Capítulo 41: Enfermo
Hermione leu a última carta de Gina com um sorriso e deixou para respondê-la depois do trabalho. Ela estava mais do que ansiosa para sair de Hogwarts, embora um pouco menos ansiosa com o pensamento de morar em casa com a sua mãe. Questionara se Hermione gostaria de dividir um apartamento ou se já tinha outros planos. No entanto, os testes para as equipes de quadribol da segunda divisão estariam chegando no outono e Gina planejava treinar duro o verão inteiro. O único benefício em morar na Toca seria a campina para os treinos.
Examinando o resto de suas correspondências enquanto tomava café, ela encontrou um bilhete de Arthur, perguntando se poderia passar pelo escritório dele naquela tarde. Ela anotou uma resposta rápida dizendo que iria logo após a aula e a enviou com Athena.
Levitando a xícara de café vazia para a pia, ela pegou sua bolsa, anotações e livros e saiu para seu aprendizado.
Arthur Weasley cruzou as mãos em cima da mesa, olhando para a jovem bruxa que havia respondido seu convite.
— Eu dei o meu melhor para acompanhar o que aconteceu com os lobisomens após a batalha do ano passado. Infelizmente, não há muito o que ser dito. Após a batalha, muitas pessoas escaparam antes que pudéssemos encontrá-las. Entre Comensais da Morte, suspeitos de Comensais da Morte e os Ladrões... nós tínhamos nomes. Endereços. O Ministério foi capaz de tentar localizá-los mais tarde e ir atrás de muitos deles. Nós capturamos alguns lobisomens após a batalha, mas o resto deles... desapareceu.
— Nada? Certamente todas essas pessoas não poderiam simplesmente desaparecer...
— Nenhuma nova mordida foi relatada no St. Mungus. Não há sinais claros de onde eles podem estar se escondendo. — Sua voz estava gentil. — Essas pessoas têm vivido fora do sistema por um longo tempo, Hermione. Se eles não querem ser encontrados, nós talvez não sejamos capazes de encontrá-los.
Hermione franziu a testa, acomodando-se na cadeira, sentindo a tensão sutil da última frase.
— Alguma das pessoas com licantropia que foram levadas para Azkaban ainda está viva? — Todo o seu corpo estava tenso quando ela fez a pergunta. Mesmo sem os dementadores, Azkaban era um lugar difícil de ser chamado de lar. Ela só conseguia imaginar a tortura de estar preso para alguém que provavelmente vivera grande parte de sua vida em liberdade. Sua curta visita a Lúcio Malfoy a fez ter certeza de que aquele era um lugar que ela esperava nunca mais voltar.
— Alguns deles estão. Não posso garantir por quanto tempo. Nem todos suportaram. As transformações são duras no corpo de qualquer bruxa ou bruxo. Obviamente não houveram muitos estudos sobre isso, mas os lobisomens geralmente não vivem tanto quanto outras bruxas e bruxos. As transformações... — Ele balançou a cabeça.
Remexendo em sua bolsa, Hermione arrancou uma pena e um caderno.
— Então, eu precisarei visitá-los em breve. Você tem os nomes?
O patriarca Weasley parecia preocupado.
— Você tem certeza de que quer entrar nisso, Hermione?
— Sim. Eles merecem uma chance.
— Mesmo que você os encontre... a maioria dessas pessoas provavelmente lutou contra nós na última batalha. Você sabe disso, certo? — Ela lhe dirigiu um olhar um pouco duro. Sabia que o Ministério tinha certo grau de culpa pelo fato daquelas pessoas viverem à margem da sociedade. Eles já haviam tido aquela discussão anteriormente. Ele se atrapalhou com a gaveta da mesa, puxando uma folha de pergaminho, mas hesitou antes de entregar a ela.
— Eu sei que você é brilhante, mas... gostaria que você me prometesse que não se colocará em perigo.
A sala estava silenciosa, os sons do outro lado da porta mal chegavam até eles. Hermione contemplou sua resposta. Ela não considerava que uma viagem a Azkaban para falar com os licântropos sobreviventes fosse uma viagem perigosa — desconfortável, sim, provavelmente inútil — mas não perigosa. No entanto, se ela obtivesse as informações que procurava... o próximo passo lógico seria uma viagem para onde quer que eles vivessem. Provavelmente isso seria considerado perigoso. Mas o que mais ela deveria fazer?
