Capítulo 34: Almas
Draco e Hermione entraram em uma rotina. Eles se revezavam preparando o café da manhã nos apartamentos um do outro antes de irem para seus respectivos trabalhos. Reuniam-se novamente para jantar - na casa dela, na dele ou na rua. Em algumas noites, Hermione precisava ler alguns livros ou preparar poções e, quando ela estava ocupada fazendo isso, Draco escrevia no diário que ela lhe dera. Antes, ele costumava ler enquanto ela estava ocupada, mas na maioria das vezes agora, ele escrevia.
Durante um dia no final de março, Hermione ergueu os olhos do caldeirão e se perguntou o que prendia a atenção dele tão avidamente.
- É bom ver você escrevendo. Pareceu-me que você havia parado durante um tempo depois que eu te dei o diário. Eu estava começando a pensar que talvez você preferisse escrever em pedaços de papel.
Draco se mexeu no sofá, marcando o diário com a caneta.
- Isso é muito melhor do que pedaços de papel. E eu parara de escrever, mas comecei novamente.
- Você vai me dizer o que está escrevendo? - ela perguntou casualmente, mexendo sua poção como se não estivesse intensamente curiosa.
- Ainda não está pronto.
Ela suspirou, um pouco exasperada.
- Tem que ficar pronto antes que você me diga o que é?
Draco olhou para o diário e o tirou de vista protetoramente.
- É algo que eu nunca pensei que escreveria. Se eu decidir que estou pronto para que você veja... eu mostrarei a você.
Hermione ficou desapontada, mas algo no olhar cauteloso de Draco a alertou para deixá-lo em paz. Por enquanto. A expressão no rosto dele enquanto escrevia tinha estado tão vulnerável. Palavras pareciam estar saindo dele para o papel.
O loiro colocou o diário debaixo da perna por segurança. Fora da vista, fora da mente, certo?
- Você vai a Hogwarts no sábado?
- Sim - Transição fraca, ela pensou. Espero que você escreva melhor que isso. Em voz alta, ela disse: - Harry queria esperar até junho, quando todos os alunos estarão entrando de férias, mas uma pessoa não pode aguentar cabeças dos elfos montados na parede da sua casa durante muito tempo - ela estremeceu.
- Será a primeira vez em que ele voltará?
- Até onde eu sei. Ele escreveu à McGonagall para organizar tudo, mas não acho que ele colocou os pés lá desde que tudo terminou. A última vez em que ele veio aqui, tive a impressão de que McGonagall quer que ele compareça na cerimônia de graduação, mas não acho que ele tenha se comprometido com isso.
- Você irá?
- Eu não fui convidada.
- No entanto, você será convidada. McGonagall às vezes é tão desonesta que poderia ter sido da Sonserina. Ela o coloca no local certo e pergunta pessoalmente, então você não consegue dizer não - a expressão no rosto dele irradiava presunção.
- Eu não irei. - Hermione tentou voltar sua atenção para o caldeirão - ela precisava de meia dúzia de frascos da Poção da Paz até de manhã. Draco, no entanto, descobriu que não estava com disposição para continuar escrevendo.
- Por que não? O que seria tão terrível? - Sua inocência foi apenas parcialmente fingida. Voltar para Hogwarts novamente seria difícil para Hermione, mas ela era uma heroína. Não seria tão difícil quanto, por exemplo, para ele. Draco ficou grato por ter uma boa desculpa para não comparecer ao enterro dos elfos.
Os olhos dela brilharam.
- Você sabe o porquê. Há muito lá. Muitas lembranças. Muitas coisas que eu perdi. Muitas coisas que nunca voltarão a ser o que eram. Muitas rachaduras que não podemos consertar e buracos que não podemos preencher. - E droga. Ela pensou que poderia fazer aquilo. Ela pensou que poderia dizer aquelas palavras sem chorar. Passara semanas sem chorar, mas agora os nomes e rostos dos que perderam brilhavam diante de seus olhos. Todas as coisas que nunca seriam as mesmas. Eles não mereciam isso. Colin nunca terminaria Hogwarts - nem ela, nem Harry, nem Rony. Tonks e Remo nunca veriam Teddy crescer. Teddy não merecia conhecer seus pais? Não era justo. Ela enxugou os olhos na manga de uma maneira que esperava ter sido discreta.
