patino há muitos anos. Mas tenho certeza de que não esqueci como fazê-lo.
Quando os dois estavam calçados, Hermione se levantou. Ela deu alguns passos com cuidado e virou-se para Draco, ainda sentado no banco. Ela estendeu sua mão. Instável, ele se levantou e deu alguns passos. Seus pés estavam pesados, mas não era tão ruim.
- Vamos lá, vamos para o gelo - Hermione ofereceu, ainda segurando a mão dele.
O que se seguiu foi provavelmente uma das manhãs mais embaraçosas da vida de Draco. Na primeira vez em que ele caiu de bunda, Hermione disse que era completamente normal. Na segunda vez, ela sugeriu que ele tentasse se apoiar na parede e eles seguiriam pelas bordas. Na terceira vez, ela fez o possível para não rir, mas falhou. A visão de Draco Malfoy, com o rosto vermelho e espalhado pelo gelo era um pouco demais para ela. Seus cabelos tinham caído nos olhos e ele olhou furioso para a pista, como se pudesse derreter o gelo com o olhar.
- Você quer ir embora? - ela ofereceu.
- Não. Eu vou fazer isso - disse ele, rangendo os dentes e se levantando novamente. Ele faria aquilo.
Hermione não era uma grande patinadora, mas ela conseguiu dar uma volta na pista sem cair naquele dia. Algumas vezes ela se desequilibrou, mas conseguiu se firmar novamente.
Depois de cerca de meia hora, Draco conseguiu dar uma volta pela pista sem cair ou sem se segurar em nada. Eles ficaram no gelo um pouco mais, apenas para Draco provar a si mesmo que podia, antes de entregar alegremente seus patins e encontrarem um lugar para café e sanduíches. Feliz Dia dos namorados.
Na segunda de manhã, Draco estava pronto para seu primeiro dia como funcionário da biblioteca. Ele ainda teria que trabalhar no restaurante naquela noite, mas em duas semanas estaria trabalhando apenas durante o dia.
Ele estava terminando o café quando alguém bateu na porta. Era Hermione.
- Você não precisa se encontrar com Belby?
- Sim, mas eu queria te desejar boa sorte. Fiz um almoço para você - disse ela, segurando um saco de papel marrom. – É seu primeiro dia oficial. Não sei o que é realmente tradicional, mas achei que você poderia gostar disso, então fui em frente e fiz.
Ele sorriu. Ela estava balbuciando. Ele se inclinou pela porta e a beijou.
- Obrigado.
Hermione deu um sorriso e saiu.
Draco foi para a biblioteca. Ao chegar lá, descobriu que Theresa estava no caixa. Ela sintetizou o básico sobre o procedimento de entrada e saída, assim como o registro de suas horas trabalhadas, e começou a explicar suas funções. Ele desejou ter trazido papel e caneta.
Theresa forneceu-lhe explicações por mais ou menos uma hora. Como havia poucos leitores, ela foi cuidar de seus outros deveres depois que ele entendera o básico.
Draco esperou na recepção, inspecionando as várias gavetas e descobrindo onde as coisas estavam. Pelo menos ninguém iria derrubar comida nele ali. Ele estremeceu ao pensar que iria trabalhar oito horas completas na biblioteca e outras oito horas em pé no restaurante. Mas logo, aquilo terminaria. Poderia passar qualquer noite que quisesse com Hermione.
A biblioteca não ficou vazia por muito tempo. Antes que Draco percebesse o que estava acontecendo, havia surgido mais de uma dúzia de crianças pequenas e um professor de aparência atormentada em pé em sua frente. Em pouco tempo, ele tentava registrar livros o mais rápido possível, enquanto reprimia um gemido ao ver a sala de leitura infantil. Livros. Livros por toda parte. Ele não conseguia decidir se queria que Theresa voltasse imediatamente para ajudá-lo ou se esperava que ela ficasse ocupada onde quer que estivesse até que tudo se acalmasse novamente.
Hermione tinha chegado em casa mais cedo. Ela sabia que Draco mal teria tempo entre a biblioteca e o restaurante e queria surpreendê-lo. Ela havia preparado um sanduíche saudável para ele. O vinho teria que esperar até depois de seu turno no restaurante.
Ela colocou um bilhete por debaixo da porta pedindo que ele fosse ao seu apartamento quando chegasse em casa. Ela esperava que o primeiro dia na biblioteca não fosse muito assustador. Seu próprio dia não tinha sido ruim. Ela e Jorge foram capazes de replicar a funcionalidade dos antigos espelhos de Tiago e Sirius, o que por si só já era um bom produto. Porém ainda não haviam conseguido criar nenhum tipo de rede que permitisse a qualquer espelho se conectar a outro. Eles precisavam decidir se o que já tinham era bom o suficiente ou se iriam continuar trabalhando no produto.
Na próxima semana, ela começaria a preparar a Poção de Acônito.