— Hermione?
— Acho que não há nada a temer quanto a uma visita em Azkaban. Existem proteções mágicas e guardas — disse ela com cuidado.
Arthur afastou os cabelos ralos da testa e Hermione se perguntou se os cabelos de Rony teriam se desbotado da mesma maneira. Eles tinham o mesmo nariz. Piscou contra uma ardência em seus olhos. Fazia muito tempo que os pensamentos sobre Rony inundaram sua mente pela última vez.
— Hermione, eu sei onde você quer chegar com isso. Prometa que não vai tentar dar conta de tudo sozinha. Deixe isso para outra pessoa... ou, pelo menos, deixe-me te apoiar. Prometa-me, ou não te darei a lista.
Hermione fez sua promessa e saiu do escritório alguns minutos depois com a lista na bolsa. Arthur observou-a partir com o coração pesado, rezando a qualquer entidade que estivesse ouvindo para que não tivesse entregado à garota algo que levaria à sua própria destruição. Mesmo sem Ronald... Hermione ainda era como uma filha para ele.
Maio desaparecia rapidamente e o tempo estava quente. Draco preparava o jantar usando uma camisa de manga curta. Ele normalmente tentava manter o braço coberto, pois não gostava de lembrar a si próprio e a Hermione de que a marca ainda estava lá.
Por outro lado, sabia que ela cobria a palavra que sua tia esculpira em seu braço.
Ele tinha certeza de que, mesmo depois de todo esse tempo, provavelmente havia algum tipo de feitiço de cura que poderia livrá-la das cicatrizes, a menos que sua tia tivesse usado uma faca amaldiçoada (o que não seria impossível), mas sua marca não era apenas uma tatuagem. Havia magia nela e ele nunca tinha ouvido falar de alguém que removera a marca com sucesso sem abrir mão do braço inteiro.
É claro que, naquela tarde quente, enquanto ele lavava uma panela e ligava o forno, Burke voltou para a visita que Caffrey havia prometido. Draco fez o possível para conter o comentário ácido na ponta da língua ao ver o homem chegando sem aviso prévio à sua porta. Ele só precisaria aguentar aquilo por mais alguns meses e então... bem, ele teria sua magia de volta. Salazar sabia para onde sua vida iria depois disso, mas ele teria Hermione e sua magia de volta. Tudo o mais poderia ser resolvido à medida em que aparecesse. Ele teria tempo de sobra para formular seus planos. Sorriu ao abrir a porta da frente, cada centímetro dele interpretando um gracioso anfitrião.
— Boa noite. O jantar ainda não está pronto, mas como você pode ver, está sendo preparado.
O rosto de Burke estava ilegível.
— Não estou com apetite. Vim conversar. — Ele passou por Draco e soltou o livro sobre a mesa com um baque.
Sem olhar, Draco sabia que livro era aquele. Aquilo seria uma longa conversa.
— Bem, já que você está aqui, eu também posso ter algumas coisas para conversar — ele disse secamente. — Você precisa de uma bebida?
Ele voltou à cozinha para desligar a panela com água fervente. Aqueceria a água novamente mais tarde. As coisas no forno ficariam bem por um tempo ainda. Serviu a si e a Burke um copo de suco e olhou em volta, em busca de um suéter ou algo assim para cobrir o braço. Mas não havia nada. Ele faria o possível para manter o braço debaixo da mesa. Colocando os copos sobre a mesa, ele olhou para Burke.
— O que exatamente você gostaria de discutir?
— Isso — disse, indicando o livro. — O que isso significa?
— É exatamente o que está escrito. Esses são meus pensamentos deste ano — só comecei a escrever depois do Natal, mas tentei cobrir... tudo. Ajustar-me à vida trouxa não foi fácil, mas eu sobrevivi — disse ele, laconicamente.