Draco não se deixou enganar por nem um minuto e, no intervalo de algumas respirações, ele se levantou do sofá, foi até a mesa e a abraçou. A voz dele saiu quente e baixa no ouvido dela.
- Sinto muito - pressionou sua bochecha contra a dela e seus braços a seguraram firmemente. A poção esquecida começou a se solidificar no fundo do caldeirão. - Você não precisa ir. Mas enfrentar isso talvez a faça se sentir melhor. Me desculpe por não poder facilitar as coisas para você.
- Eu poderia pedir ao ministro novamente. Conseguir outra viagem no Nôitibus Voador - ela fungou.
Suas costas endureceram.
- Todo mundo me odeia lá. Eu não posso voltar. Você é uma heroína. Eles a receberiam. Poderia te ajudar.
Ela descansou a cabeça contra ele.
- Ser uma heroína não é tudo o que há para ser - ela murmurou.
- É melhor do que a alternativa. Ninguém nunca me perguntou se eu queria ser o vilão.
Não existia resposta para isso, então eles se abraçaram em silêncio.
No sábado à tarde, Hermione chegou ao escritório de McGonagall. Por mais que parte dela desejasse que Draco tivesse ido também, ela não o forçara a ir. Além disso, imaginava que o Auror-Chefe não permitiria que ela entrasse em seu escritório novamente tão cedo.
Ela removeu as cinzas que haviam caído nas vestes durante a viagem via Flu. Seu cabelo já estava quase voltando ao seu estado normal.
- Bem, Srta. Gra- Hermione, é bom tê-la aqui. O Sr. Potter deve chegar daqui a pouco. Ele e Rúbeo prepararam tudo. Todos os elfos de Hogwarts estarão presentes. - Ela fez uma pausa. - Como estão indo os seus estudos?
Todos os elfos domésticos iriam comparecer? Hermione ficou espantada. Levou um momento para se recuperar.
- Eles estão indo bem. Dâmocles Belby pode ser difícil, mas estou aprendendo muito. Obrigada pelos livros que me deu no meu aniversário. Eu os leio sempre que possível.
- Se você decidir que gostaria de prestar os N.I.E.M.s de Transfiguração e Feitiços este ano, seria mais do que bem-vinda. E minha oferta de ajuda ainda está de pé.
- Obrigada. Como tem passado, Pr- Minerva?
- Muito bem. Estamos procurando um professor de Defesa Contra as Artes das Trevas novamente. O Ministério nos emprestou um auror este ano, mas, como eles estão com os números bastante baixos, gostariam que ele retornasse no outono.
Elas continuaram a conversar sobre trivialidades durante alguns minutos. McGonagall não sugerira abertamente que Hermione assumisse a posição, então ela foi salva do mal necessário de recusá-la. Ela tinha outros planos. Apenas precisa descobrir quais eram e como implementá-los. Para mudar de assunto, pediu à McGonagall todas as informações que tivesse sobre como iniciar uma organização sem fins lucrativos no mundo bruxo. O que levou a uma conversa sobre alguns dos obstáculos enfrentados pelas pessoas com licantropia. Estava claro que ela não conseguiria nenhuma mudança da noite para o dia.
Para a surpresa das duas, Harry chegou pela escada e não pela lareira. Suas roupas estavam um pouco amarrotadas e havia manchas de grama nas vestes que provavelmente estavam limpas e arrumadas naquela manhã. Hermione podia ver uma parte da capa de invisibilidade saindo do bolso de sua capa.
- Boa tarde, Hermione, Diretora.
O olhar no rosto de McGonagall indicava claramente que ela queria saber como ele havia chegado a Hogwarts, se não pelo seu Flu pré-arranjado, mas ela simplesmente apertou os lábios e disse.
- Sr. Potter, é sempre bom te ver.
- Está tudo pronto. Eu estava na casa do Hagrid. - Ele parecia quase se desculpar. - Percebi que não seria capaz de trazer os... corpos pela lareira facilmente, então os elfos domésticos me ajudaram a trazê-los. Está tudo pronto - disse ele, passando a mão pelos cabelos, um pouco preocupado.