Hermione colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Belby e Jorge ficaram surpresos ao notar sua mudança de aparência. Belby a encarou por um momento, mas não comentou nada; ele tinha conhecimento de que as bruxas frequentemente mudavam de aparência apenas por capricho e muitas vezes queriam receber elogios, então ele não disse nada. Jorge fingira não reconhecê-la e passou cinco minutos fingindo procurá-la na loja; tinha sido bom vê-lo rir.
Todo o corpo de Draco doía e ele estava exausto, mas em vez de voltar para o seu apartamento ao entrar no prédio, foi à casa de Hermione. Antes de ir ao restaurante, ele havia engolido o jantar que ela lhe preparara. Poderia entrar em colapso a qualquer momento agora. Tinha sido um longo, longo dia.
Ele bateu à porta.
- Vinho?
Ela riu, olhando para ele.
- Eu prometi. Entre - disse ela, puxando delicadamente a mão dele e levando-o ao sofá.
Ele tirou os sapatos antes de se sentar no sofá e colocar os pés sobre a mesa de centro. Sem sapatos nos móveis.
Hermione reapareceu com uma taça em cada mão.
- Então, conte-me sobre o seu dia.
- Por onde eu começo? - Ele passou os dedos pelos cabelos. - As crianças deixando marcas de mãos sujas nos livros? O casal que pediu prato após prato em uma das minhas mesas e depois reclamou ao gerente que estava tudo horrível e frio e que não iriam pagar?
Ele esfregou as têmporas e depois pegou a taça que ela lhe ofereceu.
Hermione riu e se acomodou na poltrona, pronta para ouvir com atenção e simpatia, guardando qualquer parte que ela achasse engraçada para rir sozinha mais tarde. Tomou um gole de vinho enquanto ouvia. Quem poderia imaginar que chegaria um momento em que ela ansiaria por ouvir o som da voz dele?
Toc.
Toc.
Toc. Toc.
Os olhos de Hermione se abriram e ela procurou a fonte de ruído que sabia não vir de seu despertador.
Tinha uma coruja na janela. Hermione afastou as cobertas e se levantou para deixá-la entrar. Ela reconheceu a letra no envelope ao pegar a carta.
- Vá em frente. Há água e comida na outra sala - ela instruiu a coruja, que piou baixinho e atravessou o apartamento.
Hermione encolheu os ombros no roupão contra o frio da manhã e foi para a cozinha preparar o café.
Ela abriu a carta.
25/02/1998
Hermione,
Prometi que tentaria ser um amigo melhor neste ano. Estou tentando não estragar tudo. Você quer se juntar a mim neste final de semana? Eu posso levar Teddy se você quiser vê-lo. Você não acreditaria em quanto ele cresceu nos últimos dois meses.
Harry
Hermione apertou os lábios. Oh, Harry. Ela não o vira desde o Ano Novo. Ela e Draco haviam concordado em contar a seus amigos e familiares sobre o relacionamento deles... porém o único que realmente recebeu a notícia tinha sido Jorge e parecia que ele não contara a mais ninguém, o que era bom.
Provavelmente, era um momento tão bom para contar a Harry quanto qualquer outro. Poderiam esperar para contar à Narcisa quando ela voltasse ao país.
Hermione convocou um pergaminho e uma pena e começou a responder ao amigo.
Ela leu a carta mais uma vez em busca de erros e a enviou com o pássaro de Harry, que parecia ter terminado de se recuperar da viagem. Não era Edwiges, mas nenhuma coruja seria Edwiges. Ela respirou fundo. Chegaria um momento em que eles não se lembrariam de todos os que haviam perdido?
O próximo passo seria contar a Draco que Harry viria no final de semana. Ela estremeceu um pouco com isso. Bem, eles atravessariam aquela ponte. Ela e Draco poderiam aproveitar a noite de sexta-feira e então receber Harry e Teddy no sábado. Ficaria tudo bem. Ela tinha certeza disso. Dessa vez, ela estava planejando o encontro deles. Jantar e um espetáculo. Ela estava ansiosa. Ela não via um espetáculo há muito tempo... desde que fora com os pais, havia muitos anos.
Tomando seu café, ela supôs que era hora de se vestir e começar o dia. Tinha um longo dia de preparação de poções e reabastecimento na loja de logros pela frente. Ela e Jorge se encontravam em um impasse nos espelhos. Eles queriam liberar para venda, mas... parecia uma derrota. Configurá-los como o equivalente mágico dos telefones celulares seria uma conquista que valeria a pena. Tinha que haver uma maneira de fazê-lo. Eles simplesmente ainda não haviam chegado lá. Mas chegariam.
Hermione esvaziou sua xícara de café e foi se vestir para encarar aquele dia.
N/F/T: Oi gente! espero que tenham gostado do capítulo! Eu quero aproveitar esse espaço para divulgar uma fic de minha autoria que estou publicando lá no Wattpad. Adoraria que vocês dessem uma olhada. O link está aqui em baixo:
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