— Isso deveria me fazer simpatizar? — Burke acenou com a mão para o livro. Uma pequena veia do lado de seu rosto estava alta. — Fazer-me sentir pena do sangue puro que precisou viver sem magia por um ano inteiro? Eu sou nascido-trouxa. Eu sei exatamente o quão difícil é a transição entre mundos. Você não receberá nenhuma simpatia vinda de mim.
Draco inalou profundamente pelo nariz para tentar ajudá-lo a manter a compostura. Ele não perderia a paciência.
— Não estou à procura de simpatia, embora eu possa dizer que você certamente tem a minha. Fazer a transição do mundo bruxo para o mundo trouxa foi algo pelo qual eu estava totalmente despreparado. Só posso supor que, na tenra idade de onze anos, você e todos os outros nascidos-trouxas estão ainda mais despreparados para entrar no mundo bruxo. Afinal, mesmo que eu nunca tivesse me dado ao trabalho de aprender sobre ele, eu já tinha conhecimento de que o mundo trouxa existia e entrei nele já como adulto. Você entrou aos 11 anos em um mundo que nunca soubera da existência...
Ele deu de ombros, um braço sobre a mesa, o outro cuidadosamente casual no colo, o antebraço apoiado na perna para esconder a marca.
Burke olhou para ele como se tentasse determinar se o jovem à sua frente estava sendo sincero ou não. As palavras soaram bastante sinceras e se encaixavam no que ele escrevera, mesmo que aqui parecessem mais políticas do que nas passagens do livro, onde ele se perguntava como os nascidos-trouxas podiam lidar com a mudança repentina.
— Se não é uma forma de conquistar minha simpatia, por que o escreveu?
Ele não foi capaz de suprimir a carranca em seu rosto.
— Escrevi para mim mesmo. Para tentar entender tudo. — Tomou um gole da bebida. — Você é a segunda pessoa que viu isso. Reconheço que cometi erros. Reconheço que minha compreensão do mundo era... ou é... menos completa do que eu pensava. Não pretendo cometer esses mesmos erros novamente.
— E você tem um plano, não é? Para evitar cair de volta nas velhas armadilhas do dinheiro e do poder fácil?
Draco deu uma risada seca.
— Não pretendo regressar à influência de minha mãe na Mansão. Duvido muito seriamente que o Ministério me contrate para exercer qualquer função. É perfeitamente possível que minha mãe me renegue por escolher namorar uma nascida-trouxa. Estou preparado para a probabilidade de seguir meu próprio caminho no mundo quando minha sentença terminar. Como farei isso... ainda não sei. Sem ter permissão para enviar corujas e sem nenhuma de minhas associações anteriores disposta a se comunicar comigo por meios trouxas, não consegui exatamente fazer planos para o futuro, supondo que a Suprema Corte de Bruxos devolva minha mágica. — Ele manteve o rosto calmo. Foi necessário encontrar o caminho certo para introduzir aquilo, precisava mostrar que não estava escondendo nada.
— Um sujeito cheio de recursos como você? Sem ofertas? Sem planos? — Ele não fez "cheio de recursos" soar como um elogio.
— Suponho que, se minha mãe não me deserdar, posso viver dos cofres da família e trabalhar com caridade para tentar reparar meus erros, caso ninguém queira me contratar para um emprego remunerado. Embora não seja um dos meus ex-associados, Jorge Weasley sugeriu que ele poderia estar disposto a me contratar como consultor para sua loja.
O homem mais velho se recostou na mesa e riu. O ex-Comensal da Morte na frente dele realmente esperava que ele acreditasse naquilo?
— Weasley? Da família Weasley que lutou pelo lado correto durante a guerra? E Jorge Weasley estaria disposto a lhe fazer um favor porque...?
Draco deu de ombros, modesto.
— Passei o Natal com a família dele, pois não tinha aonde ir. O Auror-Chefe aprovou meus planos de viagem, via Nôitibus Andante, arranjados por Hermione Granger. Ela está trabalhando em estreita colaboração com Jorge este ano, e ele às vezes aparece para o jantar. Estávamos discutindo a teoria mágica uma noite e os problemas funcionais com um trabalho que ele estava desenvolvendo. Fiz algumas sugestões, que ele implementou. Sem essas sugestões, ele não teria sido capaz de lançar seu produto mais recente. Suponho que você tenha visto os espelhos de chamada? Acredito que, se você verificar a documentação de registro do desenvolvimento do produto, verá que Jorge me listou como colaborador.