- Vamos então. - McGonagall fez um tipo de gesto "depois de você", então Harry não teve outra escolha além de liderar o caminho enquanto as duas bruxas o seguiam pelas escadas e corredores. Alguns estudantes circulavam, mas o horário havia sido definido entre as refeições, de modo que a maioria dos estudantes estivesse ocupada em outro lugar.
Hermione colocou a capa em volta de si mesma. Ela não via Hagrid havia muito tempo. Os três atravessaram o local e chegaram à cabana. Não muito longe dali, havia um verdadeiro exército de elfos domésticos, todos usando toalhas de chá recém-passadas. Alguns deles seguravam algo em seus braços, envolto em linho fresco.
Pequenos buracos haviam sido cavados no chão em fileiras. Hagrid estava por perto, maior do que todos, como sempre. Neville e Gina estavam ao lado deles.
- Muitos outros teriam vindo se tivessem permissão - disse Minerva em voz baixa.
- Ainda não estou pronto para enfrentar uma multidão - Harry disse, sem olhar para ela. - Mas obrigado por me deixar fazer isso aqui.
- É o mínimo que podemos fazer, Sr. Potter. Você pensou na minha pergunta?
Harry respirou fundo.
- Eu prometi pensar sobre ela. E pensarei. Com licença. - Ele deixou as mulheres e foi até Hagrid, que bateu nas costas dele com tanta força que seus joelhos quase dobraram. Neville e Gina pareciam satisfeitos em vê-lo. Harry olhou para o exército de elfos, e especialmente para os que carregavam fardos. Eles mantiveram a cabeça erguida. Monstro estava parado no início da fila, segurando um pergaminho.
Harry falou.
- Obrigado a todos por estarem aqui. Meu padrinho, Sirius Black, faleceu há alguns anos e me deixou a casa dele. Eu não poderia pedir um elfo melhor para me ajudar do que o Monstro. Muitos elfos serviram a Família Black ao longo das gerações. Alguns dos quais se tornaram parte permanente do lar. Sinto que esses elfos merecem mais do que isso. Eles merecem um lugar para serem lembrados. Monstro?
Monstro abriu o rolo de pergaminho que estava segurando e começou a ler a lista com os nomes dos elfos que seriam enterrados. Quando ele dizia um nome, um dos elfos que carregavam o pacote nos braços avançava e colocava o pacote no chão, ficando atrás do túmulo.
Lentamente, cada buraco foi preenchido com uma cabeça de elfo.
Os elfos levitaram as pilhas de terra ao lado dos túmulos e as preencheram.
Solenemente, o pergaminho foi entregue a Harry.
- Gostaria de agradecer à Diretora McGonagall e aos elfos de Hogwarts por nos permitirem fazer isso e por toda a ajuda. É também aqui que os elfos que perderam a vida na Batalha de Hogwarts estão enterrados. Obrigado a todos por terem vindo. Agora, eles podem finalmente descansar.
Houve uma alegria dos elfos de Hogwarts. Eles sabiam o tipo de abuso que aqueles elfos haviam sofrido em suas vidas. Finalmente agora eles podiam descansar.
Sincronizadamente, a multidão de elfos se curvou para Harry e desapareceu com um estalo, voltando aos seus deveres. Eles tinham centenas de crianças para cuidar, mesmo que não soubessem que eles estavam lá.
Os humanos e Monstro ficaram para trás.
- Muito bem, Sr. Potter. Muito inspirado.
- Obrigado. Eu apenas pensei que eles mereciam... alguma coisa.
Hagrid estava chorando. Ele deu uma fungada audível.
- Todos aqueles pobres elfos, decapitados, presos na parede e tudo.
Hermione se aproximou de Neville e o abraçou, olhando para Gina. À distância, ela podia ver que espectadores se perguntavam o que significava aquela multidão mas, como o show parecia ter terminado, eles começaram a se afastar.
- Monstro, você pode ir para casa ou voltar para ver os outros elfos. Gina, nós três estamos indo tomar uma cerveja amanteigada em Hogsmeade. Você quer vir? - Harry perguntou.
- Eu gostaria disso.
McGonagall bufou levemente.
- Suponho que, dadas as circunstâncias, eu poderia conceder permissão para você sair da escola. Mas, Sr. Potter, você é responsável pelo retorno dela em segurança.