A veia do lado da cabeça de Burke começou a palpitar um pouco mais fortemente.
— A Suprema Corte dos Bruxos tirou sua magia e você pensou que estaria tudo bem caso contribuísse para um novo produto mágico?
Tentando decidir se mantinha o rosto neutro ou tentava parecer surpreso, Draco tentou uma combinação de modéstia com uma pequena surpresa. Ele não tinha certeza se conseguiria; seu lábio inferior estava um pouco nervoso.
— Foi simplesmente uma discussão sobre a implementação da teoria mágica. Não realizei magia e não recebi um desses dispositivos de comunicação. Para ser totalmente honesto, não esperava ser listado como colaborador desse produto, já que a discussão foi inteiramente informal. No entanto, quando o produto foi um sucesso — ouvi dizer que a fila da loja estava dando a volta pelo prédio — ele sentiu que era justo recompensar minha contribuição. Aparentemente, ajudar os outros vale a pena de vez em quando. — Ele deixou um sorriso esvoaçar sobre os lábios. — Eu não pedi, apesar de acreditar que ele está reservando uma parte do lucro desse item em particular para mim... Dado que eu não comprarei nada no mundo bruxo durante os próximos meses, ele está segurando os galeões até que a Suprema Corte permita que eu retorne à sociedade bruxa. Com o meu trabalho na biblioteca e o subsídio que o Ministério me fornece para sobreviver durante a minha sentença - e um orçamento cuidadoso - não preciso dos Galeões no momento. Eu aprendi a me adaptar a uma vida menos luxuosa do que estava acostumado.
Ele tomou um gole de sua bebida, sabendo que, do contrário, prenderia a respiração até que Burke respondesse. Não mostre medo. Ele fora mais ou menos inteiramente honesto.
— Você está andando em uma linha muito fina, Malfoy. Praticamente em uma ponta de uma faca.
— Auror Burke, eu não vou ao Beco Diagonal ou à Hogsmeade desde minha sentença. Não comprei nenhum produto mágico, nem ninguém comprou para mim. Minha coruja não transporta cartas. Estou desenvolvendo relacionamentos com pessoas que nossa estimada Suprema Corte consideraria como boas influências: Hermione Granger, Jorge Weasley, Harry Potter, eu até conheci meu primo e minha tia - ela e minha mãe se desentenderam sobre uma diferença de opinião sobre a pureza do sangue antes que eu nascesse. — Ele bateu os dedos contra a mesa. Estava tentando ser educado, mas sua paciência começava a se esgotar. Esperava que não estivesse exagerando.
— Você se considera um modelo a ser seguido, então?
— Bem, eu estou tentando ser um. É por isso que sua insistência de que eu deveria estar escondendo algo me deixou tão nervoso durante sua última visita. Pensei, talvez, em compartilhar meus pensamentos mais pessoais com você na forma desse livro. - Ele afastou o cabelo do rosto.
Burke ficou em silêncio por um bom tempo e foi necessário que Draco usasse todo o seu autocontrole para ficar sentado em silêncio e não dizer algo que agravaria ainda mais sua situação. Ele queria sua magia de volta. O buraco que ele sentiu ser aberto dentro dele quando sua magia fora trancada nunca desaparecera, embora fosse menos perceptível agora do que no início.
— E você tem mais alguma coisa para me contar? Além de sua... possível posição de consultoria com Jorge Weasley?
Draco deu de ombros casual.
A diretora McGonagall manifestou interesse em que eu visitasse Hogwarts para conversar com os alunos sobre a minha experiência. Ela acredita que seria... educativo para eles. Pensei que talvez... eu pudesse escrever algo útil para eles. Pois pretendo passar mais tempo com minha família: minha tia Andrômeda, meu primo Teddy, Harry Potter.
Ao ouvir o último nome, Burke bufou.
- Embora não seja meu parente, o padrinho dele era primo da minha mãe e ele é padrinho do meu primo. E ele é como um irmão para a mulher que eu amo. Potter faz parte da minha família agora, quer eu goste ou não. Felizmente, acho-o... tolerável hoje em dia.
Mostrar tanta honestidade a um homem que ele nem gostava era exaustivo. Ele não tinha certeza de quanto tempo poderia continuar com aquilo. Burke precisava dizer alguma coisa, fosse para revelar que não acreditava em nada daquilo ou que aceitava sua história. O problema de ajustar a verdade para se adequar ao que você deseja durante a maior parte de sua vida é que, quando se decide ser honesto, há uma boa chance de que ninguém acredite. Afastar o aborrecimento do rosto e tentar fazer todas as expressões faciais adequadas — mesmo ao dizer a verdade — estava forçando os limites de sua educação.
— Mostrei isso a um dos meus colegas de trabalho — disse Burke finalmente. - Alguém que é especialista em entender a mente de criminosos. — Ele acha que sua história é genuína ou que você é um mentiroso excepcional. Tendo lido isso de capa a capa… Eu tenho dificuldade de acreditar que alguém possa mentir tão bem. É possível, mas... eu não acho que você seja tão bom assim.
Os pelos da nuca de Draco se arrepiaram.
— Você o mostrou para outra pessoa?
Sem bater, Hermione usou sua chave para entrar no apartamento de Draco.
— O jantar está quase...? — As palavras morreram em seus lábios quando ela notou a visita de Draco. — Boa noite, Auror Burke. Isso é uma surpresa. Você vai se juntar a nós para jantar?
— Não, eu apenas voltei para devolver um livro que peguei emprestado com Malfoy.
Sua voz estava calma e educada.
— Eu reconheço esse livro. Você o achou educativo?
— Bastante.
O alarme do forno apitou e Draco pediu licença para tirar a carne.
— Srta. Granger, não há nada que você gostaria de me dizer enquanto Malfoy está fora da sala?
Hermione mordeu a língua para não dizer algumas das coisas que lhe vieram à mente e tentou mostrar um sorriso agradável.
— Não. Eu realmente não tenho nada a lhe dizer que não diria na frente de Draco. No entanto, eu adoraria ter a oportunidade de compartilhar minhas impressões sobre a reabilitação de Draco com a Suprema Corte de Bruxos e com as pessoas responsáveis pela organização. Afinal, acredito que a reabilitação foi extremamente bem-sucedida. Ele é o caso modelo.
O auror se sentiu um pouco desconfortável sob o olhar dela, mas não conseguiu identificar o porquê.
— Tenho certeza de que a Suprema Corte adoraria ouvir a heroína da guerra. O testemunho de Harry Potter desempenhou um papel considerável na indulgência que Malfoy recebeu em sua sentença.
Quando Draco voltou para a sala, ouviu Hermione dizer:
— Draco fez um trabalho admirável este ano vivendo em um novo mundo. Como alguém que teve que fazer o mesmo em outras circunstâncias, ele tem o meu maior respeito. — Ela se virou para ele e sorriu.
Draco notou a expressão no rosto de Hermione, que dizia que alguém estava com problemas, mas ainda não sabia disso. Ele estava bastante certo de que não era esse alguém e fez o possível para esconder sua pretensão sob o sorriso de um anfitrião gracioso.
— O frango está pronto e eu acabei de colocar a água para o macarrão. Tem certeza de que não quer ficar para o jantar, Auror Burke?
O auror deu suas desculpas e saiu, deixando o livro sobre a mesa. Hermione e Draco esperaram até ouvir o leve estalo do homem desaparatando do outro lado da porta antes de se permitirem rir de alívio, descansando a testa um contra o outro.
Apesar de saber que estava ensolarado lá fora; ao andar pelos terrenos de Azkaban, Hermione desejou ter uma capa. O guarda indicou em qual cela estava o prisioneiro com quem ela queria conversar e lançou-lhe um olhar de desconfiança ao assumir seu posto no final do corredor. Ela olhou para a cela. Havia sangue seco no chão e nas paredes. A estrutura da cama estava destruída, o colchão fino quase em pedaços. Um homem estava sentado encolhido em um canto da cela, abraçando seus joelhos.