McGonagall deu um tapinha no ombro de Hagrid (ou o mais perto onde ela poderia alcançar) e Neville, Hermione, Gina e Harry começaram a caminhar em direção ao portão.
- E Hermione, espero que a vejamos na cerimônia de graduação da senhorita Weasley nesta primavera?
Como uma resposta automática a sua antiga professora, Hermione disse:
- É claro - e logo em seguida xingou em voz baixa - Maldita seja essa mulher.
Neville riu.
- Ela não acha que eu poderia levar Gina de volta?
- Eu sou mais do que capaz de voltar para Hogwarts sozinha - Gina respondeu.
Harry balançou a cabeça.
- McGonagall só quer outra chance de me fazer concordar em aparecer na cerimônia e dizer alguma coisa. Parece que você me ajudou a evitar isso. - Ele deu um sorriso atrevido para Hermione.
Hermione gemeu.
- Sete anos como professora. É automático dizer sim quando ela me pede alguma coisa. Apenas terei que vê-la novamente e dizer que não virei.
Os quatro caminharam juntos para Hogsmeade.
Hermione chegou finalmente em casa, depois de se despedir de Gina, Neville e Harry. Hermione teria que escrever à McGonagall e dizer-lhe que não seria capaz de comparecer na cerimônia de graduação.
Ainda usando vestes, ela atravessou o corredor e bateu à porta de Draco. Ele a abriu quase imediatamente.
- Longo dia? - Draco perguntou.
- Extremamente longo. Mas não foi ruim. - Ela desfez o fecho da capa e pendurou-a no encosto da cadeira, enquanto ele passava o braço pela sua cintura.
- Conte-me sobre isso.
Eles se sentaram juntos no sofá de Draco e ela descansou a cabeça no ombro dele.
- Bem, foi muito legal. Todas as cabeças dos elfos de Grimmauld Place agora estão enterradas em Hogwarts e todos os elfos de Hogwarts comparecera na cerimônia. Neville e Gina sabem sobre nós agora. E McGonagall pode ter me feito prometer que eu iria à cerimônia de graduação.
- Divirta-se.
Hermione soltou um suspiro exasperado.
- Eu não irei.
Draco não respondeu. Ele imaginava que de um jeito ou de outro ela estaria lá.
- E como Gina e Neville receberam as notícias?
A morena riu, seu nariz batendo no pescoço dele.
- Gina disse que já era hora e que se não tivéssemos conseguido nos resolver, ela faria isso por nós. Ela também exigiu saber por que eu não contei a ela por carta. Neville me pareceu um pouco surpreso, mas não me criticou. Conte-me sobre o seu dia. - Ela notou o diário dele na mesa de centro.
- Não há muito a dizer. Dei uma volta no parque e voltei. Não sabia que horas você chegaria, mas posso preparar algo para o jantar.
- Vamos pedir uma pizza.
Os dois passaram uma boa noite juntos e, quando a pizza acabou e eles bebiam vinho novamente, Draco percebeu os olhos de Hermione se voltando para o seu livro de escrita algumas vezes.
- Você realmente quer saber o que tem lá? - ele perguntou.
- Eu quero, mas não se você não quiser—
- Está bem. - Draco retirou o braço de das costas de Hermione se inclinou para frente para pegar o diário e entregá-lo a ela, ainda fechado. - Estou escrevendo sobre mim mesmo. Vida sem magia. Não sei o porquê. Eu tentei escrever ficção, algo que eu pudesse vender para os trouxas, mas eu era um lixo absoluto nisso. Um dia comecei a escrever sobre mim e desde então continuei escrevendo. Não espero que alguém leia. Não quero que alguém leia. Mas me ajuda.
- Posso ler?
Draco hesitou.
- Se você não quiser que eu leia, tudo bem - Hermione acrescentou rapidamente.
- Você pode ler, apenas... não na minha frente. Acho que não aguentaria se você estivesse lendo, não gostasse e eu pudesse perceber isso no seu rosto. Apenas não leia na minha frente.
Os dedos de Hermione se fecharam ao redor do diário.
- Tenho certeza de que é ótimo.
- Não é para ser ótimo. Quero dizer, não precisa ser. É só... eu. O que estou aprendendo.