— Guarda — ela chamou. Quando o viu se aproximando com varinha em punho, como se esperasse que o ocupante da célula tivesse feito algo com ela, ela acrescentou apressadamente: — Este homem precisa de atenção médica. Há sangue por toda parte.
O guarda ainda estava a alguns metros de distância e zombou, colocando a varinha no coldre.
— É claro que há sangue. Lua cheia na noite anterior. Os lobos se despedaçam, como animais. Não faz sentido dar-lhes roupas de cama novas. Eles simplesmente a destruirão novamente.
Sem ser notado pela visitante ou pelo guarda, o homem no canto da cela levantou a cabeça levemente, os olhos brilhando.
— Ele é uma pessoa, não um animal. Eu não posso acreditar nisso. Por que você não está dando a Poção de Acônito a ele? É uma necessidade médica. E um Curandeiro deveria acompanhar esse homem e outros licântropos. Esse corte no ombro dele parece infectado. Vá e busque um curandeiro agora. — Era isso o que estava acontecendo com os licântropos? A suposição de Arthur Weasley de que eles estavam morrendo por causa das transformações ao serem trancados em uma pequena sala era bobagem pura. Aquela situação era negligência. Negligência médica.
- Não posso deixar você aqui com os prisioneiros. Quem sabe o que pode acontecer? — Ele se mexeu desconfortável. — Além disso, o curandeiro não está presente hoje.
Hermione rangeu os dentes.
— Enviarei ao ministro um relatório completo sobre essas condições. Este homem precisa de um curandeiro, uma cama nova e, no próximo mês, a poção de Acônito. Não lhes dar a poção quando estiverem sob sua custódia é desumano.
— Ele não é humano.
Hermione olhou para o guarda.
— Ele é humano.
Ela revirou sua mente para lembrar qual dos dois licântropos era aquele. Arnold. Arnold era o nome dele. Ela poderia não ter a chance de visitar o outro naquele momento. Ela se agachou perto das barras, mais perto do que a distância recomendada para segurança. — Arnold. Eu não estou aqui para machucá-lo. Eu gostaria de falar com você. Vou garantir que eles tragam um curandeiro. E eu vou garantir que você receba a Poção de Acônito na próxima lua cheia. Você não precisará se machucar assim novamente. Eu gostaria de falar com você.
Ela não podia ter certeza, mas pensou que a cabeça dele poderia ter inclinado um pouco para o lado, como se estivesse ouvindo.
— Senhorita, você terá que sair agora. Claramente, o prisioneiro está perturbado.
— Você não se importa com ele. Eu relatarei isso a seus superiores. Pode ter certeza disso. — Ela olhou para o canto mais distante da cela e prometeu, descansando os dedos nas barras: — Eu voltarei.
Ela se levantou e moveu a mão apenas a tempo de impedir Arnold de agarrá-la. Ela nem o viu se mover, exceto pelo canto do olho. Seus dentes estavam à mostra, e havia comida entre eles. Ela estava fora de seu alcance agora, mas ela o olhou nos olhos enquanto tinha a atenção dele.
— Eu voltarei.
Ela disse isso tanto para Arnold quanto para o guarda. Ela se permitiu ser escoltada de volta para a entrada principal, com uma calma gelada encobrindo sua raiva. Ela havia memorizado o nome do guarda que a escoltara, e fez questão de dizer ao guarda na entrada, ao pegar de volta sua varinha, que o prisioneiro precisava de atenção médica.
Ele pareceu surpreso e impressionado. Talvez eles pudessem conseguir alguém no dia seguinte. Ou no próximo. Ele não achava que fosse uma emergência.
Hermione esperou em silêncio sua Chave de Portal ser acionada. Ela pensou em fazer uma visita ao setor responsável por Azkaban, mas, para ser honesta, não tinha certeza se esse setor seria o Departamento de Execução das Leis Mágicas ou se Azkaban era controlado por algum outro departamento. Ela resistira em usar sua influência após a guerra, em parte porque acreditava no jogo limpo e em parte por causa de sua retirada total da sociedade bruxa. Agora, ela iria à luta. Hermione iria direto ao ministro e não sairia do Ministério até ser ouvida.
Demorou mais de uma hora, mas ela entrou. A secretária de Kingsley ficara nervosa o tempo todo em que Hermione aguardava do lado de fora da sala do Ministro. A garota era ferozmente determinada para alguém tão jovem. Quando se lembrou de que aquela garota tinha sido uma das crianças a derrubar Voldemort... ela estremeceu. Ficou feliz que o Ministro achasse oportuno recebê-la.
No momento em que Hermione deixou o escritório de Shacklebolt, ela estava flamejante. Ele garantira que os curandeiros seriam enviados para Azkaban imediatamente. Ele não pareceu nem um pouco surpreso ao saber que os lobisomens não estavam recebendo a Poção de Acônito – ela era dispendiosa, difícil de ser encontrada e não era clinicamente necessária. Era medicamente necessária e ela mesma forneceria se fosse preciso. Mesmo ele anotando o nome do guarda com quem Hermione estava descontente, ela duvidou de que o homem sofresse sérias repercussões de suas ações daquele dia. Hermione fez questão de dizer-lhe que faria mais visitas a Azkaban. Ela não acusou os guardas de terem assassinado os outros licântropos por negligência, mas deixou claro essa possibilidade.
Draco acabara de chegar do trabalho e considerava o que ele e Hermione poderiam preparar para o jantar quando ela entrou no apartamento. Sorriu.
— Eu estava pensando em você. O que você quer preparar para o jantar?
— Podemos pedir? Eu tive uma tarde infernal. Realmente preciso desabafar. Tem algum vinho?
O loiro arqueou uma sobrancelha.
— Interessada em vinho antes mesmo de me dar um beijo? Deve ter sido um dia ruim. Conte-me sobre isso. — Com um sorriso atrevido, ele atravessou a sala para beijá-la antes de voltar para a cozinha para pegar vinho, taças e os menus de entrega que eles acumularam. — Então, quem inspirou sua ira hoje? Belby? Você não fica irritada com ele há um bom tempo.
Ele encheu a taça dela e a entregou com um sorriso divertido.
— Não foi Belby — disse ela, tomando um gole do vinho. — Hoje foi o dia em que eu fui a Azkaban para me encontrar com os licântropos. Eu desejava convencer qualquer um deles a me dar alguma informação sobre como entrar em contato com o resto deles.
Draco a ouviu atentamente, esfregando círculos na mão de Hermione com o polegar enquanto ela falava, até que chegou à parte de sua visita ao escritório do ministro. Enquanto descrevia as coisas pelas quais Shacklebolt não tinha sequer pestanejado, ela levantou-se do sofá, andando pela sala.
— Respire, amor. As coisas vão melhorar para eles no próximo mês. Eu entendi que você está planejando preparar a poção?
— Com certeza. Embora eu claramente pretenda voltar antes disso. Quero garantir que os curandeiros realmente cuidem dos dois e que suas camas tenham sido substituídas. Imagino que a cela de Doug seja tão ruim quanto a de Arnold, embora eu não a tenha visto. Não sei se existe uma lei contra isso no mundo bruxo, mas no mundo trouxa... alguém é responsabilizado quando homens e mulheres morrem por negligência.
Sua garganta se fechou um pouco, ela respirava superficialmente, com raiva.
Draco ficou muito quieto.
— Hermione? Sei que é pedir muito, mas... quando você voltar para checá-los... você poderia verificar meu pai? Só para ter certeza...?
A raiva desapareceu de Hermione e de repente ela se sentiu exausta, deixando-se cair no sofá ao lado de Draco e abraçando-o.
— Claro que eu vou.
Os dois ficaram sentados juntos no sofá em silêncio, confortando-se por estarem próximos um do outro. Finalmente, Hermione disse:
— Eu irei amanhã e todos os dias até perceber melhorias. Irei incomodar o Ministério.
Ele a beijou na têmpora.
— Excelente. Agora, vamos incomodar um desses estabelecimentos — ele disse, aliviando o clima.
Hermione riu, examinando os menus: comida chinesa, indiana, peixe e fritas... Eles encontrariam algo para comer.