Hermione o beijou profundamente. Ela raramente o via tão autoconsciente. Ela afastou os cabelos da testa.
- Mais quatro meses - ela disse suavemente.
- Mais quatro meses - ele repetiu.
- O que você vai fazer em agosto?
- Sacar uma pilha de ouro em Gringotes e nos aparatar em algum lugar romântico para um jantar à luz de velas.
Hermione riu. Ele pareceu ofendido.
- Eu tenho que recuperar minha dignidade depois de todo aquele fiasco no gelo.
- Você age como se eu me importasse com quanto ouro há no seu cofre ou onde estamos comendo.
- Eu sei que não se importa com isso, mas... você merece o que há de melhor. Pretendo dá-lo a você. - Ele entrelaçou os dedos nos dela. Não sabia onde estaria no futuro, mas imaginou que, enquanto Hermione ainda estivesse ao seu lado – seja o que fosse que ela visse nele -, Draco sobreviveria.
Alguns dias depois, Hermione encontrou tempo para começar a ler o livro de Draco. Ela queria respeitar os seus desejos e ler quando não estivesse perto dele, mas eles passavam tanto tempo juntos que era mais fácil falar do que fazer.
Eu realmente nunca soube quais ajustes os nascidos trouxas têm que fazer ao chegar no mundo bruxo. Tudo é diferente. É mais difícil. Por que os trouxas não têm uma maneira melhor de fazer as coisas? Cortei meu rosto durante a primeira vez em que tentei fazer a barba sem um feitiço. Raspar metal no rosto cheio de espuma - completamente bárbaro. Mas é a única opção sem mágica.
Ela continuou lendo, encantada, virando página após página. Algumas delas pareciam se juntar em seções, outras vezes, surgia um tópico completamente novo.
Por que as bruxas teriam rostos verdes? Como você deve saber onde encontrar roupas? Eles esperam que tudo o que está na loja seja adequado a você. Nunca ouviram falar de alfaiates? Hermione diz que roupas personalizadas existem, mas estão fora do meu orçamento. Despesas. Eu nunca tive que me preocupar com dinheiro antes. Agora eu moro em um mundo em que preciso escolher entre comprar vinho para beber ou comprar taças e não ter dinheiro sobrando para comprar algo para beber.
Durante a hora em que passou lendo, Hermione descobriu que Draco havia coberto tudo, desde seus receios durante as entrevistas de emprego até seu horror no metrô, ansiando por uma vassoura. Relatou seu ajuste não apenas à vida sem magia, mas também à vida sem privilégios. Vida sem pais para estragá-lo. Vida sem poder comprar soluções para seus problemas. De vez em quando, Hermione aparecia no livro, mas, na maior parte, era tudo sobre Draco e sua adaptação durante aquele ano. Uma de suas seções favoritas era sobre os Weasley.
Estou começando a me perguntar se eu estava errado sobre tudo. Ou me perguntar como eu poderia estar certo. Pessoas que ridicularizei durante anos por não ter todas as coisas que eu tinha me acolheram e me trataram como família. Eu não teria feito o mesmo por eles há um ano atrás. Como teria sido crescer naquela casa pequena, cheia de irmãos, em vez de ter tudo entregue a mim de bandeja?
Hermione largou o livro. Ela lera a maior parte do que ele havia escrito. Aquela era a alma de Draco, totalmente despida. Não era de se admirar que ele estivesse apreensivo por permitir que ela lesse. Ela correu pelo corredor e bateu à porta de Draco. Quando ele abriu, jogou os braços em volta dele.
- Qual é o problema? - Draco perguntou, imaginando se teria que bater em alguém.
- Eu li boa parte do seu livro.
Draco estremeceu.
- Este é um abraço de despedida, não é?
Ela riu e apertou-o novamente, balançando a cabeça.
- Não. Eu te amo agora mais do que nunca.
Ele olhou para ela, afastando-se um pouco dos seus braços.
- Você nunca me disse isso antes. Pensei que eu deveria dizer primeiro, sob a luz de velas.
Foi a vez de Hermione gaguejar. Draco a interrompeu com um beijo e sussurrou em seu ouvido:
- Eu também te amo - e a puxou para dentro, fechando a porta em seguida.
